27 de fevereiro de 2016

Entre esses dois, minha vida flui - Nisargadatta Maharaj


"Descubro que de alguma forma 
ao mudar o foco da atenção 

eu me torno a própria coisa que estou observando 
e experimento o tipo de consciência que ela possui, 
me torno a testemunha interior daquilo. 

Eu chamo essa capacidade de adentrar 
outros pontos focais de consciência de amor.
Você pode dar o nome que quiser para isso. 

O amor diz: eu sou tudo, 
a sabedoria diz : não sou nada. 

Entre esses dois, minha vida flui. 

Uma vez que em qualquer ponto do tempo e do espaço 
posso ser tanto o sujeito quanto o objeto da experiência, 
eu expresso isso dizendo que sou ao mesmo tempo 
ambos, nenhum deles e também além dos dois."

Nisargadatta Maharaj

20 de fevereiro de 2016

Jesus e a libertação da culpa - Osho


Pergunta - Osho, o medo e a culpa são a mesma coisa? Assim como a luz ilumina a escuridão, Jesus deve ter deixado as pessoas conscientes de sua culpa.

Osho - O medo e a culpa não são a mesma coisa. O medo aceito se transforma em liberdade; o medo negado, rejeitado, condenado, transforma-se em culpa. Se você aceitar o medo como parte da situação...

Ele é parte da situação. O homem é uma parte, uma parte muito pequena, minúscula e o todo é amplo: uma gota, uma gotícula, e o todo é o oceano inteiro. Um medo surge: “Posso me perder no todo; minha identidade pode se perder.” Esse é o medo da morte. Todo medo é o medo da morte. E o medo da morte é o medo da aniquilação.

É natural que o homem seja assustado, temeroso. Se você o aceitar, se disser que a vida é assim, se o aceitar totalmente, o temor pára imediatamente e o medo - a mesma energia que estava se transformando em medo - retrocede e se transforma em liberdade. Então você percebe que, mesmo que a gota desapareça no oceano, ela estará lá. Na verdade, ela se tornará o oceano inteiro. E então, a morte se transforma em nirvana, e você não tem medo de se perder. E entende a frase de Jesus: “Se salvar sua vida, irá perdê-la, e se perdê-la, irá salvá-la.”

A única maneira de superar a morte é aceitar a morte. E então, ela desaparecerá. A única maneira de não ter medo é aceitar o medo. Assim, a energia é liberada e transformada em liberdade. Mas se você o condena, se o reprime, se esconde o fato de estar com medo - se você usa uma armadura para se proteger e ser defensivo - então surge a culpa.

Qualquer coisa reprimida cria a culpa; qualquer coisa não permitida dá espaço para a culpa; tudo que vai contra a natureza cria culpa. E então, você se sente culpado por ter mentido para os outros e para si mesmo. Essa falta de autenticidade é a culpa.

Você pergunta: “O medo e a culpa são a mesma coisa?” Não. O medo pode ser a culpa, mas pode não ser. Depende do que você faz com o medo. Se faz alguma coisa errada com ele, ele se transforma em culpa. Se simplesmente o aceita e não faz nada a seu respeito - não há nada a se fazer! - então ele se transforma em liberdade, se transforma na ausência de medo.

Assim como a luz ilumina a escuridão, Jesus deve ter deixado as pessoas conscientes de sua culpa.” Não, de maneira alguma. Jesus tentava ajudar as pessoas a não se sentirem culpadas. Esse era seu objetivo. Seu objetivo era dizer para as pessoas aceitarem a si mesmas e não se sentirem culpadas, não se sentirem condenadas. Não diga a si mesmo que você é feio, errado, um pecador. Não condene. Seja lá o que você for, você é. Aceite o fato, e a simples aceitação torna-se uma transformação.

Jesus nunca criou a culpa nas pessoas. Esse foi um de seus crimes. Ele tentava alegrar as pessoas culpadas - esse foi seu crime. Ele tentava dizer a elas: “Não seja culpado, não se sinta culpado. Mesmo que haja algo de errado, você não está errado. Talvez você tenha agido de maneira errada, mas seu ser não é errado por causa disso.” Algumas ações podem estar erradas, mas o ser está sempre certo.

