30 de novembro de 2014

Mente, medo e poder - Osho


"A mente tem muito medo de se abrir porque ela existe basicamente devido ao medo.

Quanto mais destemida for a pessoa, menos ela usará a mente. Quanto mais medo ela tiver, mais usará a mente.

Você talvez tenha observado que, quando está com medo, ansioso, quando existe algo que o preocupa, a mente fica em primeiro plano. Quando você está ansioso, a mente fica muito presente. Do contrário, a mente não fica tão presente.

Quando tudo vai bem e não existe medo, a mente fica para trás. Quando as coisas dão errado, a mente simplesmente salta na frente e assume a liderança. Em tempos de perigo, ela vira líder. A mente é como os políticos. Adolf Hitler escreveu em sua autobiografia, Mein Kampf, que você tem que deixar o país sempre com medo se quiser permanecer na liderança. Mantenha o país sempre com medo de que o vizinho vá atacar, de que existam países que estejam planejando um ataque, que estejam se preparando para atacar — continue criando rumores. Nunca deixe as pessoas sossegadas, porque quando estão sossegadas elas não se importam com os políticos.

Quando as pessoas estão realmente tranquilas, os políticos perdem o sentido.
Mantenha as pessoas com medo e o político será poderoso.
Sempre que há uma guerra, o político vira um grande homem. Churchill ou Hitler ou Stalin ou Mao — eles foram todos produtos da guerra. Se não houvesse uma Segunda Guerra Mundial, não haveria Winston Churchill e nenhum Hitler ou Stalin. A guerra cria situações, dá oportunidades para que as pessoas dominem e se tornem líderes. Com a política da mente acontece o mesmo.

A meditação não é nada mais do que criar uma situação em que a mente tenha cada vez menos o que fazer. Você fica tão sem medo, tão cheio de amor, tão em paz — fica tão satisfeito com o que quer que esteja acontecendo que a mente não tem nada a dizer. Então a mente logo vai ficando para trás, ficando para trás, tomando uma distância cada vez maior.

Um dia a mente recua completamente — e aí você se torna o universo. Você não fica mais confinado no seu corpo, não fica mais confinado em nada — você é espaço puro. É isso que é Deus. Deus é espaço puro.

O amor é o caminho rumo a esse espaço puro. 
O amor é o meio e Deus é o fim."
Osho em Coragem, O Prazer de Viver Perigosamente

26 de novembro de 2014

O Atemporal no instante - Tony Parsons


"Então a palavra sânscrita Advaita, aponta para algo que não pode ser falado. 
E embora se diga muita coisa, não podemos jamais descrever o que eles tentam dizer. Então, o que temos de fazer aqui é ir além do entendimento.

Mais a palavra sânscrita Advaita também aponta para a futilidade da ideia de que há unidade, e que há algo separado da unidade, que precisa encontrar a unidade.

Então, não haverá nenhuma possibilidade de se falar em alcançar um estado. Não vamos estar tentando aqui encontrar estados ou bem-aventurança, ou quietude ou silencio, ou mesmo Consciência. Não estamos aqui à procura de nada. Não vamos estar aqui tentando obter alguma coisa ou ir a algum lugar.
Porque aquilo que estamos falando é tão evidente que é totalmente desconhecido, e está tão disponível que é totalmente secreto.

O tempo todo existe alguém tentando obtê-lo mas permanece oculto. Procuramos por ele o tempo todo, e simplesmente não é visto.Não pode ser obtido, mas pode ser perdido, não pode ser ensinado, não pode ser dado e não pode ser retirado.

Não pode ser dito nada sobre isso, porque já é nada e tudo.

Não é a maior coisa nesta sala, é a única coisa nesta sala. É o único surgimento nesta sala. É tudo aquilo que acontece nesta sala. E dentro disso, dentro daquilo que procuramos; nós o estamos procurando. E o tempo todo estamos separados disso, ou acreditando estarmos separados disso e experimentamos estar separados disso. E depois estamos sempre à procura, estamos sempre em movimento para encontrar. E movimentamo-nos para encontrar algo quando isso está absolutamente imóvel.

Vivemos em um tempo, vivemos em uma contagem de tempo, em que nos movemos no tempo, para antecipar encontrar algo que é atemporal.
Então, o que podemos fazer juntos, é falar sobre isso e o que pode surgir são ideias sobre o que isto seja. Confusas talvez, e também podem surgir ideias precisas que podem dissipar a nossa confusão. Mas o que estamos a falar, não tem nada a ver contigo ou comigo. Absolutamente nada a ver contigo ou comigo. Não tem nada a ver com experiências pessoais.Você não vai obter isso. Jamais alguém obteve isso, porque isso tem a ver com ser ninguém.

Eu não o obtive. Eu não sei algo que você não saiba. Eu não tenho algo que você não tenha. Isso é sobre perda. Isso é sobre perda total. Trata-se da perde que crescemos acreditando. Crescemos acreditando que somos indivíduos, que somos indivíduos separados. Crescemos acreditando que temos vontade, livre arbítrio e escolha. E que podemos fazer alguma coisa em relação às nossas vidas. Fazer funcionar as nossas vidas no mundo. E de uma maneira ou de outra, a mente procura ajudar-nos a fazer isso. Crescemos acreditando que existe algo acima de nós que faça nossa vida valer a pena. Alguns são sensíveis à ideia de que não é apenas bem sucedido, ser rico e tudo isso. Assim, procuramos na religião, ou terapia, ou procuramos na meditação ou procuramos na auto investigação, procuramos na escola da iluminação por aquilo que nos leve a uma espécie de totalidade. Nós sabemos que algo não está completo.(...).


Então, depois a mente pinta um quadro de como é a iluminação. Iluminação é bem-aventurança, onipresença, onipontencia. você ama a todos, e todos amam você. Você caminha numa espécie de tapete cor de rosa. E as pessoas chegam até os seus pés e dizem: És iluminado? E você diz: Sim! - risos... (...)

Arranjamos esta ideias de que quanto mais difícil isto for, mais a mente fica com uma ideia de como é a iluminação. É a loteria, a loteria espiritual. É a maior loterial que você poderia ganhar. É melhor do que ganhar dinheiro. Porque você tem tudo. Está totalmente seguro, totalmente em bem aventurança, é tudo maravilhoso.
E está é a dificuldade, porque naturalmente iluminação não é nada disso.

Iluminação é libertação é absolutamente banal.É absolutamente banal! Não é maravilhosa nesse sentido. Não é bem aventurança, não é a resposta para todas as coisas. A vida continua depois disso. A vida continua da mesma forma que era. Ainda acontecem as outras coisas na vida.

Mas a diferença na libertação é o deixar cair qualquer sentimento de que existe alguém a quem a vida acontece.

Libertação é ausência, libertação é a perda - a perda do indivíduo. E nessa perda, nesse vazio de não se ser ninguém, esse vazio é pleno. Esse vazio também é plenitude. E quando não há nada, a sensação de tudo é nada.

Então, o que estamos falando aqui, o que estamos partilhando juntos, é a possibilidade de perder a sua vida. (risos...) A possibilidade de deixar cair o sentimento de que há um indivíduo e a possibilidade de reconhecer, que o que está acontecendo, não acontece a ninguém. O que acontece simplesmente acontece em queda livre.

A vida acontece. A dificuldade com descrição da libertação, está na forma como as palavras não a conseguem realmente abrangê-la. A palavra mais próxima que posso aplicar é Ser. Tudo o que existe é Ser.

E outra forma para a descrever é dizer que tudo o que existe é vitalidade. Isso é o mais próximo daquilo que reconhecemos. Tudo o que existe nesta sala é vitalidade. Tudo o que existe nesta sala é o que está acontecendo.

Fechando os olhos ou não - mas se os fechar verá que tudo o que existe são experiências acontecendo. O ver acontece, o respirar acontece, o ouvir esta voz acontece. É tudo o que existe é o que está acontecendo.

Libertação é a realização do que apenas existe, apenas o que está acontecendo. Mas, que não há ninguém a quem aconteça o que está acontecendo. Não há ninguém a quem isso aconteça, a quem a vida aconteça, a quem o Ser aconteça. E certamente é compreendido por ninguém, o que é um mistério, que tudo o que existe é vida, tudo o que existe é Ser.
E este Ser inclui tanto nada como tudo. Não apenas o que acontece em termos de atividade.É essa atividade que também abrange tanto nada como tudo. É tanto vida como morte. É plenitude e vacuidade.

É um mistério. Não pode ser descrito e ninguém pode ver, nenhum indivíduo pode ver. Porque em termos de indivíduo, o indivíduo vê através de um véu, do ponto de vista de estar separado e não consegue ver o todo.

Na libertação, o indivíduo desaparece e aí existe a totalidade.

Então, podemos conversar uns com os outros e ao nível dos conceitos, pode surgir alguma clareza, de que a coisa mais poderosa que pode surgir nestes encontros é a liberdade energética.

A individualidade significa contração, viver na delimitação da pele. Libertação é ilimitado, então há uma expansão em direção ao ilimitado. Isso é possível quando as pessoas se reúnem desta forma.
Porque o que estamos fazendo é falando para o nada. Questionamos nada, encontramos inexistência. Encontramos aquilo que somos, inexistência, estados do Ser.

Qualquer pergunta, fazer qualquer pergunta, não interessa qual pergunta seja, se a pergunta surge, está aí para surgir e encontrar nada..e de certa forma ser respondida pelo nada. Porque a mente nunca pode conhecer isso. A mente pode continuar a questionar isso eternamente e nunca chegar a lugar algum. A mente então começa a desistir, simplesmente desiste.

