11 de novembro de 2017

Ego e Sofrimento - Eckhart Tolle


"Uma pessoa dominada pelo ego, não reconhece o sofrimento como sofrimento - ela o considera a única resposta adequada em qualquer tipo de situação.

O ego, na sua cegueira, é incapaz de ver a dor que inflige a si mesmo e aos outros.

A infelicidade é uma doença 'mental-emocional' que atingiu proporções epidêmicas. É o equivalente subjetivo da poluição ambiental do planeta.

Estados como raiva, ansiedade, rancor, ressentimento, descontentamento, inveja e ciúme, entre outros, não costumam ser vistos como o que são, e sim como condições totalmente justificadas.

Além disso, há uma compreensão errônea de que eles não são criados pela própria pessoa, mas por alguém ou por um fator externo.

'Eu o considero responsável pela minha dor.' Isso é o que o ego deixa subentendido.

O ego não consegue distinguir entre uma situação e a sua interpretação a respeito dela, sua reação a ela.

Podemos dizer 'Que dia horrível!', sem atentarmos para o fato de que o frio, o vento e a chuva ou qualquer elemento ao qual estejamos reagindo não são horríveis. Eles são como são.

O que é horrível é a nossa reação, a resistência subjetiva a eles e a emoção que é criada por essa resistência. (...)

Mais do que isso, o ego sempre interpreta mal o sofrimento porque, até determinado ponto, ele se fortalece por meio desse estado negativo."

Eckhart Tolle em O Despertar de uma nova consciência.

4 de novembro de 2017

Meditação - Jeff Foster


"A verdadeira meditação não é um 'fazer', não é uma tarefa que deve ser cumprida ou algum processo que leve o faminto buscador para uma meta ou um estado futuro, é mais o tipo de fascinação, pura, que pode sentir uma criança.

Uma fascinação com cada pensamento, com cada sensação, com cada sentimento, com cada som, com a fascinação mesma, com cada coisa que seja neste momento.
É um radical estar aqui, e perceber, em completa fascinação, como surge e desaparece o desejo de chegar 'lá'.

É estarmos conscientes de cada engenhosa tentativa do pensamento para escapar deste momento; notando que inclusive estes desejos são radicalmente aceitos no tranquilo e aberto espaço que somos; e dar-nos conta que inclusive 'eu sou quem se dá conta' ou 'eu sou quem controla' são pensamentos que, como tudo mais, tem permissão absoluta de surgir e desaparecer aqui.

Esta é a meditação sem meditador, e é a luz que nunca se apaga.

A verdade da meditação é muito diferente do sonho da meditação.

Muitas vezes entramos em meditação esperando felicidade, alegria, paz eterna, o fim de toda dor.

Mas a meditação tem sua própria inteligência, seu próprio caminho.

As vezes a dúvida, a tristeza, inclusive a decepção querem dançar conosco durante a meditação.

Deixe-os passar.

De lugar a eles.

Deixe que a meditação seja um grande campo no qual TODO pensamento, som, sensação, urgência, impulso, fantasia sejam bem vindos a entrar, permanecer por um tempo, e desaparecer.
Deixe que o sonho da meditação se rompa em mil pedaços.
Deixe que os planos venham abaixo.
Deixe que as expectativas se desvaneçam.

Deixe que a meditação seja o que é:
um espaço que acolhe tudo, uma imensidão que permite tudo, assim como o céu permite o clima, assim como o sol brilha sobre 'bons' e 'maus' da mesma forma, indiscriminadamente, oferecendo sua luz gratuitamente.

O sonho da meditação é o controle.
A verdade da meditação é o amor."

28 de outubro de 2017

A verdadeira escuta - J.Krishnamurti


"Permiti-me sugerir-vos escutardes o que estou dizendo sem emitir julgamento, sem dizer que é impossível.

Por favor, não traduzais o que se está dizendo nos termos dos vossos próprios conhecimentos, nem o escuteis em atitude defensiva, comparando-o com o que outros vos disseram ou com o que lestes nos livros sagrados — que não são mais sagrados do que outro livro qualquer.

Escutar é uma tarefa bem difícil; em geral, nunca prestamos atenção senão à voz de nosso próprio pensar, de modo que, na realidade, nada nos é comunicado.

Escutar com julgamento, comparando o que se ouve com o que já se sabe ou leu, é uma forma de distração.

Mas, se sois capaz de escutar sem comparação, com atenção natural, então o próprio ato de escutar é um ato de meditação que, indubitavelmente, gera profunda transformação.

Tentai de vez em quando observar-vos, para ver se escutais realmente alguma coisa, o que vossos amigos dizem, o que diz vosso marido ou esposa, o que diz vosso patrão — e vereis que vossa mente está sempre totalmente ausente.

Simulais estar escutando, mas só escutais pela metade; ou tendes medo, ou estais enfadado, ou simplesmente não desejais escutar e, portanto, não há comunicação direta.

Como disse, o escutar, por si só, opera um extraordinário milagre.

O próprio ato de escutar produz uma compreensão imensa, sem esforço algum de vossa parte."

J.Krishnamurti em Satsang

21 de outubro de 2017

Sobre a morte e a imortalidade - Osho



"Nem pelo trabalho, nem pelo nascimento nem pela fortuna, mas apenas pela renúncia, alcançamos a imortalidade.
Mais sublime que o céu, a verdade absoluta, radiante mora na caverna do coração; e é ali que o buscador sincero a encontra."
Kaivalya Upanishad

"O problema da religião é a morte. Como resolvê-lo? Tentamos de várias maneiras. Por meio da riqueza, da ciência, da saúde, da proteção, da medicina, da filosofia e da teologia elaboramos diversas estratégias para sermos imortais. Inventamos muitas coisas, mas todas são vãs, sem sentido absurdas. A morte vem e nada a detém. Sempre foi assim e sempre será porque a morte na verdade, não está apenas no futuro, está também no passado.

Quando alguém nasce, a morte nasce com ele. A morte não está apenas no futuro, é uma decorrência daquilo que chamamos de nascimento. O nascimento é o começo da morte, ou poderíamos dizer, a morte é o final do processo de nascimento. Portanto, o aniversário do seu nascimento é também o aniversário da sua morte. O início é o fim, porque todo início implica um fim. Todo início tem seu fim como a semente. Se a morte estivesse unicamente no futuro, poderia ser evitada. Mas não está, ela faz parte de você, está aqui e agora dentro do seu ser - avançando, crescendo. 

Consequentemente, a morte não é um ponto fico em algum lugar. É algo que cresce em seu interior, e cresce sem parar. Quando você a combate, ela cresce. Quando você a alimenta, ela cresce. Quando tenta escapar de suas garras, ela cresce. Assim, o que quer de faça, uma coisa está constantemente em movimento: ou seja, você está morrendo. O que quer que faça - dormir, relaxar, trabalhar, pensar, meditar - uma coisa é certa: a morte está tomando corpo constantemente, continuamente. Ela não precisa de sua ajuda, não precisa de sua cooperação. Não liga para suas defesas, continua crescendo. Por quê? Porque nasceu quando você nasceu, faz parte de seu nascimento. A morte não pode ser evitada, pelo meios que o homem, a mente humana, sempre empregou.

Este Upanishad diz: a morte pode ser evitada, você se torna imortal, você pode conhecer aquilo que é imortal - que jamais morrerá.
Mas como conhecer isso? Onde procurá-lo, como descobri-lo? Afinal, todos  os esforços de que temos ciência são irrelevantes, sem sentido.
O Upanishad diz: não lute contra a morte, antes, procure saber o que é a vida. Não insista em escapar da morte, antes decida entrar na vida - a própria chama da vida deve ser penetrada. Não crie um tipo de vida negativa; não teime em fugir da morte - esse é uma ato negativo. Seja positivo e ocupe-se em aprender o que é a vida. De fato, a morte não se opõe à vida. Nos dicionários sim, na existência não. A morte não se opõe à vida; a morte se opões ao nascimento.

A vida é algo mais. Ela antecede o nascimento, não nasce. O nascimento é um fenômeno que acontece na vida. O nascimento não é o início da vida. Se fosse, então você teria nascido morto. O nascimento não é o início da vida, a vida o antecede. A vida está implícita no nascimento, existe antes dele. E como existe, dá-se o nascimento. A vida vem antes, o nascimento vem depois. Você existe mesmo antes de nascer. Você nasceu porque já existia.

O mesmo ocorre com a morte. Se você existia antes de nascer, então existirá depois de morrer, pois o que está presente antes do nascimento necessariamente estará presente depois da morte. A vida é algo que acontece entre o nascimento e a morte - e além do nascimento e da morte.

Devemos imaginar que a vida é um rio. Nele, um ponto é conhecido como nascimento, outro como morte, mas ele não para de fluir. Continua a fluir depois da morte o rio que já fluía antes do nascimento. Essa vida semelhante a um rio deve ser penetrado, do contrário nunca conheceremos aquilo que é imortal. Obviamente, o que não é mortal deve ser não nascido. Entretanto nosso olhar é  inteiramente mal orientado. Olharmos para uma maneira de escapar da morte. Ele é contra a morte, não a favor da vida. Por causa dessa falha única, nunca conseguimos conhecer o imortal. Prosseguimos na busca - descobrindo novos métodos, novas técnicas, novos recursos para iludir a morte. Mas a morte vem e jamais deixará de vir.

