31 de março de 2018

Sobre a solidão - Pëma Chödrön


"Normalmente vemos a solidão como um inimigo. A melancolia não é algo que escolhemos convidar. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém que nos faça companhia. Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com a solidão, uma solidão relaxante e refrescante que transforma radicalmente nossos amedrontados padrões habituais.

Não há ponto de referência no caminho do meio. A mente, sem ponto de referência, não se define, não se fixa, não se agarra. Como é possível não ter um ponto de referência? Isso seria mudar uma resposta arraigada e habitual diante do mundo: querer que as coisas funcionem bem, de um jeito ou de outro. Se não podemos virar nem para esquerda nem para a direita, achamos que vamos morrer! Quando não escolhemos uma direção, temos a sensação de estar em uma clínica de desintoxicação. Sentimos a angústia da abstinência, com toda a irritação que temos tentado evitar por meio de nosso padrão habitual. Esse sentimento pode ser bastante penoso.

No entanto, anos e anos de virar para um lado ou para o outro, de escolher sim ou não, de dizer certo ou errado nunca mudaram, de fato, coisa alguma. Lutar por segurança nunca trouxe nada além de alegria momentânea. Assemelha-se a mudar de posição das pernas durante a meditação. Nossas pernas cruzadas começam a doer e nós as movemos. Então, pensamos: “Puxa! Que alívio!”. Ficamos girando, procurando prazer, procurando conforto, e a satisfação que conseguimos tem vida curta.

Ouvimos muito falar sobre a dor do samsara e também sobre libertação. Mas não se fala muito sobre quanto é doloroso sair do aprisionamento para a liberdade. Esse processo exige enorme coragem, já que, basicamente, estamos mudando totalmente nossa percepção da realidade – algo como mudar nosso DNA. Estamos desfazendo um padrão que não é apenas nosso, mas de toda a humanidade: projetamos sobre o mundo um trilhão de possibilidades para alcançar a solução. Queremos ter dentes mais brancos, um gramado sem ervas daninhas, uma vida sem antagonismo, um mundo sem confusão. Queremos viver felizes para sempre. Esse padrão nos mantém insatisfeitos e nos causa muito sofrimento.

Nosso direito inato: O Caminho do Meio

Como seres humanos, não apenas buscamos uma solução – achamos que a merecemos. Entretanto, não apenas não merecemos uma solução – sofremos por causa dela. Na verdade, temos direito a algo melhor, àquilo que é nosso direito inato, ao caminho do meio – um estado mental aberto onde é possível relaxar no paradoxo e na ambiguidade. Na medida em que estamos evitando a incerteza vamos, naturalmente, sentir os sintomas da privação – de deixar de pensar que existe um problema e alguém, em algum lugar, precisa resolvê-lo.

O caminho do meio é muito aberto, mas não é fácil caminhar por ele, pois vai contra a textura de um antigo padrão neurótico que todos nós compartilhamos. Quando nos sentimos sozinhos, quando estamos desesperados, sentimos necessidade de virar para a esquerda ou para a direita. Não desejamos sentar e experimentar o que estamos sentindo. Não queremos passar pela desintoxicação. Mas é exatamente isso que o caminho do meio nos encoraja a fazer. Ele nos estimula a despertar a coragem que existe em cada um de nós, sem exceção, o que existe em mim e em você.

A meditação nos fornece um método para treinarmos no caminho do meio – para estarmos exatamente ali, naquele lugar. Na verdade, somos encorajados a nem mesmo agarrar qualquer coisa que surja em nossa mente. Reconhecemos simplesmente como “pensando” aquilo que chamamos de bem ou mal, sem todo o drama habitual que acompanha o certo e o errado. Somos instruídos a permitir que os pensamentos venham e se dissolvam, como se estivéssemos tocando em uma bolha com uma pena. Essa disciplina direta nos leva a parar de lutar e a descobrir uma disposição nova e imparcial.

Quando experimentamos determinados sentimentos podemos perceber como eles são especialmente férteis e cheios de expectativa de solução: solidão, tédio, ansiedade. Não é fácil permanecer no caminho do meio quando os estamos sentindo e isso só será possível se pudermos relaxar nesses sentimentos. Queremos vitória ou derrota, elogios ou culpa. Quando alguém nos abandona, por exemplo, não queremos permanecer com esse penoso mal-estar. Em vez disso, evocamos mentalmente nossa bem conhecida identidade de vítima infeliz. Talvez tentemos evitar a rudeza da situação dissimulando e, cheios de razão, dizendo a essa pessoa o quanto ela é confusa. Automaticamente, desejamos encobrir a dor, de uma forma ou de outra, por meio da identificação com o vitorioso ou com a vítima.