Isto é totalmente simples, absolutamente simples, e muito difícil. É simples, porque é totalmente óbvio. E é difícil, porque é assustador para o indivíduo.
O sentimento de perda da individualidade é uma ideia assustadora para o indivíduo. Mas ninguém pode obter isso e ninguém pode perder. Ninguém o pode compreender. Ou é visto ou não é visto."
Tony Parsons em Satsang

24 de novembro de 2014

Dissolva-se no oceano da Existência - Osho


"A vida possui duas dimensões. Uma é horizontal — na qual todos vocês estão
vivendo, na qual vocês estão sempre pedindo por mais e cada vez mais e mais. A quantidade não é a questão; nenhuma quantidade vai satisfazê-los.
A linha horizontal é a linha quantitativa.

Você pode ir seguindo sem parar. Ela é como o horizonte — à medida que você segue adiante, o horizonte continua recuando. A distância entre você e a meta do seu "cada vez mais", a meta do desejo, permanece sempre a mesma.

Ela era a mesma de quando você era uma criança, era a mesma de quando você era jovem, será a mesma quando você for idoso.
A distância permanecerá a mesma até o seu último suspiro.

A linha horizontal é uma ilusão.
O horizonte não existe, somente aparenta — lá, talvez a apenas algumas milhas de distância, o céu esteja encontrando-se com a terra. Eles não se encontram jamais.

E a partir do horizonte vem a linha horizontal — sem fim, porque a meta é
ilusória; você não pode torná-la realidade. E a sua paciência é limitada, seu período de vida é limitado. Um dia, você percebe que tudo parece fútil, sem significado: "Estou me arrastando sem necessidade, me torturando, chegando a lugar nenhum..." Aí então o oposto surge em você — "Destruir-se. Não vale a pena viver, porque a vida promete, mas jamais dá o prometido."

Mas a vida tem uma outra linha — uma linha vertical. A linha vertical se move em uma dimensão totalmente diferente. Em tal experiência, por um momento, você vira sua face na direção vertical.

Você não está pedindo — eis por que está recebendo. Você não está desejando — eis por que tanto torna-se disponível a você.
Você não tem uma meta — eis por que você se aproxima tanto dela.

Devido a não haver nenhum desejo, nenhuma meta, nenhuma pergunta, nenhum pedido, você não tem qualquer espécie de tensão — você está completamente relaxado. Nesse estado relaxado está o encontro com a consciência.

O medo surge no momento em que você chega ao ponto de dissolver sua última parte, porque, então, será irrevogável: você não será capaz de retornar.
Já contei muitas vezes um belo poema de Rabindranath Tagore.

O poeta estava procurando por Deus há milhares de vidas. Ele o via às vezes, lá longe, próximo a uma estrela, e ele começou a mover-se naquele caminho, mas, no momento em que chegou àquela estrela, Deus mudou-se para outro lugar.

Mas ele continuou procurando e procurando — ele estava determinado a descobrir a casa de Deus — e a surpresa das surpresas foi que, certo dia, ele de fato chegou a uma casa onde na porta estava escrito: "Casa de Deus".

Você pode compreender o seu êxtase, pode compreender sua alegria. Ele corre escada acima e, bem na hora em que ia bater à porta, de repente sua mão gela. Surge-lhe uma ideia: "Se por acaso esta for realmente a casa de Deus, então, estou morto, minha busca acabou. Fiquei identificado com a minha busca, com a minha procura. Eu não sei fazer mais nada... Se a porta se abrir e eu encontrar-me com Deus, estou morto... — acabou-se a busca. 

E depois? Depois há uma eternidade entediante — nenhum excitamento, nenhuma descoberta, nenhum desafio novo, pois não pode haver nenhum desafio maior do que Deus."

Ele começou a tremer de medo, tirou os sapatos dos pés e desceu de volta os lindos degraus de mármore. Ele tirou os sapatos, de modo que não fosse feito
nenhum barulho, pois o seu medo era até de fazer barulho nos degraus... Deus podia abrir a porta, embora ele nem tivesse batido. E, então, ele correu tão depressa quanto jamais correra antes.

Ele pensava que estava correndo atrás de Deus tão depressa quanto podia, mas nesse dia, subitamente, ele encontrou a energia que jamais tivera antes. Correu como jamais tinha corrido, sem olhar para trás.

O poema termina assim: "Eu ainda estou procurando por Deus. Conheço sua casa, assim a evito e busco em outro lugar. A excitação é grande, o desafio é grande e, na minha busca, eu prossigo, continuo a existir. Deus é um perigo — eu seria aniquilado. Mas agora eu não tenho medo nem de Deus, porque conheço Sua casa. Sendo assim, deixando de lado a Sua casa, continuo procurando por Ele, ao redor de todo o universo. E lá no fundo eu sei que
minha busca não é por Deus: minha busca é para nutrir o meu ego."

Eu coloco Rabindranath Tagore como um dos maiores religiosos do nosso século, embora ele não seja, comumente, relacionado à religião. Mas somente um homem religioso de enorme experiência poderia escrever este poema; não é apenas uma poesia comum: ela contém uma grande verdade.

E é isso o que a sua questão está levantando. Relaxado, você chega a um momento em que você sente que vai desaparecer, e então você pensa: "Talvez
isto seja um instinto suicida."; e retorna ao seu velho mundo miserável. Mas esse mundo miserável possui uma coisa: ele protege o seu ego, permite-lhe ser.

Esta é uma estranha situação: a bem-aventurança não permite você; você tem de desaparecer. É por isso que você não vê muitas pessoas abençoadas no mundo. A infelicidade nutre o seu ego — é por isso que você vê tanta gente infeliz no mundo. O ponto central, básico, é o ego.

Sendo assim, você não chegou a um ponto de suicídio. Você chegou a um ponto de nirvana, de cessação, de desaparição, do apagar da vela. Esta é a última experiência. Se você puder juntar coragem... só mais um passo... A existência está apenas a um passo distante de você.

Não dê ouvidos ao lixo da sua mente, dizendo que isto é suicídio. Você não está
bebendo veneno, nem se dependurando numa árvore, e nem tampouco dando um tiro de revólver em si mesmo — onde o suicídio? Você está simplesmente tornando-se mais tênue e cada vez mais e mais tênue. E chega um momento em que você está tão diluído e tão espalhado por toda a existência, que você não pode dizer que você é, mas pode dizer que a existência é.

A isto chamamos de iluminação, não de suicídio.
A isto chamamos de realização da suprema verdade. Mas você tem de pagar o preço. E o preço não é nada, senão o abandono do ego. Sendo assim, quando um tal momento vier, não hesite. Dançando, desapareça... com uma grande gargalhada, desapareça; com canções em seus lábios, desapareça.

Eu não sou um teórico, isto aqui não é uma filosofia minha. Eu cheguei à mesma linha limítrofe muitas vezes, e retornei. Eu também encontrei a casa de Deus muitas vezes e não pude bater. Jesus tem alguns dizeres... Um dos dizeres é este: "Bata, e a porta se abrirá para você." Se esta frase tem algum sentido, este é o sentido que estou lhe dando agora.

Assim, quando esse momento vier, regozije-se e dissolva-se. É da natureza humana — e compreensível — que muitas vezes você retorne. Mas essas muitas vezes não contam. Uma só vez, junte toda a coragem e dê um salto.

Você será, mas de modo tão novo, que não poderá conectá-lo com o velho. Será uma descontinuidade. O velho era tão frágil, tão restrito, tão medíocre... e o novo é tão vasto... De uma pequenina gota de orvalho, você tornou-se o oceano.
Mas até mesmo uma gota de orvalho, ao escorregar de uma folha de lótus, treme por um momento, tenta agarrar-se um pouco mais, porque ela já pode ver o oceano... uma vez que tenha caído da folha de lótus, acabou-se.

Sim, de certo modo, ela não mais será — como uma gota de orvalho, ela terá deixado de ser. Mas isso não é uma perda. Você será oceânico.
E todos os outros oceanos são limitados.
O oceano da existência é ilimitado."
Osho em O Livro dos Segredos IV

22 de novembro de 2014

A morte é o outro lado do ego - Osho


"Qual é a sua atitude em relação à morte?

Osho - Um místico que estava sendo conduzido à forca, viu uma grande multidão correndo na frente dele. "Não tenham tanta pressa" - disse-lhes ele. "Eu posso lhes garantir que nada vai acontecer sem mim." 

Essa é a minha atitude em relação à morte: ela é a maior piada que existe. A morte nunca aconteceu: ela não pode acontecer pela própria natureza das coisas, porque a vida é eterna. A vida não pode terminar; ela não é uma coisa, é um processo. Não é algo que começa e termina; não tem início nem fim. Você sempre esteve aqui em diferentes formas, e sempre estará aqui em diferentes formas ou, finalmente sem forma. É assim que um buda vive na existência: ele se torna sem forma. Ele desaparece totalmente da forma densa.

A morte não existe; ela é uma mentira - mas parece muito real. Apenas parece muito real, mas não o é. Parece assim porque você acredita demais em sua existência separada. O fato de acreditar que você está separado da existência é que proporciona realidade à morte. Abandone essa ideia de estar separado da existência e a morte desaparece.

