27 de maio de 2017

Do não ao supremo Sim - Osho


"Eis por que os psicólogos dizem que entre os sete e os quatorze anos de idade, cada criança começa a aprender a dizer não, cada vez mais e mais. Ao dizer não, ela está saindo do útero psicológico da mãe. Mesmo que não haja nenhuma necessidade de se dizer não, ela dirá não. Mesmo quando dizer sim é a seu favor, ela diz não.

Há muito em jogo: ela tem de aprender a dizer não, mais e mais. Quando o menino alcança os quatorze anos e está sexualmente maduro, ele dirá o supremo ‘não’ à mãe: ele se apaixonará por uma outra mulher.

Este é o supremo ‘não’ à mãe, ele está dando as costas à mãe. Ele diz: “Acabei essa história com você, escolhi minha mulher. Tornei-me um indivíduo, independente por direito próprio. Quero viver a minha vida, quero fazer minhas próprias coisas.”.
E se os pais insistem: “Corte o cabelo” – ele usará cabelos longos. Se os pais insistem: “Deixe os cabelos crescerem.” – ele cortará o cabelo. Veja bem. Quando os hippies se tornaram pais, eles viram seus filhos usarem cabelos curtos – porque eles tinham que aprender o “não”.
Se os pais insistem: “A limpeza é próxima de Deus.” – os filhos começarão a viver sujos de todos os modos. Eles ficarão sujos. Não vão querer tomar banho, não usarão sabão. E eles encontrarão racionalizações: que o sabão é perigoso para a pele, que é antinatural, que nenhum animal jamais usou sabão. Eles podem encontrar tantas racionalizações quanto possível, mas lá no fundo todas aquelas racionalizações são disfarces. 

A coisa verdadeira é que, eles querem dizer não. E é claro, quando você quer dizer não, você tem de arranjar razões.
Assim, o não lhe dá a sensação de liberdade; não só isso, ele lhe dá uma sensação de inteligência. Quando você diz sim, ninguém pergunta por quê. Quando você já disse o sim, quem se incomoda de perguntar por quê? Não há nenhuma necessidade de qualquer arrazoado ou argumento, você já disse o sim. Quando você diz não, o ‘por quê’ é fatal de ser perguntado. Isso afia sua inteligência, lhe dá uma definição, um estilo, uma liberdade. Observe a psicologia do “não”.

É muito difícil para os seres humanos ficarem em harmonia, devido à consciência. Consciência dá liberdade, liberdade lhe dá a capacidade de dizer não, e há mais possibilidade de se dizer não do que dizer sim. E sem o sim, não há harmonia. Sim é harmonia. Mas leva tempo para se desenvolver, amadurecer, chegar a tamanha maturidade onde você possa dizer sim e, contudo, permanecer livre; onde você possa dizer sim e, contudo, permanecer único; onde você possa dizer sim e, contudo, não se tornar um escravo.
A liberdade que é trazida pelo ‘não’ é uma liberdade muito infantil. É boa dos sete até os quatorze anos de idade. Mas se a pessoa fica presa nisso e toda a sua vida se torna um contínuo “não”, então, ela parou de crescer.

O supremo crescimento é dizer “sim” com tamanha alegria como uma criança diz “não”. Essa é uma segunda infância. E o homem que pode dizer “sim” com tremenda liberdade e alegria, sem nenhuma hesitação, sem quaisquer cordas lhe segurando, sem quaisquer condições – uma pura e simples alegria, um puro e simples “sim” –, esse homem se tornou um sábio. Esse homem vive em harmonia novamente. E sua harmonia é de uma dimensão totalmente diferente que a harmonia das árvores, dos animais e dos pássaros. Estes vivem em harmonia, porque não podem dizer “não”, e o sábio vive em harmonia porque ele não diz “não”. Entre os dois, os pássaros e os budas, estão todos os seres humanos – os não-desenvolvidos, imaturos, ainda tentando dizer ‘não’, para ter uma sensação de liberdade.
Eu não estou dizendo ‘não aprenda a dizer não’. Estou dizendo para aprender a dizer “não”, quando for hora de dizer “não”, mas não fique entalado nisso. Devagar, devagarinho, veja que existe uma liberdade mais elevada que vem com o "sim", e uma maior harmonia. Paz que dá lugar à compreensão.(...)

Por milhares de anos você tem permanecido identificado com a mente, tem despejado muita energia nela. Ela segue girando e girando, por meses e anos. Mas se você conseguir permanecer um observador silencioso, um observador na colina, então pouco a pouco a energia, o momento, é perdido e a mente chega a parar.
No dia em que a mente parar, você chegou.

A primeira visão do que é Deus e de quem é você acontece imediatamente, porque uma vez que a mente para, toda a sua energia que tinha permanecido envolvida com ela é liberada. E essa energia é tremenda, é infinita: ela começa a descer em você. É uma grande bênção, é graça.

Os chamados revolucionários seguem fracassando porque eles continuam tentando dar um jeito nas mesmas coisas da mente. Alguém acredita em Deus e daí aparece um revolucionário que diz, 'Não há Deus algum e eu não acredito em Deus'. Mas ele é tão fanático com suas idéias como as pessoas que acreditam em Deus.
Crentes e descrentes, ambos são fanáticos. Uns se apegam ao sim e outros se apegam ao não, mas sim e não, ambos são partes da mente. Você escolhe uma parte e um outro alguém escolhe a outra parte. Um é cristão e o outro é hindu, mas ambos são mentes. Um escolheu a Bíblia e o outro escolheu os Vedas, mas ambos são partes da mente.

Então, quem é realmente religioso? Aquele que não fez escolhas a partir da mente. Você não pode chamá-lo cristão, nem hindu, nem comunista; você não pode chamá-lo teísta nem ateu. Ele simplesmente é. Ele é indefinível. Você não consegue rotulá-lo. Ser é tão vasto que não pode ser rotulado.

Nenhuma palavra é adequada o suficiente para descrever o ser. Em tal vastidão, a liberdade; em tal vastidão, a felicidade."
- Osho em O Livro dos Segredos IV

20 de maio de 2017

Kṣānti - Swami Dayananda



"A palavra sânscrita kṣānti frequentemente é traduzida como "tolerância" ou "capacidade de suportar". Mas essas duas expressões portuguesas trazem um sabor negativo de "sofrimento resignado", quando, ao contrário, kṣānti é uma atitude positiva - não uma resignação dolorosa. Uma tradução melhor seria "acomodação". 

A atitude de kṣānti significa que eu, alegremente, calmamente, aceito aquele comportamento e aquelas situações que não posso mudar. Desisto da expectativa ou exigência pela mudança de outra pessoa ou situação, de forma a se moldar ao que penso ser agradável para mim. Eu me acomodo às situações e às outras pessoas alegremente.

Todos os relacionamentos requerem acomodação

Esse valor deve ser construído a partir da compreensão da natureza das pessoas e dos relacionamentos entre elas. Nunca encontrei numa pessoa todas as qualidades de que gosto ou todas de que não gosto. Qualquer pessoa será uma mistura de coisas que acho interessante e outras que considero desinteressantes. Similarmente, eu terei o mesmo impacto nos outros. Ninguém vai me achar totalmente agradável. Quando reconheço esses fatos, vejo que todos os relacionamentos requerem alguma acomodação da minha parte. Não estarei disposto, ou talvez não serei capaz de mudar ou satisfazer todas as expectativas que o outro tem de mim; tampouco os outros estarão dispostos ou serão capazes de mudar e satisfazer todos os meus critérios em relação a eles. Nunca encontrarei um relacionamento que não requeira acomodação.

Em especial, os relacionamentos que envolvem coisas que fortemente desgosto em alguém requerem acomodação da minha parte. Se eu for capaz de modificar a pessoa, ou se puder colocar uma distância entre mim e ela, sem faltar ao meu dever, tudo estará bem. Mas se não puder fazer isso, simplesmente devo me acomodar alegremente. Ou seja, devo tomar a pessoa como ela é. Não posso esperar que o mundo ou as pessoas mudem. Simplesmente não é possível compelir as pessoas a mudar para satisfazer minha expectativa de como elas deveriam ser. Algumas vezes alguém pode mudar um pouco por mim ou pode tentar mudar, mas não posso contar com isso. Geralmente, quando quero uma mudança nos outros, eles também desejam uma mudança em mim. Teremos, então, um impasse.

Para kṣānti, diminua as expectativas
Quando examinar meus processos mentais, provavelmente verificarei que, para minha surpresa, eu ofereço kshánti mais prontamente para um tolo insuportável do que para meu melhor amigo. Isso porque não espero algo sábio ou inteligente de um tolo; mas espero que meu amigo viva de acordo com certos padrões que considero adequados. Um tolo incorrigível não consegue me desapontar, mas outros, por uma razão ou outra, em algum momento, conseguem. Não deveria ser assim. Minhas expectativas deveriam colocar todos na mesma categoria do tolo incorrigível. Ninguém deveria ser capaz de me desapontar, mas somente capaz de me surpreender. E minha atitude deve ser a de estar preparado para acomodar todas as surpresas possíveis.

