29 de fevereiro de 2012

Valeu Vida!!


Nada te impede de sorrir de vez em quando,
De amar sem direção
De tentar mais uma vez...

Nada te comanda nem te prende,
Já que existe aí dentro um coração que bate forte
Rompe essas amarras imaginárias
E se deixa levar quando quiser
E por onde quiser...

Nada te impede de ser grande e ser pequeno também,
Nem de ser esquecido e brincalhão quando quiser,
Exercer a liberdade de ser quem se é
é o maior Obrigado que podemos devolver a Vida
por tudo que ela investiu em nós desde sempre...

Não caia nas trapaças do "não devo ser"
Nem caia nas conversas do "não mereço"
Muito menos naquela histórias da carochinha do "não posso"
Deve SIM, Merece SIM, Pode SIM!!
Isso aí são verdadeiras armadilhas que trancam nosso sorriso,
aprisionam a alma, criam rugas e nos tiram a paz...

Nada te impede de ser criança sem preocupação,
Rir sem medida por nada
Dançar e cantar ao por do sol
Ouvir música alta, amar, beijar,abraçar,
Tomar um sorvete de casquinha,
Mergulhar no mar ao por do sol,
Passear descalço e dizer bem alto pro mundo ouvir:
Existo!
Estou aqui!
Valeu Vida!!!

28 de fevereiro de 2012

Aquietai-vos...


"Está escrito nos Salmos: “Aquietai-vos e sabei que sou Deus”.
“Aquietar-se” significa ficar tranquilo e consciente. O termo budista é samatha (parando, acalmando-se).
“Saber” significa adquirir sabedoria, insight ou entendimento.
O termo budista é vipasyana (insight, ou examinando em profundidade).

“Examinar em profundidade” significa observar algo ou alguém com tanta concentração que a distinção entre observador e observado desaparece.

O resultado é o insight da verdadeira natureza do objeto.
Quando examinamos o coração de uma flor, vemos nele as nuvens, a luz do sol, os minerais, o tempo, a terra e todas as outras coisas que existem no universo. Sem as nuvens não poderia haver chuva, e não existiria nenhuma flor. Sem o tempo a flor não poderia desabrochar.

Com efeito, a flor é totalmente formada por elementos que lhe são extrínsecos; ela não possui uma existência independente e individual. Ela “interexiste” com todas as outras coisas no universo. Interexistência é um novo termo, mas estou certo de que em breve ele estará nos dicionários por se tratar de uma palavra extremamente importante. Quando percebemos a natureza da interexistência, as barreiras entre nós e os outros se dissolvem, e a paz, o amor e o
entendimento tornam-se possíveis. Onde quer que exista o entendimento, nasce a compaixão.

Assim como a flor é formada por elementos que lhe são extrínsecos, o budismo é composto apenas por elementos não-budistas, inclusive cristãos, e o cristianismo é formado por elementos não-cristãos, inclusive budistas. Temos diferentes raízes, tradições e maneiras de perceber as coisas, mas compartilhamos as qualidades comuns do amor, do entendimento e da aceitação.

Para que nosso diálogo seja aberto, precisamos abrir nossos corações, pôr de lado nossos preconceitos, ouvir profundamente e representar verdadeiramente o que sabemos e compreendemos. Para fazer isso, precisamos de certa quantidade de fé. No budismo, ter fé significa ter confiança na nossa habilidade e na habilidade dos outros de despertar para a mais profunda capacidade de amor e entendimento. No cristianismo, ter fé significa confiar em Deus, Aquele que representa amor, compreensão, dignidade e verdade.

Quando estamos em quietude, olhando profundamente e entrando em contato com a fonte da nossa verdadeira sabedoria, entramos em contato com o Buda vivo e o Cristo vivo que existe dentro de nós e em cada pessoa que encontramos."
Tich Nhat Hanh em Vivendo Buda, Vivendo Cristo.

26 de fevereiro de 2012

O Ser Essencial - Glória Arieira


"Quem eu sou? Quem de fato eu sou? Qual a minha natureza essencial? Quem é este que no sono profundo, consigo mesmo, está bem? Quem é esta pessoa que nos momentos de tranqüilidade, no alto da montanha, olhando para o rio, para o oceano, tendo abandonado todas as preocupações, está bem, em harmonia com o todo? Quem é este, que quando está consigo mesmo, está pleno e feliz?

Vedanta nos leva nesse questionamento passo a passo, na descoberta desse Ser essencial, que eu descubro nos momentos de felicidade.

O "eu" em mim que é o "eu" em cada um.

Este Ser que parece que eu encontro nos momentos de meditação. Mas eu não preciso encontrar com esta felicidade em alguma esquina, em alguns pequenos momentos da minha vida. Eu sou essa felicidade. "Eu sou esse Ser pleno" é o ensinamento de Vedanta. Somente conhecendo esse "eu" que é pleno, livre de toda a limitação, é que eu posso estar bem comigo mesmo, apesar das limitações. Independente das limitações de cada situação, eu sou livre. As situações podem mudar mas o Ser que é testemunha de todas as situações, de toda a dualidade, permanece. Vedanta não quer eliminar os pensamentos e sim reconhecê-los enquanto Consciência.
Não é possível eliminar completamente as situações que me trazem um sentimento de limitação e sofrimento pois esta é a natureza do mundo; mas eu posso ver este Ser essencial que eu sou independente das modificações.

Vedanta é o meio de conhecimento desse "eu" pleno e feliz.
Vedanta é um conhecimento encontrado no final dos Vedas que são um corpo de conhecimento preservado na Índia mas que é de toda a Humanidade, de quem questiona esse Ser essencial.

Esse Ser essencial que é cada um de nós. Somente conhecendo esse Ser que é livre de limitação, eu posso estar bem em qualquer que seja a situação limitada do mundo.

Consciente de mim mesmo, sou também consciente de uma série de limitações. Esse "eu" que eu conheço é limitado. Eu sou consciente de meu corpo físico. Sendo consciente do meu corpo físico, eu também sou consciente das limitações que ele possui. Ele tem grandes capacidades, mas também grandes limitações. A mesma coisa com a minha mente, que analisa, questiona, interpreta, mas tudo dentro das suas próprias limitações. Meu sofrimento se dá porque, auto-consciente, eu me vejo consciente das minhas limitações. E ao me ver como um ser limitado, de várias maneiras limitado, eu sofro. Eu sofro porque me sinto limitado e por isso a minha felicidade também é limitada. Eu me sinto constantemente inadequado. Eu tenho poder de produzir, de alcançar, mas é limitado. Devido a essa capacidade de olhar para si mesmo, o ser humano, muitas vezes, pode não gostar do que vê. Constantemente nos damos conta das nossas limitações e sofremos, pensando em como poderíamos ser mais felizes se conseguíssemos ser diferentes. Essa mesma mente, que é uma grande bênção, também pode ser um grande problema, quando nos dá este sentimento de limitação, e nos faz estar constantemente em conflito. Se eu não estou bem comigo mesmo é porque estou vivendo somente a realidade da mente. O ser do qual eu sou consciente, que eu reconheço, é um ser limitado, por isso saber lidar com esta mente é fundamental.

A solução está, não em tentar modificar as situações nas quais eu projeto a minha insatisfação. A solução está em modificar a minha visão de mim mesmo, modificar o ser insatisfeito. Jamais uma pessoa conseguiu verdadeiramente modificar o mundo à sua vontade. Isso porque tantas outras pessoas também querem modificar o mundo e têm padrões diferentes de como esse mundo deveria ser. Então jamais a solução poderia ser modificar o mundo para ajustá-lo à minha vontade. E tem mais. Por mais que eu consiga mudar, transformar o mundo a minha volta, no processo de modificar o mundo nossos valores também se modificam, e nos descobrimos desejando outras mudanças.
Se eu quero realmente ser feliz, preciso reconhecer que tenho que encontrar essa felicidade em mim mesmo, independente das situações.

Eu sou felicidade

Devido à bênção desse conhecimento é possível lidar bem com todo este universo. Meu intelecto, a mente, os pensamentos estão incluídos neste universo. Se eu me vejo como o ser pleno que eu realmente sou, em qualquer situação, a plenitude será a minha base, o meu refúgio. Assim, eu posso lidar com qualquer situação! Não preciso concordar com tudo, mas posso aceitar as coisas como são, pois ninguém precisa ser diferente para me satisfazer. Quando eu preciso que as outras pessoas sejam diferentes, que o mundo seja diferente, eu tenho problemas. Isso porque, assim como eu quero que o outro mude, o outro também quer que eu mude.