Ele aceitava as pessoas; os pecadores ficavam à vontade com ele, sentiam-se bem com ele. Isso se transformou em um problema. Os rabinos, bispos, padres começaram a dizer: “Por quê? Por que você permite que os pecadores fiquem com você? Por que você come com eles, por que dorme com eles? Por que existem tantos párias seguindo você?”

Jesus dizia: “É assim que tem de ser. Eu vim para aqueles que estão doentes. Os doentes procuram o médico, aqueles que já estão saudáveis não precisam. Vá e pense sobre isso.” Jesus dizia: “Eu vim para os doentes, para os enfermos. Preciso apoiá-los e deixá-los fortes. Tenho de trazê-los à luz, preciso trazer vida a eles outra vez, para que a energia deles se torne dinâmica e fluente.”

Não, Jesus é uma luz que não mostra a escuridão. Na verdade, quando a luz está presente, a escuridão desaparece. A escuridão não é mostrada pela luz; ela desaparece diante da luz.

Essa é a diferença. Se um sacerdote está presente, ele mostrará a escuridão. Ele não é uma luz; não pode destruir a escuridão. Ele fará com que você se sinta culpado. Ele criará pecadores - ele condenará e vai deixá-lo morrendo de medo. Ele criará uma ganância e um desejo pelo céu e suas recompensas. No mais, ele pode criar mais medo e mais ganância em você. Isso é o que o céu e o inferno são: projeções de medo e ganância.

Mas quando um Jesus, um sábio, aparece, a escuridão é simplesmente destruída. Quando a luz está presente, a escuridão não é mostrada. A escuridão não existe, porque a escuridão é apenas a ausência de luz.

Se há uma escuridão na sala e eu dou a você uma lâmpada dizendo: “Vá. E leve a lâmpada com você, porque com ela será fácil ver a escuridão...” Se você entrar na escuridão, como conseguirá ver a escuridão? - parece lógico. Mas é absurdo! A escuridão só pode ser vista quando não existe luz. Se você levar a luz consigo, nunca será capaz de ver a escuridão, porque uma vez que a luz estiver presente, a escuridão não existirá mais.


Jesus simplesmente destrói a escuridão, ele destrói a culpa. Ele cria esperança, ele cria confiança. As pessoas que são condenadas há muito tempo perderam sua esperança. Aceitaram seu pecado, aceitaram sua vida feia, e sabem que nada pode ser feito agora. Elas só podem esperar o inferno. Elas aceitaram a idéia de que serão jogadas no inferno e que têm de sofrer.

Jesus vem e ajuda as pessoas a saírem de sua escuridão fechada. Ele diz: “Não existe inferno.” Ele diz: “Saia. Exceto por sua ignorância, não existe inferno; exceto por sua própria reclusão, não existe inferno. Saia dele, flua novamente. Descongele-se e derreta-se, e viva a vida outra vez. Venha para a luz do sol. Deus está disponível.”

É por isso que ele diz: “Volte, o reino de Deus está à disposição.” Ele não diz que, se você for um pecador, então a volta levará muito tempo, e se for um homem religioso e respeitável, a volta levará menos tempo, não.

Pense em tudo isso como se tivesse tido um longo sonho no qual você fosse um pecador. Outra pessoa no mesmo quarto está sonhando que ele é um santo. Você levará mais tempo para acordar do seu sono do que o homem que está sonhando ser um santo? O santo e o pecador estavam sonhando. Eles demorarão o mesmo tempo para acordar de seu sono.

Paradoxalmente, às vezes tomará mais tempo o santo, porque ele está tendo um sonho muito bonito. Ele não quer deixá-lo. O pecador já está em um pesadelo. Ele gostaria de deixá-lo; está chorando, gritando, para que, de alguma forma, consiga sair. Está fazendo muito esforço para sair. O sonho não é bonito, o sonho é feio. Ele está em um inferno. Mas o santo pode não querer ser interrompido. Ele gostaria de virar para o lado e dormir mais um pouco.