Se eu sou um com a existência, como posso morrer? A existência estava aí antes de mim e estará aí depois de mim. Sou apenas uma onda no oceano, e a onda vem e vai; o oceano permanece, sobrevive. Sim, você não estará aí - como você é, não estará aí. Esta forma vai desaparecer, mas aquele que habita essa forma vai continuar habitando, quer em outras formas ou, finalmente, na ausência de forma.

Comece a sentir um com a existência, porque essa é a realidade. Por isso minha reiterada insistência em deixar desaparecer a distinção entre o observador e o observado, o máximo de vezes durante o dia. Encontre alguns momentos - sempre que puder encontrar, onde puder encontrar - e simplesmente deixe desaparecer essa distinção e diferença entre o observador e o observado. Torne-se a árvore que você está olhando, torne-se a nuvem para qual esta á olhando, e lentamente, muito lentamente, você começará a rir da morte. (...)

Esta é a minha atitude em relação à morte. Uma risada!
Deixe que o riso seja a sua atitude em relação à morte. Essa é uma mentira cósmica criada pelo próprio homem, criada pelo ego, pelo ego, pela consciência de si.

Por isso na natureza nenhum outro animal, pássaro, árvore, tem medo da morte. Só o homem, e ele transforma em um tremendo drama... passa toda a vida com medo. A morte está cada vez mais próxima, e por causa da morte, ele não consegue se permitir viver plenamente. Como você pode viver se sente tanto medo? A vida só é possível sem medo. A vida só é possível com amor, não com medo. E a morte cria medo.

E quem é o culpado? Deus não criou a morte; ela é uma invenção do próprio homem. Crie o ego e você terá criado o outro lado dele - a morte."
Osho em A Jornada de Ser humano

20 de novembro de 2014

Compreendendo a dor - Jeff Foster


"Sua dor, sua doença, seu desconforto presente, não é nada para se envergonhar. Não é um sinal de seu fracasso, nem um castigo, nem uma prova, nem mesmo 'má sorte'. Não é nem o sentido nem o significado de sua vida. Mas contém uma grande inteligência e poder de cura. Se você sabe onde, e como procurar.Vamos começar pelo começo. 

Você está experimentando a dor em seu corpo. É intenso e desconfortável. Você tem ido a muitos médicos, curandeiros,terapeutas, especialistas em auto-ajuda. Você já tentou a medicina ocidental, as terapias alternativas, a energia de cura, meditação, cânticos, mudar sua dieta, drogas, experiências espirituais alucinantes, transmissões de gurus, orações, retiros, hipnose. Você já tentou o pensamento positivo, entorpecendo a sua dor, ignorando sua dor, dizer "não" a ela; você já tentou ser "consciência pura" ou uma "testemunha independente '... Mas a dor ainda está aqui, e parece que ninguém pode ajudá-lo agora. O que você pode fazer?

Você vai continuar procurando uma solução, uma terapia que funciona? Coloca suas esperanças em um futuro que pode ou não vir? Ou você vai desistir agora e simplesmente aceitar que não há nada que você pode fazer?

A resposta pode estar bem no meio, como a maioria das respostas reais estão.

Veja, talvez a sua dor tenha algo para lhe mostrar, coisa que o prazer, ou a ausência de dor ou mesmo "conseguir o que queria", nunca poderiam fazer. Talvez por isso a dor esteja aqui, para revelar o seu verdadeiro caminho. Não para destruí-lo, mas para "focar" você. Para revelar uma coragem, compaixão e equanimidade em si mesmo que você nunca imaginou ser possível. Para te tornar mais humilde, para trazê-lo para um lugar de gratidão, e de calma. 

Então reformulemos a questão inicial: "Como posso ser livre de dor agora?", por: "Existe alguma inteligência nesta dor? Existe um convite mais profundo aqui? Há uma lição presente nessa minha dor? Existe algo que desejo que se cumprida? Algo até então escondido, algo que agora quer se fazer conhecido? "

Me diga o que é pior? Você ou a sua demanda para estar livre da dor agora? 
O que é pior? O momento-a-momento, sensações físicas no corpo, ou a sua guerra contra eles? 
O que é pior? A dor ou a sua frustração e desespero de que a dor "ainda está aqui" e "não desapareceu ainda"? 
O que é pior? A dor ou a sensação de que você está preso dentro de seu corpo, que você se decepcionou com o organismo? 
O que é pior? O seu próprio corpo, ou suas esperanças e sonhos despedaçados pela dor?

Você pode querer explorar o que realmente está causando a maior parte do seu stress, depressão e medo. É o stress ou a sua atitude para com ele que causa a dor? Você pode achar que há um mundo de diferença entre a dor física, e seu sofrimento e tristeza em torno da dor. Você pode achar que você realmente sente muito pior quando você pensa sobre a sua dor, reflete sobre isso, cria e fica obcecada por ele. Quando você pensa sobre a dor de ontem ou ausência de dor, quando você imagina a dor futura, quando você fantasia sobre a dor que nunca vai embora, imaginando que ela acabará por matá-lo; quando você pensa em todas as coisas que você fez de errado - você está sofrendo, e esta é a parte desnecessária. Todos esses são pensamentos, imagens, idéias, sugestões, perspectivas, memórias, fantasias - e não a realidade viva do momento presente.

Quando você desconecta do momento presente, e mergulha em sua história SOBRE a sua dor, você pode achar que os sentimentos de frustração, medo, raiva e até mesmo transtorno começam a acumular-se. Você começa focando tantas coisas que você não tem controle direto agora. Você sonha com um passado quando estava livre da dor, e fica lembrando em como voltar para lá ( não é possível ). Tudo era tão bom... Você acha que a sua dor está impedindo você de fazer o que você quer fazer, faz você parar de viver a vida que você tinha planejado... Você imagina um futuro cheio de dor e desconexão...

E você começa a sentir-se impotente, e terrivelmente desapontada, e até mesmo cheia de raiva contra a vida, o universo e tudo mais. Esta não era a vida que você esperava ou imaginava; a vida que havia sido prometida a você. Você se concentra em todas as coisas que você não pode fazer mais, todas as coisas que não existem mais, todas as coisas que você perdeu, todas as coisas que nunca mais voltarão. Você culpa a sua dor por arruinar sua vida. Você se sente tão longe da cura, do amor, da sua verdadeira vida; tão desconectada do seu corpo, de modo isolado, solitário...

Você já tentou de tudo, tudo, menos o óbvio: aceitar a sua dor, estando presente com ela, hoje.

Agora, vamos ser claros sobre isso: a aceitação não significa desistir da possibilidade de que a dor diminuia ou mesmo desapareça amanhã, ou na próxima semana ou no próximo ano. Significa apenas que sua paz não é mais dependente ou não disso acontecer.

Você está recuperando a sua felicidade, hoje, não importa o que o futuro traz.

Aceitando a sua dor não significa renunciar a si mesma para o destino, sendo uma vítima da vida. 
Muito pelo contrário! 
Significa a saída de todos os seus pesadelos e histórias baseadas no medo do passado e do futuro, e se alinhando como e onde você está hoje. Significa ser uma aliada do hoje, e não a sua vítima. Significa dizer SIM para onde você está agora, mesmo que 'onde você está' não é onde você esperava que fosse. Significa estar em profundo contato com este momento, com este corpo e seu potencial de cura, com o chão em que você está, com todo um universo como ele dança. Isso significa admitir que você não está no controle desse cosmos, e que há uma inteligência mais profunda presente aqui, trabalhando, infinitamente mais sábia do que este pequeno ego humano. 

Isso significa admitir que você não pode saber o que a próxima cena do filme de sua vida será. Significa a saída da história do tempo e do espaço. Isso significa confiança e começar a agir a partir de um lugar de confiança. Isso significa apoiar-se na criatividade do momento; estar aberta à conexões inesperadas, soluções, respostas, e sim, alegrias.

Quando você luta contra a sua dor, quando você age a partir dela, você se torna uma vítima porque você está permitindo que ela tenha poder sobre você, permitindo que o seu contentamento seja diminuído por causa disso. Você está dando energia à dor, através de sua resistência a ela, através de seu foco na tentativa de se livrar dela, tentando escapar e mesmo tentando "curar" isso. 

Há violência aí. E como você viu, a sua tentativa de se livrar de sua dor não conseguiu nada até agora; sua resistência não levou à verdadeira cura. Essa guerra só cria mais e mais separação entre você e seu corpo, separação da presença que você é, te separa da paz, separa dos seus entes queridos, da gratidão, da inteligência do momento - que é a fonte da verdadeira cura. E também esgota você, esgota seus estoques de energia. 

Pense em toda a energia que tem desviado para essa guerra entre você e a dor - energia que poderia ser usada para alimentar-se, e curar-se. Quando você cai na dimensão de recepção, você está podendo ver agora a dor como uma aliada, um guia, um professor, não é uma ameaça à sua vida, a dor, a doença se tornam um caminho. 

O SIM é a sua recuperação de energia, e não a sua passividade. Você está liberando algo desnecessário, e não se tornando uma vítima ou tolerando algo indesejado.

Você sai do seu pensamento-história "a dor deveria ter ido embora" ( você não pode saber isso ) ou "a dor nunca vai embora" ( você não pode saber isso ). Tudo isso são pensamentos do passado e do futuro, pesadelos e sonhos. 

Você para de comparar onde você está com o local onde você queria estar. Você para de criar a imagem de "ausência de dor", e você para de comparar este momento com essa imagem. Você soltou a história "Eu deveria ter vivido de forma diferente - Eu criei essa dor - Eu sou o culpado". Isso é rebobinar o filme da sua vida, e você não tem poder nesse sentido também. Você remove o fardo do tempo, tornando-se presente neste momento. Presença é a sua verdadeira fonte de poder - e, finalmente, de cura.