É preciso conhecer a vida. Jesus disse: "Buscai a vida, a abundância da vida." Não se contentem com aquilo que você chama de vida. Procure mais, descubra mais, aprofunde-se mais - saia à cata de mais vida. No momento buscamos menos morte e não mais vida. Nossa preocupação se volta totalmente para a morte.
Um exemplo. Na escuridão você pode fazer duas coisas: lutar contra ela, na tentativa de destruí-la, ou procurar uma luz, o que é bem diferente. Você poderá combater diretamente a escuridão, mas será derrotado: a escuridão é que vencerá. Não porque seja mais forte que você, mas porque você não tem poderes contra ela. Não, não: a escuridão não é poderosa e você não é impotente! Ocorre que a escuridão não passa de ausência e ninguém consegue lutar contra uma ausência.
A escuridão é negativa. Você não pode lutar contra ela e, se lutar, será derrotado - não porque ela seja forte, mas porque não existe. Como lutar contra algo inexistente? A escuridão não é nada; é apenas a ausência de luz. Se você decidir lutar contra ela, ficará lutando por milhares de anos, sem vencer nunca. Quanto mais for derrotado, mais procurará novos métodos de vencer. E quanto mais for derrotado, mais vai se sentir impotente e achar que a escuridão é muio poderosa. Pensará então que precisa descobrir algo mais poderoso que ela. Essa lógica é inteiramente falaciosa, um círculo vicioso; continue a aplicá-la e você jamais escapará desse círculo.(...)

O caso da morte é o mesmo. A morte não é uma entidade positiva, é apenas a ausência de vida. Quando a vida se ausenta, a morte ocorre. A morte é alguma coisa que se vai, não alguma coisa que vem até você - só a vida vai para algum outro lugar. O rio da vida começa a fluir para um determinado ponte e a morte ocorre - ela é apenas uma ausência.
Não há luz, as trevas ocorrem. A luz vem, as trevas não estão mais ali. Portanto, encontre luz, encontre a vida. Não lute contra a morte, não combata as trevas. Não seja negativo, seja positivo. E por positivo, entendo procurar sempre o que está presente. Jamais saia em busca do que está ausente - você jamais encontrará.
A morte acontece todos os dias, mas ninguém a encontrou, ninguém a conhece. Nem pode conhecer - como poderia? 
Você é a vida - como conheceria a morte? A escuridão está aí, mas o sol nunca a conheceu - como poderia o sol conhecê-la? Quando o sol aparece, não há mais trevas; portanto os dois nunca se encontram, não podem se encontrar isso é impossível. (...)

Você não pode encontrar sua própria ausência. Como poderia? A morte é a sua ausência. Quando você está ausente, a morte ocorre.
Permita-me dizer uma coisa: a morte é um fenômeno social, não individual. Nenhum indivíduo morre; o rio individual continua a correr para algum lugar. Mas quando, partindo de uma multidão, o rio individual flui para outro lugar, aos olhos da multidão alguém morreu; aos olhos da multidão alguém se ausentou. Se meu amigo morreu, morreu para mim, não para ele mesmo. A morte é um fenômeno que ocorreu para mim, não para meu amigo. Como seria possível que ocorresse para ele?
A vida não pode se defrontar com a morte; a vida é um movimento em direção a algum outro lugar - por isso nós nos defrontamos com ela. A morte é um fenômeno social, não é um fenômeno individual. Ninguém jamais morreu, mas nós sabemos que todos morrem. E todos morrem porque alguém de repente desaparece; Estamos aqui, se eu de repente desaparecer, então morri - não para mim, mas para você. Para você eu desapareci. Mas como desaparecer para mim mesmo? Isso seria impossível.

Os Upanishads recomendam: não lute contra a morte, lutar contra a morte é lutar contra a ausência. Em vez disso, procure a presença que está em você. Quem está presente em você? Descubra. O que está presente em você que você chama de vida? O quê? De onde veio para penetrar no seu ser? Qual é o centro, a fonte disso? Mergulhe em seu íntimo e descubra a fonte. Segundo o Upanishad essa fonte da vida está oculta em seu coração. Entre nele e encontre a fonte original. Depois que você conhecer essa fonte, não haverá mais morte para você, não haverá mais medo, não haverá mais nenhum problema. Depois que conhecemos a vida, nos tornamos imortais."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

14 de outubro de 2017

Tantas mentes, tantos mundos - Osho


"A aparência das coisas é imposta ao eu. Eliminando-a, 
o eu se torna o Brahman absoluto, íntegro, sem igual e sem ação.
A aparência do eu, sob o aspecto do mundo da divisão, é falsa porque aquilo que não muda, 
que não tem órgãos, não é divisível.(...)
O eu consciente é livre do sentimento do observador, da observação e do observado. 
É inocente e pleno como o oceano.
Assim como as trevas destroem a luz, assim, a causa da ilusão se dissolve no Supremo que não tem igual. E, dado que o Supremo não tem órgãos, como poderia ser divisível?
Dado que a realidade superior é una, como haveria divisões?
No sono profundo, sem sonhos, sushupti, só existe a bem-aventurança.
Poderia ela por acaso, ser dividida?"

~Adhyatma Upanishad ~

Este Upanishad, em essência, se insurge contra a mente. Mas, não apenas ele; todas as lições do Upanishad se insurgem contra a mente.

Na verdade, a religião se opõe à mente, porque a mente cria toas as ilusões, todos os sonhos. Ela cria tudo aquilo que chamamos de mundo. A mente é o mundo; esforce-se por compreender essa verdade, que é uma das verdades fundamentais.

Em geral, pensamos estar vivendo todos num mundo só. Isso é absolutamente falso. Você vive em seu mundo, eu vivo no meu mundo; quantos mundos houver, outras tantas mentes haverá. Cada mente é um mundo próprio. Minha mente cria meu mundo; sua mente cria seu mundo.

O poeta vive em seu próprio mundo. O cientista nunca entra nesse mundo, não pode entrar. O cientista e o poeta podem ser vizinhos, mas constituem polos opostos. O cientista atravessa um jardim e olha para flor, mas essa flor não é vista. Ele olha para a estrutura da flor, não para a própria flor. Ele não consegue ver a flor do poeta,, nunca. Quando o cientista olha para uma flor, o que enxerga é um fenômeno químico. Esse fenômeno representa um mistério para ele, mas um mistério pode ser decodificado. É desconhecido, mas não incognoscível. Será conhecido - se não hoje, então amanhã, mas sempre é um mistério que pode ser desmistificado. A razão é capaz de penetrar sua estrutura e descobrir o que essa flor é e como desabrocha: a estrutura material, a estrutura atômica pode ser conhecida, penetrada. Portanto, a flor nunca é um mistério para o cientista do mesmo modo, que é um mistério para o poeta.

Quando o poeta passeia pelo jardim e olha aquela flor, não vê a mesma flor que o cientista viu. Entendamos bem isso. A mesma flor é olhada por duas mentes - uma com atitude científica, a outra com atitude poética. A flor é e não é uma só porque o cientista pensa numa flor diferente - química, elétrica, material estrutural. Pensa em termos de átomos: pensa em como essa flor é o que é. Qual o seu mecanismo? De que modo esse mecanismo funciona?

O poeta não liga de modo algum para átomos, matéria, moléculas, mecanismos, estruturas. Não, o poeta aprecia a beleza, de que o cientista nunca se dá conta. O poeta se dá conta de um certo mistério a que chama de beleza, mistério que não é o mesmo e que, para ele, jamais poderá ser desvendado. Se puder, não é mistério.
Para o poeta, mistério significa aquilo que permanecerá incognoscível. (...) O incognoscível é aquilo que não pode ser conhecido - nunca! Aos olhos do poeta, uma flor permanecerá para sempre misteriosa. Esse mistério é a sua beleza e a beleza não tem estrutura; a beleza não tem moléculas, átomos, mecanismo. O que é a beleza? Algo imaterial, não material - que na verdade, o poeta não vê, mas sente.

Podemos levar também, a passear no jardim, um místico - um santo, um sufi, um monge zen. Para ele, a flor não é nem uma estrutura científica a ser compreendida, analisada e conhecida, nem beleza, sensação poética, estética. Não: um místico, ao observar uma flor, se torna a própria flor. As barreiras se dissolvem. A flor não está lá e o místico aqui - aqui e lá se tornam uma só coisa. Por isso, o místico pode dizer: "Desabrochei em você."
A divisão não está presente. O místico penetra no próprio espírito da flor - ou a flor penetra no místico, tornado-se uma só coisa com ele. Um sentimento de unicidade, de unicidade divina, desce sobre o místico.
O cientista se aproxima da flor por meio do intelecto; o poeta se aproxima da flor por meio do coração; e o místico se aproxima da flor por meio de sua totalidade, de sua plenitude. A flor é e não é a mesma porque três mentes criam três mundos e esses mundos nunca se encontram. O poeta não poderá jamais entender que de que flor o cientista está falando. O cientista não poderá jamais entender o poeta, que lhe parece pueril, absurdo; nem o místico, que para ele é um louco: "O que quer dizer com isso de se tornar você próprio a flor? Ficou maluco? Como pode alguém se transformar numa flor? E como pode uma flor se transformar em alguém?. A ciência depende da divisão, por isso o mundo não dividido do místico é uma insensatez; o místico é louco.(...)