Devo acomodar as pessoas como acomodo objetos inertes, isto é, devo tomá-las como são. Eu não gosto de ser queimado pelo Sol, porém não peço ao Sol que pare de brilhar. Aprecio a benção mista de um Sol quente brilhando e entendo que, sendo uma benção mista ou não, não posso desligá-lo. Não peço às abelhas que não tenham ferrão, tampouco odeio as abelhas se, estando no caminho delas, recebo uma picada. Continuo apreciando a função da abelha e aproveito o mel.

Porém, considero ser muito mais difícil ter para com as pessoas a atitude que tenho com os insetos e objetos inertes. Posso me relacionar adequadamente com um objeto inerte ou uma criatura selvagem porque não espero qualquer mudança deles. Mas espero que as pessoas possam mudar para se tornarem mais agradáveis para mim. Mantenho minha mente agitada com exigências contínuas por mudanças de forma que os outros em minha vida sejam mais de acordo com as minhas preferências. De fato, nem os humanos podem ser capazes de mudança.

Freqüentemente não conseguem mudar ou por falta de força de vontade ou por falta de vontade. Quando alguém não consegue mudar ainda que deseje mudar é porque não possui força de vontade. Nada mais há a fazer, a não ser acomodar essa pessoa. Quando uma pessoa não muda porque não deseja tentar a mudança, podemos tentar convencê-la a ter a vontade de se beneficiar de uma mudança. Se não for possível convencê-la, então acomode-a. O que mais se pode fazer?! De qualquer maneira, o mundo é amplo. A variedade torna-o mais interessante. Há espaço suficiente para acomodar a todos.

Responda à pessoa, não à ação

Para descobrir dentro de mim um valor pela acomodação, eu deveria olhar para a pessoa por trás da ação. Geralmente, é quando estou respondendo ao comportamento da pessoa, à sua ação, que acho difícil ser acomodativo. Quando tento entender a causa por detrás da ação, me coloco numa posição de responder à pessoa e não à ação, e então minha resposta para essa pessoa pode ser uma resposta acomodativa. Tento ver o que existe por detrás do súbito ataque de raiva ou da explosão de ciúmes ou da conduta dominadora e respondo à pessoa, e não às ações.

Se não consigo ver o que há por detrás das ações, ainda assim, tenho em mente o fato de que muitas razões desconhecidas por mim armam o palco para qualquer ação por parte da outra pessoa. Com essa disposição de espírito achei natural ser acomodativo. Numa situação onde minha interação é para com a pessoa em vez de para com a conduta, conseguirei me manter calmo. De fato, a dissolução de qualquer discussão entre pessoas é quase sempre o resultado de uma apreciação mútua feita pelas pessoas em vez de uma nova atitude quanto à conduta irrefletida.

Reações mecânicas impedem a acomodação. Para ser livre ao interagir com uma pessoa, devo ser livre de reações mecânicas. Tenho que escolher minhas atitudes e fazer as ações deliberadamente. Uma reação é um tipo de conduta mecânica e não-deliberada. É uma resposta condicionada extraída de experiências anteriores, sem autorização prévia da minha vontade. Na verdade, é uma resposta que não foi avaliada conforme a estrutura de valores que estou tentando assimilar, mas que somente ocorreu. Algumas vezes a minha reação pode ser uma ação ou atitude que, mais tarde, após reflexão, eu aprovaria.

Outras vezes minhas reações podem ser completamente contrárias às atitudes e ações que eu gostaria de manter ou fazer. Reações podem ir contra toda a minha sabedoria, estudo e experiência anterior. Esses fatores são relegados e a reação ocorre. O que aprendi anteriormente torna-se sem valor para mim. Posso ter lido todas as escrituras do mundo, posso ser um ótimo estudante de sistemas éticos, posso ser um profissional diplomado em dar conselhos aos outros, mas quando acontece a reação, essa será exatamente tão mecânica como a de qualquer outro.

Sabedoria, aprendizado e experiência não me servirão de nada. Portanto, até que meus valores éticos se tornem completamente assimilados, estabelecendo uma base a partir da qual atitudes e ações corretas surjam espontaneamente, devo, através da atenção, evitar reações e, ao invés disso, deliberadamente e refletidamente escolher minhas ações e atitudes. Quando evito reações, estou livre para escolher minhas ações e atitudes, posso ser acomodativo em meus pensamentos, palavras e ações.

Kṣānti e ahimsā: qualidades de um santo

Acomodação é uma qualidade bela e santificada. Dentre todas as qualidades, ahimsā e kṣānti constituem as qualidades de um santo. As qualificações mínimas para um santo são essas duas qualidades. Não é preciso ter sabedoria nem é necessário o aprendizado das escrituras para ser um santo, mas a pessoa deve ter esses dois valores. Um santo é uma pessoa que nunca fere conscientemente outra pessoa pela palavra, ação ou pensamento, e que aceita as pessoas - boas ou ruins - exatamente como elas são; que tem uma infinita capacidade de acomodar, perdoar e ser compassivo.

Essas qualidades (acomodação, perdão, compaixão...) estão incluídas na qualidade chamada kṣānti. Um santo sempre é dotado de kshánti - uma capacidade infinita para a compaixão. Ele responde à pessoa, não à ação. Ele vê a ação errada como um erro originário de um conflito interno e é compassivo para com a pessoa que o comete. Uma atitude de kṣānti, acomodação, expande o coração. Esse se torna tão amplo que aceita todas as pessoas e circunstâncias exatamente como elas são, sem desejos ou cobranças de que sejam diferentes. Isso é kṣānti."

Por Swami Dayananda Sarawasti  [fonte aqui]


17 de maio de 2017

Espelho Vazio - Osho


"Uma das coisas mais fundamentais de se lembrar - não só por você, mas por todos - é que: O que quer que você encontre em sua jornada interior, não é você. Você é aquele que está testemunhando - pode ser o nada, pode ser o êxtase, pode ser o silêncio. 

Mas uma coisa tem de ser lembrada - por mais linda e por mais encantadora que seja a experiência que você tenha, ela não é você. Você é aquele que está experienciando, e se você continuar indo adiante, o topo da jornada é o ponto em que não resta mais nenhuma experiência - nem o silêncio, nem o êxtase, nem o nada. Não há nada como um objeto para você, mas apenas sua subjetividade.

O espelho está vazio. Ele não está refletindo nada. Isto é você.

Mesmo os grandes viajantes do mundo interior ficaram presos em lindas experiências e se tornaram identificados com aquelas experiências, pensando: "Eu me encontrei." Elas pararam antes de alcançar o estágio final, onde todas as experiências desaparecem.

A iluminação não é uma experiência. Ela é um estado no qual você é deixado absolutamente só, sem nada para conhecer. Nenhum objeto, por mais lindo que seja, está presente. Somente neste momento, sua consciência, desobstruída de qualquer objeto, dá uma virada e volta à sua fonte.

Isso se torna a realização-de-si-mesmo. Torna-se iluminação.

Preciso recordar-lhes acerca da palavra 'objeto'. Todo objeto significa uma obstrução. O próprio significado da palavra é obstrução, objeção.

Assim, o objeto pode estar fora de você, no mundo material; o objeto pode estar dentro de você, no seu mundo psicológico; os objetos podem estar no seu coração, nas suas sensações, emoções, no seus sentimentos, estados de humor. E os objetos podem estar até mesmo no seu mundo espiritual. E eles são tão extasiantes que a pessoa não pode imaginar que possa haver mais. E muitos místicos do mundo pararam no êxtase. É um espaço lindo, um espaço fantástico, mas eles ainda não chegaram em casa.

Quando você chega a um ponto em que todas as experiências estão ausentes, em que não há nenhum objeto, aí então a consciência, sem nenhuma obstrução, se move em um círculo - na existência, tudo se move em um círculo, se não houver obstrução - ela vem da mesma fonte do seu ser e começa a circular. Não encontrando nenhum objeto - ela retorna., E o próprio sujeito se torna o objeto.

Isto é o que J. Krishnamurti viveu repetindo por toda vida: quando o observador se torna o observado, saiba que você chegou em casa. Antes disso, há milhares de coisas pelo caminho. O corpo oferece suas próprias experiências, que se tornaram conhecidas como as experiências dos centros da kundailni; os sete centros se tornam as sete flores de lótus. Cada uma é maior que a outra, e mais alta, e a fragância é intoxicante. A mente lhe dá grandes espaços, ilimitados, infinitos. Mas lembre-se da máxima fundamental de que o lar ainda não chegou.

Desfrute a jornada e desfrute todas as cenas que acontecem durante a jornada - as árvores, as montanhas, as flores, os rios, o sol e a lua e as estrelas - mas não se detenha em nenhum lugar, a menos que a sua própria subjetividade se torne o seu próprio objeto. Quando observador é o observado, quando o conhecedor é o conhecido, quando aquele que vê é aquilo que é visto, o lar chegou.

