30 de janeiro de 2013

Vivendo a partir do Centro...

Recebi um email muito interessante de uma amiga e seguidora do blog, que me coloca uma questão importante e hoje quero compartilhar com vocês, pois acredito que seja a dúvida de muitos de vocês também.

Diz ela que, desde que começou a meditar, ( isso já tem alguns meses, com práticas diárias) , ela tem notado que sua mente está bem mais calma, seus sentimentos mais suaves, não perde a calma por qualquer coisa, e que sua vida tem estado bem melhor por isso. 

Mas também tem notado que suas ambições e vontades de superação e progresso no seu emprego tem diminuído; tem notado que ultimamente não tem se importado tanto com promoções, metas e que frente aos seus colegas tem sido vista como uma pessoa que não pretende alcançar cargos e salários melhores. Isso tem feito com que ela fique insegura e se achando "errada" frente aos seus colegas de trabalho...

Pois bem, com a mente mais calma, viver de forma mais solta e relaxada é mesmo uma quebra de paradigmas. Se a vida que levamos sempre foi ansiosa, cheia de metas e desafios, muitas coisas a serem feitas ao mesmo tempo, agitação e complexidade, claro, quando você muda a sua mente, sua vida inteira tende a mudar também; afinal, o mundo é um grande espelho....
Se havia aceleração, é provável que você levará o dia mais relaxada, mais solta e não deixando de fazer as coisas que precisa, mas sendo feitas com mais soltura, mais consciência e leveza; menos exigência e mais amor em tudo que você fizer.

O trabalho burocrático é estressante, as empresas vivem em meio a metas e compromissos, contratos, exigências; as pessoas estão sempre dispostas a se superarem e a buscarem postos mais e mais altos, mais e mais ganho e mais e mais destaque. Esse circulo vicioso é o movimento da mente agitada... gira gira sem parar...

A meditação nos leva ao nosso centro, nos leva a paz e ao silencio perenes, nossa natureza original. Saímos do pêndulo da mente ( bom-mau, forte-fraco, certo-errado...) e saímos dessa ambição desenfreada também.
A partir desse centro existe uma atenção relaxada, existe uma inteligência brilhante, mas ela acontece em um ritmo diferente do ritmo da mente agitada. Existe uma profundidade que é típica dos que meditam, um centro que faz com que todas as tarefas sejam feitas a partir desse centro. Por mais efusivas que sejam, pode-se estar celebrando, dançando, cantando, não importa, aquele centro permanece presente, e uma outra pessoa que esteja centrada reconhece no mesmo instante uma outra. Pois tudo acontece a partir desse centro. E o trabalho, seja ele qual for, também.

A mudança de percepção acontece para todos que se iniciam na meditação. O mundo é a mente, se a mente muda, claro, o mundo muda. Passamos a perceber coisas que antes não percebíamos, passamos a valorizar coisas que antes não valorizávamos, e também coisas que antes para nós, tinham uma grande importância de uma hora para outra, deixam de ter.

Osho, sempre coloca esta questão, como se o mundo fosse um grande parque de diversões. Vamos escolher os brinquedos que estão adequados a nossa mente, naquele instante. Quando a mente muda, mudamos os brinquedos também. Ele diz que a criança, acha tudo interessante, existe nela uma ansiedade em conhecer, experimentar, vivenciar... 
O Sábio já vive a dimensão da saciedade, já experimentou, vivenciou e se deliciou, e alcançou a dimensão da paz e da observação. Se sente bem sendo a própria vida em fluxo.Tudo acolhe, mas a nada se prende. Desfruta da vida, sem nenhum apego, sem nenhuma ambição, sem nenhum objetivo. Já alcançou a Verdade. Já está pleno em Si mesmo, não existe nenhum lugar a ir...está em casa.

Este momento em que nossa amiga vive, é um momento mágico, e diria da maior importância. Ela está começando a perceber o vazio das suas antigas referências, e como é "raso" e confuso todo esse mundo da mente.
Aprofundar na meditação, nos abre as portas da beleza sutil do momento presente, nos coloca frente e frente com todas as possibilidades que a vida nos trás e que independem de qualquer comparação, cobiça, ambição, competição..
É um momento de retorno à fonte...
E a Natureza inteira se alegra quando isso acontece, afinal, foi para isso que ela investiu toda sua energia, todo o seu amor...a consciência Búdica está nascendo... o reconhecimento de que sempre fomos TOTALIDADE e nenhuma "limitação" da mente pode sequer nos tocar...são apenas pequenas nuvens passageiras, que jamais tocarão o céu...
Amor
Lilian

29 de janeiro de 2013

Saudade...

O que causa em nós a saudade,
o vazio,
dor,
lágrimas,
horizontes,
silencio,
não sei...

A saudade acontece aos corações que amam
e amam muito
se perdem no amor
e no amar..

A saudade não tem rosto
nem pertence a ninguém,
é coração que chama
e não encontra..

Saudade acontece...

Acontece e nos tira o sono, 
nos tira a paz,
nos corrói 
e nos faz doer...

Revivemos cenas
revivemos pessoas
revivemos gestos
amores,
revivemos lugares,
revivemos nós mesmos, em outras eras
revivemos aquilo que nos toca 
a alma...

A saudade tem vida própria,
e nos coloca frente a frente com os apelos,
do nosso terno
coração...

Se nos perdemos nela
sofremos,
Se bebemos da sua beleza,
temos a chance de amarmos ainda mais..

E sem apego percebemos,
que o amor nos liga e nos envolve
num retorno infinita pela Unicidade.
E a saudade é em si mesma, essa lembrança
de que o amor é um laço que nunca morre,
e que nunca nos afastamos
nem nos perdemos
uns dos outros...
Somente a ilusão da separação 
acontece...
Para o coração,
amor é eternidade...

No fundo, 

na essência,
o Coração é sempre UM
e a saudade acontece 
sutilmente,
para que nunca
nos esqueçamos disso...
Amor
Lilian


Com amor a todas as famílias de Santa Maria, RS neste momento de profunda dor... e saudade...

28 de janeiro de 2013

Sobre o Ego e a Entrega - Osho 2/2

“Você diz : Eu me entrego para alcançar o meu objetivo. Eu busco me entregar para obter a liberdade.”

Mas você é livre! Jamais você esteve aprisionada. 
Você é livre, mas de novo há o velho problema: você deseja a liberdade, mas não compreende que você só pode ser verdadeiramente livre quando for livre de si mesma – não existe outra liberdade além dessa. 


Todas as vezes que você pensa sobre a liberdade, você imagina que o seu “eu” estará lá e será livre. 
Mas você não vai estar lá, somente a liberdade estará. Liberdade significa que liberdade do próprio “eu”, ao invés de “liberdade usufruída pelo eu”. No momento em que a prisão desaparece, o prisioneiro também desaparece, porque o prisioneiro é a prisão! 