Se você escrever qualquer coisa em linguagem poética, ninguém conseguirá traduzi-la. Com a prosa é diferente, pois a prosa é racional. A poesia não pode ser traduzida porque é a expressão do irracional , em que o importante são os sentimentos e as emoções.
Quanto ao místico, à sabedoria dos místicos, também isso não se pode traduzir. É que essa sabedoria nada tem a ver com a linguagem; tem a ver com o ser, com a totalidade. Buda olhando o mundo diz palavras intraduzíveis. Por quê? Porque o olhar de Buda é tão vasto, tão abrangente que nenhuma palavra é capaz de exprimir o que ele vê. (...)

Você pode viver com sua esposa por quarenta, cinquenta anos - mas já reparou que não há uma linguagem comum entre ambos? O marido diz uma coisa, a esposa entende outra. Vivem juntos há quarenta, cinquenta anos - qual é então o problema? Por que não são capazes de entender as palavras e as definições do cônjuge? É difícil: cada qual tem sua mente; E cada mente tem seu próprio mundo, de modo que  tudo quanto penetrar nele assume forma e cor próprias. O marido tem seu mundo e o que diz significa alguma coisa de acordo com sua maneira de pensar. Quando suas palavras penetram no mundo da esposa, transformam-se em outra coisa. Os dois mundos nunca se encontram.

Só existe encontro onde existe silencio; não existe encontro onde existe conversa. Por isso o amor é silencioso. Quando amamos alguém não falamos, apenas estamos presentes um para o outro. A conversa cessa.

Portanto lembre-se: quando dois amantes começam a falar, já não há amor entre eles. Quando ficam em silencio, o amor existe - no amor, podem entender-se muito bem. Por quê? Porque no amor, a mente não tem permissão para estar. A linguagem se ausenta, a conversa essa, não se proferem mais palavras - a mente deixou de funcionar. Por alguns poucos instantes, ela não funciona e o amor se torna comunhão.
A conversa acaba desandando em debate, discussão, controvérsia. Você diz uma coisa e o outro entende outra coisa. Dizer algo é ser mal compreendido porque você tenta se aproximar de um mundo diferente, com diferentes atitudes, diferentes orientações, diferentes linguagens. Não existe um mundo único: tantas mentes, tantos mundos.

Por que insistir nessa postura? Apenas diga a si mesmo que, na verdade, existe um mundo só, ao qual, no entanto você só terá acesso depois de sua mente se dissolver. Se continuar apegado à sua mente, continuará criando seu próprio mundo, projetando seu próprio mundo. Quando a mente já não existe, você encontra a unicidade, a existência divina e indiferenciada.

Essa existência é bem-aventurança.
Essa existência é consciência.
Essa existência é verdade.

Sempre que você se mover rumo à religião, se moverá ruma à não mente. Jogue fora a mente e permaneça sem mente, mas consciente. Se permanecer sem mente e consciente, penetrará na camada profunda da existência.
No entanto, lembre-se: permanecer sem mente não é o bastante, pois no sono profundo, sem sonhos, todos ficamos sem ela.
A psicologia indiana divide a consciência humana em três etapas: o sono com sonhos; acima deste, o sono com sonhos; e na superfície, a vigília. De manhã você se levanta da cama e entra no estado de vigília. Á noite, vai para a cama e entra no estado de sono com sonhos. Mais tarde, os sonhos desaparecem, e você mergulha no abismo do sono sem sonhos - conhecido como sashupti.
No sonho sem sonhos não há mente porque não há pensamento, sonho ou agitação; tudo cessa, a mente se dissolve e você fica sem mente. Daí, a recomendação: " Estejam atentos e não pensem." Essa é a única diferença entre samadhi e sushupti. Samadhi é o ponto mais alto do êxtase e sushipti, o centro mais profundo do sono sem sonhos. Não há outra diferença; em tudo o mais são uma coisa só. Em sushipti, não há mente; em samadhi não há mente. Em sushupti você está inconsciente. Em samadhi, você está totalmente consciente. A consciência, porém é a mesma. Em um estado há trevas; no outro, há luz.

Graças à meditação, mergulhamos num sono sem sonhos e, ainda assim, permanecemos alertas. Quando isso acontece, a gota cai no oceano e se transforma em oceano."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

7 de outubro de 2017

O que é a mente? - J.Krishnamurti


"Você sabe o que é a mente? Grandes filósofos consumiram anos e investigar a natureza da mente, e sobre ela se têm escrito vários volumes; mas, prestando-se toda a atenção, acho que é bastante simples descobrir o que é a mente. Você já observou a sua própria mente? Tudo o que até hoje você aprendeu, a lembrança de todas as suas pequenas experiências, tudo o que seus pais e mestres lhe ensinaram, tudo o que você leu em livros e observou no mundo circundante — tudo isso é a mente. É a mente que observa, que discerne, que aprende, que cultiva as chamadas virtudes, que comunica ideias, que tem desejos e temores. Ela é, não só o que você vê à superfície, mas também as profundezas do inconsciente, onde estão ocultas as raciais ambições, motivos, impulsos, conflitos. Tudo isso constitui a mente. 

Pois bem; a mente quer estar sempre ocupada com alguma coisa, assim como a mãe que se preocupa com os filhos, ou a dona de casa com sua cozinha, ou o político com sua popularidade, sua posição no Parlamento; e a mente que se mantém ocupada é incapaz de resolver um problema. Percebe isso? Só a mente que não está ocupada, está fresca e pode compreender um problema.

Observe sua própria mente para ver como é inquieta, uma vez que está sempre ocupada com alguma coisa: com o que alguém disse ontem, com alguma notícia recebida neste instante, com o que você fará amanhã, etc. Nunca se encontra desocupada — o que não significa estar “estagnada” ou num estado de vacuidade. 

Enquanto está ocupada com o que quer que seja — as coisas mais elevadas ou as mais insignificantes — a mente é sempre limitada, medíocre. E a mente medíocre é incapaz de resolver qualquer problema; só sabe manter-se ocupada com ele. Por mais importante que seja o problema, a mente mantendo-se ocupada com ele, o torna insignificante: só a mente que está desocupada e, por conseguinte, fresca, pode considerar e resolver um problema.

Mas, é dificílimo ter a mente desocupada. Quando alguma vez você estiver sentado tranquilamente à beira do rio, ou em seu quarto, observe a si mesmo, para ver como aquele pequeno espaço de que você está consciente e que você chama “a mente”, está repleto de pensamentos que nele se precipitam. Enquanto a mente está “cheia”, ocupada com alguma coisa — seja a mente de uma dona de casa, seja a do maior dos cientistas, ela é pequena, medíocre, e nunca será capaz de resolver qualquer problema a que se aplique. Mas, ao contrário, a mente que está desocupada, que tem espaço, pode aplicar-se ao problema e resolvê-lo, porque essa mente é fresca, e, portanto, se aplica ao problema de maneira nova e não com a velha herança de suas próprias lembranças e tradições."

J.Krishnamurti – A cultura e o problema humano

30 de setembro de 2017

O rio da Vida - J.Krishnamurti


"Você sabe o que significa busca a permanência? Significa desejar que as coisas agradáveis durem eternamente, e as desagradáveis terminem o mais rápido possível Desejamos que nosso nome se torne famoso e tenha continuidade em nossa família e em nossos bens materiais; queremos o sentimento de permanência em nossas relações e atividades; e tudo isso significa que desejamos uma existência duradoura, contínua, em nosso fosso estagnado; lá, não queremos verdadeiras mudanças e, assim, edificamos uma sociedade que nos garante a permanência de nossos bens, nosso nome, nossa fama.

Mas, veja, a vida de modo algum é assim; a vida não é permanente. Como as folhas que caem da árvore, todas as coisas são impermanentes, nada perdura; há sempre mutação e morte. Você já observou uma árvore nua, desenhada contra o céu? Em seus galhos bem delineados, em sua nudez, há um poema, uma canção. Foram-se todas as suas folhas, e ela aguarda a primavera. Com a vinda da primavera, de novo se enche a árvore com a música de suas folhas que, na estação própria, caem e são levadas pelo vento. Assim também é a vida.

Mas nós não a queremos assim. Apegamos-nos aos nossos filhos, nossas tradições, nossa sociedade e nossas insignificantes virtudes, porque desejamos permanência; por isso é que temos medo de morrer. Tememos perder as coisas que conhecemos. Mas a vida não é como desejamos; a vida em coisa nenhuma é permanente. Os pássaros morem, a neve derrete, as árvores são abatidas pelo homem ou destruídas pelas tempestades, e assim por diante. Mas, queremos que perdure a nossa posição, a autoridade que sobre outros exercemos. Recusamo-nos a aceitar a vida como efetivamente é.

O fato é que a vida é como o rio: eternamente em movimento, perenemente buscando, explorando, impelindo, transbordando, penetrando todas as frestas com sua água. Mas, veja, a mente não quer que assim aconteça. Percebe que é perigoso, arriscado, viver num estado de impermanência, de insegurança e, por conseguinte, constrói uma muralha em torno de si própria: a muralha da tradição, da religião organizada, das teorias políticas e sociais. Família, nome, bens materiais — tudo isso se encontra atrás das muralhas, separado da vida. A vida, que é movimento, impermanência, procura incessantemente penetrar, demolir essas muralhas, atrás das quais só há confusão e angústia. Os deuses que moram atrás das muralhas são falsos deuses, e suas escrituras e filosofias são sem significação, porque a vida as excede.

