30 de setembro de 2011

Perene canção do amor...

"Em todo o ser humano existe um recanto imaculado,
virgem, inexplorado, silencioso, profundo...
Em toda criatura permanece um mundo, santo e ignorado,
nunca antes penetrado, aguardando, enriquecido de ternura...

Há, no abismo de toda alma,
um rochedo, um lugar, uma ilha, um paraíso,
recanto de maravilha a ser descoberto...
Em todo coração se demora um espaço aberto para a aurora,
um campo imenso a ser trabalhado,
terra de Deus, lugar de sonho,
reduto para o futuro.

Em toda vida há lugar para vidas,
como em toda alegria paira uma suave melancolia prenunciadora de aflição.

Há, porém, um lugar em mim,
na ilha dos meus sentimentos não desvelados,
um abismo de espera,
um oceano de alegria,
um mundo de fantasia,
para brindar-Te, meu Senhor!

Vem, meu amado Rei e Senhor,
dominar a minha ansiedade,
conduzir-me pela estrada da redenção.
E toma posse deste estranho e solitário país,
reinando nele e o iluminando com as tuas claridades celestes,
para que, feliz, eu avance, até o desfalecer das forças,
no Teu serviço libertador.

Vem, meu Rei,
ao meu recanto e faz da minha vida um hino de serviço.
E por Ti uma perene canção de amor..."
Poema de Tagore

29 de setembro de 2011

O Real e o sonho...


"Enquanto permanecemos trancados dentro da aparente experiência de sermos indivíduos separados vivendo uma existência com a qual precisamos negociar, nós vivemos num estado de sonho.

Nesse estado de sonho, tudo o que fazemos é governado pela lei dos opostos, na qual cada assim chamado ato positivo é exatamente e igualmente equilibrado pelo seu oposto.Portanto, todas as nossas tentativas individuais de fazer nossas vidas funcionarem, de alcançar perfeição ou obter liberação pessoal, são neutralizadas.

Nós descobrimos, através de profunda reflexão e entendimento, que, enquanto continuamos nesse sonho, nós estamos, na verdade, vivendo em círculos. Estamos numa roda na qual tudo está continuamente se repetindo em diferentes imagens.

É a consciência se divertindo com uma criação que é tanto constrita quanto liberada. E,independente do que acreditamos acerca de nossa individualidade e livre arbítrio, acabamos por perceber que somos apenas personagens de um sonho, reagindo e respondendo a uma série de sistemas de crenças históricos e condicionados.

Toda religião clássica, arte e ciência num mundo que vemos como progressista, está dentro dos parâmetros desse estado neutro exato e perfeitamente equilibrado, que serve apenas para refletir uma outra possibilidade. Em termos da real liberação, nada está acontecendo. O que aparentemente criamos, é aparentemente destruído. E o que aparentemente destruímos é aprentemente recriado.

Passando de nossa natureza original e atemporal para a consciência identificada, nós criamos essa circunstância a fim de redescobrir que o sonho que estamos vivendo não tem absolutamente qualquer propósito além de despertarmos dele. Esse despertar emerge fora do sonho, fora do tempo, e está completamente além do alcance do esforço individual, caminho, processo ou crença.(...)

Na existência, nenhuma coisa é mais válida ou mais sagrada que qualquer outra coisa. Nenhum requisito é necessário.

O infinito não é alguma coisa esperando que nós nos tornemos merecedores dele.

Eu não tenho que vivenciar "o lado escuro da alma", ou me entregar, ser purificado, ou passar por qualquer mudança ou processo.
Como pode o ilusório ego-separado praticar alguma coisa a fim de revelar que é ilusório?

Eu não tenho que ser sério, honesto ou desonesto, moral ou imoral, simpático ou grosseiro. Não há necessidade de esperar por momentos de transformação, buscar pela não-ação, pela permanente bem-aventurança, um estado sem-ego, ou uma mente quieta.

Eu nem mesmo tenho que esperar que a graça desça sobre mim.
Porque eu sou, você é. Isto é a graça constante."
Tony Parsons

28 de setembro de 2011

Testemunhar é o segredo...


"Você diz que tem momentos de grande êxtase, cheio de energia, mas que você fica afogado nesta energia; o êxtase é tão intenso que você se esquece de ficar alerta. Você fica imerso naquele êxtase e a testemunha não está presente. E você diz que existem momentos quando está triste e entediado, mas a testemunha está ali.
Você simplesmente precisa colocar as coisas no seu devido lugar.

Comece com seu tédio e sua tristeza, porque a testemunha está ali e a testemunha será a ponte. Assim, quando você estiver triste e entediado, simplesmente observe este estado, como se ele fosse alguma coisa fora de você; ele é. Você sempre é uma testemunha e agora está testemunhando tristeza e tédio.

É fácil testemunhar a tristeza e o tédio, porque ninguém quer ficar mergulhado no tédio. E isto é muito importante porque você pode aprender toda a arte enquanto você estiver entediado. Simplesmente observe o tédio e na medida em que o seu testemunhar cresce, você verá que existe uma distância entre você e o tédio, a tristeza, a miséria, a dor e a angústia. Você não é parte de toda essa experiência; você está de pé no alto, acima das montanhas, um observador nas montanhas, e tudo mais está se movendo lá em baixo, no vale escuro.

Você já tem o segredo, só falta praticá-lo mais e mais. (...)

Não fique triste nem entediado. Deixe que o tédio esteja ali, assim como a tristeza. E você permanece sendo simplesmente uma testemunha. Nestas situações, isto é mais fácil. Depois que você já tiver fortalecido a sua testemunha, experimente então testemunhar aqueles momentos de êxtase, aquelas alturas...

Aí será um pouco mais difícil, pois virá uma vontade de lançar-se naquele espaço cheio de ondas. Quem vai querer ficar sentado num banco só observando? Surge o medo de que aquele momento se vá, se perca, se ficarmos só observando.
Não se preocupe. Se você testemunhar, o momento vai permanecer ali, a experiência vai crescer ainda mais e vai tornar-se cheia de cores. Mas em momento algum fique identificado com a experiência. Permaneça desapegado, simplesmente um expectador.
A arte é a mesma, não importa se é com o tédio ou com o êxtase. O que importa é que você não esteja envolvido, que mantenha a distância, que permaneça ali, parado.

Quando testemunhar, você ficará surpreso, pois o tédio, a tristeza, a felicidade, o êxtase, seja o que for, vai começar a se mover para longe de você. Na medida que o seu testemunhar fica mais profundo e mais forte, se torna mais cristalizado, qualquer experiência, boa ou má, bela ou feia, desaparece. Existe um puro nada por toda a sua volta.

O testemunhar é a única coisa que pode torná-lo mais consciente do imenso nada que o circunda. E nesse imenso nada... Não é vazio, lembre-se. Em inglês não existe uma palavra para traduzir a palavra budista shunyata. Esse nada não é vazio, ele é cheio da sua presença, cheio do seu testemunhar, cheio da luz de sua testemunha.