Lembre-se, quando você se sente feliz, voltar é difícil; quando se sente infeliz, voltar é fácil. Esse é o sentido do ditado: “Há males que vêm para o bem.” Quando alguém está feliz e tudo está indo bem, quem se preocupa em transformar a si mesmo?

Quando alguém está triste, com um pesar profundo, sentindo-se muito mal, chorando, então essa pessoa gostaria de sair dessa tristeza. O sofrimento também é bom, pois ele dá uma oportunidade de acordar, de sair de seu sono. Não há nada de errado se você puder usá-lo corretamente. Até mesmo venenos podem ser usados como remédios e podem tornar-se bons para a vida.

Se você se sente culpado, tente ver porque está se sentindo assim. Sim, o homem é impotente. Certo! O homem é ignorante - isso está certo, também. Em sua ignorância, ele tem feito muitas coisas que não são como deveriam ser - isso também está certo. Aceite essa impotência, essa ignorância, e reze. Deixe suas lágrimas rolarem, confesse, se arrependa, diga a Deus: “Eu fui impotente, eu fui ignorante, e não consegui fazer melhor. E ainda não posso fazer melhor, a menos que o Senhor me ajude. Como estou, vou voltar a errar. Como estou, novamente vou traí-lo. Não posso contar comigo mesmo. Ajude-me. Apenas sua graça pode me salvar.”

É por isso que o ensinamento de Jesus é: peça a graça de Deus, não acredite em si mesmo - porque foi exatamente essa crença que foi o seu erro.

Não, ele nunca criou a culpa em ninguém. Ele tentava livrar as pessoas da culpa."
Osho em Viva ao Máximo

13 de fevereiro de 2016

A Verdade jaz no silêncio - Paul Brunton


"Há um silêncio que nasce da ignorância e outro que nasce do conhecimento — do conhecimento místico. A interpretação correta só vem através da faculdade intuitiva, e não através do intelecto.

Essa quietude é a parte divina de todo ser humano. Ao deixar de procurá-la, o indivíduo deixa de tirar o máximo de proveito de suas possibilidades. Se, procurando, ele a perde no caminho, isso acontece orque ela é um vazio: simplesmente não há nada lá! Isso quer dizer: não há coisa alguma, nem mesmo coisas mentais, ou seja, pensamentos.

O espírito (Divino) não é a quietude, mas é encontrado pelos seres humanos que estão na condição prévia de quietude. A quietude é a reação humana deles à presença do Divino, presença que entra no seu campo de consciência.

A Quietude é não só uma Compreensão ou um insight da mente, mas também uma Experiência do Ser. Todo movimento ou vibração pára.

Não é fácil traduzir esse silêncio sagrado de modo a tornar-se compreensível, descrever um conteúdo onde não há forma, ascender de uma tão profunda quanto a de Atlântida, hoje submersa, e falar abertamente sobre isso em linguagem familiar e inteligível; mas é preciso tentar.

À medida que o centro de um indivíduo se desloca para uma profundidade maior de ser, a paz de espírito torna-se cada vez mais uma companheira constante. Isso, por sua vez, influencia o modo com que ele lida com suas atividades mundanas. A impaciência e a estupidez desaparecem; e a ira e a malignidade são disciplinadas; a falta de coragem em situações adversas é controlada, e a tensão quando ele está sob pressão é diminuída.

A verdade jaz escondida no silêncio. Revele-a, e a falsidade irá insinuar-se nela, fazendo murchar a imagem dourada. A comunicação através da fala ou da escrita não era necessária. A verdade pode ser escrita ou falada, divulgada em sermões ou publicada, mas a sua mais duradoura expressão e comunicação é transmitida, através do mais profundo silêncio, para a natureza mais profunda do homem.
A razão por que essa iniciação na quietude — iniciação sem imagens, interior e silenciosa — é AFINAL tão mais poderosa, é que atinge o próprio homem, ao passo que todos os outros tipos de iniciação atingem apenas seus instrumentos, veículos ou corpos.