Quando eu estou bem comigo mesmo, posso lidar com qualquer situação, pois o meu copo já está cheio. Meu coração é grande demais, meu coração se torna amplo. Do tamanho do universo. Ele acomoda todo o universo. Eu não preciso concordar com tudo mas posso entender. Não preciso ser amigo do mundo inteiro mas posso aceitar as pessoas como são, pois é assim que elas conseguem ser. Eu não preciso modificar o mundo mas se alguém quiser mudar, eu posso colaborar. Eu estou bem porque eu sou a felicidade."
Glória Ariera - Mestre Vedanta

24 de fevereiro de 2012

Ego - o Falso Centro - 3a parte


"Precisamos dar um passo para o desconhecido.
Por um certo tempo, todos os limites ficarão perdidos. Por um certo tempo, você vai se sentir atordoado. Por um certo tempo, você vai se sentir muito amedrontado e abalado, como se tivesse havido um terremoto. Mas se você for corajoso e não voltar para trás, se você não
voltar a cair no ego, mas for sempre em frente, existe um centro oculto dentro de você, um centro que você tem carregado por muitas vidas.

Esse centro é a sua alma, o eu.

Uma vez que você se aproxime dele, tudo muda, tudo volta a se assentar novamente. Mas agora esse assentamento não é feito pela sociedade. Agora, tudo se torna um cosmos e não um caos, nasce uma nova ordem. Mas essa não é a ordem da sociedade - essa é a própria ordem da existência.
É o que Buda chama de Dhamma, Lao Tzu chama de Tao, Heráclito chama de Logos. Não é feita pelo homem. É a própria ordem da existência. Então, de repente tudo volta a ficar belo, e pela primeira vez, realmente belo, porque as coisas feitas pelo homem não podem ser belas. No máximo você pode esconder a feiúra delas, isso é tudo. Você pode enfeitá-las, mas elas nunca podem ser belas...

O ego tem uma certa qualidade: a de que ele está morto. Ele é de plástico. E é muito fácil obtê-lo, porque os outros o dão a você. Você não precisa procurar por ele; a busca não é necessária. Por isso, a menos que você se torne um buscador à procura do desconhecido, você ainda não terá se tornado um indivíduo. Você é simplesmente mais um na multidão. Você é apenas uma turba. Se você não tem um centro autêntico, como pode ser um indivíduo?

O ego não é individual. O ego é um fenômeno social - ele é a sociedade, não é você. Mas ele lhe dá um papel na sociedade, uma posição na sociedade. E se você ficar satisfeito com ele, você perderá toda a oportunidade de encontrar o eu. E por isso você é tão infeliz. Como você pode ser feliz com uma vida de plástico? Como você pode estar em êxtase ser bem-aventurado com uma vida falsa?

E esse ego cria muitos tormentos. O ego é o inferno. Sempre que você estiver sofrendo, tente simplesmente observar e analisar, e você descobrirá que, em algum lugar, o ego é a causa do sofrimento. E o ego segue encontrando motivos para sofrer...
E assim as pessoas se tornam dependentes, umas das outras. É uma profunda escravidão. O ego tem que ser um escravo. Ele depende dos outros. E somente uma pessoa que não tenha ego
é, pela primeira vez, um mestre; ele deixa de ser um escravo.

Tente entender isso. E comece a procurar o ego - não nos outros, isso não é da sua conta, mas em você. Toda vez que se sentir infeliz, imediatamente feche os olhos e tente descobrir de onde a infelicidade está vindo, e você sempre descobrirá que o falso centro entrou em choque com alguém.
Você esperava algo e isso não aconteceu. Você espera algo e justamente o contrário aconteceu - seu ego fica estremecido, você fica infeliz. Simplesmente olhe, sempre que estiver infeliz, tente descobrir a razão.

As causas não estão fora de você.
A causa básica está dentro de você - mas você sempre olha para fora, você sempre pergunta: 'Quem está me tornando infeliz?' 'Quem está causando a minha raiva?' 'Quem está causando a minha angústia?'Se você olhar para fora, você não perceberá. Simplesmente feche os olhos e sempre olhe para dentro. A origem de toda a infelicidade, da raiva e da angústia, está oculta dentro de você, é o seu ego.

E se você encontrar a origem, será fácil ir além dela. Se você puder ver que é o seu próprio ego que lhe causa problemas, você vai preferir abandoná-lo - porque ninguém é capaz de carregar a origem da infelicidade, uma vez que a tenha entendido.Mas lembre-se, não há necessidade de abandonar o ego. Você não o pode abandonar. E se você tentar abandoná-lo, simplesmente estará conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: 'tornei-me humilde'...
Todo o caminho em direção ao divino, ao supremo, tem que passar através desse território do ego. O falso tem que ser entendido como falso. A origem da miséria tem que ser entendida como a origem da miséria - então ela simplesmente desaparece. Quando você sabe que ele é o veneno, ele desaparece. Quando você sabe que ele é o fogo, ele desaparece. Quando você sabe que esse é o inferno, ele desaparece.

E então você nunca diz: 'eu abandonei o ego'. Você simplesmente irá rir de toda essa história, dessa piada, pois você era o criador de toda essa infelicidade...É difícil ver o próprio ego. É muito fácil ver o ego nos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar.

Tente ver o seu próprio ego. Simplesmente o observe.
Não tenha pressa em abandoná-lo, simplesmente o observe.
Quanto mais você observa, mais capaz você se torna. De repente, um dia, você simplesmente percebe que ele desapareceu. E quando ele desaparece por si mesmo, somente então ele realmente desaparece. Porque não existe outra maneira. Você não pode abandoná-lo antes do tempo. Ele cai exatamente como uma folha seca.

Quando você tiver amadurecido através da compreensão, da consciência, e tiver sentido com totalidade que o ego é a causa de toda a sua infelicidade, um dia você simplesmente vê a folha seca caindo... e então o verdadeiro centro surge.
E esse centro verdadeiro é a alma, o eu, o Deus, a verdade, ou como quiser chamá-lo. Você pode lhe dar qualquer nome, aquele que preferir."
Osho em Além das Fronteiras da Mente.

22 de fevereiro de 2012

Ego - o Falso Centro - 2a parte


"Assim, você tem dois centros. Um centro com o qual você vem, que lhe é dado pela própria existência. Esse é o eu. E o outro centro, que é criado pela sociedade - o ego. Esse é algo falso - é um grande truque.

Por meio do ego a sociedade está controlando você. Você tem que se comportar de uma certa maneira, porque somente assim a sociedade irá apreciá-lo.Você tem que caminhar de uma certa maneira; você tem que rir de uma certa maneira; você tem que seguir determinadas condutas, uma moralidade, um código. Somente assim a sociedade o apreciará, e se ela não o fizer, o seu ego ficará abalado. E quando o ego fica abalado, você já não sabe onde está, você já não sabe quem você é.

Os outros deram-lhe a idéia. E essa idéia é o ego.

Tente entendê-lo o mais profundamente possível, porque ele tem que ser jogado fora. E a não ser que você o jogue fora, nunca será capaz de alcançar o eu. Por estar viciado no falso centro, você não pode se mover, e você não pode olhar para o eu. E lembre-se: vai haver um período intermediário, um intervalo, quando o ego estará se despedaçando, quando você não saberá quem você é, quando você não saberá para onde está indo; quando todos os limites se dissolverão.
Você estará simplesmente confuso, um caos.

Devido a esse caos, você tem medo de perder o ego. Mas tem que ser assim. Temos que passar através do caos antes de atingir o centro verdadeiro. E se você for ousado, o período será curto. Se você for medroso e novamente cair no ego, e novamente começar a ajeitá-lo, então, o período pode ser muito, muito longo; muitas vidas podem ser desperdiçadas...

Até mesmo o fato de ser infeliz lhe dá a sensação de "eu sou". Afastando-se do que é conhecido, o medo toma conta; você começa sentir medo da escuridão e do caos - porque a sociedade conseguiu clarear uma pequena parte de seu ser...
É o mesmo que penetrar numa floresta. Você faz uma pequena clareira, você limpa um pedaço de terra, você faz um cercado, você faz uma pequena cabana; você faz um pequeno jardim, um gramado, e você sente-se bem. Além de sua cerca - a floresta, a selva. Mas aqui dentro tudo está bem: você planejou tudo.

Foi assim que aconteceu. A sociedade abriu uma pequena clareira em sua consciência. Ela limpou apenas uma pequena parte completamente, e cercou-a. Tudo está bem ali. Todas as suas universidades estão fazendo isso.

Toda a cultura e todo o condicionamento visam apenas limpar uma parte, para que ali você possa se sentir em casa.E então você passa a sentir medo. Além da cerca existe perigo.Além da cerca você é, tal como você é dentro da cerca - e sua mente consciente é apenas uma parte, um décimo de todo o seu ser. Nove décimos estão aguardando no escuro. E dentro desses nove décimos, em algum lugar, o seu centro verdadeiro está oculto.

Precisamos ser ousados, corajosos."[continua...]
Osho, em Além das Fronteiras da Mente

20 de fevereiro de 2012

Ego - o Falso Centro - 1a parte


"O primeiro ponto a ser compreendido é o ego. Uma criança nasce sem qualquer conhecimento, sem qualquer consciência de seu próprio eu. E quando uma criança nasce, a primeira coisa da qual ela se torna consciente não é ela mesma; a primeira coisa da qual ela se torna consciente é o outro.

Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso.Nascimento significa vir a esse mundo: o mundo exterior.
Assim, quando uma criança nasce, ela nasce nesse mundo. Ela abre os olhos e vê os outros. O outro significa o tu. Ela primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Esse também é o 'outro', também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo. É dessa maneira que a criança cresce.