Nesse nada, você se torna quase um sol, e os raios do sol movem-se dentro do nada em direção ao infinito.

Um dos místicos indianos, Kabir, disse, ‘Minha primeira experiência foi com o sol e na medida em que minha experiência foi crescendo, vi que o sol externo é nada e o sol interno é infinito. A sua luz preenche todo o infinito da existência. E em tal momento eu sou apenas uma testemunha; eu estou lá.’

Assim, comece testemunhando o seu tédio, a sua tristeza, porque a questão não é o objeto, a questão é a arte de testemunhar. Comece com qualquer objeto – raiva, ódio, amor, ciúme – qualquer coisa serve. Se você nada encontrar, pegue um espelho e olhe para a sua face, testemunhe-a. E você ficará muito surpreso, pois quando você está num completo estado de testemunhar, o espelho se torna vazio, você não está nele. Em total testemunhar, o objeto desaparece.

Pela primeira vez você será capaz de ver o espelho como um nada.
Comece com coisas que são mais fáceis, e depois passe para as que são mais onduladas. A ponte é simples."
Osho em Tarô Zen -Awareness e Osho-From Deadh to Deadhlesness

26 de setembro de 2011

Descobrir-se...



Muitas e muitas vezes a vida se derrama a nossa frente, em cenas tão inebriantes que perdemos o fôlego e dissipamos, como que para sempre, todos os medos.

Não imaginamos nesses momentos que o que se apresenta fora não é algo extraordinário, é simplesmente o Ser, nossa essência verdadeira, que quando não o aprisionamos, nem o limitamos, nem o encobrimos com a tagarelice da mente, ele vem e coloca a carinha para fora e diz: "Olha como a vida pode ser realmente bela, simples, e como é bom se deixar levar pelo momento presente, pela realidade. Vida é dança, é música, dancemos com ela. O Cosmos é nosso lar, desfrutemos !"

Temos velhos e enferrujados hábitos de fantasiar demais as coisas, de colocar obstáculos onde nunca existiram, de expor feridas que já estavam cicatrizadas, e o que realmente fazemos é dificultar aquele frescor da alma, que acontece naturalmente, sempre que essas paredes não estão ali.

Aprendemos desde pequenos que sofrer é bonito, que se sentir mal traz recompensas, e que ser alegre por nada não dá muito Ibope.. Essa é a educação pessimista que recebemos e que muitas vezes sem noção, passamos igualzinho para nossos filhos, que já recebem assim o pacote pronto de como ir criando dor e sofrimento para suas vidas, tendo já prontinho o roteiro e as doses diárias, mas só se esquecem de ensinar as consequências desse lamento todo e aonde isso pode levar.

Se olharmos rapidamente a nossa volta, veremos num só lance como tantas pessoas que nos cercam reclamam da vida, reclamam do vizinho, do cachorro, do patrão, de qualquer coisa. Vivem em um mundo "mágico" das reclamações! E nem se dão conta de que tudo que acontece são lições para que ela cresça, para que ela se torne mais e mais consciente, que faça as escolhas necessárias, feche os ciclos que já venceram o prazo de validade, ou abra novas frentes que tragam brisa fresca as suas almas e seus pulmões.

Viver em um mar de lamentações só faz criar mais e mais problemas, uma coisa atrai a outra. Melhor seria olhar cada pedacinho das nossas vidas com uma lente de aumento, assim investigando cada parte que precisa ser iluminada, polida, outra ser costurada, outra ser arejada, outra ser descartada...

Temos, bem verdade, é preguiça de fazer essa investigação toda, assim de forma cuidadosa, não com a intenção de dizer o que é "certo ou errado", "bom ou mau", mas com a intenção de assumir verdadeiramente que algumas coisas já não estão mais vibrando, outras estão meio assim embaçadas e que outras precisam de uma boa lanternagem.
Preferimos ir deixando as coisas se acumularem, e que outros façam o serviço - serviço que é nosso-,só nosso, porque afinal é a nossa vida, ué!

Aí caímos nesse lamento sem fim. Queixosos chegamos e queixosos saímos. Deixamos um rastro de queixas que chega a impregnar o ar, deixando o ambiente pesado e feio. Ali nem flores desabrocham, quanto mais nossa essência verdadeira consegue por a carinha para fora. Ela fica é lá dentro mesmo, escondidinha esperando por dias melhores!

Daí eu pergunto: Porque complicamos tanto nossas vidas? Porque colocamos tanto peso em coisas sem peso nenhum? Já que tudo acaba em simples lembranças mesmo, já viram isso?
Quando paramos para refletir quem nós éramos há vinte anos atrás, o que vem? Memórias.
Quando lembramos do sonho que tivemos na noite passada, é a mesma coisa, memórias.

Não seria tão mais fácil e prático construirmos nossas vidas baseadas na realidade, na simplicidade e naquilo que é diante de nós? Lidarmos com os fatos de maneira direta, sem rodeios mentais, sem complicações nem projeções sem fim?

Quando deixamos de brigar com a realidade, metade dos problemas já se foram, e a outra metade se vai quando agradecemos pelo que acontece com o coração aberto, tendo a confiança plena de que nada, absolutamente nada existe para nos derrubar, nem destruir, mas que a vida é nossa casa, e que cada instante chega até cada um de nós repleto de ensinamentos e descobertas que apontam na mesma direção, a direção da nossa essência verdadeira, nosso Ser, de onde todas as respostas naturalmente acontecem e onde somos verdadeiramente nós mesmos, sem nenhum disfarce.

Justamente por isso, simples assim, é que sem saber, carregamos a felicidade dentro de nós a vida toda, e ficamos perdidos procurando por ela fora, nos labirintos da mente, nas memórias cinematográficas do nosso filme particular e nunca encontramos nada além de ilusões...e frustrações. Basta uma simples mudança de olhar e num segundo descobrimos que tudo aquilo que sempre procuramos, nossa essência verdadeira, estava o tempo todo aqui...e agora!
Existiria outro lugar onde ela poderia estar? O Ser não conhece medo, nem queixas, nem reclamações. Só conhece a Felicidade, Amor, Alegria e Paz...por isso: Descubra-se!
Amor
Lilian

A Felicidade do Ser...


Pergunta: Quando contemplo minha verdadeira natureza, estou no “Eu sou”. Um sentimento de amor sem causa me invade então. Será que esse sentimento é justo ou ainda é uma ilusão?

Ranjit Maharaj: É a felicidade do Ser. Você prova a presença “Eu sou”.
Você esquece tudo, os conceitos e a ilusão, é um estado não-condicionado.
Essa felicidade aparece na ignorância ou no esquecimento do objeto, mas na felicidade há sempre um leve contato do ser, está tocado. Afinal, isso é ainda um conceito.

Quando você está cansado do mundo exterior, você quer ficar recolhido em você. É a experiência de um estado elevado, mas ainda da mente. O Ser não tem nem prazer nem desprazer. Sem o “eu” Eu sou.
O esquecimento total da ilusão quer dizer que nada é, nada existe. Ela está ali de certa maneira, mas para você não tem mais realidade. É o que chamamos por realização ou conhecimento de si. É a realização de si sem o “eu”, sem a experiência.