Você pára de focar em todas as coisas que você não pode fazer agora, todas as coisas que não são possíveis a você fazer agora. Esse foco na falta e na ausência e "no que não está aqui 'só vai fazer você se sentir mais deprimida e impotente e desligada. Você volta seu foco para o que você pode fazer, para o que você é, o que está presente, o que não foi perdido, o que ainda é possível, para os dias de hoje, para todas as coisas que a dor não pode tocar. Todas as coisas que fazem sua vida valer a pena. Todas as coisas que, mesmo com a dor, continuam presentes nas sua vida. Talvez a coisa toda seja um apelo à simplicidade radical.

Você se torna curiosa sobre onde você está agora - esta cena é o presente no filme de sua vida. Você se torna fascinada com esse momento, com o que é vivo, e onde você está. Esta respiração. Essas sensações. O sentimento da terra sob seus pés. O som de um pássaro cantando. Uma cena que você observa da janela. E a dor está aqui também. 

Você percebe em você o desejo de que a dor vá embora - você não fazer disso um inimigo. Você percebe um desejo profundo de estar livre da dor, para escapar para algum outro tempo ou lugar. Você percebe uma frustração, uma decepção que a dor ainda esteja aqui, que ainda não evaporou. Você não luta com esses pensamentos ou sentimentos; observe-os, continue curiosa, conectada com o momento que você começa a permitir que esses sentimentos dentro de si mesmo também aconteçam, sem se misturar com eles. 

Assim, você sai de sua mente e entra em sintonia com seu corpo. Você sente a respiração, o movimento dela, o ritmo, seu imediatismo, a sua presença. Você sente como a respiração sobe e desce como uma onda em um vasto oceano. Você sente a barriga se expandir e contrair. Você sabe que você está aqui, neste momento. Fundamentada, presente e viva. Um exploradora corajosa. Disposta a investigar, e sem se apressar a nenhuma conclusão.

Você sai da história de sua dor, a narrativa da dor de ontem e de amanhã, a memória da dor do passado e da antecipação de futuras dores. Isso é tudo tão avassalador, quanta história. Pare de pensar SOBRE a sua dor agora, e realmente se comprometa a atender a sua dor no momento presente. 
Volte às sensações físicas do corpo. Por um momento, abandone a palavra "dor" ( uma palavra muito pesada, sólida do passado ) e diretamente explore e sinta as sensações físicas, que constituem a sua experiência presente de dor. Será que o corpo se sente apertado, frouxo, frio?  Pode ser pesado, faminto, febril, quente? 

Agora, um passo adiante, deixe cair ainda estas palavras, e volte para as sensações reais, sem rotulá-las, com um espírito de curiosidade e abertura. Apenas sinta, e observe, sem rotular, sem nenhuma explicação. Pura observação daquilo que sente o corpo.
Lembre-se, você não está tentando se livrar das sensações, detê-las, fazê-as ir embora, ou mesmo curá-las. Está ficando muito perto, trazendo sua atenção e escuta suaves e o calor da sua presença para cada parte do seu corpo que está implorando por sua atenção. 

Mantenha sua exploração. Você pode encontrar um "centro" para a sua dor? A sua dor tem um limite? Será que ela pulsa ou vibra? Experimente com a tentar mover a sua atenção para o núcleo de sua dor. Se as sensações começam a mover-se, siga-as no corpo. 

Se ficarem mais intensas, tudo bem - permaneça presente, atenta e curiosa. Se elas começam a dissipar-se, expandir-se, suavizar-se, maravilhoso - fique por perto, atenta. Não espere nenhum resultado particular, mas permita que o que acontecer seja visto por você. Qualquer expectativa, quando segura por muito tempo, pode levar à decepção em face da realidade. Observe, simplesmente. Tudo o que aparecer, acolha, e deixe passar.

Se desejar, você pode experimentar uma brincadeira com a sua respiração. 
Como você respira, sinta ou imagine o ar da sua respiração fluindo para a área desconfortável, infundindo-lhe vida e oxigênio. Você está dignificando aquele lugar em você. Você está lembrando que ele tem o direito de estar aqui também; o direito de ser incluído na respiração e no corpo e não excluídos. É muito amoroso se respirar conscientemente na dor, isso faz com que se evapore a divisão ilusória entre você ( consciência ), a respiração e o corpo. 

Em vez de contrair em torno da dor, contraindo-se em torno dela, você está respirando dentro dela, inundando-a com amor, a respiração é vida. Você está honrando a presença da dor agora, ao invés de esperar por sua ausência no tempo. Você está lhe dando um OK! profundo no coração da experiência. Você não está tentando fazer a dor ir embora, mas explorando a natureza da sua aparência.

Você pode começar a notar que, como tudo na vida, a dor não é sólida, mas uma massa amorfa de sensações, mudando de momento a momento. Às vezes você vai realmente olhar e achar que a dor não está lá. Às vezes, com atenção e gentileza, uma dor intensa vai amolecer, dissipar, relaxar, se tornar menos nítida, mais difusa. Às vezes, a dor pode ficar bastante intensa. Às vezes você vai ser tão absorta em outra coisa - uma peça de música, uma conversa, uma caminhada na natureza, uma meditação, um belo sonho - que você vai esquecer sua dor está mesmo lá. ( A dor está lá quando você não está ciente dela? ). Você pode aprender a valorizar esses momentos. 

Sua experiência real de dor está constantemente mudando, evoluindo, mudando, nunca é a mesma duas vezes. 

A história "Eu estou com dor" ou "A dor é constante", muitas vezes nem sequer começar a descrever a realidade viva, momento-a-momento de dor. Lembre-se, a partir da perspectiva do momento presente, não existe tal coisa como "sempre", "nunca", nem mesmo 'constante'. Não há ontem, nem amanhã. Há somente agora. Agora é tudo o que você está lidando.

Você pode ver a sua dor como um inimigo, essencialmente, "ruim" ou "errado" ou um "erro", ou você pode vê-la como um aliada na sua exploração corajosa da vida. Muitos têm de acordar do sonho de não sofrer, apesar da dor, mas por causa da dor. 

A dor lhes ensina a abrandar e prestar atenção às partes de si mesmos; elas podem nunca receber atenção de outra forma. Ela ensinou-os a sair das histórias do passado e do futuro, e inclinar-se para o momento presente. Ela ensinou-os a respirar, explorar, e a ser grata pelas pequenas coisas. Para se tornar suaves, mas poderosos. Para se concentrar no que é realmente importante na vida. Para valorizar o dia, para ver a preciosidade em cada encontro; seja um momento de alegria, momento de tristeza, sempre é um momento de se fazer amizade com tudo - até mesmo as suas decepções, até mesmo os seus medos, até mesmo os seus momentos de desespero. Ensinou a sair dos sonhos de 'o que poderia ter sido', e acordar para a realidade 'daquilo que que é '. 

Para muitos, a dor lhes ensinou a humildade; ela abriu o seu ego, e partiu em mil pedaços todos os seus sonhos ultrapassados de espiritualidade, e os trouxe a um lugar de entrega e amor, aqui e agora. Ela obrigou-o a passar pelo seu verdadeiro caminho. Ironicamente, ela ensinou-lhes o verdadeiro sentido da cura.

Se você parar de se comparar, meu amigo, minha amiga, você pode encontrar presentes e ensinamentos ocultos em sua experiência única de dor. E a sua intenção pode mudar - de se livrar da dor, para ouvi-la, estar aberto à sua presença, querendo saber o que está ela lhe pedindo. Você pode mover-se da violência e do desespero, para a gentileza, a aceitação, a calma e a paciência. Você pode começar uma conversa amigável com a sua dor.

A dor pode destruir você, ou ela pode concentrar você, te tornar mais atento, mais focado. Ela pode levá-lo mais profundo no sono e na depressão, ou pode acordá-lo. Ela pode transformá-lo em uma vítima, ou ela pode ajudá-lo mais do que nunca, a se sentir mais poderoso, mais alinhado, mais conectado com a sua verdadeira vida.

Não estou dizendo que você deve tentar 'gostar' da sua dor. Isso não é realista. Eu não estou dizendo que você deva se tornar um masoquista ou um guerreiro destemido. Isso é desnecessário. Não estou mesmo dizendo que você deva desistir de procurar um médico, um curador, um terapeuta, um amigo que possa ajudá-lo a dar-lhe uma outra perspectiva sobre a fonte de sua dor. 

Eu estou pedindo que você - enquanto isso, por hoje, pelo menos - ouça a sua dor, e encontre a inteligência nela. Para sair dos pesadelos e histórias baseadas no medo que cercam a sua dor; estou pedindo para parar de pensar muito em sua dor, e tentar um pouco de gentileza, e exploração. Lembre-se de que a aceitação não pode fazer a sua dor piorar. Ela só pode levá-lo mais profundamente ao grande mistério da cura.

E um dia, que pode não ser tão longe assim, você pode olhar para trás e agradecer a sua dor por mantê-lo ligado à terra, curioso, atento e aberto. 
Você pode perceber que a sua dor não foi na verdade 'pedras no seu caminho' - e sim que, a dor realmente era 'parte do seu caminho', e foi de todos, o seu maior mestre."
Jeff Foster em Satsang

17 de novembro de 2014

A aranha e a teia - Osho



"Eu ouvi uma história dinamarquesa. Lembre-se dela, deixe que ela se torne parte da sua consciência.
Essa história conta sobre uma aranha que vivia lá no alto, nos caibros do telhado de um velho celeiro. 