Primeiro ela se torna consciente do você, do tu, do outro, e então, pouco a pouco, contrastando com você, com tu, ela se torna consciente de si mesma. Essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz 'você é bonita', se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. Assim, um ego começa a nascer.
Por meio da apreciação, do amor, do cuidado, ela sente que é ela boa, ela sente que tem valor, ela sente que tem importância.

Um centro está nascendo. Mas esse centro é um centro refletido. Ele não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é; ela simplesmente sabe o que os outros pensa a seu respeito.
E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce - um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida, sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é ego. Isso também é um reflexo.

Primeiro a mãe. A mãe, no início, significa o mundo. Depois os outros se juntarão à mãe, e o mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros são refletidas. O ego é um fenômeno cumulativo, um subproduto do viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego. Mas isso não vai ajudar. Ela permanecerá como um animal. Isso não significa que ela virá a conhecer o seu verdadeiro eu, não.

O verdadeiro só pode ser conhecido por meio do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele. Ele é uma disciplina. O verdadeiro só pode ser conhecido por meio da ilusão. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que encontrar o falso. Por meio desse encontro, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade nascerá em você.

O ego é uma necessidade; é uma necessidade social, é um subproduto social. A sociedade significa tudo o que está ao seu redor, não você, mas tudo aquilo que o rodeia. Tudo, menos você, é a sociedade. E todos refletem. Você irá à escola e o professor refletirá quem você é. Você fará
amizade com as outras crianças e elas refletirão quem você é. Pouco a pouco, todos estarão adicionando algo ao seu ego, e todos estarão tentando modificá-lo, de modo que você não se torne um problema para a sociedade.Eles não estão interessados em você. Eles estão interessados na sociedade. A sociedade está interessada nela mesma, e é assim que deveria ser. Eles não estão interessados no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo.

Interessa-lhes que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. Você deveria ajustar-se ao padrão.Assim, estão interessados em dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Se você for imoral, você será sempre um desajustado em um lugar ou outro...

Moralidade significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade. Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. A moralidade é uma política social. É diplomacia. E toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; e isso é tudo, porque a sociedade está interessada em membros eficientes. A sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao auto-conhecimento. A sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu nunca pode ser controlado e manipulado.

Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu - não é possível. E a criança necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que esse é o seu centro, o ego dado pela sociedade.

Uma criança volta para casa. Se ela foi o primeiro lugar de sua sala, a família inteira fica feliz. Você a abraça e beija; você a coloca sobre os ombros e começa a dançar e diz 'que linda criança! você é um motivo de orgulho para nós.' Você está dando um ego para ela, um ego sutil. E se a criança chega em casa abatida, fracassada, foi um fiasco na sala - ela não passou de ano ou tirou o último lugar, então ninguém a aprecia e a criança se sente rejeitada. Ela tentará com mais afinco na próxima vez, porque o centro se sente abalado.

O ego está sempre abalado, sempre à procura de alimento, de alguém que o aprecie. E é por isso que você está continuamente pedindo atenção. Você obtém dos outros a idéia de quem você é. Não é uma experiência direta. É dos outros que você obtém a idéia de quem você é. Eles modelam o seu centro. Mas esse centro é falso, enquanto que o centro verdadeiro está dentro de você. O centro verdadeiro não é da conta de ninguém. Ninguém o modela. Você vem com ele. Você nasce com ele." [continua...]
Osho, em Além das Fronteiras da Mente.

18 de fevereiro de 2012

O Jardim do Rei...


Havia um rei na Índia que queria que seu palácio tivesse o jardim mais belo de todos. Viajou por vários países até que encontrou um mosteiro Zen, cujo jardim era absolutamente belo e perfeito. Ali ele ficou por três anos aprendendo a como plantar, cuidar, cultivar as plantas.

Depois desse período voltou ao seu palácio, e com a ajuda de cem jardineiros iniciou a construção do seu jardim perfeito.
Foram dois anos de trabalho e ao final desse período o rei mandou chamar seu mestre zen, para que avaliasse seu trabalho.

O jardim era enorme, e cuidadosamente plantado, super organizado e limpo.
Quando o mestre zen chegou, caminhou por entre os canteiros, tocou as plantas, respirou, sentiu a energia do lugar, ficou ali um bom tempo, e veio falar com o rei.
-Muito bem, disse ele. Você construiu um jardim belo, é verdade, mas ele não está realmente vivo.
-Como assim, replicou o rei. Todas as plantas estão vivas, saudáveis, em total harmonia de cores, de formas, de contrastes, de floração...tudo perfeito!

-Não, disse o meste. Seu jardim é falso, porque é perfeito. Na natureza não existe nada perfeito, existe sempre algo que "quebra" a perfeição e dá a ela o ar de vida, de verdade, de
fluxo, de movimento e transformação. Aqui não encontrei nenhuma folha seca, nenhum galho seco, nenhum capim, nenhum pequenino animal que desfrute desse lugar, nada...por isso ele pode ser belo, mas ele não é vivo.
-Preocupe-se menos com a perfeição estética, e a limpeza e valorize mais a espontaneidade e a simplicidade viva.
-A natureza é perfeita na sua imperfeição, e bela com todos os seus contrastes.
-A vida contém a morte, logo, os galhos secos, as folhas secas, os capins precisam estar presentes, pois eles nos lembram da impermanência, nos lembram que a beleza também passa por todas as fases..todas elas...
-Vamos refazer seu jardim.

E o mestre foi lá e pegou as folhas secas, os galhos e deixou a própria natureza se encarregar de construir o jardim perfeito (vivo) do rei...
Conto Zen

16 de fevereiro de 2012

Habita em ti...


Habita em ti a maior de todas as jóias,
A suprema beleza luminosa,
A pureza fantástica geradora de tudo..

A absoluta presença,
Consciência pura..

Que sustenta mundos,
Que constrói montanhas,
Que incendeia os sóis,
Que avança os mares,
Brilha nas galáxias,
Jorra nas cachoeiras,
Canta nos pássaros,
Perfuma na flor..

Saiba que a grandeza é sua dimensão,
Que o indivisível,
o infindável é seu rosto,
Que o sem-lugar é onde moras...

Não há nada que possa lhe definir,
Nem nenhum pensamento pode sequer lhe tocar,
És vasto e inominável,
Tens a totalidade em ti,
Tens todas as eras e todos os Universos
em ti,
E neles se regojizas e brincas...

Recorda sua vastidão original,
Recorda quem és verdadeiramente,
Recorda que tu podes brincar de ser qualquer coisa,
Qualquer ser,
Qualquer pessoa,
Tu podes absolutamente tudo,
Pois Tudo é o que tu és..

Mas permaneces intocado,
Inconfundível,
Insubordinado,
Imaculado..

Bebe da sua própria fonte,
Ó vastidão sem nome!
Banha-te na docura que criaste para ti,
Conhece-te em cada ser cada som,
Cor, forma, sentimento, pensamento,
Reconhece-te imenso e pequenino,
Reconhece-te na presença do aqui e do agora,
Reconhece que em ti,
tudo e nada são meros gestos,
Linguagens,
Em que tu brincas de ser quem És...

15 de fevereiro de 2012

Sabedoria de Sidarta - O Buda.


"Aquele que experimentou a verdade, a iluminação, o nirvana é o mais feliz de todos os seres.
Acha-se livre de todos os complexos, obsessões, aflições, medos e tormentos.
Sua saúde mental é perfeita.
Não se arrepende do passado nem se preocupa com o futuro, mas vive completamente no presente.

Portanto, aprecia todas as coisas e desfruta delas no sentido mais puro, sem autoprojeções.
É feliz, desfruta de vida pura, suas faculdades estão satisfeitas, está livre da ansiedade, é sereno e pacífico.

Por estar livre de todos os desejos egoístas, do ódio, do ressentimento, do orgulho, assim como de outras máculas similares, é puro e não tem manchas que aviltam o seu viver, está repleto de amor universal, compaixão, bondade, simpatia, compreensão e tolerância.
Convive com seus semelhantes, com a maior de todas as atitudes – a pureza, pois não pensa só em si.

Não busca nenhuma satisfação, não acumula nada.
Ao contrário, distribui seus bens interiores; os pensamentos que são sempre divinos são repartidos igualmente com todos os seus semelhantes.
Está livre da ilusão de um “eu”, da sede que tudo gera e do vir-a-ser.
Seu viver é uma constante integral.
Completa união com a vida, com o que vive: seja do reino animal, vegetal ou mineral.

Há uma consonância, uma correspondência entre o que fala e o que vive.
Seus exemplos espelham um viver são e feliz que enriquecem interiormente aqueles que com ele aprendem.

Sua bandeira é a verdade e com ela ilumina o mundo e as pessoas sentem-se felizes com sua proximidade.

Seu ensinamento é o verdadeiro caminho que, ao trilhado, torna os homens mais próximos da integridade de tudo."
A Sabedoria de Sidarta - O Buda. por Antonio C. A Rocha.

