30 de setembro de 2012

A Via Negativa...

Me responda então uma dúvida minha: Já que a via da Realização não necessita se "fazer" alguma coisa, porque tantas técnicas, terapias, meditações, satsangs...não compreendo?

Recebi esse questionamento de um amigo, e hoje vou refletir com vocês sobre isso.

A Realização do Ser não necessita de nenhum fazer...já somos aquilo que buscamos. 
Nenhuma busca é realmente necessária. 
O Ser já É, aqui e agora. Luminoso e belo, inteiro e absolutamente presente.

Mas porque ainda não realizamos isso então? Se já Sou porque ainda acredito que Não-sou? Porque ainda me prendo a negatividades, impossibilidades, identificações, memórias, pensamentos, enfim uma infinidade de coisas que "sei" que não tem vida própria, não existem em si mesmos...ainda existem por que a energia que dou a eles é que os fazem persistir?

É aí que as técnicas, terapias e stsangs entram. 
Tudo o que "fazemos" tem apenas um objetivo, abrir espaços internos, desidentificar, libertar a mente aprisionada, identificada, só isso. Tudo o que já foi criado ao longo de milhares de anos pelos mestres do oriente e do ocidente tem apenas esse objetivo, libertar a mente de TODAS as suas identificações. 
Imaginemos uma sala grande espaçosa, mas cheia de coisas, de móveis. Ela pode ser enorme mas fica entulhada, fica apertada, não por ser pequena, mas por estar cheia de coisas. A medida que vamos retirando os móveis, as coisas, o que sobra..é o que já estava desde o início.. o espaço livre, vazio, aberto..só que estava "escondido" porque havia tanta coisa dentro desse espaço que não era possível sequer se perceber o seu real tamanho.

Assim é a mente, puro espaço, aberto, livre, infinito.
Mas enchemos a mente com tantos pensamentos, e vamos nos prendendo a eles, alimentando-os ao longo de décadas, que se tornam moradores permanentes desse espaço. E isso faz com que pareçam fixos, presos, mas na verdade nunca foram. A mente continua sendo espaço vazio, mas a quantidade de pensamentos, sentimentos, memórias que carregamos dentro dela é imensa, e vamos aos poucos "perdendo" de vista a sua natureza original, sua amplidão, sua transparência e simplicidade.

Daí as meditações, as terapias, todos os trabalhos psicoterapêuticos, trabalhos corporais, artes marciais, enfim,...são ferramentas úteis para a retirada dessas identificações, são úteis para a dissolução de tudo o que carregamos dia após dia e acreditamos que somos isso, mas na verdade nunca fomos.

Os pensamentos são objetos que fluem pelo espaço da mente. Nascem e partem. Não tocam o espaço da mente, nada toca na verdade o espaço. O espaço é o que acolhe tudo. Envolve, mas permanece intocável, intocado.
Assim também é o Amor.
O Amor nasce por alguém, por uma coisa, mas vai aos poucos se ampliando mais e mais, a ponto de realizar a nossa própria natureza original, Ser Amor.
O Ser Amor não tem limites, não tem nenhum objeto, nenhum foco, e inclui tudo e todos ao mesmo tempo.
Independe de causa e efeito, já É.
Não busca nenhuma recompensa, a sua própria existência já é a recompensa maior que poderia existir.
O Ser Amor é também puro espaço...aberto...

Por isso que os verdadeiros Mestres sempre trabalharam pela chamada Via Negativa, isto é, não é algo que se acumule, aprenda, é algo que se desvencilha, liberta, retira, dissolve...
Todos os ensinamentos apontam nessa direção de mais e mais consciência onde antes havia inconsciência. Todas as vivências, técnicas, satsangs e trabalhos terapêuticos também.

Quando se retira tudo aquilo que Não É, o que sobra é o Que É. Aquilo que Sempre foi e será...
Veja o falso como falso, e o que é Real se Revela...
Quando o céu está sem nuvens, o que se vê é o puro espaço onipresente...
Amor
Lilian

29 de setembro de 2012

O Despertar da Sensibilidade...

"Começamos, pois, a ver que a mente deve ser vigilante e sensível. 

Estou empregando a palavra "mente" para designar o "intercâmbio" entre cérebro e a coisa que controla o cérebro; pois a mente não consta apenas de nervos e células cerebrais, mas também daquilo que é ao mesmo tempo transcendente e constituído de células - a coisa total. 

A mente que a maioria de nós possui está sobrecarregada de problemas, aos quais todos os dias acrescentamos novos problemas. 

Dessa maneira, todo o nosso ser se torna embotado e perdemos toda a sensibilidade. E quando não somos sensíveis, fazemos esforço. Veja, por favor, o círculo vicioso em que estamos aprisionados.

Assim, pois, a compreensão do desejo é necessária. 
É preciso compreender o desejo e não viver sem desejo. Se mata o desejo, ficais paralisado. 

Se olhas o por do sol à sua frente, esse próprio ato de olhar constitui um deleite, se sois sensível. Isso também é desejo - o deleite. E não podeis ver o por do sol e com ele deleitar-vos, se não sois sensível. 

Se, vendo um homem rico passar em seu luxuoso carro, não podeis deleitar-vos com isso - não porque desejeis um carro igual, mas porque simplesmente vos deleita ver um homem conduzindo um belo carro; ou se, vendo um pobre ente humano, sujo, inculto, desesperado, não sois capaz de infinita piedade, afeição, amor - não sois sensível. 

Como podeis encontrar a realidade, se não tendes essa sensibilidade, esse sentimento?

Assim, para compreender o desejo, é preciso compreender, escutar cada murmúrio da mente e do coração, cada alteração do pensamento e do 
sentimento; é preciso observar o desejo, tornar-se sensível a ele, vivo para ele. 

Não podeis tornar-vos vivo para o desejo, se o condenais ou se o comparais. 

Deveis estar solicitamente atento ao desejo, porque ele vos dará uma compreensão imensa. E dessa compreensão provém a sensibilidade. Sois então sensível, não apenas fisicamente sensível à beleza, à sordidez, às estrelas, ao sorriso ou às lágrimas, mas sensível também à todos os murmúrios, todos os sussurros que vos povoam a mente - vossas secretas 
esperanças e temores.

E desse escutar, desse vigiar, vem a paixão, aquela paixão aliada do amor. 
Só esse estado estado é que pode cooperar. 
E só esse estado que é capaz de cooperar, sabe quando não se deve cooperar. 

Por conseguinte, em virtude dessa profunda compreensão e vigilância, a mente se torna eficiente, lúcida, cheia de vitalidade e de vigor; e só essa mente pode viajar para muito longe."
J. Krishnamurti em O Despertar da Sensibilidade

26 de setembro de 2012

A Existência - Meher Baba

"A Existência é eterna, enquanto que a vida é perecível. 

Comparativamente, a Existência é o que seu corpo é para o homem e a vida é como a roupa que cobre o corpo. 

