22 de abril de 2017

Saber cuidar - Jeff Foster



"Quando você estiver sentado ao lado de um ente querido que você ama verdadeiramente e que estiver sofrendo, não tente ser forte, não tente ser invulnerável.

Deixe que seu coração se parta um pouco... ou muito...
Incline-se ante a sua fragilidade, ante a sua falta de respostas.
Sinta sua tristeza, seu medo, suas frustrações.
E sua culpa. Você não é um super homem...

É difícil ver alguém que amamos sentindo dor. Não importa o que seja, estar numa situação dessas é realmente difícil.

Agora, observe onde está sua atenção?
Ela está fora do seu corpo? Você está prendendo a respiração? Você está se esquecendo de si mesmo em seu desejo de "ajudar", ou mesmo "salvar" o outro? Está abandonando seu precioso corpo?

O universo não necessita de dois sofrimentos. Um é mais que suficiente. 
Ofereça sua presença agora.
Seu coração completamente aberto.
Escute o outro.
Chore com ele.

Estejam juntos neste lugar em que se encontram. Mas lembre-se que não é seu trabalho salvá-lo, curá-lo, nem eliminar sua dor. Isso depende de Deus, depende do Universo.

Você não sabe o que é melhor para ele. Poderia estar oferecendo respostas equivocadas.

Cada um está em sua própria viagem. A viagem dele não é a sua, - e isso não significa que você seja egoísta.

Seu trabalho é ser amigo neste momento, não seu salvador.

Seja um reflexo da própria presença do seu amigo, de sua força, de sua capacidade de suportar até as energias mais intensas.

Para poder cuidar dos outros, tens que cuidar significativamente de si mesmo, para que esse cuidado transborde, para que que esse cuidado flua até seu amigo, mesmo se ele não estiver consciente disso.

Não abandone a si mesmo em nome da compaixão.
Recorde seu caminho agora, não o dele.
Fazendo menos, poderá irradiar mais....
Jeff Foster 

15 de abril de 2017

Observando os desejos - Eckhart Tolle


Pergunta: Se você vive apenas no agora, o que impediria alguém que está num relacionamento ou casamento de resistir à tentação de fazer sexo com alguém que é atraente, mas não é seu (sua) parceiro(a)? Afinal, se você está no agora e vê uma pessoa atraente, você vai querer fazer sexo com ela agora?

Eckhart Tolle - Será que viver no agora significa ceder a cada impulso que apareça? Então todas aquelas pessoas que correm atrás de um(a) parceiro(a) após outro(a) devem ser iluminadas.

Enquanto você quiser algo de alguém, como o sexo, será que você está presente? Ou será que está procurando chegar a um ponto no futuro que prometa realização? E que por isso transforme o momento presente bem como a outra pessoa num meio para um fim. Todo querer implica que o futuro seja mais desejável do que o presente, não é assim?

É inevitável que a atração física por outra pessoa às vezes aconteça. Isso apenas faz parte da natureza, nada mais.
Quando você se identifica com o impulso, este se torna “você” e vira querer. A outra pessoa torna-se então um meio para um fim; e o fim é o sexo, a consecução do objeto do seu desejo.

Quando você está presente, você pode observar dentro de si a atração ou a sensação sexual, reconhecê-la como natural, aceitá-la e até curti-la sem precisar expressá-la. Afinal, pode até ser totalmente inconveniente agir assim dentro da totalidade da situação.

Quando você se reconhece como o espaço de consciência em que surge o impulso, você não se torna o impulso; você não se perde nele.

Estar presente é ser o espaço, em vez do que acontece."
Eckhart Tolle em Satsang

8 de abril de 2017

Religião e Espiritualidade - Teilhar de Chardin


"A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma. 

A religião é para os que dormem. 
A espiritualidade é para os que estão despertos. 

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados. 
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior. 

A religião tem um conjunto de regras dogmáticas. 
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo. 

A religião ameaça e amedronta. 
A espiritualidade lhe dá Paz Interior. 

A religião fala de pecado e de culpa. 
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"

A religião reprime tudo, te faz falso. 
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
 
A religião não é Deus. 
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus. 

A religião inventa. 
A espiritualidade descobre. 

A religião não indaga nem questiona. 
A espiritualidade questiona tudo. 