Se alguém o chama, você responde: “estou aqui”, mas antes de dizer “estou aqui”, você era. Seu sentimento de ser não estava ali, mas quando é chamado, esse sentimento jorra espontaneamente. Assim, é chamado não-condicionado.

A ilusão não pode trazer nada mais á realidade, não pode dar algo de “extraordinário” á realidade, porque a realidade é a base de tudo que existe.
Tudo que é, o que você vê, os objetos da sua percepção, tudo isso é apenas devido á realidade. A ignorância e o conhecimento não existem, eles não são.

Então qual é a expressão que você pode dar-lhes? Quando você dá uma expressão, isso quer dizer que há algo experimentado. E é a experiência do que de fato não existe. Assim que você sente algo, você se afasta de si – mesmo. Você sente amor, é muito melhor que ficar na ignorância, mas afinal é sempre um estado, e um estado é sempre condicionado. O não-condicionado é sem estado.

Trata-se da experiência da não-existencia da ilusão. Se você sentir existência por menor que seja, é ignorância. Isso é muito sutil, a ignorância e o conhecimento são ambos sutis. É difícil entender, mas se dedicar realmente a essa investigação, conseguira esse estado. Isso é, e sempre foi, mas você não sabe, é a dificuldade.

Não há um único lugar, um único ponto onde a realidade não seja. Você experimenta sua existência a través os objetos, mas tudo isso não é nada. Ela é onipresente, mas não pode vê-la. Por quê? Porque você é ela – mesma, a realidade, como você pode ver a si – mesmo? Para ver sua face, você precisa de um espelho.

A verdadeira felicidade está em você, e não fora de você. No sono profundo você é feliz, está na ignorância do mundo.

Assim a felicidade reside no esquecimento do mundo. Deixe o mundo do jeito que é, não o destrói, mas saiba que ele não é. Faça todas as coisas que tem a fazer, mas esteja sempre de fora, afastado pela compreensão, porque tudo que você sente, percebe e faz é ilusão, não existe. Sua mente deve aceitar isso. Os sábios dizem “Já que isso é nada, como esse nada pode afetá-lo?” Mas o que diz sua mente o afeta, o toca... Então, que fazer? A mente é nada mais que conhecimento, mas isso não está certo.(...)

É dito que aquele que mergulha nas profundezas do oceano encontra a perola. Aquele que fica na superfície é arrastado no turbilhão do prazer e do sofrimento. Você deve mergulhar fundo no ilimitado porque é ali que você está. Nunca pare ao finito, ao limitado. O ouro não se preocupa com as formas que moldam as jóias, isso pode ser a figurinha dum cachorro ou duma divindade, é indiferente ás formas.
Da mesma maneira, seja indiferente ás coisas porque não existem, nada pode tocá-lo, você não está ligado. A mente deve chegar á plena compreensão do que é a ilusão. O que sobrou é seu estado.

Nada sobrou para aquele que entendeu, não há nem ganho nem perda.

Não me pergunte se você pode alcançar a realidade, porque você é a realidade, então porque dizer: “posso?”. Primeiramente, saia do círculo, largue as coisas uma após outra, e mergulhe em você – mesmo. Em seguida volte, e esteja em tudo.

O que descreveu é um bom estado, não há dúvida á respeito, mas vá um pouco mais longe. Quando a mente aceita que tudo é ilusão, tudo apenas ilusão, então você está em você – mesmo. O corpo e a mente são ilusões, você deveria estar feliz por saber isso. Livre-se dessa identificação.

A única coisa que o mestre faz é dar seu real valor ao poder que está em você, ao qual você não dá nenhuma importância. Ele não faz mais nada. Era uma pedra, e o mestre revela sua verdadeira natureza que é o diamante. Faz de você – mesmo a pedra mais preciosa.

Eu sou onipotente, onipresente, sou o criador de tudo que é. Quando você está na base de tudo, você é tudo, então, até um assassino não pode ser considerado como mal. Tudo que acontece é “minha ordem”. Seja o mestre, não o escravo. Você já é o mestre."
Mestre Ranjit Maharaj em Satsang

25 de setembro de 2011

Entregue-se à Fonte do Ser - Ramana


"Tudo o que nasce deve morrer; tudo o que é adquirido será perdido.
Você nasceu? Não, você existe eternamente.

O Eu Real nunca pode ser perdido.Você impõe limitações a si mesmo e depois luta em vão para transcendê-las.
Toda infelicidade e miséria vem do ego. Ele é a origem de todos os seus problemas.

Um "eu" imaginário surge entre a Pura Consciência e o corpo inerte e se imagina limitado ao corpo.

Busque esse "eu" e ele desaparecerá como uma miragem.Basta que você se entregue.

A entrega é abandonar-se à Fonte do seu ser. Não se iluda pensando que essa Fonte é algum Deus fora de você.

A Fonte está dentro. Abandone-se a ela. Isso significa que você deve buscar a Fonte e mergulhar nela.
Você é o Eu Real mesmo agora, mas você confunde a sua consciência atual, ou ego, com a Consciência Absoluta, ou Eu Real.

Essa falsa identificação existe devido à ignorância, e a ignorância desaparece junto com o ego. Transcender o ego é a única coisa a ser feita.

A Realização já existe – não é necessário tentar alcançá-la. O seu dever é Ser, e não ser isso ou aquilo.
"Eu sou o que sou" resume toda a Verdade. E o método é a quietude.”
Ramana Maharshi em Eu Sou Aquilo que Sou.

24 de setembro de 2011

Relacionar-se...



"Amor nunca é um relacionamento, amar é relacionar-se.
É sempre um rio fluindo sem fim;
O amor não conhece ponto final;
A lua-de-mel começa mas nunca acaba;
Não é como uma novela que começa e termina em um certo ponto é um fenômeno contínuo;
Amantes acabam, o amor continua, é um continnum, é um verbo, não um nome.
E porque nõs reduzimos a beleza de um relacionar-se a um relacionamento?
Porque temos tanta pressa?
Porque relacionar-se é inseguro;e relacionamento é uma segurança.
Relacionamento tem uma certeza;
Relacionar é apenas o encontro de dois estranhos
Talvez apenas uma parada noturna e de manhã nos dizemos adeus!
Quem sabe o que acontecerá amanhã?
E nós temos tanto medo que queremos ter certeza, queremos torná-lo previsível
Gostaríamos que o amanhã fosse de acordo com nossas idéias;
Não lhe permitimos liberdade para ter sua própria palavra;
Então reduzimos cada verbo a um nome.