Prisioneiro e prisão são um. 
No momento em que você deixar a prisão, você também não será. Haverá apenas um puro céu, puro espaço. Esse espaço puro é chamado nirvana, moksha, liberação.
Compreenda o que é liberdade, ao invés de tentar obtê-la.
“Eu busco me entregar para obter a liberdade.”

Nesse caso, você está usando a entrega como um meio, enquanto que a entrega é o objetivo, é o fim em si mesmo. Quando eu digo que a entrega é a nossa meta, não estou dizendo que a entrega tem de ser alcançada em algum lugar no futuro. Eu estou dizendo que a entrega não é uma ação, não é uma ferramenta, não é uma técnica, enfim, não é um meio a ser empregado; ela é uma finalidade em si mesma. Não é que a entrega o conduza à liberdade, entrega é liberdade! 

Elas são sinônimos, significam exatamente a mesma coisa. Você está olhando para a mesma coisa de dois ângulos diferentes; (...)
Sua entrega não é real nem irreal. Não se trata nem mesmo de entrega, absolutamente. Nem sequer é irreal.

Você diz: “Eu consigo testemunhar isso, mas o problema é que é justamente este ‘eu’ que está testemunhando. Portanto, tudo o que decorre a partir desse “eu” que testemunha só pode ser um reforço para o ego. Eu me sinto enganada pelo meu ego.”

Quem é este “eu” que você diz estar se sentindo enganado pelo ego? É o próprio ego. O ego é tal que ele pode dividir a si próprio em vários fragmentos, em várias partes, e então começa o jogo. Você é ao mesmo tempo o caçador e a caça. Exatamente como um cachorro tentando agarrar a própria cauda, saltando de um lado para o outro e contorcendo-se. E você 
olha e vê a absurdidade disso – mas você vê o absurdo, o cão não pode vê-lo. 

Quanto mais ele acha difícil agarrar a cauda, mais louco ele fica, e mais 
ele salta. E quanto mais rápido e alto o cão salta, mais alto e mais e rápido é o salto da cauda. E o cão não consegue conceber o que está acontecendo: 
ele, um grande e exímio apanhador, não consegue agarrar uma simples cauda?
Isso é exatamente que está acontecendo com você. É o “eu” que se empenha em apanhar, e que o tempo todo é o caçador e a presa. Perceba como isso é ridículo e, mediante essa própria percepção, livre-se de tudo isso.

Não há nada a ser feito, absolutamente – nem mesmo uma única coisa. Eu digo: vocês já são aquilo que você desejam se tornar. Vocês são Budas, jamais vocês foram outra coisa. Basta que percebam.
E quando você diz “eu consigo testemunhar”, de novo isso é o próprio ego. Sempre que você empreender a ação de testemunhar, o “eu” será criado novamente, porque o ato de testemunhar também é um fazer, há um esforço envolvido. Relaxe. No relaxamento – quando não há nada a ser observado e ninguém para observar, ou seja, quando você não mais estiver integrado às divisões da dualidade – então surge uma diferente qualidade/espécie de testemunhar. Haverá o testemunhar, mas não haverá a ação de testemunhar. 

“eu” não terá qualquer ação para praticar. E o “eu” somente pode sobreviver se houver uma ação ao qual possa se agarrar, porque é da ação que ele retira o seu senso de “eu sou”. Assim, diante desse tipo de testemunhar o ego é impotente. Lembre-se: o testemunhar existe e ocorre por si mesmo, tendo uma característica suave e passiva. Ele não é agressivo. 

Se houver ação, o testemunhar se torna agressivo: o esforço passa a ser necessário, você tem de estar tenso. Esteja à vontade, descontraído, relaxado. 
Fique no momento presente. Simplesmente esteja aí, permitindo que tudo seja e ocorra por si mesmo. 
Nessa consciência em que você está apenas aí sentado sem fazer nada, a primavera chega e a grama cresce por si só.


Esta é a síntese de toda a abordagem budista: O que quer que você faça apenas criará e reforçará ainda mais o fazedor (ego) – incluindo testemunhar, pensar, entregar-se. Qualquer coisa que você fizer vai criar a armadilha. Nada é necessário a ser feito de sua parte. Apenas ser... e deixar as coisas acontecerem. Não tente controlar, não tente manipular. 

Deixe que a brisa passe por você, permita que os raios solares cheguem, permita a vida dançar, e quando chegar o momento deixe que a morte venha 
dance a sua dança em você também.

Para mim esse é o significado de sannyas: não é algo que você faz, e sim quando você abandonou todo o fazer porque percebeu a absurdidade disso tudo. Quem você pensa que é para fazer alguma coisa? Você é somente uma onda nesse imenso oceano. Num dia você é, noutro dia você desaparecerá; o oceano continuará. Por que você deveria ficar tão preocupado? Você surge e desaparece. Enquanto isso, durante esse pequeno intervalo, você se torna tão 
preocupado e tenso, que você toma sobre si todos os fardos, e carrega pedras em seu coração – e por razão nenhuma.

Vocês são livres neste exato momento!
Eu os declaro iluminados neste exato momento. Mas vocês não confiam em mim. Vocês dizem: “Está bem, Osho, mas apenas diga-nos como nos tornamos iluminados.”

Esse impulso de querer se tornar, de querer alcançar e de desejar, segue saltando sobre cada objeto com que você se depara. Às vezes ocorre com o dinheiro, às vezes com Deus. Às vezes com o poder, às vezes com a meditação – o objeto pode ser qualquer um, e você logo o agarra. Mas não se apegue, não possua; o desprendimento é o caminho para viver a vida real, a 
vida verdadeira.

Deixe as coisas acontecerem, deixe a vida ser um acontecimento, e haverá apenas alegria, regozijo, júbilo – de modo que jamais poderá haver uma 
frustração, porque você nunca esperou por nada em primeiro lugar. O que quer que venha é bom, é bem-vindo. Não há o fracasso, nem o sucesso. O jogo 
do sucesso e do fracasso foi descartado. O sol aparece pela manhã e o acorda, e a lua surge à noite cantando uma canção de ninar e você vai dormir. A fome vem e você come, e assim por diante. Isso é o que os mestres Zen querem dizer quando declaram: “Se estiver com fome, coma; quando estiver com sono, vá dormir. Não existe outro caminho.”

E eu não estou lhe ensinando a ser inativo. Eu não estou dizendo para não ir trabalhar. Não estou dizendo para deixar ganhar o seu pão, nem estou dizendo para renunciar ao mundo e depender dos outros – não, de modo algum. Mas não seja um fazedor. Sim, você tem de comer quando está com fome, e para comer você tem de ganhar o seu pão – mas torne-se alerta de que não existe ninguém fazendo isso. É a fome em si que está agindo, 
mas não há ninguém fazendo isso. É a sede em si que o leva a procurar por um poço ou por um rio. É a própria sede agindo; não existe ninguém para estar 
com sede. 

