31 de janeiro de 2014

Sobre a ilusão da separação - Krishnamurti


"Vós, homens, como indivíduos, desenvolveis vossos sentidos pela luta social, pela auto-preservação e dais inicio, assim, à consciência de separação. Desde a infância que vos foi incutida a idéia de que sois uma entidade separada; e desta ilusão provem a divisão entre “vosso” e “meu”, no que pensais e no que sentis, no que possuis e em todas as cosias.

Daí surge também a idéia de que vos deveis tornar algo de grande no futuro e a de que fostes já algo no passado. Um contraste contínuo. E desta consciência separada surgem – cobiça, a inveja, o ódio, o sentimento de posse, a preocupação da vaidade, as alegrias passageiras, as tristezas transitórias e os transitórios prazeres. Esta é uma civilização grosseira baseada na competição, na qual cada um trata de si, sem benevolência, sem equanimidade. É um mundo de conflito, de corrupção, de contenda, que a seu tempo conduzirá à guerra.

Em virtude de tal entendimento de separatividade, o “eu” torna-se todo poderoso; dessa consciência de separação nasce o medo. E onde quer que exista o medo, manifesta-se imediatamente o desejo de buscar o conforto, em lugar do entendimento que dissipa todo o temor. Pois o conforto adormece o vosso temor inato de perder vossa identidade separada.

O conforto produz tão somente um ajuste temporário, mas não uma harmonia e equilíbrio permanentes; produz um alivio imediato em vez de um entendimento compreensivo, contínuo; produz o adiamento do esforço, uma evasão contínua em lugar da luta para compreender no presente.

Por causa desse temor, buscais o consolo no culto, na prece, no erguimento de imagens, por intermédio de ritos e cerimônias. Essa ilusão de separação vos leva à preocupação da morte, e do que vai acontecer no futuro, isto é, sobre se tereis de vos reencarnar e sobre o que haveis de ter sido no passado. Por outras palavras, são o passado e o futuro que empolgam o homem que se acha atemorizado; a compreensão do presente, nunca. Enquanto o presente não for compreendido, o futuro jamais vos proporcionará seu verdadeiro significado, pois que o futuro, na realidade, não existe.
Todos esses problemas – o de porque nasci, ou o que acontecerá após a morte, o da sobrevivência da alma, o da reencarnação, o de como posso tornar-me algo mais e de como posso adquirir mais qualidades afim de encontrar a verdade – todas essas coisas nascem da consciência da separação.

Quando é compreendida a idéia de que a verdade, essa realidade viva, existe em todas as coisas e em todos os instantes, em toda a sua integridade, então não mais existirá o pensamento de progresso, ou seja – tornar o
que é ilusório, o “Ser”, em algo permanente. Em todas as fases da vida dá-se importância ao individuo – não a individualidade que, tornada plenamente consciente, dissipa sua própria consciência, para o engrandecimento do “eu”.
Observe a maioria das pessoas, e verificareis que todas pensam que, por tornarem-se maiores, por ampliarem sua consciência, mediante uma série de experiências, pelo fato de retroceder, avançar e reencarnar, se estão aproximando cada vez mais da verdade.

Para mim, essa concepção é inteiramente ilusória, pois a realidade, em sua inteireza, em sua plenitude, em sua riqueza, existe em tudo e, portanto, é eterna. O que é permanente, eterno em tudo, não pode progredir. O que
denominamos progresso somente pode ser aplicado a determinado fato, não à realidade.
Nossa principal preocupação deverá ser, então, a de por qual maneira cada um se poderá tornar apercebido desse eterno, dessa viva realidade que sustenta, nutre e eleva todas as coisas e que se acha em nós mesmos. Enquanto
criardes um mundo exterior e um mundo interior e vos esforçardes por produzir um ajustamento entre ambos, jamais, encontrareis a realidade.

Quando o homem está consciente de si próprio como entidade separada, continuamente busca o exterior para encontrar auxilio, para sua subsistência, para seu bem-estar; e desse modo cria ele desordem em lugar de ordem,
e por causa dessa desordem surgem as superstições, as ilusões, as cerimônias.

Trata-se, portanto, da maneira, do processo mediante o qual cada um pode realizar essa realidade interior que assegura a tranqüilidade da vida, não a estagnação, não a paz que obscurece, que destrói, porém essa tranqüilidade que é a fonte da compreensão viva e eterna.

É somente por meio do esforço individual que a verdade pode ser realizada, não por meio de associações de qualquer espécie que sejam. Não podereis, por via de uma instituição, encontrar a verdade, pois a verdade habita em vós mesmos e as instituições não podem ajudar o indivíduo a encontrar a verdade. Não importam quais sejam elas. Todas tendem a tornarem-se cada vez mais formalistas e a verdade cada vez mais delas se distancia. Precisais buscar a verdade por vós mesmos, como indivíduos; visto que ela mora em vós, não no
exterior. 

Quando o individuo se houver compreendido a si mesmo, viverá num ambiente de perfeita harmonia e não contribuirá para a desordem do mundo." 
J. Krishnamurti em Satsang

29 de janeiro de 2014

Há apenas um Self - Mooji


"Há apenas um Self

Um imóvel e imutável Silêncio.
Não é uma espera.
E não é uma contemplação .

Ele não é reflexo
Não é um questionamento.
Não é um repouso.
Tudo isso poderia ser entendido como modos da sua própria mente .

O que é isso que não está na engrenagem ?
Ele não é um estado.
Não está entre os estados.
Ele não é o espaço entre os pensamentos .
Não é uma lacuna .
Ele não pode ser feito ou desfeito.
Por si mesmo, não existe tal coisa como prática.
Não há tal coisa como contempladores , meditadores ou
que o atingiram.

Invisível, mas nada pode esconder -se .
Revelado, ainda assim nada pode vê-lo.
Auto- conhecimento, no entanto, é sem conhecimento.
Auto-realizado, mas é sem mente.
Abençoando -se, no entanto, é para além da dualidade .
Sendo, no entanto, é além de ser .
Insondável, inconquistável , inapreensível .

Quem ou o que está lá ?
Além pecado e além justiça.
Ele anuncia-se como o sentido 'eu sou' dentro do corpo.
Mas é mesmo para além "eu" e além do corpo .

Inapreensível, mas a atenção e o intelecto puro
pode reconhecer e reconhecer -se.

Sendo revelado, mas não é revelador.
Reconhecendo Sua onipresença, a alegria enche o coração. 

Danças da inteligência.

A paz é muito feliz.

Os universos prostram-se, embora seu Senhor
eles não possam ver..

27 de janeiro de 2014

Relacionamentos e Conflitos - Krishnamurti


"Tem o pensamento um lugar no relacionamento? 
Se tem, nesse relacionamento existe uma limitação, portanto, existe divisão, portanto, existe conflito. 

Certo? Na minha relação com uma esposa, ou com um marido, ou com uma garota, garoto ou assim por diante, se nessa relação o pensamento tiver grande participação, sendo o pensamento limitado, então, essa mesma limitação cria uma divisão entre ele e ela. Portanto, onde há divisão tem que haver conflito. Como vocês sabem muito bem, em todas as nossas relações existe conflito, mesmo que você goste do outro — não usarei a palavra amor — por mais que goste do outro, ou tenha prazer com o outro isso é sempre limitado, portanto, cria conflito. 

Isso é lei, é lógica, é verdade. Então, o pensamento tem seu lugar adequado no mundo da tecnologia, no mundo comum mas, psicologicamente, interiormente, o pensamento não tem lugar algum. Então, existe um lugar que cria a personalidade, o "eu". 

E o "eu", o ego, a persona é muito limitada. Ela pode se imaginar como maravilhosa, pode imaginar que consegue fazer coisas extraordinárias.

Mas, essa imaginação, essa imagem, ainda assim é muito, muito limitada, pequena. Ver a verdade disto — isso é tudo — não se deve fazer nada, além de apenas enxergar o fato. E, esse mesmo fato, a percepção do fato, como se
percebe algo perigoso, como um animal perigoso, um precipício perigoso, se você percebe isto como um fato, uma realidade, então, você rompe com toda a cadeia de continuidade do ego. Só então é possível viver com o outro sem uma sombra se quer de conflito. 