Num mundo melhor, com pessoas mais meditativas, com um pouco mais de iluminação dispersa por sobre a Terra, as pessoas amarão, amarão imensamente, mas seu amor permanecerá um relacionar-se, não um relacionamento.
Eu não estou dizendo que o amor deles será apenas momentâneo,
Há toda possibilidade que possa ir mais fundo que o seu amor
Ter uma qualidade de intimidade mais elevada;
Possa ter algo mais de poesia e Deus nele;
E há toda possibilidade de durar mais que o seu assim chamado seu relacionamento.
Poderá durar o quanto for preciso, mas não será garantido pela lei, pela justiça,
A garantia será interior;
Será um compromisso a partir do coração .Será uma comunhão silenciosa.

Se você aprecia o estar com alguém, e gostaria de desfrutar mais e mais disto
Se você aprecia a intimidade e gostaria de explorar a intimidade mais e mais;
Há algumas flores do amor que abrem só depois de uma longa intimidade
Existem flores sazonais também, durante seis semanas elas estão ao sol,mas em seis semanas elas se vão novamente,para sempre.
Há flores que levam anos para chegar,quanto mais demoram, mais profundo elas vão,
Mas tem que ser um compromisso de um coração para outro coração;
Não há nem mesmo que se verbalizar, porque se verbalizar é profaná-lo;
Tem que ser um compromisso silencioso;
Olhos nos olhos.
Coração no coração.
Ser no Ser.
Tem que ser entendido, não dito.(...)

Cada indivíduo é tão misterioso que se você for mais e mais fundo nele, o mistério é infinito,
Você se enjoa do outro porque permanece na periferia, sempre na periferia...

Amar é muito raro;
Encontrar uma pessoa no seu centro, é você mesmo passar por uma revolução;
Porque se você quer encontrar uma pessoa no centro dela,
Terá que permitir que aquela pessoa também alcançe seu centro,
Terá que se tornar vulnerável, absolutamente vulnerável,
Aberto.
É arriscado.
Permitir a alguém alcançar o seu centro é arriscado, perigoso,
Porque você não sabe o que aquela pessoa lhe fará.
E uma vez que todos os seus segredos sejam conhecidos;
Uma vez que o que estava ecoberto se torne descoberto;
Uma vez que você esteja completamente exposto;
O que a outra pessoa fará? Nunca se sabe.

Daí o medo, por isso nunca nos abrimos;
Então a primeira coisa a ser entendida é: Nunca tome o conhecimento por amor,
Você pode estar fazendo amor, pode estar sexualmente relacionado, mas sexo também é periférico,
A não ser que centros se encontrem
Sexo é apenas o encontro de dois corpos,
E o encontro de dois corpos, não é o seu encontro,
Sexo permanece conhecimento físico, corporal, mas ainda conhecimento.

Você pode permitir a alguém entrar no seu centro só quando não tem medo,
Quando não está amedrontado,
Então eu lhes digo que há dois tipos do viver:
Um orientado pelo medo;
Outro orientado pelo amor.

Viver orientado pelo medo nunca pode levar a profundos relacionamentos,
Você permanece amedrontado;
E o outro não pode ser permitido a penetrar no centro do seu centro,
Até um certo ponto você permite o outro e então surge uma parede e tudo para.
A pessoa orientada pelo amor é a pessoa religiosa;
A pessoa orientada pelo amor significa que não tem medo do futuro.
Que não tem medo do resultado e das consequências, que vive aqui e agora.
Se você pode estar neste momento, neste momento presente, a presença, a plenitude
Só então você pode amar."
Osho em Tantra a suprema compreensão.

23 de setembro de 2011

É Primavera agora...


"É Primavera agora, meu Amor !
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor !
Ah ! Deixa-te vagar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que não nos venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha !
Não há bem que não possa ser melhor !
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos ...
Parecem um rosal"! Vem desprendê-los !
Meu Amor, meu Amor, é Primavera ! ..."
Florbela Espanca em Primavera

22 de setembro de 2011

Mergulho na Paz - Hermógenes


"Aproveitei a maré baixa e visitei os recifes. Nas poças represadas sobre as pedras, vi canteiros de vida: jardins multicores de sargaços.
Eram peixinhos miúdos, coloridos, parecendo jóias travessas.
Escutei ondas bramindo, batendo, incansáveis e imponentes, em negras pedras que pareciam eternas.

Torres brancas de espuma salgada a se erguerem do embate das vagas bilhões de vezes repetidas, desde eras sem contas, adorando e louvando os deuses lá do mais alto. Senti na pele presença de sal, ardores de sol, batidas do vento.
Ali mergulhei e nadei, aproveitando as poças mais profundas.

Depois, sentei-me nas pedras e, gostosamente, deixei que sobre mim caíssem espumantes cascatas de água despejadas de arrebentação do quebra-mar.
Gozei farta refeição para meus sentidos ávidos de beleza. Aprofundei ao máximo aquela aventura estática, estética, poética e mística. Fiquei parado, calado, atento...

Fiquei tão estático que enganei peixinhos e iludi camarões, vagando descuidados em torno de mim. Mistificados, pensaram por certo que eu era mineral, e perderam o acanhamento e o receio. Confiantes e naturais, mostraram-se como são, na intimidade.
Deixei-me ficar. Deixei-os em paz.

Parado, cabeça ao sol e o corpo dentro do aquário natural, deixei-me embeber de gozo, enamorado de tudo, confundindo-me com tudo, amando o Todo.

Se pudesse, teria mesmo virado pedra. Para servir de universo aos peixinhos, caramujos, camarões... a todas aquelas formas assumidas pela Vida Universal.(...)

Krishna, Sai Baba, Buda, Samkara, Jesus, Babaji, Rama, São Francisco de Assis, São João da Cruz, Ramana, Ramakrishna, Santa Tereza, Yogananda, Chico Xavier... vós todos – doidos de Deus – contaminai-me com a mesma loucura!

Vós todos – bêbados do Senhor – dai-me do mesmo vinho que vos pôs assim!
Vós – saciados da Divindade – dai-me da hóstia que vos alimenta!
Perdidos no Mar Infinito – tornai-me também um náufrago convosco!"
Prof. Hermógenes em Mergulho na Paz

21 de setembro de 2011

Dia Mundial da Paz

Deixando a vida entrar...



"Às vezes, na estranha tentativa de nos defendermos da suposta visita da dor, soltamos os cães. Apagamos as luzes. Fechamos as cortinas. Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos. Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, pra vida não desconfiar que estamos em casa. A encrenca é que, ao nos protegermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos protegendo também da possibilidade de lindas alegrias.

Impossível saber o que a vida pode nos trazer a qualquer instante, não há como adivinhar se fugirmos do contato com ela, se não abrirmos a porta. Não há como adivinhar e, se é isso que nos assusta tanto, é isso também que nos dá esperança.

É maravilhoso quando conseguimos soltar um pouco o nosso medo e passamos a desfrutar a preciosa oportunidade de viver com o coração aberto, capaz de sentir a textura de cada experiência, no tempo de cada uma. Sem estarmos enclausurados em nós mesmos, é certo que aumentamos as chances de sentir um monte de coisas, agradáveis ou não, mas o melhor de tudo, é que aumentamos as chances de sentir que estamos vivos.