A religião é humana, é uma organização com regras. 
A espiritualidade é Divina, sem regras.
 
A religião é causa de divisões. 
A espiritualidade é causa de União.
 
A religião lhe busca para que acredite. 
A espiritualidade você tem que buscá-la.
 
A religião segue os preceitos de um livro sagrado. 
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros. 

A religião se alimenta do medo. 
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé. 

A religião faz viver no pensamento. 
A espiritualidade faz Viver na Consciência..
 
A religião se ocupa com fazer. 
A espiritualidade se ocupa com Ser. 

A religião alimenta o ego. 
A espiritualidade nos faz Transcender. 

A religião nos faz renunciar ao mundo. 
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
 
A religião é adoração. 
A espiritualidade é Meditação.
 
A religião sonha com a glória e com o paraíso. 
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
 
A religião vive no passado e no futuro. 
A espiritualidade vive no presente. 

A religião enclausura nossa memória. 
A espiritualidade liberta nossa Consciência. 

A religião crê na vida eterna. 
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna. 

A religião promete para depois da morte. 
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual... 
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana.."

-Teilhard de Chardin-

1 de abril de 2017

Osho fala sobre os Upanishads


"Estamos penetrando num mundo dos mais encantados e misteriosos - o mundo dos Upanishads.
Os dias dos Upanishads foram os mais notáveis no campo da busca espiritual. Nunca antes ou depois a consciência humana atingiu tamanhas culminâncias.

AUM                                                      AUM
Purnamadah                                        Aquilo é o Todo.
Purnamidam                                        Isso é o Todo.
Purnat purnamudachyate                    Da Totalidade emerge
Purmasya purnamadaya                      a Totalidade
Purnameva vashishyate                      E a totalidade permanece    

* Isha Upanishad                      

A totalidade é outra coisa; tem outro sabor. A perfeição está no futuro: é o desejo. A totalidade está aqui: é uma revelação. A perfeição tem que ser alcançada e isso, obviamente, leva tempo: precisa ser gradual. Cumpre sacrificar o presente pelo futuro, o hoje pela manhã. Mas o amanhã não chega sempre é o hoje.

A existência ignora o futuro e o passado; só conhece o presente. O agora é o único tempo, o aqui é o único espaço. Se você se abstrair do agora e do aqui, mergulhará em alguma forma de insanidade. Você se fragmentará num inferno. Você ficará dividido: o passado requisitará uma parte de você e o futuro requisitará a outra parte. Você se tornará esquizofrênico, cindido, pulverizado. Sua vida será apenas angústia profunda, temor, ansiedade, tensão. Você não conhecerá a bem-aventurança, não conhecerá o êxtase porque o passado não existe.

As pessoas vivem de lembranças que são meras pegadas na areia; ou projetam sua vida no futuro, que também não existe. O passado já se foi, o presente ainda não chegou - e, entre os dois, a pessoa perde o real, o presente, o agora.

A totalidade é feita do agora. Se você conseguir simplesmente estar aqui, este exato instante trará a revelação! Não gradual, mas súbita - uma explosão!

A palavra Upanishad é tremendamente importante: significa apenas ficar sentado junto ao mestre, uma comunhão. O mestre vive na totalidade; vive e palpita no aqui e agora. Sua existência tem música, tem alegria, tem silêncio absoluto. Sua existência é cheia de luz.

O mero ato de sentar-se em silêncio junto ao mestre já basta porque a presença dele é contagiosa, a presença dele é pujante. O silêncio do mestre se insinua em nosso coração. A presença do mestre funciona como um imã; esse imã nos puxa do pântano do passado e do futuro. Traz-nos para o presente.

Upanishad é comunhão, não comunicação. A comunicação acontece entre cabeças, a comunhão entre corações. Esse é um dos maiores segredos da vida espiritual e nunca, em lugar algum, foi compreendido tão profundamente quanto nos dias dos Upanishads.

Os Upanishads surgiram há cerda de 5 mil anos. Uma comunhão secreta, uma transmissão que prescinde de escrituras e palavras. Upanishad é isto: sentar-se silenciosamente para ouvir não apenas minhas palavras, mas também minha presença; as palavras são o invólucro. Quem se interessa demais pelas palavras não capta o espírito.

