30 de março de 2012

Unicidade - Jeff Foster


"Nós sempre estamos preocupados com nossas vidas, se nossas vidas vão dar certo, se vão funcionar ou não.
Precisamos enxergar que não existe "nossas vidas" em primeiro lugar. E que não estamos separados dessa "coisa" que chamamos de vida, nem por um momento sequer.

A vida vive a si mesma e sempre tem sido assim. Existe apenas aquilo que É. Existe apenas aquilo que acontece Agora.

O momento presente se apresenta como perfumes, sons, a batida do coração, aquilo que acontece, os pensamentos que surgem de lugar nenhum e se dissolvem também em lugar nenhum...
Tudo acontece, simplesmente acontece, chega a ser engraçado! As coisas simplesmente acontecem, sem que você tenha que fazer nada.
Não é necessário nenhum esforço para que as coisas aconteçam, o importante é ver isso, enxergar como as coisas surgem sempre no agora, e agora e agora.. e isso não tem nada a ver com você, nunca houve...

Logo, essa fala que surge na mente dizendo: eu faço, eu realizo etc... são apenas de pensamentos vindo de lugar nenhum, mas a mente segue dizendo: eu faço, eu penso..
Vejam como a respiração acontece sem esforço, mas a mente continua dizendo: eu estou fazendo isso, eu estou respirando..eu, eu, eu...
Isso , esse "eu" de tanto acreditarmos nele, se torna o centro de nossas vidas, e desafia tudo o que acontece, toma para si tudo o que acontece, e se coloca de certa maneira separado da vida.

Quando falamos desse "eu" e "minha vida", parece alguma coisa que temos, que possuímos. Com isso acreditamos que somos pessoas separadas umas das outras, que somos indivíduos com passado e futuro. Eu sou um indivíduo, ele é um indivíduo, ela é um indivíduo. Entidades separadas vivendo, "eus" separados, soltos pelo mundo.

Indivíduos separados estão procurando alguma coisa, vêem a vida como um jogo de procurar algo, isso mantém o jogo acontecendo. Esta busca constante por mais e mais parece que nunca nada será suficiente. Mesmo tudo que acontece, nunca é o suficiente.

É assim que a busca começa, quando aquilo que acontece não é bom o suficiente...ou eu quero mais, ou quero menos.

Enquanto nos basearmos nesse conceito de separação, no conceito de que os indivíduos fazem, ou não fazem, essa separação é o ponto. Enquanto alimentamos esse conceito de separação teremos que buscar uma maneira de voltar para casa, uma maneira de por fim a essa separação.
Isso nos leva a busca de maneiras e modos diferentes para por fim a separação e nos tornarmos novamente completos, plenos, absolutos...alguns chamam isso busca de Deus.

Esta busca, brinca consigo mesma de muitas maneiras diferentes. No mundo material se manifesta como buscas infinitas, tais como mais dinheiro (esta é uma das mais comuns!), mais status, um carro novo, melhores relacionamentos, mais amizades, melhor auto-estima..buscamos alguém no mundo que ajude a nossa vida a ficar melhor.
Nada no mundo material pode realmente nos satisfazer. Inclusive buscamos mestres espirituais e pedimos a eles para termos mais dinheiro, um emprego melhor, ou pedimos por iluminação, pelo despertar, por mais consciência no presente, por mais sabedoria, níveis de consciência, por experiências espirituais...

Parece que nunca estamos prontos, satisfeitos para apenas estarmos aqui, do jeito que somos.
Tudo gira em torno da busca pela Unicidade, pela Totalidade.
Se investigarmos profundamente veremos que a Unicidade em primeiro lugar nunca foi perdida, nem pode ser perdida. Nós nunca a perdemos porque nós nunca a tivemos. Ela está sempre diante de nós.

O segredo do despertar espiritual ou da libertação, ou do que você queira chamar, é Ser aquilo que se É. Ser aquilo que se apresenta diante de "nós" agora!"

Consciência e Matéria - Maharaj


"Participante: Toma tempo compreender o Ser, ou o tempo não pode ajudar a compreendê-lo? É a auto-realização só uma questão de tempo ou depende de outros fatores além do tempo?