Quando os pensamentos e desejos pessoais do ego são desnudados, eis que nos vemos tal como éramos no nosso primeiro estado e tal como seremos no último. Somos, então, apenas o Ser Real, na sua quietude e solidão Divinas. Quando o homem atinge temporariamente essa condição sublime, ele deixa de pensar, pois a sua mente se emudece com a paz celestial.

Não importa quão escuro ou tortuoso seja o passado, quão miserável seja o emaranhado que o indivíduo tenha feito de sua vida, essa paz inefável tudo apaga. Dentro desse abraço angélico não se conhecem erros, não se sente a miséria, não se relembra o pecado. Uma profunda purificação toma posse do coração e da mente.

Nessa profunda quietude, na qual todo traço do eu pessoal se dissolve, ocorre a verdadeira crucificação do ego. Esse é o real sentido da crucificação, como a ela se era submetido nas antigas iniciações do templo do Mistério e como a ela foi submetido Jesus. A morte subentendida é mental, e não física.

Aquele que alcança essa bela serenidade está remido da miséria dos desejos frustrados, está curado das feridas das lembranças amargas, está liberado da carga das lutas terrenas. Ele criou um centro invulnerável e secreto dentro de si mesmo, um jardim do espírito que não pode ser tocado nem pelos sofrimentos, nem pelas alegrias do mundo. Ele encontrou uma transcendental unicidade da mente.
Só é capaz de formular seu próprio pensamento, sem influência de outros, aquele que se treinou para entrar na Quietude, onde sozinho, é capaz de transcender todo o pensamento.

A Verdade que conduz um homem à liberação de todas as ilusões e escravidões é percebida nas profundezas mais interiores do seu ser, lá onde ele está completamente isolado de todos os outros homens. O homem que atingiu esse conhecimento encontra-se numa solidão sublime. É pouco provável que se afaste dela com a intenção de iluminar seus semelhantes, já que eles estão acostumados à escuridão e já que se sentem tão à vontade dentro dela. Ele só sairá dessa solidão se alguma outra força de compaixão, propulsora, surgir dentro dele e o levar a fazê-lo.

Se o aspirante conseguiu manter a mente de certo modo calma e vazia, seu próximo passo é encontrar o centro de si mesmo. Não basta alcançar a paz de espírito. O aspirante precisa penetrar o Real ainda mais profundamente, e conseguir a alegria do coração.

Se a mente pode atingir um estado do fique livre de suas próprias ideias, projeções e desejos, ela pode atingir a verdadeira felicidade. Aquele belo estado no qual a mente se reconhece pelo que ela é, no qual toda atividade é aquietada, com exceção apenas da atividade da consciência, e assim mesmo de uma consciência sem um objeto — esse é o coração da experiência. Essa é a solidão suprema, à qual todos os seres humanos estão destinados."

Paul Brunton — Idéias em Perspectiva

6 de fevereiro de 2016

Um Buda vive além da mente - Osho


Pergunta: É absolutamente inevitável que um Buda seja sempre um incompreendido?
Osho - Sim. É absolutamente inevitável. Não pode ser de outra maneira. Um Buda está destinado a ser incompreendido. Se um Buda não é incompreendido então ele não é um Buda de verdade.

Por que é assim? Porque o Buda vive em um estado além da mente, e nós vivemos na mente. Traduzir algo do além para a mente é a coisa mais impossível do mundo. Não pode ser feito, embora todo Buda tenha tentado fazê-lo. Isto também é inevitável. nenhum Buda pode evitá-lo. 

O Buda tem que dizer o que não se diz, ele tem que expressar o inexprimível, ele tem que definir o indefinível. Ele tem que fazer este ato absurdo, porque no momento que ele alcança o além da mente nasce uma grande compaixão. Ele pode ver pessoas tropeçando na escuridão, ele pode ver pessoas sofrendo sem necessidade - criando seus próprios pesadelos, criando seus próprios infernos e afundando-se em seus próprios infernos criados.

