26 de novembro de 2016

Estado de alerta e moralidade - Osho


"Três palavras devem ser compreendidas: uma é "religião" ou espiritualidade; a segunda é "moralidade"; e a terceira é "legalidade".
Religiosidade ou espiritualidade não subsiste em idéias morais - está além do moral e do imoral, está além do certo e do errado; não possui consciência externa ( conscience ): vive da pura consciência-em-si ( cousciousness). Existe um tremendo "estado-de-alerta", e a pessoa age a partir desse "estado-de-alerta". Quando acontece de a  ação surgir do "estado de alerta", ela é inevitavelmente boa.

Mas o homem vive num "estado não alerta". Toda a vida do homem é cheia de "estados não alertas" - ele é quase como um robô. Ele vê, e contudo, não vê; ele ouve e contudo, não ouve; Ele existe, mas somente no sentido literal da palavra, não realmente, não como um Buda, ou um Cristo, ou um Zarathustra... ou como Dionísio, Pitágoras, Heráclito. Não, ele não existe com tal intensidade, com aquele "estado de alerta".

Desse modo, a moralidade se torna quase uma necessidade - ele á um substituto. Quando não se pode ter a coisa verdadeira, então, é melhor ter alguma coisa não-verdadeira do que não ter nada absolutamente, porque o homem precisa de um certo código de comportamento. Se este flui do estado de alerta, então, não há nenhum problema.

As pessoas estão vivendo apenas numa espessa nuvem de inconsciência. Suas vidas não são aquela vida de luz, mas a de escuridão e, vindo dessa escuridão, dessa confusão, dessa fumaça, o que você pode esperar? Elas estão fadadas a fazer algo tolo, algo errado.

A menos que todos os homens se tornem um buda, permanecerá a necessidade de alguma espécie de moralidade. A moralidade não é algo grandioso: é um substitutivo pobre da religião. Se você pode ser religioso, então, não há a necessidade de moralidade.(...) Todas as ideologias políticas e religiosas não são nada mais do que tranquilizantes não-medicinais. Todo o propósito é o de fazê-los viver no sono, de modo que vocês possam ser explorados, oprimidos, escravizados e, ainda assim, não estarem alertas para o que lhes está acontecendo.(...)

Você me pergunta, Sangvai, Por que deve haver uma diferença entre o padrão moral e o padrão legal...?
Há uma diferença entre os padrões moral e religioso. "Religião" significa que você "vive a partir da sua consciência". "Moralidade" significa que você "vive de acordo com os mais altos padrões que a sociedade impôs sobre você" e não de acordo com a sua própria luz. E o padrão legal é o mínimo.

O padrão moral é o máximo, a maior expectativa da sociedade; e o padrão legal é a expectativa mínima: "Pelo menos, deve-se cumprir o legal". O legal é o limite mais baixo e o moral é o limite mais alto, daí a diferença. A diferença existe.

Há muitas coisas imorais que não tem nada a ver com a lei. Você pode estar fazendo muitas coisas imorais, mas não pode ser apanhado legalmente, porque a legalidade consiste, no mínimo, no limite mais baixo.

Dizem que o melhor professor é aquele que é capaz de explicar o que está dizendo ao aluno mais estúpido da classe. Se o mais estúpido pode compreendê-lo, então, é claro, todos os outros, compreenderão. A lei pensa na pessoa mais estúpida.(...) A moralidade pensa no mais inteligente, no mais humano. Daí a diferença entre as duas - e a diferença continuará.

E eu tenho de lembrá-lo de uma terceira coisa também: do padrão espiritual. Este é o maior, o transcendental, além do qual não existe nada. Os budas vivem de acordo com o moral e os assim chamados cidadãos vivem de acordo com o legal. Estas são as três categorias de seres humanos.(...)
Até agora, o ser humano apenas parece ser humano: lá no fundo ele não é nada mais do que um animal mascarado de ser humano. Sua humanidade não tem nem a espessura da pele: basta arranhá-lo um pouquinho do animal sai. O ser humano com o qual no trivial, que só isso já prova a sua mediocridade...Não pode nos dar nenhum índice de sua inteligência.

O homem continua argumentando sobre grandes coisas, mas prossegue vivendo de maneira totalmente diferente. Seus pensamentos são muito elevados; sua vida é muito imatura. Na verdade, ele cria todos esses grandes pensamentos para encobrir sua imaturidade. (...)

Nossos filósofos, nossos psicanalistas, teólogos, permaneceram abstratos, falando sobre grandes coisas, só para escapar da medonha realidade.
Meu esforço aqui é ajudá-lo a tornarem-se cientes da feia realidade, porque estar ciente dela mudará a feiura em beleza. O estado de alerta é o milagre."
Osho em Teologia Mística

19 de novembro de 2016

Viver e agir - Pedro Kupfer


"Viver é agir. Agir é inevitável. Pelas ações construímos uma relação com a existência. Não podemos dizer que viver seja nada diferente de fazer ações. Vegetar não é viver. Uma pessoa em coma está viva, mas não podemos dizer que esteja vivendo.

Assim, usando nossa capacidade de escolha, e percebendo que não podemos fugir ao fato de que viver é fazer, nos relacionamos com os demais e com o mundo. Essas ações são sempre feitas a partir da constatação de que temos opções e uma faculdade chamada livre arbítrio, através da qual realizamos essas escolhas.