O mesmo corpo muda de roupa de acordo com as estações, com o tempo e as circunstâncias, da mesma forma que a Existência eterna e una sempre está lá através de todos os inúmeros aspectos variados da vida.

Envolta além do reconhecimento pelo manto da vida com suas dobras e cores variadas está a Existência imutável. É o traje da vida com seus véus - o véu da mente, da energia e das formas grosseiras que "encobrem" e se sobrepõe sobre a Existência, apresentando a Existência eterna, indivisível e imutável como transiente, diversificada e em constante mudança.

A Existência é onipresente e é a essência fundamental que sublinha todas as coisas animadas ou inanimadas, reais ou irreais, variadas em espécie ou uniforme em formas, coletivas ou individuais, abstratas ou substanciais.

Na eternidade da Existência não existe o tempo. Não há passado nem futuro, apenas o presente eterno. Na eternidade nada jamais aconteceu e nada jamais acontecerá. Tudo está acontecendo no interminável 
AGORA.

A Existência é Deus, enquanto que a vida é ilusão.
A Existência é Realidade, enquanto que a vida é imaginação.
A Existência é eterna, enquanto que a vida é efêmera.
A Existência é imutável, enquanto que a vida está sempre mudando.
A Existência é liberdade, enquanto que a vida é um aprisionador.
Existência é indivisível, enquanto que a vida é múltipla.
Existência é imperceptível, enquanto que a vida é enganosa.
A Existência é independente, enquanto que a vida é dependente da mente, da energia e das formas brutas.
A Existência é, enquanto que a vida parece ser.
A Existência, portanto, não é a vida.

O nascimento e a morte não marcam o início ou o fim da vida. Considerando que as diversas fases e estados da vida que constituem os chamados nascimentos e mortes são regidos pelas leis da evolução e da 
reencarnação, a vida vem a existir uma única vez, com o advento dos primeiros raios pálidos da consciência limitada, e sucumbe à morte apenas uma vez ao alcançar a Consciência Plena da Existência Infinita.

A Existência, onisciente, onipotente, Deus onipresente, está além de causa e efeito, além do tempo e do espaço, além de todas as ações.

A Existência toca a tudo, todas as coisas e todas as sombras. Nada jamais pode tocar a Existência. Mesmo o próprio fato de seu ser não tocar a Existência.

Para perceber a Existência é preciso despreender-se da vida. É a vida que dá limitações ao Ser ilimitado. 

A vida do ser limitado é sustentada pela mente que cria impressões, pela energia que alimenta o impulso para acumular e dissipar essas impressões através de expressões, e por formas grosseiras e corpos que funcionam como instrumentos através dos quais essas impressões são gastas, reforçadas e, eventualmente, exauridas através de ações.

A vida está densamente associada às ações. A vida é vivida através de ações. 
A vida é valorizada através de ações. A sobrevivência da vida depende de ações. 
As ações são o que faz a vida ser conhecida - ações opostas em natureza, ações afirmativas e negativas, ações construtivas e destrutivas. 
Portanto, para deixar a vida sucumbir até sua morte definitiva é deixar todas as ações terminarem. 
Quando as ações terminam completamente, a vida do ser limitado espontaneamente experimenta-se como a Existência do Ser ilimitado.

A Existência ao ser realizada (percebida e atingida), a evolução e a involução da consciência estão completas, a ilusão desaparece e a lei da reencarnação não pode mais aprisionar."
Meher Baba em O Propósito da Criação.

25 de setembro de 2012

A alegria dos peixes - Conto Zen

"Chuang Tzu e Hui Tzu atravessavam o rio Hao,
pelo açude.

Disse Chuang: " Veja como os peixes pulam,
e nadam tão livremente;
Isto é a sua felicidade."

Respondeu Hui: " Desde que
você não é um peixe,
como sabe o que torna os peixes
felizes?"

Chuang respondeu:
"Desde que você não é eu,
como é possível que saiba
que eu não sei
o que torna os peixes felizes?

Hui argumentou:
" Se eu não sendo você,
não posso saber o que você sabe,
daí se conclui que
você também não sendo um peixe
não pode saber o que eles sabem."

Disse Chuang:
"Um momento. Vamos retomar a pergunta inicial.
O que você me perguntou foi:
""Como você sabe o que torna os peixes felizes?""
Dos termos dessa pergunta
você sabe evidentemente que eu sei
o que torna os peixes felizes.
Conheço as alegrias dos peixes no rio
através da minha própria alegria,
à medida que vou caminhando
à beira do mesmo rio".
Tomas Merton em A Via de Chiang Tzu

O rio da existência é Um.
Todos aqueles que estão conscientes da vida em fluxo contínuo
reconhecem a felicidade genuína, pois estão imersos na mesma plenitude da natureza; 
a muito "venceram" os desafios da mente fracionária 
e retomaram a beleza de viver em perfeita harmonia com todos os elementos
da natureza.

Neste conto Chuang Tzu nos mostra que a simplicidade é a jóia mais preciosa
pois é fruto da pura compreensão, fruto da verdadeira comunhão.
Afinal,
É muito simples ser feliz.
Mas é muito difícil ser simples...
Amor
Lilian 

23 de setembro de 2012

Inteligência, Criatividade e o Ser...

"Nenhuma pessoa inteligente está interessada em dominar os outros.

Uma pessoa inteligente está interessada em conhecer a si mesma.


Assim, a mais alta qualidade da inteligência vai em direção a mística interna e a mais medíocre vai atrás de poder.

Esse poder pode ser mundano, político, pode ser de dinheiro...pode ser de ter domínio espiritual sobre milhões de pessoas - mas a ânsia básica é domo dominar cada vez mais pessoas.

Essa ânsia surge porque você não se conhece e não quer se conhecer. 
Você tem muito medo de se tornar consciente da ignorância que predomina no próprio centro de seu ser;

Você escapa dessa escuridão através de métodos - desejo por dinheiro, por poder, por respeito, por honra;E um homem que tem trevas dentro de si pode fazer qualquer coisa destrutiva.

A criatividade é impossível numa pessoa assim, porque a criatividade surge a partir da sua consciência, de estar alerta, tendo luz e amor.

A criatividade não está interessada absolutamente em dominar ninguém - para quê?
O outro é o outro. Ninguém quer dominar ninguém, nem quer ser dominado por ninguém. (...)

A liberdade é o próprio sabor de se estar alerta.

A liberdade é o seu florescimento, sua flor de lótus abrindo-se ao sol da manhã. E a menos que isso aconteça, você não pode encontrar contentamento plenitude, nem a paz que se sente, quando se chega em casa.

Todos estão carregando seu lar dentro de si. 
Você não tem de ir a lugar nenhum; tem apenas que parar de ir buscar fora, de modo que você possa permanecer onde está, permanecendo em você mesmo.

Simplesmente seja!
E nesse silencio absoluto de ser, estão escondidos todos os mistérios da existência.