Porque o conflito é a própria essência da violência. Pensamos que a violência está do lado de fora, os terroristas, os sequestradores, as guerras, as pessoas que andam armadas como neste país, onde é permitido que todos andem armados, um país extraordinário! Você entra numa loja e pode comprar uma arma. Então, a violência não está apenas do lado de fora mas, a violência no relacionamento existe enquanto houver divisão, como "eu" e o "você". 

O "eu" perseguindo minhas ambições, minha ganância, meus propósitos, meus objetivos, e ela fazendo o mesmo. Portanto, estamos sempre vivendo em conflito.

E, percebendo o conflito, você diz: "Como resolvê-lo?"

Então, voltamos, o cérebro sendo condicionado a solução dos problemas desde a infância, então dizemos, "Tudo bem, veremos como resolvo, ou mudo, ou produzo, o fim do conflito" Isso se torna um problema. Certo? É isso que
vocês estão fazendo agora: como acabo com o conflito?
Mas, se você viu a raiz dele, a causa dele, o que possui uma causa, essa causa pode ser alterada, pode ser removida. A causa do conflito é a sensação de divisão trazida pelo pensamento, que é limitado. E o que é limitado, religiões são limitadas, suas crenças são limitadas, qualquer coisa construído pelo pensamento é limitada e, portanto, deve criar conflito. Se você perceber o fato disso, a verdade disso, então, a própria verdade é o catalisador que põe fim ao conflito."
J.Krisnamurti Palestra em Ojai, California, 1984

25 de janeiro de 2014

Conscientizações - Prof. Hermógenes


"Não a alimente com fichas negativas e degradantes. Fique vigilante. Qualquer tendência à auto-depreciaçao que se apresente, desperte, desligue, rechace, e substitua-a por uma ficha diametralmente oposta. Comece, desde agora, a acreditar em seu poder, em sua vitória. Passe a afirmar e, assim, firmar sua saúde, sua alegria, seu entusiasmo, sua imensa capacidade.

A princípio, advirto, terá a tentação de desconfiar e mesmo passar a admitir que sua mente só consegue mesmo cumprir ordens e sugestões derrotistas. Sabe por quê? Porque você tem tentado afirmar positividades, mas seu esforço tem sido infrutífero. Não tem sido assim? Sabe por quê? Porque, até agora, por todos esses anos que você viveu, você só tem oferecido à sua mente fichas, clichês, sugestões, convicções e ordens negativas, autodestrutivas. Estou errado? Você sabe que não. 

Que se pode esperar de uma “lâmpada de Aladin” que tem sido tratada assim há longo tempo? Naturalmente ela vai relutar em mudar de rumo. Pode ser diferente?

Ela pode relutar, mas acabará cedendo. Depende de você insistir, persistir, com ânimo incansável e inabalável, conservando esperança e tranqüilidade. Seja obstinado como quem quer expulsar de uma enorme tina a água
poluída que ela contém, mediante pingar água pura e santa, usando um conta-gotas. Sua tina ficou prejudicada porque, durante todo esse tempo, insistente e incessantemente, você vem usando o conta-gotas, mas com água poluída (pensamentos e emoções negativos). Desculpe a imagem, que pode ser rude, mas diz o que penso e acho que está certo.

Há outros aspectos importantíssimos para quem quer aprender a lidar com a mente. Vejamos.

Sempre que você afirmar positividade, não fique na expectativa ansiosa de ver logo as coisas se transformando, e os resultados aparecendo, como por milagre. Afirme de si mesmo o melhor, em outras palavras, ponha na mente um auto-retrato luminoso e triunfante, e que seja com muita nitidez, e sem sombra de dúvida, depois esqueça aquilo que deve acontecer.

Simplesmente deixe acontecer, pois é assim que acontecerá. O “gênio da lâmpada” é praticamente onipotente, mas gosta de ser deixado à vontade naquilo que faz. Confie nele. Confie no poder de sua mente. Ela irá corrigir o que até agora fez, ou melhor, o que suas auto sugestões perturbadoras e seu auto retrato feio fizeram você fazer. Está entendido? Tomara!

Diz-se que “pela via do sofrimento, chegaremos um dia à prática do amor ao próximo”. Concordo. Parece que a obstinação na ignorância, nos apegos, aversões e perversões, que está impedindo a humanidade de despertar, está programando conseqüências que deverão ser terríveis para todos que têm dívidas a pagar e contas a ajustar. Esta é a “lei do Karma”. Que podemos
nós fazer? Como poderemos mudar a humanidade? É uma preocupação generosa, que quase todos têm, e, não obstante, a humanidade continua marchando para a catástrofe. Por quê? 

Porque todos querem mudar a humanidade, mas cada um de per se não se transforma. 
Deseja-se a mudança dos outros, das instituições, dos costumes, da sociedade. Mas, a mudança íntima?... quem se dispõe a fazer? Acredito que uma pessoa que desperta e começa a amar, a servir, tendo se libertado do
egoísmo, está já melhorando o mundo.

Para melhorar o mundo, comece por você mesmo. Comece por evitar a agressão. Agressão contra quem? Contra você mesmo. No instante em que você se acredita fracassado, vencido, abatido e sem força... sem o saber, está se agredindo, e o pior, agredindo a centelha do Divino, que está em seu coração. Na verdade, você tem agredido o próprio Deus, cada vez que pensa mal de um de Seus filhos, sempre que deprecia particularmente uma de suas
expressões no mundo – você mesmo.

Se me vier com o argumento de que assim pensa em face das quedas e derrotas que tem sofrido, primeiro relembro o que acima foi dito: não é a sorte, não são os fatores externos, não soa os outros que devem ser apontados como responsáveis, mas sim o descuido desastroso ou a inabilidade de lidar com sua mente, quando, em vez de usá-la para construir-se, tem-na usado para agredir-se.
Por outro lado, gostaria de esclarecer que o grande vitorioso não é aquele que, na crista da onda, está sorridente, parecendo invencível, mas que, na hora em que a onda fatalmente descer, vai desesperar-se, abater-se, deprimir-se. 

Vitorioso é aquele que um golpe jogou no chão e, no chão, reúne forças e muito ânimo para levantar e realizar o melhor de si mesmo. Vê como as aparências enganam?

Procurei conversar com você como se o estivesse vendo, à minha frente, como meu amigo, meu irmão a quem desejo servir.

Mais uma vez: como pessoa, não estou nas alturas em que me imagina; como pessoa, também você não está no fosso onde supõe. É um erro de ótica. Como expressões de Deus, parecemos dois diferentes, mas no Deus que nós somos, somos não somente iguais, mas um só.

Daqui por diante, cada vez que alimentar emoções e pensamentos mórbidos, lembre-se imediatamente de que está ofendendo Deus, opondo-se a Deus, o Deus que está em você, que você, em essência, realmente é.

Que o Deus Onipotente que está em você, com a cooperação de sua mente orientada para a Luz, desabroche em potência, criatividade, alegria, liberdade, paz e inteligência.

Receba um abraço de quem lhe quer muito bem: o Deus, que está em mim.
Namastê."
Prof. Hermógenes do livro Yoga paz com a vida

23 de janeiro de 2014

Liberdade Interior - Matthieu Ricard


"Uma análise rigorosa nos forçará a concluir que o "eu" não reside em nenhuma parte do corpo. Ele não está nem no coração, nem no peito, nem na cabeça. Ele também não é algum tipo de entidade difusa, como uma substância que permeia o corpo. 

Acreditamos que o eu está associado à consciência, mas ela também é um fluxo que nos escapa: em termos de experiência viva, o momento passado da
consciência está morto (só permanece o seu impacto), o futuro ainda não está lá, e o presente não dura. Como pode existir um eu separado, suspenso como uma flor no céu, entre algo que não existe mais e algo que ainda não existe? Ele não pode ser detectado nem no corpo nem na mente; não é nem uma entidade distinta na combinação dos dois, nem algo externo a eles. 