Como ele pode evitar não sentir compaixão? E no momento que nasce a compaixão ele quer comunicar-lhes que, "Isso é o seu próprio fazer." Que, "Você pode sair disso, há uma maneira fora disso, há um estado mais além disso; a vida não é o que você pensa que é." Seu pensamento sobre a vida é apenas o pensamento de um cego sobre a luz. O homem cego pode seguir pensando sobre a luz, mas ele nunca será capaz de chegar a uma conclusão verdadeira. Suas conclusões podem ser muito lógicas, mas ainda assim, elas perderão a experiência. A luz é uma experiência. Você não necessita lógica para isso, o que você necessita são olhos.

Buda tem olhos. E olhos são alcançados apenas quando você tiver ido além da mente, quando você se tornar uma testemunha da mente; quando você chegar a um estado mais além da psicologia: quando você souber que você não é os seus pensamentos, nem o seu corpo; quando souber que você é apenas o conhecer - a energia que reflete, a energia que é capaz de ver - que você é pura visão.

Uma vez Buda foi questionado, "Quem és tu?" Ele era um homem tão lindo e a irmandade de Buda estava reunida tão devotada a ele, que muitas vezes lhe era questionado, "Quem és tu?" Ele parecia um imperador ou um deus que veio dos céus, e ele viveu como um mendigo. Muitas e muitas vezes ele era questionado, "Quem és tu?" E o homem que estava perguntando era um grande erudito. Ele dizia, "És tu do mundo dos deuses? És tu um deus?" Buda disse, "Não." "Então és tu um gandharva?" Gandharvas eram os músicos dos deuses. Buda tinha uma tal música ao seu redor - a música do silêncio, o som do não som, o aplauso com uma só mão - que era natural perguntarem-lhe, "És tu um gandharva, um músico celestial?" Buda disse, "Não." E o homem continuava perguntando.

Há muitas categorias, na mitologia hindu, de deuses para os homens. Então finalmente ele pergunta, "És tu um grande rei, um chakravartin, aquele que comanda todo o mundo?" E Buda disse, "Não." Chateado, o erudito perguntou, "És tu um homem ou nem mesmo isso?" Buda disse: "Não fique chateado, mas o que eu posso fazer? Eu tenho que dizer a verdade tal como ela é. Eu não sou nem mesmo um homem." Agora o erudito está totalmente irado, furioso. Ele diz, "Então és tu um animal? " Buda disse, "Não - nem um animal, nem uma árvore, nem uma pedra." "Então quem és tu?" o homem perguntou. Buda disse, "Eu sou a consciência, apenas a pura consciência, apenas um espelho refletindo tudo aquilo que é."

Quando chega este momento ocorre uma grande compaixão. Buda disse que aqueles que sabem estão destinados a sentir compaixão por aqueles que não sabem. Eles começam tentando ajudar. E a primeira coisa que tem que ser feita é comunicar às pessoas que estão cegas que os olhos são possíveis, que elas não estão totalmente cegas, mas apenas estão mantendo seus olhos fechados. Você pode abrir seus olhos. Você não nasceu cego, apenas lhe foi ensinado a permanecer cego. 

A sua sociedade lhe ensina a ser cego. Sua sociedade lhe ensina a ser cego porque a sociedade precisa de pessoas cegas. Elas são bons escravos porque elas são sempre dependentes de seus líderes, políticos, pânditas, sacerdotes. Elas são pessoas muito convenientes, elas nunca criam qualquer problema. Elas nunca são rebeldes. Elas são obedientes, sempre prontas a se submeter a qualquer tipo de absurdo a qualquer político estúpido, a qualquer sacerdote estúpido. E, de fato, quem mais deseja ser um político além de pessoas estúpidas, e quem quer se tornar um sacerdote exceto pessoas estúpidas? Estas são as dimensões para o medíocre, para o inferior. 
Aqueles que estão sofrendo de um complexo de inferioridade, se tornam políticos - apenas para provar que eles não são inferiores, para o mundo e para eles mesmos.