14 de fevereiro de 2012

Liberdade na Unicidade - Jeff Foster



"A verdadeira liberdade não tem nada a ver com afastar-se da vida.
A verdadeira liberdade é NA liberdade DENTRO da vida, naquilo que está acontecendo EM.

NA confusão. NO tédio. NA tristeza. Liberdade EM cada pensamento, EM cada sensação, EM cada sentimento.
Mesmo nos sentimentos escuros, pesados a liberdade de vivê-los profundamente, isso é Liberdade.

A liberdade de alguma coisa é a liberdade que VOCÊ encontra.Pois é algo que você quer se afastar. Quer se distanciar, daí que é necessário se mover de alguma coisa.
Isso é o que você acredita que seja liberdade.

A verdadeira liberdade está aqui nesse momento. Não se parece com nada que você conhece, nada que você gosta ou que você espera.

A verdadeira liberdade inclui TUDO. É um amor incondicional.

É um Todo includente Amor, que abraça tudo que aparece, tudo que acontece.

O buscador fica perguntando: O que eu faço? O que eu faço?
O que vê diz: Não faça nada, não há nada para fazer. Não é uma questão de se fazer.
Ele vê através do fazer.
Se a dor aparece, o medo aparece, a raiva aparece, o buscador pergunta: O que eu devo fazer? Como posso sair disso? Esta é a voz do buscador.
O que posso fazer para sair do medo, sair da raiva.. O que posso fazer para sair da busca?

Digo que tudo pode aparecer para você. Aquilo que você é, puro espaço, aí tudo pode aparecer. No fundo você não tem nenhum controle sobre nada, nada do que aparece. O buscador
quer ter controle sobre o que aparece, acontece. No final você verá que não existe nenhum controle real sobre nenhuma emoção, nenhuma sensação, nada.Nenhum controle sobre o que
virá, nem do próximo som que aparecerá.

A verdadeira liberdade é reconhecer que não existe nenhum controle. Pensamentos aparecem, sons aparecem, sentimentos no corpo aparecem, desejos aparecem tipo "eu quero isso",
confusões aparecem, não compreender certas coisas aparecem também; dor, sentir dor também acontece. Alegria acontece, experimentar o riso também.(...)

A alegria que se sente por viver a verdade é permanente. Ela não está condicionada a um fato, a um momento. Porque é a alegria do Ser, a alegria de se estar além do que acontece.
A alegria de se ver e viver a verdade que está sustentado aquilo que acontece seja o que for. Ela está além do personagem Jeff, da história do Jeff. A alegria que se experimenta não está ligada a nada que muda ou passa. Ela aparece naquilo que você É.
Nunca encontrei nada. Muitas pessoas acreditam que encontrei alguma coisa, encontrei aquilo que elas estão procurando.

Não encontrei nada, apenas olhei e vi!
Os buscadores acham que a vida é cheia de problemas. Eu também via assim, e queria fugir dos meus problemas, encontrar a solução para eles. Eu não via que minha mente tentava controlar meus problemas, colocar peso neles. Na verdade a dor por exemplo, não é um problema, medo, tédio, nada disso são problemas, confusão não é problema.
Nada do que aparece é problema. O buscador dá a esses fatos o rótulo de problemas! E daí tenta fugir dessas coisas, rejeita tudo isso, pois para ele são problemas.

O senso de "eu" é o problema. Enquanto se busca a iluminação com esse senso de "eu" quero alcançar isso ou aquilo, inclusive a iluminação, não passa de puro senso de projeção.
O "eu" cria a ilusão de que algo é necessário se alcançar e de algo é ruim e preciso rejeitar.
Descarte esse desejo de busca de alcançar e também a rejeição pelo que acontece, a rejeição pelo que chama de problemas, e apenas olhe, apenas observe a realidade, aquilo que É a sua frente agora mesmo. O fim da busca é sempre aqui. O fim do buscador é sempre aqui.

Lembre-se de que buscar é sempre comparar. Aquilo que é com aquilo que não é. Se a dor vem, quero a não-dor por exemplo.
A busca é da mente, sempre da mente. Histórias da mente. Porque no momento presente se existe dor, é isso: dor apenas. A mente funciona com os opostos; ela precisa dos opostos. Esta é sua função. Quando a dor aparece a mente cria o estado de não dor ( que não existe!) porque naquele momento o que existe é dor. A mente cria imediatamente o oposto. Agora você precisa buscar a não-dor, e isso demanda tempo. Veja como você entra no tempo. O buscador é tempo.
Precisa de tempo para pensar, para se afastar ou resolver a dor e encontrar a não-dor.

A vida é sem tempo. A dor surge, não tem tempo para isso. Mas a mente cria o tempo para se afastar da dor, afastar do medo..enfim..o "eu" bloqueia o Self. Pois ele cria uma barreira
controladora imaginária da realidade. E tudo tem que passar pelo seu controle imaginário, onde não existe verdadeiramente controle nenhum.

O "eu" acredita que quando o buscador se for eu serei inteiro serei Um, isso é mais um discurso da mente. É como se a onda quisesse ter uma vida independente do oceano, e pensasse que quando ela se separasse do mar ela será finalmente inteira, completa, realizada.
Ela é o oceano!
Nada pode dividir nem bloquear a Unicidade!
A Unicidade aparece enquanto experiências, muitas experiências simultâneas, todos os sentimentos, sons, rostos, sentimentos, pensamentos, tudo inclusive você é manifestação dessa Unicidade agora! Esta é a Verdade!
Tudo além disso são apenas rótulos...da mente! "

13 de fevereiro de 2012

Seja verdadeiro...


"Faça tudo que você gosta de fazer, mas pense — você está realmente fazendo isso, ou é sua mãe ou seu pai fazendo-o através de você?

Porque homens mortos, pais mortos, sociedades, velhas gerações que já se foram há muito tempo ainda estão funcionando dentro de você. Eles criaram tantos condicionamentos que você continua satisfazendo-os — e eles estiveram satisfazendo seus pais e mães mortos, e você está satisfazendo seus pais e mães mortos, e ninguém está
satisfeito.

Observe sempre quando você faz algo, se seu pai está fazendo-o através de você ou você mesmo está fazendo-o.

Quando você fica zangado, é sua raiva ou é a maneira que seu pai costumava ficar zangado? Você está só imitando.

Tenho visto padrões sendo continuamente repetidos. Se você se casar, seu casamento vai ser aproximadamente o mesmo do seu pai e da sua mãe. Você irá agir como seu pai, sua esposa irá agir como a mãe dela e vocês estarão criando a mesma confusão de novo.

Quando você ficar zangado, observe: você está lá ou é outra pessoa? Quando você amar, lembre-se, você está lá ou é outra pessoa? Quando você falar, lembre-se, você está falando ou o seu professor?

Abandone todas as falsidades. Você pode sentir uma certa tristeza por algum tempo porque todas as suas falsidades serão abandonadas e o eu verdadeiro levará um tempo pra chegar e se estabelecer. Haverá um intervalo de tempo. Permita esse período e não tenha receio, não fique assustado.

Cedo ou tarde seus falsos eus desaparecerão, suas máscaras desaparecerão, e sua face real se tornará o seu Ser."
Osho, em The Book of Secrets

Nem nos damos conta de quantos condicionamentos trazemos em nós. São comportamentos tão incorporados, tão próximos que já são tidos como nossos, quando na realidade nunca foram.
A auto percepção, a auto conscientização profunda e atenciosa, nos leva a descobrir todos aqueles comportamentos que tomamos emprestado e passamos a repetir, repetir, repetir ao longo de nossas vidas; falas, conceitos, pré-conceitos, enfim...uma infinidade de aspectos adquiridos que escondem na verdade a nossa essência, a nossa natureza primordial, o Ser, como nos mostra o amado Osho nesse texto.
Investigue-se com amor, e verá que sua essência é simples, bela , amorosa e conectada com tudo e todos á volta...sua essência é o Ser Unidade...
Amor
Lilian

12 de fevereiro de 2012

O Absoluto no orvalho...


Abriram-se as portas da percepção, e descobri um mundo sem lugar.
As questões obrigatórias foram vencidas,
As dúvidas e buscas dissolveram-se como névoa,
As dificuldades, impossibilidades se transformaram em pétalas de rosa perfumada,
e eis que surge o eterno presente,
O silêncio tranquilo e luminoso do instante...

Aquelas doces ilusões se dissolveram,
em meio a tantos véus do esquecimento.
Miragens do deserto pensante foram postas de lado,
E além da brisa fresca acolhedora,
restou apenas um sol radiante do meio dia,
Aquele sol permanente que nunca conheceu qualquer poente...

Abriram-se as portas da percepção...
A calma costumeira se tornou luz,
deixou a bagagem de lado e todas as falas sem sentido,
Imagens, nomes,
mesmo cânticos e poesias,
se transformaram em puro êxtase sem fim...

Adentrar nas dimensões do não lugar,
É perder-se e se encontrar,
É amar-se e se amar,
É desejar e se possuir,
nem mais nem menos.
Apenas o Absoluto na gota de orvalho da manhã...

11 de fevereiro de 2012

Todos os Seres...