Normalmente vemos a solidão como um inimigo. A melancolia não é algo que escolhemos convidar. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém que nos faça companhia. Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com a solidão, uma solidão refrescante que transforma radicalmente nossos amedrontados padrões habituais.

Existem seis atitudes para descrever esse tipo de solidão refrescante: desejar menos, contentar-se, evitar a atividade desnecessária, ter total disciplina, não vagar pelo mundo do desejo e não buscar segurança no mundo dos pensamentos discursivos.

Desejar menos

Desejar menos é a disposição para estar solitário sem buscar uma solução, quando tudo em nós anseia por algo que nos anime e mude nosso estado de espírito. Praticar esse tipo de solidão é uma forma de espalhar sementes para que a inquietação fundamental diminua. Na meditação, por exemplo, cada vez que rotulamos “pensando”, em vez de ficar interminavelmente às voltas como nossos próprios pensamentos, estamos apenas treinando estar exatamente ali, sem dissociação. Não conseguimos fazer isso agora, na medida em que estávamos dispostos a fazê-lo ontem, anteontem, na semana passada ou no ano passado. Mas, após praticarmos o desejar menos com perspicácia e coerência, alguma coisa muda. Temos menos desejo, no sentido de sermos menos solidamente seduzidos por nossa História Importantíssima. Assim, o caminho do guerreiro consiste em, diante da intensa solidão, conseguir sentar com essa inquietação durante 1,6 segundo, enquanto que, no dia anterior, era impossível estar com ela durante um único segundo. Esse é o caminho da coragem. Quanto menos nos dispersamos e enlouquecemos, mais saboreamos a satisfação da solidão refrescante. Como dizia frequentemente Katagiri Roshi, mestre Zen: “É possível ser solitário e não se sentir devastado por isso”.

Contentamento

Contentar-se é o segundo tipo de solidão. Quando não temos nada, não temos nada a perder. Nada temos a perder, a não ser nosso forte condicionamento para achar que temos muito a perder. Essa sensação tem suas raízes no medo – medo da solidão, da mudança, de tudo que não pode ser solucionado, da não existência. A esperança de evitar esses sentimentos e o medo de não consegui-lo tornam-se nossos pontos de referência.

Se desenharmos uma linha vertical no centro de uma página, saberemos quem somos se estivermos do lado direito ou do lado esquerdo. Mas ficamos sem saber quem somos quando não nos posicionamos em nenhum dos lados. Então, simplesmente não sabemos o que fazer. Simplesmente não sabemos. Não temos um ponto de referência, uma mão para segurar. Nesse momento, podemos nos apavorar ou nos aquietar. Contentamento é sinônimo de solidão, de solidão tranquila, de acomodar-se na solidão refrescante. Desistir de acreditar que somos capazes de fugir de nossa solidão. E que isso não vai nos trazer algum tipo de felicidade, alegria, bem estar, coragem ou força duradouras. Normalmente, precisamos desistir dessa crença um bilhão de vezes, mais uma vez fazendo amizade com nossos sobressaltos e medos, repetindo a mesma coisa milhões de vezes, conscientemente. Então, sem que saibamos como, alguma coisa começa a mudar. Podemos ser simplesmente solitários, sem alternativas, satisfeitos por estarmos exatamente ali, na qualidade e textura do que está acontecendo.

Evitar atividades desnecessárias

Evitar a atividade desnecessária é o terceiro tipo de solidão. Quando estamos solitários de um modo “intenso”, procuramos algo que nos salve, procuramos uma saída. Temos esse desagradável sentimento que chamamos de solidão e nossa mente simplesmente se descontrola, tentando encontrar alguma companhia que nos livre do desespero. Essa é a chamada atividade desnecessária – uma maneira de nos mantermos ocupados para não termos de sentir nenhuma dor. Esse processo pode assumir a forma de fantasiar obsessivamente o amor verdadeiro, de espalhar uma ótima fofoca aos quatro ventos, ou ainda de fugir sozinho para o deserto. A questão é que, com todas essas atividades, estamos buscando companhia de nosso modo costumeiro e habitual, usando as mesmas velhas e repetitivas fórmulas para afastar o demônio da solidão. Não poderíamos apenas nos aquietar e mostrar algum respeito e compaixão diante de nós mesmos? Que tal praticar deixar de sobressaltar-se e agarrar-se a algo no momento em que começamos a entrar em pânico? Relaxar na solidão é uma atividade que vale a pena. Como diz o poeta japonês Ryokan: “Se quiser encontrar o sentido, pare de correr atrás de tantas coisas”.