Não busque o lar, porque não existe nenhum.
Busque a você, porque existe um!"
Osho em Pepitas de Ouro

O auto conhecimento por si só, já significa uma profunda inteligência e criatividade em ação.

A mente quando chega ao ponto de não mais se satisfazer com as coisas externas, periféricas da vida, e vê nascer em si mesma, uma curiosidade, uma busca um anseio em saber da sua fonte, da sua origem, eis que nasce aí uma profunda e verdadeira sabedoria.

Nesta busca, todos as tentativas de dominação caem. E nasce um profundo amor e compreensão pela descoberta da igualdade. Vemos emergir um sentimento de pertencer, de família, de casa. Caem as divisões, e passamos a nos relacionar com todos e com tudo com uma incrível e bela inteligência afetiva, e desinteressada. Vemos a vida simplesmente como um grande e deslumbrante mistério a ser vivido momento a momento, e não existe mais nenhum interesse, nem qualquer resquício do que seja poder, ganho, domínio..entramos na dimensão da inteligência pura, instantânea e generosa.

Estamos em casa...
Vivemos em comunhão...
Todos são importantes, são únicos e embelezam mais ainda o grande lar cósmico... que é de todos...e naturalmente inclui a todos ...
Amor
Lilian 

21 de setembro de 2012

A Dissolução do Inconsciente...

"Pergunta: Todos os professores nos aconselham a meditar. Qual é o objetivo da meditação?

Nisargadatta Maharaj: Nós conhecemos o mundo exterior de sensações e ações, mas do nosso mundo interior de pensamentos e sentimentos nós conhecemos muito pouco. O objetivo inicial da meditação é tornar-se consciente e familiarizar-se com a vida interior. O objetivo final é alcançar a fonte de vida e consciência.

Incidentemente, a prática da meditação afeta, profundamente, nosso caráter. Nós somos escravos do que não conhecemos. Daquilo que conhecemos somos 
mestres. Qualquer que seja o vício ou a fraqueza, se os descobrimos dentro de nós e entendemos as suas causas e como funcionam, tornamo-nos capazes de superá-los por conhecê-los bem. 
O inconsciente se dissolve quando trazido à consciência. 
A dissolução do inconsciente libera energia: a mente se sente adequada e se torna quieta, silenciosa.

Pergunta: Para que serve uma mente quieta?

Maharaj: Quando a mente está quieta, nós podemos nos perceber como puros observadores. Nós nos afastamos da experiência e do experimentador e nos mantemos à parte, no estado de pura consciência, a qual está entre e além dos dois. A personalidade, baseada na identificação com o ego e em imaginar que somos alguma coisa: “Eu sou isto, eu sou aquilo”, continua, mas somente como parte do mundo objetivo. A sua identificação com a testemunha se quebra.

Pergunta: Até onde eu sei, vivemos em muitos níveis e a vida em diferentes níveis requer energia. O ego, pela sua natureza se delicia com tudo e sua energia se dispersa. Não é o objetivo da meditação represar a energia em seus níveis superiores ou movimentá-la para baixo e para cima, permitindo que os níveis superiores do ser se desenvolvam?

Maharaj: Isso tem mais a ver com os gunas (qualidades) do que com níveis. A meditação é uma atividade satvicaque se volta para a completa eliminação de tamas,inércia e rajas, a mobilidade ou atividade. Satva puro (harmonia) é a perfeita libertação da indolência e da agitação.

Pergunta: Como fortalecer e purificar Satva?

Maharaj: Satva é pura e forte sempre. É como o sol que pode parecer obscurecido pelas nuvens ou pelo pó, mas somente do ponto de vista do observador. Trabalhe com as causas do obscurecimento, não com o sol.

Pergunta: Para que serve Satva?

Maharaj: Para que serve a verdade, a bondade, a harmonia, a beleza? Essas qualidades são metas em si mesmo. Elas se manifestam, espontaneamente, sem nenhum esforço, quando deixamos as coisas seguirem seu curso, quando 
não interferimos, quando não evitamos, ou desejamos ou conceituamos, mas simplesmente, as experimentamos em total consciência. Essa consciência por si só é Satva. Satva não utiliza coisas e nem é usada pelas pessoas, ela as preenche.

Pergunta: Como eu não posso incrementar satva, devo trabalhar com tamas e rajas somente? Como faço para lidar com elas?


Maharaj: Observando suas influências em você e sobre você. Esteja consciente delas em operação. Observe-as se expressando em seus pensamentos, palavras e atos. 
Gradualmente, a força delas sobre você diminuirá e a clara luz de satva começará a emergir. Isso não é nem difícil nem um longo processo. A seriedade e sinceridade são as únicas condições para o sucesso."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

20 de setembro de 2012

Reflexões - Dalai Lama

"Penso que vocês vieram aqui com alguma expectativa, mas essencialmente eu nada tenho a oferecer-lhes. 

Quero simplesmente tentar compartilhar algumas de minhas próprias experiências e meus pontos de vista. 

Cuidar do planeta não é algo especial, algo sagrado, ou algo santo. É como cuidar de nossa própria casa. Não temos outro planeta ou casa a não ser este. Embora haja tantas perturbações e problemas, a nossa única alternativa é esta. Não podemos ir para outros planetas. Veja a lua, por exemplo, ela parece ou surge belamente à distância, mas se for viver lá, será horrível. E isto que eu penso. Então, o nosso planeta azul é muito melhor e mais feliz. Portanto, precisamos cuidar de nosso próprio canto, ou casa, ou planeta.

Afinal, o ser humano é um animal social. Freqüentemente digo aos meus amigos que eles não precisam estudar filosofia, estes assuntos profissionais complicados. Só de olhar estes animais, insetos, formigas, abelhas, etc. inocentes, eu desenvolvo com freqüência algum tipo de respeito por eles. Como? Porque eles não têm qualquer religião, qualquer constituição, qualquer força policial, nada. Mas vivem em harmonia através da lei natural da existência, ou da lei ou sistema da natureza.

O que há de errados em nós, seres humanos? Nós humanos temos inteligência e sabedoria humana. Penso que freqüentemente usamos a inteligência humana de maneira errada ou na direção errada. Como resultado, de certa forma, estamos fazendo certas ações que essencialmente vão contra a natureza humana básica.

De certo ponto de vista, a religião é, um pouco, um luxo. Se você tiver uma religião, ótimo; até sem religião você pode sobreviver e consegue manejar, mas sem afeto humano não consegue sobreviver.

Embora a raiva e o ódio, como compaixão e amor, sejam parte de nossa mente, eu ainda acredito que a força dominante de nossa mente é a compaixão e o afeto humano. Portanto, normalmente chamo estas qualidades humanas de espiritualidade, não necessariamente no sentido de uma mensagem religiosa ou religião. Ciência e tecnologia junto com afeto humano serão construtivas. Ciência e tecnologia sob o controle do ódio serão destrutivas.

