26 de novembro de 2014

O Atemporal no instante - Tony Parsons


"Então a palavra sânscrita Advaita, aponta para algo que não pode ser falado. 
E embora se diga muita coisa, não podemos jamais descrever o que eles tentam dizer. Então, o que temos de fazer aqui é ir além do entendimento.

Mais a palavra sânscrita Advaita também aponta para a futilidade da ideia de que há unidade, e que há algo separado da unidade, que precisa encontrar a unidade.

Então, não haverá nenhuma possibilidade de se falar em alcançar um estado. Não vamos estar tentando aqui encontrar estados ou bem-aventurança, ou quietude ou silencio, ou mesmo Consciência. Não estamos aqui à procura de nada. Não vamos estar aqui tentando obter alguma coisa ou ir a algum lugar.
Porque aquilo que estamos falando é tão evidente que é totalmente desconhecido, e está tão disponível que é totalmente secreto.

O tempo todo existe alguém tentando obtê-lo mas permanece oculto. Procuramos por ele o tempo todo, e simplesmente não é visto.Não pode ser obtido, mas pode ser perdido, não pode ser ensinado, não pode ser dado e não pode ser retirado.

Não pode ser dito nada sobre isso, porque já é nada e tudo.

Não é a maior coisa nesta sala, é a única coisa nesta sala. É o único surgimento nesta sala. É tudo aquilo que acontece nesta sala. E dentro disso, dentro daquilo que procuramos; nós o estamos procurando. E o tempo todo estamos separados disso, ou acreditando estarmos separados disso e experimentamos estar separados disso. E depois estamos sempre à procura, estamos sempre em movimento para encontrar. E movimentamo-nos para encontrar algo quando isso está absolutamente imóvel.

Vivemos em um tempo, vivemos em uma contagem de tempo, em que nos movemos no tempo, para antecipar encontrar algo que é atemporal.
Então, o que podemos fazer juntos, é falar sobre isso e o que pode surgir são ideias sobre o que isto seja. Confusas talvez, e também podem surgir ideias precisas que podem dissipar a nossa confusão. Mas o que estamos a falar, não tem nada a ver contigo ou comigo. Absolutamente nada a ver contigo ou comigo. Não tem nada a ver com experiências pessoais.Você não vai obter isso. Jamais alguém obteve isso, porque isso tem a ver com ser ninguém.

Eu não o obtive. Eu não sei algo que você não saiba. Eu não tenho algo que você não tenha. Isso é sobre perda. Isso é sobre perda total. Trata-se da perde que crescemos acreditando. Crescemos acreditando que somos indivíduos, que somos indivíduos separados. Crescemos acreditando que temos vontade, livre arbítrio e escolha. E que podemos fazer alguma coisa em relação às nossas vidas. Fazer funcionar as nossas vidas no mundo. E de uma maneira ou de outra, a mente procura ajudar-nos a fazer isso. Crescemos acreditando que existe algo acima de nós que faça nossa vida valer a pena. Alguns são sensíveis à ideia de que não é apenas bem sucedido, ser rico e tudo isso. Assim, procuramos na religião, ou terapia, ou procuramos na meditação ou procuramos na auto investigação, procuramos na escola da iluminação por aquilo que nos leve a uma espécie de totalidade. Nós sabemos que algo não está completo.(...).


Então, depois a mente pinta um quadro de como é a iluminação. Iluminação é bem-aventurança, onipresença, onipontencia. você ama a todos, e todos amam você. Você caminha numa espécie de tapete cor de rosa. E as pessoas chegam até os seus pés e dizem: És iluminado? E você diz: Sim! - risos... (...)

Arranjamos esta ideias de que quanto mais difícil isto for, mais a mente fica com uma ideia de como é a iluminação. É a loteria, a loteria espiritual. É a maior loterial que você poderia ganhar. É melhor do que ganhar dinheiro. Porque você tem tudo. Está totalmente seguro, totalmente em bem aventurança, é tudo maravilhoso.
E está é a dificuldade, porque naturalmente iluminação não é nada disso.