Este lar é o templo verdadeiro pelo qual estivemos buscando durante vidas seguidas, mas nós sempre nos desviamos. Nós ficamos satisfeitos com lindas experiências.

Um buscador corajoso tem de deixar todas essas lindas experiências para trás, e continuar indo adiante. Quando todas as experiências são exauridas e somente ele mesmo permanece na sua solitude... nenhum êxtase é maior do que este, nenhuma bem-aventurança é mais abençoada, nenhuma verdade é mais verdadeira. Você entrou naquilo que eu chamo de divindade, você se tornou um deus.(...)

Você está dormindo e está na hora de acordar.
Todas essas experiências são experiências de uma mente adormecida.
A mente acordada não tem absolutamente nenhuma experiência."

- Osho em Ma Tzu, O Espelho Vazio.

13 de maio de 2017

Sobre as mentiras - Prem Baba


"Uma das principais consequências da mentira é a doença física. Quanto mais tempo você permanece na mentira, mais doenças você começa a ter. Isso porque, em algum momento, você foi impedido de ser quem era e se desconectou da sua essência, passando a atuar através de uma máscara, de um fingir ser, para conseguir ser aceito e amado. Acontece que agindo a partir da máscara, muito do que você sente como espontaneidade ou liberdade é mentira – é tudo um teatro -, e os sintomas dessa atuação costumam se manifestar na forma de doenças como ansiedade, depressão, angústia, compulsões e vícios para esconder a dor de não se lembrar de quem é. Dessa forma, o corpo começa a adoecer e todo o metabolismo passa a se desequilibrar.

A mentira é uma prisão que esconde o medo: você tem medo de sentir algumas coisas e de falar a verdade e não dar conta das reações que isso provoca. Mas fazendo dessa forma, você está perdendo uma grande chance, que é a chance de evoluir nesta encarnação. Lembre-se que a vida neste planeta é como uma bolha de sabão e que quando menos se espera, o jogo termina. Por outro lado, eu sei que para poder lidar com o seu medo e as reações provocadas pela honestidade, se faz necessário ter uma estrutura, e até alcançá-la você seguirá acreditando que não dá conta da verdade, que não pode ser honesto consigo mesmo e consequentemente, com os outros. Mas será que isso é mesmo verdadeiro?

Quando falo de Verdade, falo de uma Verdade que sempre existiu. Ela está aqui agora e sempre existirá. Ela esteve presente no início, está presente neste instante e estará presente no fim, embora ela mesma não tenha começo e nem final. A Verdade simplesmente é, da mesma forma que o amor simplesmente é. Assim como você não pode aprender a amar – pode apenas remover o ódio para o amor se revelar – o mesmo se dá com relação à Verdade – o que você pode fazer é remover a mentira para Ela aparecer.

Certa vez Jesus disse: “A Verdade vos libertará”. Eu tenho constatado que liberta mesmo, tanto que tenho dito que o valor da honestidade é o mais urgente e necessário em nossa jornada evolutiva. A honestidade é uma forma do amor, é uma expressão do amor mais urgente neste momento. Considero que este valor seja a base, a fundação do templo da consciência. Por isso, se você não pode dar passagem para ele, seu processo evolutivo estará interrompido.

Se estiver atento, vai perceber que preso na mentira estará apenas andando em círculos, sem se desenvolver nem como pessoa e nem como consciência. Sem honestidade você só pode crescer (se é que se pode chamar de crescimento) no mundo material. Aliás, você poderá crescer até um determinado ponto e não mais do que isso. Alguns chegam a construir impérios com base na mentira, mas existe uma lei que determina que todas as construções que não têm lastros na Verdade precisarão cair, porque são como capas temporárias que em algum momento terão de ser rasgadas. Isso porque a Verdade é a Essência; é aquilo que podemos chamar também de Deus. Se a gente segue para uma visão onde tudo é Deus, vemos inclusive a mentira como Deus, mas esse já é um aspecto distorcido que vou deixar para comentar em um outro momento.

Tem pessoas que desenvolvem riqueza para fugir da pobreza, por exemplo. Essa é uma forma de mentira, já que no mais profundo essas pessoas ainda não podem encarar dentro delas a pobreza que lhes habita. Então, saem correndo atrás da riqueza e se não houver nenhuma crença que as impeçam de crescer nessa área, elas progridem. Mas em algum momento essa riqueza terá que cair para que possam encarar o medo que sentem da pobreza e poderem então, ser ricas de verdade, tendo em vista que a real riqueza nasce da plenitude e da verdade e não da máscara e da mentira.

Acontece que para encarar essa verdade é preciso ter disposição, o que significa abrir mão das mentiras e lidar com suas consequências. Um bom caminho é investigar o medo que você sente em dizer a verdade. Permita-se conhecer as histórias que esse medo te conta. As fantasias do que podem acontecer caso você resolva ser honesto. Talvez você passe alguns apuros mesmo, porque existem mentiras e mentiras e algumas são realmente, como se diz no Brasil, cabeludas.

Porém, se conseguir ser honesto a ponto de admitir suas mentiras para você mesmo, estará dando um passo em direção à transformação. Para isso, sugiro um exercício bem simples: faça um diário das suas mentiras. Toda noite, antes de dormir, descreva-as num caderno. É só você com você. Não precisa mostrar para ninguém, então pode ser bem sincero. Descreva todas as mentiras, desde as mentirinhas bobas, que você conta para poder tirar vantagem ou para ficar ‘bem na foto’, até aquelas mentiras que te levam a inventar mais mentiras para poder sustentá-las. Sempre releia as mentiras do dia anterior e veja se está havendo alguma mudança, algum progresso. Dessa forma, a cada dia você conseguirá caminhar, nem que seja um pouquinho, em direção à verdade.

Muitas vezes, você fica preso na mentira porque acredita na ilusão de que, dessa forma, estará protegido. Com base nessa mentira, você constrói uma zona de conforto e acredita estar livre de qualquer conflito. Mas, ao mesmo tempo em que existe um conforto, existe também um incômodo, e esse incômodo é quem vai, muitas vezes, prejudicar a sua saúde manifestando-se na forma de uma série de doenças como já mencionei anteriormente. Em outras palavras, para viver na mentira você abre mão de muitas coisas, entre elas a sua liberdade e integridade. Entenda que as mesmas paredes que te protegem são as paredes que te aprisionam, e esse é o preço que você paga por essa falsa segurança de ser quem não é.

Eu sinto que além de você e cada um de nós, o mundo está precisando do remédio da honestidade. 
O mundo está precisando de Deus. E Deus é Verdade, Deus é Amor. O mundo está precisando de Verdade e de Amor. 
Que possamos nos comprometer com o valor honestidade."
Sri Prem Baba em Satsang

6 de maio de 2017

A essência dos ensinamentos de Ramana - por Sivaprakasan Pillai



"Sivaprakasam Pillai foi o afortunado devoto de Śrī Rāmaṇa que, em 1902, postulou a pergunta “Quem sou Eu?” junto com outras igualmente importantes para o mestre, e preservou e contemplou a vida inteira sobre as suas respostas. Esse tesouro de Sabedoria guia e inspira hoje em dia inúmeros buscadores do mundo inteiro.

Sivaprakasam dedicou o resto da sua vida à contemplação desse Ensinamento. Ocasionalmente, escrevia alguns versos sobre o tema. Faleceu em Janeiro de 1949. Um tempo depois, seu sobrinho, Manickam Pillai, visitou o Āśram de Śrī Rāmaṇa. O mestre perguntou ao jovem sobre os últimos dia do tio, e se ele havia deixado alguns poemas escritos.

O jovem, hesitante, respondeu que sim: “Bhagavān, ele deixou alguns manuscritos comigo, com o pedido de que os queimasse após a sua morte e a condição de que não os mostrasse para ninguém.” O mestre respondeu: “Isso não tem importância. Você pode mostrar esses poemas para mim.”

Da pilha de poemas, Śrī Bhagavān escolheu uma folha e disse: “Este é o suficiente”, e devolveu os demais escritos para Manickam. 

Apresentamos aqui a tradução para o português desse poema de Sivaprakasam Pillai escolhido por Śrī Rāmaṇa Maharshi. 


Śrī Rāmaṇa Vācana Sāram

Esta é a Essência; Esta é a Essência!
Esta é, de fato, a Essência das Palavras de Rāmaṇa!
Diga-me quem é o Você real! Busque o Você real!
Certamente, Você não é a carne, sujeita a decompor-se.

O corpo nasce, o corpo morre.
O corpo desconhece a si mesmo no sono profundo.
Você é Conhecimento. Conhecimento é Você.
O Conhecimento Eterno nunca nasce ou morre.

No sono há Consciência de Si, não do corpo.
Somente Você testemunha a ausência de consciência do corpo. 
Não sabem todos que o corpo nasce?
Há alguém que testemunhe o nascimento da Consciência?

