27 de janeiro de 2018

O que é uma emoção negativa? - Eckhart Tolle


"Uma emoção que é tóxica ao corpo e que interfere com o seu equilíbrio e o funcionamento harmonioso. Medo, ansiedade, raiva, rancor, tristeza, ódio ou intensa antipatia, ciúme, inveja – são emoções que interrompem o fluxo de energia através do corpo, afetam o coração, o sistema imunológico, a digestão, a produção dos hormônios e assim por diante.

Até mesmo a medicina tradicional, embora ela saiba ainda muito pouco sobre como o ego opera, está começando a reconhecer a ligação entre os estados emocionais negativos e a doença física.

Uma emoção que faz mal ao corpo também infecta as pessoas com quem você entra em contato e, indiretamente, através de um processo de reação em cadeia, inúmeros outros que você nunca encontra. Há um termo genérico para todas as emoções negativas: infelicidade.

Será que as emoções positivas têm, então, o efeito oposto no corpo físico? Será que elas fortalecem o sistema imunológico, revigoram e curam o corpo? Ela o fazem, na verdade, mas precisamos diferenciar entre as emoções positivas que são geradas pelo ego e as emoções mais profundas que emanam do seu estado natural de conexão com o Ser.

As emoções positivas geradas pelo ego já contêm em si mesmas o seu oposto em que elas podem rapidamente se transformar. Aqui estão alguns exemplos: O que o ego chama de amor é a possessividade e o apego, que pode se transformar em ódio em questão de segundos.

A expectativa sobre um evento futuro, que é a supervalorização do ego sobre o futuro, transforma-se facilmente em seu oposto – decepção ou desânimo – quando o evento termina ou não preenche as expectativas do ego. Louvor e reconhecimento o fazem se sentir vivo e feliz um dia; ser criticado ou ignorado o tornam deprimido e infeliz no seguinte. O prazer de uma grande festa se transforma em frieza e ressaca na manhã seguinte.

Emoções geradas pelo ego são derivadas da identificação da mente com fatores externos que são, é claro, instáveis e sujeitos a alterações a qualquer momento. As emoções mais profundas não são realmente emoções, sob qualquer condição, mas estados do Ser. 
As Emoções existem no reino dos opostos. Os Estados do Ser podem ser obscurecidos, mas eles não têm oposto. 

Eles emanam de dentro de você como o amor, a alegria e a paz, que são aspectos de sua verdadeira natureza."

20 de janeiro de 2018

Ondas mentais e ervas daninhas...


"Por desfrutarmos de todos os aspectos da vida como um desdobramento 
da Grande Mente, não procuramos qualquer alegria excessiva. 
A nossa serenidade é então imperturbável.”

Quando estiveres praticando zazen não tente deter o pensamento. Deixa que ele pare por si mesmo. Se alguma coisa te vier à mente, deixa-a entrar e deixa-a sair. Ela não permanecerá durante muito tempo. Quando tentas parar o pensamento, isso significa que te estás a sentir incomodado por ele. Não te deixes incomodar por coisa nenhuma. Pode parecer que essa coisa vem de fora da tua mente, quando, na verdade, se tratam apenas das ondas da tua mente; e se não te deixares incomodar pelas ondas, elas tornar-se-ão gradualmente mais calmas. Em cinco ou, no máximo, dez minutos, a tua mente estará completamente serena e calma. Nessa altura, a tua respiração tornar-se-á mais lenta e as tuas pulsações acelerarão um pouco.

Poderás demorar ainda algum tempo a conseguir atingir um estado mental calmo e sereno na tua prática. Surgem muitas sensações, afluem muitos pensamentos ou imagens, mas são apenas ondas da tua própria mente. Nada vem de fora da tua mente. Em geral, pensamos que a nossa mente recebe impressões e experiências do exterior, mas isso não é uma compreensão correta da nossa mente. A verdadeira compreensão é que a mente inclui tudo; embora penses que algo surge de fora, isso significa apenas que algo surge na tua mente. Nada exterior a ti próprio te poderá perturbar. És tu próprio que crias as ondas na tua mente. Se deixares a mente como ela é, ela acabará por ficar calma. Esta mente é conhecida por mente grande.

Quando a tua mente está vinculada a algo exterior a si própria, trata-se da tua mente pequena, que é limitada. Se a tua mente não estiver vinculada a nada, deixará de haver percepção dualista na atividade da tua mente. Percepcionas a atividade apenas como ondas da tua mente. 