Se praticarmos a religião corretamente, ou com sinceridade, podemos ver que a religião não é algo fora de nós, mas algo que está em nossos corações. A essência de qualquer religião é um bom coração. Às vezes chamo amor e compaixão de religião universal. Esta é minha religião. Uma filosofia complicada, isto ou aquilo, às vezes cria mais transtornos e problemas. Se estas filosofias sofisticadas forem úteis para o desenvolvimento do bom coração, então isto é bom: use-as inteiramente. Se estas filosofias ou sistemas complicados se tornarem um obstáculo para o bom coração, então é melhor deixá-las de lado. É assim que eu sinto.

Se olharmos atentamente para a natureza humana, vemos que o afeto é a chave para o bom coração. Penso que a mãe é um símbolo da compaixão. Todos nós temos uma semente do bom coração. O que importa é se cuidamos ou não de realizar o valor da compaixão."
S.S. Dalai Lama em Reflexões sobre a vida humana

19 de setembro de 2012

Compreendendo a raiva...

Osho porque algumas pessoas sentem raiva?
Elas não ficam com raiva de você, na verdade elas têm medo de você. E para esconder esse medo elas projetam a raiva.

A raiva sempre é uma tentativa de esconder o medo. As pessoas usam todo tipo de estratégia. 
Existem pessoas que riem só para que possam conter as lágrimas. 
Quando ri, você esquece, elas esquecem... e as lágrimas são contidas.

Na raiva, o medo permanece oculto.

Eu estou simplesmente ajudando você a se abrir em todas as dimensões, mesmo que elas pareçam ir contra as ideias que você acalentou até hoje. Mesmo assim, na verdade até mais, você se abrirá, porque essa é a chance, a oportunidade, para julgar se o que você pensou até hoje está certo ou não.

Essa é uma oportunidade de ouro em que você se deparará com algo contrário às suas ideias, aos seus pensamentos, coisas que até hoje achou que eram 
racionais. Mas, se elas são de fato racionais, então que medo é esse?

É o medo que mantém as pessoas fechadas. Elas não conseguem ouvir você — elas têm medo de ouvir. E a raiva delas é, na verdade, o medo ao contrário.

Só uma pessoa com muito medo pode ficar imediatamente zangada. 
Se ela não ficar com raiva, você poderá ver o medo dela. 

A raiva encobre o medo. Ao ficar com raiva, ela está querendo deixar você com medo: antes que você forme qualquer ideia sobre o medo dela, ela está tentando deixar você com medo.

O único jeito é deixar você com medo; aí ela fica à vontade. Você fica com medo e ela não — e não há por que ficar com medo de um homem que está com medo.

A raiva das pessoas é uma tentativa de enganar a si próprias. Não tem nada a ver com você.

Mas a raiva mostra simplesmente o medo, lembre-se sempre: a raiva é o medo de ponta-cabeça. É sempre o medo que está escondido atrás da raiva; o medo é o outro lado da raiva.

Sempre que você fica com medo, o único jeito de escondê-lo é ficar com raiva, pois o medo deixará você exposto. 
A raiva criará uma cortina à sua volta, atrás da qual você pode se esconder.
Osho em Emoções - Liberte-se da Raiva, do Ciúme, da Inveja e do Medo


**
Não briguemos com nenhum sentimento, nenhuma emoção que aconteça a nós. São expressões de vida, são expressões daquele momento que estamos vivendo.

Tudo que nos acontece pertence a uma dimensão maior que nós mesmos, embora não tenhamos consciência disso, acontece dentro de uma infinita e sábia consciência. Por isso, sempre que alguma emoção nos acontecer, observemos, tomemos consciência dela e deixemos fluir de uma maneira sábia, e construtiva.

O medo significa que estamos encolhidos, estamos atualizando algumas memórias inconscientes. O medo é puro instinto de sobrevivência, e merece nossa atenção máxima, a consciência do que ele está nos apontando, do que ele quer nos ensinar. Em geral são aspectos primitivos que vem à tona, e nossa mente racional teima em encobrir, pois mostra aspectos frágeis que "não condizem com nossa posição atual".
O medo é belo, é nossa criança medrosa colocando a cara para fora, e nos mostrando que aquilo ainda precisa ser curado, precisa ser cuidado com atenção e amor.

A raiva, como Osho nos mostra, é uma cobertura de um medo maior que está sob ela. A raiva pode (e deve) ser expressa de muitas maneiras, e que não irão ferir ninguém, machucar ninguém, nem aquele que a sente. 

Vejam como, cantar, dançar, correr, gritar, fazer atividades físicas, as artes marciais, socar almofadas, as meditações ativas do Osho, nadar, enfim...uma infinidade de atitudes podem ser mecanismos ótimos de descarga dessa raiva. Ela é uma energia yang muito poderosa e que quando direcionada de forma construtiva se transforma em uma incrível energia criativa, construtiva e artística.

A arte advém dela, o trabalho braçal também, os grandes atletas, dançarinos, cantores, artistas, enfim.. uma energia criativa imensa e belíssima, e original.

Não devemos reprimir nenhum sentimento, nenhuma emoção.
Todas tem seu lugar e importância. Tenhamos consciência de que, podemos tirar o máximo de ensinamentos de tudo o que nos acontece e temos sim, a capacidade de transmutar tudo em vida, criatividade e beleza.
Reflitam sobre isso...
Amor
Lilian 



18 de setembro de 2012

A Roda do Samsara...

"Pensamos que a mente possa ser o eu, mas a mente está realmente mudando de momento a momento. 

Todo tempo a mente está mudando.

E a mente passada já está extinta, já foi. 
Algo que já foi não pode ser chamado de eu. 
E a mente futura deve ainda surgir. Algo que deve ainda surgir não pode ser o eu. E a mente presente está mudando todo tempo, está mudando a cada 
momento. 

A mente quando éramos bebês e a mente quando somos adultos são muito diferentes. E estas mentes diferentes não ocorrem de imediato. Estão mudando a todo o momento. 
Algo que está mudando constantemente não pode ser o eu. 
Portanto, fora o nome, corpo ou mente, não há nenhuma coisa chamada o eu, mas devido ao longo hábito, nós todos temos uma tendência muito forte para se agarrar a um eu. 

Em vez de ver a verdadeira natureza da mente, nós nos apegamos a um 
eu sem qualquer razão lógica. E enquanto fizermos isso, é como confundir uma corda colorida com uma serpente. 
Até nos darmos conta de que não é uma serpente, mas somente uma corda, temos medo e ansiedade. 

Enquanto nos prendemos a um eu, temos sofrimento. 
Apegar-se a um eu é a raiz de todos os sofrimentos. 
Não conhecendo a realidade, não conhecendo a verdadeira natureza da mente,  e nos apegarmos a um eu. 