Um dia ela desceu por um longo fio até uma viga mais baixa, onde descobriu que as moscas eram mais abundantes e mais fáceis de capturar.
Ela então, decidiu que passaria a viver nessa viga mais baixa e teceu ali uma confortável teia. 


Mas um dia, ela reparou por acaso no longo fio que vinha de cima, mergulhado na escuridão lá em cima e disse: ' Eu não preciso mais desse fio. Ele só está atrapalhando'. Ela então, cortou o fio, e ao fazer isso, destruiu toda a sua teia, que era sustentada por esse fio. 

Essa é também a história do ser humano.
Um fio liga você ao supremo, ao mais elevado - chame-o de Tao, existência, divindade. Você pode ter esquecido completamente que desceu por este fio.
Você veio do Todo e tem de voltar para lá. Tudo volta para a fonte original: tem de voltar.
Então, você pode até sentir o que esta aranha sentiu, que o fio que o liga ao plano mais elevado só está atrapalhando. Muitas vezes é por causa dele que você não pode fazer algumas coisas: ele sempre acaba ficando no meio do caminho.
Você não pode ser tão violento quanto gostaria; não pode ser tão agressivo quando gostaria; não pode odiar tanto quanto gostaria - o fio está sempre no caminho.

Às vezes você pode se sentir como essa aranha - com vontade de cortá-lo, de parti-lo como ela fez, para desobstruir o seu caminho. Foi isso que disse Nietzsche: 'Deus está morto'. Nietzsche partiu o fio. Mas em seguida enlouqueceu. 
No momento em que ele disse: Deus está morto, ele enlouqueceu, porque rompeu a ligação com a fonte original de toda a vida.

Quando faz isso, a pessoa passa a ter fome de algo vital, essencial. Ela acaba perdendo alguma coisa e se esquece completamente que ela era a própria base da sua vida.

A aranha cortou o fio, e com isso, destruiu a própria teia, que era sustentada por esse fio."
Osho em O Cipreste no Jardim

15 de novembro de 2014

O Puro Ser tudo preenche - Nisargadatta Maharaj


"Pergunta: Como é que eu vou me pensar desse modo se meus pensamentos vêm e vão conforme querem? (os pensamentos vêm e não são nossos, porque a escolha e a decisão também não são nossas). 

O falatório interminável dos pensamentos (o filme emotivo-imaginativo) me distrai e me deixa exausto, na tentativa de controlá-lo.


Nisargadatta Maharaj: Observa os teus pensamentos assim como observas o movimento na rua, como observas as nuvens flutuando no céu. As pessoas vêm e vão; registra isso sem resposta (sem qualquer reação). Pode não ser fácil no início, mas, com alguma prática, irás descobrir que a tua mente pode funcionar em vários níveis ao mesmo tempo e que podes estar ciente de todos eles. 

Apenas quando tens um forte interesse num nível específico é que a tua atenção é aprisionada nele e os outros níveis te são ocultos. 

Neste caso, o trabalho nos níveis barrados continua fora do campo consciente. Não lutes com as memórias e pensamentos; tenta apenas incluir no teu nível de atenção outras questões mais importantes como "Quem sou eu? Como é que nasci? De onde vem este Universo à minha volta? O que é real e o que é falso?" Nenhuma memória irá persistir se perderes interesse nela; ela é a ligação emocional que perpetua o laço (com tudo que está a acontecer; não te esqueças que és apenas testemunha; não adianta tentares interferir).

Estás sempre à procura de prazer, evitando a dor, sempre atrás da felicidade e da paz. Não vês que é essa mesma busca por felicidade que te faz sentir infeliz? Tenta de outro jeito: indiferente à dor e ao prazer, sem perguntar, sem recusar, dá toda a tua atenção ao nível no qual "Eu sou" está eternamente presente. 

Em breve irás perceber que a paz e a felicidade são a tua própria natureza; é apenas quando as procuras por canais específicos que elas são perturbadas. Evita essa perturbação; isso é tudo. 

Não há necessidade de procurar; não há necessidade de procurar aquilo que já tens (aquilo que já és). Tu és Deus, a Realidade Suprema. Para começar, confia em mim, em minhas palavras. Isso permite que tu dês o primeiro passo - e então a tua confiança será justificada através da tua experiência. Em cada caminhada na vida, confiança inicial é essencial; sem isso, pouco pode ser feito. 
Cada passo é um ato de fé.

Até o pão diário você come confiando! 

Lembrando-te do que te disse: tu conseguirás tudo. Digo-te outra vez: Tu és a realidade que em tudo está e que a tudo transcende. Age de acordo com isso: pensa, sente e age em harmonia com o todo e a confirmação da experiência do que eu digo irá florescer em ti brevemente. Nenhum esforço é necessário. Tem fé e age a partir daí. 

Nada quero de ti. É no teu interesse que te falo porque, acima de tudo, tu te amas a ti mesmo, tu te queres seguro e feliz. Não tenhas vergonha disso; não o negues. É natural e bom que nos amemos a nós mesmos. Apenas deves saber o que realmente amas. Não é o corpo que amas, é a Vida - sentindo, pensando, fazendo, amando, lutando, criando. É a Vida que amas, a vida que és tu mesmo e que é tudo. Perceba isso na sua totalidade, além de todas as divisões e limitações, e todos os teus desejos se dissolverão nisso, pois o maior contém o menor. Por isso, encontra-te; pois te encontrando, encontras tudo.

Todos estão felizes em ser. 

Mas poucos conhecem a sua totalidade. Tu a conheces quando acolhes na tua mente "Eu sou, Eu sei, Eu amo" com a vontade de atingir o mais profundo significado destas palavras.

Pergunta - Posso pensar que sou Deus?

Nisargadatta - Não te identifiques com nenhuma idéia ou pensamento. Se por Deus queres dizer o Desconhecido, então diz simplesmente: "Eu não sei o que eu sou". Se conheces Deus como sendo o que és, não precisas dizê-lo. O melhor é o simples "Eu sou". Insiste nele pacientemente. Aqui a paciência é sabedoria; não penses em fracasso. Não pode haver fracasso nesta empreitada.

Pergunta - Mas os meus pensamentos não deixam.

Nisargadatta - Não lhes prestes atenção. Não lutes contra eles. 

Apenas não faças nada, deixa-os estar (e se irem), o que quer que sejam. Quando lutas com eles estás a dar-lhes vida. Ignora-os. Olha através deles. Lembra-te de te lembrares: "o que quer que aconteça acontece porque eu sou". Tudo te lembra que és. Para experienciares tu tens de ser. Não precisas parar de pensar. Apenas parar de estar interessado (emocionado, envolvido, como se pudesse fazer alguma coisa a respeito). 

É o desinteresse que liberta. Não te segures (nada de esforço); isso é tudo. 

O mundo é feito de anéis, mas os ganchos (que te prendem) são todos teus (feitos por ti). Endireita os teus ganchos e nada irá te deter: deixa de lado os teus vícios (de imaginar, se emocionar, de crer em ilusões). Não há nada mais para deixar de lado. 

Pára a tua rotina da aquisição, o teu hábito de esperar resultados (isto é ‘deixa a Deus os frutos de tua ação’) e a liberdade do universo será tua. Sê sem esforço.

Pergunta: Mas a vida é esforço. Há tantas coisas para fazer.

Nisaragadatta - O que precisa ser feito, tu farás mesmo que não queiras (pois não decidimos). Não resistas. 

O teu equilíbrio deve ser dinâmico, baseado em fazer apenas o que tens de fazer momento a momento. Não sejas uma criança que não quer crescer. Gestos estereotipados (copiados, imitados, rituais, cerimoniais etc.) e posturas (corporais ou psicológicas) não irão te ajudar. 

Confia inteiramente na tua clareza de pensamento, pureza de motivação e integridade de ação. Não poderás fazer mal. Vai além e deixa tudo o mais para trás.

Pergunta - Mas pode alguma coisa ser deixada para trás para sempre?

Nisargadatta - Tu queres qualquer coisa, como um êxtase eterno. O êxtase vem e vai, necessariamente, pois o cérebro humano não consegue aguentar a tensão por muito tempo. Um êxtase prolongado rebentaria com o teu cérebro a não ser que este seja extremamente puro e sutil. 

Na natureza nada está parado; tudo pulsa e flui, aparece e desaparece. Coração, respiração, digestão, sono e despertar, nascimento e morte, tudo vem e vai em ondas (num fluir eterno). Ritmo, periodicidade, harmoniosa alternatividade de extremos, essa é a regra. 

Não adianta revoltar-se contra o padrão da vida. Se procuras o imutável, vai além da experiência. Quando eu digo: lembra-te sempre de "Eu sou”, eu quero dizer: "volta a ‘Eu sou’ repetidamente". Nenhum pensamento é o estado natural da mente; apenas o silêncio é. 

Não a idéia de silêncio, mas o silêncio, ele mesmo. Quando a mente está no seu estado natural, reverte ao silêncio espontaneamente e, depois, toda ‘experiência’ acontece sobre o fundo do silêncio (pois não há mais o ruído produzido pela interferência do ‘eu’).

Agora, aquilo que aprendeste aqui se torna a semente. Podes esquecê-lo, aparentemente. Mas irá viver e, na estação devida, irá brotar e crescer trazendo flores e frutos. Tudo acontecerá por si mesmo. Não precisas fazer nada, apenas não evitar (não escolher, não ter preferência por) nada.