"Todos os seres, por natureza, são Budas"

Este primeiro verso do Cântico do Zazen sempre me encantou.
Confesso que a primeira vez que ouvi não compreendi muito bem, mas algo acendeu lá dentro, uma chama luminosa no "meu" coração.
Hoje queria refletir com você sobre este pequenino, mas extremamente belo verso do Zazen, cuja autoria é atribuída a Hakuim Zenji.

Quando olhamos uma pedra, uma árvore, um pássaro, um homem e um Buda nos perguntamos o que os fazem tão diferentes uns dos outros não é?
Pois bem, na verdade não existe qualquer diferença entre eles, apesar dos nossos sentidos teimarem em afirmar que são todos completamente diferentes.

A Consciência é sempre Total, absoluta, plena mas está experimentando infinitas dimensões de si mesma em cada uma das aparências manifestas.

Os Upanishads nos dizem : Aquilo é o Todo, Isto é o Todo, o Todo dá nascimento ao Todo, O Todo se dissolve no Todo, só o Todo existe.
Este precioso ensinamento nos aponta uma grade verdade oculta para além dos nossos pequenos sentidos. Em todas as dimensões da existência seja ela o microcosmo, seja o macrocosmo iremos encontrar o Todo absoluto se manifestando, sempre!

Quando vemos uma pedra, vemos que ali existe uma consciência que está quase que totalmente adormecida, inconsciente; já em uma planta essa consciência adquire novas nuances, novos aspectos mais sensíveis, mais interação acontece seja com a terra, com o sol, a água; uma planta sente quem cuida dela, percebe o afeto, ou a ausência deste, embora não possa se expressar ainda, já começa ali um esboço de sensibilidade e percepção;
Um animal já é mais um salto de consciência. Existem sentidos apurados, percepção mais apurada, mobilidade, agilidade, existem linguagens próprias de cada espécie, afetividade, cuidados com os filhotes. Nos animais podemos perceber a consciência se abrindo mais e mais.

No homem esta mesma e única consciência ganha o maior prêmio de todos que é a Mente.
Ganha a capacidade de reconhecer que existe! Podemos não ter certeza de mais nada, mas temos a certeza, a plena convicção de que existimos não é? Só o homem é capaz de reconhece profundamente que ele existe, nenhum outro animal, planta possui esse dom.
Aí se encontra a intercessão em que vive o homem. Ele guarda em si todas as outras dimensões da natureza, seu corpo, em seu cérebro ainda trazem em si todo o processo evolutivo acontecendo aqui e agora; e além disso o homem ganha a auto-consciência, ganha o EU SOU!

Esta consciência do EU SOU é o início de uma nova jornada para o homem.
Essa consciência humana é tão fabulosa e tão bela, porque nela está a semente da consciência do Buda, do Cristo, isto é: a consciência da TOTALIDADE.

A mesma Totalidade que é onipresente se dá a conhecer a Si mesma na consciência do Buda, do Cristo, que nada mais é que a consciência humana aberta, desidentificada com as infinitas dimensões que já passou, que já experimentou nesse longo e fabuloso processo evolutivo.

A mente é tão fascinante que ela tem a capacidade de se identificar com o que quer que seja. Isso cria a ilusão das formas, a ilusão da separação. Isso é a causa primária de todo sofrimento, medos, desconfianças e solidão. Mas essa mesma mente trás em si a semente da Totalidade, a semente do Absoluto.
Quando a mente se volta não para aquilo que os sentidos mostram, as divisões, mas para aquela dimensão além deles, aquela dimensão mais profunda que nos aponta o coração, entramos então na dimensão da Unicidade, entramos na luminosidade da Consciência Búdica, Crística, e o Todo Absoluto se auto-revela a Si mesmo, e num segundo é possível perceber a grandeza acontecendo aqui e agora em tudo e em todos...a Consciência então percebe a si mesma...

A pedra, a árvore, o pássaro, o homem, todos trazem em si o Buda, o desperto, pois já são e sempre serão a mesma e única consciência, porém ainda não plenamente realizados.

Este processo de abertura é a beleza da existência, florindo, acontecendo de Si para Si mesma em infinitas miríades de eventos sincrônicos, pois todos e cada um deles, são notas preciosas da sinfonia divina que ao mesmo tempo cria, toca, dança, canta e assiste ao espetáculo... um outro nome que podemos dar a isso é Deus...
Também gosto de chamar de Amor...

"Todos os seres, por natureza, são Budas"...
Namaste.
Lilian

10 de fevereiro de 2012

Você já é a Paz - Mooji


"Houve certa vez um negociante rico e astuto que tirou férias próximo a uma pequena vila de pescadores.
Certa manhã, quando o sol já estava alto e os coqueiros balançavam suavemente na brisa, ele foi passear na praia quase deserta.
Lá pela metade da praia ele encontrou um pequeno barco de pesca e um velho pescador estava sentado em uma sombra desfrutando seu cigarro.
- Bom-dia, amigo. Como é que você não está lá pescando? A água parece perfeita para uma boa pesca, disse o negociante.
-Você é um homem do mar?, perguntou o simples pescador.
-Não, respondeu o negociante. Mas eu notei que todos os outros barcos estão fora, menos o seu.

O ancião então explicou:
-Não existem outros barcos aqui. Só eu pesco aqui. Eu pesco à noite. Agora, eu descanso aqui na brisa e na sombra.
-Mas se você saísse agora não apanharia mais peixes?.
-Provavelmente, mas para quê?.
-Bem, eu tenho certeza que você poderia vendê-los na praia turística logo ali, disse o negociante apontando para a vila vizinha.
-E então o quê?, perguntou o pescador.
- Bem, então você poderia comprar um motor para o seu barco e ir mais longe para águas realmente profundas e apanhar peixes ainda maiores.
-E daí, indagou novamente o humilde pescador.
-Bem, então você poderia comprar outro barco, empregar alguns destes jovens sem trabalho para pescar para você e ganhar ainda mais dinheiro!
-Para que?, disse o velho.
-Bem, com todo esse dinheiro você poderia construir a sua casa. Você poderia sentar-se, relaxar e desfrutar a vida com a mente em paz, respondeu o negociante.
-Obrigado por seu conselho, sorriu o pescador, mas é isso que eu estou fazendo agora.

O homem de negócios, humilhado, tocou suas palmas juntas e concordou balançando a cabeça.

Você já é a paz que você está buscando. Fique em silêncio e saiba disso.”
Mooji em Antes do Eu Sou.

9 de fevereiro de 2012

De ti ao Infinito - Ken Wilber


"O que vou fazer adiante é simplesmente "descrever" a identidade não dual agora mesmo, do modo como ela é imediatamente vista. O que se segue é fluxo de consciência, por isso perdoa qualquer falha. Simplesmente descontrai a mente e lê o que se segue levemente (se uma frase faz imediatamente sentido, bem, se não, continua lendo (relaxadamente):

O que você tem andado à procura é literalmente e exatamente o que lê esta página agora mesmo. Esta Identidade não pode ser encontrada pois nunca se perdeu: você sempre tem visto que você tem sido você mesmo .

Esta Identidade é uma condição permanente de tudo o que surge, é o espaço no qual tudo surge, nada tem fora de Si e por isso é paz absoluta, e irradia sua própria beleza em todas as direções. O João surge no espaço desta identidade, o João surge neste espaço infinito, nesta receptividade pura. O João é um objeto, assim tal qual uma árvore ou uma nuvem que surge no espaço da identidade que você é. Agora não estou falando ao João, estou falando para você que está ciente do João é esta Identidade sempre presente.

Esta Identidade está ciente do João surgindo agora mesmo.
Esta Identidade é Deus. Deus está lendo esta página.
O João não está lendo esta página, Deus está lendo esta página.

A Identidade está ciente do João e ciente desta página. Você não é o João. Você é o que está ciente do João. O que está ciente do João é uma Identidade que em si mesma não pode ser vista mas unicamente sentida, sentida como uma certeza absoluta, uma inabalável Identidade, EU SOU este EU SOU eternamente, intemporalmente, interminavelmente. Só existe esta Identidade em todas as direções.
Tudo surge espontaneamente no espaço desta grande perfeição que é esta Identidade, que está lendo esta página agora mesmo. E você, o João, é essa Identidade. Você sempre tem visto que é esta Identidade. Nunca houve um momento em que não soubeste que você é, você não consegue recordar um momento no qual você não foi você. A única coisa que sempre pode recordar é aquilo que esta Identidade fez. Só existe esta Identidade. Não a podes alcançar, pois é ela que tenta o alcance, não a podes ver, pois é ela que realiza a visão agora mesmo, isto significa que, tudo simplesmente surge na sua presença: o mundo inteiro surge na sua presença agora mesmo.

Você é esta extensão na qual tudo espontaneamente, sem esforço, surge. Você é Este Primeiro. Você sempre tem sido Este Primeiro. Só existe Este Primeiro. Não suponhas que O está tentando encontrar. Não suponha que tem se esquecido Dele.
A única coisa que sempre tem conhecido a única coisa que te é dado recordar, a única coisa que na verdade estás sentindo agora mesmo é Este Primeiro: a Identidade, a Presença, a qualidade de tudo, tal como é, e tal como surge na tua Presença – a simples sensação de Ser – que é tudo o que você sempre sente, permanentemente.