Nenhuma análise séria, nenhuma experiência contemplativa ou introspectiva
direta pode justificar um sentimento tão forte de possuir um eu. 
O eu não pode ser encontrado naquilo a que o associamos. Qualquer um pode pensar que é alto, jovem e inteligente, mas nem a altura, nem a juventude e
nem a inteligência são o eu. 

O budismo, portanto, conclui que o eu é apenas um nome pelo qual designamos um continuum, como ao darmos a um rio o nome de Ganges ou Mississipi. Esse continuum certamente existe, mas de modo puramente convencional e fictício. É inteiramente desprovido de existência autônoma. (...)

Certo dia, um tibetano foi visitar um velho sábio na cidade de Ghoom, próxima a Darjiling, na Índia. Ele começou contando a esse sábio todos os seus infortúnios passados, em seguida passando a fazer uma lista de tudo o que temia quanto ao futuro. Durante todo o tempo, o velho sábio ficou com toda a calma assando batatas em um pequeno braseiro que estava no chão à sua frente.

Passado algum tempo, disse ao seu queixoso visitante: "De que adianta preocupar-se com coisas que não existem mais e com coisas que ainda não existem?" Perplexo, o visitante parou de falar e permaneceu calado por um bom tempo ao lado do sábio - que, de quando em quando, lhe estendia uma batata quente e tostada.

A liberdade interior nos permite saborear a lúcida simplicidade do momento presente, livre do passado e emancipado do futuro. 

Libertar-nos da invasão de memórias do passado não significa que sejamos incapazes de tirar lições úteis da própria experiência. 

Libertar-nos do medo do futuro não torna incapazes de nos aproximarmos dele com lucidez, mas nos salva de atolar em pensamentos inúteis."
Matthieu Ricard em Felicidade: a prática do bem-estar.

21 de janeiro de 2014

Sentimentos e Percepções - Thich Nhat Hahn


"Numa fria noite de inverno, voltei para casa depois de caminhar pelas colinas e descobri que todas as portas e janelas da minha ermida haviam sido escancaradas pelo vento. Quando saí, eu não as havia trancado. Um vento gelado soprara pela casa, abrira as janelas e espalhara os papéis da minha escrivaninha por toda a sala. Eu imediatamente fechei as portas e janelas, acendi a luz, recolhi os papéis e os arrumei com cuidado sobre a escrivaninha. Depois acendi a lareira e logo as achas crepitavam, trazendo o calor de volta ao aposento.

Às vezes, no meio de uma multidão, nós nos sentimos cansados, desanimados e solitários. Podemos ter vontade de nos retirar dali para que sozinhos possamos nos reaquecer, como eu fiz fechando as janelas e me sentando diante da lareira, protegido do vento frio e úmido. 


Nossos sentidos são nossas janelas para o mundo, e às vezes o vento passa por elas e perturba tudo o que há em nosso íntimo. Alguns de nós mantém as janelas abertas o tempo todo, permitindo que os sons e os suspiros do mundo nos invadam, nos penetrem e exponham nossos eus tristes e perturbados. É que sentimos frio, medo e solidão. Você alguma vez já se flagrou assistindo a um programa horrível na televisão, sem conseguir desligar o aparelho? Os ruídos estridentes e as explosões dos tiros o transtornam. Mesmo assim, você não se levanta para desligar a televisão. Por que se torturar desta forma?

Você não quer fechar suas janelas? Tem medo da solidão – do vazio e do isolamento que pode encontrar quando olhar para si mesmo sozinho?

Ao assistir a um mau programa de televisão, nós nos tornamos esse programa. Somos o que sentimos e percebemos. Se estamos com raiva, somos a raiva. Se amamos, somos o amor. Se contemplamos a montanha coberta de neve, somos a montanha. Podemos ser o que quisermos.

Por que então abrimos nossas janelas para maus programas de televisão, obra de produtores sensacionalistas à procura de dinheiro fácil, programas que aceleram nosso coração, cerram nossos punhos e nos deixam exaustos?

Quem permite que esse tipo de programa seja feito e seja visto até mesmo pelas criancinhas? Nós! Nós somos por demais displicentes, dispostos a assistir ao que quer que apareça na tela, solitários, preguiçosos ou entediados demais para criar nossas próprias vidas.

Ligamos a televisão e a deixamos ligadas, permitindo que outros nos guiem, nos formem e nos destruam. Ao nos perdermos desta forma, estamos entregando nosso destino em mãos de terceiros que podem não estar agindo de maneira responsável. Precisamos ter consciência de quais programas são nocivos ao nosso sistema nervoso, à nossa mente a nosso coração, e quais são benéficos.

É claro que não estou falando apenas da televisão. Em toda a nossa volta, quantos chamarizes sedutores não são instalados, por nossos companheiros e por nós mesmos? Num único dia, quantas vezes não nos perdemos e nos dispersamos devido a eles? Precisamos ter muito cuidado para proteger nosso destino e nossa paz. Não estamos sugerindo que simplesmente fechemos todas as nossas janelas, pois há muitos milagres no mundo que chamamos de “exterior”. 

Podemos abrir nossas janelas para esses milagres e contemplar cada um deles com consciência.

Assim, mesmo que estejamos sentados junto a um límpido regato, ouvindo música belíssima ou assistindo a um filme excelente, não precisamos nos perder inteiramente no regato, na música ou no filme. Podemos continuar a
ter consciência de nós mesmos e de nossa respiração. Com o sol da consciência nos iluminando, podemos evitar a maioria dos perigos. O regato será mais puro, a música mais harmoniosa, e a alma do diretor do filme totalmente visível.

Quando nos iniciamos na meditação, podemos querer sair da cidade e ir para o campo para fechar com maior facilidade aquelas janelas que perturbam nosso espírito.
Lá poderemos nos sentir unos à floresta silenciosa e nos redescobrir e nos recuperar, sem sermos dominados pelo caos do “mundo exterior”. Os bosques frescos e tranquilos nos ajudam a permanecer conscientes; e, quando a nossa consciência estiver bem enraizada e pudermos mantê-la sem vacilação, talvez desejemos voltar à cidade e ali ficar, menos perturbados. 


Às vezes, porém, não há como sair da cidade, e nós teremos de descobrir os elementos serenos e revigorantes que poderão nos curar em meio à nossa vida atribulada.
Podemos ter vontade de visitar um bom amigo que nos console, ou ir passear num parque apreciando as árvores e a brisa fresca. Estejamos na cidade, no campo ou na mata, precisamos nos amparar escolhendo cuidadosamente nosso ambiente e nutrindo nossa percepção a cada momento."
Thich Nhat Hanh em Paz a cada passo

19 de janeiro de 2014

Vá Além! - Osho


"Não se pode fazer uma estátua de um sufi, pois a estátua não poderá expressar sua dança, não expressará sua canção, não expressará seu amor, sua oração, sua gratidão. Sua loucura extática não será expressa pela estátua. Só se pode fazer a estátua de um meditador. O meditador é uma estátua - frio, silencioso, vazio. O vazio tem uma pureza, falta vida, falta, mas falta nele alguma coisa. Falta nele riqueza, falta vida, falta alegria orgásmica.

E é o que acontece com as pessoas que percorrem o caminho da via unitiva: seu caminho é de unidade orgásmica. (...) Dois indivíduos transformam-se em um. E, quando esses dois indivíduos tornam-se um só, na verdade três coisas estão se transformando numa só: o amante, o amado e o amor.

O amor é um fenômeno muito sólido para os amantes. Na verdade, o amante e o amado nada são comparados à realidade do amor. O amor e o amado nada são comparados à realidade do amor: O amor é muito mais real que a existência de ambos separados um do outro. De modo que, quando os amantes se encontraram, três coisas se encontram.

Para simbolizar isso, criamos na Índia um lindo lugar sagrado, Preyag, onde dizem que três rios se encontram. Dois são visíveis, o terceiro é invisível. Um deles é o Ganges, muito visível; outro é Yamuna, muito visível e o terceiro é o Saraswati - que ninguém pode ver. Ele está lá, mas é preciso que se acredite nele; é invisível.

Para a mente científica, parece absurdo. Como pode haver um rio invisível? Ninguém nunca o viu, mas os hindus insistem em dizer que existe uma confluência de três rios: dois são deste mundo e o terceiro, do outro. Dois pertencem à Terra e o terceiro, ao além.