O mundo existe somente como um sonho em minha Consciência. 

O que quer que tenha uma forma se constitui tão somente de limitações imaginadas em minha consciência. Por si mesmo nada tem existência. Tudo precisa de sua própria ausência. 

Ser (viver), é ser distinguível (diferente dos demais), estar aqui e não lá, é ser agora e não depois, ser assim e não assado (mas somos o que somos; nada pode mudar isso). 

Como a água é moldada pelo vaso que a contém, assim também todas as coisas (fatos, pensamentos etc.) são determinadas por suas condições próprias.

O Puro Ser preenche tudo e é além de tudo. 

Toda limitação é imaginária (ilusão); somente o ilimitado é real. O mundo não é nada mais que um faz de conta, um show cheio de ‘glitter’ (atrativos) e vazio. Ele é e, ao mesmo tempo, não é. Ele está lá pelo tempo que eu queira vê-lo e tomar parte nele. 
Quando eu deixo de me importar (de me interessar por ele), ele se dissolve. 

Ele não tem qualquer causa e não serve a qualquer propósito. 

Ele só acontece quando estamos mentalmente-ausentes (distraídos, desatentos). Ele se parece exatamente com o que é, mas não há qualquer profundidade nele, qualquer sentido. 

Somente o sobre-observador (a subjetividade absoluta) é real, chame-o Eu ou Atman. Para o Ser, o mundo não é mais que um show colorido, o qual ele curte “infinitamente” enquanto dure, e o esquece quando ele se vai. 

O que quer que aconteça no palco faz o ‘eu’ encolher-se aterrorizado ou rolar de rir no chão, e, ainda assim, todo o tempo ele está atento ao espetáculo, esquecido de que tudo é apenas um show. Contudo, o Eu, sem desejo ou medo, o aprecia tal qual ele se apresenta (sem interferir com julgamentos e avaliações, suposições e crenças)."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

13 de novembro de 2014

Nós que criamos nossos próprios problemas - Osho


Osho, porque transformo montinhos de terra em montanhas?

Osho - Porque o ego não se sente bem, confortável, com montinhos de terra - ele quer montanhas. Mesmo que esteja infeliz, o ego não quer ser vulgarmente infeliz - quer ser extraordinariamente infeliz! (...)  

As pessoas estão sempre criando grandes problemas do nada; conversei com milhares de pessoas sobre seus problemas e ainda não me deparei com um problema real! Todos os problemas são fictícios - as pessoas os criam. Porque sem problemas elas se sentem vazias: então não há nada a fazer, nada a combater, lugar para ir. As pessoas vão de um guru a outro, de um mestre a outro, de um psicanalista a outro, de um grupo de ajuda a outro, porque se forem, sentem-se vazias, acham que a vida se tornou sem significado. Elas criam problemas para que possam sentir que a vida é um grade trabalho, um crescimento - e você tem de lutar muito.

Lembre-se de que o ego só pode existir quando ele luta, quando briga. Se eu disser a uma pessoa: Mate três moscas e você ficará iluminado! Ela vai acreditar em mim. Ela dirá: Três moscas? Isso não me parece muito. Isso me fará iluminado? Não me parece o bastante para isso."
Mas se eu lhe disser: Mate 700 leões! É claro que lhe parecerá muito mais verossímil.

Quanto maior o problema, maior o desafio - e, com o desafio, seu ego aparece, ganha altura. As pessoas criam os problemas. Os problemas não existem.

E agora, se você me permitir, não há sequer montinhos de terra. Isso também é um truque seu. Você diz: Sim, pode não haver montanhas, mas montinhos de terra? Não, não há sequer montinhos de terra - eles são criações suas. Primeiro você cria montinhos de terra do nada, depois cria montanhas dos montinhos de terra. E os sacerdotes, os psicanalistas, os gurus, ficam felizes, pois toso o comércio deles só existe por causa de você. Se você cria montinhos de terra do nada e não transformar seus montinhos em montanhas, qual será o interesse dos gurus em ajudá-lo? Primeiro você tem de estar em uma condição de ser ajudado.

Os verdadeiros mestres dizem outra coisa. Eles dizem: Por favor, olhe o que você está fazendo, a bagagem que está fazendo. Primeiro você cria um problema, depois sai em busca de uma solução. Observe por que está criando o problema: exatamente no início, quando está criando o problema, está a solução - não o crie. Mas isso não vai atraí-lo, porque então você de repente ficará entediado consigo mesmo. Nada a fazer? Nenhuma iluminação? Nenhum satori ? Nenhum samadhi? E você fica profundamente inquieto, vazio, tentando se preencher com qualquer coisa.

Você não tem nenhum problema - é só isso que tem de ser entendido.

Neste exato momento você pode se livrar de todos os problemas, porque eles são criações suas. Olhe de maneira diferente para os seus problemas: quanto mais profundo for o seu olhar, menores eles vão lhe parecer. Continue olhando para eles e, pouco a pouco, eles começarão a desaparecer; Continue olhando, e de repente verá que há um vazio - um belo vazio cercando você. Nada a fazer, nada a ser, porque você já é.

A iluminação não é algo a ser atingido, é apenas para ser vivido. Quando que digo que atingi a iluminação, simplesmente quero dizer que decidi vivê-la. Já basta! E desde então a tenho vivido. É uma decisão de que agora você não está mais interessado em criar problemas - isso é tudo. É uma decisão de que agora você pôs fim a toda essa bobagem de criar problemas e encontrar soluções.

Toda essa bobagem é um jogo que você está jogando consigo mesmo. Você mesmo está se escondendo e você mesmo está se procurando, você está dos dois lados. E você sabe disso! Por isso, quando eu digo isso, você sorri, você ri! Não estou falando sobre nada ridículo - você está entendendo. Você está sorrindo de si mesmo! Observe-se rindo, observe seu próprio sorriso - você está entendendo. Têm de ser assim, porque este é seu próprio jogo: você está se escondendo e esperando que você mesmo seja capaz de procurar por você e se encontrar.

Você pode se encontrar neste exato momento, porque é você que está se escondendo. Por isso os mestres Zen continuam dando suas pancadas. Quando alguém chega até eles e diz: Eu gostaria de ser um buda; os mestres ficam muito zangados. Porque ele está pedindo uma bobagem, ele é um buda. Se um buda vem até mim e me pergunta o que fazer para ser um buda, o que eu devo fazer? Eu bateria na cabeça dele. A quem você acha que está fazendo de tolo? Você já é um buda!

Não crie dificuldades desnecessárias para si mesmo. E o entendimento chegará a você se você observar como torna um problema cada vez maior, como o protela, e como ajuda a roda a girar cada vez mais rápido. Então, de repente, você está no alto de sua infelicidade e fica necessitando de toda a consternação do mundo. (...)

O ego necessita de alguns problemas. Se você entender isso, no próprio entendimento, as montanhas voltam a se tornar montinhos de terra, e então, os montinhos de terra também desaparecem. De repente há o vazio, o puro vaio a toda a sua volta. Isto é iluminação - um entendimento profundo de que o problema não existe.

Então, sem problemas para resolver, o que você vai fazer? Imediatamente começa a viver. Você vai comer, vai dormir, vai amar, vai jogar conversa fora, vai cantar, vai dançar - o que mais há para fazer? Você se tornou um Deus, começou a viver.


Se existe um Deus, uma coisa é certa : ele não tem nenhum problema. Isso é absolutamente certo. Então, o que ele fará com todo o seu tempo? Não há problemas, não há psiquiatra para consultar, não há guru para procurar e ao qual se entregar... O que Deus fará? Ele deve estar enlouquecendo, com a mente em um torvelinho. Não, ele está vivendo; sua vida está totalmente repleta de vida. Ele está comendo, dormindo, dançando, amando - mas sem nenhum problema. (...)

Se as pessoas conseguirem dançar um pouco mais, cantar um pouco mais, serem um pouco mais soltas, sua energia vai fluir mais e seus problemas irão pouco a pouco desaparecendo. (...) Quando você dança, chega um ponto em que seu corpo não é mais uma coisa rígida, ele se torna flexível, fluido. Quando você dança chega um momento em que seus limites já não são tão claros, você derrete e se fundo com o cosmos.(...)

A preocupação, o problema, a ansiedade, todos simplesmente mostram uma coisa: que você não está vivendo da maneira certa, que sua vida não é ainda uma celebração, uma dança, uma festividade. Por isso existem todos os problemas.

Se você viver, o ego desaparece. A vida não conhece ego, ela só conhece o viver, o viver, o viver. A vida não conhece o eu, não conhece o centro; a vida não conhece separação. Você inspira, a vida entra em você; você expira, você entra na vida; Não há separação; você come e as árvores entram dentro de você através dos seus frutos. Então, um dia você morre, é enterrado na terra e as árvores o sugam para cima e você se torna frutos.(...)

A vida é uma só, ela está em constante movimento. Ela entra em você, ela passa por você; Na verdade, dizer que ela entra em você não é certo, porque fica parecendo que a vida entra em você e depois sai de você. Você não existe - o que existe é esta vida indo e vindo. Você não existe, apenas a vida existe, em suas extraordinárias formas, em sua energia, em seus milhões de encantos; Uma vez que você compreenda isso, deixe que esse entendimento seja sua única lei. E a partir deste momento, comece a viver como os budas."
Osho em A Jornada de Ser humano

10 de novembro de 2014

O Poder da Presença - Ramana Maharshi



"Gostaria de começar, fazendo uma referência a uma experiência, um tanto "mística" - que tive durante a minha estadia no Ashram de Sri Ramana Maharshi. Mesmo que seja difícil de descrevê-la, tentarei transmitir alguma ideia a respeito. (...)