Completa disciplina

Outro componente da solidão refrescante é a disciplina total, que se relaciona com estarmos dispostos a voltar a cada momento, a simplesmente voltar com suavidade para o momento presente. Essa é a solidão como disciplina total. Estamos dispostos a sentar quietos, apenas estando ali, sozinhos. Não precisamos cultivar especificamente esse tipo de solidão; podemos apenas sentar quietos o bastante para perceber como as coisas realmente são. Somos fundamentalmente sós, e não há nada, em lugar algum, em que possamos nos agarrar. Além do mais, isso não é um problema. Na verdade, isso nos permite finalmente descobrir uma maneira de ser totalmente desconstruída. Nossas premissas habituais – todos os nossos conceitos sobre como as coisas são – impedem-nos de ter uma visão nova e aberta. Dizemos: “Sim, eu sei”. Mas não sabemos. Em última análise, não sabemos nada. Não existe certeza sobre coisa alguma. Essa verdade fundamental causa dor e queremos fugir dela. Entretanto voltar para algo tão familiar quanto a solidão e relaxar nela representa um bom exercício para perceber a profundidade das situações mal resolvidas de nossa vida. Estamos nos enganando quando fugimos da ambiguidade da solidão.

Não vagar pelo mundo do desejo

Não vagar pelo mundo do desejo é outra maneira de descrever a solidão refrescante. Vagar pelo mundo do desejo envolve procurar alternativas, buscar algo que nos conforte – comida, bebidas, pessoas. A palavra desejo inclui aquela qualidade de vício que já mencionamos, nossa tendência a nos apegarmos a algo porque queremos encontrar uma maneira de deixar tudo bem. Isso decorre de nunca termos crescido. Ainda queremos ir pra casa, abrir a geladeira e encontrá-la cheia de nossas guloseimas favoritas. Quando a situação fica difícil, queremos gritar: “Mamãe!”. À medida que continuamos no caminho, porém, deixamos nossa casa e nos tornamos desabrigados. Não vagar pelo mundo do desejo tem a ver com relacionar-se diretamente com as situações, do modo como são. A solidão não é um problema. Não é algo que precisa ser resolvido, e o mesmo é verdadeiro para qualquer outra experiência que possamos ter.

Não buscar segurança nos pensamentos discursivos

Não buscar segurança nos pensamentos discursivos é outro aspecto da solidão refrescante. Puxaram nosso tapete, a festa acabou, desta vez não temos saída! Não buscamos nem mesmo a companhia de nossa constante conversa interior sobre como as coisas são ou não são, sobre se são ou não são, sobre como deveriam ou não deveriam ser, como poderiam ou não poderiam ser. Na solidão refrescante, não esperamos que nossa tagarelice interior nos traga segurança. Essa é a razão pela qual somos instruídos a rotulá-la “pensando”. Ela não possui realidade objetiva. Somos encorajados a apenas tocar essa tagarelice e a permitir que se vá, sem fazer muito barulho por nada.

A solidão refrescante nos permite olhar honestamente e sem agressão para nossa própria mente. Gradualmente, podemos deixar de lado nossos ideais sobre quem achamos que deveríamos ser, quem achamos que queríamos ser, ou o que achamos que os outros acham que seríamos ou deveríamos ser. Desistimos e apenas olhamos diretamente, com humor e compaixão, para aquilo que somos. Então, a solidão não representa mais ameaça e a melancolia deixa de ser punição.

A solidão refrescante não nos fornece soluções e não nos dá um apoio. Ela nos desafia a entrar em um mundo onde não existe ponto de referência, sem polarizá-lo e sem cristalizá-lo. Esse processo é chamado caminho do meio ou a trilha sagrada do guerreiro.

Você saberia aproveitar essa oportunidade de ouro, quando acordar pela manhã e, de repente, começar o sofrimento da alienação e solidão? Em vez de se atormentar ou sentir que algo terrivelmente errado está acontecendo, exatamente ali, no momento da tristeza e da saudade, poderia relaxar e tocar o espaço ilimitado do coração humano? Experimente da próxima vez em que tiver essa oportunidade."

Pëma Chödrön em “Quando tudo se desfaz” 

24 de março de 2018

A prática da Gratidão - Monja Isshin


"Talvez o exercício mais profundo no Budismo seja a prática de Gratidão. Imagine passar um dia inteiro agradecendo cada pessoa que encontra e cada acontecimento! Obrigada, obrigada, obrigada. Saio da cama e vejo que está chovendo lá fora – obrigada. Encontro o meu marido, sonolento, com a barba por fazer – obrigada. Preparo o café da manhã – obrigada. Como o pão de cada dia – obrigada. Entro no carro e dou partida no motor – obrigada. Um motorista apressado me fecha no trânsito – obrigada.