Podemos demorar bastante para perceber o óbvio: coração fechado já é dor, por natureza, e não garante nada, além de aperto e emoções mofadas. Como bem disse Virginia Woolf, “não se pode ter paz evitando a vida.”
Ana Jácomo em Com o Coração aberto

20 de setembro de 2011

Algo imortal, algo divino...



"A meditação é uma aventura, uma aventura rumo ao desconhecido — a maior aventura que a mente humana pode ter. E por aventura eu quero dizer que você não pode ser instruído sobre ela.
Em primeiro lugar, é impossível saber algo sobre ela antecipadamente. A menos que a pessoa a conheça, não pode saber nada. Tudo o que se tem dito, em última análise, não significa nada: a verdade permanece indizível. Muito se tem dito — muito se tem dito sobre nada. Nem uma única palavra foi expressa.

A menos que você conheça a meditação, não pode conhecê-la. Mas alguma coisa pode ser indicada. Esse nunca será o ponto; não pode ser. A natureza das coisas é tal que isso é impossível. Você não pode dizer que isto é meditação.Tudo o que se pode dizer é que isto não é meditação, que aquilo não é meditação. O que resta é — mas o que resta é deixado sem indicação.

Existem muitas razões para isso. A meditação é algo maior do que a mente. Não é algo que acontece na mente; é algo que acontece para a mente. Caso contrário, a mente seria capaz de defini-la, de conhecê-la, de compreendê-la. Assim, não é algo que acontece na mente, mas para a mente. É como a morte acontecendo para a vida. A morte nunca acontece na vida; acontece para a vida.

A meditação é uma morte para a mente, assim como a morte é para o corpo, para a vida. A meditação é uma morte mais profunda — não física, mas psíquica. E quanto mais profunda a morte, maior é a possibilidade de renascimento. Quando a morte física acontece, você renasce fisicamente. No que diz respeito a sua interioridade, nada acontece, absolutamente nada. Você permanece igual — a mesma continuidade está presente; nada é diferente.

Entretanto, quanto mais profunda a morte, mais profunda a ressurreição. Se você morrer psicologicamente, se a mente morrer, então você também renascerá, mas esse renascimento não é igual ao renascimento físico. Quando o corpo morre, ele é substituído; um novo corpo o substitui. Mas quando a morte mental, a morte psíquica acontece, a mente não é substituída. A consciência permanece sem a mente.(...)

Por isso, não pensem que Deus está perdido. Deus não está perdido portanto não pode ser encontrado.Nós apenas nos esquecemos; é só uma questão de lembrarmos. Está lá, no centro de nosso ser. Chame isso de verdade, Deus, felicidade, beleza: todas essas coisas indicam o mesmo fenômeno. Há algo eterno em nosso ser, algo imortal, algo divino.

Tudo o que temos a fazer é ir fundo, mergulhar no fundo de nosso ser e ver, perceber, reconhecer. Portanto, a jornada não é exatamente uma jornada. Não vamos a lugar algum. Só temos de nos sentar em silêncio e ser."
Osho em Eu sou a porta

19 de setembro de 2011

Janela da eternidade...


"Cada minuto é uma eternidade porque a eternidade pode ser experimentada em cada minuto.
Cada dia, hora ou minuto é uma janela através da qual você pode ver a eternidade.

A vida é breve e, entretanto, sem fim. A alma é eterna, mas na curta estação desta vida você deve colher o máximo da imortalidade.

Tudo é Deus.

Tanto esta sala quanto todo o universo estão flutuando como num filme na tela da minha consciência... Eu olho para esta sala e vejo nada mais do que Espírito puro, Luz pura, Alegria pura.
A figura de meu corpo e de seus corpos - e de todas as coisas desse mundo – são apenas raios de luz provenientes daquela única Luz Sagrada.

Olhando esta Luz, não vejo nada além do Espírito puro.

A eternidade se estende à minha volta, embaixo, acima, à esquerda, à direita, à frente, atrás, dentro e fora.
De olhos abertos, vejo-me como um pequeno corpo.
De olhos fechados, percebo-me como o centro cósmico ao redor do qual gira a esfera da eternidade, da bem-aventurança do onisciente espaço vivente.
Enquanto estivermos imersos na consciência do corpo, seremos como estranhos num país desconhecido.

Nossa terra natal é a onipresença.

Eu O sinto transbordando em meu coração e em todos os corações, através dos poros da terra, do céu, de todas as coisas criadas.
Ele é o eterno movimento da alegria. Ele é o espelho de silêncio no qual está refletida toda a criação.
Aprenda a ver Deus em todas as pessoas, de qualquer raça ou credo.
Somente quando começar a sentir sua unidade com todos os seres humanos é que você saberá o que é o amor divino; não antes.
O Oceano do Espírito se transformou na pequena bolha da minha alma.
Seja flutuando no nascimento ou desaparecendo na morte, a pequena bolha da minha alma não pode morrer no oceano da percepção cósmica.
Eu sou consciência indestrutível, protegida no seio imortal do Espírito.

Certo dia vi uma pequenina formiga subindo um monte de areia. E pensei:
"A formiga deve estar pensando que está escalando os Himalayas!"
O montinho deve ter parecido gigantesco para a formiga, mas não para mim.
Analogamente, um milhão de anos solares podem representar menos de um minuto na mente de Deus.

Devemos aprender a pensar em grandes termos: Eternidade! Infinito!

Ó Espírito, ensina-nos a curar o corpo, revitalizando-o com Tua energia cósmica; a curar a mente com a concentração e alegria; a curar a doença da ignorância da alma com o bálsamo divino da meditação em Ti.

O método mais eficaz para uma cura instantânea é a fé em Deus, absoluta e incondicional. Empenha-se constantemente para despertar este tipo de fé é a maior e mais gratificante obrigação do homem.
A Fonte Infinita é um dínamo infinito que embebe a alma sem cessar, com força, felicidade e poder. É por isto que é tão importante você confiar o máximo que puder na fonte infinita."
Paramahansa Yogananda em Meditações

17 de setembro de 2011

O Ser é Deus...


"Você quer ver Deus em tudo, mas não em si mesmo? Se tudo é Deus, você não está incluído nesse tudo?

Cada pessoa é o Ser e, na verdade, é infinita. Contudo, cada pessoa interpreta erradamente o seu corpo como sendo o Ser. Para se conhecer alguma coisa, é necessário a iluminação. Isso só pode ser da natureza da luz, no entanto, Ele ilumina tanto a luz física quanto a escuridão física. Ou seja, Ele se situa além da aparente - luz e trevas. Ele mesmo não é nenhuma delas, mas é dito como sendo a luz porque ilumina ambos. Ele é infinito e é Consciência. A consciência é o Ser de que todas as pessoas estão conscientes. Ninguém nunca está longe do Ser e, portanto, todos são de fato auto-realizados, apenas - e esse é o grande mistério - as pessoas não sabem disso e querem realizar o Ser.

