9 de setembro de 2017

Sobre a preguiça - Pema Chödrön


"Tradicionalmente, a preguiça é ensinada como sendo um dos obstáculos para a iluminação. Existem diferentes tipos de preguiça. 

Primeiro, existe a preguiça da busca pelo conforto, onde apenas tentamos nos manter confortáveis e aconchegados. 

Existe a preguiça da perda do coração, um tipo de desânimo profundo, um sentimento de desistir de nós mesmos, de desesperança. 

E também existe a preguiça do “não poderia me importar menos”. Quando nos endurecemos em resignação e amargura e simplesmente nos fechamos.

A busca pelo conforto vem numa variedade de formas. 

Sogyal Rinpoche escreve que no Oriente, por exemplo, a preguiça frequentemente se manifesta como tomar sol com amigos próximos, beber chá e deixar os dias passarem. No Ocidente, ele observa, a preguiça frequentemente se manifesta como velocidade. As pessoas se precipitam de uma coisa à outra, da academia para o escritório para o bar para as montanhas para a aula de meditação para a pia da cozinha, o jardim, o clube. Nos apressamos em procurar, procurar, procurar conforto e bem-estar.

“Nós tocamos o ponto central deste momento de ser e então deixamos ir. É assim que treinamos. Vez após vez, esta é a nossa prática.”

Se deitamos ou corremos, e seja qual for o lugar do planeta em que estejamos, a preguiça pela busca de conforto é caracterizada por uma ignorância profunda. Nós buscamos o esquecimento: uma vida que não machuque, um abrigo contra as dificuldades, dúvidas e preocupações. Queremos um tempo de sermos nós mesmos, um tempo dessa vida que por acaso é a nossa. Então, através da preguiça buscamos amplidão e alívio; mas encontrar o que buscamos é como tomar água salgada, porque nossa sede por conforto e bem-estar nunca é satisfeita.

A preguiça da perda do coração é caracterizada pela vulnerabilidade, por feridas e por não saber o que fazer. Nós apenas tentamos ser nós mesmos e não conseguimos corresponder às expectativas. O jeito que somos não está ok. Nós perseguimos prazer e não encontramos felicidade duradoura. Nós tiramos um tempo, saímos de férias, aprendemos a meditar, estudamos ensinamentos espirituais, ou gastamos anos dedicados a certas visões políticas ou filosóficas. Ajudamos aos pobres, salvamos as árvores, bebemos, ingerimos drogas, e não encontramos satisfação. Tentamos e falhamos. Chegamos num lugar doloroso, sem esperança. Nós nem queremos nos mexer. 

Sentimos que, com sorte, poderíamos dormir por centenas de anos. Nossa vida parece sem sentido. 
A perda do coração é tão dolorosa que ficamos paralisados.

O “não poderia me importar menos” é mais difícil, mais gelado, fatalista. Esse sabor particular de preguiça tem uma ponta de cinismo e amargura. Sentimos que já não estamos nem aí. Nos sentimos preguiçosos e desprezíveis ao mesmo tempo. Nos sentimos desprezíveis frente a este mundo vil e decepcionante, e ante a esta ou aquela pessoa. Na maioria das vezes nos sentimos desprezíveis ante a nós mesmos. Cometemos um erro. Não temos muita certeza qual foi o erro, mas entendemos tudo errado; e agora, que se ferre! Nós tentamos esquecer, da forma que pudermos. Paramos de fazer alguma coisa. De qualquer maneira, sentimos como se não pudéssemos fazer muito, e francamente, não nos importamos. Então, o que fazer?

A premissa de que devemos eliminar nossas falhas parece estar embrenhada na difícil condição humana; como pessoas dignas e adequadas, deveríamos ser capazes de simplesmente saltar por sobre nossas fraquezas. 