O quê? Vou agradecer o cara que me fecha no trânsito, quase causando um acidente???

Sim! Vou agradecer! Talvez na hora nem consiga imaginar um motivo para ter gratidão – simplesmente vou fazer a minha prática de agradecer todas as pessoas e todos os acontecimentos.

Lembro me de quando iniciei a prática de Aikidô. No final das aulas, havia um exercício chamado “jiu-waza”, onde, um por um, os alunos tentam atacar o mestre e recebem as técnicas de defesa. O nosso professor honrava até os mais novos principiantes com a oportunidade de passar por este treinamento. No meu primeiro dia de aula, confesso que fiquei paralizada. Faltou coragem e não fui. No segundo dia, jurei para mim mesma que iria, custasse o que custasse – e fui. No final do exercício, tinha que fazer uma reverência e agradecer – em japonês – “arigatô gozaimashita”. Gente, que prática maravilhosa!

Entortava a língua com aquelas palavras estranhas que mal conseguia lembrar. E, de tanto medo que tive – medo de me entregar, de aceitar que alguém me jogasse ao chão, que me aremessasse para longe – gente, alguém vai achar que, no início, eu encontrava qualquer espírito de gratidão? É claro que não! Mas, o exercício era justamente isto – fazer uma reverência e agradecer. Dentes cerrados, entortava a língua e forçava aquelas palavras a saírem da minha boca. E aí que começou a operar-se um milagre!

Mesmo forçando o agradecimento, o simples ato de agradecer abria o meu coração, pouco-a-pouco. Até o meu subconsciente começou a ficar curioso para entender o que havia lá para agradecer, pois, inicialmente, só percebia o medo de ser machucado. Esta curiosidade me ajudou a observar melhor os outros colegas, quando iam para o “jiu-waza” – e perceber o prazer deles. Aos poucos, agradecendo cada exercício, comecei a perceber que o agradecimento vinha menos forçado. Começou a sair com facilidade. O “jiu-waza” em si começou a se tornar divertido! Aos poucos, o agradecimento começou a ser a partir do coração. Tinha descoberto o que havia ali para agradecer – e agradecia mesmo, do fundo do coração! Até hoje, sinto uma profunda gratidão por tudo que aprendi do meu mestre de Aikidô, tudo que aprendi com a prática de Aikidô.

Então, se, inicialmente, alguns de nossos agradecimentos possam sair forçados, a contra-gosto, mesmo assim, a Prática de Gratidão vai operar os seus milagres. Agradecendo, começamos a perceber mais e mais coisas a agradecer. Agradecendo, o coração se abre. Agradecendo, começamos a perceber o quanto temos para agradecer. Começamos a descobrir que até as situações difíceis têm um lado positivo a ser agradecido.

O motorista que me dá uma fechada no trânsito me dá uma oportunidade de treinar os meus reflexos e habilidade como motorista, também me dá uma oportunidade de treinar a minha compaixão com o exercício de me identificar com ele e com a pressa que o levou a me fechar. Oferece uma oportunidade de agradecer o Universo, o Sagrado, por ter me protegido, pelo fato de que houve um canto para eu encostar para escapar da fechada. Uma oportunidade de agradecer pelo fato que não aconteceu nada grave, de agradecer pela vida que tenho. De agradecer que tudo correu de tal forma que eu pudesse praticar a Generosidade e dar espaço para uma pessoa que, por algum motivo, estava com muito mais pressa do que eu.

A Prática de Gratidão faz parte da abertura do Coração de Compaixão. Mas, não é por isso que vamos nos fazer de capacho e deixar um agressor impune. É uma diferença de atitude, de postura interna que estamos desenvolvendo, mesmo que, às vezes, ações firmes se tornem necessárias. Mas podemos ter gratidão e compaixão até por um agressor – mesmo mandando ele preso, por exemplo – pois temos a oportunidade de nos fortalecer, enfrentando dificuldades. Lembro dos relatos dos monges tibetanos, exercitando o seu poder de compaixão enquanto passavam por torturas nas mãos dos chineses.

Não temos como negar que as pessoas que cultivam o Coração de Compaixão e a Gratidão são as pessoas mais felizes no mundo. Essa sabedoria milenar finalmente vem sendo provada cientificamente.