Trata-se realmente de uma metáfora do amor. Quando dois amantes se encontram, três coisas estão se encontrando, três energias: duas são deste planeta e a terceira vem do além. Duas são visíveis, podemos ver o amante e a amada - mas ninguém pode ver o amor, que é muito mais valioso que ambos. Na verdade, é por causa do terceiro que os dois se encontram é no terceiro que os dois se dissolvem - mais uma vez, no entanto, é um fenômeno completamente diferente. (...)

O caminho do meditador é uma espécie de deserto. O deserto tem sua própria beleza: se você já esteve num deserto à noite, sabe que tem um frescor que jamais poderá encontrar em outro lugar, além de um imenso silêncio, um silêncio enorme, gigantesco, e tem também infinitude. Tem um sabor próprio. Debaixo do céu estrelado se você já esteve sozinho num deserto, nunca mais poderá encontrar essa solidão em algum outro lugar.

Nenhum outro lugar da Terra é tão cheio de solidão quanto um deserto. E não existe variedade, de modo que você não se distrai. É a mesma coisa por quilômetros - até onde se consegue enxergar no horizonte, é a mesma coisa. Não há nada para ver; quando vimos um deserto já vimos todos. É a mesma coisa: a mesma cena se prolonga indefinidamente. Não existe nenhuma distração.

Por isso é que muitos meditadores mudaram-se para o deserto. Ao longo dos tempo, muitas pessoas se transferiram para o deserto. A atração é o silêncio e a beleza de uma situação sem distrações. Nada distrai, nada se move, tudo absolutamente parado. A morte não pode ser mais parada que o deserto. Ele tem uma beleza própria - mas carece de riqueza de variedade.

O jardim tem variedade: muitas árvores, muita folhagem verde, muitas flores, muitas cores, pássaros cantando, riachos correndo, o som da água em movimento e o vento passando pelos pinheiros. Mil e uma coisas acontecem ao mesmo tempo. O jardim é cheio o deserto é vazio.

O ser interior de um meditador fica parecendo um deserto e o ser interior de um amante fica parecendo um jardim. (...)
Mas ainda depende de você. A pessoa pode gostar mais do deserto que do jardim, e então será esse o seu caminho. Não há nada de errado nisso, a pessoa deve seguir esse caminho. É preciso olhar para o próprio interior e ver o próprio potencial, suas possibilidades, suas inclinações. (...)

Todo mestre afirma, pois existe em ambos os caminhos - seja o deserto seja o jardim - o problema é que a pessoa pode ficar presa na ponte. O meditador pode ficar tão viciado em meditação que fique preso na ponte. O amante pode ficar tão viciado em amor que ficará preso na ponte. O amor é uma ponte, a meditação é uma ponte. E temos que ir além da ponte.

No estágio supremo, o meditador tem de deixar de lado a meditação e o amante tem de esquecer tudo do seu amor. Caso contrário, você chegará perto da porta, mas não conseguirá entrar no templo. O método precisa ser esquecido.

Buda dizia que todo método é como uma jangada, um barco: use-o para chegar à outra margem, e então deixe-o ali, esqueça-se dele e siga o seu caminho. Não é preciso carregar a jangada na cabeça. Quem carrega a jangada na cabeça é simplesmente estúpido.

Mas é isso que acontece: milhões de pessoas ficam viciadas no seu método. E o método realmente PODE viciar, pois proporciona tão belas experiências. A última barreira é o método, a última barreira é a ponte.

Tente entender: é muito paradoxal. A ponte o conduz ao outro lado: certamente representa uma ajuda, e você deve ser agradecido. Mas a coisa pode tornar-se um problema. Você pode se apaixonar pela ponte e transformá-la em sua casa. E se começar a viver na ponte, não estará de um lado nem de outro; estará numa espécie de limbo. E muitos chamados praticantes religiosos vivem numa espécie de limbo - não são deste mundo nem do outro. Ficaram viciados na ponte.

E a ponte É linda! De modo que todo discípulo precisa ficar sabendo desde o início: "Um dia, o método que o tiver ajudado até então terá de ser deixado de lado. Quando sua função estiver concluída, não continue ligado a ele, nem sequer por um momento a mais. Quando a doença está curada, é preciso parar de tomar o remédio. Se a pessoa continua a tomá-lo, ela é que se transformará em doença."

Todos os métodos são métodos, todos os meios são meios. E, se você quiser chegar ao fim, terá de deixar de lado todos os meios e métodos. É a única maneira de entrar no supremo. O amante terá de esquecer tudo sobre o amor, e o meditador terá de esquecer tudo sobre a meditação. Sim, chega um momento em que o meditador não medita, por que se tornou a própria meditação; a meditação deixou de ser uma atividade separada. E chega um momento em que o amante não ama, pois ele é o próprio amor. Não há mais ninguém separado do amor, o amor tornou-se o seu ser - ele esqueceu tudo a respeito."
Osho em Encontro com Pessoas Notáveis

18 de janeiro de 2014

A Liberdade dá asas - Osho


"O maior medo que existe neste mundo é o da opinião dos outros. E, no momento em que passa a não temer o grupo a que pertence, você deixa de ser uma ovelha, você vira um leão. Um grande rugido se avoluma no seu coração, o rugido da liberdade.

Buda de fato já o chamou de o rugido do leão. Quando o homem chega num estado de absoluto silêncio interior, ele ruge como um leão. Pela primeira vez, ele sabe que a liberdade provém do fato de não ter mais medo da opinião
de ninguém. O que as pessoas dizem não importa. Se eles o consideram um santo ou um pecador é irrelevante; seu único juiz é Deus. 

E para Deus, uma pessoa nunca é ruim.

Deus significa simplesmente todo o universo.

Não é uma questão de ter de encarar uma pessoa; você tem que encarar as árvores, os rios, as montanhas, as estrelas – o universo inteiro. E esse é o nosso universo, fazemos parte dele. Não é preciso ter medo dele, nem lhe esconder nada. O todo já sabe de tudo, o todo sabe mais sobre você do que você mesmo.

E a questão seguinte é até mais importante: Deus já julgou. Não se trata de algo que vai acontecer no futuro; isso já aconteceu: ele já julgou. Portanto, até o medo do julgamento perde o sentido. Não é uma questão de esperar o Dia do Juízo Final. Você não precisa temer.

O dia do julgamento já aconteceu no primeiro dia; no momento em que criou você, ele já o julgou. Ele conhece você, você é criação dele. Se algo saiu errado com você, é responsabilidade dele, não sua. Se você se perder, ele
é o responsável, não você. Como você poderia ser o responsável? – você não é criação sua. 

Se você pinta um quadro e algo sai errado, não pode dizer que o quadro é a causa do erro – o pintor é a causa.

Portanto, não há necessidade de temer o seu grupo ou algum Deus imaginário lhe perguntando, no final dos tempos, o que você fez ou deixou de fazer. Ele já o julgou – isso é realmente significativo – isso já aconteceu, portanto, você está livre. 

E, no momento em que a pessoa sabe que está totalmente livre para ser ela
mesma, a vida começa a adquirir um certo dinamismo.

O medo cria grilhões, a liberdade dá asas."
Osho em Coragem: o prazer de viver perigosamente

16 de janeiro de 2014

Essência oceânica - Jeff Foster


"Cada onda do mar tem o gosto do oceano, não importa quão grande ou pequeno ou intensa ou suave a onda aparece para nós.

E assim, abraçando uma única onda de dor, medo, tristeza, dúvida, confusão ou raiva, é como abraçar todo o oceano. 

Dizer sim a uma única onda – ou melhor, reconhecendo que a onda já tem um “sim” nela mesma – é como afirmar tudo na vida com um só fôlego.

Permitir que uma onda o consuma absolutamente, se render à vida nela, morrendo para a sua incrível intensidade, deixando-a mover-se livremente através de você sem resistência ou julgamento, extraindo o falso e o morto e o temporal a partir dela, sugando a ilusão de separação, tornando-se inofensivo e essencialmente inocente, levando-o para fora de sua história pessoal e deixando-o apenas com a sua essência oceânica,que é o amor.