Descarte de sua vida os nomes e pronomes e deixe que apenas os verbos existam.Buda diz: A verdade é igual a quando você vê um dançarino: o dançarino não existe, apenas a dança. 
Quando você se depara com um rio, em verdade não há o rio, mas apenas o fluir do rio. Existe o verbo e não o nome. Quando você vê uma árvore, não há a árvore, existe apenas o processo contínuo e constante de “ser” da árvore. Quando você olha para um sorriso, não há ninguém sorrindo, há apenas o 
sorriso: o verbo do sorrir está acontecendo. A vida é um processo.

Mas nós fomos acostumados a pensar sempre em termos de substantivos: nomes consumados, estáticos. Isso cria problema. Na vida nada está concluído ou estagnado – tudo é um fluxo, um fluir. Aprenda a viver com isso, flua com isso, flua com este rio, e nunca seja um fazedor. Mesmo quando você estiver fazendo, não seja um fazedor. Apenas o fazer existe, mas não há o agente. Quando esse insight se estabelecer profundamente em você, então não haverá nada mais.

A iluminação não é algo como um objetivo a ser alcançado. Ela é esta própria vida simples e comum que o rodeia. Mas quando você não está se esforçando ou lutando ocorre um milagre:esta vida comum torna-se extraordinariamente bela. 
Então as árvores são mais verdes, então os pássaros cantam em tons mais ricos, e tudo o que está acontecendo ao redor é precioso. Pedras comuns são diamantes.
Aceite esta vida tão simples e comum. Basta descartar o fazedor, o “eu”. E quando eu digo para descartar o fazedor, não se torne nesse ato um fazedor! Basta olhar para ele e compreendendo a sua irrealidade. E ele desaparece."

Osho em The Heart Sutra
Primeira parte clique aqui 

27 de janeiro de 2013

Sobre o Ego e a Entrega - Osho 1/2

"A primeira coisa a lembrar sobre a entrega é: você não pode fazê-la; a entrega não é um fazer. Você pode evitar o seu acontecimento, mas você não pode fazer com que ela ocorra. 

Ela está além do alcance de nosso fazer. O poder que temos sobre a entrega é apenas negativo: temos o poder de impedi-la, mas não temos o poder de fazer com que ela aconteça.

Entregar-se não é algo que você possa fazer. Se você puder, não se trata de entrega, porque o fazedor está presente. A entrega/rendição é um grande entendimento de que “eu não sou”. 
A rendição é uma visão (insight) de que o ego não existe, de que “eu não estou separado”. A entrega não é um ato, mas uma compreensão.

Em primeiro lugar você é falso, a separação é falsa. 
Nem por um único momento você pode existir separado 
do universo. 
A árvore não pode existir se estiver desenraizada/desligada da terra. A terra não pode existir se o sol desaparecer amanhã. A árvore não pode existir se água não estiver chegando às suas raízes. A árvore não pode existir se não puder respirar. A árvore está enraizada em todos os cinco elementos – aquilo que os budistas denominam Skandhas. Avalokita... quando Buda chegou à visão transcendental, depois de ter passado por todos os estágios e ter ido além do mundo – de lá ele olhou para trás – o que ele viu? Ele viu apenas cinco agregados (acúmulos, combinações) com nada de substancial neles, apenas o vazio, shunyata.

A árvore não poderia existir sem que esses cinco elementos estivessem constantemente vertendo energia para ela. A árvore é apenas uma combinação desses cinco elementos. Se árvore começar a pensar “eu sou”, então haverá miséria para ela. E ela criaria um inferno para si mesma. Mas as árvores não são assim tão tolas, elas não carregam qualquer mente. 

Elas estão lá, e se amanhã elas desaparecerem, então simplesmente desapareceram. Elas simplesmente não se apegam, porque não existe um “alguém” para apegar-se. 

A árvore está constantemente entregue à existência. Por “entrega” quero dizer que ela nunca está separada, que nunca ocorreu a ela essa ideia estúpida de ego. 
E assim são os pássaros, as montanhas, as estrelas. Foi somente o homem que transformou a sua grande oportunidade de estar consciente para um estado de consciência-de-si-mesmo. Ser simplesmente consciente, ao invés de consciente de si mesmo – é disto que estou falando.

O ser humano é dotado de consciência. Se a consciência floresce e se expande, ela pode trazer-lhe a maior felicidade possível. Mas se alguma coisa
der errado e a consciência azedar, convertendo-se em consciência-de-si-mesmo, então um inferno é criado, a miséria é criada. Ambas as alternativas estão sempre abertas; cabe a você escolher.



A primeira coisa a ser entendida sobre o ego é que ele não existe. Ninguém existe na separação. Você é tão UM com o universo como eu sou, como Buda é, como Jesus é. Eu sei disso, você não sabe disso ainda. A diferença é apenas de reconhecimento. A diferença não é existencial, absolutamente não é! Assim, o que você tem de fazer é olhar e investigar essa ideia estúpida de separação. 

Agora, perceba que ao tentar se entregar você ainda está carregando a ideia de separação. Você está pensando “eu vou me entregar, agora eu vou me render”. Na entrega não existe nenhum “eu” – mas você pensa que existe. Isso arruinará todos os seus esforços.Explorando e investigando detalhadamente a ideia de separação, um dia você descobre que não está separado; assim, como você pode se entregar? Não há ninguém para se render! Nunca houve! Aquele que realiza a entrega simplesmente não existe, não está em lugar nenhum. Se você for para dentro de si mesmo, não encontrará em parte alguma um “eu” que possa se render. 

Esse é o momento em que afinal ocorre a rendição. Quando o “eu” que realiza a entrega não é encontrado (porque chegou-se à compreensão de que ele não existe), esse é o momento em que ocorre a entrega. Você não pode fazer. 
Se puder fazê-lo, trata-se de uma coisa falsa. E da falsidade decorre somente mais falsidade. 
Ao carregar a ideia “eu existo, eu sou” você é falso; por isso qualquer coisa que vier a fazer também será falsa. E uma falsidade leva à outra, que por sua vez conduz à outra, e assim por diante. Dentre todas a falsidade mais fundamental é o ego, a ideia “eu estou separado”.

Você diz: “eu me entrego para poder alcançar o meu objetivo.”
O ego está sempre orientado para um objetivo. É sempre ganancioso, está sempre se agarrando a algo. Ele está sempre em busca de mais e mais e mais; é essa ideia de “mais” que sustenta a vida do ego. 
Se você tem dinheiro, ele almejará ter mais dinheiro; se você tiver uma casa, ele desejará ter uma casa maior; se você tem uma mulher, o ego desejará uma mulher ainda mais bela. O ego sempre quererá mais. 

