13 de fevereiro de 2016

A Verdade jaz no silêncio - Paul Brunton


"Há um silêncio que nasce da ignorância e outro que nasce do conhecimento — do conhecimento místico. A interpretação correta só vem através da faculdade intuitiva, e não através do intelecto.

Essa quietude é a parte divina de todo ser humano. Ao deixar de procurá-la, o indivíduo deixa de tirar o máximo de proveito de suas possibilidades. Se, procurando, ele a perde no caminho, isso acontece orque ela é um vazio: simplesmente não há nada lá! Isso quer dizer: não há coisa alguma, nem mesmo coisas mentais, ou seja, pensamentos.

O espírito (Divino) não é a quietude, mas é encontrado pelos seres humanos que estão na condição prévia de quietude. A quietude é a reação humana deles à presença do Divino, presença que entra no seu campo de consciência.

A Quietude é não só uma Compreensão ou um insight da mente, mas também uma Experiência do Ser. Todo movimento ou vibração pára.

Não é fácil traduzir esse silêncio sagrado de modo a tornar-se compreensível, descrever um conteúdo onde não há forma, ascender de uma tão profunda quanto a de Atlântida, hoje submersa, e falar abertamente sobre isso em linguagem familiar e inteligível; mas é preciso tentar.

À medida que o centro de um indivíduo se desloca para uma profundidade maior de ser, a paz de espírito torna-se cada vez mais uma companheira constante. Isso, por sua vez, influencia o modo com que ele lida com suas atividades mundanas. A impaciência e a estupidez desaparecem; e a ira e a malignidade são disciplinadas; a falta de coragem em situações adversas é controlada, e a tensão quando ele está sob pressão é diminuída.

A verdade jaz escondida no silêncio. Revele-a, e a falsidade irá insinuar-se nela, fazendo murchar a imagem dourada. A comunicação através da fala ou da escrita não era necessária. A verdade pode ser escrita ou falada, divulgada em sermões ou publicada, mas a sua mais duradoura expressão e comunicação é transmitida, através do mais profundo silêncio, para a natureza mais profunda do homem.
A razão por que essa iniciação na quietude — iniciação sem imagens, interior e silenciosa — é AFINAL tão mais poderosa, é que atinge o próprio homem, ao passo que todos os outros tipos de iniciação atingem apenas seus instrumentos, veículos ou corpos.

Quando os pensamentos e desejos pessoais do ego são desnudados, eis que nos vemos tal como éramos no nosso primeiro estado e tal como seremos no último. Somos, então, apenas o Ser Real, na sua quietude e solidão Divinas. Quando o homem atinge temporariamente essa condição sublime, ele deixa de pensar, pois a sua mente se emudece com a paz celestial.

Não importa quão escuro ou tortuoso seja o passado, quão miserável seja o emaranhado que o indivíduo tenha feito de sua vida, essa paz inefável tudo apaga. Dentro desse abraço angélico não se conhecem erros, não se sente a miséria, não se relembra o pecado. Uma profunda purificação toma posse do coração e da mente.

Nessa profunda quietude, na qual todo traço do eu pessoal se dissolve, ocorre a verdadeira crucificação do ego. Esse é o real sentido da crucificação, como a ela se era submetido nas antigas iniciações do templo do Mistério e como a ela foi submetido Jesus. A morte subentendida é mental, e não física.

Aquele que alcança essa bela serenidade está remido da miséria dos desejos frustrados, está curado das feridas das lembranças amargas, está liberado da carga das lutas terrenas. Ele criou um centro invulnerável e secreto dentro de si mesmo, um jardim do espírito que não pode ser tocado nem pelos sofrimentos, nem pelas alegrias do mundo. Ele encontrou uma transcendental unicidade da mente.
Só é capaz de formular seu próprio pensamento, sem influência de outros, aquele que se treinou para entrar na Quietude, onde sozinho, é capaz de transcender todo o pensamento.

A Verdade que conduz um homem à liberação de todas as ilusões e escravidões é percebida nas profundezas mais interiores do seu ser, lá onde ele está completamente isolado de todos os outros homens. O homem que atingiu esse conhecimento encontra-se numa solidão sublime. É pouco provável que se afaste dela com a intenção de iluminar seus semelhantes, já que eles estão acostumados à escuridão e já que se sentem tão à vontade dentro dela. Ele só sairá dessa solidão se alguma outra força de compaixão, propulsora, surgir dentro dele e o levar a fazê-lo.

Se o aspirante conseguiu manter a mente de certo modo calma e vazia, seu próximo passo é encontrar o centro de si mesmo. Não basta alcançar a paz de espírito. O aspirante precisa penetrar o Real ainda mais profundamente, e conseguir a alegria do coração.

Se a mente pode atingir um estado do fique livre de suas próprias ideias, projeções e desejos, ela pode atingir a verdadeira felicidade. Aquele belo estado no qual a mente se reconhece pelo que ela é, no qual toda atividade é aquietada, com exceção apenas da atividade da consciência, e assim mesmo de uma consciência sem um objeto — esse é o coração da experiência. Essa é a solidão suprema, à qual todos os seres humanos estão destinados."

Paul Brunton — Idéias em Perspectiva

Um comentário:

  1. Lindo texto, expressa com muita clareza a busca serena
    em direçao a solidão

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