11 de setembro de 2011

Abrindo as portas do céu...


"Quando pensamos nesse sentido de "eu", esse sentimento, ou essa inclinação que nos faz afirmar a palavra "eu", percebemos que é difícil apontar o que esse "eu" é, qual é o seu caráter. Pois ele é algo que está além da compreensão humana. É por isso que uma pessoa que deseja explicar, mesmo para ela mesma, o que ela é, aponta para o que está mais perto de si declarando: "Esse é quem tenho chamado de 'eu'".

Portanto cada alma que, por assim dizer, se identificou com alguma coisa, identificou-se com o corpo, seu próprio corpo, pois é a coisa que a pessoa sente e percebe ser imediatamente próxima a ela, e a qual é inteligível com o próprio ser dela.
Então o que uma pessoa conhece como a primeira coisa é seu corpo. Ela chama a si mesma de seu corpo, ela identifica a si mesma com seu corpo. Por exemplo, se alguém pergunta a uma criança: "cadê o nenê?", ele irá apontar para seu corpo. É isso que ele pode ver ou imaginar de si mesmo. Isso forma uma concepção na alma. A alma conhece isso profundamente, de maneira que após essa concepção todos os outros objetos, pessoas ou seres, cores ou linhas, são chamados por diferentes nomes, e a alma não concebe eles como sendo ela mesma, pois ela já tem uma concepção de si mesma: este corpo, que ela conheceu ou imaginou primeiro ser ela mesma. Tudo o mais que ela vê, ela vê através de seu veículo que é o corpo, e chama algo próximo a ela, de algo separado e diferente.

Dessa maneira a dualidade na natureza é produzida. Disso surge o "eu e você". Mas como o "eu" é a primeira concepção da alma, ela está totalmente preocupada com esse "eu"; com todo o resto ela está apenas parcialmente preocupada.

Todas as outras coisas que existem aparte deste corpo que ela reconheceu como seu próprio ser, são consideradas de acordo com sua relação com este corpo. Essa relação é estabelecida ao chamar elas de "meu" ou "minha", aquilo que está entre "eu" e "você": "Você é 'meu' irmão, ou 'minha' irmã, ou 'meu' amigo". Isso cria um relacionamento, e de acordo com esse relacionamento o outro objeto ou pessoa permanece mais perto ou mais longe da alma.

Todas as outras experiências que a alma tem no mundo físico e nas esferas mentais tornam-se uma espécie de mundo ao redor dela. A alma vive no meio dele, ainda assim a alma em nenhum momento sente com coisa alguma o sentimento de que isso sou "eu". Esse "eu" ela reservou e aprisionou numa única coisa: o corpo. Todas as outras coisas a alma pensa que é algo mais, algo diferente: "Está perto de mim, é querido a mim, está próximo a mim, porque está relacionado. É meu, mas não sou eu". O "eu" permanece como uma entidade separada, segurando, atraindo, coletando tudo que a pessoa obteve e que constitui seu próprio mundo.

Conforme tornamo-nos mais contemplativos na vida, também essa concepção de "eu" fica mais rica. Torna-se mais rica desta maneira, fazendo com que a pessoa veja: "Não é 'meu' apenas o corpo, mas também são 'meus' os pensamentos que tenho; a imaginação é 'minha' imaginação; meus sentimentos também são parte do meu ser. Portanto não sou apenas o meu corpo, sou minha mente também".

No próximo passo que a alma dá no caminho em direção à realização, ela começa a sentir: "Eu não sou apenas um corpo físico, mas também uma mente". Essa realização em seu esplendor faz a pessoa declarar: "Eu sou espírito", que significa: corpo, mente e sentimento, todos juntos com os quais eu identifico a mim mesma - são esses que constituem o ego.