Ele tem uma fome incessante. O ego vive no futuro e no passado. Quando o ego está vivendo no passado, ele vive como um colecionador – “eu tenho isto, mais isto e aquilo outro”. Ele sente uma grande satisfação. “Eu tenho isto” – poder, prestígio, dinheiro. Essas coisas conferem um tipo de realidade 
a ele. Elas dão a ele a noção de que “se eu possuo estas coisas, então eu devo estar ali”; devido a tais coisas o ego consegue dizer “eu existo”. E quando o ego está vivendo no futuro, ele o faz através da ideia de “mais, mais e mais”. Assim, ele vive da memória e também do desejo.

O que é um objetivo? É um desejo: “eu tenho que chegar lá, tenho que ser aquilo, tenho que alcançar.” O ego não consegue viver no presente, porque o presente é real e o ego é irreal – eles nunca se encontram. O passado é irreal, simplesmente não existe mais. O passado já foi real, mas enquanto ele estava presente o ego não estava lá. Tão logo tenha desaparecido, ele perde a qualidade de ser existencial, e o ego imediatamente passa a colecionar e a acumulá-lo. O ego agarra e acumula coisas mortas. O ego é um cemitério: recolhe cadáveres e ossos mortos.

Ou ego também vive no futuro. Mais uma vez, o futuro também é não existencial; o futuro ainda não é – é apenas imaginação, fantasia, sonho. O ego também pode viver através disso muito facilmente. Uma falsidade harmoniza-se muito bem com outra falsidade; todas as falsidades combinam perfeitamente. Traga qualquer coisa existencial e o ego logo desaparece. 

Por isso a insistência para que você esteja no presente, no aqui e no agora. Apenas este momento... Se você for inteligente, poderá dispensar todo e qualquer pensamento acerca do que agora estou falando, perceberá que aquilo sobre o qual estou discorrendo não é para ser pensado ou analisado, mas simplesmente visto com intensidade e totalidade neste exato momento. Uma visão intensa, alerta, penetrante, focada, direta, imediata, abrangente, total... e onde está o ego? Há apenas um grande silêncio, nenhum passado existe, nenhum futuro existe, apenas este momento está aqui. Então 
este momento “é” e você “não é”. 

Permita (autorize) que este momento seja e você não seja. Sentirá um silêncio imenso, um silêncio profundo, dentro e fora. E então não haverá nenhuma necessidade de se entregar, pois você se alinhou com a verdade de que na realidade você não existe, você não é – apenas o momento presente é. Essa compreensão em si realiza a entrega. Entregar-se significa compreender verdadeiramente que você “não é”.

Não é uma questão de que você tenha de entregar-se a mim, ou de que você tenha que entregar-se a Deus. Não é sequer uma questão de que você tenha de entregar-se, absolutamente. A entrega é um insight, uma compreensão de que “eu não sou”. Percebendo que “eu não sou, eu sou um nada, eu sou um vazio”, a entrega aumenta cada vez mais. A flor da entrega cresce na árvore da vacuidade. Ela jamais pode estar orientada para o cumprimento de um objetivo.


Na natureza do ego é estar orientado para um objetivo. Ele anseia pelo futuro. Ele pode ansiar até mesmo pela outra vida, pode ansiar pelo céu, 
pelo nirvana. Não importa aquilo pelo qual o ego anseia – ansiedade é sempre ansiedade, desejo é sempre desejo, tudo isso está sendo projetado no 
futuro.

Perceba isso! Perceba de uma só vez a totalidade do mecanismo da mente. Eu não estou dizendo “pense sobre isto”. Se você pensar, terá errado o alvo. Novamente, o pensar tem a ver com o passado e futuro. Olhe atentamente para isso, e perceba! Faça isso, e faça agora! Não diga a si mesmo: “ok, farei depois que chegar em casa”. Se você adiar, o ego apareceu, o objetivo surgiu, o futuro entrou. Todas as vezes que você envolver o tempo, estará caindo na armadilha da separação.

Permita que o momento esteja aqui, apenas este momento. E então você percebe o que você é – você está aqui, você não vai a lugar algum, e você não está vindo de lugar nenhum. Você sempre esteve aqui. 
Aqui é o único momento, o único espaço. Agora é a única existência. É neste Agora que existe a rendição." [ continua...]

Osho em The Heart Sutra

Segunda parte clique aqui 

25 de janeiro de 2013

Sementes da Consciência - Nisargadatta

 "Maharaj continuou: Como você sabe, você tem um corpo e no corpo está o Prana, ou força vital, e a consciência ( o Ser, o conhecimento de EU SOU). 

Bem, este fenômeno total do ser humano, é diferente do de outras criaturas ou da simples erva que brota da terra?

Analisando a fundo, imagine que em seu quintal se acumula um pouco de água, depois de um tempo se forma ali o corpo de um inseto; este começa a se mover e tem conhecimento que existe;

Imagina agora, que um pedaço de pão é deixado em um canto por alguns dias, um pequenino verme nasce e começa a se mover e sabe que existe. 

O ovo de uma ave, depois de incubado durante um certo tempo se rompe e aparece um pintinho; começa a se mover de um lado para outro e sabe que existe;
A semente de um homem germinada na matriz de uma mulher, depois de um período de nove meses, nasce um bebê, passa pelos estados de sono e vigília, realiza suas funções físicas normais e sabe que existe.

Em todos estes casos, o inseto, o verme, a ave e o ser humano, quem é o que nasce realmente? O que está "supervisionando" o processo que vai da concepção ao nascimento? Não é o conhecimento "eu sou" que tem permanecido latente da concepção ao nascimento? 


Este ser, ou consciência, idêntico em todos os casos, existe sem nenhum tipo de "apoio",equivocadamente se identifica com a forma particular que assumiu.
Em outras palavras, o que em realidade não tem nenhum aspecto nem forma, é o conhecimento do "eu sou", precisamente este sentido de ser ( não de ser isto ou aquilo, mas consciência somente), se limita a uma só forma particular e aceita assim seu próprio "nascimento" e vive depois com a sombra constante do terror da "morte".

Assim, nasce a ideia de uma personalidade individual, identidade ou ego.

Você vê agora a origem deste 'eu sou'? Não depende do corpo para sua existência individual. E o corpo não é tão somente a semente germinada que se desenvolveu? E ainda, essa semente não é algo mais que a essência do alimento consumido por seus pais da criança. E finalmente, não é algo constituído pelos quatro elementos ( éter, ar, fogo e água) por mediação do quinto elemento, a terra?

Assim pois, temos seguido o rastro da semente da consciência até chegar ao alimento e ao corpo e o "alimento" da consciência; tão pronto como o corpo perece, também a consciência desaparece. E sem dúvida, a consciência é a "semente" do universo inteiro!