Olha as nuvens: elas estão surgindo na sua consciência: estão surgindo em ti. As nuvens estão fora do João, mas dentro da sua Identidade. Olha para o teu corpo e para esta sala. O seu corpo está nesta sala, mas ambos o seu corpo e esta sala surgem NA sua consciência. Você está literalmente sustentando-os amorosamente na sua consciência.

As montanhas estão aparecendo na sua consciência: estão surgindo em ti e você as sustenta-amorosamente na sua consciência, segurando o mundo que desponta no seu abraço, qual terno e radiante amor. As montanhas estão surgindo fora do João, mas no interior da sua Identidade. As nuvens, as montanhas, e o João estão todos simultaneamente, e sem esforço, surgindo
nesta Identidade, o leitor desta página.

Tudo o que está surgindo surge neste inabalável EU SOU, que não é uma coisa ou um objeto ou uma pessoa, mas a receptividade ou clareira na qual todas as coisas e todos os objeto e todas as pessoas estão a surgir. Esta vacuidade, esta receptividade, este grandioso espaço é a sua Identidade, é O que você sempre tem sido, é O que você é antes dos seus pais terem nascido, é o
que você é antes de acontecer o Big-Bang.

Antes de Abraão ser, EU SOU.
Não há um antes e um depois para este instante presente, que a Identidade é.
Só existe este instante, agora, da Identidade que está lendo esta página neste preciso momento.
Não há um passado e um futuro neste interminável instante.
Todos os antes e todos os depois surgem nesta consciência. Só existe esta sempre-presente, nunca-iniciada, nunca-terminada, não-nascida, imperecível, beleza radiante que está ciente desta página, que está ciente deste universo, e que encontra todos estes NO espaço que em si mesma é, e por isto, todas as coisas surgem na Paz inabalável que as sustenta facilmente com o seu amparo.

O João existe no universo; o universo existe na sua Identidade.
Por isso, sê esta sempre-presente Identidade que está lendo esta página. Não estou dizendo isso ao João, estou falando para ti; deixa o João aparecer e desaparecer como qualquer objeto.
Permite que o João apareça, fique por um pouco, e parta: o que tem isto a ver com a sua Identidade? Todos os objetos aparecem, permanecem, e partem no vasto espaço e vacuidade
que está ciente deste momento, e este momento, e este momento, e este momento.
Ainda assim, este momento não tem fim, você na verdade nunca sentiu que o presente tenha chegado a um termo pois isso nunca acontece: o presente é a única coisa que é real: este instante imediato, presente, esta simples sensação de Ser, exatamente a mesma sensação-consciência na qual esta página flutua, e na qual o João flutua, e na qual as nuvens flutuam. Quando você sente este instante presente, nada encontra fora dele – não é possível vislumbrar o exterior deste instante intemporal, pois nada existe além dele. Este instante, e este e este é tudo quanto você conhece, e este instante imediato presente é simplesmente outro nome para a imensurável Identidade na qual surge o cosmos inteiro, uma radiante, rejubilante, extasiada dilatação de felicidade e um desejo de partilhar esta Alegria infinita com outra pessoa.

Porque esta página e as montanhas e as nuvens todas surgem na sua consciência, nada existe fora da sua Identidade. Que não existe literalmente nada exterior à tua Identidade significa que não existe literalmente nada que a possa ameaçar.

Uma vez que conheces esta Identidade, você conhece a Paz.
Porque você já é, diretamente, imediatamente, e intimamente um e idêntico a Aquele que está lendo esta página agora mesmo, você u conheces Deus agora mesmo, diretamente e imediatamente e inequivocamente e inegavelmente E porque conheces Deus agora mesmo, como a própria Identidade lendo esta página, você sabe que finalmente, verdadeiramente, profundamente está em casa, um lar que sempre diretamente tem conhecido e sempre tem fingido não conhecer.

Por isto, deixa de fingir. Reconhece que você é Deus.
Reconhece que você é Perfeição.
Reconhece que você é a própria Verdade que os sábios têm procurado há séculos.
Reconhece que você é Paz acima da inteligência.
Reconhece que está tão arrebatadamente feliz que teve de manifestar este mundo inteiro só para gerar o testemunho da beleza radiante que não podia conter só em e para ti mesmo.
Reconhece que a Testemunha desta página, a Identidade deste e todos os mundos, é o próprio e único verdadeiro Espírito que olha através de todos os olhos e ouve através de todos os ouvidos e se estende em amor e compaixão para abraçar os próprios seres que Ele mesmo criou numa extasiada dança que é o segredo de todos os segredos.
E reconhece que estás Só, que és literalmente o Único em todo o universo: não há outros para este Primeiro.

Há efetivamente outros para o João, mas tanto o João como os outros surgem na consciência que está lendo esta página, e esta consciência, esta Identidade, não tem um outro, pois todos os outros surgem nesta Identidade.
Primeiro sem segundo é O que está lendo esta página.
Portanto, seja esse Primeiro. E dá também um abraço meu ao João. "

8 de fevereiro de 2012

Os Upanishads...



"AUM. Aquilo é o Todo. Isto é o Todo. A Totalidade surge da Totalidade. Totalidade provém da Totalidade. Apenas a Totalidade permanece. -Manduka Upanishad.

Esta é uma das mais significativas afirmações jamais feitas em qualquer lugar da terra em todas as eras. Ela contém todo a abordagem mística para a vida. Este pequeno Sutra contém a essência da visão dos Upanishads. Nem antes nem depois esta visão foi transcendida; ela ainda permanece o Everest da consciência humana. E parece que não existe possibilidade de se ir além dela.

A visão dos Upanishads é que o Universo é a Totalidade, Indivisível. É o Todo orgânico. As partes não são separadas, nós estamos existindo todos juntos, em união: as árvores, montanhas, as pessoas, pássaros, as estrelas por mais que apareçam distantes uns dos outros - não seja enganado pelas aparências - estão intimamente ligados, todos ligados. Mesmo a menos folha de capim está conectada com a mais distante estrela e tem a mesma importância do mais brilhante dos sóis.

Nada é insignificante, nada é menos que nada. A parte representa o Todo assim como a semente contém toda a árvore. A semente contém o passado - porque todas as árvores estão nela em potencial. E é claro a semente contém o presente também. A semente parece ser tão pequena, mas não é tão pequena quanto parece. (...)
Os Upanishads dizem: a parte torna-se o Todo; o Todo torna-se parte. A vida não tem hierarquia pela visão dos Upanishads. Nada é menor, nada é maior, nada é mundano e nada é sagrado - Tudo É Um.

Esta visão veio através de alguns místicos, mas ainda não se tornou parte da consciência humana. Por isso ainda existe tanta miséria no mundo, guerras e insensibilidade. Pessoas ainda não estão florindo; seu esplendor mais alto ainda não está livre. Pessoas ainda estão vivendo vidas aprisionadas, acorrentadas. Elas contém em si o infinito mas ainda não despertaram para isso.(...)

Os Upanishads são realistas e pragmáticos. É a comunhão do coração com o coração. Este é o significado dos Upanishads - sentar perto do Mestre, apenas sentar ao lado do Mestre e alguma coisa transpira, uma chama salta do coração do Mestre para o coração do discípulo.

O Mestre precisa estar em casa isto é, já ter experimentado a Verdade. O discípulo ainda busca, mas o discípulo precisa estar silencioso, profundamente silencioso. Não é uma questão de perguntar, porque a derradeira pergunta não pode ser feita e nem pode ser respondida. Ela é apenas transmitida - sem perguntas nem respostas. Esta transmissão além das palavras é o significado da palavra Upanishads. (...) Vamos ao Sutra.

Aquilo é o Todo. Isto é o Todo.

Aquilo significa o além, o invisível. Isto significa aquilo que está aqui, o visível. Aquilo significa o oculto. Isto significa o manifesto. Aquilo significa o infinito. Isto significa o finito. AQUILO é o TODO claro; mas os Upanishads insistem: ISTO também é o TODO.

O mercado e o monatério ambos são parte do Todo. Estar com seu marido, esposa, filhos, amigos é o sagrado, tão sagrado quanto ir aos Himalaias e viver numa caverna em absoluto isolamento. Ambos pertencem a mesma existência. (...)
NÃO há diferenças! Isto é Tudo.
Existe UMA única realidade.
O externo e o interno não são dois, mas apenas dois aspectos do MESMO fenômeno.
Matéria e espírito não são antagonistas, nem estão em oposição um com o outro, porque em cada um de vocês esse encontro está acontecendo. Neste exato momento seu corpo e sua alma não são dois, eles são um. Seu corpo afeta sua consciência que afeta seu corpo. Seu corpo é apenas a parte externa e sua consciência a parte interna. Apenas duas dimensões da mesma expressão, do mesmo espectro.
Você já está VIVENDO a unidade do ISTO e AQUILO."
Osho em Philosophia Ultima

7 de fevereiro de 2012

Sobre a Meditação - Krishnamurti


"Para meditar, no sentido mais profundo da palavra, temos de ser íntegros, morais.