Por isso, não valorize muito a palavra. Ouça a pulsação do mundo. Quando o mestre fala, suas palavras brotam de seu íntimo. Elas estão repletas da cor, da luz do mestre. Trazem um pouco do perfume de seu ser. Se você for aberto, vulnerável, receptivo, acolhedor, então elas penetrarão em seu coração e darão início a um processo.

A palavra Upanishad significa aproximar-se de um mestre e só nos aproximamos de um mestre quando estamos fartos de professores, lições dogmas, credos, filosofias, teologias, religiões. É então que procuramos um mestre. E o fazemos pela renúncia. Não se trata de renunciar ao próprio ser, mas ao ego, essa falsa ideia de que somos alguém, alguém especial. Tão logo sufocamos a ideia do ego, as portas se abrem - para o vento, a chuva, o sol - e a presença do mestre começa a nos invadir, criando uma nova dança em nossa vida, fornecendo-nos um novo sentido de poesia, mistério e música.

Sincronicidade: o mestre dança num certo ritmo e num determinado plano. Se você estiver pronto, também começará a dançar como ele - no princípio só um pouco, mas esse pouco já é o bastante. No princípio gotas; logo depois, o oceano.

Quando houver saboreado a alegria de abrir-se, você não conseguirá mais fechar-se. Primeiro, abrirá apenas uma janela ou uma porta; em seguida, todas as janelas e todas as portas. Chega um momento na vida do discípulo, em que não só as portas e janelas se abrem, como as próprias paredes desaparecem. O discípulo está então totalmente aberto, multidimensionalmente disponível, Esse é o signficado da palavra Upanishad.

Os Upanishads foram escritos em Sânscrito, a língua mais antiga da Terra. A palavra Sânscrito quer dizer, transformado. A própria língua se transformou porque como muitos que a usavam atingiram o absoluto, parte de sua alegria e parte da sua poesia penetraram nas células nas fibras dessa língua. Ela se modificou, se iluminou. Foi inevitável. (...) A iluminação deles penetrou no Sânscrito com sua música, sua poesia, sua celebração. O Sânscrito se iluminou. É o idioma mais poético e musical que jamais existiu.

Uma língua poética é o oposto de uma língua científica. Numa língua científica, cada palavra precisa ter um significado exato, ou seja, um único significado. Numa língua poética, a palavra precisa ser líquida, fluída, dinâmica ( nunca estática ); precisa apresentar vários significados, várias possibilidades. (...) Dá-se ao Sânscrito o nome de devavani, "a língua divina". E com razão, pois, de todos, é o idioma mais poético e mais musical. Cada palavra soa como música, cada palavra tem seu perfume.

Por que isso aconteceu? Porque muitos dos seus falantes estavam repletos de harmonia interior. Como esses falantes eram iluminados, as palavras que empregavam se tornaram luminosas. Parte de sua luz se transferiu para os vocábulos, aderiu a eles; parte de seu silêncio se entranhou na própria gramática, na própria estrutura da língua que usavam. (...)Cada palavra foi usada por pessoas que conheceram Deus ou o divino.

Eis um fundamento que nunca deve ser esquecido. Os Upanishads dizem que o mundo é a forma manifesta de Deus e que Deus é a forma não manifesta do mundo; dizem também que cada fenômeno manifesto traz em si um fenômeno não manifesto.

Quando você vê uma flor, vê apenas a forma manifesta de algo que está dentro dela, sua essência invisível, sua alma seu ser verdadeiro dissecando a flor. Para consegui-lo, precisará recorrer a abordagem poética, não à abordagem científica. Esta analisa, aquela é uma perspectiva totalmente diversa. A ciência jamais encontrará beleza na flor porque a beleza pertence à forma não manifesta. A ciência dissecará a forma manifesta e encontrará todas as substâncias de que a flor é constituída, mas não encontrará sua alma.

Todas as coisas têm corpo e alma. O corpo é o mundo e a alma é Deus; o corpo, porém, não é inimigo da alma, assim como o mundo não é inimigo de Deus. O mundo manifesta Deus, exprime Deus. Deus é o silêncio e o mundo é a canção desse silêncio. O mesmo se aplica a você. Toda pessoa tem uma estrutura manifesta ( corpo-mente) e uma estrutura não manifesta ( consciência).