Todo indivíduo tem sempre que sonha, a experiência idêntica da um mundo que se cria na consciência. Quando uma pessoa não está de todo desperta, e a consciência apenas apenas sonha; e em seu sonho, similar ao mundo "real" - tudo em um instante - e pode se ver neste mundo o sol, a terra com suas colinas e rios, construções e pessoas ( incluindo o indivíduo mesmo que sonha) que se comportam exatamente como as pessoas do mundo "real".

Enquanto durar o sonho, o mundo sonhado é bastante real e as experiências das pessoas do sonho, incluindo a que sonha, parecem verdadeiras, tangíveis e autênticas, talvez até mais verdadeiras que as do mundo "real".
Mas uma vez que desperta do sonho, todo o mundo sonhado com todas suas "realidades", que então existiam, se desvanecem na consciência em que foi criada.

Na vigília, o mundo, surge a causa da semente da ignorância ( Maya, a condição do ser, Prakriti, Ishwara, etc..) e nos coloca em um estado de sono na vigília! Tanto o sono como a vigília são estados conceituais no sono do vivente. 

Você sonha que está desperto. Sonha que está dormindo, e não te dás conta de que estás sonhando, porque ainda estás no sonho. Logo, quando se dá conta de que tudo isso é um sonho, haverá Despertado! 
Só o Jnani conhece a verdadeira vigília e o verdadeiro sonho."
Nisargadatta Maharaj em Sementes de Consciência

24 de janeiro de 2013

Liberdade é Você! - Satyaprem

"Faz parte desse momento histórico a desmitificação da espiritualidade. Você tem que abrir os olhos para o que há de espiritual na simplicidade de tomar um café, de comer um sanduíche, de ler um bom livro... ou de, simplesmente, respirar.

Não pode estar relacionado às sensações, pois a essência, o Buda está além dos sentidos. Toda a busca que ocorre através dos sentidos, em algum ponto, se frustra.

A verdadeira experiência mística não é sensorial, nem intelectual. Não é sequer uma experiência tal qual estamos condicionados a compreender o que seja uma experiência. Não existe imagem, conceito ou pensamento que definam a Consciência que você é.

A mente insiste em conceitualizar, em tonificar, em imaginar. Ela, inclusive, investe boa parte do seu tempo em comparar. – "Você viu as barbas longas daquele yogui hindu? Somente quando a minha barba estiver daquele tamanho, estarei onde ele se encontra." É assim que a mente pensa. E você a segue sem pudor – tornando o seu despertar inalcançável.


A mente foi condicionada e a única coisa que você precisa fazer é ver isso transparentemente. Se você puder ver o funcionamento da mente, destacado dela, poderá desidentificar-se das suas propostas. Nesse ponto, se abre uma miríade de possibilidades, nasce o Ser. Novo. Fresco. Virgem. Intocável. Livre de qualquer discurso pregresso. Autêntica e originalmente, você.

A única proposta que Satsang nos traz é fazer um retorno ao Original. Se tem algo que precisa ser visto, primariamente, é: quem é você?
Lance essa pergunta a si mesmo, segure a respiração por um instante, não deixe que a mente responda, e veja. Está disponível a qualquer criatura. Se a intenção for correta e você estiver sendo bem encaminhado, só há uma possibilidade: a visão clara d'Aquilo que É. Aquilo que está por traz de todas as respostas impostas pela mente.


Aquilo que está debaixo de todos os eventos. Aquilo que não tem nome, não tem forma, não tem idade. Aquilo onde tudo e todos acontecem.


O nosso encontro acende uma pequena chama, o quão longe irá esse fogo não sabemos. Depende do ambiente, depende do vento... depende da sua mente não investir em apagar a chama.E, veja bem, é muito mais simples do que nos venderam e ainda vendem por aí.

As pessoas aprenderam e esperam por "orgasmos cósmicos". A mente, na verdade, projeta também para a espiritualidade aquilo que ela conhece. Mas acontece que o Ser é completamente desconhecido, é um mistério para a mente – ela jamais O viu.
A ideia de uma sensação homérica é proposta pela mente. Ser você não é uma conquista, é a sua natureza original.

Existe um condicionamento maniqueísta dentro deste ambiente chamado “mente” que, volta e meia, tenta remover aquilo que é indesejável a ela.
Ao contrário, Satsang nos revela que tudo – absolutamente tudo – é bem vindo. Porque, olhando com o olhar do Ser, não há diferença, não há separação. Tudo aquilo que acontece, acontece em você e é por isso que não tem como ser removido.
Afinal, para onde iria, se tudo é Você?
Hoje reforço sua atenção a este chamado: não brigue. É da natureza da mente pensar, é da natureza do corpo sentir e a sua natureza é a Observação.
Mantenha essa Realidade o mais próximo de você e verá que tudo se acomoda da maneira mais tranquila possível.

O mundo julga os acontecimentos e exige mudanças. A mente emite um pré-juízo e tenta fazer de você uma caricatura, algo artificial, uma ideia a ser
reproduzida – aquilo que todos estão fazendo, repetida e inquestionavelmente. Manter-se preso a isso é o único sofrimento.

No momento em que você vê que não há absolutamente nada que não possa acontecer, ou melhor, que tudo pode acontecer e acontece dentro de Você e não com você, você se liberta. Liberdade é saber quem você é.
Liberdade é você!
Satyaprem em Satsang

23 de janeiro de 2013

O Sol em nós - Thich Nhat Hanh

"Sabemos que, se nosso coração parar de bater, o fluxo da vida será interrompido, e por isso tratamos nosso coração com carinho. 

Mesmo assim, são poucas as vezes em que nos damos tempo para observar que outras coisas, fora do nosso corpo, também ao essenciais para nossa sobrevivência. 

Pense na luz imensa que chamamos de sol. 
Se ele viesse a parar de brilhar, o fluxo da nossa vida também se interromperia. 

O sol é, portanto, nosso segundo coração, um coração externo ao corpo. Esse enorme “coração” proporciona às formas de vida sobre a Terra o calor necessário para sua existência. 

As plantas vivem graças ao sol. Suas folhas absorvem a energia solar, junto com o dióxido de carbono do ar, para produzir o alimento para a árvore, para a  flor, para o plâncton. E graças às plantas, nós e outros animais temos como viver.

Todos nós - seres humanos, animais e plantas - consumimos o sol, direta e indiretamente. É impossível começar a descrever todos os efeitos do sol, esse imenso coração fora do nosso corpo.

Nosso corpo não se limita ao que fica dentro das
fronteiras da pele. 
Ele é muito maior. 
Ele inclui até mesmo a camada de ar em volta da Terra. Pois, se a atmosfera desaparecesse por um instante que fosse, nossa vida terminaria. 

Não há fenômeno no universo que não tenha íntima ligação conosco, desde o seixo pousado no fundo do oceano até o movimento de uma galáxia a milhões de anos-luz de distância. 