Como diz a Dhammapada: “Ódios nunca cessam pelo ódio nesse mundo; através somente do não-ódio eles cessam. Essa é uma lei eterna.”

Não é pela raiva que cessa a raiva – é somente pela não-raiva que a raiva cessa. E a Gratidão é um grande remédio para a “raiva” e “ódio” – uma grande parte da prática da “não-raiva”, do “não-ódio”.

Imagine passar não somente um dia inteiro agradecendo todas as pessoas e acontecimentos – imagine passar uma vida inteira agradecendo – banhando-se constantemente da energia da Gratidão e da Alegria de Viver! Um dia atrás de outro. Convido você a experimentar isto!

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o caminho iluminado."
Gassho

Monja Isshin Havens - Missionária Soto Zen Japão

17 de março de 2018

Vê a Si mesmo - Sidharamerwar Maharaj


"Após muitos dias descobri o meu Ser. 
Eu não sou limitado com qualidades, estou além das qualidades. Depois de muitos dias esse encontro de mim comigo mesmo aconteceu. Até então ele achava que ele era apenas um Jiva e estava feliz naquela ignorância, mas agora ele reconheceu a Si mesmo.

Da mesma maneira que o oleiro estava obcecado com a ideia de que ele era um asno, esse Jiva estava entregando-se a uma ilusão parecida. As pessoas dão tudo ao corpo apenas, mas dizem que ‘eu comi’, ‘eu fiz isso’. De certa forma o Jiva estava invejando e desejando algo que era de outra pessoa.

Esse é um tipo de libertinagem, favorecer-se excessivamente daquilo que não é seu. Dizer que o dinheiro de outra pessoa é o nosso dinheiro, que a religião de outra pessoa é a nossa religião e agir de acordo com isso é uma libertinagem. Aquele que diz que as coisas do outro são suas é um pecador. Aquele que estava agindo dessa maneira e assumindo os deveres de outra pessoa, encontrou a Si mesmo depois de muitos e muitos dias. Aquele que até então estava dizendo ‘eu’, provou que isso era uma afirmação falsa.

Quando a Verdadeira Natureza do Ser é reconhecida, experimentamos que toda a felicidade do mundo é a nossa felicidade. Assim que o véu da dualidade é removido todos os pronomes da gramática, tal como: eu, você, eles, ela, etc. acabam. A dualidade que cria essas diferenças acaba completamente, então tudo se torna aquela Vastidão. 
O ‘Grande Reservatório do Conhecimento’ foi aberto. Aquele que é o servo aos pés do Sadguru descobre que esse mundo todo está preenchido com seu próprio Ser, ou Soham, ‘eu sou Ele’. Enquanto que para o homem que não é devoto do Guru este mundo aparece como ‘quem sou eu?’

Foi perguntado para um homem: ‘como é esta cidade?’ Ele disse: ‘esta cidade é como a sua língua’. Qual é o verdadeiro sabor da própria língua? Para aquele que é Brahman, o mundo todo é apenas Brahman. Se você é bom, este mundo é bom. Em outras palavras, o mundo aparece de acordo com o seu próprio ponto de vista, seu conceito. Apenas aquele que vê que este mundo é Brahman é ele mesmo Brahman.

E homem de conhecimento, o Jnani, que vê a Si mesmo como Ele realmente é. Este mundo revela sua ‘Realidade’ apenas para o Jnani. Enquanto que ele mostra todas as suas várias formas para o ignorante. Este mundo parece ser cheio de variedade para aqueles que não são devotos. E ele é um, para o devoto do Sadguru. De fato, a pessoa que é ignorante tem dois olhos. de forma que eles mostram a dualidade. 
Este mundo é chamado de dunya, que significa dois. Aquele que é ignorante verá apenas dualidade. A ignorância é nascida do dois.

Ao filho do Guru foi dado um olho e ambos os olhos antigos, os olhos que viam a dualidade, foram removidos. Isso porque o que eles mostram é falso. Assim como os olhos duais são falsos, o mundo que é visto por eles também é falso. Ao discípulo do Sadguru foi dado um olho e sendo ele apenas um, ele vê apenas um sem um segundo. O véu da dualidade foi removido. O véu da ilusão foi rasgado, o sentido de unidade surgiu e toda divisão foi embora.

Anteriormente você estava iludido, agora que o desengano se foi junto com esse sentido de se estar separado, a unidade foi provada. Os cinco elementos se foram, os planetas se foram e os pregadores da ilusão foram arrancados de seu palanque.