Não se trata da moralidade de um padrão, de uma prática, ou da ordem social, mas sim da moralidade que brota naturalmente, inevitavelmente, suavemente, quando começamos a compreender-nos a nós próprios, quando estamos atentos aos nossos pensamentos e sentimentos, às nossas atividades, desejos, ambições, etc. -- atentos sem qualquer escolha, observando apenas.

Dessa observação nasce a ação correta, que não tem nada a ver com conformismo ou com uma ação de acordo com um ideal.

Então, quando isso existe profundamente em nós, com a sua beleza e austeridade na qual não há nenhuma rigidez -rigidez só existe quando há esforço -quando tivermos observado todos os sistemas, todos os métodos, todas as promessas e olhado para eles objetivamente, sem gostar ou não-gostar, então podemos recusar tudo isso completamente, para que a mente fique liberta do passado; então podemos prosseguir na descoberta do que é meditação.

Assim, perguntamos: Pode a totalidade da mente - que inclui o cérebro - ficar quieta? Muitas pessoas têm feito essa pergunta - pessoas verdadeiramente sérias - mas não conseguiram achar-lhe a resposta. Recorreram a artifícios, pois lhes disseram que a mente pode quietar-se mediante a repetição de palavras. Já experimentastes isto: recitar "ave-marias' ou aquelas palavras sânscritas que certas pessoas trazem da Índia - mantras; repetir certas palavras para quietar a mente? Não importa qual seja a palavra, mas deve ser recitada com ritmo: coca-cola, qualquer palavra - repeti-a muitas vezes, e vereis como a mente se torna quieta. Mas essa mente aquietada está embotada; não é uma mente sensível, vigilante, ativa, viva, apaixonada,
"intensa". A mente embotada, embora diga: "Tive experiências extraordinárias, transcendentais", está enganando a si própria.
A solução, portanto, não se encontra na repetição de palavras, nem no forçar a mente; muitos artifícios já têm sido impostos à mente a fim de aquietá-la. Entretanto, sabemos em nosso íntimo que, se a mente está quieta, não há mais nada que fazer, porque existe então a verdadeira
percepção.
Como pode a mente - inclusive o cérebro - ficar completamente quieta? Recomendam alguns respirar adequadamente, tomando profundas inspirações, para oxigenar mais o sangue. A mente vulgar, limitada, pode - à força de respirarmos muito profundamente, dia após dia - tornar-se
quieta; mas continua a ser o que é: vulgar e limitada.(...)

Que cumpre então fazer? Quem faz esta pergunta? Vê-se muito claramente que nossa vida está em desordem, tanto interior como exteriormente; e a ordem, entretanto, é necessária, e deve ser tão perfeita como a ordem matemática; mas a ordem só pode ser estabelecida pelao bservação da desordem, e não pelo ajustar-nos a um plano de ordem, conforme um outro a
concebe ou nós mesmos a concebemos. Do ver, do estar cônscio da desordem, resulta a ordem. Vê-se também que a mente deve tornar-se sobremodo quieta, sensível, vigilante, livre de todo e qualquer hábito, físico ou psicológico.

Como conseguir isso? Quem faz esta pergunta? É a mente "tagarela" que a faz, a mente que possui tantos conhecimentos? Aprendeu ela uma coisa nova, ou seja que "só posso ver muito
claramente quando estou quieto e, por conseguinte, tenho de ficar quieto"?
Digo, então: "Como posso tornar-me quieto?" - Ora, essa pergunta é essencialmente errônea; no momento em que se pergunta "como", está-se em busca de um sistema e, portanto, destruindo a própria coisa que se quer investigar, ou seja: Como pode a mente tornar-se completamente quieta - não mecanicamente, não forçada, obrigada a tornar-se quieta?

A mente que está quieta, sem ter sido forçada a quietar-se, é sobremodo ativa, sensível, desperta. Mas, quando se pergunta "como", cria-se a separação entre o observador e a coisa observada. Ao compreendermos que não há método, nem sistema, nem mantra, nem instrutor, nem nada; neste mundo, que possa ajudar-nos a quietar-nos; quando percebemos a verdade de que só a mente quieta vê - a mente fica tranqüila.

Ora bem, a natureza do silêncio tem grande importância. A mente limitada pode aquietar-se em seu reduzido espaço; esse reduzido espaço, com sua limitada quietação, é a coisa mais morta que pode existir; vós o sabeis. Mas, a mente que tem um espaço sem limites, mais aquela quietude, aquele silêncio, e nenhum centro - como "eu", como "observador" - essa mente é muito diferente.

Naquele silêncio não existe nenhum observador. Essa qualidade de silêncio dispõe de um vasto espaço; é um silêncio sem limites e intensamente ativo. A atividade desse silêncio é toda diferente da atividade egocêntrica. Se a mente chegou tão longe, então, talvez, aquilo que o homem vem buscando há tantos séculos - Deus, a Verdade, o Imensurável, "o que não tem nome", o Eterno - se apresentará, sem ter sido chamado. Bem-aventurado esse homem: para ele existe a Verdade e o êxtase.
Krishnamurti em O Vôo da Águia

6 de fevereiro de 2012

O Diálogo no silêncio...


Havia um mosteiro Zen nas distantes montanhas do Oriente. Ele era cuidado por dois irmãos.
O mais velho era um sábio, e era também o administrador do mosteiro, e seu irmão mais novo era um novato, pouco sabia sobre os ensinamentos de Budha, e só enxergava de um olho.

Certa noite um peregrino bateu a porta do mosteiro pedindo pernoite. Era comum acolherem peregrinos por uma noite apenas, mas primeiro o peregrino tinha que vencer o debate com o monje do mosteiro sobre os ensinamentos de Budha.

O mais novo recebeu o peregrino e avisou a seu irmão que teriam que debater com ele primeiro.
O mais velho teve então uma idéia.
Disse ele: -Vá você no meu lugar. Estou ocupado e não posso agora.
- Mas ainda sou novato, não conheço bem os ensinamentos de Budha, vou perder, e teremos que dar abrigo a esse estranho, disse o mais novo.
- Não tem problema, disse o mais velho. Sugira ao homem antes que começarem que se faça o debate em silêncio. Nenhuma palavra. E não terá como você não vencê-lo.

E assim foi feito.
O peregrino inicia e levanta o dedo indicador, fazendo o número 1.
O mais novo então levanta o indicador e o dedo médio, fazendo o número 2.
O peregrino então levanta os indicador, o médio e o anelar, fazendo o número 3.
O mais novo então fecha o punho em frente ao rosto do peregrino.

Assim, o peregrino fica maravilhado. Agradece imensamente tamanha sabedoria, e vai ter com o irmão mais velho, para dar os parabéns por ter um irmão tão sábio.
O irmão mais velho fica surpreso, pois sabia que seu irmão não era tão sábio sobre o Dharma ( os ensinamentos de Budha), e tinha quase certeza que seu irmão perderia o debate. Ele pede então que o peregrino traduza o diálogo para ele.

-Primeiro mostrei o dedo indicador: que indicava o Budha.
-Seu irmão prontamente me lembrou do dois: Budha e os ensinamentos do Dharma.
-Daí que completei com o três: Budha, Dharma e a Sangha ( todos os seguidores do Budha).
- Seu irmão então prontamente num gesto de profunda sabedoria fecha o punho coloca frente ao meu rosto, me indicando que tudo é a Unidade, somos todos o Um sem segundo.
-Fiquei impressionado! Ainda tenho muito que me aprofundar no Dharma. Sou grato e vou-me agora. E partiu o peregrino com o coração radiante por tamanhos ensinamentos recebidos em total silencio.

O irmão mais velho foi ter com seu irmão para ouvir a versão dele sobre o diálogo no silencio e foi isso que ele ouviu:
- Primeiro aquele homem levanta um dedo, me lembrando que eu só tenho um olho.
- Irritado levantei dois dedos, pois ele se gabava que tinha os dois olhos perfeitos.
- No maior do atrevimento ele levanta três dedos, me lembrando que nós dois juntos tínhamos três olhos bons.
- Nessa altura a minha raiva era tanta que fechei o punho e o ameacei de dar um soco na cara dele!
- Para meu espanto ele me cumprimentou, sorriu e disse que eu havia vencido o debate. Fiquei sem entender nada. Ainda acho que ele ficou com medo de mim e fez tudo isso para disfarçar. Que se vá mesmo! Sujeito estranho esse aí!

O irmão mais velho sorriu, abaixou a cabeça, e percebeu mais uma vez, como que a mente sempre interpreta a sua própria maneira a realidade que se apresenta.
Nada mais a dizer...
Conto Zen

Felicidade por acréscimo...



"Um trecho do Evangelho diz: "Procurai em primeiro lugar, o Reino e o resto vos será dado por acréscimo."
A felicidade é justamente o que nos é dado por acréscimo! Razão pela qual se a procurarmos em primeiro lugar, nunca chegaremos a encontrá-la...
A etimologia da palavra felicidade é muito significativa. Como já indiquei com precisão, é a "boa hora"; trata-se de estarmos na hora certa, de estarmos presentes onde estamos!