Você não é o corpo, com já foi dito.
Destrua a falsa noção de que Você é o corpo.
Busque incessantemente sua natureza real.
Não pense em mais nada.

Se o pensamento-raiz “Eu sou o corpo” 
Permanecer, então todos os demais pensamentos permanecerão. 
“Quem é consciente do corpo?” - Esta busca
Apenas, irá eliminar a crença “Eu sou o corpo”.

O iludido que pensa “Eu sou o corpo”
Irá anelar consequentemente alimentos, roupas e desejos. 
Naquele que for livre da ilusão “Eu sou o corpo”
A mente não irá mais ansiar por alimentos, roupas e desejos.

Ainda que o fim estiver próximo, não se iluda
Permaneça tranquilo; é o trabalho de Deus
Não pondere sobre se o corpo é um, dois ou três
Tal busca é vã.

Se você observar atentamente
Não há, absolutamente, espaço para a crença de ser o corpo
Rejeite toda aparência que pareça separada [de Você]
Rejeite-a como sendo “Não Eu”.

Todos os outros dogmas e crenças são como coleções de lixo
Livre-se de todas elas.
Constantemente inquirindo “Quem sou Eu?” 
Apenas o pensamento-Eu permanece.

O resto será cinzas. 
Quando o pensamento-Eu for queimado
Você saberá que “Este é o Eu Real”, livre de pensamentos. 
Aquele que não nasce nem se põe é o Você Real, que brilha refulgente

O Ser que brilha como o resplandecente Sol:
Seja Ele, sem nunca esmorecer. 
Esta é a Essência, esta é a Essência,
Esta, de fato, é a Essência do Ensinamento de Rāmaṇa."

- Por Sivaprakasan Pillai -

29 de abril de 2017

Expectativas e felicidade - Osho


"Pare de cumprir as expectativas dos outros, porque essa é a maneira de você cometer suicídio. Você não está aqui para satisfazer as expectativas de ninguém e ninguém está aqui para satisfazer suas expectativas. 

Nunca torne-se uma vítima das expectativas dos outros e não faça qualquer um vítima das suas expectativas.

Isto é o que eu chamo de individualidade. 

Respeite sua própria individualidade e respeite a individualidade dos outros. Nunca interfira na vida de ninguém e não permita que ninguém interfira na sua vida. 

Só então um dia você vai crescer em espiritualidade.

Caso contrário, noventa e nove por cento das pessoas simplesmente cometem suicídio. Toda a sua vida nada mais é que um suicídio lento. Cumprindo essa expectativa, aquela expectativa... um dia era o pai, outro dia era a mãe, um dia era a esposa, marido, em seguida vêm as crianças – elas também tem expectativas. Então a sociedade, o padre, o político. Todo mundo tem expectativas. E pobre de você, apenas um pobre ser humano – e o mundo inteiro esperando por você para fazer isso e aquilo. E você não pode satisfazer todas as expectativas, porque elas são contraditórias.

Você tem tentado loucamente cumprir as expectativas de todos e você não satisfez ninguém. Ninguém está feliz. Você está perdido e ninguém está feliz. 
As pessoas que não estão felizes com elas mesmas, não podem ser felizes. 

Tudo o que você fizer, elas vão encontrar maneiras de estar infeliz com você, porque elas não podem ser felizes.

A felicidade é uma arte que tem que ser aprendida. 

Não tem nada a ver com o seu fazer ou não fazer. 
Em vez de agradar, aprenda a arte da felicidade."
Osho em Além da Psicologia

22 de abril de 2017

Saber cuidar - Jeff Foster



"Quando você estiver sentado ao lado de um ente querido que você ama verdadeiramente e que estiver sofrendo, não tente ser forte, não tente ser invulnerável.

Deixe que seu coração se parta um pouco... ou muito...
Incline-se ante a sua fragilidade, ante a sua falta de respostas.
Sinta sua tristeza, seu medo, suas frustrações.
E sua culpa. Você não é um super homem...

É difícil ver alguém que amamos sentindo dor. Não importa o que seja, estar numa situação dessas é realmente difícil.

Agora, observe onde está sua atenção?
Ela está fora do seu corpo? Você está prendendo a respiração? Você está se esquecendo de si mesmo em seu desejo de "ajudar", ou mesmo "salvar" o outro? Está abandonando seu precioso corpo?

O universo não necessita de dois sofrimentos. Um é mais que suficiente. 
Ofereça sua presença agora.
Seu coração completamente aberto.
Escute o outro.
Chore com ele.

Estejam juntos neste lugar em que se encontram. Mas lembre-se que não é seu trabalho salvá-lo, curá-lo, nem eliminar sua dor. Isso depende de Deus, depende do Universo.

Você não sabe o que é melhor para ele. Poderia estar oferecendo respostas equivocadas.

Cada um está em sua própria viagem. A viagem dele não é a sua, - e isso não significa que você seja egoísta.

Seu trabalho é ser amigo neste momento, não seu salvador.

Seja um reflexo da própria presença do seu amigo, de sua força, de sua capacidade de suportar até as energias mais intensas.

Para poder cuidar dos outros, tens que cuidar significativamente de si mesmo, para que esse cuidado transborde, para que que esse cuidado flua até seu amigo, mesmo se ele não estiver consciente disso.

Não abandone a si mesmo em nome da compaixão.
Recorde seu caminho agora, não o dele.
Fazendo menos, poderá irradiar mais....
Jeff Foster 

15 de abril de 2017

Observando os desejos - Eckhart Tolle


Pergunta: Se você vive apenas no agora, o que impediria alguém que está num relacionamento ou casamento de resistir à tentação de fazer sexo com alguém que é atraente, mas não é seu (sua) parceiro(a)? Afinal, se você está no agora e vê uma pessoa atraente, você vai querer fazer sexo com ela agora?

Eckhart Tolle - Será que viver no agora significa ceder a cada impulso que apareça? Então todas aquelas pessoas que correm atrás de um(a) parceiro(a) após outro(a) devem ser iluminadas.

Enquanto você quiser algo de alguém, como o sexo, será que você está presente? Ou será que está procurando chegar a um ponto no futuro que prometa realização? E que por isso transforme o momento presente bem como a outra pessoa num meio para um fim. Todo querer implica que o futuro seja mais desejável do que o presente, não é assim?

É inevitável que a atração física por outra pessoa às vezes aconteça. Isso apenas faz parte da natureza, nada mais.
Quando você se identifica com o impulso, este se torna “você” e vira querer. A outra pessoa torna-se então um meio para um fim; e o fim é o sexo, a consecução do objeto do seu desejo.

Quando você está presente, você pode observar dentro de si a atração ou a sensação sexual, reconhecê-la como natural, aceitá-la e até curti-la sem precisar expressá-la. Afinal, pode até ser totalmente inconveniente agir assim dentro da totalidade da situação.

Quando você se reconhece como o espaço de consciência em que surge o impulso, você não se torna o impulso; você não se perde nele.

Estar presente é ser o espaço, em vez do que acontece."
Eckhart Tolle em Satsang

8 de abril de 2017

Religião e Espiritualidade - Teilhar de Chardin


"A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma. 

A religião é para os que dormem. 
A espiritualidade é para os que estão despertos. 

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados. 
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior. 

A religião tem um conjunto de regras dogmáticas. 
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo. 

A religião ameaça e amedronta. 
A espiritualidade lhe dá Paz Interior. 

A religião fala de pecado e de culpa. 
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"

A religião reprime tudo, te faz falso. 
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
 
A religião não é Deus. 
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus. 

A religião inventa. 
A espiritualidade descobre. 

A religião não indaga nem questiona. 
A espiritualidade questiona tudo. 

A religião é humana, é uma organização com regras. 
A espiritualidade é Divina, sem regras.
 
A religião é causa de divisões. 
A espiritualidade é causa de União.
 
A religião lhe busca para que acredite. 
A espiritualidade você tem que buscá-la.
 
A religião segue os preceitos de um livro sagrado. 
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros. 

A religião se alimenta do medo. 
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé. 

A religião faz viver no pensamento. 
A espiritualidade faz Viver na Consciência..
 
A religião se ocupa com fazer. 
A espiritualidade se ocupa com Ser. 

A religião alimenta o ego. 
A espiritualidade nos faz Transcender. 

A religião nos faz renunciar ao mundo. 
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
 
A religião é adoração. 
A espiritualidade é Meditação.
 
A religião sonha com a glória e com o paraíso. 
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
 
A religião vive no passado e no futuro. 
A espiritualidade vive no presente. 

A religião enclausura nossa memória. 
A espiritualidade liberta nossa Consciência. 

A religião crê na vida eterna. 
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna. 

A religião promete para depois da morte. 
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual... 
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana.."