A mente grande experimenta tudo dentro de si própria. Consegues perceber a diferença entre as duas mentes: a mente que inclui tudo e a mente ligada a alguma coisa particular? Na verdade elas são a mesma coisa; a percepção é que é diferente, e a tua atitude perante a vida será diferente consoante a percepção que tiveres.

Faz parte da essência da mente que tudo nela se encontre incluído. Experienciar isso é ter um sentimento religioso. Ainda que as ondas surjam, a essência da tua mente é pura; é como a água límpida com poucas ondas. Na verdade, a água tem sempre ondas. As ondas são a prática da água. Falar de ondas separadas da água ou de água separada das ondas é uma ilusão. A água e as ondas são uma só coisa. A mente pequena e a mente grande são uma só. Quando compreenderes a tua mente desta maneira, terás alguma segurança nos teus sentimentos. 

Como a tua mente não espera nada vindo do exterior, ela está sempre completa. Uma mente com ondas não é uma mente perturbada, mas antes uma mente ampliada. Tudo o que experimentas é uma expressão da mente grande.

A atividade da mente grande é a ampliação de si mesma através de diversas experiências. De certo modo, as nossas experiências, que surgem uma após outra, são sempre novas e frescas, embora, num outro sentido, não passem de um contínuo e repetitivo desdobramento da mente grande. Por exemplo, se comeres um alimento saboroso ao pequeno-almoço, comentas: “isto é bom.” O “bom” deriva de alguma coisa experimentada há muito tempo, embora não te recordes quando. 


Com a mente grande, aceitamos cada uma das nossas experiências do mesmo modo que reconhecemos como nossa a cara que vemos no espelho. Não temos medo de perder a mente. Não há qualquer lugar para onde ir ou de onde voltar; não existe medo da morte, do sofrimento derivado da velhice ou da doença. Por desfrutarmos de todos os aspectos da vida como um desdobramento da mente grande, não procuramos qualquer alegria excessiva. 

A nossa serenidade é então imperturbável, e é com essa serenidade imperturbável da mente grande que praticamos zazen.

Devias antes sentir-te grato pelas ervas daninhas da tua mente,
pois elas acabarão por enriquecer a tua prática

No zazen puro não devem existir quaisquer ondas na tua mente. Enquanto estás sentado, essas ondas vão-se tornando cada vez mais pequenas e o teu esforço irá transformar-se num sentimento subtil.

Costumamos dizer: "Ao arrancarmos as ervas daninhas alimentamos a planta.” Arrancamos as ervas daninhas e enterramo-las perto da planta para a alimentar. Então, mesmo que tenhas alguma dificuldade na tua prática, mesmo que surjam algumas ondas enquanto estás sentado, essas mesmas ondas irão ajudar-te. Por isso, não devias sentir-te incomodado com a tua mente. Devias antes sentir-te grato pelas ervas daninhas, pois elas acabarão por enriquecer a tua prática. 

Se tiveres alguma experiência do modo como as ervas daninhas da tua mente se transformam em alimento mental, a tua prática registará um progresso notável. 
Sentirás o progresso. 
Sentirás como elas se transformam em alimento para ti próprio. Evidentemente, não é assim tão difícil encontrar alguma interpretação filosófica ou psicológica para a nossa prática, mas isso não chega. Precisamos de experimentar verdadeiramente como as nossas ervas daninhas se transformam em alimento."

Por Shunryu Suzuki em Mente Zen, mente de principiante.

13 de janeiro de 2018

Absoluto e relativo - Pedro Kupfer


"Quando olhamos para a Criação, o que vemos? Formas e mais formas por todos os lados. Coisas e mais coisas, que usando substantivos e qualificamos através de adjetivos. O mundo é palavra e significado. Namarūpaḥ. 

O Universo é uma miríade de nomes e formas. Inteligência manifestada. O Absoluto é a origem, o fundamento; o Relativo é a manifestação, os miríades de nomes e formas.

Na “Canção do Conhecimento do Ilimitado”, Brahmajñānavālī, um linda composição em dezenove estrofes de Śrī Śaṅkarācārya, o incrível professor do século VIII, deu uma definição belíssima dessa peculiar relação entre o Ser e a manifestação:

ब्रह्म सत्यं जगन्मिथ्या जीवो ब्रह्मैव नापरः ।
अनेन वेद्यं सच्छास्त्रमिति वेदान्तडिण्डिमः ॥ २०॥

brahma satyaṁ jaganmithyā jīvo brahmaiva nāparaḥ |
anena vedyaṁ sacchāstramiti vedāntaḍiṇḍimaḥ || 18 ||

"O Ser é Verdade, Satya. O Universo é Relativo, mithyā. 
A crença da separação (jīvaḥ) não é mais que o Ser. 
Aquele através do qual esta Verdade é conhecida é 
o śāstra mais elevado. Assim ruge o Vedānta". || 18 ||


O Absoluto não tem atributos. As palavras que se usam para apontar para o Ilimitado não são o Ilimitado, nem são atributos dele. São apontadores que indicam o Absoluto.