Quando você tem um "eu", naturalmente existem os "outros" — o eu e os outros. O "eu e os "outros" são dependentes do "eu". 
Justo como direita e esquerda, se houver uma direita, tem que haver uma esquerda. 

Do mesmo modo, se houver um eu, existem os outros. Quando você tem um eu e outros, então aparece o apego a nosso próprio lado, a nossos amigos e parentes e assim por diante, e surge o ódio aos "outros" de quem você discorda, as pessoas que têm visões diferentes, idéias diferentes. 
Estes três são os venenos principais que nos mantêm nesta rede dos 
ilusões, samsara. 

Basicamente a ignorância de não saber e aderir a um eu, apego ou desejo, e ódio — estes três são os três venenos principais. E destes três, surgem outras impurezas, tais como ciúme, orgulho e assim por diante. E quando você tem estes, você cria ações. E quando você cria ações, é como plantar uma semente em uma terra fértil que no devido tempo renderá resultados. 
Desta maneira criamos constantemente o karma ( ação ) e somos aprisionados nos reinos da existência."
S.S. Sakya Trizin Ngawang Künga 

17 de setembro de 2012

A Falsa Identificação...

"Quando pensamos nesse sentido de "eu", esse sentimento, ou essa inclinação que nos faz afirmar a palavra "eu", percebemos que é difícil apontar o que esse "eu" é, qual é o seu caráter. Pois ele é algo que está além da compreensão humana. 

É por isso que uma pessoa que deseja explicar, mesmo para ela mesma, o que ela é, aponta para o que está mais perto de si declarando: "Esse é quem tenho chamado de 'eu'". Portanto cada alma que, por assim dizer, se identificou com alguma coisa, identificou-se com o corpo, seu próprio corpo, pois é a coisa que a pessoa sente e percebe ser imediatamente próxima a ela, e a qual é inteligível com o próprio ser dela.

Então o que uma pessoa conhece como a primeira coisa é seu corpo. Ela chama a si mesma de seu corpo, ela identifica a si mesma com seu corpo. Por exemplo, se alguém pergunta a uma criança: "cadê o nenê?", ele irá apontar para seu corpo. É isso que ele pode ver ou imaginar de si mesmo.

Isso forma uma concepção na alma. A alma conhece isso profundamente, de maneira que após essa concepção todos os outros objetos, pessoas ou seres, cores ou linhas, são chamados por diferentes nomes, e a alma não concebe eles como sendo ela mesma, pois ela já tem uma concepção de si mesma: este corpo, que ela conheceu ou imaginou primeiro ser ela mesma. Tudo o mais que ela vê, ela vê através de seu veículo que é o corpo, e chama algo próximo a ela, de algo separado e diferente.

Dessa maneira a dualidade na natureza é produzida. Disso surge o "eu e você". Mas como o "eu" é a primeira concepção da alma, ela está totalmente preocupada com esse "eu"; com todo o resto ela está apenas parcialmente preocupada. Todas as outras coisas que existem aparte deste corpo que ela reconheceu como seu próprio ser, são consideradas de acordo com sua relação com este corpo. Essa relação é estabelecida ao chamar elas de "meu" ou "minha", aquilo que está entre "eu" e "você": "Você é 'meu' irmão, ou 'minha' irmã, ou 'meu' amigo". Isso cria um relacionamento, e de acordo com esse relacionamento o outro objeto ou pessoa permanece mais perto ou mais longe da alma.

Todas as outras experiências que a alma tem no mundo físico e nas esferas mentais tornam-se uma espécie de mundo ao redor dela. A alma vive no meio dele, ainda assim a alma em nenhum momento sente com coisa alguma o sentimento de que isso sou "eu". Esse "eu" ela reservou e aprisionou numa única coisa: o corpo. Todas as outras coisas a alma pensa que é algo mais, algo diferente: "Está perto de mim, é querido a mim, está próximo a mim, porque está relacionado. É meu, mas não sou eu". O "eu" permanece como uma entidade separada, segurando, atraindo, coletando tudo que a pessoa obteve e que constitui seu próprio mundo.

Conforme tornamo-nos mais contemplativos na vida, também essa concepção de "eu" fica mais rica. Torna-se mais rica desta maneira, fazendo com que a pessoa veja: "Não é 'meu' apenas o corpo, mas também são 'meus' os pensamentos que tenho; a imaginação é 'minha' imaginação; meus sentimentos também são parte do meu ser. Portanto não sou apenas o meu corpo, sou minha mente também".

No próximo passo que a alma dá no caminho em direção à realização, ela começa a sentir: "Eu não sou apenas um corpo físico, mas também uma mente". Essa realização em seu esplendor faz a pessoa declarar: "Eu sou um espírito", que significa: corpo, mente e sentimento, todos juntos com os quais eu identifico a mim mesma - são esses que constituem o ego.

Quando a alma segue adiante no caminho do conhecimento ela começa a descobrir: "Sim, há algo que sente a si mesmo, que sente a inclinação de chamar a si mesmo de 'eu'". Existe um sentimento de "eu" (I'ness), mas ao mesmo tempo tudo aquilo com o que a alma se identifica não é ela mesma. No dia em que essa ideia brota no coração de um homem ele iniciou sua jornada no caminho da verdade. Então a análise começa, e ele começa a descobrir: "Quando esta é 'minha' mesa e esta é 'minha' cadeira, tudo o que posso chamar de meu pertence a mim, mas não sou eu realmente". Então ele também começa a ver: "Eu identifico-me com este corpo, mas este é o 'meu' corpo, assim como digo 'minha' mesa, ou 'minha' cadeira, portanto o ser que está dizendo 'eu' na realidade está separado. Ele é algo que pegou até mesmo este corpo para seu uso; este corpo é apenas um instrumento". E ele pensa: "Se não é este corpo que eu posso chamar de 'eu', então o que mais posso chamar? É com a minha imaginação que eu deveria me identificar?" Mas até mesmo ela a pessoa chama de "minha" imaginação, "meu" pensamento, ou "meu" sentimento. Portanto, mesmo o pensamento, a imaginação, ou o sentimento não são o "Eu" real. O que afirma "eu" permanece o mesmo, mesmo após ter descoberto a falsa identidade.

Lemos no décimo pensamento Sufi que a perfeição é alcançada através da aniquilação do ego. O falso ego é aquilo que não pertence ao ego real, e aquilo que esse ego erroneamente concebeu ser o seu próprio ser. Quando isso é separado ao se analisar a vida melhor, então o falso ego é aniquilado. A pessoa não precisa morrer para isso. De modo a aniquilar este corpo, aniquilar esta mente, uma pessoa tem que analisar a si mesma e ver: "Aonde fica o 'eu'? Ele fica como um ser remoto, exclusivo? Se ele é um ser remoto e exclusivo então ele deve ser encontrado". Todo o processo espiritual consiste em encontrá-lo.