-Teilhard de Chardin-

1 de abril de 2017

Osho fala sobre os Upanishads


"Estamos penetrando num mundo dos mais encantados e misteriosos - o mundo dos Upanishads.
Os dias dos Upanishads foram os mais notáveis no campo da busca espiritual. Nunca antes ou depois a consciência humana atingiu tamanhas culminâncias.

AUM                                                      AUM
Purnamadah                                        Aquilo é o Todo.
Purnamidam                                        Isso é o Todo.
Purnat purnamudachyate                    Da Totalidade emerge
Purmasya purnamadaya                      a Totalidade
Purnameva vashishyate                      E a totalidade permanece    

* Isha Upanishad                      

A totalidade é outra coisa; tem outro sabor. A perfeição está no futuro: é o desejo. A totalidade está aqui: é uma revelação. A perfeição tem que ser alcançada e isso, obviamente, leva tempo: precisa ser gradual. Cumpre sacrificar o presente pelo futuro, o hoje pela manhã. Mas o amanhã não chega sempre é o hoje.

A existência ignora o futuro e o passado; só conhece o presente. O agora é o único tempo, o aqui é o único espaço. Se você se abstrair do agora e do aqui, mergulhará em alguma forma de insanidade. Você se fragmentará num inferno. Você ficará dividido: o passado requisitará uma parte de você e o futuro requisitará a outra parte. Você se tornará esquizofrênico, cindido, pulverizado. Sua vida será apenas angústia profunda, temor, ansiedade, tensão. Você não conhecerá a bem-aventurança, não conhecerá o êxtase porque o passado não existe.

As pessoas vivem de lembranças que são meras pegadas na areia; ou projetam sua vida no futuro, que também não existe. O passado já se foi, o presente ainda não chegou - e, entre os dois, a pessoa perde o real, o presente, o agora.

A totalidade é feita do agora. Se você conseguir simplesmente estar aqui, este exato instante trará a revelação! Não gradual, mas súbita - uma explosão!

A palavra Upanishad é tremendamente importante: significa apenas ficar sentado junto ao mestre, uma comunhão. O mestre vive na totalidade; vive e palpita no aqui e agora. Sua existência tem música, tem alegria, tem silêncio absoluto. Sua existência é cheia de luz.

O mero ato de sentar-se em silêncio junto ao mestre já basta porque a presença dele é contagiosa, a presença dele é pujante. O silêncio do mestre se insinua em nosso coração. A presença do mestre funciona como um imã; esse imã nos puxa do pântano do passado e do futuro. Traz-nos para o presente.

Upanishad é comunhão, não comunicação. A comunicação acontece entre cabeças, a comunhão entre corações. Esse é um dos maiores segredos da vida espiritual e nunca, em lugar algum, foi compreendido tão profundamente quanto nos dias dos Upanishads.

Os Upanishads surgiram há cerda de 5 mil anos. Uma comunhão secreta, uma transmissão que prescinde de escrituras e palavras. Upanishad é isto: sentar-se silenciosamente para ouvir não apenas minhas palavras, mas também minha presença; as palavras são o invólucro. Quem se interessa demais pelas palavras não capta o espírito.

Por isso, não valorize muito a palavra. Ouça a pulsação do mundo. Quando o mestre fala, suas palavras brotam de seu íntimo. Elas estão repletas da cor, da luz do mestre. Trazem um pouco do perfume de seu ser. Se você for aberto, vulnerável, receptivo, acolhedor, então elas penetrarão em seu coração e darão início a um processo.

A palavra Upanishad significa aproximar-se de um mestre e só nos aproximamos de um mestre quando estamos fartos de professores, lições dogmas, credos, filosofias, teologias, religiões. É então que procuramos um mestre. E o fazemos pela renúncia. Não se trata de renunciar ao próprio ser, mas ao ego, essa falsa ideia de que somos alguém, alguém especial. Tão logo sufocamos a ideia do ego, as portas se abrem - para o vento, a chuva, o sol - e a presença do mestre começa a nos invadir, criando uma nova dança em nossa vida, fornecendo-nos um novo sentido de poesia, mistério e música.

Sincronicidade: o mestre dança num certo ritmo e num determinado plano. Se você estiver pronto, também começará a dançar como ele - no princípio só um pouco, mas esse pouco já é o bastante. No princípio gotas; logo depois, o oceano.

Quando houver saboreado a alegria de abrir-se, você não conseguirá mais fechar-se. Primeiro, abrirá apenas uma janela ou uma porta; em seguida, todas as janelas e todas as portas. Chega um momento na vida do discípulo, em que não só as portas e janelas se abrem, como as próprias paredes desaparecem. O discípulo está então totalmente aberto, multidimensionalmente disponível, Esse é o signficado da palavra Upanishad.

Os Upanishads foram escritos em Sânscrito, a língua mais antiga da Terra. A palavra Sânscrito quer dizer, transformado. A própria língua se transformou porque como muitos que a usavam atingiram o absoluto, parte de sua alegria e parte da sua poesia penetraram nas células nas fibras dessa língua. Ela se modificou, se iluminou. Foi inevitável. (...) A iluminação deles penetrou no Sânscrito com sua música, sua poesia, sua celebração. O Sânscrito se iluminou. É o idioma mais poético e musical que jamais existiu.

Uma língua poética é o oposto de uma língua científica. Numa língua científica, cada palavra precisa ter um significado exato, ou seja, um único significado. Numa língua poética, a palavra precisa ser líquida, fluída, dinâmica ( nunca estática ); precisa apresentar vários significados, várias possibilidades. (...) Dá-se ao Sânscrito o nome de devavani, "a língua divina". E com razão, pois, de todos, é o idioma mais poético e mais musical. Cada palavra soa como música, cada palavra tem seu perfume.

Por que isso aconteceu? Porque muitos dos seus falantes estavam repletos de harmonia interior. Como esses falantes eram iluminados, as palavras que empregavam se tornaram luminosas. Parte de sua luz se transferiu para os vocábulos, aderiu a eles; parte de seu silêncio se entranhou na própria gramática, na própria estrutura da língua que usavam. (...)Cada palavra foi usada por pessoas que conheceram Deus ou o divino.

Eis um fundamento que nunca deve ser esquecido. Os Upanishads dizem que o mundo é a forma manifesta de Deus e que Deus é a forma não manifesta do mundo; dizem também que cada fenômeno manifesto traz em si um fenômeno não manifesto.

Quando você vê uma flor, vê apenas a forma manifesta de algo que está dentro dela, sua essência invisível, sua alma seu ser verdadeiro dissecando a flor. Para consegui-lo, precisará recorrer a abordagem poética, não à abordagem científica. Esta analisa, aquela é uma perspectiva totalmente diversa. A ciência jamais encontrará beleza na flor porque a beleza pertence à forma não manifesta. A ciência dissecará a forma manifesta e encontrará todas as substâncias de que a flor é constituída, mas não encontrará sua alma.

Todas as coisas têm corpo e alma. O corpo é o mundo e a alma é Deus; o corpo, porém, não é inimigo da alma, assim como o mundo não é inimigo de Deus. O mundo manifesta Deus, exprime Deus. Deus é o silêncio e o mundo é a canção desse silêncio. O mesmo se aplica a você. Toda pessoa tem uma estrutura manifesta ( corpo-mente) e uma estrutura não manifesta ( consciência).

A religião busca descobrir o não manifesto no manifesto. Não é uma questão de fugir de tudo; é uma questão de explorar as profundezas. Explorar o centro silencioso, o olho do furacão. Ele está sempre presente e pode ser achado a qualquer momento. Não é algo que se vá encontrar em outra parte, no Himalaia ou num mosteiro. Está dentro de nós! Podemos encontrá-lo tanto no Himalaia quanto num mercado.

Os Upanishads ensinam que é errado escolher entre o absoluto e o relativo. Qualquer escolha nos divide, impedindo-nos de ser um todo. E sem totalidade não há bem-aventurança, não há santidade; sem ela nos tornaremos invariavelmente um pouco dispersos, insanos. Quando formamos um todo temos saúde porque não estamos fragmentados.

O relativo é o mundo mutável, fenomênico; o absoluto é o centro permanente de um mundo inconstante. Encontre o imutável no mutável. Ele está ao seu alcance, você só precisa conhecer a técnica de encontrá-lo. Essa técnica é a meditação.

Meditar significa simplesmente sintonizar-se com o não-manifesto. O corpo está aí, você pode vê-lo; a mente está aí, você pode vê-la também. Se fechar os olhos, conseguirá surpreendê-la em pleno funcionamento, em plena ação. Pensamentos irrompem, desejos brota, lembranças chegam à superfície - a atividade toda da mente está aí, você pode percebê-la.

Uma coisa é certa: o observador não é a mente. Aquele que acompanha as atividades da mente não faz parte da mente. O observador está separado, a testemunha está separada. Quando você toma consciência dessa testemunha, descobre o essencial, o central, o absoluto, o imutável.

O corpo muda: as pessoas são crianças, depois jovens, depois velhas...Estiveram no útero da mãe, nasceram e um belo dia morrerão, desaparecendo no ventre da existência. O corpo muda, muda sem parar.