A religião busca descobrir o não manifesto no manifesto. Não é uma questão de fugir de tudo; é uma questão de explorar as profundezas. Explorar o centro silencioso, o olho do furacão. Ele está sempre presente e pode ser achado a qualquer momento. Não é algo que se vá encontrar em outra parte, no Himalaia ou num mosteiro. Está dentro de nós! Podemos encontrá-lo tanto no Himalaia quanto num mercado.

Os Upanishads ensinam que é errado escolher entre o absoluto e o relativo. Qualquer escolha nos divide, impedindo-nos de ser um todo. E sem totalidade não há bem-aventurança, não há santidade; sem ela nos tornaremos invariavelmente um pouco dispersos, insanos. Quando formamos um todo temos saúde porque não estamos fragmentados.

O relativo é o mundo mutável, fenomênico; o absoluto é o centro permanente de um mundo inconstante. Encontre o imutável no mutável. Ele está ao seu alcance, você só precisa conhecer a técnica de encontrá-lo. Essa técnica é a meditação.

Meditar significa simplesmente sintonizar-se com o não-manifesto. O corpo está aí, você pode vê-lo; a mente está aí, você pode vê-la também. Se fechar os olhos, conseguirá surpreendê-la em pleno funcionamento, em plena ação. Pensamentos irrompem, desejos brota, lembranças chegam à superfície - a atividade toda da mente está aí, você pode percebê-la.

Uma coisa é certa: o observador não é a mente. Aquele que acompanha as atividades da mente não faz parte da mente. O observador está separado, a testemunha está separada. Quando você toma consciência dessa testemunha, descobre o essencial, o central, o absoluto, o imutável.

O corpo muda: as pessoas são crianças, depois jovens, depois velhas...Estiveram no útero da mãe, nasceram e um belo dia morrerão, desaparecendo no ventre da existência. O corpo muda, muda sem parar.

A mente muda. De manhã você está alegre, de tarde irritado, de noite triste. Humores, emoções, sentimentos mudam; pensamentos mudam. A roda gira perpetuamente em torno de você como um ciclone. O mundo dos fenômenos é o ciclone, nunca o mesmo, sequer por dois momentos consecutivos.

Entretanto alguma coisa é sempre a mesma, inalterável: a testemunha. Descobri-la é descobrir o Divino. Por isso, os Upanishads não ensinam nenhum culto, ensinam a meditação. Esta pode ser praticada em qualquer lugar porque o objetivo é descobrir a testemunha. Num mosteiro, o mesmo método deverá ser aplicado; e numa montanha também. Você poderá estar em casa, com a família, ou no supermercado - método é um só.

No mundo, na verdade, é mais fácil perceber a mudança. No deserto é mais difícil, porque ali nada parece se alterar; as mudanças ocorrem de maneira tão sutil que é quase impossível notá-las. Mas no mercado ou na rua, podemos perceber a mudança a todo instante; o trânsito flui, jamais se detém. Viver num mosteiro é viver num mundo estático, num mundo sonolento. É viver como uma rã numa lagoa, num poço fechado. No oceano, percebe-se melhor as mudanças.

É bom estar no mundo; eis a mensagem dos Upanishads. Os videntes upanishádicos não eram ascetas. Sem dúvida renunciavam a muita coisas, mas essa renúncia não lhes custava nenhum esforço; provinha do conhecimento, da meditação. Eles renunciavam ao ego porque sabiam que o ego é um produto fabricado pela mente. Não possui realidade nem substância; não passa de sombras e perder tempo com ele é uma estupidez. Renunciar, aqui não é bem o termo; melhor diríamos que, dado o grau desses videntes, o ego definhava por si mesmo.

Eles se tornavam não possessivos. Isso não quer dizer que não possuíam coisas, e sim que não se apegavam a elas. Usavam-nas. Não eram mendigos. Viviam alegremente, gozando tudo o que lhes fosse acessível, mas não se agarravam a nada. Esta é a verdadeira renúncia: viver no mundo e ainda assim não ter apego algum. Amavam, mas não eram ciumentos. Amavam plenamente, mas sem egoísmo, sem querer dominar o outro.

É isso que estou tentando fazer aqui. (...) Nos Upanishads encontrarão seu próprio coração, eles rejubilarão nos Upanishads, por que os Upanishads ensinam a Totalidade." 

Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.
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