A sociedade, o sistema, quer que você seja cego. Desde o começo ela ensina a cada criança: "Você é cega"; ela condiciona cada criança: "Você é cega." Todo o seu sistema educacional é nada mais do que um conspiração contra cada criança - para mantê-lo cego. Ela não lhe ensina meditação, porque meditação é a arte de abrir seus olhos. 

Quando alguém chega à consciência, ele naturalmente sente grande compaixão. Por toda volta, ele vê que as pessoas - que têm olhos, que têm capacidades internas de verem a verdade, que são desde o seu nascimento capazes de se tornarem Budas, seres iluminados, acordados - estão sofrendo. E todo o sofrimento é ridículo, não precisa existir. 

A compaixão acontece e a compaixão começa a se comunicar, mas a comunicação é difícil, impossível. Buda fala do pico e você vive nos vales escuros, aonde a luz nunca chega. Ele fala em palavras de luz; quando elas lhe alcançam seu significado muda. 

Quando sua mente as agarra ela as colore com sua própria cor. Não é assim apenas se tratando de Budas - mesmo a comunicação ordinária parece ser impossível. O marido não consegue se comunicar com a esposa, os pais não conseguem se comunicar com seus filhos, os professores não conseguem se comunicar com seus alunos. O que dizer a respeito de Budas? Mesmo as pessoas que vivem no mesmo nível não conseguem se comunicar, porque as palavras são coisas enganosas. Você diz uma coisa mas, no momento em que ela chega ao outro, aí está sob o poder dele como interpretá-la.

A rainha estava viajando pelo interior da Inglaterra quando ela viu um homem, sua mulher, e um bando de crianças. Impressionada, a rainha perguntou, "Estas crianças são todas suas? "Sim, vossa alteza, respondeu o homem. “Quantas crianças vocês têm?" perguntou a soberana inglesa. Dezesseis, foi a resposta. "Dezesseis crianças," repetiu Sua Majestade. "Nós deveríamos lhe dar um título de nobreza (de 'caráter')." "Ele tem um," disse a mulher, "mas ele não o usa."(...)

A comunicação ordinária, a comunicação essencialmente mundana, mesmo no mercado, é difícil. E um Buda quer lhe comunicar algo que ele encontrou em um estado de não-mente, que ele encontrou quando todos os pensamentos desapareceram, que ele descobriu quando mesmo ele não era mais - quando o ego evaporou, quando existe um profundo silêncio, paz absoluta, e o céu está sem nuvens. Agora, como trazer essa experiência infinita para palavras? Nenhuma palavra é suficientemente adequada - daí a má interpretação.

Sim, Madira, é absolutamente inevitável que um Buda seja sempre mal-interpretado. 

Apenas aquelas poucas pessoas podem entender um Buda, que são discípulos e devotos. Ser um discípulo significa ser aquele que colocou de lado todos os julgamentos antecipados, que colocou de lado todos os pensamentos, e que está pronto a ouvir - não a sua própria mente e suas interpretações mentais, mas as palavras do Buda; aquele que não está num estado de argumentar com o Buda, que não está interpretando internamente o que o Buda está dizendo que ouve um Buda como você ouve música clássica, que ouve um Buda como você ouve o som da água corrente, que ouve o Buda como você ouve o vento passando pelos pinheiros ou o pássaro chamando à distância. Este é o estado de um discípulo. 

Ou se você se elevar um pouco mais alto e se tornar um devoto... Um devoto é aquele que não apenas deixou sua mente cair mas que trouxe seu coração à tona, que ouve a partir do coração, não a partir da lógica, mas do amor. 

O discípulo está a caminho de se tornar um devoto. O discípulo está no início de se tornar um devoto, e o devoto é o preenchimento de ser um discípulo. Apenas essas poucas pessoas entendem um Buda. E ao entender um Buda elas são transformadas, transportadas para um outro mundo - o mundo da liberação, nirvana, luz, amor, benção."

Osho em Esteja Quieto e Saiba
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