A mente muda. De manhã você está alegre, de tarde irritado, de noite triste. Humores, emoções, sentimentos mudam; pensamentos mudam. A roda gira perpetuamente em torno de você como um ciclone. O mundo dos fenômenos é o ciclone, nunca o mesmo, sequer por dois momentos consecutivos.

Entretanto alguma coisa é sempre a mesma, inalterável: a testemunha. Descobri-la é descobrir o Divino. Por isso, os Upanishads não ensinam nenhum culto, ensinam a meditação. Esta pode ser praticada em qualquer lugar porque o objetivo é descobrir a testemunha. Num mosteiro, o mesmo método deverá ser aplicado; e numa montanha também. Você poderá estar em casa, com a família, ou no supermercado - método é um só.

No mundo, na verdade, é mais fácil perceber a mudança. No deserto é mais difícil, porque ali nada parece se alterar; as mudanças ocorrem de maneira tão sutil que é quase impossível notá-las. Mas no mercado ou na rua, podemos perceber a mudança a todo instante; o trânsito flui, jamais se detém. Viver num mosteiro é viver num mundo estático, num mundo sonolento. É viver como uma rã numa lagoa, num poço fechado. No oceano, percebe-se melhor as mudanças.

É bom estar no mundo; eis a mensagem dos Upanishads. Os videntes upanishádicos não eram ascetas. Sem dúvida renunciavam a muita coisas, mas essa renúncia não lhes custava nenhum esforço; provinha do conhecimento, da meditação. Eles renunciavam ao ego porque sabiam que o ego é um produto fabricado pela mente. Não possui realidade nem substância; não passa de sombras e perder tempo com ele é uma estupidez. Renunciar, aqui não é bem o termo; melhor diríamos que, dado o grau desses videntes, o ego definhava por si mesmo.

Eles se tornavam não possessivos. Isso não quer dizer que não possuíam coisas, e sim que não se apegavam a elas. Usavam-nas. Não eram mendigos. Viviam alegremente, gozando tudo o que lhes fosse acessível, mas não se agarravam a nada. Esta é a verdadeira renúncia: viver no mundo e ainda assim não ter apego algum. Amavam, mas não eram ciumentos. Amavam plenamente, mas sem egoísmo, sem querer dominar o outro.

É isso que estou tentando fazer aqui. (...) Nos Upanishads encontrarão seu próprio coração, eles rejubilarão nos Upanishads, por que os Upanishads ensinam a Totalidade." 

Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

25 de março de 2017

Sobre a lei da atração - Eckhart Tolle


"Quem nós pensamos que somos está intimamente ligado a como nos consideramos tratados pelos outros.

Muitas pessoas se queixam de que não recebem um tratamento bom o bastante. “Não me tratam com respeito, atenção, reconhecimento, consideração. Tratam-me como se eu não tivesse valor”, elas dizem.

Quando o tratamento é bondoso, elas suspeitam de motivos ocultos. “Os outros querem me manipular, levar vantagem sobre mim. Ninguém me ama.”

Quem elas pensam que são é isto: “Sou um pequeno eu’ carente cujas necessidades não estão sendo satisfeitas.”

Esse erro básico de percepção de quem elas são cria um distúrbio em todos os seus relacionamentos. Esses indivíduos acreditam que não têm nada a dar e que o mundo ou os outros estão ocultando delas aquilo de que precisam.

Toda a sua realidade se baseia num sentido ilusório de quem elas são. Isso sabota situações, prejudica todos os relacionamentos. Se o pensamento de falta – seja de dinheiro, reconhecimento ou amor – se tornou parte de quem pensamos que somos, sempre experimentaremos a falta.

Em vez de reconhecermos o que já há de bom na nossa vida, tudo o que vemos é carência.

Detectarmos o que existe de positivo na nossa vida é a base de toda a abundância. O fato é o seguinte: seja o que for que nós pensemos que o mundo está nos tirando é isso que estamos tirando do mundo. Agimos assim porque no fundo acreditamos que somos pequenos e que não temos nada a dar.

Se esse for o seu caso, experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pense que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção, etc. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber.

Ninguém pode ganhar o que não dá. O fluxo de entrada determina o fluxo de saída. Seja o que for que você acredite que o mundo não está lhe concedendo você já possui. Contudo, a menos que permita que isso flua para fora de você, nem mesmo saberá que tem. Isso inclui a abundância.

A lei segundo a qual o fluxo de saída determina o fluxo de entrada é expressa por Jesus nesta imagem marcante: “Dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada, sacudida e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.”

A fonte de toda a abundância não está fora de você. Ela é parte de quem você é.

Entretanto, comece por admitir e reconhecê-la exteriormente. Veja a plenitude da vida ao seu redor. O calor do sol sobre sua pele, a exibição de flores magníficas num quiosque de plantas, o sabor de uma fruta suculenta, a sensação no corpo de toda a força da chuva que cai do céu.

A plenitude da vida está presente a cada passo. Seu reconhecimento desperta a abundância interior adormecida. Então permita que ela flua para fora. Só fato de você sorrir para um estranho já promove uma mínima saída de energia. Você se torna um doador. Pergunte-se com frequência: “O que posso dar neste caso? Como posso prestar um serviço a esta pessoa nesta situação?”

Você não precisa ser dono de nada para perceber que tem abundância. Porém, se sentir com frequência que a possui, é quase certo que as coisas comecem a acontecer na sua vida. Ela só chega para aqueles que já a têm.

Parece um tanto injusto, mas é claro que não é. É uma lei universal. Tanto a fartura quanto a escassez são estados interiores que se manifestam como nossa realidade. Jesus fala sobre isso da seguinte maneira: “Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que não tem

Eckhart Tolle em Praticando o Poder do Agora

18 de março de 2017

O sentido espiritual de um relacionamento amoroso - Prem Baba


O sentido espiritual de um relacionamento amoroso, tirando todo o romantismo, é ser um material de escola que te ensina a amar, a ser livre e a deixar o outro livre. Quando eu digo “ensinar a amar”, uso uma figura de linguagem, porque não é possível aprender a amar – o amor já existe, ele é a fragrância do ser. Mas a relação afetiva gera uma fricção que possibilita remover obstáculos que te impedem de amar. Esse é um assunto bastante delicado e as chances de eu ser mal compreendido são tremendas, mas vamos tentar.

Existem certas lições que você só pode aprender com suas relações amorosas, porque elas são catalizadoras de todas as suas feridas, de tudo aquilo que não está integrado dentro da sua constelação familiar. Todo seu passado é reeditado na relação amorosa para que você tenha a chance de integrá-lo, de curar essas relações familiares que ainda estão, de alguma forma, infringindo dor no seu sistema.

Embora o relacionamento amoroso seja um poderoso instrumento de aprendizado e de cura, ele pode também te levar a um sono. Nesse sentindo, você pode estar apenas repetindo determinados padrões destrutivos (apegos, disputas, projeções, medos) e andando em círculos, deixando de se expandir e crescer. Há que se ter discernimento e sabedoria para identificar quando isso ocorre.

O objetivo maior de um relacionamento amoroso é sustentar o êxtase. É sustentar a conexão da energia sexual com o coração aberto: o encontro de duas correntes positivas, dois sins. Esse encontro aponta a direção da suprema liberdade e só é possível se existir amor e liberdade.

Portanto, isso que eu tenho chamado de novo casamento, não costuma chegar cedo na vida, porque requer certa maturidade, uma compreensão e inclinação para deixar o outro livre – livre inclusive para não te amar se ele não quiser. Essa é a prova final dessa iniciação chamada relacionamento amoroso.

Eu o vejo como uma iniciação espiritual. Você só completa esse ciclo iniciático quando supera a carência afetiva, ou seja, quando se liberta da insegurança, do ciúme e da possessividade. Só assim você consegue de fato, ser livre e deixar o outro livre. Por sua vez, podemos entender a relação amorosa como o próprio remédio para a carência. Dependendo da sua carência, você precisa ficar um tempo X dentro de uma relação ou às vezes precisa ficar sozinho. Não tem uma receita. Isso tem que ser sentido por você – o que você está precisando no momento.

Às vezes você não consegue perceber porque está cego pela própria carência. Por exemplo, você pode estar precisando ficar um tempo sozinho, mas sua carência ainda está tão grande que você não quer sequer parar para pensar se a relação em que você está tem te feito crescer ou se dentro dela, você está apenas andando em círculos, machucando e sendo machucado.

Quando a relação se torna eminentemente destrutiva, sem chances para crescer no amor, na liberdade e no perdão, você tem que ter a coragem de tirar umas férias. Tem que ter coragem de olhar de frente para isso e explorar o medo que talvez você tenha de ficar sozinho. Eu não estou incentivando a separação! Eu estou incentivando você a encarar a verdade; a ser honesto com você e com o outro.