Agir implica mudar, implica constatar que necessariamente, queiramos ou não, iremos deixar uma marca no mundo, em cada coisa que fizermos, desde as mais insignificantes decisões até as maiores que possamos tomar.

Porém, muitas dessas ações são feitas, consciente ou inconscientemente, baseados na premissa de que, para sermos felizes, devemos mudar o entorno, ou a nós mesmos, ou ambos, já que não conseguimos nos aceitar como somos.

Isso é o que o meu mestre, Swāmi Dayānanda, chamava de problema fundamental. O grande segredo, se há um neste jogo, é reconhecer que essas mudanças fazem parte da própria dança da vida, mas nenhuma delas poderá trazer para nós felicidade, pois felicidade é o que já somos. Seria sábio lembrarmos disso a cada momento.

Não podemos, e nunca conseguiremos, obter algo que já temos. Não precisamos nem devemos correr atrás do que já somos. Não há como “alcançar” o Ser. Não temos como “nos tornar” o Ser. Isso é impossível. O Ser é o que somos. O que sempre fomos. O que sempre seremos.

É necessário apenas reconhecer a nós mesmos como o Ser pleno que somos. Nada mais. A vida plena é mais uma vida de aceitação, equanimidade e harmonia, do que uma sucessão de experiências de êxtase e prazer constantes. Não negamos o prazer nem a segurança, mas tampouco buscamos a felicidade neles.

Não nos apegamos excessivamente aos momentos de alegria ou satisfação quando eles acontecem, nem sentimos saudades deles quando não estão presentes.

Isso, apesar das dualidades, apesar de sabermos como pleno, vivemos o relativo e nos relacionamos da maneira mais equânime possível com a subjetividade do nosso ego e dos egos das pessoas com quem convivemos.

Assim, fazemos o que o nosso bom-senso nos indica, mudamos o que acreditamos que precisa ser mudado, agimos no mundo da melhor maneira possível, mas sabendo que desde nenhuma ação virá a felicidade ou a realização pessoal.

Quando conseguimos deixar de lado a ansiedadae por realizar mudanças buscando nelas a felicidade, poderemos superar o apego a elas, descobrindo essa fonte de felicidade inesgotável, e que somos nós mesmos. A felicidade não é o fruto de alguma ação.

Ela se revela por si só, na medida em que compreendemos que não é das mudanças ou da realização dos desejos que ela virá, e a força que eles têm sobre nós desaparece.

Então, facamos o que o nosso bom-senso determina, aquilo para o que a nossa intuição aponta, e mudemos o que precisa ser mudado. Façamos o que temos que fazer.

Reconheçamos que há coisas, porém, que fogem à nossa alçada. Por exemplo, não conseguimos mudar o clima, portanto reconheçamos que não adianta nos queixar do frio ou do calor, do sol ou da chuva.

Não podemos mudar o tempo, portanto, não adianta desejar que ele páre ou voe. Aceitemos o passado como ele é, o presente como ele é, e não façamos demasiadas especulações nem projeções em relação ao futuro.

Não podemos mudar os outros, portanto, aceitemos eles como são, com suas virtudes e defeitos. Não podemos mudar muitas coisas em nós mesmos em termos de corpo, mente ou emoções, portanto, aceitemo-nos como somos nesses aspectos, e em todos os demais. Lembremos que somos dignos de amor, do jeito que somos agora.

Assim, não deixemos que o derrotismo tomem conta de nós. Não deixemos que a inércia se aposse do nosso coração. Façamos o que deve ser feito, contemplando sempre o bem comum. Cultivemos o discernimento para compreender a diferença entre o que pode e o que não pode ser mudado.

Apliquemos força, compaixão, energia, inspiração, raiva, se for preciso, para mudar aquilo que pode ou deve ser mudado, em prol da saúde, do bem-estar, do que é justo e adequado para todos, cuidando do bem comum. E relaxemos, sem perder o contentamento, em relação àquilo que não pode ser mudado.

Evitemos, o tempo todo dentro do que nos for possível, projetar nessas mudanças a capacidade, que já reconhecemos que elas não têm, de nos fazer felizes. É isso. 

Namaste!"

5 de novembro de 2016

A mente vive descontente - Osho


"A mente vive descontente – isso é intrínseco a ela.
A mente nunca pode estar satisfeita.

Quando você compreende isso, um milagre acontece, então você pode deixar a mente de lado, pois ela nunca vai lhe trazer satisfação.

Essa não é a natureza dela.

Se você compreender por que está insatisfeito, se não procurar desculpas lá fora, vai ver que o motivo é a maquinação da mente, e essa maquinação pode ser abandonada.
É muito fácil. O importante é enxergar isso.
Não acredite só porque eu digo – você precisa enxergar.

Observe-a. Olhe para o passado.

Muitas vezes você achava que, se conseguisse determinada coisa, ficaria feliz, mas quando a conseguiu não ficou. As pessoas vivem caindo sempre nas mesmas armadilhas.

Por isso, observe a mente e todas as peças que ela prega em você. Para haver transformação, nada mais é necessário, apenas ficar alerta ao mecanismo da mente.

E, através dessa compreensão, as coisas começam a acontecer sozinhas, sem esforço, em silêncio."
Osho em Consciência
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