29 de junho de 2011

Escuta Inocente...


"Todo o corpo ouve. Está completamente fora da relação sujeito-objeto.

O escutar acontece, mas nada é ouvido e ninguém escuta. E como a escuta incondicionada é nossa real natureza, conhecemos a nós mesmo na escuta.

Mas raramente escutamos de verdade. Nós vivemos mais ou menos continuamente no processo de devenir. Projetamos uma imagem de ser alguém e nos identificamos com ela. E, enquanto nos tomamos por uma entidade independente, há uma fome contínua, um sentimento de incompletude.

O ego está constantemente buscando satisfação e segurança, daí sua perpétua necessidade de ser, de realizar, de alcançar. Desta forma, nós nunca contatamos a vida realmente, pois isto requer abertura de momento a momento.

Nesta abertura, a agitação estimulada pela tentativa de saciar uma ausência em você mesmo chega ao fim e, na quietude que fica, você é direcionado de volta para sua integridade.

Sem uma auto-imagem você é realmente um com a vida e com o movimento da inteligência. Apenas então nós podemos falar de ação espontânea.

Todos conhecemos momentos quando a pura inteligência, livre da interferência psicológica, surge, mas logo que retornamos a uma imagem de ser alguém, questionamos esta intuição perguntando se ela é certa ou errada, boa ou má para nós, e assim sucessivamente.

O quer que façamos intencionalmente pertence ao “ego-eu” e, embora apareça como ação, é realmente re-ação. Apenas o que surge espontaneamente do silêncio é ação e não deixa nenhum resíduo. Você nem sequer pode recordá-la. A ação intencional do “ego-eu” sempre deixa um resíduo que emergirá talvez no estado de sonho ou mesmo como uma fixação que podemos mais tarda chamar enfermidade.

Há apenas Consciência livre da agitação e da memória e, nesta quietude, todas as ações são espontâneas, pois cada situação pertence a sua abertura, e ela mesma lhe diz exatamente como proceder.
Na espontaneidade a ação ocorre, mas ninguém atua. Não há nenhuma estratégia, nenhuma preparação.

A ação real não surge do raciocínio, mas da observação receptiva. Por exemplo, quando você vê uma criança pequena atravessando a rua, você não pára e pensa, “Devo gritar pedindo ajuda ou devo ir e pegá-la, ou devo deixar que vá só?” Você age. Mesmo que você tenha realizado vinte vezes esta ação, é nova a cada vez. Pertence absolutamente ao momento.

Uma experiência é sempre referida a alguém, a um eu. É compreendida por referência ao passado, à memória, ao que conhecemos bem. Porém ela tem um sujeito, alguém que experimenta, e um objeto, algo experimentado. Mas o que somos fundamentalmente nunca pode ser experimentado, nunca pode participar da relação sujeito-objeto; por isto devemos abandonar todo o desejo de experiência.

O que então significa familiarizar-se mais consigo mesmo? Significa conhecer melhor o que você não é, sobre seu corpo, seus sentidos, suas emoções, sua mente. Este é um movimento diametralmente oposto à tentativa de agarrar-se ao conhecimento.

Ele deve vir a si mesmo. Portanto você deve escutar seu corpo, seus sentidos, sua mente, e é uma escuta que exige o abandono de tudo que acredita saber, todo condicionamento, todo esquema.

Quando permanecemos nesta escuta, as percepções afloram do que a psicologia chamaria de subconsciente e superconsciente. Mas não ponha ênfase nas percepções porque acentuar o percebido o ata à relação sujeito-objeto.

Primeiro, o interesse está no que percebe e, mais tarde, você perceberá que o que se enfatiza é a própria escuta, até que finalmente se dá conta que você mesmo está nesta escuta.

A escuta é a tela sobre a qual tudo aparece. É quietude. Seu corpo, seus sentidos, sua mente e todos os estados vêm e vão, mas você é essa presença atemporal.

A idéia de que haja alguma coisa a alcançar está profundamente enraizada, por isso continuamos vivendo no processo de vir a ser, projetando energia para adquirir ou conservar algo.

Mas a escuta inocente aprofunda a convicção de que não há realmente nada a ganhar ou a perder e os condicionamentos se desvanecem na mente, a agitação desaparece e apenas a quietude permanece.

Você é então como o pescador que não controla o peixe nem a água. Limite-se a observar e você terminará por sentir que tudo está contido nesse olhar, nesse silêncio, que nada existe separado disso.
Nesse momento, você está no umbral de seu ser real e nenhum desejo pode vir a interferir. Você é tomado pelo próprio Ser."
Jean Klein em A Simplicidade de Ser

2 comentários:

  1. Que energia nessas palavras!
    quanto toque para viver na presença, o único momento que existe. e confronta com os desejos do ego. confronta não... ela simplesmente é, e nova a cada momento!

    ResponderExcluir
  2. Perfeito Rômulo!! Legal, como com essa consciência a "morte" está acontecendo junto com o "nascimento"... Morremos momento a momento para o que não é mais, e estamos nascendo momento a momento para simplesmente aquilo que é agora... :) Namaste!

    ResponderExcluir

Related Posts with Thumbnails