Espremendo a “negatividade” fortemente e deixando a essência do amor escorrer para fora.
Nossa limitada, de segunda mão e herdada imagem do amor estilhaçar em milhões de pedacinhos. 

E então, se fundir nessa lembrança de quem realmente somos, mesmo no meio do nosso desespero, dor e saudade de casa, ainda podemos sentir totalmente vivos, intocáveis e apoiados de uma forma que não podemos explicar, e talvez até preenchidos com aquele estranha, alegria sem causa, dos quais os universos nascem."

14 de janeiro de 2014

A Investigação Necessária - Bob Adamson


"Constantemente ao longo dos anos com o padrão de hábitos acontecendo (pensamento) a mente acreditou que ela fosse a inteligência. E acredita ser real; que tem poder; que tem vontade; que possa fazer o que gosta e o que pensa que quer fazer.

É por isso que essa investigação é necessária. Apenas pare e questione. 

Dê uma olhada no que temos acreditado que fossemos. O pensamento por si mesmo não pode fazer coisa alguma! Porque aquele pensamento ‘eu vejo’, não pode ver! O pensamento ‘eu escuto’, não pode escutar! O pensamento ‘eu estou consciente’, não pode estar consciente! Mas existe o ver; existe o escutar; e existe consciência. Isso está acontecendo bem agora!

O ver por si mesmo não conceitualiza. Ele não pode dizer ‘eu estou vendo isso’. Nem o escutar pode dizer ‘eu estou escutando isso’. Trata-se apenas de puro ver e puro escutar. Isso é conceitualizado pela mente, a qual deve se referir a alguma memória passada para obter aquele nome. A mente ou o ‘mim’, o pensamento que eu tenho sobre mim mesmo, é o passado. Isso é tudo o que ele é. 

Ele é o passado, e o passado está morto. Ele se foi. Ele aconteceu. Ele não é o que é. Aquele centro ao qual nos referimos constantemente e no qual acreditamos é uma imagem morta.

Então nós lhe dizemos bem aqui, que o que você está buscando você já é! A idéia de separação é apenas um conceito. Com essa idéia de separação, imediatamente vem o senso de insegurança e vulnerabilidade. 
Qualquer coisa que pense ou acredite estar separada também se sentirá isolada e só, à parte de ‘mim’, outro que não ‘eu’. Esse é o modo como a mente funciona. Tão logo haja um ‘mim’, deve haver outro que não ‘eu’, e essa é a aparente separação. Essa é a causa de todos os nossos problemas.

Quando isso é compreendido, que problemas existem, se não há nenhum centro ao qual eles se referem?

No ver e estar com aquilo, mesmo naquela fração de segundo, saber que não há nada errado com o agora, a menos que eu pense sobre isso, então após isso, importa se a mente está lá ou não? Por que se a mente foi examinada e compreendida, ela não terá o mesmo crédito, justamente o mesmo quando se compreende que o azul do céu não é realmente azul. Mas nós ainda o vemos como azul, e nos apercebemos dele dizendo, ‘que lindo céu azul’. Mas sabemos a verdade sobre isso.

Como dizem as escrituras: ‘Saiba a verdade e a verdade o libertará’
Saiba a verdade sobre si mesmo! Você verá que sempre foi livre. Você sempre foi livre. 

Apenas uma aparente crença errônea: ignoramos nossa natureza verdadeira e acreditamos na aparência."

12 de janeiro de 2014

Leia-se completamente! - Satyaprem


"O corpo é uma experiência, é um estado. Do ponto de vista medieval, é um estado sólido de ser. Já do ponto de vista da física moderna, é um estado atômico, energético. Uma versão mais fluída, digamos, e que já decompõe a ideia da morte, por exemplo.

Há certo anacronismo intelectual no mundo, as pessoas estão no século vinte e um, mas pensam como se pensava no século dezessete. Apesar de muito já ter sido desvendado, a morte continua tão amedrontadora quanto naquela época.

Mas o que é a morte? Quem é que morre? O que é que morre?

Outro dia li uma piada que vem a calhar nesse momento. O menino chegou para uma bela garota no bar e perguntou: "Você gosta de água?" Ao que ela respondeu "Sim, gosto".
E o menino continuou: "Então já estamos meio caminho andado, porque você gosta de 70% de mim."

O que isso quer dizer? Esse corpo, que você defende como sendo "você", é composto por 70% de água. Não tem "você". O "você" que existe, é um "você psicológico" – e é esse que teme a morte.

Isso acontece porque, sendo este um "você" imaginado, ele precisa ser pensado. Sem pensá-lo, ele morre. "Penso, logo existo" – afirmou Descartes. O que nos sugere, em nosso contexto, que "sem pensar, você não
existe". Já pensou sobre isso? (...)

Um dia, perguntaram a Ramana Maharshi: "Que livro posso ler para encontrar a mim mesmo?" Ramana, prontamente, respondeu: "Nenhum. A única coisa que você pode fazer é entrar para dentro de si e ler, completamente, a si mesmo. Depois que você encontrar a si em si mesmo, pode ler o que quiser."

Não sei quanto a vocês, mas é disso que compartilho.
Leia a si mesmo de todas as maneiras possíveis. Custe o que custar. Fique cara a cara com aquilo que foi imposto sobre você como verdade.
Você é jovem? Você é velho? Homem? Mulher? Stop! Por que você está sempre sendo alguma coisa? Estamos detidos no 'ser alguma coisa' sem nos darmos conta do que há anteriormente a qualquer coisa.

Remova os 'issos' e os 'aquilos' e veja a consistência do eu, veja que peso tem esse pronome antes do verbo.
Por fim, remova o "eu" e fique com o SER."

10 de janeiro de 2014

Desapareça em Turiya - Osho


"Este é o primeiro passo em direção ao misterioso, e o passo fundamental é: se você conseguir ser um participante por um momento, terá conhecido a chave, o segredo. 

Então torne-se um participante em tudo o que estiver fazendo. Caminhe, mas não caminhe apenas mecanicamente, não caminhe apenas observando o caminho - seja o caminhar. Dance, mas não dance tecnicamente; a técnica é irrelevante. Você pode estar tecnicamente correto e ainda assim perder toda a alegria da dança. Dissolva-se na dança, torne-se a dança, esqueça-se do dançarino.

Quando essa unidade profunda começar a acontecer em muitas, muitas fases de sua vida; quando tudo à sua volta começar a ter essas extraordinárias experiências de desaparecimento, do nada, de ausência de ego; quando a flor estiver ali e você não, quando o arco-íris estiver ali e você não; quando as nuvens estiverem vagando no céu dentro e fora de você e você não existir como um eu; quando houver o completo silêncio no que diz respeito a você; quando não houver ninguém em você, apenas um puro silêncio, um silêncio virgem, não distraído e não perturbado pela lógica, pelo pensamento, pela emoção, pelo sentimento, esse é o momento da meditação. A mente se foi, e quando a mente se vai o mistério entra.

O mistério e a mente não podem existir juntos; eles não são, por sua própria natureza, coexistenciais. Assim como a escuridão e a luz: você não pode ter ambas em seu quarto. Se você quer a escuridão, tem de extinguir a luz; se você quer a luz, tem de abrir mão da escuridão. Você só pode ter uma, pela simples razão de que a presença da luz é a ausência da escuridão, e a presença da escuridão é a ausência de luz; na verdade, elas não são duas coisas. O mesmo fenômeno, quando presente é luz; quando ausente é escuridão. Você não pode lidar com ambas, ter a presença e a ausência juntas.

A mente é a presença do não misterioso, do lógico; a meditação é a presença do misterioso, do milagroso.

Assim, distancie-se da mente. Deixe que a arte, a poesia, a pintura, a dança tornem-se mais importantes - elas irão aproximá-lo mais da meditação - e finalmente, mergulhe. Se você tiver provado algo da poesia, encontrará a coragem suficiente para dar o mergulho fundamental.
Dessa forma, para mim, a religião consiste em três camadas.
A primeira é a da ciência. Assim como seu corpo é feito de constituintes materiais, atômicos, a religião consiste primeiro de sua parte mais periférica, de ciência. Não sou contra a ciência - a ciência é uma necessidade absoluta - mas ela é apenas um fenômeno periférico, o mais superficial, o primeiro círculo concêntrico em torno do seu centro. Então vem o segundo circulo concêntrico, que é mais profundo que a ciência; aquele da arte, da estética. E depois vem o terceiro, aquele da meditação. E se você tiver entrado nesses três círculos concêntricos, lentamente, muito lentamente, atingirá o quarto círculo.