Ora, para a mente que não tem muralhas, que não está pejada de aquisições, acumulações, conhecimentos, para a mente que vive fora do tempo, na insegurança, para essa mente a vida é uma coisa maravilhosa. Essa mente é a própria vida, porque a vida não tem pouso. Mas, quase todos nós queremos um pouso, uma pequena casa, um nome, uma posição, e consideramos essas coisas muito importantes. Exigimos permanência, e criamos uma “cultura” baseada nessa permanência, inventamos deuses que não são deuses, mas, tão só, “projeções” de nossos próprios desejos.

A mente que busca a permanência depressa se estagna; como a vala ao lado do rio, depressa se enche de corrupção, deterioração. Só a mente que não tem muralhas, que não tem ponto de apoio, não tem barreira, não tem pouso, que se move, toda inteira, com a vida, eternamente ousando, explorando, “explodindo” — só essa mente pode ser feliz, eternamente nova, porque ela é essencialmente criadora.
Entende o que estou dizendo? Você deve compreendê-lo, porque faz parte da verdadeira educação e, quando o compreender, sua vida será completamente transformada, suas relações com o mundo, com o próximo, com seu cônjuge, terão significado de todo diferente. Você já não tentará, então, preencher-se com coisa alguma, porque perceberá que a busca de preenchimento só atrai sofrimento e confusão. Por essa razão, você deve perguntar aos seus mestres sobre tudo isso, e discuti-lo também entre vocês. Se você o compreende, terá começado a compreender essa verdade extraordinária que é a vida, e nessa compreensão encontra-se grande beleza e amor, o florescimento da bondade. Mas, os esforços da mente que busca um fosso de segurança, de permanência, só podem conduzir à treva e à corrupção. Uma vez instalada naquele fosso, a mente teme aventurar-se fora dele, para buscar, explorar; mas a Verdade, Deus, a Realidade — ou o nome que você quiser — encontra-se além dos limites do fosso.

Você sabe o que é religião? Não é o cântico, não é a execução de rituais, não é a adoração de deuses de lata ou imagens de pedra; ela não se encontra nos templos e igrejas, nem na leitura da Bíblia ou do Gita; não é a repetição de um nome sagrado ou o seguir de qualquer outra superstição inventada pelos homens. Nada disso é religião.

Religião é o sentimento da bondade, daquele amor semelhante ao rio — que é um movimento vivo, eterno. Naquele estado, você verá chegar um momento em que não haverá busca de espécie alguma; e esse findar da busca é o começo de algo totalmente novo. 

A busca de Deus, da Verdade, o sentimento de se ser integralmente bom (não o cultivo da bondade, da humildade, porém o buscar, além das invenções e dos artifícios da mente, uma certa coisa — e isso significa ser sensível a essa coisa, viver nela, sê-la) isso que é a verdadeira religião. Mas nada disso lhe será possível se você não abandonar o fosso que você cavou para si mesmo, e entrar no rio da vida. 

A vida cuidará então de você, de uma maneira surpreendente, pois, de sua parte, nada haverá para cuidar. A vida, então, lhe levará aonde lhe aprouver, porque você será uma parte dela; não haverá mais problemas concernentes à segurança ou ao que “os outros” digam ou não digam. E esta é que é a beleza da vida."

J.Krishnamurti — A cultura e o problema humano

23 de setembro de 2017

Sannyas e Yoga - Osho


"Aqueles que purificaram a mente graças à prática de sannyas e yoga, bem como aqueles que compreenderam o significado exato da ciência espiritual ensinada no vedanta Upanishad, tornam-se enfim capazes de alcançar brahmalok - o mundo de Brahma.
 Libertando-se de tudo, lutam para obter a imortalidade."
Kayvalia Upanishad

O problema real é como Ser, como o Ser deve ser fortalecido. O conhecimento pode crescer facilmente, tem seus próprios meios para isso. Mas o conhecimento é um crescimento parasita. O conhecimento cresce na memória, que é mecânica. E por isso hoje temos aparelhos que podem ser providos de memória. Temos computadores que são mais eficientes que qualquer cérebro humano. O computador pode fazer tudo o que o cérebro humano faz e muitas coisas que o cérebro humano jamais faria. Cedo ou tarde, a memória humana será substituída por equipamentos mecânicos. Estes conseguem fazer tudo o que a mente faz - e com mais eficiência em menos tempo. (...)

A mente não passa de um equipamento mecânico. Pode crescer; se você a alimentar com conhecimento e informação, ela crescerá. Você talvez não o perceba, mas da mente só sai o que nela foi colocado antes - só. Da mente, não sai nada de original. Portanto, com respeito à mente, não existe originalidade: tudo é repetição. A mente é o mecanismo mais repetitivo que existe. Você precisa alimentá-la, dar-lhe alguma coisa que ela possa reproduzir. Nenhum pensamento nos ocorre que seja verdadeiramente nosso. Todos nos foram dados - pela sociedade, pela educação, pelo estudo. Mas todos nos foram dados. No máximo, fazemos novas combinações, só isso. A mente não consegue fazer mais nada. Isso é o crescimento, crescimento parasita à custa de nosso Ser.

Por "Ser", entendo a consciência com a qual nascemos. E, por "mente", entendo tudo o que foi acumulado em nossa consciência pela sociedade, a educação e a cultura. Você não nasceu com uma mente, nasceu com uma consciência. A mente é um crescimento posterior. Por isso, se a pessoa não for disciplinada e educada, terá uma mente pobre, insignificante. Se nenhuma língua por ensinada, ela não conhecerá nada. A mente é um crescimento social. A consciência é uma parte de você, mas a mente não; a mente lhe foi dada. O objetivo de todo cultivo social, de toda imposição social é produzir em você uma mente.

Por isso a mente cristã é diferente da mente hindu, pois a sociedade hindu dá alguma coisa e a sociedade cristã dá algo mais. A mente muçulmana é totalmente diferente das mentes hindu, cristã ou jainista. Mas a consciência dos hindus, dos muçulmanos ou dos cristãos é a mesma. De fato, uma consciência não pode ser chamada de cristã, hindu ou muçulmana - mas uma mente pode. (...)

A mente é boa enquanto não se torna uma prisão. Pode ocorrer, em determinado instante, que você fique livre de sua mente. Então, ela começa a operar como um equipamento mecânico em você; você pode usá-la, mas não se identifica com ela.

Sem dúvida, precisamos usar a linguagem e a matemática; sem dúvida, precisamos conhecer a história e a geografia e tudo o mais. Mas nada disso se identifica com nossa consciência. Devemos permanecer apenas como testemunha desse conhecimento. Devemos ser separados, diferentes de nossa mente; sem identificação com ela. É isso que a meditação ensina: o modo de não nos identificarmos com a mente, de criarmos um espaço entre nós e ela.

A dificuldade está em  que nunca fazemos separações. Pensamos que mente significa eu; mente e eu se identificam por completo. E, sendo assim, nunca ficamos tranquilos, nunca nos tornamos capazes de penetrar o divino, pois o divino só pode ser penetrado quando o social é esquecido. Quando tudo o que a sociedade nos deu é deixado de lado, penetramos no divino porque só então penetramos na consciência pura. A mente é uma excrescência e deve ser posta de lado.

Por renúncia, entendo o repúdio do social. Nossa mente é apenas um subproduto da sociedade, dependente desta. A mente pode crescer sem parar. Então, crescemos em conhecimento - estudando, aprendendo novas coisas, mais coisas; Assim, a mente continua crescendo.

Ela é capaz de crescer indefinidamente. Por enquanto, os cientistas não podem dizer aonde ela vai chegar. Sabemos apenas que ela se avoluma, que o processo parece sem limites. Seu potencial é tremendo; são 70 milhões de células trabalhando, cada célula capaz de armazenar dezenas de milhões de bits de informação. Isso mesmo, uma única célula da mente, pode armazenar dezenas de milhões de bits de informação e a mente como um todo possui nada menos que setenta milhões de células! Cada célula parece pois, capaz de acumulo infinito de informações.

A mente parece finita à sua maneira. Mas ela não é você! É apenas algo que lhe foi dado. É útil, é funcional; por isso nos identificamos com ela. Precisamos usá-la o tempo todo, sem interrupção. Você não poderia se lembrar de momento algum em que não foi sua mente. Esse é o problema - lembrar-se, criar um espaço, uma lacuna, um momento em que você não foi sua mente. Quando você é você mesmo e a sua mente não passa de um recurso à sua disposição, você é senhor de decidir se vai usá-la ou não.

Em geral, a mente é dona e você tem de obedecer a ela. A mente lhe dá algo para pensar e você pensa. A mente lhe dá um sonho e você é obrigado a sonhá-lo. E assim por diante... Ás vezes, mesmo quando você diz à sua mente: "Pare!", ela não para. Não o escuta; e não o escuta porque você cooperou tanto com ela, repassando-lhe sua energia e identificação, que ela já não se lembra de que o dono é você. Para sua mente, você é um escravo.