A realização consiste apenas em acabar com a falsa ideia de que a pessoa não é realizada. Não é nada de novo a ser adquirido. Ela já deve existir, ou não seria eterna, e apenas pelo o que é eterno vale a pena lutar.
Nós identificamos o "eu" com um corpo, nós consideramos o Ser como tendo um corpo, e como tendo limites, e disso vem todos os nossos problemas. Tudo o que temos que fazer é deixar de identificar o ser com o corpo, com formas e limites, e então conheceremos nós mesmo como sendo o Ser que sempre somos.

No momento que você começa a procurar pelo Ser e vai cada vez mais fundo, o Ser real está te esperando lá para te por para dentro. Então o que quer que seja feito é feito por algo mais e você não tem participação nisso. Nesse processo, todas as dúvidas e discussões são abandonadas automaticamente assim como alguém que dorme, por certo tempo, esquece todas as suas preocupações.

Pergunta: Deus está separado do Ser?
Ramana: O Ser é Deus, o "eu sou" é Deus. Essas perguntas surgem porque você está se segurando ao ser-ego. Elas não surgirão se você segurar-se no verdadeiro Ser. Pois o Ser real não irá perguntar e nem pode perguntar o que é absurdo. Somente Deus, que parece ser não-existente, verdadeiramente existe, enquanto que o indivíduo, que parece estar existindo, é sempre não-existente. Os sábios dizem que o estado no qual a pessoa conhece sua própria não-existência (sunya) apenas é o glorioso conhecimento supremo.

Agora você pensa que você é um indivíduo, que existe o universo e que Deus está além do cosmos. Portanto, há a ideia do sentido de separação. Essa ideia deve ir. Pois Deus não está separado de você ou do cosmos. O Gita também diz: "O Ser sou Eu, o Deus do sono, Alojado no coração de cada criatura. Sou o alvorecer e o meio-dia de toda forma, também sou seu destino final".

Portanto, Deus não apenas está no coração de todos, ele é o suporte de todos, a fonte de todos, a morada e o fim de todos. Tudo procedeu Dele, tem sua estada dele, e finalmente se resolve Nele. Portanto, Ele não está separado.

No que diz respeito à sua localização, Deus não reside em nenhum outro lugar além do Coração. É devido à ilusão criada pelo ego, a ideia "eu sou o corpo", que o reino de Deus é concebido como estando em outra parte. Esteja certo que o Coração é o reino de Deus."
Ramana Maharshi em Satsang

A Filosofia é a bondade - Dalai Lama



"Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de ideologia, religião, raça, situação econômica ou outros fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em níveis mais profundos. Em nível humano, condição essa que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na confiança mútua, na compreensão, no respeito e na solidariedade, independentemente de diferenças culturais, filosóficas ou religiosas.

Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito a isso. Por outras palavras, é importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família humana. O fato de brigarmos uns com os outros deve-se a razões secundárias, e todas essas discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para se ferirem uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram, resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança. E, consequentemente, em mais divisões.

O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos, particularmente o econômico. Os países estão mais próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário pensar mais em nível humano do que em termos do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam a escutar com o pensamento: "Sou um ser humano e estou a ouvir outro ser humano falar".

Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o objectivo de alcançá-la, entretanto, devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não solucionará os problemas maiores.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado de progresso material, que é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão resolvidos, se não procurarmos desenvolver o nosso interior.

No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local, ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido usada. Embora possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o ódio não são meios para solucionar problemas.

A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua reacção for semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá gradativamente. Do mesmo modo, problemas mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor, compaixão e pura bondade.

Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria força. A responsabilidade permanece na nossa mente, de onde se comandam as acções. Portanto, controlar em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou a falar de meditação profunda, mas apenas de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres humanos.

Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranquilidade, mas por causa da ignorância somos acometidos por sentimentos como esses. A raiva faz-nos perder uma das melhores qualidades humanas, o poder de discernimento. Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não têm. Esse órgão permite-nos julgar o que é certo e o que é errado. Não apenas em termos actuais, mas em projecções para daqui dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar o nosso bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos. Contudo, se a nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de discernimento e tornar-nos-emos mentalmente incompletos. Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos que criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da bondade. Se refletirmos a respeito dessas questões com frequência, podemos incorporar a idéia e, então, controlar a mente.

Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e consciencialização, isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado durante dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente. É o que penso e também o que pratico.

É perfeitamente claro que todos necessitam de paz interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da compaixão. O resultado é uma família em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre casais. Numa nação, essa atitude pode criar unidade, harmonia e cooperação com saudável motivação. A nível internacional, precisamos de confiança e respeito mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas. Tudo isso é possível.

Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes têm feito o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este, surge mais um noutro lugar. Chegou o momento então de tentar uma abordagem diferente.

É certamente difícil realizar um movimento mundial pela paz de espírito, mas é a única alternativa. Caso houvesse outro método mais fácil e prático, seria melhor, porém não há. Se com armas pudessemos chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva paz, mas tal é impossível.

As armas não permanecem empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da transformação interior. E, mesmo que essa transformação não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que, apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco de que tal visão seja considerada pouco realista, vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá, expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque mais pessoas têm sido receptivas a elas.

Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com o seu bem-estar. Mesmo que você não possa sacrificar-se inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar os seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão, em última análise, você é quem irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. O nosso próprio cérebro, o nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade."
S. S. Dalai Lama

15 de setembro de 2011

Cântico do Zazen...



"Todos os seres, por natureza, são buddhas,
Assim como o gelo, por natureza, é água;
Fora da água, não há gelo,
Fora dos seres, não há buddhas.

É triste que as pessoas ignorem a verdade tão próxima
E a procurem tão longe;
Como alguém chorando de sede no meio d'água,
Como a criança de um lar rico vagando entre os mendigos.

Perdidos nos caminhos obscuros da ignorância,
Vagamos pelos seis mundos,
De um caminho escuro para outro;
Quando nos libertaremos do nascimento e da morte?

Por isso, a meditação do Mahayana merece o louvor mais elevado.
A generosidade, a ética e todas as outras perfeições,
Assim como a repetição, o arrependimento e o treinamento,
Tudo isso tem sua fonte no Zazen.

O mérito daqueles que praticam a meditação, mesmo que apenas uma vez,
Purifica os incontáveis erros praticados no passado sem início;
Então, onde estão todos os caminhos obscuros?
A própria terra pura não está distante.

Aqueles que ouvirem esta verdade, mesmo que apenas uma vez,
E a ouvirem com um coração de humildade,
Estimando-a, reverenciando-a,
Obterão méritos sem fim.

Ainda mais, aqueles que se dedicam
E realizam a própria natureza —
A própria natureza que é a não-natureza —
Vão muito além dos meros conceitos.

Aqui, causa e efeito são o mesmo, o caminho não é dois nem três;
Com a forma da não-forma, indo e vindo, nunca estamos perdidos.
Com o pensamento do não-pensamento,
Cantos e danças são a voz do Dharma.