Disse Walt Whitman, “Para mim, uma folhinha da relva é nada menos do que a obra das estrelas...” Essas palavras não são filosofia. Elas vêm das profundezas da sua alma. Disse ele também, “Sou imenso, há multidões contidas em mim”.
Thich Nhat Hanh em Paz a cada passo

**
Despertar para essa consciência é compreender profunda, total e definitivamente que tudo pertence a Totalidade, a Deus, ao Divino EU SOU.

Tudo É a Totalidade, não há nenhuma possibilidade real de existir qualquer coisa, que seja separada da Totalidade;

A relação entre tudo e todos é absoluta...
Uma mesma Vida expressando-se, vibrando, se divertindo, criando, acontecendo, se descobrindo, se revelando...
O mesmo sol que ilumina infinitos corações...
Infinitos corações, que em essência são UM...
O Amor reconhece isso...e se encanta...
Lilian

22 de janeiro de 2013

Jeff Foster - Entrevista

"Estas palavras vêm da certeza de que não há nada a saber. Não é a certeza da mente, mas a certeza de que é não-saber.

Todo o conhecimento, toda a certeza intelectual, é apenas um jogo de pensamento. 
Além dos pensamentos, não há mundo. 
Além do mundo, não há nada que saber. Quem poderia saber isso?

Não é algo que você sabe. Mas, sem dúvida, é sabido. 
Vida sabe, porque a vida é. 
O Saber é o círculo Ser, e em que, tudo vem completo, e a vida se completa. A origem da vida é o seu destino, e o seu destino é a sua origem. Criação e destruição não são dois.
Para encarar a vida de frente, e ver apenas amor, apenas uma intimidade além das palavras olhando pra você, que é quando você sabe que está tudo acabado ... e apenas começando.
Bem-vindo à vida sem um Centro, a vida que você já está vivendo!

Pergunta: Você é um professor?
Jeff - Bem, eu não me considero um 'professor', da mesma forma que eu não considero que você seja meu "aluno". Eu não sinto que eu tenha algo que lhe falta. Eu sempre vi o que eu faço como uma espécie de partilha. 
A partilha entre amigos de algo que é realmente muito íntimo, muito vivo, muito presente para falar. E ainda falando acontece, e isso é parte da aventura.

Por que alguém compartilharia o pôr do sol? Bem, por que não?
Por que eu falo sobre não-dualidade? Bem, por que não.
Chame-me um professor, ou chamar-me um amigo, ou me chamar de nada, isso realmente não importa no final. 
Eu sou o que você é. Debaixo de nossas histórias individuais, o que poderia nos separar?

Você se considera um iluminado ou que já despertou?
Jeff - Bem, me ver como 'iluminado' ou 'desperto', como um ser humano raro e especial, como diferente ou melhor do que você de alguma forma, eu, em algum nível, teria que me separar de você. Eu teria que contar uma história sobre o que eu sou, e sobre o que você não é. Seria minha própria convicção - eu teria que acreditar na minha própria história. Seria o meu próprio sonho.

Além do sonho de identidade, como posso saber o que eu sou? Além do sonho, como eu poderia me separar de você?
"Eu estou iluminado" ou "estou acordado" ou "eu recebo isto e você não" ou "eu transcendi ao ego e você não" (e a lista de orgulho e alegações feitas pelo ego são infinitas) são todas identidades só pensamentos as constroem.

Em outras palavras, alguém que acha é "iluminado", e que você não é, é simplesmente alguém com uma crença de que é - um indivíduo separado - que é "esclarecido" e você não é. 
Eles se vêem como separados. Além disso, não há nenhuma maneira de saber que você é "iluminado" - e por isso não há iluminação. 

A pergunta "você está iluminado?" Se torna totalmente irrelevante quando as coisas são vistas claramente. A questão simplesmente queima-se na clareza do ver presente.

Alguém que afirma ser esclarecido ainda vê-se como separado?
Jeff - É claro, já que não há outra maneira de ver a si mesmo como iluminado! A auto-imagem, incluindo qualquer "esclarecida" auto-imagem, é sempre separada. É sempre parte do sonho.
Esta mensagem é de ver o sonho de separação. É por isso que, quando se trata desta mensagem, não existem autoridades, nem pessoas "iluminadas" ou "despertas", nem gurus e nem discípulos.

Uma figura de autoridade é alguém que pensa que sabe. Essa mensagem é sobre o não-saber. E quem poderia ser uma autoridade em não-saber? Posso saber mais sobre o não-saber do que você? Posso ter mais nada do que você? Pode haver mais Estar aqui do que lá há? Pode haver uma autoridade na vida? Ou é a própria vida a única autoridade?

O que é a iluminação ou despertar? Será que essas palavras têm algum significado?
Jeff - Ok. Portanto, vamos ter um novo olhar para essas palavras. Veja, para mim, a iluminação tem nada a ver com 'alguém' se tornar 'iluminado'. Essa é a conversa da mente. Essa é a voz do buscador. Despertar não tem nada a ver com "alguém" se tornando "desperto". Esse é o mito. Esse é o sonho - o sonho do ego, na verdade.

"Iluminar" é simplesmente uma palavra que aponta para a natureza iluminada da própria vida. Se algo for iluminada, isto é, a luz. É iluminada. É visível. E o que pode ser visto é o seguinte: A vida em si já é totalmente visível - que já está totalmente iluminado, preenchendo todo o espaço, aparecendo como tudo, aqui e agora.
Abra os olhos e o mundo é simplesmente está lá. Que milagre! Visões, sons e cheiros simplesmente aparecem. Um pássaro cantando, a fome, um pensamento sobre o jogo de ontem à noite de futebol. A Vida simples aparece, do nada. Aparece, e é vista, e a vida não é separada do que vendo.
Já houve alguém aqui separado deste ver? Já houve alguém aqui, separado da vida, que poderia tornar-se iluminado? Talvez isso fosse parte do sonho ...

Da mesma forma, "despertar" é simplesmente uma palavra que aponta para a vigília sempre presente da própria vida. A vida não está dormindo, é acordada. A vida não está desligada, ela é ligada. Já é acordada para si, aparecendo como tudo. Ela já está acordada com visões, sons, cheiros, cores, texturas, movimento. O som do canto do pássaro estão ligados aos 
sentimentos no corpo. Já houve alguém aqui separado desta vigília sempre presente? Já houve alguém aqui que poderia tornar-se desperto? Talvez fosse parte do sonho também ...

Pode-se dizer que, a Vida sem um centro, é sobre a descoberta de quem eu realmente sou?
Jeff - É a descoberta de que você é - e o que não é! Toda sua vida você tomou-se um indivíduo, uma pessoa separada. Você vive com uma história de si mesmo, uma auto-imagem que você tenta proteger e defender. Esta história torna-se a sua identidade - quem você pensa que é - e você acaba esquecendo de quem você realmente é, além da história.