Meditar significa criar um espaço para que você se torne o dono de sua própria mente. E ser dono significa não se identificar. Posso ordenar à minha mão que faça qualquer coisa - mover-se ou ficar parada. Por quê? Porque não me identifico com minha mão; de outro modo, quem ordenaria e quem obedeceria? Ordeno a minha mão que se mova - e ela se move. Contudo, se minha mão começar a se mover e eu disser: "Pare!", mas ela não parar, o que vem a ser isso? Apenas uma coisa: minha ordem é impotente porque me identifiquei demais com minha mão. Ela se tornou dona de direito próprio - e continua se movendo. Diz: "Não vou seguir absolutamente sua ordem".
Foi o que aconteceu com a mente. Ela continuou agindo por si mesma. Não se pode lhe dar ordens. Mas não por uma impossibilidade intrínseca - acontece que você nunca lhe ordenou nada e ela não sabe que o dono é você. O dono permaneceu tão calado, tão escondido que o escravo começou a se julgar o senhor.

Se esse crescimento prosseguir, a pessoa ficará cada vez mais encolhida em si mesma e a mente se dilatará a tal ponto que sua consciência enfrentará dificuldades para se impor. Por isso, um aldeão simplório, com uma mente menor, possui às vezes mais consciência. Uma pessoa comum - não muito culta, sem grandes conhecimentos - tem sempre, é claro, menos mente, mais consciência. Não raro, uma pessoa de mente grande se comporta de maneira lamentavelmente tola porque tem consciência pequena.

No entanto, a pessoa de mente desenvolvida pode agir com sabedoria, comportar-se com sabedoria caso, na situação a mente saiba o que fazer e o que não fazer. A pessoa então, se comportará, trabalhará e fará tudo com bastante eficiência. Porém, numa situação nova, desconhecida para a mente, ela agirá de modo estúpido.
Um aldeão - sem cultura, primitivo, com mente pequena - agirá mais conscientemente numa situação nova, porque, para ele as novas situações ocorrem todos os dias, a todo instante. Sem uma mente desenvolvida, ele terá de apelar para a consciência. Por isso o mundo, acumulando mais conhecimento, tornou-se menos sábio. Hoje é difícil produzir um Buda - não porque sejamos mais ignorantes, mas por que sabemos mais. Hoje é difícil produzir um Jesus, não por carência de alguma coisa, mas pelo excesso. O conhecimento aumentou vertiginosamente, e com isso, o ser se empobreceu.

Valorizamos alguém pelo que ele possui - cultura, riqueza, poder - nunca pelo que ele é. Se tenho poder, sou valorizado; se tenho riqueza, sou valorizado; se tenho cultura, sou valorizado - mas ninguém me valoriza pelo que sou. Se perco a riqueza, minha influência desaparece; se perco o conhecimento, minha influência desaparece; se perco o poder, minha influência desaparece - pois não sou valorizado pelo que sou. Sou valorizado pelo que possuo. A posse se tornou mais importante, e saber é uma forma sutil de possuir.

Ser é a pureza de minha existência interior, sem nenhum acréscimo de fora; riqueza, conhecimento, nada - só minha consciência interior em toda a sua pureza. É isso que entendo por crescimento do ser, o qual pode ser alcançado somente por dois métodos: renúncia - sannyas e yoga, ciência do crescimento positivo. Podemos renunciar às identificações, compreendendo que "Eu não sou o corpo, eu não sou a mente." E podemos estender a renúncia a tudo o que seja mente, exceto o "eu sou", atingindo o ponto central ao qual não se pode renunciar.(...)

Podemos provar a existência do amor? Todos sabemos que o amor existe. Mesmo quem não o sentiu profundamente, ao menos sentiu sua ausência. O amor é sentido como presença ou ausência - mas ninguém pode prová-lo. Portanto, se alguém disser: "O amor não existe", você não conseguirá desmenti-lo.
Assim, Descartes continua negando, duvidando. (... ) Descartes propõe então: "Este mundo não existe. É apenas um pensamento, um sonho. Deus também não existe." Desse modo, vai negando tudo. Por fim, chega até ele próprio e começa a indagar se existe ou não. Mas eis que se depara com um fato que não pode ser negado: mesmo que tudo seja negado, mesmo que tudo seja sonho, alguém tem de sonhá-lo. Mesmo que tudo seja duvidoso, alguém tem de duvidar. Portanto, quando Descartes diz: "Não existo", alguém tem de estar negando a própria existência. Até para duvidar é preciso haver quem duvide. Prossegue então o filósofo: " Chego, pois a um fato indubitável, posso duvidar de tudo, mas não posso duvidar de mim mesmo. Se duvidar , a dúvida provará minha existência." E fornece esta fórmula consistente: "Cogito ego sum - Penso ( duvido ) logo existo".

A realidade do "eu sou" deve ser isolada da função cerebral, da mente, do pensamento. Ela é o ser, e para conhecer este ser, temos de eliminar de nós tudo o que possa ser eliminado - como Descartes, que diz: "Só pararei de duvidar quando descobrir algo que não seja duvidoso". Da mesma forma, você deve continuar renunciando a tudo o que for possível, até chegar a algo que não admita renúncia. Você não pode renunciar a seu ser; mas pode renunciar ao resto. Pode renunciar a tudo que não possa chamar de "isto sou eu". a tudo que não possa chamar de "Eu sou isto". Pode pensar: "Não isso não sou eu. Este corpo não sou eu, este pensamento não sou eu. este mundo não sou eu. esta faculdade de pensar não sou eu." Continue negando, mas chegará o momento em que não conseguirá mais negar. Só o que restará é a realidade do "EU SOU". Nem mesmo isso: só o que restará é a "realidade". Essa realidade é o salto existencial.

A primeira parte do sutra é : renúncia, sannyas. Portanto, sannyas é um processo negativo. Precisamos ir eliminado sucessivamente: "Isto não é o eu sou", "Aquilo não é o eu sou." Isso é renúncia, processo negativo, eliminação. Mas é apenas uma parte. Você precisa renunciar a tudo aquilo que não é e depois, desenvolver aquilo que é.
Isso é yoga, a ciência positiva do desenvolvimento. Yoga tem de se desenvolver o que está em você. Como? Como desenvolvê-lo? Já o vimos: pela fé, pela devoção, pela meditação, pelas práticas do corpo e outras. Isso é yoga.

Sannyas mais yoga é igual a religiosidade.
Renuncie àquilo que você não é e desenvolva , crie, aquilo que é. Somente pelos processos positivo e negativo plenamente harmonizados alcançamos o Brahman, o absoluto. "
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.


16 de setembro de 2017

Meditação Andando - Thich Nhat Hahn


"Quando foi desafiado por Maya - a ilusão - Budha tocou a terra com a mão direita e disse "Tendo a terra por testemunha, ficarei sentado aqui, em estado de meditação, até que experimente o verdadeiro despertar"
Diante disso, Maya desapareceu.

Às vezes, nós também somos visitados por Maya - quando sentimos irritação, insegurança, raiva ou infelicidade. 
Quando isto acontecer, toque o chão firmemente com seus pés. 
Pratique a meditação andando. 

A Terra, nossa mãe, está cheia de amor por nós. 
Se estivermos sofrendo, ela irá nos proteger, alimentando-nos com suas belas árvores, ervas e flores.

A terra é sempre paciente e de coração aberto.
Ela espera por você 
Esperou muito por você
Pelos últimos trilhões de períodos.
Pode esperar por qualquer extensão de tempo.
Ela sabe que você voltará a ela um dia.
Refrescante e verde ela o acolherá,
Porque o amor nunca diz : 
"Esta é a última vez";
Porque a terra é mãe amorosa.
Ela jamais deixará de esperar por você.

Todos os nossos antepassados e todas as gerações futuras estão presentes em nós. A libertação não é assunto particular. 
Enquanto os antepassados estão sofrendo em nós, não podemos ser felizes, e nós transmitiremos este sofrimento aos nossos filhos e aos filhos deles.
Agora é o tempo de libertar os nossos antepassados e as gerações futuras. 
Isto significa libertar a nós mesmos. 

Se conseguirmos dar um passo com liberdade e felicidade, tocando a terra com com plena consciência, podemos dar uma centena. 
Nós o fazemos para nós mesmos e para todas as gerações passadas e futuras. Todos nós chegaremos ao mesmo tempo e encontraremos 
a paz e a felicidade juntos."
Thich Nhat Hahn em Meditação Andando


9 de setembro de 2017

Sobre a preguiça - Pema Chödrön


"Tradicionalmente, a preguiça é ensinada como sendo um dos obstáculos para a iluminação. Existem diferentes tipos de preguiça. 

Primeiro, existe a preguiça da busca pelo conforto, onde apenas tentamos nos manter confortáveis e aconchegados. 

Existe a preguiça da perda do coração, um tipo de desânimo profundo, um sentimento de desistir de nós mesmos, de desesperança. 

E também existe a preguiça do “não poderia me importar menos”. Quando nos endurecemos em resignação e amargura e simplesmente nos fechamos.

A busca pelo conforto vem numa variedade de formas. 

Sogyal Rinpoche escreve que no Oriente, por exemplo, a preguiça frequentemente se manifesta como tomar sol com amigos próximos, beber chá e deixar os dias passarem. No Ocidente, ele observa, a preguiça frequentemente se manifesta como velocidade. As pessoas se precipitam de uma coisa à outra, da academia para o escritório para o bar para as montanhas para a aula de meditação para a pia da cozinha, o jardim, o clube. Nos apressamos em procurar, procurar, procurar conforto e bem-estar.

“Nós tocamos o ponto central deste momento de ser e então deixamos ir. É assim que treinamos. Vez após vez, esta é a nossa prática.”