Iluminação é libertação é absolutamente banal.É absolutamente banal! Não é maravilhosa nesse sentido. Não é bem aventurança, não é a resposta para todas as coisas. A vida continua depois disso. A vida continua da mesma forma que era. Ainda acontecem as outras coisas na vida.

Mas a diferença na libertação é o deixar cair qualquer sentimento de que existe alguém a quem a vida acontece.

Libertação é ausência, libertação é a perda - a perda do indivíduo. E nessa perda, nesse vazio de não se ser ninguém, esse vazio é pleno. Esse vazio também é plenitude. E quando não há nada, a sensação de tudo é nada.

Então, o que estamos falando aqui, o que estamos partilhando juntos, é a possibilidade de perder a sua vida. (risos...) A possibilidade de deixar cair o sentimento de que há um indivíduo e a possibilidade de reconhecer, que o que está acontecendo, não acontece a ninguém. O que acontece simplesmente acontece em queda livre.

A vida acontece. A dificuldade com descrição da libertação, está na forma como as palavras não a conseguem realmente abrangê-la. A palavra mais próxima que posso aplicar é Ser. Tudo o que existe é Ser.

E outra forma para a descrever é dizer que tudo o que existe é vitalidade. Isso é o mais próximo daquilo que reconhecemos. Tudo o que existe nesta sala é vitalidade. Tudo o que existe nesta sala é o que está acontecendo.

Fechando os olhos ou não - mas se os fechar verá que tudo o que existe são experiências acontecendo. O ver acontece, o respirar acontece, o ouvir esta voz acontece. É tudo o que existe é o que está acontecendo.

Libertação é a realização do que apenas existe, apenas o que está acontecendo. Mas, que não há ninguém a quem aconteça o que está acontecendo. Não há ninguém a quem isso aconteça, a quem a vida aconteça, a quem o Ser aconteça. E certamente é compreendido por ninguém, o que é um mistério, que tudo o que existe é vida, tudo o que existe é Ser.
E este Ser inclui tanto nada como tudo. Não apenas o que acontece em termos de atividade.É essa atividade que também abrange tanto nada como tudo. É tanto vida como morte. É plenitude e vacuidade.

É um mistério. Não pode ser descrito e ninguém pode ver, nenhum indivíduo pode ver. Porque em termos de indivíduo, o indivíduo vê através de um véu, do ponto de vista de estar separado e não consegue ver o todo.

Na libertação, o indivíduo desaparece e aí existe a totalidade.

Então, podemos conversar uns com os outros e ao nível dos conceitos, pode surgir alguma clareza, de que a coisa mais poderosa que pode surgir nestes encontros é a liberdade energética.

A individualidade significa contração, viver na delimitação da pele. Libertação é ilimitado, então há uma expansão em direção ao ilimitado. Isso é possível quando as pessoas se reúnem desta forma.
Porque o que estamos fazendo é falando para o nada. Questionamos nada, encontramos inexistência. Encontramos aquilo que somos, inexistência, estados do Ser.

Qualquer pergunta, fazer qualquer pergunta, não interessa qual pergunta seja, se a pergunta surge, está aí para surgir e encontrar nada..e de certa forma ser respondida pelo nada. Porque a mente nunca pode conhecer isso. A mente pode continuar a questionar isso eternamente e nunca chegar a lugar algum. A mente então começa a desistir, simplesmente desiste.

Isto é totalmente simples, absolutamente simples, e muito difícil. É simples, porque é totalmente óbvio. E é difícil, porque é assustador para o indivíduo.
O sentimento de perda da individualidade é uma ideia assustadora para o indivíduo. Mas ninguém pode obter isso e ninguém pode perder. Ninguém o pode compreender. Ou é visto ou não é visto."
Tony Parsons em Satsang

Um comentário:

  1. Interessante este texto de Parsons, sobre o aspecto da não-individualidade, nos traz uma excelente reflexão. Obrigado.
    Namastê.

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