Pensamento tece uma história sobre quem você é, com base na experiência do passado. Antes que você perceba, você é um "alguém" em vez de um ninguém. Você é uma pessoa em um mundo. Você tem um passado e um futuro. Você tenta se adaptar, de se adaptar, de fazer as coisas do jeito que você quer que eles, para fazer seu trabalho de vida. Você constrói-se uma lista de realizações e fracassos. Você trabalha em si mesmo. Você tenta corrigir a si mesmo.

Quando solicitado, você contar a sua história de 'eu'. Você ouve histórias sobre outros 'eus', e comparar e contrastar, defender e atacar essas histórias, esquecendo-se de que o seu 'eu' é simplesmente uma história, e essa história não pode sequer começar a descrever o que você realmente é.

Você começa a acreditar que este "eu" realmente existe fora do pensamento.
Você é muito mais do que uma história.


Você começa a acreditar que este "eu" é o que você realmente é! Você defende essa história ilusória de "eu", e esquecer que você está defendendo nada mais do que uma imagem que aparece na consciência. 
Esta é a origem de toda a violência e sofrimento. Violência e sofrimento não começam "lá fora" no mundo, eles começam com "você".

O "eu" é a sua jornada pessoal, sua história de vida. Ele tem de tudo: seus sucessos e fracassos. Seu passado e futuro, as suas memórias e projeções. Suas crenças, seus julgamentos, suas opiniões. Seus medos, suas lamentações, as suas preocupações, você está procurando. Refiro-me a tudo isso como 'a história', porque isso é o que é, em última análise, uma história, uma narrativa, um conto, aparecendo em consciência, aparecendo no momento presente ... e há apenas o momento presente.

Em última análise, o seu passado inteiro e futuro são apenas pensamentos que aparecem no momento presente, e essa é a única realidade esse pessoal que "você" tem. O pessoal "você" não tem realidade fora dos pensamentos ...


Há algo de errado em ter uma história de 'eu'?
Jeff - Bem, não há nada de errado com a história, em si mesmo!
Muitas pessoas acreditam que este "eu individual" é o que eles são, e eles ignoram o espaço, a abertura, o vasto oceano do Ser em que o "indivíduo" surge. Eles identificam exclusivamente como uma "pessoa independente" e nunca param para perguntar se é isso que eles realmente são.

Você vê, esta mensagem aponta para a possibilidade de que você não é o que você pensa que é.
Você tomou-se como ser uma onda separado em um vasto oceano. Você se vê como uma pessoa pequena em um vasto oceano cheio de outras pessoas. Você se vê como um indivíduo em um mundo que é fundamentalmente separado de você.
Mas, claro, a "onda separada" no oceano não é realmente 'separada' do oceano em tudo! A "onda separada" é realmente apenas o oceano aparecendo temporariamente como uma onda.

A onda é na verdade cem por cento água. Em essência, é o mesmo que o oceano. E assim realmente não há nenhuma 'onda separada "em tudo.
Há apenas, aparência de ser uma onda separada. A onda é apenas na aparência. É um aspecto temporário do oceano.
Você - o que você toma-se a ser - a pessoa, o caráter, o "eu", só tem existência como uma aparição, uma história aparecendo agora no Ser infinito, uma história que não é, em última análise separada do Ser ...

Não-dualidade é tudo sobre como se livrar dessa onda separação? É sobre como se livrar da aparência do 'eu' e caindo de volta para o oceano?
Jeff - Talvez isso soe como se eu estivesse dizendo que a aparência da pessoa separada é um problema e ela deve se livrar dele. Mas quem é que vai se livrar da onda? A onda? Como pode a onda se livrar de si mesma?

Esta é uma das armadilhas que as pessoas caem quando se identificam como sendo "buscadores espirituais". Elas pensam que eles precisam se livrar da onda, a fim de alcançar o oceano, e parece haver um monte de mestres espirituais e gurus lá fora, que acreditam que a mesma coisa. Alguns mestres espirituais afirmam em "matar o ego!" Ou "destruir a mente! Ou se livrar do mesmo!" E perder o fato de que a tentativa de matar o ego é o ego, e o esforço para destruir a mente é a mente, e assim por diante ...

O ponto é, a onda já é totalmente oceano. Qualquer tentativa de se livrar da onda é a onda de tentar livrar-se de si mesma.
Anos atrás, quando eu era um candidato espiritual muito sério e intenso, tentei desesperadamente me livrar do Jeff, o caráter, a pessoa. Mas esta tentativa acabou por terminar em fracasso e frustração, porque eu estava tentando livrar-me de algo que não estava realmente lá! 
Eu estava lutando com uma ilusão, e quando você luta contra uma ilusão, você está assumindo que a ilusão é real. O que você luta, você dá mais vida. O que você resiste, persiste, como eles dizem.

Você não precisa se livrar de uma ilusão. 
Expor a ilusão como uma ilusão, é suficiente. E assim, a tentativa de destruir o ego, transcender a mente, matar a si mesmo, se livrar do "eu" - em outras palavras, a busca espiritual - é realmente apenas uma guerra com a vida. É água combatendo água.
Felizmente, minha busca espiritual falhou. E nesta falha, outra possibilidade brilhou - uma possibilidade que foi além de buscar e encontrar, além do "eu"  além do meu desejo pessoal de me tornar uma pessoa iluminada. Além do buscador e o procurado, é - só o amor incondicional ...

Não-dualidade não significa "não-dualidade" - que seria completamente dualista! Na realidade, não dualidade inclui (a aparência) dualidade, porque é tudo. Não é nada - nada mesmo - e isso é tudo.
Em última análise, não-dualidade aparece como dualidade. Eles são uma e a mesma coisa. Então você não pode nem mesmo falar de "não-dualidade".
Em outras palavras, o aspecto da onda separada não é um problema para o oceano. A aparência de sua história de vida é em si uma perfeita expressão do ser. Neste amor incondicional, nada é negado.

Como é a experiência de ser uma pessoa separada em relação a busca?
Jeff - O indivíduo, a pessoa separada, é um buscador. A pessoa separada parece estar sempre à procura de algo mais. O presente deste momento nunca parece ser suficiente. Eles experimentam a falta, e olhar para o futuro para encontrar o fim da falta (que é, naturalmente, uma projeção de si mesmos)

O momento que você tem um indivíduo, uma onda separada do Oceano, alguém separado da vida - você tem um buscador.
O momento não há separação, o momento que aparenta ser dois (uma "coisa" separada da outra "coisa"), você tem o desejo de voltar a um. Você tem a experiência de que algo está faltando. O momento em que há a separação, há um desejo de acabar com a separação.

É do senso de separação - que se manifesta no indivíduo como a sensação de que há algo faltando no momento atual - que começamos a procurar. Procuramos preencher um buraco em nossas vidas, para pôr fim à sensação de que não estamos completos. E olhamos para o mundo (em outras palavras, no tempo e no espaço) para tentar colocar um fim a este sentimento de falta no coração de nossa experiência.