Se deitamos ou corremos, e seja qual for o lugar do planeta em que estejamos, a preguiça pela busca de conforto é caracterizada por uma ignorância profunda. Nós buscamos o esquecimento: uma vida que não machuque, um abrigo contra as dificuldades, dúvidas e preocupações. Queremos um tempo de sermos nós mesmos, um tempo dessa vida que por acaso é a nossa. Então, através da preguiça buscamos amplidão e alívio; mas encontrar o que buscamos é como tomar água salgada, porque nossa sede por conforto e bem-estar nunca é satisfeita.

A preguiça da perda do coração é caracterizada pela vulnerabilidade, por feridas e por não saber o que fazer. Nós apenas tentamos ser nós mesmos e não conseguimos corresponder às expectativas. O jeito que somos não está ok. Nós perseguimos prazer e não encontramos felicidade duradoura. Nós tiramos um tempo, saímos de férias, aprendemos a meditar, estudamos ensinamentos espirituais, ou gastamos anos dedicados a certas visões políticas ou filosóficas. Ajudamos aos pobres, salvamos as árvores, bebemos, ingerimos drogas, e não encontramos satisfação. Tentamos e falhamos. Chegamos num lugar doloroso, sem esperança. Nós nem queremos nos mexer. 

Sentimos que, com sorte, poderíamos dormir por centenas de anos. Nossa vida parece sem sentido. 
A perda do coração é tão dolorosa que ficamos paralisados.

O “não poderia me importar menos” é mais difícil, mais gelado, fatalista. Esse sabor particular de preguiça tem uma ponta de cinismo e amargura. Sentimos que já não estamos nem aí. Nos sentimos preguiçosos e desprezíveis ao mesmo tempo. Nos sentimos desprezíveis frente a este mundo vil e decepcionante, e ante a esta ou aquela pessoa. Na maioria das vezes nos sentimos desprezíveis ante a nós mesmos. Cometemos um erro. Não temos muita certeza qual foi o erro, mas entendemos tudo errado; e agora, que se ferre! Nós tentamos esquecer, da forma que pudermos. Paramos de fazer alguma coisa. De qualquer maneira, sentimos como se não pudéssemos fazer muito, e francamente, não nos importamos. Então, o que fazer?

A premissa de que devemos eliminar nossas falhas parece estar embrenhada na difícil condição humana; como pessoas dignas e adequadas, deveríamos ser capazes de simplesmente saltar por sobre nossas fraquezas. 

Então, talvez a coisa adulta a se fazer seria explodir a preguiça com uma bomba, ou jogá-la no Oceano Atlântico com um peso enorme para que nunca mais volte a aparecer, ou mandá-la para o espaço para que fique flutuando no infinito e nunca mais precisemos nos relacionar com isso novamente.

Mas se nos perguntarmos, “De onde vem a alegria? De onde vem a inspiração?”, vamos descobrir que elas não vêm do ato de nos livrarmos de alguma coisa. Elas não vêm da divisão de nós mesmos em duas partes e da batalha contra a nossa própria energia. Elas não vêm do ato de ver a preguiça como um oponente, ou algo sobre o qual devemos saltar. Elas não vêm do ato de denegrir a nós mesmos.

O caminho da iluminação é um processo. É um processo de aprendizado gradual de nos tornarmos íntimos com os nossos, assim chamados, obstáculos. Então, ao invés de nos sentirmos desanimados pela preguiça, podemos olhar para essa nossa preguiça, nos tornarmos curiosos sobre essa preguiça. Podemos começar a conhecer a preguiça profundamente.

Podemos nos unir à preguiça, ser nossa preguiça, conhecer o seu cheiro e o seu gosto, senti-la em nossos corpos. O caminho espiritual é um processo de relaxar dentro deste momento presente de apenas ser. Nós entramos em contato com este momento de letargia, ou perda do coração, este momento de dor, de recusa, de “não poderia me importar menos”. Nós tocamos isso e então seguimos em frente. Este é o treinamento. Seja na meditação formal ou ao longo dos dias e das noites, podemos treinar soltar nossos comentários e entrar em contato com a qualidade percebida a partir da nossa experiência. Podemos tocar nossa experiência sem ficarmos presos pelas histórias. Podemos tocar este momento presente e então seguir em frente.

Estamos sentados em meditação ou seguindo nossa rotina diária, e começamos a escutar o que estamos dizendo. O que escutamos é: “Puts! Pobre de mim. Sou um fracasso. Não há esperança.”. Olhamos para o que fazemos a nós mesmos, o que dizemos a nós mesmos, como perdemos nosso coração ou tentamos nos distrair. Então deixamos essas palavras irem embora e tocamos a essência deste momento. Tocamos o centro deste momento de apenas ser e então deixamos ir. É assim que treinamos. De novo e de novo, esta é a nossa prática.

Nos juntamos à nossa perda de coração com honestidade e bondade. Ao invés de fugir da dor da preguiça, nós chegamos mais perto. Nós nos inclinamos em direção à onda. Nós nadamos na onda.

Em algum ponto do processo de permanecer no momento presente, pode acontecer que haja vários irmãos e irmãs infelizes lá fora, sofrendo como estamos sofrendo. Ao nos tornarmos íntimos de nossa própria dor, de nossa própria preguiça, estamos em contato com todos eles, entendendo-os, compreendendo nossa similaridade com todos eles.

Estamos sentados em frente à televisão comendo chips, tomando cerveja, fumando cigarros. Hora após hora após hora nós fazemos isso. E então, por alguma razão, nos enxergamos claramente. Temos a escolha de comer o décimo pacote de salgadinho e assistir à décima sexta série seguida, ou nos relacionar com nossa depressão e preguiça de maneira honesta e de coração aberto. Ao invés de continuar a viajar na maionese, a desligar e nos fechar, nós nos inclinamos e relaxamos. É assim que praticamos.

Então talvez abrimos a janela ou saímos para uma caminhada, ou talvez sentamos em silêncio, mas o que quer que façamos, nos ocorre ficar com nós mesmos, ver o que está por detrás das palavras, por detrás da ignorância, e sentir a qualidade deste momento de apenas ser, em nossos corações, em nossos estômagos, por nós mesmos, e por todos as milhões de outras pessoas que estão nesse mesmo barco. 

Começamos a treinar abertura e compaixão frente a este momento. Este momento de preguiça se torna nosso professor particular. 
Este precioso momento se torna nossa prática profunda e curativa."

2 de setembro de 2017

Sentimentos - Osho


"Algumas coisas morrem com a luz.

Se você puxar para fora da terra as raízes de uma árvore, elas morrerão. Elas necessitam da escuridão, elas vivem na escuridão, na escuridão está a vida delas. 

Assim como as raízes, o sofrimento também vive na escuridão.
Exponha os seus sofrimentos e você descobrirá que eles morreram. 

A infelicidade tem de ser expressada. 

Compreenda uma coisa mais: foi de fora que você pegou as dores e as trouxe para dentro de si. Por favor, volte com elas para o lado de fora. A dor não é interna; todas as dores são trazidas do lado de fora. 

Na medida em que você joga fora a dor, que a envia de volta para fora, de onde ela veio, a alegria começa a brotar dentro de você. A alegria está dentro. Ninguém a traz de fora. Ela não vem de fora, ela é a sua natureza, ela é você. Ela é a sua alma.

Se for jogado fora esse lixo que veio de fora e que tem sido acumulado, então a alma interna começará a expandir, começará a crescer. Você começa a ver a sua luz e a ouvir a sua dança, você começa a mergulhar na música mais interna.

Um pouco de coragem é requerida e você poderá abandonar o seu inferno - exatamente como alguém que se suja na rua e volta para casa para tomar um banho e a sujeira é lavada. 

Da mesma maneira, a meditação é o banho e a dor é a sujeira. 

Assim como depois do banho a sujeira foi lavada e você se sente fresco, da mesma forma você terá um vislumbre, sentindo dentro de si a alegria que é a sua natureza."
- Osho em Além da Psicologia

26 de agosto de 2017

Gerados no amor - Rumi


"Viemos girando do nada
espelhando estrelas como pó.
As estrelas puseram-se em círculos e nós ao centro
dançamos com elas.

Como a pedra do moinho, em torno de Deus gira a roda
do céu.
Segura um raio dessa roda e terás a mão decepada.

Girando e girando essa roda dissolve todo 
e qualquer apego.
Não estivesse apaixonada, ela mesma gritaria - Basta!
Até quando há de seguir esse giro?

Cada átomo gira desnorteado, mendigos circulam entre as mesas,
cães rondam um pedaço de carne, o amante gira em torno do seu próprio coração.

Envergonhado ante tanta beleza, giro ao redor da minha vergonha.
Vem ouve a música do sama.

Vem unir-te ao som dos tambores!
Aqui celebramos
Somos todos a verdade.
Em êxtase estamos.

Embriagados sim, mas de um vinho que não se colhe na videira.
O que quer que pensem de nós, nada parecerá com o que somos.

Giramos e giramos em êxtase.
Esta é a noite do sama.
Há luz agora.
- Luz! Luz!

Eis o amor verdadeiro que diz a mente: adeus.
Adeus! Adeus!

Todo coração que arde nesta noite é amigo da música.
Ardendo por teus lábios, meu coração transborda de minha boca.

Silêncio!
És feito de pensamentos, afeto e paixão.
O que resta é nada além de carne e ossos.
Porque nos falam de templos de oração, de atos piedosos?