Uma única combinação planetária (a unidade com o conhecimento) está no destino de todos. Aquela constelação não muda e o seu proprietário não muda. Todos os planetas, juntamente com suas influências agora terminaram e as três qualidades (raja, tamas e satva) se foram junto com os seis inimigos (a raiva, a luxúria, a ganância, o desejo, o anseio e o orgulho). 

Os deuses Vishnu, Brahma e Shiva todos foram para seus respectivos lugares e apenas Paramatman permanece. Acabou a obsessão com os cinco elementos. O trânsito de Saturno e a fase dos sete anos e meio de infortúnio que estava associada com ele também terminou. 

O Jiva que era perturbado pelos cinco fantasmas dos elementos dissolveu-se. Apenas o Deus eterno, que jamais muda, permanece. Originalmente, Ele era puro e imaculado e através da discriminação Ele reconquistou sua Pureza. Ao existir entre os homens Deus pensou ser ele mesmo um ser humano e na ilusão ele estava chamando a Si mesmo de ‘eu’.

Hanuman pensava que era um macaco antes de se encontrar com Rama. Quando ele encontrou Sadguru, Rama, ele se tornou um com Rama tanto dentro quanto fora. Ele quebrou a guirlanda de joias para ver se Rama estava dentro dela. Depois ele rasgou seu peito para provar para Sita que Rama morava dentro dele. 
Naquele momento Rama disse: 'meu querido, porque você rasgou o seu peito? e não são essas joias também um com Rama?'

O que que existe que não contém Rama? Quando os dois olhos são oferecidos ao Sadguru, o qual é Rama, a pessoa obtém o 'olho uno', esse é o 'olho do conhecimento'. Rama, que está permeando todas as coisas, é visível apenas para esse terceiro olho. Aquele que estava sentindo 'do que era seu', ganhou isso de volta.

Somos os Reis e somos os servos, somos o Deus e os adoradores, somos a terra os rios. Ele tornou-se tudo Ele mesmo, e então obtém o que é seu Seu. 

O nascimento e a morte foram dissolvidos. Rama falou para Hanuman: 'você é eterno'.
Agora o Sadguru, que a Rama, diz: 'todos vocês macacos, vocês são Hanuman. Portanto, sejam Hanuman.’ Isso significa que vocês deveriam assassinar o ego. A palavra 'Hana' significa assassinar ou sacrificar, a palavra ‘maan’ significa orgulho ou o ego. 
Apenas quando o ego é sacrificado o homem se torna Hanuman. Estou falando para todos vocês serem Brahman. 
Acabado está o nascimento e a morte para aquele que vê a Si mesmo."
- Sidharamerwar Maharaj

10 de março de 2018

O "eu" e "aquilo" - Osho


"O eu supremo é formado pela palavra "aquilo", 
que tem maya, ilusão por disfarce; que é a fonte do mundo, investida de onisciência, 
onipresença e todo o resto; que se mistura com o indireto e é, em si, realidade.
Aquilo que faz as vezes de abrigo para a experiência do eu e da palavra "eu", 
e cujo conhecimento de seu próprio ser interior é falso, chama-se "tu" - tvan.
O supremo tem maya, ou ilusão, por disfarce; 
e o eu tem, por disfarce, a ignorância.
Quando nos livramos delas, só o eu supremo permanece, indivisível: 
sat chit anand, existência, consciência e bem-aventurança."
~Adhyatma Upanishad~

Os Upanishads não acreditam num Deus pessoal. Nem em relações pessoais com o divino; Acham que a relação pessoal é impossível, inconcebível. Por quê? Porque a própria personalidade é ilusória.
procure entender bem isso.
Sou uma pessoa. Isso quer dizer que estou separado da existência; personalidade significa separação. Não posso ser uma pessoa se não for definido, não posso ser uma pessoa se não for diferente, não posso ser uma pessoa se não estiver separado. A personalidade existe como uma ilha; definida, demarcada, diferente, separada. Os Upanishads sustentam que as personalidades são falsas: apenas parecemos ser pessoas, mas não somos.

O ser interior é impessoal; não tem limites, não tem fronteiras. Começa em lugar nenhum e acaba em nenhum lugar. Estende-se ao infinito: é infinito e eterno. Tanto no tempo quanto no espaço, é indefinido, indiferenciado. Não é separado como uma ilha.

A palavra personalidade é muito bonita; não temos equivalentes tão bonitos para ela em sânscrito ou hindi. Ela vem do termo latino, persona, que significa "máscara". Persona é simplesmente máscara. Os atores a usavam para representar ou simular um rosto numa peça teatral. O termo na origem, significa máscara, rosto artificial. Assim, se numa peça você estiver fazendo o papel de Rama, usará um rosto falso para dar a impressão de que é mesmo Rama. Mas por dentro, você não é Rama, só a máscara é de Rama, A palavra personalidade vem de persona.