Você pode compreender o Ilimitado através da compreensão do Universo como um atributo circunstancial dele. O Ilimitado é manifestado na forma do Universo, transitoriamente. Existia antes, existe agora, existirá depois.

Antes, sem forma. Agora, nas formas visíveis. As que conhecemos e as que desconhecemos. Depois, sem forma novamente.

O mundo é muito vasto, variado e múltiplo. Toda forma é forma do Ser. O tempo é Brahman. O espaço é Brahman. Jagat, o Universo, como diz o verso de Śaṅkara, não precisa ser medido.

Para nós, basta considerar esse Universo como o que conhecemos dele, desde a nossa experiência humana. Universo, para nós, é aquilo que experienciamos. E viver o que temos para viver, plenos e felizes.

Jagat é o que você é em termos de corpomente, é o que você vê, o que você ouve, o que você cheira, o que você sente e o que você toca. É a suma de todas as suas experiências sensoriais.

Este é o modelo dos cinco sentidos, dos cinco elementos, pañcabhūta: terra, água, fogo, ar e espaço. O espaço traz implícita a presença do tempo. Portanto, tempo e espaço são, perceptualmente, a mesma coisa.

O universo fenomênico inclui, através da presença do espaço, o tempo. E, através da presença do tempo, a do movimento, a da atividade. A pessoa do mundo adora o mundo.

Canta canções para o mundo, para o desfrute. Para o cantor, o mundo é real. Segundo Śaṅkarācārya ensina, Brahman é Satyam; o mundo é mithyā, Brahman é Realidade, o mundo é relativo.

Quando você toca o colar, você toca o ouro. Quando você vê o colar, você vê o ouro. Quando você pesa o colar, você pesa o ouro.

Tente tirar o peso do ouro do colar: quanto vai pesar o colar sem o ouro? A Verdade é simples. E a beleza da Verdade é que ela é o que é.

Quantas coisas há: um colar por um lado e um ouro pelo outro? Você pode escolher um sobre o outro? Só há ouro. O colar é relativo. O ouro é o que é. Ouro é a Realidade. O colar é o atributo circunstancial do ouro.

A pulseira é outro atributo circunstancial do ouro. Nenhuma dessas formas, nenhum desses nomes, colar, pulseira, existe separado do material com o qual os objetos são feitos. Não há colar nem pulseira sem a presença do ouro.

Viva feliz e calmamente, então, pois não há outra possibilidade a não ser a da entrega. É isso."

6 de janeiro de 2018

Estou protegido - Jeff Foster


"Em meu curto espaço de tempo neste planeta, eu conheci o que é uma grande tristeza, eu afundei nas profundezas do imenso desespero, fui lançado no mais fundo da minha própria solidão acreditando que nunca mais voltaria a estar bem.

Eu saboreei os extáticos prazeres da meditação, a feroz intimidade do amor, as selvagens dores da angústia, a emoção do êxito inesperado e a tristeza do fracasso repentino.

Houve momentos em que eu pensei que nunca conseguiria, momentos em que meus sonhos foram destroçados em tal grau, que jamais imaginei que a vida poderia seguir adiante.

No entanto, ela seguiu adiante.

Às vezes, eu encontrei a humildade em meio a devastação, e desde as cinzas dos futuros imaginados, vi nascer novas e evidentes alegrias ... e nenhuma experiência foi em vão.

Eu cheguei a confiar plenamente na vida, e confiei inclusive em momentos nos quais esqueci como confiar, confiei em que a vida nem sempre sai conforme o planejado, porque não há nenhum plano, só vida.

Eu vi inclusive que os momentos de grande incerteza contem uma inteligência suprema, e que às vezes temos que cair para sermos capazes de levantarmo-nos com mais inteireza, com mais bondade.

E, de alguma maneira, eu sempre me senti protegido, de uma forma que eu não posso, nem quero explicar.

Certamente poderei em breve ser esmagado novamente; poderei chegar a experimentar desafios e angústias aparentemente insuperáveis, mas, de alguma maneira, sempre estarei protegido.

De algum modo, sempre estou protegido".

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