O quarto círculo no Oriente é chamado de turiya. 

Nós não lhe damos nenhum nome, simplesmente lhe damos um número: "o quarto". Nada pode ser dito sobre ele, por isso nenhum nome foi dado a ele. Ele está além do misterioso. A meditação vai conduzi-lo para o misterioso, mas lá há ainda algo mais do que isso; e isso é inexplicável.  

Nada pode ser dito a respeito dele, nada jamais foi dito a respeito dele, nada jamais será dito a respeito dele, mas ele tem sido experienciado. 
Só no último pico da experiência, nesse êxtase final, você saberá 
o que é Ser. (...)

Explore a poesia, explore a música, explore a dança, explore a meditação e, por fim, e fundamentalmente, desapareça em turiya."
Osho em Inocência, conhecimento e encantamento.

8 de janeiro de 2014

Clareza Irrefutável - Mooji


"Não será a mente que irá te dizer,"Olha, eu estou me demitindo de você!
Estou saindo de férias, vou lhe dar um descanso!"


A mente trabalha em horário integral...

Você precisa agradecer pelo sono, pelo menos o bom sono, que se aproxima e lhe diz: "Tchau mente!"

Porque quando você está em sono profundo, não há mais mente. E você gosta de dormir ou não?
- Muito! Ótimo.
Todo mundo adora dormir.

Como eu disse, você não compra a melhor cama possível para sonhar.Ninguém compra uma cama para sonhar. Você compra uma cama para dormir profundamente.

Você pode ter se casado hoje, ter sua noite de núpcias..mas quando chega o sono profundo você não pode levar sua noiva com você.Ninguém pode entrar lá com você.Sua crença não pode entrar, nem mesmo "você" pode entrar! Mesmo o "eu" não pode estar lá. E você adora esse estado. Ador esse estado, no qual você não está preso a nada! Não está preso a nenhum estado perseptivo.Você adora esse estado. Se você não entrasse nesse estado, você não estaria tão revigorado hoje.

Todo dia, você em alguma parte do dia, que você nomeia de noite, você entra na completa cessação de toda atividade mental, toda atividade emocional. Você não tem nome, não tem gênero, não há hierarquias, não há céu, não há inferno.. Existe apenas aquele... silencio absoluto. Lá, você não tem um emprego, não está empregado nem desempregado. Além de todos os conceitos. E você adora esse estado.

Esse estado é somente uma pista para você, no seu estado de vigília.
Sim... Esse estado existe aqui e agora também!
Ele é como o leito de um rio...e sua mente é o rio que flui sobre ele. Esse silencio, essa quietude está aqui...

Quando a consciência está acessível, quando a luz da consciência está acesa, o show está no ar, incluindo a noção de si mesmo.. Eu, mim, você, tempo, percepção, diversão, sofrimento, tudo...e nós adoramos isso! Você admite. Uma vez que começa, nós ficamos viciados! Ficamos viciados no experienciar.

Adoramos o contraste, a fricção...sim...
As incertezas, os altos e baixos. Eles lhe relembram de que você está vivo...

Participante - Acho que eu não quero morrer. Ah! Eu não quero morrer..
Mooji- Se você se compreendesse a si mesmo, você saberia que você jamais pode morrer. Se você sabe quem você é, você não precisa ficar na mente para continuar vivo.

Participante - Está me faltando essa compreensão.

Mooji - Não, não é isso. Apenas é que você não está suficientemente voltado para ela. Alguma outra coisa a está ocultando, como estavamos dizendo ontem: a unha do seu polegar pode ocultar o sol, entende? Ou seja, um conceito pode ocultá-la ( essa compreensão ).

Um conceito... "Ah, eu não quero morrer !"

Daí você não busca a verdade porque em algum lugar dentro de você há um trauma, de que ao se descobrir a verdade, há um tipo de morte de algo... algo que você está chamando de "você".

E estou lhe dizendo: isso NÃO É você! São apenas as ideias que você tem sobre você. Que não se baseiam na verdade. Elas são ilusórias. São um fantasma. E a sua vida é uma história fantasma.

Você está abandonando a liberdade, em troca de uma história fantasma.
Preciso lhe dizer isso.
Você compreende? Tudo isso que você pensa obter da mente e ahh... um dia isso vai acabar.

Você não quer morrer? Bem, um dia você vai morrer... Enquanto corpo e mente, você vai morrer.

Primeiro o corpo...Mas se você compreende que você é Aquilo que observa o corpo e a mente...e quando digo "compreende", não quero dizer compreender somente aqui ( na cabeça ), mas você reconhece isso através da experiência direta, que é aquilo que está sendo apontado aqui... Não apenas sendo indulgente com a mente, a mente.. mas através daquela clareza irrefutável...

Sim, nós podemos realizar essa investigação, essa introspecção. E então, você não vai se importar com o que a mente está dizendo.

Participante: Quando olho para o que há de mais próximo em minha mente - do ser.. há uma imagem, uma imagem clara. É algo como uma imagem de vidro...vidro..ou escuridão..

Mooji - Sim, isso é a mente novamente, percebe? A diferença é que você tem um grande respeito por sua mente, e lealdade à sua identidade...como algo que é um construído na mente. Sua oportunidade é descobrir quem você realmente é. E aí, se você quiser adorar sua mente, adore a mente! Pelo menos você vai amar a mente sendo livre."
Mooji em Satsang

7 de janeiro de 2014

Doce ausência...



Onde me fui perder?
Onde me fui deixando pelo caminho

Onde?
Deixei de me importar
Deixei de me incomodar
Deixei de me importunar
Deixei de me preocupar?

Fui deixando aquilo que não era eu
Deixando "coisas" que carregava tão intimas,
tão próximas
Que me confundiam de tão entranhadas que estavam
Parecia que faziam parte de mim

Pareciam, tão eu mesma
que muitas e muitas vezes as tomei como próprias
vivenciei todas elas tão intensamente...

Mas descobri que nunca foram nada...

Nunca foram nem sequer semelhantes a mim
eram sombras
eram nuvens
fumaças
apenas...

Onde foram parar todas elas?
Onde estão todas elas, agora?
Onde?

O caminho é vazio de rastros
as pegadas, o vento desfez
Nada resta daquilo que acreditei um dia...
Onde?

O sol brilha sobre todas as nuvens,
para ele não existe 
noite...

Hoje isso é realidade viva... 
em Mim...

~Amidha Prem~



6 de janeiro de 2014

Ser Livre Agora - Eckhart Tolle 2/2


Eckhart Tolle - Algumas pessoas ficam furiosas quando me ouvem dizer que os problemas são ilusões. É que estou ameaçando afastar delas a imagem que têm de si próprias. Elas investiram muito tempo num falso sentido de eu interior. Durante muitos anos, definiram inconscientemente suas identidades de acordo com os problemas que tiveram. Quem seriam sem eles? Uma grande porção do que as pessoas dizem, pensam ou fazem é, na verdade, motivada pelo medo, que está sempre ligado com o foco no futuro e com o estar fora de contato com o Agora.

Se não existirem problemas no Agora, não existirá o medo. Caso apareça uma situação com a qual você precise lidar agora, a sua ação vai ser clara e objetiva, se conseguir perceber o momento presente. Tem muito mais chances de dar certo. Não será uma reação vinda do condicionamento da sua mente no passado, mas sim uma resposta intuitiva à situação. Em situações em que a mente teria reagido, você vai achar mais eficaz não fazer nada. Fique só centrado no Agora.
A
 alegria do ser.