A infelicidade é justamente não estarmos presentes... onde estamos!
Há duas maneiras de viver o tempo: o presente e o ausente.(...)

A felicidade é reencontrarmos em nós a capacidade para amar, porque tudo o que fazemos sem amor é tempo perdido, é feito em má hora, é uma infelicidade... Enquanto tudo o que fazemos com amor é a eternidade reencontrada, a boa hora reencontrada; desse modo, a felicidade nos é dada por acréscimo.»

A humildade é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser humano. Essa é a verdade da nossa humanidade. (...)

De fato, o que temos de aprender continuamente é a ser homens, ou seja, feitos de argila. Mas uma argila aberta ao céu! E isso com mansidão e humildade.

A primavera é o período em que floresce a humildade... em que o homem se torna verdejante. Mestre Eckart dizia: "O homem humilde se torna verdejante." Esse é o homem que está aberto ao que o Céu lhe oferece.

Ser humilde é aceitar-se como argila e, também, como luz. "Tu és pó e ao pó voltarás"; mas tu és luz e voltarás à Luz!
De fato, ser humilde é aceitar suas próprias qualidades e defeitos; ser humilde é aceitar aquilo que se é."
Jean-Yves Leloup em Amar apesar de Tudo.

4 de fevereiro de 2012

O Riso...


"A vida tem de ser levada de modo extremamente jovial. A vida é tão cheia de riso, é tão ridícula, é tão engraçada que, a menos que você tenha se tornado muito enrijecido, você não pode ficar sério.

Tenho olhado para a vida de todas as formas possíveis e ela é sempre engraçada, seja qual for a forma pela qual você a olha. Ela se torna cada vez mais e mais engraçada! Trata-se de um incrível presente do além.

Eu sou contra toda sorte de seriedade. Toda a minha abordagem é a do humor, e a maior qualidade religiosa é o senso de humor — não a verdade, não a divindade, não a virtude, mas um senso de humor. Se nós enchermos toda a terra de riso, de dança e canto — as pessoas cantando e pulando...! — , se nós pudermos fazer desta terra um carnaval de alegria, um festival de luzes, nós teremos trazido, pela primeira vez, um verdadeiro senso de religiosidade para a terra.
Osho, em "Vida, Amor e Riso"

Como anda o seu humor? Você costuma rir de si mesmo? :)
Pois saiba que este simples fato é tido como o início do caminho espiritual, é o verdadeiro início da religiosidade.

Toda alegria nasce do coração. O coração é que ri de verdade.
O ego, nosso falso eu, começa literalmente a se derreter com essa alegria que vem do coração. O coração "quebra" a rigidez do ego zombando dele, brincando com ele, percebendo como essa vida não pode ser levada a sério, não pode ser vivida pelo prisma rígido da mente, da simples razão. É preciso que se perceba toda a falta de lógica que acontece na vida, e que mesmo assim continua bela, plena, absoluta, muito além dos conceitos, das falas da mente...

Quando rimos de nós mesmos, começamos a relativizar a nós mesmos, relativizar as imagens que temos de nós mesmos, da vida, e vamos assumindo nossa essência pura, ingênua, passível de falhas, autêntica. A essência não se importa em ser comportada e sempre "certa". A essência é criança que apenas vive a sua simplicidade natural nada mais. Percebe, sente e se expressa livremente, e o riso, a brincadeira são os sinais de que essa essência está se manifestando, está encontrando espaço para se manifestar. A censura da mente está mais frouxa, mais relaxada, mais porosa e com isso a luz natural está podendo passar e iluminar as cenas da vida, o momento.

Osho foi um grande mestre do riso, da alegria. Em todos os seus livros encontramos anedotas, histórias engraçadas, piadas, enfim, ele dizia que era um instante de relaxar a atenção da mente, um instante de respirar e de se sentir a brincadeira divina acontecendo onde a mente sempre colocava "coisas sérias".

O ego, jamais reconhece suas próprias faltas. Para ele é impossível rir de si mesmo, já que se mantem graças as imagens que cria de si mesmo, e isto exige basicamente seriedade e desempenho. Quando começamos a nos divertir conosco, com nossas ações e falas e tudo o mais, estamos sutilmente colocando este mesmo ego de lado, estamos mudando a perspectiva e deixando de sustentar uma estrutura falsa. Estamos indo mais fundo na pureza expressiva natural, que é a dimensão da criança em nós. Aquela dimensão sábia não por ser letrada, mas sábia por ser autêntica e estar em contato com o momento presente. Todo brilhantismo nasce dessa presença, dessa ressonância com o aqui e agora e tudo que nele acontece.

Por isso, da próxima vez em que se ver frente a situações engraçadas, solte-se e divirta-se com aquilo de verdade, sem medo. Deixe a alegria do seu coração fluir. O coração alegre canta solto, luminoso e muito mais cheio de Deus...
O riso é verdadeiramente a forma mais pura de oração!
Amor
Lilian

3 de fevereiro de 2012

O Desperto...


"Quando você está em sono profundo, o mundo fenomênico existe para você? Você não poderia, intuitiva e naturalmente, visualizar seu estado primitivo – seu ser original – antes que esta condição corpo-consciência irrompesse sobre você sem ser solicitada, por si mesma?
Neste estado, você estaria consciente de sua “existência”? Não, certamente.

A manifestação universal está apenas na consciência, mas o ‘desperto’ tem seu centro de visão no Absoluto. No estado original de puro ser, não consciente de sua qualidade de ser, a consciência surge como uma onda sobre a extensão das águas, e o mundo aparece e desaparece na consciência. As ondas se levantam e caem, mas a expansão das águas permanece. Antes de todos os princípios, de todos os fins, eu sou. O que quer que aconteça, devo estar presente para testemunhar.

Não é que o mundo não ‘exista’. Ele existe, mas meramente como uma aparência na consciência – a totalidade do manifesto conhecido na infinidade do desconhecido, o não manifestado. O que começa deve terminar. O que aparece deve desaparecer.

A duração da aparição é um assunto relativo, mas o princípio é que o que quer que seja sujeito ao tempo e à duração deve terminar e é, portanto, não real.

Você não pode perceber imediatamente que neste sonho da vida você ainda está dormindo, que tudo que seja reconhecível está contido nesta fantasia da vida? E que aquele que, enquanto conhecer este mundo objetificado, considerar-se uma ‘entidade’ separada da totalidade que conhece é, em realidade, parte integral deste mesmo mundo hipotético?

Considere também: Nós parecemos estar convencidos de que vivemos uma vida própria, de acordo com nossos próprios desejos, esperanças e ambições, de acordo com nosso próprio plano e objetivo, através de nossos próprios esforços individuais. Mas é realmente assim? Ou estamos sendo sonhados e vividos sem vontade, totalmente como fantoches, exatamente como em um sonho pessoal? Pense!

Nunca esqueça que, assim como o mundo existe, embora como uma aparência, as figuras sonhadas também, neste ou naquele sonho, devem ter um conteúdo – elas são o que o sujeito do sonho é. É por isto que digo: Relativamente ‘Eu’ não sou, mas eu mesmo sou o universo manifesto.
Nisargadatta Maharaj em The Nectar of Immortality

2 de fevereiro de 2012

Drop it!



"O único convite implícito em Satsang é para que você abandone o conteúdo. Sinalizando o mesmo, Osho costumava usar a terminologia "to drop" – deixar ir, descartar.
Este termo, no entanto, exige um certo cuidado ao ser compreendido, pois, quando falamos em "abandonar" ou "descartar", logo supõe-se um fazer, uma ação – que, por sua vez, supõe um sujeito –, e é aí que a grande maioria se perde.

O engano nasce quando você concebe a si mesmo como um colecionador de conteúdo, de conhecimento. Dessa forma, quando é sugerido que abandone a si mesmo, você se perde entre aquilo que deve ser abandonado e aquele que está a abandonar. Através do olhar correto, proponho uma outra forma – muito simples – de ver este quadro: todo o conteúdo é da mente e você não é a sua mente.

O que deve ser abandonado é a identificação com o conteúdo – que não tem nada a ver com você. Aquilo que acontece ao corpo é passível de tornar-se conteúdo apreendido pelo corpo. Aquilo que passa pela mente é registrado, elaborado e, na maioria das vezes, arquivado por ela. Você, no entanto, não tem nada a ver com isso!

Deixe que o corpo e a mente desfrutem de suas qualidades e interesses, e mantenha-se comprometido com a Observação inerente. Em ignorância, você tem se confundido com aquilo que é percebido e tem passado toda a sua vida ocupado com os sentidos. Mas aquilo que é percebido não é você.

Aquiete-se e comece a notar que todos os dias, por muitas vezes, ocorrem momentos sem nenhum conteúdo, sem nenhum pensamento. Você foi condicionado, treinado, forçado e empurrado a não perceber estes momentos. Agora, portanto, este deve ser o seu maior deleite: voltar-se à sua natureza original."
Satyaprem em Satsang
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