Ilimitado e livre é o céu do samadhi, brilhante é a lua cheia das quatro sabedorias;
Realmente, o que está perdido agora?
O Nirvana está bem aqui, diante de nossos olhos,
Este próprio lugar é a Terra do Lótus, este próprio corpo é o Buddha."
Zazen Wasan - Texto tradicional Zazen atribuido a Hakuin Zenji

O Amor a grande alquimia...


"No amor, o ego não pode existir.
O amor é algo muito mais verdadeiro, muito mais autêntico do que você.
É por isso que você sentirá que as coisas começam a ficar um pouco loucas - porque você não pode controlá-las. O controlador não existe mais. Quando o ego não está presente, quem está ali para disciplinar? Então você está num caos.

Mas esse caos é muito mais belo do que o ego feio.

Desse caos todas as estrelas nascem. Desse caos você nasce outra vez. É um renascimento. Todo caso de amor é um novo nascimento. Portanto não o considere negativo. Não pense que você está perdendo algo no amor - você não tem nada a perder. (...)

Assim essa é a primeira coisa a ser compreendida: não escolha o ego, escolha sempre o amor. Quando for uma questão entre o real e o irreal, escolha o real, mesmo que às vezes o real traga inconveniência. Ele traz inconveniência. Nós escolhemos o irreal porque ele é conveniente - por nenhuma outra razão o escolhemos. Há apenas uma razão: ele é conveniente.

Você terá que passar pela inconveniência...isso é o que significa ser iniciado num caminho.

Escolha sempre o real, por pior, mais doloroso e destrutivo que pareça. Mesmo que pareça ser a morte, escolha-o - e você será beneficiado por isso. Nunca escolha o confortável, o conveniente, o burguês; caso contrário você viverá a vida de uma pessoa hostil – se você for afortunado; ou a vida de um impostor, se não for tão afortunado; ou, se não for afortunado de modo algum, a vida de um zumbi.

O amor lhe tira do seu ego, do seu passado da sua vida padronizada; por isso parece ser uma confusão.
Mas isso é bom. Não há nada com que se preocupar. Perca o ego. Ficar louco de vez em quando é uma necessidade básica para permanecer são.

Se você estiver sempre são, então sua sanidade é suspeita. É bom tirar umas férias da sanidade. De vez em quando esqueça-se tudo sobre sua sanidade, tudo sobre seus regulamentos, disciplina, comportamento controlado, e todos esses absurdos. De vez em quando tire férias, relaxe e enlouqueça.

Se você fica um pouco louco conscientemente, totalmente alerta, vai ser uma experiência incrível. E você nunca está em perigo. Quando você enlouquece conscientemente, você pode voltar. Você sabe como entrou nisso e sabe sair disso.

A pessoa que é sempre sã, não é livre...e a pessoa que é sempre insana, também não é livre. Mas a pessoa que pode oscilar da sanidade para a insanidade, e pode oscilar facilmente, suavemente, sem nenhuma barreira, tem uma grande liberdade. Essas são as pessoas que souberam o que é a vida.
Todos os místicos são loucos, e todas as pessoas loucas poderiam ter se tornado místicas, mas elas perderam a oportunidade. E quando você vai por si mesmo, você pode voltar.(...)
Portanto, entre nisso. Não tenha medo. Tudo o que você perde, não vale a pena manter. O amor é uma grande alquimia."
Osho em Sufis: The People of Path V

14 de setembro de 2011

O Sagrado incomunicável...


"Meditação é a atenção em que existe um estado de consciência, sem escolha, do movimento de todas as coisas – o canto dos pássaros, o serrote elétrico, cortando a madeira, a agitação das folhas, o riacho barulhento, o menino gritando, os sentimentos, os motivos, os contraditórios pensamentos, e, indo mais para o fundo, a percepção da consciência total. Nesta atenção deixa de existir o tempo, como o dia de ontem, que tem continuidade no dia de amanhã, as distorções e movimentos da consciência aquietam-se e silenciam.

Neste silêncio, há um imenso e incomparável movimento; movimento imperceptível, que constitui a essência do sagrado, da morte e da vida. Impossível é segui-lo, pois não deixa vestígio algum e é estático e silencioso, ele é a essência de todo movimento.

O fluxo exterior e interior da existência forma um único movimento. Com a compreensão do mundo exterior inicia-se o movimento interior, mas não em oposição ou em contradição entre si. Cessando o conflito, o cérebro, ainda que altamente sensível e alerta, aquieta-se. Somente então torna-se válido o movimento interior.

Deste movimento surge uma generosidade e uma compaixão que não resultam da razão ou do auto-sacrifício intencional.

A força e a beleza da flor estão em sua total vulnerabilidade. Os ambiciosos desconhecem o belo. A beleza está na percepção da essência de todas as coisas.
O pensamento é matéria e pode ser transformado em qualquer coisa, bela ou feia.

Existe, porém, o sagrado que não vem do pensamento, nem de um sentimento por ele reavivado. Não é reconhecível pelo pensar nem pode ser por ele utilizado ou concebido. A palavra ou o símbolo não podem definir o sagrado. Ele é incomunicável.

É um fato. Um fato é para se ver, mas o ato de ver não se processa através da palavra. Quando se interpreta um facto, ele deixa de ser um facto; torna-se algo inteiramente diferente. O “ver” é da mais alta importância. Encontra-se fora do tempo-espaço, é imediato, instantâneo. E o que se vê é sempre novo.

Não existe a repetição nem o processo gradual do tempo. Não existe lógica na verdade. A verdade não pode ser medida, avaliada. Só se pode medir e dimensionar aquilo que não é vivo.

Existe o medo. O medo nunca é uma realidade: vem sempre antes ou depois do presente ativo. Quando há medo no presente ativo, será isso medo? Está ali e não há como fugir dele, não há como escapar. Ali, no momento presente, há a atenção total ao momento de perigo, físico ou psicológico. Quando há atenção total, não há medo. Mas o próprio facto da desatenção gera o medo; o medo surge quando há uma evitação do fato, uma fuga; então a fuga é, ela própria, o medo.

Porventura uma das causas do medo é a comparação? O comparar-se com outra pessoa? Obviamente sim. A pergunta, portanto, é: será você capaz de viver uma vida sem se comparar com ninguém? Compreende o que digo? Ao se comparar com alguém, seja em termos ideológicos, psicológicos ou mesmo físicos, há o anseio de tornar-se aquilo; e há o medo de não conseguir. é o desejo de preencher e você teme não ser capaz de preencher. Onde há comparação haverá o medo.

Não há nada que conduza à verdade. Temos que navegar por mares sem roteiros para encontrá-la.

A escolha é onde existe confusão. Para a mente que vê claramente, não há necessidade de escolha, há ação. Penso que muitos problemas resultam de dizer que somos livres para escolher, a escolha significa liberdade. Pelo contrário, eu diria que a escolha significa uma mente confusa e, por conseguinte, não livre.

As ideias não são a verdade, a verdade é algo que deve ser testado diretamente, de momento a momento. Não é uma experiência desejada, que é pura sensação. Só quando somos capazes de transcender o feixe de ideias, que é o eu, que é a mente, que tem uma continuidade parcial ou integral; só quando somos capazes de ultrapassá-lo, quando o pensamento está em absoluto silêncio, só então existe um "estado de experimentar". Pode-se então saber o que é a verdade.