Somos o caçador e a caça. outono e primavera, noite e dia, 
o visível e o invisível.
Somos o tesouro do espírito.
Somos a alma do mundo, livres do peso que vergasta o corpo.

Prisioneiros não somos do tempo, nem do espaço.
nem mesmo da terra que pisamos.

No amor fomos gerados.
No amor nascemos..."

~RUMI~

12 de agosto de 2017

Sobre a necessidade de ser amado - Osho


"Somente uma pessoa amorosa, aquela que realmente é amorosa, pode encontrar o parceiro certo.

Essa é minha observação: se você está infeliz você irá encontrar alguém também infeliz.
Pessoas infelizes são atraídas pelas pessoas infelizes.
E isso é bom, é natural.
É bom que as pessoas infelizes não sejam atraídas pelas pessoas felizes; senão elas destruiriam a felicidade delas.

Está perfeitamente bem. Somente pessoas felizes são atraídas pelas pessoas felizes.
O semelhante atrai o semelhante.
Pessoas inteligentes são atraídas pelas pessoas inteligentes; pessoas estúpidas são atraídas pelas pessoas estúpidas.

Você encontra as pessoas do mesmo plano. Então a primeira coisa a lembrar é: um relacionamento está fadado a ser amargo se ele surgiu da infelicidade.

Primeiro seja feliz, seja alegre, seja festivo e então você encontrará alguma outra alma festiva e haverá um encontro de duas almas dançantes e uma grande dança irá surgir disso.

Não peça por um relacionamento a partir da solidão, não. Assim você estará indo na direção errada.
Então o outro será usado como um meio e o outro lhe usará como um meio.
E ninguém quer ser usado como um meio! Cada indivíduo único é um fim em si mesmo.
É imoral usar alguém como um meio. Primeiro aprenda como ser só.
A meditação é um caminho para ficar sozinho.

Se você puder ser feliz quando você está só, você aprendeu o segredo de ser feliz.
Agora você pode ser feliz acompanhado. Se você é feliz, então você tem alguma coisa para compartilhar, para dar. E quando você dá, você obtém; não é de outra maneira.
Assim surge uma necessidade de amar alguém.

Geralmente a necessidade é de ser amado por alguém. É a necessidade errada.
É uma necessidade infantil; você não está amadurecido. É uma atitude infantil.

Uma criança nasce.
Naturalmente, a criança não pode amar a mãe;
ela não sabe o que é amar e ela não sabe quem é a mãe e quem é o pai.
Ela está totalmente desamparada.
Seu ser ainda está para ser integrado; ela ainda não está reunida.
Ela é somente uma possibilidade.

A mãe precisa amar, o pai precisa amar, a família precisa banhar a criança de amor.
Agora ela aprende uma coisa: que todos têm que amá-la. Ela nunca aprende que ela precisa amar.
Agora a criança irá crescer e se ela permanecer presa nessa atitude
de que todo mundo tem que amá-la, ela irá sofrer por toda sua vida.
Seu corpo cresceu, mas sua mente permaneceu imatura.

Uma pessoa amadurecida é aquela que chega a conhecer a necessidade do outro:
que agora tenho que amar alguém. A necessidade de ser amado é infantil, imatura.
A necessidade de amar é maturidade.

E quando você está preparado para amar alguém, um belo relacionamento irá surgir; de outra maneira não."
Osho em Além da Psicologia

Princípios do Céu e da Terra - Chiang Tzu


"Aquele que quer ter
o certo sem o errado,
a ordem sem a desordem,
não entende os princípios 
do céu e da terra,
não sabe como 
as coisas estão interligadas.

***

Primeiramente, adquira controle sobre o corpo,
Em seguida, sobre a mente.
Atinja a unidirecionalidade.
E então, 
a harmonia dos Céus descenderá e residirá em ti.
Você ficará radiante com a vida
Você repousará no Tao.

***

Esteja com seu coração em paz.
Assista a turbulência dos seres
mas contemple o seu retorno.

Se não percebe a fonte,
você tropeça na confusão e na tristeza.
Quando você percebe de onde você vem,
naturalmente se torna tolerante,
desinteressado, divertido,
bondoso como uma avó,
digno como um rei.
Imerso na maravilha do Tao,
você pode lidar com o que quer que a vida lhe traz,
E quando a morte chega, você está pronto."


5 de agosto de 2017

O Momento presente - Osho


"Exteriormente sabemos o que o movimento significa: ir de um lugar para outro, de um local para outro. De A para B. Se você está em A e vai para B, aconteceu um movimento. Assim, exteriormente para a mente, movimento quer dizer mudar de lugar no espaço. Se não há espaço, você não pode se mover. Você precisa de espaço para se mover exteriormente. O movimento interno não é no espaço, mas sim no tempo. Se não há tempo você não pode se deslocar interiormente. O tempo é um espaço interior: de um segundo você passa para outro, deste dia para outro, daqui para lá, de agora para depois, no tempo.

O tempo é o espaço interno. Analise a sua mente e você verá que sempre você está se movendo do passado para o futuro, do futuro ao passado. Ou bem você vai de recordações do passado ou se desloca para desejos no futuro. Quando você vai do passado para o futuro ou do futuro para o passado, somente então você emprega o momento presente, mas só como um meio. O presente, para a mente, não é nada mais que a linha divisória entre passado e futuro. Para a mente o presente não é realmente existencial. Somente é uma linha divisória da qual você pode se deslocar ao passado ou ao futuro. A mente nunca está no presente porque é incapaz de ir ao presente.

Compreenda: você é incapaz de se mover no presente. No presente não existe o tempo. O presente sempre é um único instante. Você nunca está em dois momentos ao mesmo tempo. Você vive somente um instante. Você não pode ir de A para B porque só existe A. Não há B.

Entenda essa qualidade do tempo no presente: você sempre vive um só instante. Tanto se você é um mendigo como se é um imperador, dá no mesmo. O seu depósito temporal é o mesmo, somente de instante a instante, e você não pode se mover nele. Não há lugar onde se mover e a mente existe unicamente se há movimento. Por isso a mente nunca emprega o presente, não pode empregá-lo. Retroceda ao passado. Ali há muitos lugares aos quais você pode ir. Existe um grande depósito de recordações: todo o seu passado está aí. Ou também pode ir ao futuro. Você pode imaginá-lo porque o futuro é, basicamente, tão só o passado projetado. Você viveu, experimentou muitas coisas. Você as deseja outra vez ou deseja evitá-las: esse é o seu futuro. Você amou alguém: foi lindo. Então você deseja que se repita, por isso projeta no futuro seu desejo de que se repita.

Você ficou doente, sofreu e deseja evitá-lo no futuro, por isso você projeta não adoecer de novo. De modo que, seu futuro é tão somente um passado que você projetou e assim você pode se mover no futuro. Mas a mente não se encontra satisfeita com o futuro que pertence a esta vida. Projeta céus, projeta vidas futuras. Não está satisfeita com um pequeno futuro, dessa maneira a mente cria tempo além da morte. O passado e o futuro são vastos territórios; você pode se mover com facilidade neles. Com o presente você não pode se mover. A ausência de movimento implica estar no presente. Essa é a segunda dimensão da quietude. Se você pode permanecer neste instante, tão somente aqui e agora, você estará quieto. Você não pode estar de nenhuma outra forma. Não existe nenhuma outra possibilidade a mais que estar quieto.

Viva no agora, e o movimento se deterá porque a mente se deterá. Não pense no passado e não projete no futuro. Isso que lhe está acontecendo é tudo o que você tem. Permaneça nele, contente-se nele. Este mesmo instante é o único tempo verdadeiramente existencial; não há nada mais. O passado é somente uma memória. Está somente na sua mente, é pó acumulado, experiências acumuladas. Não há passado na existência, não há futuro na existência. A existência é o presente.

Se o homem não estivesse nesta Terra não haveria nem passado nem futuro. As flores floresceriam, desde logo, mas no presente. O sol sairia, mas no presente. A terra não saberia nada do passado nem sonharia nada no futuro. Não haveria nem passado nem futuro. O passado está na mente, na memória e devido a essa recordação é projetado no futuro. Por isso, geralmente, dividimos o tempo em três partes: passado, presente e futuro, mas na realidade o passado e o futuro não são uma parte do tempo. São partes da mente, não partes do tempo. O tempo possui uma única divisão, se é que se pode chamá-la de divisão, e é a do presente.

O tempo é sempre presente. Essas três divisões não são divisões do tempo. O passado e o futuro pertencem à mente, não ao tempo. Ao tempo somente lhe pertence o presente. Mas então é difícil chamá-lo presente porque, linguisticamente, para nós o presente é algo entre o passado e o futuro. Refere-se ao passado, refere-se ao futuro. Se não houvesse passado nem futuro, então, a palavra “presente” perderia todo o significado.

Mestre Eckhart disse que não há tempo, somente o eterno “agora”. Existe um “agora” eterno e um infinito “aqui”. Quando digo “ali” somente o digo em referência ao lugar no qual estamos, senão, somente haveria o “aqui”. Se eu não estivesse aqui, que lugar seria “aqui” e que lugar seria o “ali”? Em referência a mim mesmo, chamo o lugar mais próximo “aqui”, e ao que não está próximo o chamo de “ali”. Onde acaba o “aqui” e onde começa o “ali”? Não podemos delimitá-lo. Na realidade tudo é um “aqui”, um “aqui” infinito.