Para demonstrar como você se deixou dominar pelo tempo psicológico, experimente usar o critério de se perguntar se existe alegria, naturalidade e leveza no que você está fazendo. Se não existir, é porque o tempo está encobrindo o momento presente e a vida está sendo percebida como um encargo ou uma luta. A ausência de alegria, naturalidade ou leveza no que estamos fazendo não significa, necessariamente, que precisemos mudar o que estamos fazendo. Talvez baste mudarmos o como. “Como” é sempre mais importante do que “o que”. Verifique se você pode dar muito mais atenção ao fazer do que ao resultado desejado através do fazer. Dê a sua inteira atenção para o que quer que o momento apresente. Isso implica que você aceitou totalmente o que é, porque não se pode dar atenção completa a alguma coisa e, ao mesmo tempo, resistir a ela. Ao respeitarmos o momento presente, toda a luta e a infelicidade se dissolvem e a vida começa a fluir com alegria e naturalidade. Ao agirmos com a consciência do momento presente, tudo o 
que fizermos virá com um sentido de qualidade, cuidado e amor, mesmo a mais simples ação. Portanto, não se preocupe com o resultado da sua ação, basta dar atenção à ação em si. O resultado surgirá espontaneamente.

Essa é uma valiosa prática espiritual.


No Bhagavad Gita, um dos mais antigos e mais belos ensinamentos espirituais que existem, o desapego ao resultado da ação é chamado Karma Yoga. 
É descrito como o caminho da “ação santificada”. Ao fim dessa luta
compulsiva contra o Agora, a alegria do Ser passa a fluir em tudo o que fazemos. No momento em que a nossa atenção se volta para o Agora, percebemos uma presença, uma serenidade, uma paz. Não dependemos mais do futuro para obtermos plenitude e satisfação, não o olhamos mais como salvação. 

Conseqüentemente, não estamos mais presos aos resultados. Nem o fracasso nem o sucesso têm o poder de alterar o estado interior do Ser. Você acabou de encontrar a vida sob a situação de vida. Na ausência do tempo psicológico, o nosso sentido do eu interior provém do Ser, não do nosso passado pessoal. 

Assim, desaparece a necessidade psicológica de nos tornarmos uma outra pessoa diferente de quem já somos. No mundo, levando em conta a situação de vida, podemos nos tornar ricos, conhecidos, bem-sucedidos, livres disso ou daquilo, mas, na dimensão mais profunda do Ser, estamos completos e inteiros agora.

Participante : Nesse estado de plenitude, ainda teríamos capacidade ou vontade de alcançar os objetivos externos?

Eckhart Tolle - Claro que sim, mas sem as expectativas ilusórias de que uma coisa ou alguém no futuro irá nos salvar ou nos fazer felizes. No que diz respeito à situação de vida, podem existir coisas a ser alcançadas ou adquiridas. Vivemos no mundo da forma, dos lucros e perdas. Mas, em um nível mais profundo, já estamos completos, e quando percebemos isso, tudo o que fizermos será impulsionado por uma energia alegre e jovial.

Estando livre do tempo psicológico, não perseguimos mais os objetivos com uma determinação implacável, movida pelo medo, pela raiva, pelo descontentamento ou pela necessidade de nos tornarmos alguém. Nem permanecemos imóveis com medo de falhar. Quando o nosso sentido profundo do eu interior é derivado do Ser, quando nos livramos do “tornar-se” como uma necessidade psicológica, nem a nossa felicidade nem o nosso sentido do eu interior dependem do resultado e, assim, nos libertamos do medo. Não buscamos permanência onde ela não pode ser encontrada, ou seja, no mundo da forma, dos lucros e perdas, do nascimento e da morte. Nem esperamos que situações, condições, lugares ou pessoas nos tragam felicidade, só para depois nos causarem sofrimento, quando nossas expectativas não forem correspondidas. 

Tudo inspira respeito, mas nada importa. As formas nascem e morrem, ainda que estejamos conscientes de uma eternidade subjacente às formas. Sabemos que “nada de verdade pode ser ameaçado” . Quando este é o seu estado de Ser, como é possível não alcançar o sucesso? Você já o alcançou."
Eckhart Tolle em Satsang

5 de janeiro de 2014

Ser Livre Agora - Eckhart Tolle 1/2


Participante : Não vejo como ser livre agora. Estou extremamente infeliz com a minha vida neste momento. Isso é um fato, e eu estaria me iludindo se tentasse me convencer de que tudo está bem, quando não está. Para mim, o presente é triste e nada libertador. O que me faz prosseguir é a esperança de um futuro melhor.

Eckhart Tolle - Você pensa que a sua atenção está no momento presente quando, na verdade, está totalmente envolvida pelo tempo. Você não pode estar infeliz e completamente presente no Agora, ao mesmo tempo. Aquilo a que nos referimos como vida deveria ser chamado, mais precisamente, de “situação de vida”. É o tempo psicológico, passado e futuro. Certas coisas do passado não seguiram o caminho que queríamos. Ainda resistimos ao que aconteceu no passado e agora estamos resistindo ao que é. A esperança nos leva a prosseguir, mas a esperança nos mantém focalizados no futuro, e esse foco contínuo perpetua a negação do Agora e, portanto, a nossa infelicidade.

É verdade que a situação atual da minha vida é o resultado de coisas que aconteceram no passado, mas ainda assim é a minha situação atual e estar preso a ela é o que me faz infeliz.
Esqueça a situação da sua vida por um instante e preste atenção à sua vida.

Participante: Qual é a diferença?

Eckhart Tolle - A nossa situação de vida existe no tempo. Nossa vida é agora. Nossa situação de vida é coisa da mente. Nossa vida é real. Encontre o “portão estreito que conduz à vida”. Ele é chamado de Agora.

Restrinja a sua vida a este exato momento. Sua situação de vida pode estar cheia de problemas – a maioria das situações de vida está –, mas verifique se você tem algum problema neste exato momento. Não amanhã ou dentro de dez minutos, mas já.

Você tem um problema agora? Quando estamos cheios de problemas, não há espaço para nada novo entrar, nenhum espaço para uma solução. Portanto, sempre que você puder, crie algum espaço de modo a encontrar a vida sob a sua situação de vida. Utilize os seus sentidos plenamente. Esteja onde você está. Olhe em volta. Apenas olhe, não interprete. Veja as luzes, as formas, as cores, as texturas. Esteja consciente da presença silenciosa de cada objeto. Esteja consciente do espaço que permite cada coisa existir. Ouça os sons, não os julgue. Ouça o silêncio por trás dos sons. Toque alguma coisa, qualquer coisa. Sinta e reconheça o Ser dentro dela. Observe o ritmo da sua respiração. Sinta o ar fluindo para dentro e para fora. Sinta a energia vital dentro do seu corpo. Permita que as coisas aconteçam, no interior e no exterior. Deixe que todas as coisas “sejam”. Mova-se profundamente para dentro do Agora. Você está deixando para trás o agonizante mundo da abstração mental e do tempo. 

Está se libertando da mente doentia que suga a sua energia vital, do mesmo modo que, lentamente, ela está envenenando e destruindo a Terra.
Você está acordando do sonho do tempo e entrando no presente.
Todos os problemas são ilusões da mente.

Participante : É como se um grande peso tivesse sido tirado dos meus ombros. Sinto-me leve... mas os problemas ainda estão lá me esperando, não estão? Ainda não foram resolvidos. Será que não os estou evitando apenas temporariamente?

Eckhart Tolle - Se você estivesse no paraíso, sua mente não demoraria a encontrar algum problema. Não se trata, basicamente, de solucionar seus problemas. Trata-se de perceber que não existem problemas. Apenas situações com que temos de lidar agora ou deixar de lado e aceitar como uma parte do “ser” neste momento, até que se transformem ou possam ser negociadas. Os problemas são criados pela mente e precisam de tempo para sobreviver. Eles não conseguem sobreviver na atualidade do agora. Focalize sua atenção no Agora e verifique quais são os seus problemas neste exato momento. Não estou obtendo uma resposta porque é impossível termos problemas quando toda a nossa atenção está inteira no Agora. Pode ser que haja uma ou outra situação que você precise resolver ou aceitar. Por que transformar isso em problema? Por que transformar tudo em problema? A vida já não é bastante desafiadora do jeito que é? Para que precisamos de
problemas?