Todos temos personalidades, que não passa de uma máscara. Dentro, não há nenhuma pessoa, apenas energia eterna, infinita. Por fora, temos um rosto. Esse rosto não somos nós, esse rosto se parece com qualquer máscara de um drama qualquer. O mundo é um grande drama e você tem de representar inúmeros papéis - por isso, um rosto só não basta. O drama é muito longo, muito amplo, multidimensional; por isso, todos possuímos vários rostos. Você não é uma pessoa, você são várias pessoas juntas.
Quando você conversa com um amigo, tem um rosto diferente; não é a mesma pessoa. Quando você se depara com um inimigo, tem outro rosto; esse rosto não é o mesmo; Está com a criatura amada? Mais um rosto. (...) Você conversa com seu funcionário, repare em seu rosto no espelho. Você conversa com seu patrão, outro rosto. O homem tem muitos rostos e precisa ter, pois a cada momento precisa de um diferente. Quanto mais civilizado for, mais rostos terá; quanto mais civilizado e culto for, com mais facilidade trocará de rosto rapidamente. Na verdade, você nem percebe que troca de rosto; o processo se tornou automático.

Portanto, personalidade não é o correto, mas sim personalidades. Cada pessoa são muitas pessoas - uma multidão interior e vários rostos que mudam de momento a momento. Mas somos nossos rostos?
No Japão, sempre que um interessado procura um mestre zen, este lhe diz: "Medite. Este é o objeto que lhe dou para meditar: descubra o seu rosto original. Descubra como era antes de nascer ou como será depois de morrer. Encontre seu rosto original - o seu, não o que existe para os outros."
Todos os nossos rostos são para os outros. Você tem um só eu? Não pode ter, pois rostos existem basicamente para os outros. Você não precisa deles para si, não há essa necessidade. Você não tem rosto. De fato, o rosto original não tem rosto. Você não tem um rosto interior  - todos os rostos são exteriores, existem para os outros, são feitos para os outros.

Os Upanishads dizem que, por dentro somos impessoais - somos vida, não pessoas; somos energia, não pessoas; somos vitalidade, não pessoas; somos existência, não pessoas. Então, como estabelecer uma relação com o divino? Como criar um vínculo com a fonte original de vida? Se não temos rosto, como poderia tê-lo o divino?  O divino não tem rosto. Não tem e não precisa ter. Ele é existência pura, sem corpo e sem rosto. Portanto, não podemos nos relacionar com ele pessoalmente.

As religiões falam em termos de relação pessoal. Algumas chama Deus de pai, mãe, filho, irmão ou seja lá o que for; isto é, pensam em termos de relação, de entidades, relacionadas. Adoram atitudes antropocêntricas. O pai é uma relação humana; irmão e irmã, são relações humanas. Quando pensamos em termos de relação com o divino, erramos o alvo, porque o divino não é uma pessoa e o relacionamento pessoal não é possível. Por isso, os Upanishads nunca chamam Deus de pai, nunca chamam Deus de mãe, nem de amante, nem de amado. Chamam-no simplesmente de "aquilo" - tat
O termo tat é fundamental no ensino e na filosofia upanishádica. Quando dizemos "aquilo" não pressupomos nenhum sentido de personalidade. Quando chamamos a existência de "aquilo" não levamos em conta a possibilidade de nos relacionarmos com ela - essa possibilidade não existe. Como poderíamos nos relacionar com "aquilo"? Ninguém pode se relacionar com "aquilo".
O que significa isso? Que, em última instância, não podemos nos relacionar com o divino? Não, mas mostra que nossa relação com o divino tem de ser muito diferente - uma relação não humana e, mesmo, o contrário de uma relação humana.
Numa relação de alguém com um marido, esposa, irmão, irmã, pai ou filho, duas pessoas são necessárias. Uma relação só pode existir entre dois pontos, entre dois objetos relacionados. É assim que uma relação humana existe: entre duas pessoas. Ela é um fluxo, uma ponte entre ambas. A relação humana é dual; dois pontos são necessários para que ela se estabeleça.
Entretanto, com "aquilo" - existência pura, o divino ou Deus - não podemos nos relacionar de maneira dual. Essa relação só é possível quando nos tornamos um. Você só pode se relacionar depois de deixar de existir. Enquanto continuar existindo, não haverá relação. Se você existe, está relacionado; mas então a própria palavra se torna absurda porque uma relação sempre pressupõe duas coisas. Como conceber uma relação em que só uma coisa existe?