É devido à mente que dividimos o tempo. Então, tudo o que vivemos se transforma em passado e tudo o que esperamos viver se converte no futuro e aquilo que está transcorrendo se torna o presente.

Mas não há mente, somente há um infinito “agora”, um eterno “agora”. “Aqui, hora”, é a realidade. “Ali e depois” são partes da mente, não partes da realidade.

Conceber a quietude a partir de uma segunda dimensão significa fazer um esforço para viver momento a momento. Então você estará na quietude, estará no silêncio. Não haverá agitação interior, nem movimento, nem oscilações internas. Tudo terá se convertido num remanso de profundo silêncio.
Por que esta mente se desloca ao passado e ao futuro? Buda lhe deu o nome de “tanha” a “trishna”, o desejo. Buda disse que, devido a que você viveu algo, você o deseja de novo. Ao desejá-lo, você vai para o futuro. Não deseje e não haverá futuro. É difícil, porque quando a mente experimenta prazer, deseja repeti-lo e quando a mente experimenta incômodo não deseja repeti-lo, deseja evitá-lo. Por isso é natural que se crie o futuro e devido a este futuro perdemos o presente.

Você está me escutando, pode simplesmente me escutar; então não terá mente. Será uma escuta sem mente. Mas si você está escutando e tratando de entender ao mesmo tempo, terá ido ao futuro. Se você está pensando no que lhe está dizendo, você perdeu o que se disse: você foi para o futuro. E o presente é algo tão sutil e delicado e tão pequeno e tão atômico, que você pode perdê-lo num só instante. Um simples gesto, e você o terá perdido. Se você está escutando, simplesmente escute. Não pense no que lhe estão dizendo, não trate de descobrir o significado, porque você não pode fazer duas coisas no presente; escutar é suficiente. E se você está só escutando, está no presente e a mesma escuta se transforma em meditação.

Mahavira disse que se você é capaz de escutar corretamente não precisa praticar nada mais. Sendo só um shravak, um que escuta adequadamente, você conseguirá tudo o que pode ser conseguido. Simplesmente sendo um shravak, um que escuta corretamente, porque simplesmente escutar não é uma simples escuta, é um grande fenômeno. E uma vez que você conhece o segredo, você pode aplicá-lo em qualquer situação. Comer se transformará em meditação, caminhar se converterá em meditação, dormir será meditação. Qualquer coisa em que você estiver nesse momento, sem ir ao futuro, será meditação.
Foto de uma árvore num dia de sol

Mas desconhecemos toda a atividade na qual estamos no presente. Ou começamos a pensar no passado ou começamos a pensar no futuro. Perdemos o presente continuamente. Isso implica que a Existência nos escapa sempre. E isso se converte num processo em cadeia; logo se transforma num hábito.

Uma noite Mulla Nasrudin caminhava por uma rua. A rua estava solitária e de repente percebeu que uns homens a cavalo, uma espécie de tropa se dirigia em sua direção. Sua mente começou a trabalhar. Pensou que podiam ser assaltantes, que podiam lhe matar. Ou que podiam ser soldados do rei e que podiam levá-lo para prestar serviço militar ou qualquer outra coisa. Ele se assustou e quando os cavalos e o ruído que formavam se aproximaram, começou a correr e entrou num cemitério e para poder se esconder se deitou numa cova aberta. Ao ver aquele homem correndo, os ginetes, que eram simples viajantes, perceberam o que havia acontecido. Correram atrás de Mulla Nasrudin e se aproximaram da tumba na qual estava. Ele estava com os olhos fechados como se estivesse morto. “O que lhe aconteceu? Por que você se assustou tanto de repente? O que foi? ”

Então, Mulla Nasrudin percebeu que se havia assustado a si mesmo sem motivo. Abriu os olhos e disse, “É algo muito complexo, muito complicado. Se vocês insistem em me perguntar por que estou aqui, eu lhes direi. Estou aqui por culpa de vocês e vocês estão aqui pela minha”.
É um círculo vicioso. Se você tem desejos, irá para o futuro e isso criará um círculo vicioso. Quando esse futuro se transforme no presente, de novo você irá para o futuro. Hoje pensarei no amanhã; isto se converterá num hábito. E o amanhã nunca chega. Não pode chegar; é impossível. Quando chega é de novo o hoje e criei o hábito de ir sempre do hoje para o amanhã.

Por isso, quando o amanhã chega, chega como o hoje e depois eu vou de novo para o amanhã.

É uma cadeia! E quanto mais você a elaborar, mais eficiente você se tornará em completá-la. E o amanhã nunca chega. O que chega é o hoje, e com o hoje você não tem nenhuma relação. Você estabelece um mecanismo: devido a que é hoje, você vai embora. É um hábito muito forte, não somente desta vida, mas sim de muitas outras vidas. Você tem que acabar com ele, tem que sair dele. Faça o que você fizer, lembre somente uma coisa: permaneça no presente enquanto você o estiver fazendo. É difícil, árduo, e você não vai conseguir imediatamente. Você deve romper um hábito muito arraigado. Vai ser uma luta dura, mas, tente-o.

O esforço mesmo criará uma distância, e pelo mesmo esforço você vai saborear, às vezes, momentos do presente. E uma vez que você conheça o sabor, está no caminho.

Mas você não conhece o sabor do presente. Não o provou nunca, nunca viveu nele, nunca! Eu lhe digo. E está sempre aqui. É a vida mesma; é tudo o que há na vida.

Jesus disse que estamos simplesmente mortos, sem vida! Um dia passava junto de um pescador justamente no nascer do sol. O pescador tinha lançado suas redes no lago e Jesus pôs a mão no seu ombro e lhe disse, “Você vai desperdiçar toda a sua vida pescando? Posso lhe ensinar algo melhor para pescar. Eu o farei um pescador da vida”. O pescador olhou Jesus como se um imã lhe estivesse atraindo, logo jogou sua rede e seguiu Jesus.

Quando acabavam de sair do povoado um se aproximou correndo e lhe disse ao pescador, “Seu pai morreu. Acabou de morrer, então, volte para a casa. Aonde você vai? ”

O pescador pediu licença; e lhe disse para Jesus, “Deixe-me ir para casa. Voltarei logo. Tenho que enterrar meu defunto pai”.
Jesus lhe disse, “Deixe que os mortos enterrem os mortos. Não tem porquê ir; siga-me. Há muitos cadáveres no povoado. Eles enterrarão o morto”.

Para Jesus, estamos mortos porque nunca saboreamos a vida, nunca saboreamos o presente, o existencial. Vivemos no passado morto e continuamos projetando esse passado já morto no futuro. Isto é o que Shankara denomina maya, ilusão. Shankara foi muito mal interpretado. Quando Shankara diz que o mundo inteiro é uma ilusão, quer dizer que o “mundo do homem” é uma ilusão, não o mundo em si.

Não sabemos nada do mundo. Criamos nosso próprio mundo mental. Todo o mundo tem o seu próprio mundo, este mundo de passado e de futuro, este mundo de recordações e de desejos. Este mundo é falso, ilusório. Por isso quando Shankara diz que este mundo é falso, refere-se a “seu mundo”, não ao mundo. E quando “seu mundo” deixar de existir, você conhecerá o verdadeiro mundo. E Shankara diz que este é o Brahman, que essa é a Verdade, a Verdade absoluta.

É como se estivéssemos vivendo num mundo de sonhos, cada um estando rodeado dos seus próprios sonhos, de uma nuvem de sonhos. Todo mundo vai envolvido nos seus próprios sonhos. E devido a esses sonhos não podemos ver o que é verdadeiro, o que é real. O real está escondido atrás de nossos sonhos. Esta mente sonhadora é a mente inquieta; a mente não sonhadora é a mente quieta. Mas os desejos criam sonhos. Você sonha de noite porque deseja durante o dia. Se não desejasse durante o dia não sonharia de noite.
Primeiro plano de uma flor de girassol

Um Buda não sonha, porque os sonhos são desejos e os desejos são sonhos. Quando surgem durante o dia você os chama de desejos; quando aparecem de noite, você os chama de sonhos. Mas todo desejo é sonho? Por quê? Porque todo desejo radica no futuro, o qual não existe. Todo desejo é um desejo futuro que não existe. O futuro não existe!
E continuamos sonhando. Devemos acabar com este sonhar. Este sonhar é um movimento, um movimento contínuo. Você está repleto de sonhos, sonhos destruídos, acabados, que são de novo recriados. Cada dia temos que jogar fora os velhos e criar uns novos.

Em qualquer momento, em qualquer atividade, trate de estar aqui e agora. O esforço mesmo é uma barreira, mas há que começar com algo. No princípio você terá que fazer um esforço. Mesmo o esforço é uma barreira porque o esforço lhe lança ao futuro. Mas no princípio é preciso se esforçar, logo num segundo nível tem que fazer um “esforço sem esforço”, e depois, no terceiro nível, o esforço desaparece e você está no presente.

Você caminha pela rua: trate simplesmente de caminhar, não faça nada mais. Parece simples, mas não é. Parece que todos o fazemos, não é assim! Quando você caminha, sua mente está fazendo mil coisas mais. Acompanhe cada passo. Simplesmente caminhe…"
Osho em Palavras de Fogo
Related Posts with Thumbnails