Quando a alma segue adiante no caminho do conhecimento ela começa a descobrir: "Sim, há algo que sente a si mesmo, que sente a inclinação de chamar a si mesmo de 'eu'". Existe um sentimento de "eu" (I'ness), mas ao mesmo tempo tudo aquilo com o que a alma se identifica não é ela mesma. No dia em que essa ideia brota no coração de um homem ele iniciou sua jornada no caminho da verdade. Então a análise começa, e ele começa a descobrir: "Quando esta é 'minha' mesa e esta é 'minha' cadeira, tudo o que posso chamar de meu pertence a mim, mas não sou eu realmente". Então ele também começa a ver: "Eu identifico-me com este corpo, mas este é o 'meu' corpo, assim como digo 'minha' mesa, ou 'minha' cadeira, portanto o ser que está dizendo 'eu' na realidade está separado. Ele é algo que pegou até mesmo este corpo para seu uso; este corpo é apenas um instrumento". E ele pensa: "Se não é este corpo que eu posso chamar de 'eu', então o que mais posso chamar? É com a minha imaginação que eu deveria me identificar?"

Mas até mesmo ela a pessoa chama de "minha" imaginação, "meu" pensamento, ou "meu" sentimento. Portanto, mesmo o pensamento, a imaginação, ou o sentimento não são o "Eu" real. O que afirma "eu" permanece o mesmo, mesmo após ter descoberto a falsa identidade.

Lemos no décimo pensamento Sufi que a perfeição é alcançada através da aniquilação do ego. O falso ego é aquilo que não pertence ao ego real, e aquilo que esse ego erroneamente concebeu ser o seu próprio ser. Quando isso é separado ao se analisar a vida melhor, então o falso ego é aniquilado. A pessoa não precisa morrer para isso. De modo a aniquilar este corpo, aniquilar esta mente, uma pessoa tem que analisar a si mesma e ver: "Aonde fica o 'eu'? Ele fica como um ser remoto, exclusivo? Se ele é um ser remoto e exclusivo então ele deve ser encontrado". Todo o processo espiritual consiste em encontrá-lo.

Uma vez que isso é realizado, o trabalho do caminho espiritual está feito. Da mesma maneira que para que os olhos vejam a si mesmos é necessário fazer um espelho para ver o reflexo dos olhos, também para fazer esse ser real manifestar-se, este corpo e mente foram feitos como um espelho: para que nesse espelho esse ser real possa ver a si mesmo e realizar seu ser independente. O que temos que alcançar através do caminho da iniciação, através do caminho da meditação, através do conhecimento espiritual é realizá-lo ao nos tornarmos um espelho perfeito.

Para explicar essas ideias os dervixes contaram uma história: Um leão vagando pelo deserto encontrou um filhote de leão brincando com as ovelhas. Aconteceu que aquele leãozinho havia sido criado com as ovelhas, e assim nunca teve a chance ou a oportunidade de realizar o que ele era. O leão ficou muito surpreso de ver o jovem leãozinho fugindo com o mesmo medo do leão que as ovelhas. Ele pulou entre o rebanho das ovelhas e rugiu: "Pare, pare", mas as ovelhas correram, e o leãozinho também. O leão perseguia apenas o leãozinho, não as ovelhas, e disse: "Espere, quero falar com você". O filhote respondeu: "eu tremo, tenho pavor, não posso ficar diante de você". "Por que você está fugindo por ai com as ovelhas? Você é um pequeno leão!". "Não, sou uma ovelha. Eu tremo, e tenho pavor de você. Deixe-me ir. Deixe-me ir com as ovelhas!". "Venha comigo", disse o leão, "venha comigo, Vou te levar e te mostrar o que você é antes de deixar você ir". Tremendo e ainda indefeso, o leãozinho seguiu o leão para um espelho d'água. Lá o leão disse: "Olhe para mim, e olhe para você. Não somos próximos, não somos parecidos? Você não é como as ovelhas, você é como eu".

Por todo o processo espiritual o que aprendemos é a desiludir esse falso ego. A aniquilação desse falso ego é o seu desiludimento. Quando uma vez ele é tirado dessa ilusão então o verdadeiro ego realiza seu próprio mérito. É nessa realização que a alma entra no reino de Deus. É nessa realização que a alma é nascida novamente, um nascimento que abre as portas do céu."
Hazrat Inayat Khan em Ensinamentos Sufis II

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