Uma vez que isso é realizado, o trabalho do caminho espiritual está feito. Da mesma maneira que para que os olhos vejam a si mesmos é necessário fazer um espelho para ver o reflexo dos olhos, também para fazer esse ser real manifestar-se, este corpo e mente foram feitos como um espelho: para que nesse espelho esse ser real possa ver a si mesmo e realizar seu ser independente. O que temos que alcançar através do caminho da iniciação, através do caminho da meditação, através do conhecimento espiritual é realizá-lo ao nos tornarmos um espelho perfeito.

Para explicar essas ideias os faquires e dervixes contaram uma história: Um leão vagando pelo deserto encontrou um filhote de leão brincando com as ovelhas. Aconteceu que aquele leãozinho havia sido criado com as ovelhas, e assim nunca teve a chance ou a oportunidade de realizar o que ele era. O leão ficou muito surpreso de ver o jovem leãozinho fugindo com o mesmo medo do leão que as ovelhas. Ele pulou entre o rebanho das ovelhas e rugiu: "Pare, pare", mas as ovelhas correram, e o leãozinho também. O leão perseguia apenas o leãozinho, não as ovelhas, e disse: "Espere, quero falar com você". O filhote respondeu: "eu tremo, tenho pavor, não posso ficar diante de você". "Por que você está fugindo por ai com as ovelhas? Você é um pequeno leão!". "Não, sou uma ovelha. Eu tremo, e tenho pavor de você. Deixe-me ir. Deixe-me ir com as ovelhas!". "Venha comigo", disse o leão, "venha comigo, Vou te levar e te mostrar o que você é antes de deixar você ir". Tremendo e ainda indefeso, o leãozinho seguiu o leão para um espelho d'água. Lá o leão disse: "Olhe para mim, e olhe para você. Não somos próximos, não somos parecidos? Você não é como as ovelhas, você é como eu".

Por todo o processo espiritual o que aprendemos é a desiludir esse falso ego. A aniquilação desse falso ego é o seu desiludimento. 
Quando uma vez ele é tirado dessa ilusão então o verdadeiro ego realiza seu próprio mérito. 
É nessa realização que a alma entra no reino de Deus. É nessa realização que a alma é nascida novamente, um nascimento que abre as portas do céu."
Hazrat Hinayat Khan em O Ego - A Falsa Identificação

16 de setembro de 2012

Sobre a Solidão - Krishnamurti

"Acho que a maioria de nós sabe o que é solidão.Conhecemos esse estado em que todos os laços de relação foram cortados, em que não há senso do futuro nem do passado, em que prevalece um completo sentimento de isolamento. 

Podeis achar-vos no meio de 
uma multidão, num ônibus superlotado, ou estar sentado ao lado de um amigo, de vosso marido ou esposa, e eis que subitamente vos assalta essa onda, esse sentimento de vácuo, vazio, de um abismo. 
E a reação instintiva é de fugir. 

Assim, tratais de ligar o rádio, de tagarelar, de ingressar em alguma 
associação, ou de pregar Deus, a verdade, o amor etc. Vosso meio de fuga pode ser Deus ou pode ser o cinema; todos os meios de fuga são idênticos. E a reação é de medo a esse sentimento de total isolamento e, por conseguinte, a fuga. 
Conheceis todos os meios de fuga: o nacionalismo, a pátria, os filhos, o nome, a propriedade, — e por todas essas coisas estais disposto a lutar e a morrer.

Ora, se se reconhece que todos os meios de fuga são iguais, e se percebe realmente a significação de um dado meio de fuga, pode-se ainda fugir? Ou não há mais fuga? E, se não estais fugindo, há ainda conflito? Estais-me seguindo? É a fuga ao que é, o esforço para alcançar uma coisa diferente do que é, que cria o conflito. Assim, para que a mente possa transcender esse sentimento de solidão, essa súbita cessação da lembrança de todas as relações, as quais envolvem ciúme, inveja, ânsia de aquisição, esforço para ser virtuoso etc. — primeiro ela tem de enfrentá-lo, passar por ele, de modo que o medo em todas as suas formas definhe até desaparecer de todo. 

Dessa forma, pode a mente perceber, num dado meio de fuga, a futilidade de todas as fugas? Não há então conflito, há? Porque já não há nenhum observador da solidão: há só o experimentar dela. Estais seguindo? 
Essa solidão é o cessar de todas as relações; as idéias já não têm importância; o pensamento perdeu toda a valia. Estou descrevendo as coisas, mas não vos limiteis a ouvir, pois, assim, ao sairdes daqui, levareis somente cinzas. Afinal de contas, estas nossas investigações tem por fim libertar nos de todas estas terríveis complicações, dar-nos na vida algo mais do que apenas conflito, medo, fadigas e tédio.

Onde não existe o medo, está a beleza — não a beleza de que falam os poetas, aquela que os artistas pintam etc., porém coisa bem diferente. E para descobrir a beleza, um homem terá de conhecer esse isolamento completo — ou, melhor, não terá de conhecê-lo, pois ele já existe. Vós fugistes dele, mas ele continua existente e vos segue sempre. Ele lá está, em vosso coração e em vossa mente, nos mais profundos recessos de vosso ser. Vós o encobristes, fugistes dele; mas ele continua existente. E a mente tem de passar por ele, como quem se submete à purificação pelo fogo. 

Ora, pode a mente passar por ele sem reação, sem dizer que é um estado horrível? No momento em que há reação, torna-se existente o conflito. Se vós o aceitais, continuareis debaixo de seu peso; e se o rejeitais, tomareis a encontrá-lo na primeira volta do caminho. A mente, pois, tem de passar por ele. 
Estais-me acompanhando? A mente é então aquela solidão, não precisa de passar por ela; ela é solidão. Quando pensais em termos de “passar por uma coisa” para alcançar outra, já estais em conflito. No momento em que dizeis: “De que maneira devo passar pela solidão, de que maneira devo olhá-la?” — nesse momento já vos achais de novo em conflito.
Existe, pois, vazio, uma solidão extraordinária que nenhum Mestre, nenhum guru ou idéia, nenhuma atividade poderá afastar de vós. Já andastes “mexendo” com essas coisas, já vos entretivestes com todas elas; mas elas não podem preencher esse vazio; ele é um abismo sem fundo. Mas deixa de ser esse “abismo sem fundo” no momento em que o experimentais. 

Compreendeis? Para que a mente possa ficar inteiramente livre de conflito, total e completamente livre de apreensão, medo e ansiedade, torna-se necessário o experimentar desse extraordinário sentimento de não relação com alguma coisa; daí provém o sentimento de solidão. Não imagineis que já o tendes; isso é muito difícil. Só quando temos esse sentimento de solidão em que não há medo é que existe o movimento para o imensurável; porque então não há ilusão, não há fabricante de ilusão, não há o poder de criar a ilusão. Enquanto existe conflito, existe o poder de criar ilusão; e com a total cessação do conflito, o temor deixa de existir completamente, e, portanto, não há mais buscar.