Muitas vezes, você mantém seu relacionamento para poder ter onde projetar suas ilusões. O outro é uma tela em que você projeta seus sonhos e quando ele quer deixar de ser essa tela ou quando você sente que não está mais conseguindo projetar seu sonho nessa tela, você acaba com o relacionamento. Mas você fica ansiosamente aguardando o momento de encontrar outra tela para continuar projetando o seu sonho. Outras vezes, você mantém o seu sonho fazendo do outro um escravo para atender os seus caprichos. Você força o outro a te amar, porque acreditou que se ele fizer do seu jeito, ele te ama. Não se engane: isso significa aprisionar o outro.

Vou te passar uma lição de casa. Se você está com alguém, comece a se perguntar: por que estou nessa relação? O que me mantém aqui? Não tenha medo de ser honesto consigo mesmo. É só a mentira que cai, a verdade nunca cai. Se o que te mantém nessa relação é o amor a Deus e à liberdade é porque você está se expandindo na luz; está crescendo dentro do programa estabelecido pela sua alma. Se for assim, zele por essa relação, firmeza no amor, no perdão, na liberdade e siga em frente. Mas se você está na relação por outras razões, tenha coragem para olhar o que te mantém aí. 
Dê essa passo a seu favor. Estou querendo que você rompa com a mentira e siga se expandindo."
Sri Prem Baba em Satsang

11 de março de 2017

Meditação da Expansão - Pedro Kupfer


"Procuro uma posição de conforto para permanecer em atitude relaxada, entendendo que o relaxamento não é algo que eu possa ou deva fazer. Posso fazer coisas desde o relaxamento, mas o relaxamento não é fazer coisas, nem deixar de fazer.

Observo então que o corpo assume naturalmente a posição vertical, sem esforço, e permanece descontraído na firmeza natural do āsana. Vejo que essa mesma atitude se estende à tranquilidade no meu coração e aos conteúdos da paisagem mental. Por um momento paro e observo a quietude do corpomente.

Logo, permito que a respiração flua sem nenhuma interferência; sem esforço, sem nenhum tipo de comando ou esforço da mente. Ao mesmo tempo, percebo o respirar e permito que a atenção se centre na expansão e no recolhimento da respiração natural. Consciência total na respiração; consciência total na fluidez da expansão e o recolhimento do prāṇa, a força vital.

Assim, passo para a prática chamada viśvarūpa dhyāna, antiga meditação que e aparece na Taittirīya Upaniṣad. Nesta contemplação, mantendo os olhos fechados, observo meu corpomente dentro do espaço desta sala. Logo, visualizo a sala na cidade: tomo consciência da dimensão da sala em relação ao tamanho da cidade. E também tomo consciência da dimensão do meu corpo em relação ao tamanho da cidade.

Tomo consciência do tamanho da cidade em relação ao país, tomo consciência do tamanho do país em relação ao continente. Observando desde o corpomente, percebo a dimensão do continente, com todas as montanhas, os rios, as planícies, contendo tudo o que o ser humano fez ao longo da história e tudo aquilo que é objeto criado pela natureza.

Tomo consciência dos dois lados do continente, banhado pelos dois oceanos que são muito maiores que a própria terra. Visualizo agora o planeta inteiro, abrangendo os outros continentes e o terceiro oceano, que não banha esta terra onde estou agora. E lembro que as águas dos três oceanos se misturam, são em verdade uma só. Observo.

Lembro que este planeta é pequeno em relação ao sistema solar. Também penso que o sistema solar, com todos seus planetas, asteróides e estrelas, é imenso em relação ao meu corpomente, e ao mesmo tempo muito pequeno se comparado ao tamanho da Via Láctea.

E que esta galáxia onde está meu planeta, por sua vez, é infinitesimalmente pequena em relação ao conjunto das galáxias vizinhas que, por sua vez, somadas, são insignificantes diante do tamanho do universo inteiro. Então agora olho de volta para o meu corpo na sala, tomando consciência da dimensão da criação total, do universo inteiro. Quiçá com algum direito, possa surgir em mim um sentimento de insignificância.

Porém, ao perceber a dimensão real do universo, vejo quão pequenos são os meus problemas, quão pequenas são as coisas que ocupam meu pensamento no cotidiano. Isso, por sua vez, me ajuda a relativizar esses problemas e enxergá-los apenas como o que são: situações tópicas inerentes aos papéis que represento na vida.

Lembro que viśvarūpa, o nome que se dá a essa prática, significa a forma da própria totalidade, a forma do todo. Todas as formas, portanto, estão incluídas na forma única que é o Todo. Cada forma, existe perfeitamente integrada no ambiente com as formas contíguas: o átomo integrado na molécula a molécula na célula, a célula no tecido, o tecido no órgão, o órgão no organismo, o organismo no ambiente, o ambiente no Todo.

E esta consciência que sou, observa, apreciando esse Todo e cada componente dele. Recordo que essa inteligência ativa, chamada Īśvara, está presente em tudo e todos. Observo desde a perspectiva da individualidade que sou, na forma dessa consciência que observa, que não está separada e que não é diferente desse Todo.

Assim, olho para as coisas do meu cotidiano agora, aquelas pequenas coisas que preenchem o meu dia a dia, minhas preocupações, minhas obrigações, e penso: qual é o tamanho dessas situações que vivo, comparadas com o tamanho do universo?

Quando compreendo que sou a consciência que já estava desde antes da mente e do desejo, que permanece durante e que fica depois, que estava desde antes do corpo, que está no corpo agora, e que permanece depois, que estava antes do prāṇa, que está na vitalidade agora, e que fica depois, aquilo que chamo de minhas preocupações se reduz até a insignificância.

Assim, relativizo as coisas do ego, permaneço em paz, e posso estender essa atitude relaxada e focada para todas as experiências para todos os momentos dentro dessa vida que eu tenho agora.

Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ. Que haja paz em cada um, que haja paz no ambiente, que haja paz entre nós."

Pedro Kupfer em Meditação da Expansão

4 de março de 2017

Apenas um convite - Osho


"Pergunta: Osho, você pode dizer quem é você?


Sou um convite para todos aqueles que estão procurando, buscando e têm um grande anseio em seus corações para encontrar os seus lares.

Sou uma resposta para a pergunta que todos têm, mas que não podem formular, uma pergunta que é mais uma busca do que uma questão, mais uma sede do que uma indagação verbal e mental. Uma sede que a pessoa sente em cada célula e fibra de seu ser, mas que não tem como trazê-la às palavras e perguntá-la.

Sou uma resposta para essa pergunta que você não pode formular e que não pode esperar que ela possa ser respondida.

Quando digo que sou a resposta, não quero dizer que possa-lhe dar a resposta. Sim, se você estiver pronto, você pode pegá-la. Sou como um poço, pronto para que você atire o seu balde e tire água por você mesmo.

Tenho, mas não posso alcançar você sem os seus esforços.

Somente você pode me alcançar. Este é um convite estranho; ele o levará a uma longa peregrinação, e terminará somente onde você já está.

Você precisará dar muitos passos, em muitos caminhos, simplesmente para chegar a você mesmo, pois você se distanciou de você mesmo e se esqueceu completamente do caminho de volta. Sou um lembrete, uma lembrança do lar perdido.

Não existo como uma pessoa; como uma pessoa eu simplesmente aparento. Eu existo como uma presença. Desde o dia em que vim a conhecer a mim mesmo, a pessoa desapareceu; existe somente uma presença, uma presença muito viva que pode saciar a sua sede, que pode preencher o seu anseio.

Portanto, em uma palavra posso dizer que sou um convite, e é claro, apenas para aqueles que têm um profundo anseio em seus corações, que estão sentindo falta deles mesmos, uma profunda urgência, que a menos que encontrem a si mesmos, tudo o mais não tem sentido.

A menos que isso seja o seu interesse prioritário e supremo, a ponto de, se necessário, você estar mesmo disposto a perder tudo por isso, mas não pode abandoná-lo...

Existem milhares de desejos, mas no que se refere a anseio, há apenas um, o de voltar para casa, de encontrar sua realidade. E nesse próprio encontrar, você encontra tudo o que tem algum valor: bem-aventurança, verdade, êxtase.

Jesus costumava dizer: “Se você tem olhos para ver, veja; se tem ouvidos para ouvir, ouça.” É claro que ele não estava falando para os cegos e os surdos; ele estava falando para pessoas como você, talvez ele estivesse falando exatamente para você, pois você não é novo.

Você é tão antigo quanto toda a existência; você sempre esteve aqui.

Você pode ter encontrado muitos mestres, pode ter chegado perto de muitos budas, mas você estava muito envolvido em trivialidades e não estava ciente de seu anseio.

Sou um esforço para provocar o dormente em você, para despertar o que dorme. O fogo está presente, mas está queimando muito baixo, pois você nunca cuidou dele.

Meu convite é para tornar você chamejante, e a menos que você conheça uma vida que seja luminosa e chamejante, todo o seu conhecimento é apenas uma trapaça. Você está juntando-o para ajudá-lo a se esquecer de que o conhecimento real está faltando.