Com aquele primeiro darshan de Ramana Maharshi, que tive na sala, e acabava de chegar, descobri o brilho resplandescente do sol em um só olhar; foi como se esse olhar atravessasse o mais profundo do meu ser. Minha respiração parou por um tempo e a mente ascendeu a uma dimensão espiritual de paz e felicidade inefáveis.

Mediante o desapego e o discernimento se pode aspirar alcançar o estado de sakshibhava, o estado do testemunho, mas existe um estado mais elevado, no qual se toma toma consciência de existência, com tudo o que existe; este estado se denomina abhinnabhava. Este estado, alcançado por por Maharshi, supera qualquer possível forma de compreensão da mente do buscador.

Apesar de estar sentado na sala, observei Maharshi, que descansava no sofá e se mostrava completamente indiferente a tudo o que se sucedia em sua presença, (por exemplo, o ir e vir constante dos visitantes que um após o outro se prostravam diante dele ) e mesmo assim pude discernir nele de forma muito evidente, essa atitude de unidade com o todo chamada de abhinnabhava. Posso afirmar com total confiança que tocava o ser interior de todos os visitantes com aquele abhinnabhava que transcendia os pensamentos e então, os visitantes se viam capacitados para sentir em seu interior a presença do espírito universal.
Ao perceber que era assim que Maharshi irradiava a energia do Ser, decidi perguntar-lhe qual era a melhor forma de preparar-me, apesar de estar sentado em sua presença, para receber aquela transmissão de graça.

Pergunta - Quando estamos sentados perto de ti que estado mental devemos manter para receber sua transmissão de teu Ser?

Sri Ramana - Mantenha a mente em silencio, isso é o bastante. Se te manténs em silencio, receberás a ajuda espiritual que necessitas nesta sala. O objetivo de qualquer prática é acabar com a mente. Quando a mente se aqueta, se experimenta a energia do Ser. As ondas do Ser estão por toda parte e se começa a experimentá-las quando a mente está em paz.

Pergunta - O que é melhor para mim: olhá-lo nos olhos ou no rosto? Ou é melhor ficar quieto com os olhos fechados e dirigir a mente a algo determinado?

Sri Ramana - Fixa seu olhar em sua própria natureza. É indiferente que tenhas os olhos abertos ou fechados. O único que existe por todas as partes é a Unidade, assim que não importa se manténs os olhos abertos ou fechados. Se quiser, medite no "EU" que carregas dentro de ti. Esse é o atman, e como não tem olhos, não é necessário abri-los nem fechá-los. Quando alcançar o conhecimento do seu próprio Ser, já não restará nenhum conceito sobre o mundo. Quando estás sentado em sua casa, se as janelas estão abertas ou fechadas, você segue sendo a mesma pessoa, no mesmo estado. Da mesma forma, quando estás estabelecido no estado da realidade, não importa que tenhas os olhos abertos ou fechados: as coisas que acontecem externamente tem escassa importância.

A reciprocidade que existe entre Sri Ramana Maharshi e sua abhinnabhava, e o buscador que está sentado em sua presença, é análoga a do radio-transmissor e o radio-receptor, quando o visitante está verdadeiramente ansioso por obter o máximo benefício de energia de bondade que irradia a presença silenciosa do sábio, deve sintonizar sua mente - receptora - com a longitude adequada de onda.

O silencio do sábio é constante, e exerce sua influencia positiva sem interrupção, tanto se tem a sensação de que o sábio é consciente do mundo como que não é. Voltando a analogia do transmissor, posso afirmar que no que se refere ao sábio, sua influencia espiritual se transmite sem parar, desde o ponto de vista do buscador, que mesmo preso ao poder de maya, o efeito permanentemente benéfico do sábio, não terá efeito aparente a menos que o buscador esteja preparado para recebê-lo. Em uma conversação que mantém com outro devoto durante minha estadia no ashram, o próprio Maharshi comparou a irradiação de sua graça com um radio-transmissor.

Pergunta: Segundo algumas pessoas, é egoísta dedicar-se a alcançar a liberação, e em seu lugar deveria se dedicar a ajudar aos demais, realizando algum tipo de serviço altruísta.

Sri Ramana - Estas pessoas creem que os jñanis são egoístas, e eles não são. mas isso não é certo. Os jñani vivem a experiência de Brahman e o efeito de sua experiência se estende por todo mundo. Da mesma forma que uma transmissão de radio se realiza de um lugar determinado, seus efeitos podem sentir em qualquer lugar do mundo e aqueles que quiserem se beneficiar com ele, assim podem fazê-lo. Da mesma maneira, o estado de iluminação do jñani se estende por todas as partes e está a disposição de todos que queiram se conectar com ele. Portanto, não se trata de um serviço menor.

Durante minha estadia no ashram, tomei nota das conversações sobre a auto-indagação que aconteceram entre Maharshi e vários visitantes. Vejamos diretamente o que Maharshi tem a nos dizer sobre isso, ele mesmo nos explica como devemos praticar a auto-indagação.

Pergunta: Quem sou eu? a quem se refere esta pergunta?

Sri Ramana - A pergunta se refere ao "eu" individual, não ao atman. ( Ser ).

Pergunta - É conveniente que repita "Sou Shiva," cada vez que me pergunto "Quem sou eu"? Não seria melhor responder: "Não sou a mente, não sou o intelecto, não sou o corpo", etc..?

Sri Ramana - No transcurso da auto-indagação, não há que se dar respostas à mente, pois há que se permitir que a resposta surja de dentro. A resposta que provém do "eu" individual não é real. Há que se seguir indagando, até se obter a resposta com o método de jñana marga (o caminho do conhecimento ). Esta auto-indagação se chama meditação e a experiência inativa, plena de paz e conhecimento que surge deste estado, é jñana.

Pergunta: As perguntas: Quem sou eu? Sou de onde? 
Há que fazer constantemente japa, (repetição de palavras sagradas ) ou há que se fazer a pergunta uma ou duas vezes mentalmente, até que ela atinja a raíz do "eu", e então que se interrompa todos os pensamentos sobre o mundo?

Sri Ramana -  Não se trata de fazer japa com a pergunta "Quem sou eu? Quem sou eu?". Uma vez que a pergunta seja plantada na mente, há que se buscar a raíz do "eu" e interromper os demais pensamentos. Se alguém se chama Desai, não necessita ficar repetindo: "Sou Desai, Sou Desai." Pelo mesmo motivo, tampouco é necessário que se repita frases como "Sou Brahman, Sou Brahman". Em todas as formas de sadhana se procura manter a mente quieta, mas mesmo que se faça japa, a mente nunca vai se manter quieta. Ao invés de praticá-lo dessa maneira, o que acontece é experimentar que Brahman é o sujeito que vê a mente, isto é, o testemunho. Se deve experimentar Brahman, o testemunho.

Pergunta : Segundo seus ensinamentos, quando se embarca na busca do "eu", a experiência do testemunho acontece?

Sri Ramana - Sim.

Pergunta: Depois, se você apaga completamente o que tem sido, o testemunho se converte na forma de Brahman?

Sri Ramana - Assim é.

Pergunta :  É conveniente se praticar pranaiama ( controle da respiração ) com regularidade, juntamente com a pergunta "Quem Sou eu?", e mesmo repetindo a pergunta permanecer com a atenção focada na entrada e saída do ar?  

Sri Ramana - Não é necessário se fazer pranaiama; é muito melhor que se tente realizar a auto-indagação Quem Sou eu?, sem centrar a atenção na respiração. O pranaiama existe para os que não são capazes de concentrar a mente de nenhuma outra maneira. A medida que a mente se fortalece, o pranaiama vai deixando de ser necessário. A função principal do pranaiama é proporcionar as rédias necessárias para se manter sob controle o cavalo da mente. 

Pergunta : Qual sua opinião sobre os siddhis? ( poderes sobrenaturais )

Sri Ramana - A iluminação é maior que os siddhis.

Pergunta: Quando me pergunto Quem Sou eu? não encontro nenhuma resposta que venha de dentro.

Sri Ramana - Isso se deve a uma crença errônea. Se buscar adequadamente, descobrirá que esse "eu" que está tentando descobrir algo, acabará mais tarde por deixar de existir. A medida que se libertas de pensamentos de nomes e formas, irá se aprofundando cada vez mais em seu interior.

Pergunta: Se conseguir eliminar todos os pensamentos, estaria então meditando adequadamente?

Sri Ramana - Isto está bem a princípio, mas só quando se intensificar a sua atração pelo Ser, começará a auto-indagação e ao mesmo tempo, cessará todo este esforço e aparecerá um novo estado.

Pergunta - Se pode praticar Sadhana da auto-indagação levando uma vida normal ou há que se sair de casa?

Sri Ramana - É você que está em casa, ou é a casa que está em ti? Fique onde estiver.

Pergunta - Então, posso permanecer em casa.