A mente, inconscientemente, adora problemas porque eles podem ser de vários tipos. Isso é normal e doentio. A palavra “problema” significa que estamos lidando mentalmente com uma situação, sem que exista um propósito real ou uma possibilidade de agir no momento, e também que estamos inconscientemente fazendo dele uma parte do nosso sentido de eu interior. Ficamos tão sobrecarregados pela nossa situação de vida que perdemos o sentido da vida, ou do Ser. Ou então vamos carregando na mente o peso insano de uma centena de coisas que iremos fazer ou poderemos ter de fazer no futuro, em vez de focalizarmos a atenção sobre uma
coisa que podemos fazer agora.

Quando criamos um problema, criamos sofrimento. Por isso, é preciso tomar uma decisão simples: não importa o que aconteça, não vou criar mais sofrimento nem problemas para mim. É uma escolha simples, mas radical. Ninguém faz uma escolha dessas a menos que esteja verdadeiramente sufocado pelo sofrimento. E não se consegue levar esse tipo de decisão adiante a não ser acessando o poder do Agora. 

Se não criar mais sofrimento para si mesmo, você não criará também para os outros. Deixará, assim, de contaminar nosso lindo planeta, seu próprio espaço interior e a psique humana coletiva com a negatividade da criação de problemas.
Se você alguma vez esteve numa situação de emergência, de vida ou morte, saberá que isso não foi um problema. A mente não teve tempo para se distrair e transformar a situação em problema. Numa emergência de verdade, a mente pára. Ficamos absolutamente presentes no Agora, e algo infinitamente mais poderoso passa a dominar. Essa é a razão pela qual existem inúmeros relatos de pessoas comuns que, de uma hora para outra, tornaram-se capazes de façanhas incrivelmente corajosas. Numa situação de emergência, ou você sobrevive ou morre. Em qualquer dos casos, não é um problema. [ continua...]

Eckhart Tolle em Satsang 

3 de janeiro de 2014

O Silencio essencial - Osho


"A boca é realmente muito, muito significativa, porque é onde a primeira atividade começou: seus lábios começaram a primeira atividade. Ao redor da área da boca está o princípio de toda atividade: você respirou, você chorou, você abocanhou os seios da mãe. E sua boca permanece sempre em plena atividade.

Sempre que você se acomoda para meditar, sempre que quiser ficar em silêncio, a primeira coisa é fechar a boca completamente. Se você fechar completamente a boca, a sua língua irá tocar o céu da sua boca; ambos os lábios estarão completamente fechados e a língua tocará o céu da boca. Feche-a totalmente; mas isso só pode ser feito se tiver seguido tudo que lhe tenho dito, não antes disso.

Você pode fazer isso; fechar a boca não é um esforço muito grande. Pode sentar-se como uma estátua, com a boca completamente fechada, mas isso não irá cessar a atividade. Bem lá dentro o pensar irá continuar e se o pensar continuar você pode sentir vibrações subtis nos lábios.

Outras pessoas podem não ser capazes de perceber isso porque elas são muito subtis, mas se você estiver pensando seus lábios tremem um pouco; um tremor muito subtil.
Quando realmente relaxa, esse tremor cessa. Você não está falando, você não está realizando qualquer atividade dentro de si. E assim, não pense.

O que irá fazer? - pensamentos estão indo e vindo. Deixe-os vir e ir; esse não é o problema. Você não se envolve; você permanece separado, à parte. Simplesmente os observa vindo e indo; eles não são seu problema. Feche a boca e permaneça em silêncio. Pouco a pouco, os pensamentos cessarão automaticamente.

Eles precisam da sua cooperação para estar lá. Se você cooperar, eles estarão lá; se você luta, assim também eles estarão presentes; porque ambas são cooperações: uma a favor, outra contra. Ambas são tipos de atividade. Simplesmente observe.

Mas fechar a boca ajuda muito. Então primeiro, como tenho observado muitas pessoas, vou lhe sugerir primeiro escancarar. Abra a sua boca tão escancaradamente quanto possível, deixe a sua boca tão tensa quanto possível e escancare-a totalmente; até começar a doer. Faça isso duas ou três vezes. Isso ajudará a boca a ficar fechada por um tempo mais longo.

E então por dois ou três minutos, diga gibberish, (bobagens), em voz alta. Qualquer coisa que ocorra à mente, diga-o em alta voz e desfrute disso. Então cale a boca.
É mais fácil mover-se a partir do lado oposto. Se você quer relaxar a sua mão, é melhor primeiro torná-la tão tensa quanto possível. Aperte o punho e deixe-o ficar tão tenso quanto possível. Faça exatamente o oposto e então relaxe; e assim alcançará um relaxamento mais profundo do sistema nervoso.

Faça gestos, caretas, movimentos da face e distorções. Escancare a boca, diga bobagens por dois ou três minutos e então cale a boca.
Essa tensão lhe dará uma possibilidade mais profunda para relaxar os lábios e a boca. Feche a boca e seja apenas um observador. Logo um silêncio descerá sobre si.

Seja passivo; assim como você senta ao lado de um rio e o rio passa e simplesmente observa. Não há nenhuma ansiedade, nenhuma urgência, nenhuma emergência. Ninguém o está forçando. Mesmo se você perde, nada está perdido.

Você simplesmente observa, você apenas olha. Até mesmo a palavra observar não é boa, porque a própria palavra observar dá um sentido de estar ativo. Você simplesmente olha, não tendo que fazer nada. Você simplesmente senta à beira do rio, você olha, e o rio passa. Ou, você olha passivamente para o céu e as nuvens flutuam.

Essa passividade é essencial. Isso precisa ser compreendido devido a que a sua obsessão pela atividade pode se tornar avidez, pode se transformar numa espera ativa. Assim você perde todo o ponto; dessa forma, a atividade entrou novamente pela porta dos fundos. Seja um observador passivo.

Essa passividade irá automaticamente esvaziar a sua mente. As ondas de atividade, as ondas de energia da mente, pouco a pouco cederão, e toda a superfície da sua consciência ficará sem ondas, sem qualquer ondulação. Ela se torna como um espelho silencioso".
Osho em Tantra, The Supreme Understanding

1 de janeiro de 2014

O Poder da Unidade - Jean-Yves Leloup


"Disse Jesus:
Se duas pessoas fazem a paz
na mesma casa,
dirão a uma montanha: "afasta-te"
e ela afastar-se-á"
( Logion 48 - Evangelho de Tomé )

"Eis o poder da paz, da unidade!
Que se pode fazer contra um homem tranquilo, unificado?
Que se pode fazer contra duas ou três pessoas bem harmonizadas?
As montanhas, as dificuldades, afastam-se. É como se tivessem o apoio de toda Natureza, do Uno que se manifesta em sua harmonia.

Antes de desejar levar a paz para a casa dos outros, é necessário começar em sua "casa", fazer a paz com as partes "inimigas" de si mesmo, seja o instinto, a emoção ou o intelecto. Enquanto houver divisão em nós mesmos, não será que os obstáculos que encontramos são a expressão de nosso próprio caos?

"Encontra a paz interior, dizia São Serafim de Sarov, e uma multidão será salva ao teu lado". Um homem tranquilo, um homem feliz é fonte de paz e de felicidade para toda a humanidade. O que não fariam dois ou três?

Para Clemente de Alexandria, "transportar" montanhas significa nivelar as desigualdades entre os homens, tornar possível o encontro. A Paz permite que a Unidade de todos os seres se manifeste no momento em que o temos ou a cobiça erguem montanhas entre eles... (...)

A "fé é que transporta montanhas". Ora o que é a fé senão a Unidade da inteligência com o coração? A paz realizada entre esses "dois" que, muitas vezes, se opõem na mesma casa: o discernimento e a afetividade?

A fé é indissociavelmente, um movimento da inteligência para a Verdade e um ato de confiança. A fé é aderir com todo o seu ser ao que é reconhecido como verdadeiro e justo. Essa adesão íntima e total implica uma grande potência assim como uma grande lucidez: " Vai além da razão, mas não contra a razão". E o que tinha a aparência de montanha revela-se à luz dessa força clarividente e viva como um simples ninho de toupeira."
Jean-Yves Leloup em O Evangelho de Tomé

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