Não sei se compreendestes. Afinal, todos vós estais aqui porque andais a buscar. E se examinardes isso, que é que estais buscando? Estais em busca de algo existente além de todo esse conflito, miséria, sofrimento, agonia, ansiedade. Buscais uma saída. Mas, se se compreende isso de que estivemos falando, cessa então toda a busca — e esse é um extraordinário estado mental.

Como sabeis, a vida é um processo de desafio e reação, não? Temos o desafio exterior: o desafio da guerra, da morte, de dúzias de coisas diferentes, e reagimos. O desafio é novo, mas todas as nossas reações são sempre velhas, condicionadas. Não sei se isto está claro. Para reagir ao desafio, eu preciso reconhecê-lo, não? E se o reconheço, é porque o interpreto em termos do passado; portanto, ele é “o velho”, evidentemente. 
Vede bem isso, por favor, porque desejo ir um pouco mais longe.
Para o homem que vive muito interiormente, os desafios exteriores perderam toda a importância; mas ele continua a ter seus desafios e reações interiores. Porém, eu estou falando a respeito da mente que já não busca, e, portanto, já não tem desafio e reação. E este não é um estado de satisfação, de contentamento, um estado de placidez. Quando compreendemos o significado do desafio e da reação exteriores, e o significado do desafio interior que apresentamos a nós mesmos, e a respectiva reação, e rapidamente passamos por tudo isso — sem levarmos nisso meses e anos — a mente, então, já não está sendo moldada pelo ambiente; já não é influenciável. A mente que passou por essa extraordinária revolução pode enfrentar todo e qualquer problema, sem que nenhum problema deixe marca nem raízes. Desapareceu, então, todo sentimento de medo.

Não sei até que ponto percebestes o que estive explicando. Notai que escutar não significa apenas ouvir; escutar é uma arte. Faz parte do autoconhecimento; e se uma pessoa escutou realmente, e penetrou profundamente em si mesma, isso é a verdadeira purificação."
J.Krishnamurti em O Passo Decisivo 

15 de setembro de 2012

Consciência e Liberdade...

Aquilo que chamamos de liberdade nem sempre é de fato.

Temos a falsa idéia de que liberdade é fuga de algo, sair de alguma situação, ambiente, problema..enfim deixar algo que nos aprisiona, nos oprime e ganhar novos ares, expandir, respirar, sorrir novamente...
Sem dúvida esse é um tipo de liberdade que todos nós já vivemos, não uma, mas muitas vezes, tenho certeza disso.

Mas existe uma dimensão da Liberdade que é mais profunda do que essa.
É a Liberdade NA situação. Dentro daquilo que se vive, no âmago do que está acontecendo. Dentro.
Não é ser livre DISSO, mas ser livre NISSO!
Essa Liberdade não é algo que precise vir a ser, já é. Não é necessário se afastar, sair, fugir, abandonar, partir...nada disso, é preciso apenas se conscientizar dentro do momento que se vive, exatamente onde se está, sem mudar nada, sem fazer qualquer movimento, é uma simples mudança de consciência.

Damos um passo mais fundo, e podemos ver além.

Quando nos deparamos com aquilo que nos oprime, que nos faz mal, é sinal que estamos identificados, estamos "presos" aquela situação e criamos com ela uma espécia de pacto. Diria que é um pacto de dor.
Este pacto de dor pode durar muito tempo, até que tenhamos coragem de fugir dele e mudar - mas como não mudamos interiormente é muito provável que iremos cair em outros, e diferentes, pactos de dor mais a frente- ou então tomamos consciência de uma vez por todas de que nós temos o poder nas nossas mãos e somos na verdade nós mesmos que nos atrelamos a uma situação e depois começamos a sofrer com ela.

Essa tomada de consciência é a base de uma verdadeira transformação.

A dor não tem um fim em si mesma. Ela serve de lição para que aprendamos a ir buscar o amor, a alegria, a felicidade. Aprendemos pelo oposto não é mesmo? É assim que as coisas funcional em geral. Por isso, sempre que fazemos um pacto de dor, estamos na verdade aprendendo mergulhando profundamente naquilo que não é o que queremos para nós, ainda. E quando finalmente aprendemos que tudo na vida é ensinamento, aprendizagem, veremos que cada uma das situações que vivemos estão nos ensinando a finalmente tomarmos consciência da nossa real grandeza e liberdade dentro de cada uma delas, sem distinção.

Como é possível ser livre independente daquilo que se viva? Quando percebemo que nós não somos aquilo que acontece, nós não somos a situação, o problema, nós não nos identificamos mais com aquilo, nós tomamos a posição do centro de nossas vidas, somos o amor que acolhe aquilo que acontece. Não excluímos nada, pelo contrário integramos Tudo, pois temos a consciência de que a vida é Totalidade e que não temos controle sobre nada.
Cada pensamento, evento, situações, emoções nascem e morrem, são passageiras e nós permanecemos observando tudo isso, e tirando lições de tudo isso também.
A vida acontece a nós. Nós não temos nenhum controle sobre a vida e os eventos que ela nos apresenta. Mas podemos tomar consciência de que seja lá o que for será acolhido e tiraremos lições, evoluiremos com o que quer que aconteça.
Essa luz, nos abre a dimensão da Liberdade. Isto é, não estou preso a nada. Permaneço na consciência de que seja o que for não tem nenhum peso sobre mim, pois quem sou eu, consciência , permanece aprendendo com tudo o que acontecer.

A Vida acontece plenamente. Cada evento, situação, tudo e todos são aspectos dessa grande Vida.
Não existe nada que esteja fora, que seja menor, ou maior, tudo pertence e é igualmente importante. São experiências importantes, preciosas que iremos aprender com elas, e crescer através delas.

Centrados na consciência é possível acolher a Vida como ela é. Independente de comparações, julgamentos, analises, as situações são mesmo ensinamentos, para que cada vez mais nos desidentifiquemos delas. Elas acontecem ou não. Elas são boas ou não, não importa, mas nós permanecemos centrados e acolhendo o que vier, com amor e compreensão. Livres.
Acolho porque compreendo que tudo acontece para mim, mas eu não sou aquilo que acontece..Sou aquele que observa tudo o que acontece sem me misturar nem me prender a nada..vivo e deixo passar...
Essa Liberdade que a consciência nos dá não é condicionada a nada nem a ninguém. Nem tem começo, nem fim...
Amor
Lilian 

14 de setembro de 2012

Há apenas Isto - Mooji

"A maioria dos seres humanos não gosta de outros seres humanos, porque eles refletem algo que existe dentro deles mesmos, algo que eles não gostam.
Mas no momento eles pensam que aquele aspecto está no outro: É você que carrega isso", eles dizem.
Mas se você está vazio dessa característica que você não gosta, as coisas não seriam assim.
Se você estivesse vazio dessa característica, então você não vê nenhum julgamento nela.
É simples assim.