Sri Ramana - Este não é o significado. O que quero dizer é que deves viver em sua verdadeira natureza. Você não está em casa, na verdade é a casa, assim como o mundo, que está em ti. É o dono da casa que está convencido de que não é o dono de nada e apesar de viver nela é o autêntico renunciante. Imagina que existe um homem que está dormindo no trem. Ele é o mesmo homem, esteja o trem andando ou parado. Aquele que está adequadamente estabelecido no atman, lhe acontece o mesmo, porque sabe que neste mundo não se sucede nada, e que ele nunca destrói nada. Só sentimos que sucede algo, quando estamos no estado de pramata - o sujeito conhecedor de algo - mas este estado não constitui nessa verdadeira natureza. Para o jñani que se despojou do  conceito de conhecedor, nunca acontece nada."

8 de novembro de 2014

Praticando a Paciência - Tenzin Palmo



"A próxima dessas perfeições, uma muito importante, é a perfeição da paciência.

Este é o antídoto contra a raiva. Este é um assunto importante que surge apenas na superfície. Mas acho que todos podemos apreciar que em nossa vida cotidiana, nossa vida familiar, nosso local de trabalho, e assim por diante, há um campo maravilhoso para a prática da paciência.

Mesmo dirigindo por estas estradas, eu estou muito bem disciplinada... Bem vindos à Índia.. ( risos...)

Mas mesmo assim, dirigindo e tudo o mais, é maravilhoso. Ótimas oportunidades para praticar como relaxar internamente, e não reagir com irritação, frustração, raiva..

Então, como desenvolver a paciência?

Como havia dito, este é um assunto importante e só podemos falar sobre um ou dois pontos aqui.

Mas um deles é normalmente quando alguém nos aborrece e nos deixa bravos, nós o consideramos como um obstáculo para nossa tranquilidade e paz, para que sejamos pessoas boas e amigáveis. Eu estaria ótima se não fosse pelo meu terrível vizinho, ou meu chefe desagradável, ou minha esposa, marido, quem quer que seja. É o problema deles.
Eles são os causadores de todas as minhas dificuldades, então, eu tenho do direito de estar brava.

No desenvolvimento da paciência, nós reconhecemos que esta é uma qualidade espiritual muito importante. Não reagir com raiva em relação a algo que consideramos como sendo o oposto.

Assim, como qualquer treino, como qualquer qualidade, precisamos praticar isso.

É muito fácil sermos amorosos, amigáveis e gentis quando estamos cercados de pessoas que sejam amorosas, amigáveis e gentis. (risos... )

Aqui, por exemplo, todos são tão amáveis, sorriem e se curvam diante da chance de serem úteis e gentis... e isso é maravilhoso.

Mas isso pode nos levar a um falso sentido de complacência. A de que o outro também seja amoroso, amigávei e gentil em todas as circunstâncias, porque nós o conhecemos assim. Portanto, a fim de praticarmos a paciência, nós precisamos de pessoas desagradáveis.. (risos...) Estou falado sério...

Shanti Deva, um grande letrado da Índia, do século VIII, disso que por este motivo, devemos considerar nosso "inimigo" como nosso grande amigo espiritual. Porque eles estão nos ajudando a desenvolver essa qualidade tão importante, sem a qual não podemos alcançar a iluminação.

Então, ao invés de pensarmos que essa pessoa é um problema, deveríamos ser gratos a ela. Quando alguém é muito difícil para nós e nos cria muitos problemas, ao invés de ficarmos abertos à raiva e chateados com isso, podemos pensar.. Ah obrigada! Você é tão horrível! Isso é ótimo!!( risos... )

Agora eu realmente posso praticar. Sem você, o que eu teria feito? Isso muda toda a situação.

Claro que isso não significa que se estivermos em uma situação extrema de abuso, vamos no sentar e dizer: bata mais forte.. Mas significa que, mesmo que alguém esteja em uma situação abusiva, ela pode desprender-se o mais rápido possível, com nada mais do que amor e compaixão no coração.

Buda disse que o ódio não cessa com ódio. Ódio cessa com a falta de ódio, em outras palavras, cessa com amor.

Se alguém nos perturba e acabamos sentindo raiva e frustração, nós duplicamos o problema. Entendem?

Se alguém nos faz alguma coisa nos engana, ou é difícil conosco, e sentimos toda essa raiva, frustração, nos fazendo mal, então estamos torturando nós mesmos. Certo?

Não está afetando aquela pessoa. Ela está bem. Apenas fazemos conosco o que nosso pior inimigo nos desejaria. Então, damos a nós mesmos mais dúvidas. Ao passo que, se pegarmos isso e transformarmos em uma oportunidade de nos desenvolver e ir além, então nada pode nos machucar.

É parte do nosso desenvolvimento espiritual. Isso não serve apenas para as pessoas, mas para as circunstâncias também.

Todos agora, começam a entender que as circunstâncias difíceis são, na verdade, ótimas oportunidades de crescimento.
Isso não significa que precisamos criar dificuldades, e pessoas desagradáveis. Sente-se e elas virão."( risos..) 

6 de novembro de 2014

Ensinamentos do Yoga Vasishta Sara - 2/2


"Bhagavan Sri Ramana Maharhsi tinha um apresso muito grande pelo Yoga Vasishta Sara, e o citava com frequência. Ele ainda incorporou seis versos para completar seus Quarenta Versos sobre a Realidade ( Sat-Darshanam). Assim como Ramana, outros estudiosos notáveis do século XX tinham grande apreço por esta jóia da Filosofia Advaita.

continuação...

6 - A meditação sobre o Ser

Eu, A Consciência pura, sem mancha e infinita, para além de maya, vejo este corpo em ação como o corpo de outro.

A mente, o intelecto, os sentidos etc, são todos um jogo da Consciência. São irreais e parecem existir somente devido a falta de discernimento;

Estou por cima de qualquer coisa; estou presente em todas as partes; sou como o espaço; sou aquele que realmente existe; sou incapaz de dizer nada além disso;

Que as ilusórias ondas do universo se elevem e caiam em mim, que sou o Oceano da Consciência infinita; não há em mim aumento nem diminuição.

Quão maravilhoso, que em mim, o oceano infinito da Consciência, ondas individuais (jivas) surjam e joguem durante um tempo e desapareçam de acordo com sua natureza.

O mundo que veio a existência, como causa da minha ignorância, igualmente se dissolveu em mim. Agora, experimento diretamente o mundo como a beatitude suprema da Consciência;


7 - O método de purificação.

Oh Raghava, seja externamente ativo, mas interiormente inativo; exteriormente um fazedor, mas interiormente um não-fazedor, e representa assim teu papel no mundo.

Queima o bosque da dualidade no fogo da convicção "eu sou a Consciência pura única" e permanece feliz.

Permanece sempre como Consciência pura, que é tua natureza constante verdadeira, mas além dos estados de vigília, sonho e sono profundo.

Não seja aquele que entende, nem aquele que é entendido; abandona todos os conceitos e permanece sendo o que és.

Quando fizer seu trabalho, faça-o sem apego, igual a um cristal que reflete os objetos que estão diante dele, mas se afeta por eles.

A convicção de que tudo é Brahman, o conduz a Libração. Rejeita completamente a ideia de dualidade, que é ignorância. Rejeite completamente;

8 - A Adoração do Ser.

O Raghava, aquele por meio do qual reconhece som, sabor, forma e cor, sabe que é seu próprio Ser, o Brahman Supremo, o Senhor dos senhores.

O conhecimento não está separado de ti, e aquele que é conhecido não está separado do conhecimento. De modo que não há nenhum sinal do Ser, e nada está separado Dele.

"Tudo é Brahman único, a Consciência pura, o Ser de tudo, indivisível e imutável" - medita desse modo.

"Não há nem eu nem nenhuma outra coisa. Só Brahman existe, sempre pleno de beatitude por todas as partes" - medita calmamente sobre isso.

9 - Exposição do Ser.

Quando tiver a firme convicção de que tudo é a Consciência semelhante ao espaço, o jiva chega a seu fim como uma lamparina de azeite.

Igual a um só rosto que é refletido como muitos em um cristal, ou na água, ou em um espelho, assim também o Ser único, se reflete em muitas mentes.

O Ser onipresente, é o substrato de tudo, não é diferente da Consciência refulgente, como o calor não é distinto do fogo. Só pode ser experimentado, não pode ser conhecido.

O Ser é Consciência absoluta. É puro, incorruptível, livre de todas as ideias de aceitação ou rejeição, e não limitado pelo espaço, tempo ou gênero.

Não há escravidão nem libertação, nem dualidade, nem não dualidade. Só há um Brahman, sempre brilhando COMO Consciência;

A ideia de uma Consciência e de um objeto de Consciência é escravidão; livrar-se dela é liberação; A Consciência, o objeto da Consciência e tudo o mais é o Ser; este é a essência de todos os sistemas de filosofia;

Aqui só existe Consciência; este universo não é senão Consciência; você é Consciência; eu sou Consciência; os mundos são Consciência; esta é a conclusão;

10 - Nirvana.

Depois de retirar tudo como "isso, não", "isso, não", a Entidade Suprema que não pode ser eliminada permanece. Pensa "eu sou isso", e seja feliz.

Quando se pensa "sou Consciência pura", a isso se chama meditação e quando se perde inclusive a ideia de meditação isso é samadhi.

O constante fluxo de conceitos mentais relativos a Brahman sem o sentido de "eu" adquirido através de uma intensa prática de auto-investigação (jnana) é o que se chama de samprajnata samadhi ( meditação sem conceitos ).


Aquilo que é imutável, auspicioso e tranquilo, aquilo no qual este mundo existe, aquilo que se manifesta como os objetos imutáveis e imutáveis, isso é a Consciência pura."

Extratos do Yoga Vasishta Sara - atribuído a Valmiki autor do Ramayana
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