Mas não importa o quanto nós alcançamos no mundo, não importa quanto dinheiro nós fazemos, não importa quantas experiências espirituais que temos, não importa como 'iluminadas' nós temos, não importa quantas vezes encontramos o nosso "parceiro perfeito" ou obter o "trabalho perfeito", nós nunca parecemos nos sentir completos. Não importa o quanto nós acreditamos na falta, a busca parece continuar. 
Ficamos com o carro novo, a casa nova, o novo trabalho, o novo amante, o novo guru, a nova alta espiritual, e tudo isso satisfaz por um tempo ... mas depois a busca inicia-se novamente. Há sempre um desejo de algo mais. Nós simplesmente não conseguimos nos livrar do sentimento de que somos incompletos.
Mas aqui está o problema - o indivíduo, o candidato, é o próprio sentido da falta que ele pretende ser livrar. Como pode o indivíduo (separação, falta, buscando) pôr fim à separação? Este é o dilema que enfrenta cada candidato no final.

Quando eu me sinto separada, eu procuro. Como é que se relaciona com a Unidade ou totalidade?
Jeff- Bem, realmente a busca de uma vida é a busca da totalidade, para a Unidade, para por fim a separação. Pensamos que estamos à procura de dinheiro, de poder, de riqueza, de amor, de experiências espirituais, para a iluminação, para a libertação, o Nirvana.

O que estamos realmente procurando é plenitude.

Você vê, se formos honestos, nós realmente não queremos riqueza material, poder, sucesso. Nós realmente não queremos nos tornar uma pessoa "desperta" ou "iluminada". O que nós realmente queremos é acabar com a sensação de ser uma pessoa separada, para acabar com a sensação de ser alguém aqui procurando algo para lá; acabar com a sensação de ser um buscador separado do que é procurado.
O que nós realmente desejamos é apenas para voltar para casa. Para finalmente voltar para casa, para o que somos, e finalmente, ver a vida como ela realmente é, além de nossos conceitos sobre o que é.

A busca pode se tornar tão cansativa. A luta contra a vida pode nos levar ao desespero, à depressão, à dependência, ou simplesmente para um sentido ao longo da vida que há algo faltando, que nós não estamos lá ainda, que não somos bons o suficiente , que nós somos pecadores, perdedores, falhos, etc...
Talvez seja o fracasso da busca que nos aponta Início no final.

Estamos buscando...e buscando é sempre sobre a busca da plenitude ... se assim for, como é que vamos parar este processo? Como é que vamos parar de procurar?
Jeff - Boa pergunta. Mas você pode ver que a busca pelo fim de buscar é a ainda mais busca? Esta é outra armadilha na busca espiritual. Nós vemos que a busca é o "problema" (no sentido de que a busca é o próprio sentido da falta que estamos tentando superar) e assim tentamos continuar procurando. Buscamos o fim de procurar, e na busca parece nunca ter fim.


Se não podemos parar de buscar, e buscando o fim da busca é apenas mais procura, o que podemos fazer?
Jeff - Como Krishnamurti disse: "Não há como ser livre. Se você perguntar isso significa que você ainda está na prisão".

Esta mensagem é sobre a possibilidade de que nunca houve uma pessoa separada - nunca houve ninguém lá separado da vida. 
Nunca houve um buscador separado do que foi procurado. A pergunta "como é que eu posso parar de procurar?" Está enraizada em suposições equivocadas sobre quem você realmente é. E assim a questão: "como faço para parar de procurar?" É substituído por "há realmente alguém aí que pode procurar ou não procurar?"
A pergunta "como é que eu posso parar de procurar?" É substituído por "há um buscador em tudo?"

No coração da sua experiência, você pode realmente encontrar um candidato? Você pode realmente encontrar alguém lá que é separado da vida? Você pode realmente encontrar uma pessoa lá que está vivendo a sua vida? Ou há apenas a aparência atual de vida?

Como posso ver que eu não sou separada da vida? Parece que eu sou!
Jeff - Bem, esse é o jogo. É claro que parece que você está separada. É claro que parece que há um eu e um tu. Claro que parece que eu estou aqui e você tem lá. É claro que parece que há alguém aqui subjetivamente olhando para um mundo sólida e objectiva. É suposto parecer assim. O aparente é a aparência. O aparente é o jogo. O aparente é a dança - a dança da dualidade.

Mas, além da aparente, há, na verdade, qualquer separação?
Agora, o que está acontecendo? Por um momento, se você puder, e se você estiver disposto, colocar tudo que você acredita em espera, suspender todo o seu conhecimento de segunda mão, esquecer por um momento o que lhe foi dito pelos professores, gurus, autoridades, e olhar com frescos olhos para a vida. Olhe com olhos frescos em sua própria experiência. Comece de novo, como uma criança a ver o mundo pela primeira vez. (...)

Não é simplesmente o jogo espontâneo da vida.
E então um movimento secundário parece acontecer: o pensamento chega e diz: "Eu estou ouvindo". "Eu sou uma pessoa separada, ouvindo estes sons. Não sou eu, e há os sons. Eu sou o sujeito, e o som é o objeto. Há um percebedor e o percebido. "
Mas será que essa separação realmente acontece? Na experiência direta, não filtrada, há alguma evidência de que há alguém aqui, ouvindo sons? 

Há realmente uma pessoa aqui que faz a audição, ou o ouvir acontece simplesmente, sem esforço? Há alguém aqui fazendo sons ou sons que simplesmente aparecem espontaneamente? Sim, o pensamento diz: "Eu ouvi os sons", mas isso levanta a questão, o que é este "eu" que ouve os sons? Existe realmente um 'eu' a ouvir os sons? Quem ouve os sons?

Na experiência direta, agora, você pode encontrar duas coisas - o que ouve o som, o som em si? Ou há apenas o som, ser ouvido, sem esforço?
Existe alguém envolvido na audição? Ou será que o ouvir apenas acontece?
Pode ser que a audição do som, e o som, nunca tenham sido separados? Você pode encontrar alguma linha divisória em tudo, em sua experiência direta, entre a audição do som e o som? Qualquer intervalo de tempo, ou a distância, entre o som e a audição do som?
Você pode encontrar a pessoa que ouve o som aqui, separado do som lá? Ou estão "aqui" e "ali" sempre foram parte de experiência real?
Há duas coisas? Ou há apenas um movimento singular da vida?

O mesmo acontece com o ver, pensar, sentir. Você pode encontrar alguém aqui fazendo o ver, o pensar, fazendo o sentimento? Ou ver, pensar e sentir simplesmente acontecem sem esforço?
A pergunta feita por mestres espirituais ao longo dos tempos: 
Quem vê? Quem pensa? Que se sente?"
Entrevista com Jeff Foster.
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