A história da humanidade está em você: a vasta experiência, os medos profundamente arraigados, as ansiedades, a dor, o prazer e todas as crenças que o homem acumulou através dos milênios. Você é esse livro. Ele não foi publicado por nenhum editor; não está à venda.(...) Sem ler esse livro cuidadosa, paciente, hesitantemente, você nunca será capaz de transformar a sociedade em que vivemos, a sociedade que é corrupta, imoral. (...)

Todos os seres humanos criaram essa sociedade e, enquanto a sociedade não for transformada, haverá mais corrupção, mais guerra e destruição da mente humana. Assim, para ler esse livro que é a própria pessoa, é preciso aprender a arte de escutar o que o livro está dizendo. Escutar implica não interpretar. Apenas observar, como você observa uma nuvem. Não se pode fazer nada a respeito da nuvem ou das folhas da palmeira balançando ao vento, ou em relação à beleza do pôr-do-sol; não se pode alterá-los. Da mesma forma, é preciso aprender a arte de escutar o que o livro está dizendo. O livro é você; ele revelará tudo.

O importante é o ser e não o vir a ser; um não é o oposto do outro, havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser. Ao findar o esforço para vir-a-ser, surge a plenitude do ser, que não é estático; não se trata de aceitação; o vir-a-ser depende do tempo e do espaço.

O esforço deve cessar; disso nasce o ser que transcende os limites da moral e da virtude social, e abala os alicerces da sociedade. Esta maneira de ser é a própria vida, não mero padrão social. Lá, onde existe vida, não existe perfeição; a perfeição é uma ideia, uma palavra; o próprio ato de viver e existir transcende toda forma de pensamento e surge do aniquilamento da palavra, do modelo, do padrão."
Krishnamurti em A Percepção da Beleza

13 de setembro de 2011

Viver sem controle...


"Ouçam esse poema de W. Liquorman:

Você acredita que pode fazer uma diferença.
Você acredita que a sua dor é culpa sua.
Você acredita que pode fazer melhor.
Você acredita que é responsável.
Você acredita em todo o tipo de histórias.
Ram Tzu sabe isso:
Quando Deus quer que você faça algo, você acredita que é a sua própria ideia.

Como seria se pudéssemos olhar para a vida e os seus acontecimentos, não como fazedores, não como responsáveis, mas, de verdade - vou usar uma palavra aqui que é totalmente imprópria psicologicamente para as pessoas saudáveis e estabelecidas no sistema, mas entenda-me como puder -, como totalmente irresponsáveis?

Você não faz as coisas, as coisas acontecem! É claro que se pudesse, você faria melhor. Eu não tenho dúvida disso. Eu sei que você não magoaria ninguém, não faria nada errado... mas como?

Tem uma história que ilustra perfeitamente o que estamos abordando.

Imagine essa cena: Um barco, com vinte assentos, vinte pessoas dentro. Cada assento tem um timão e cada pessoa está dirigindo o barco como seu timão. Está tudo indo bem, o barco desce o rio, e todos dirigem na mesma direção. Eis que surge uma curva para a direita, e todos giram o timão para a direita, e o barco segue. Cada um vai tendo a nítida sensação interna de poder, de controle, de determinação, de direcionamento, enfim...
O barco vai para a esquerda, e todos seguem o mesmo impulso, virando para a esquerda, e aquela sensação de realização cresce. Porém, há vinte curvas para baixo, surge uma bifurcação e fica aquele impasse: você e mais uma meia dúzia põem o timão para a direita, e o barco vai para a esquerda.
E você fica ali, sentado, numa grande crise existencial, porque fez tudo certo, e vinha dando tudo tão certo... e agora você chegou nessa bifurcação, fez o movimento na direção em queria que o barco fosse, e o barco não obedeceu. E não se dá conta de que o timão que você está segurando, não dirige absolutamente nada. Ele está solto. Há uma outra força movendo o barco.

Participante - Isso me faz lembrar os carrinhos dos parques de diversão...

Mas é isso mesmo! É um grande parque de diversão - era isso o que eu queria dizer.
Nós estamos num parque de diversão.
Você paga, mas não tem nenhum controle sobre aonde vai parar no instante seguinte."

12 de setembro de 2011

Tristeza e Felicidade...


"Osho, como faço com os pensamentos confusos, misturados, contraditórios que vivem passando pela minha mente? Ora Alegria, ora tristeza. É tudo como uma montanha russa e eu nunca sei como vou me sentir daqui a pouco."

"Observe os seus pensamentos, observe as suas emoções e só de observá-los você começará a tomar consciência de um novo fator: o observador. Essa conscientização é o início de uma revolução interior; você é um observador, não a coisa observada. Você não é a mente tagarela, nem o corpo, mas algo escondido bem dentro: você é o observador.

O observador observa todos os altos e baixos da vida. Não há mais necessidade de se identificar. Se está na pior, você não precisa se agarrar a tristeza, a infelicidade, pois o observador é só o observador, ele não é a "coisa" observada. Se está numa fase boa, leve,também não precisa figar egocêntrico: você é só o observador de tudo que acontece, dentro e fora. Aos poucos todo o tumulto ao seu redor começa a diminuir.

As emoções não são o problema. Elas vêm e vão, não há nada errado nelas. O problema é a sua identificação com as emoções, você quer umas e rejeita outras, quando na verdade elas são ambas picos e vales.

Não rejeite a tristeza, nem se apegue a felicidade, desidentifique-se de ambas.
Quando a tristeza vier, aceite-a, ouça sua canção, ela tem algo para lhe dar. Trata-se de uma dádiva que felicidade nenhuma pode lhe oferecer, só a tristeza pode.
A felicidade é sempre superficial, a tristeza é sempre profunda. A felicidade é como uma onda, a tristeza é como a profundidade do oceano. Na tristeza você fica consigo mesmo, sozinho; na felicidade você começa a acompanhar outras pessoas, começa a compartilhar.

A tristeza tem sua canção, ela é um fenômeno extremamente profundo. Aceite-a. Aproveite-a. Prove-a sem nenhuma rejeição e você verá que ela lhe traz muitas dádivas que nenhuma felicidade pode trazer. A tristeza lhe traz profundidade, e quem nunca viveu seu profundo é uma pessoa frívola, superficial, que não conhece seu santuário interior.

Não rejeite nada, nem uma nem outra, não rejeite seus pensamentos, apenas observe tudo acontecendo a você.
A sua desidentificação é meditação.
Desidentifique-se de tudo até que reste apenas o puro observador. Fique sempre na posição de observador, faça o que fizer, aconteça o que acontecer.
Você será um novo homem, com um frescor, com uma vida que nunca existiu antes, com algo de eterno em seus olhos, algo da existência imortal em todos os seus gestos."
Osho em O Livro do Viver e do Morrer.

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