Isso é o contrário de uma relação. Chamar o divino de "aquilo" acarreta várias consequências, várias implicações. Para começar não podemos nos relacionar com o divino no sentido comum de relação. Quando nos tornamos um, relacionamo-nos num sentido extraordinário, absurdo. Em segundo lugar, não podemos cultuar o "aquilo", é impossível.

Os Upanishads não preceituam cultos nem preces. Não. Aqui, convém entender bem a diferença entre prece e meditação. Os Upanishads ensinam meditação, não prece. A prece é sempre pessoal, um diálogo entre a pessoa e o divino. Mas como dialogar com o "aquilo"? Impossível - a pessoa precisa estar presente, do contrário não pode haver diálogo.

Um dos maiores filósofos judeus contemporâneos, Martin Buber, escreveu um livro chamado I and Thou. O pensamento judaico é dualista, ao contrário do upanishádico. Buber diz: " Eu e Tu - eis o relacionamento básico entre o homem e o homem, mas também entre o homem e o divino. De fato, esta é a única relação possível, a relação entre o Eu e o Tu".

Se você se postar diante de Deus como "eu", Deus se torna "tu" e a relação é estabelecida. Segundo Buber, quando Deus se torna "tu" ambos se apaixonam. Os Upanishads não concordariam com isso. Para eles, se Deus é "tu" então você está presente para chamá-lo assim. O "eu" continua existindo e o "eu" é uma barreira: se o ego existe, não pode se relacionar. Portanto, se você pensa que o ego está relacionado com o divino, esse pensamento é falso, ilusório. Você está imaginando coisas. Se Deus se torna "tu" isso é pura imaginação. Os Upanishads usam "aquilo". Mas podemos dizer "eu e tu" e não "eu e aquilo" pois não existe relação alguma entre "eu" e "aquilo". O "eu" tem de desaparecer para que "aquilo" surja e se expanda. Com o desaparecimento do "eu", o "aquilo" nasce. O "aquilo" existe, mas o "eu" é uma barreira. Quando a barreira cai, pela primeira vez sentimos a existência tal qual é - aquilo que existe.
Por isso, os Upanishads chamam a verdade absoluta de "aquilo" - tat.

O segundo conceito que se deve extrair desse sutra é que a natureza do "aquilo" consiste em sat-chit-ananda ( ou satchitananda). Sat significa existência; chit significa consciência; ananda significa bênção ou bem-aventurança. Sua verdadeira natureza é bem-aventurança.

Se você conseguir captar esses três atributos, entenderá o "aquilo". Você existe, não tem nenhuma dúvida disso. Todos dizem: "Eu existo." Você era criança e dizia: "Eu existo." Mas onde está essa existência agora? Você tornou-se jovem e repete: "Eu existo". Vai se tornar velho e dirá: "Eu existo". E a criança já se foi, o jovem já se foi e o velho logo morrerá, desaparecerá. Quem diz "Eu existo"? Quem continua a existir? A infância se transforma em mocidade, a mocidade em velhice; e a vida , em morte. Quem diz: "Eu existo"? Você o conhece?

Quando diz "Eu existo", você sempre identifica seu "eu" com a condição em que se encontra. Se é criança, afirma: " Eu, a criança, existo". Se é velho, afirma: "Eu, o velho, existo".  Se diz "eu" e é um homem, quer dizer que um homem existe; se é mulher, quer dizer: "Eu existo, uma mulher existe". Sempre a condição é identificada com o "eu" - e as condições vão mudando. Portanto, na verdade, você não conhece o que existe; conhece apenas o que muda sem parar.

Segundo os Upanishads, o que muda não tem existência, é um ilusão. Só tem existência o que é eterno. Por isso, procure dentro de si mesmo o ponto central, que possa dizer: "Eu existo, imutável, eterno, absolutamente eterno." Se alcançar esse centro da existência, alcançará duas coisas automaticamente, imediatamente: a consciência absoluta e a plenitude da bem-aventurança. Mas poderá também tentar outros caminhos. Há três atributos, portanto deve haver três caminhos básicos. Atinja a existência - pois os outros dois se seguirão - ou atinja qualquer dos dois e os dois restantes se seguirão.

Atinja a consciência, torne-se plenamente consciente - que você ainda não é. Você está adormecido. inconsciente, vagando como um sonâmbulo. Faz as coisas como um autômato. "

Osho em Upanishads, a essência de seus ensinamentos. 
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