Quando você está livre daquele julgamento, ele deixa de surgir no exterior. Você não vê. Ou então você o vê com grande compaixão e compreensão. Porque você sabe que não é intencional. Não somos ignorantes por escolha própria. Parece que algo está ocultando o nosso ver.
Então quando você percebe que alguém causa algum desconforto em você, isso é porque de alguma forma existe algo aí que vale a pena refletir...

Agora vamos um passo além. Isso que você está vendo nos outros e em você mesmo, este "eu" no qual você encontra um defeito é apenas uma IDÉIA que você tem sobre si mesmo. Não é o Verdadeiro Self.
Ele é apenas o estado condicionado. É o conceito. O eu é aprendido, adquirido, é desse eu que surge todo o problema, todo cheiro ruim.

Pergunta: Porque você diz que está falando a partir d'Aquilo, a partir do Ser...

Mooji: As palavras vem a partir do Ser apenas para lançar luz áquilo que está atualmente oculto, sob as sombras. Para que possa ser claramente visto.
Se for visto claramente qual é o engano, o erro, você não precisa necessariamente fazer algo para removê-lo, porque a natureza das ilusões é que, quando elas são vistas com clareza elas desaparecem por si só.
Elas perdem o poder de influenciar, ou de hipnotizar o Ser.

Quando esses aspectos são vistos com clareza...talvez a prática, o sadhana, mais elevado está na compreensão clara. Porque para a compreensão você não precisa ir para lugar algum. Mas de certa forma o responder, o agir correto frente a uma situação surge naturalmente, e aquele barulho que antes havia pelas hipnose que você vivia, é removido de você, porque ele nunca foi real em primeiro lugar. E segundo, foi sua crença que fez com que as coisas parecessem reais. Você acreditou e deu realidade a tantas coisas que na verdade sempre foram falsas.

O surgimento de um fenômeno, não é prova de sua realidade. O fato de algo aparecer não significa que isso é real. Há muitas coisas, e a maioria delas, que aparecem e são apenas fabricação da mente. Não tem existência em si, não são verdadeiras.
Vocês estão chegando a ter certeza sobre isso. Apenas ver por ver, apenas naquela perfeita compreensão, você abandona qualquer identificação, e se descarrega de tudo.

Mesmo o ver em si, não apenas aquilo que é visto está distorcido, mas o próprio ver está distorcido.
O que é que observa este ver sujo? Isso também carrega algum julgamento em si.
Se este observar carrega características discerníveis...por favor acompanhem...Se aquele observador que vê  algo sujo, possui alguma distinção - e essas distinções são algo acrescido, são características...não são permanentes - neste momento de reconhecimento, o ver se torna puro, não poluído, limpo, impessoal, vazio, sem forma,
Isso não é criado por você. Você está apenas levantando os véus Disto. 
É Isto que está aqui.
Por trás deste ver impessoal, ou observador impessoal, não há um "outro". 
Há apenas Isto."
Mooji em Satsang

13 de setembro de 2012

A Experiência de Deus - Osho

"Compreender isso será um benefício para vocês.
Quem não é capaz de conhecer Deus dentro do seu próprio eu, nunca será capaz de o conhecer de modo algum. Quem não conhecer ainda a Deus em seu próprio eu não o conhecerá nos outros tampouco. 
O seu eu é a porta mais próxima para o divino.

Mas recordem que, o indivíduo que entra de repente em seu eu, encontra de repente a entrada para o Todo. A porta que conduz ao próprio eu é a porta que conduz a tudo. Assim que uma pessoa entra em seu ser, descobre que entrou em tudo, embora sejam diferentes externamente, internamente não o somos.

Externamente todas as folhas são diferentes entre si. Mas se uma pessoa for capaz de penetrar em apenas uma folha, chegaria a fonte da árvore, onde todas as folhas estão em harmonia. Cada folha vista por separado, é diferente mas quando tiverem chegado à fonte da qual emanam todas as folhas terá chegado a mesma fonte em que se dissolvem todas as folhas. Quem entra em seu eu entra simultaneamente em tudo.

A diferença entre "você" e "eu" só se mantém enquanto não tenhamos entrado em nosso próprio ser. O dia em que entremos em nosso ser, desaparece o eu e também o você. O que fica é o Todo.

Em realidade o Todo, não significa a soma do você e do eu. O Todo é onde nós nos dissolvemos, você e eu, e o que fica é o Tudo. Se o eu não se dissolver ainda podemos somar "eus" e "vocês", mas o Todo não será igual a verdade. Embora somemos todas as folhas, não aparece a árvore. A árvore é maior que a soma de todas as folhas. Quando somamos uma folha a outra, estamos achando que cada folha é independente. Mas uma árvore não está composta de folhas independentes, absolutamente.

Assim como quando entramos no nosso eu, ele simplesmente deixa de existir. O primeiro que desaparece quando entramos no nosso interior é a sensação de ser uma entidade separada, independente. E quando desaparece essa "eu-dade" também desaparecem a "você-dade" e a outro-dade". O que fica é o Todo.

Nem sequer é correto chamá-lo de Todo, tem também a conotação do velho "eu". Por isso os que sabem não querem chamá-lo de "o Todo". "Eles diriam: do que é a soma desse Todo?" O que é que estamos somando? (...)
Eles diriam apenas "Não ficam dois". Advaita significa isso, não exitem dois.
Assim, quando dizem Não dois, deduz-se que tampouco há três; dá-se  a entender que não há um, nem muitos, nem todos. Em realidade, esta diferenciação não é mais que uma visão apoiada na existência do eu. Assim, com a cessação da ilusória idéia de eu, fica o que é inteiro, o Indivisível.(...)

Um dia acontece que a idéia do indivíduo separado desaparece, e em consequência não vê nada mais que Deus. Portanto a gente não sente que Deus está na pedra. Onde está a pedra? Existe Deus. 
Compreendem? A gente não sente que Deus existe na planta, nem existe na pedra. Em tudo que nos rodeia, em tudo o que vemos, apenas Deus existe. Assim ver Deus não depende de um exercício mental, mas de uma dissolução do eu, de uma experiência pessoal.(...)

Não lhes peço que comecem a ver Deus em tudo, lhes peço apenas que olhem para dentro e vejam o que há ali. A primeira coisa que desaparecerá será vós mesmos, esse eu que teima em existir quando olham para fora. Dentro ele desaparece, desvanece. Vocês descobrirão pela primeira vez que esse eu era uma ilusão. Em realidade, a sensação de que "eu sou separado de você", só persiste até que olhamos dentro de nós. (...)

Se eu não estiver ali, quem estará? A experiência que fica depois do desaparecimento do eu, é a experiência de Deus. 

A experiência se volta expansiva imediatamente ao deixar cair o eu, também cai o você, cai o ele e só fica um oceano de conhecimento. 
Neste estado verá que só Deus é."
Osho em Aqui e Agora - Sobre a Morte, o Morrer e as Vidas Anteriores.
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