Mas não importa quão grande seja o seu acúmulo do outro, do objetivo, do mundo, isso não vai se tornar um substituto do seu autoconhecimento. Com o autoconhecimento, de repente desaparecem toda a escuridão e a separação em relação à existência.

Sou um convite para você dar um corajoso salto no oceano da vida. Perca-se, pois esta é a única maneira de encontrar a si mesmo."
Osho em The Invitation

25 de fevereiro de 2017

Sobre o arrependimento - Osho


"Seja o que for que você compreenda sobre arrependimento é absolutamente falso. Tente compreender. Quando você se arrepende, você de fato não se arrepende. Quando você se arrepende, você de fato está tentando reparar a imagem. Isso não é arrependimento: é reparação da imagem quebrada, a que você tem de si mesmo.

Por exemplo, você tem tido raiva e tem dito muitas coisas. Mais tarde, quando a raiva se foi, a loucura se foi, você se acalma e olha pra trás. Agora há um problema. O problema é que você sempre se achou um homem muito pacífico, um homem da paz e do amor; sempre imaginou que você não é raivoso. Agora, essa imagem quebrou-se. Seu ego está espatifado: agora você sabe, que seja o que for que você esteve acreditando, provou-se errado. Você tem estado com raiva, você tem estado muito raivoso, e você tem dito coisas que são contra o seu ego. Você despedaçou sua própria auto-imagem. Agora você tem de consertá-la. O único meio de se consertar isso é arrependendo-se. Você vai e se arrepende, você diz coisas boas.

Você diz: “Aconteceu a despeito de mim. Eu jamais quis que fosse assim. Eu estava louco: não estava nos meus sentidos. A raiva me assomou de tal jeito que fiquei quase inconsciente; assim, o que quer que eu tenha dito, perdoe-me, eu nunca quis dizer aquilo. Posso ter dito aquilo, mas nunca quis dizer aquilo.”

O que você está fazendo? Arrependendo-se? Você está simplesmente fazendo um reparo. Você relaxa: quando alguém pede para ser perdoado, tem de ser perdoado. Se o outro não perdoar, então, ele não é um homem bom. O outro estava com raiva sobre a sua raiva, ele estava pensando em se vingar, mas agora você foi pedir perdão. Se ele não perdoar, então, ele não será capaz de se perdoar. Então, é a imagem dele que será quebrada.
E este é o truque que você está usando. Agora, se ele não o perdoar, você é o bom sujeito e ele é o sujeito mau. Agora tudo foi jogado em cima dele.

Este é um truque, um truque bem dissimulado. Se ele não o perdoar, ele é mau. Então, você fica à vontade, sua imagem foi consertada: você jogou toda a culpa nele. Agora, ele se sentirá culpado se não perdoar, pois um homem bom tem de perdoar. Se ele perdoar, é bom para você; se ele não perdoar, então também isso é bom para você. Agora é uma questão para ele decidir.
Isto não é arrependimento."


Osho em Além da Psicologia

18 de fevereiro de 2017

A arte de comer - Thich Nhat Hahn


"Para cultivar a atenção plena, podemos fazer o mesmo de sempre ( caminhar, sentar, trabalhar, comer...) com percepção consciente do que estamos fazendo. Ao comer sabemos que estamos comendo. Ao abrir uma porta, sabemos que estamos abrindo uma porta.

Nossa mente está conectada às nossas ações. Quando comemos uma fruta, tudo o que precisamos é atenção plena para nos darmos conta disto: " Estou com uma maçã na boca." Nossa mente não precisa estar em nenhum outro lugar. Se você está pensando no trabalho enquanto mastiga, não estará comendo com atenção plena.
Ao prestar atenção na maçã, estará sendo consciente.

Então, você pode ir mais fundo e, em pouquíssimo tempo, você verá as sementes da maçã, o lindo pomar, o céu, o fazendeiro, o responsável pela colheita e assim por diante. Quanto trabalho em uma única maçã!

Com apenas um pouquinho de consciência plena, você poderá enxergar verdadeiramente de onde vem o pão que come. Ele não vem do nada. O pão vem dos campos de trigo, do trabalho duro e também do padeiro, do fornecedor e do vendedor. No entanto, o pão é mais do que isso. O campo de trigo precisa de nuvens e luz do sol. Portanto, num pedaço de pão, há luz do sol, nuvens, o trabalho do agricultor, a felicidade de se ter a farinha, a habilidade do padeiro 
e ( milagrosamente! ) o pão. O universo inteiro se alinhou para que esse pedaço de pão parasse em suas mãos. E não é necessário refletir muito para se chegar a essa conclusão. Você deve apenas impedir que sua mente se perca em preocupações pensamentos e planejamentos.

Na vida moderna, tendemos a pensar que somos donos do nosso corpo, que podemos fazer o que  quisermos com ele. No entanto, nosso corpo não é apenas nosso. Ele pertence aos nossos ancestrais, aos nossos pais e às gerações futuras. E também pertence à sociedade e a todos os demais seres vivos. As árvores, as nuvens, o solo e todos os seres vivos contribuíram para a presença do nosso corpo. Devemos comer com cuidado, sabendo que somos cuidadores do nosso corpo, em vez de seus donos.

Quando comemos, normalmente pensamos. No entanto, podemos desfrutar muito mais se tentarmos não pensar enquanto comemos, Podemos estar atentos apenas à comida. Algumas vezes, comemos sem estar atentos a esse fato. Nossa mente não está focada. E quando nossa mente não está focada, nós olhamos, mas não vemos. Ouvimos, mas não escutamos. Comemos, mas não percebemos o sabor da comida. Mergulhamos em um estado de esquecimento, a falta de consciência plena. Para estarmos verdadeiramente presentes, devemos parar de pensar. Eis o segredo do sucesso.(...)

Podemos pisar no freio da mente, e verdadeiramente desfrutar da nossa comida. Fazendo isso, nossa vida ganhará uma boa dose de qualidade. Eu adoro me sentar e comer em silêncio, desfrutando de cada mordida, atento à presença de quem me rodeia, atento ao trabalho duro e amoroso que tornou possível aquela comida.
Quando como dessa maneira, não fico apenas fisicamente nutrido, mas também espiritualmente. A maneira de comer influencia tudo o que faço durante o dia.
Comendo, podemos meditar tão bem quanto sentados ou caminhando. É uma chance de recebermos os vários presentes da Terra, tudo o que não seríamos capazes de desfrutar se nossa mente estivesse em outro lugar, Eis um verso que gosto de recitar enquanto como:


Nas dimensões do espaço e do tempo,
Mastigamos em ritmo, assim como respiramos.
Mantendo as vidas de todos os nossos ancestrais,
Abrimos um caminho ascendente aos nossos descendentes.

Podemos empregar o tempo de comer para nos nutrirmos com o melhor de nossos pais, transmitindo os valores mais preciosos às futuras gerações. (...)

Preste atenção a cada garfada. Ao levar o garfo à boca, esteja atento ao fato de que a comida é um presente de todo o Universo. A Terra e o céu colaboraram para levar essa garfada à sua boca. Enquanto respira, tudo o que você precisa é de um segundo ou dois para se dar conta disso. Comemos de uma maneira que cada pedacinho de comida, que cada momento em que nos alimentamos tenha atenção plena. Com apenas alguns segundos, vemos que a comida em nosso garfo é um presente de todo o Universo.
Enquanto mastigamos, mantemos essa consciência viva. Quando mastigamos, sabemos que o Universo inteiro está presente naquele pedaço de comida.(...)

Não precisamos comer muito para nos sentirmos nutridos. Quando estamos presentes e vivos frente a cada pedaço de comida, cada mordida nos enche de paz e felicidade. Repletos dessa alegria podemos descobrir que nos sentimos naturalmente satisfeitos com menos comida.

Quando preparamos uma refeição com total consciência, tudo fica delicioso e saudável. Quando preparamos a comida com consciência plena, amor e cuidado, todos comerão do nosso amor. As pessoas são capazes de desfrutar a refeição com seus corpos e mentes, da maneira que são capazes de desfrutar de uma linda obra de arte. 
Comer não é nutritivo somente para o corpo, mas também para a mente e o espírito.

A cozinha pode ser um espaço de meditação quando praticamos a consciência ao cozinhar e ordenar esse espaço. Podemos decidir executar nossas tarefas de maneira relaxada e serena, seguindo nossa respiração e mantendo a concentração no que estamos fazendo. Trabalhando com outras pessoas, podemos trocar algumas palavrinhas, mas apenas sobre o trabalho que está sendo feito. 
Reserve um bom tempo para cozinhar. Não tenha pressa. Sabendo que nossos corpos e os corpos das pessoas que amamos, dependem da comida que estamos preparando. cozinhamos alimentos saudáveis com infusões de nosso amor e de nossa consciência plena.

Thich Nhat Hahn  em A arte de comer
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