Então, talvez a coisa adulta a se fazer seria explodir a preguiça com uma bomba, ou jogá-la no Oceano Atlântico com um peso enorme para que nunca mais volte a aparecer, ou mandá-la para o espaço para que fique flutuando no infinito e nunca mais precisemos nos relacionar com isso novamente.

Mas se nos perguntarmos, “De onde vem a alegria? De onde vem a inspiração?”, vamos descobrir que elas não vêm do ato de nos livrarmos de alguma coisa. Elas não vêm da divisão de nós mesmos em duas partes e da batalha contra a nossa própria energia. Elas não vêm do ato de ver a preguiça como um oponente, ou algo sobre o qual devemos saltar. Elas não vêm do ato de denegrir a nós mesmos.

O caminho da iluminação é um processo. É um processo de aprendizado gradual de nos tornarmos íntimos com os nossos, assim chamados, obstáculos. Então, ao invés de nos sentirmos desanimados pela preguiça, podemos olhar para essa nossa preguiça, nos tornarmos curiosos sobre essa preguiça. Podemos começar a conhecer a preguiça profundamente.

Podemos nos unir à preguiça, ser nossa preguiça, conhecer o seu cheiro e o seu gosto, senti-la em nossos corpos. O caminho espiritual é um processo de relaxar dentro deste momento presente de apenas ser. Nós entramos em contato com este momento de letargia, ou perda do coração, este momento de dor, de recusa, de “não poderia me importar menos”. Nós tocamos isso e então seguimos em frente. Este é o treinamento. Seja na meditação formal ou ao longo dos dias e das noites, podemos treinar soltar nossos comentários e entrar em contato com a qualidade percebida a partir da nossa experiência. Podemos tocar nossa experiência sem ficarmos presos pelas histórias. Podemos tocar este momento presente e então seguir em frente.

Estamos sentados em meditação ou seguindo nossa rotina diária, e começamos a escutar o que estamos dizendo. O que escutamos é: “Puts! Pobre de mim. Sou um fracasso. Não há esperança.”. Olhamos para o que fazemos a nós mesmos, o que dizemos a nós mesmos, como perdemos nosso coração ou tentamos nos distrair. Então deixamos essas palavras irem embora e tocamos a essência deste momento. Tocamos o centro deste momento de apenas ser e então deixamos ir. É assim que treinamos. De novo e de novo, esta é a nossa prática.

Nos juntamos à nossa perda de coração com honestidade e bondade. Ao invés de fugir da dor da preguiça, nós chegamos mais perto. Nós nos inclinamos em direção à onda. Nós nadamos na onda.

Em algum ponto do processo de permanecer no momento presente, pode acontecer que haja vários irmãos e irmãs infelizes lá fora, sofrendo como estamos sofrendo. Ao nos tornarmos íntimos de nossa própria dor, de nossa própria preguiça, estamos em contato com todos eles, entendendo-os, compreendendo nossa similaridade com todos eles.

Estamos sentados em frente à televisão comendo chips, tomando cerveja, fumando cigarros. Hora após hora após hora nós fazemos isso. E então, por alguma razão, nos enxergamos claramente. Temos a escolha de comer o décimo pacote de salgadinho e assistir à décima sexta série seguida, ou nos relacionar com nossa depressão e preguiça de maneira honesta e de coração aberto. Ao invés de continuar a viajar na maionese, a desligar e nos fechar, nós nos inclinamos e relaxamos. É assim que praticamos.

Então talvez abrimos a janela ou saímos para uma caminhada, ou talvez sentamos em silêncio, mas o que quer que façamos, nos ocorre ficar com nós mesmos, ver o que está por detrás das palavras, por detrás da ignorância, e sentir a qualidade deste momento de apenas ser, em nossos corações, em nossos estômagos, por nós mesmos, e por todos as milhões de outras pessoas que estão nesse mesmo barco. 

Começamos a treinar abertura e compaixão frente a este momento. Este momento de preguiça se torna nosso professor particular. 
Este precioso momento se torna nossa prática profunda e curativa."

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