19 de janeiro de 2014

Vá Além! - Osho


"Não se pode fazer uma estátua de um sufi, pois a estátua não poderá expressar sua dança, não expressará sua canção, não expressará seu amor, sua oração, sua gratidão. Sua loucura extática não será expressa pela estátua. Só se pode fazer a estátua de um meditador. O meditador é uma estátua - frio, silencioso, vazio. O vazio tem uma pureza, falta vida, falta, mas falta nele alguma coisa. Falta nele riqueza, falta vida, falta alegria orgásmica.

E é o que acontece com as pessoas que percorrem o caminho da via unitiva: seu caminho é de unidade orgásmica. (...) Dois indivíduos transformam-se em um. E, quando esses dois indivíduos tornam-se um só, na verdade três coisas estão se transformando numa só: o amante, o amado e o amor.

O amor é um fenômeno muito sólido para os amantes. Na verdade, o amante e o amado nada são comparados à realidade do amor. O amor e o amado nada são comparados à realidade do amor: O amor é muito mais real que a existência de ambos separados um do outro. De modo que, quando os amantes se encontraram, três coisas se encontram.

Para simbolizar isso, criamos na Índia um lindo lugar sagrado, Preyag, onde dizem que três rios se encontram. Dois são visíveis, o terceiro é invisível. Um deles é o Ganges, muito visível; outro é Yamuna, muito visível e o terceiro é o Saraswati - que ninguém pode ver. Ele está lá, mas é preciso que se acredite nele; é invisível.

Para a mente científica, parece absurdo. Como pode haver um rio invisível? Ninguém nunca o viu, mas os hindus insistem em dizer que existe uma confluência de três rios: dois são deste mundo e o terceiro, do outro. Dois pertencem à Terra e o terceiro, ao além.

Trata-se realmente de uma metáfora do amor. Quando dois amantes se encontram, três coisas estão se encontrando, três energias: duas são deste planeta e a terceira vem do além. Duas são visíveis, podemos ver o amante e a amada - mas ninguém pode ver o amor, que é muito mais valioso que ambos. Na verdade, é por causa do terceiro que os dois se encontram é no terceiro que os dois se dissolvem - mais uma vez, no entanto, é um fenômeno completamente diferente. (...)

O caminho do meditador é uma espécie de deserto. O deserto tem sua própria beleza: se você já esteve num deserto à noite, sabe que tem um frescor que jamais poderá encontrar em outro lugar, além de um imenso silêncio, um silêncio enorme, gigantesco, e tem também infinitude. Tem um sabor próprio. Debaixo do céu estrelado se você já esteve sozinho num deserto, nunca mais poderá encontrar essa solidão em algum outro lugar.

Nenhum outro lugar da Terra é tão cheio de solidão quanto um deserto. E não existe variedade, de modo que você não se distrai. É a mesma coisa por quilômetros - até onde se consegue enxergar no horizonte, é a mesma coisa. Não há nada para ver; quando vimos um deserto já vimos todos. É a mesma coisa: a mesma cena se prolonga indefinidamente. Não existe nenhuma distração.

Por isso é que muitos meditadores mudaram-se para o deserto. Ao longo dos tempo, muitas pessoas se transferiram para o deserto. A atração é o silêncio e a beleza de uma situação sem distrações. Nada distrai, nada se move, tudo absolutamente parado. A morte não pode ser mais parada que o deserto. Ele tem uma beleza própria - mas carece de riqueza de variedade.

O jardim tem variedade: muitas árvores, muita folhagem verde, muitas flores, muitas cores, pássaros cantando, riachos correndo, o som da água em movimento e o vento passando pelos pinheiros. Mil e uma coisas acontecem ao mesmo tempo. O jardim é cheio o deserto é vazio.

O ser interior de um meditador fica parecendo um deserto e o ser interior de um amante fica parecendo um jardim. (...)
Mas ainda depende de você. A pessoa pode gostar mais do deserto que do jardim, e então será esse o seu caminho. Não há nada de errado nisso, a pessoa deve seguir esse caminho. É preciso olhar para o próprio interior e ver o próprio potencial, suas possibilidades, suas inclinações. (...)

Todo mestre afirma, pois existe em ambos os caminhos - seja o deserto seja o jardim - o problema é que a pessoa pode ficar presa na ponte. O meditador pode ficar tão viciado em meditação que fique preso na ponte. O amante pode ficar tão viciado em amor que ficará preso na ponte. O amor é uma ponte, a meditação é uma ponte. E temos que ir além da ponte.

No estágio supremo, o meditador tem de deixar de lado a meditação e o amante tem de esquecer tudo do seu amor. Caso contrário, você chegará perto da porta, mas não conseguirá entrar no templo. O método precisa ser esquecido.

Buda dizia que todo método é como uma jangada, um barco: use-o para chegar à outra margem, e então deixe-o ali, esqueça-se dele e siga o seu caminho. Não é preciso carregar a jangada na cabeça. Quem carrega a jangada na cabeça é simplesmente estúpido.

Mas é isso que acontece: milhões de pessoas ficam viciadas no seu método. E o método realmente PODE viciar, pois proporciona tão belas experiências. A última barreira é o método, a última barreira é a ponte.

Tente entender: é muito paradoxal. A ponte o conduz ao outro lado: certamente representa uma ajuda, e você deve ser agradecido. Mas a coisa pode tornar-se um problema. Você pode se apaixonar pela ponte e transformá-la em sua casa. E se começar a viver na ponte, não estará de um lado nem de outro; estará numa espécie de limbo. E muitos chamados praticantes religiosos vivem numa espécie de limbo - não são deste mundo nem do outro. Ficaram viciados na ponte.

E a ponte É linda! De modo que todo discípulo precisa ficar sabendo desde o início: "Um dia, o método que o tiver ajudado até então terá de ser deixado de lado. Quando sua função estiver concluída, não continue ligado a ele, nem sequer por um momento a mais. Quando a doença está curada, é preciso parar de tomar o remédio. Se a pessoa continua a tomá-lo, ela é que se transformará em doença."

Todos os métodos são métodos, todos os meios são meios. E, se você quiser chegar ao fim, terá de deixar de lado todos os meios e métodos. É a única maneira de entrar no supremo. O amante terá de esquecer tudo sobre o amor, e o meditador terá de esquecer tudo sobre a meditação. Sim, chega um momento em que o meditador não medita, por que se tornou a própria meditação; a meditação deixou de ser uma atividade separada. E chega um momento em que o amante não ama, pois ele é o próprio amor. Não há mais ninguém separado do amor, o amor tornou-se o seu ser - ele esqueceu tudo a respeito."
Osho em Encontro com Pessoas Notáveis

2 comentários:

  1. Todos os textos que vejo por aqui são um alimento para alma e para o intelecto também, pois são filosofias muito profundas. Quando ele falou do deserto, senti como deve ser meditar em um, deve ser uma experiência incrível rsrs

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    1. Seja bem vinda Flavia! Sim, a meditação desperta o silencio original, que se assemelha a solitude do deserto. Osho nos aponta as duas plenitudes que fatalmente iremos nos deparar o amor e seu jardim, ou o deserto e o silencio. Importante é ir além de ambos, integrar e transcender..
      Grata por sua luz!
      Namaste

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