Maharaj: Toda espera é fútil. Depender do tempo para resolver nossos problemas é enganar-se. O futuro, deixado a si mesmo, meramente repete o passado. A mudança só pode acontecer agora, nunca no futuro.

P: O que produz uma mudança?
Maharaj: Veja com claridade cristalina a necessidade de mudança. Isto é tudo.

P: A auto-realização acontece na matéria ou além? Não é uma experiência que depende do corpo e da mente para acontecer?
Maharaj: Toda experiência é ilusória, limitada e temporal. Não espere nada da experiência. A realização por si mesma não é uma experiência, embora possa levar a uma nova dimensão de experiências. Apesar disto, as novas experiências, por interessantes que sejam, não são
mais reais que as velhas. Definitivamente, a realização não é uma experiência. É o descobrimento do fator eterno em cada experiência. É a Consciência que faz a experiência possível. Exatamente como em todas as cores a luz é o fator neutro, assim também, em cada
experiência, a Consciência está presente, embora não seja uma experiência.

P: Se a Consciência não fosse uma experiência, como poderia ser realizada?
Maharaj: A Consciência está sempre presente. Não necessita ser realizada. Abra as janelas da mente, e ela será inundada de luz.

P: O que é matéria?
Maharaj: O que você não entende é matéria.(...)

P: E o que é a natureza?
Maharaj: A natureza é a totalidade das experiências conscientes. Como ser consciente, você é parte da natureza. Como Consciência, você está além. Ver a natureza como mera consciência é Consciência.

P: Existem níveis de Consciência?(...)
Maharaj: Ela é um só bloco homogêneo. Seu reflexo na mente é amor e compreensão. Há níveis de claridade na compreensão e de intensidade no amor, não em sua fonte. A fonte é simples e única, mas seus dons são infinitos. Não tome os dons pela fonte. Entenda-se como fonte e não como o rio; isso é tudo.

P: Sou o rio também.
Maharaj: Certamente o é. Como o “eu sou”, você é o rio fluindo entre as margens do corpo. Mas também é a fonte e o oceano, e as nuvens do céu. Onde quer que haja vida e consciência, aí estará você. Menor que o menor, maior que o maior, você é, enquanto tudo o mais aparece.

P: O sentido de ser e o sentido de viver são o mesmo ou são diferentes?
Maharaj: A identidade no espaço cria um, a continuidade no tempo cria o outro.

P: Você disse uma vez que o que vê, o ver e o visto, são uma só coisa, não três. Para mim, os três estão separados. Não duvido de suas palavras, apenas não as compreendo.
Maharaj: Olhe com atenção e verá que o que vê e o visto só aparecem quando há ver. São atributos do ver. Quando você diz “eu estou vendo isto”, o “eu estou” e o “isto” vêm com o ver, não antes. Não pode haver um “isto” não visto nem um “eu” que não veja.

P: Posso dizer: “Eu não vejo”.
Maharaj: O “eu estou vendo isto” converteu-se em “eu estou vendo que não vejo” ou em “estou vendo a escuridão”. A visão permanece. Na trilogia: o conhecido, o conhecer e o conhecedor, só o conhecer é um fato. O “eu sou” e o “isto” são duvidosos. Quem conhece? O que se conhece? Não há certeza senão no fato de conhecer.

P: Por que estou certo de conhecer, mas não do conhecedor?
Maharaj: Conhecer é um reflexo de sua verdadeira natureza, junto com o ser e o amar. O conhecedor e o conhecido são acrescentados pela mente. Está na natureza da mente criar uma dualidade sujeito-objeto onde não há nenhuma.

P: Qual é a causa do temor e do desejo?
Maharaj: Obviamente, a recordação das dores e dos prazeres passados. Não há nenhum grande mistério a respeito. O conflito só surge quando o desejo e o temor se referem ao mesmo objeto.

P: Como pôr um fim à memória?
Maharaj: Não é necessário, nem possível. Compreenda que tudo acontece na consciência e que você é a raiz, a origem, o fundamento da consciência. O mundo não é senão uma sucessão de experiências e você é o que as faz conscientes, permanecendo, ainda assim, além de toda experiência. É como o calor, a chama e a madeira que queima. O calor mantém a chama, a chama consome a madeira. Sem o calor, não haveria chama nem combustível. Similarmente, sem Consciência, não haveria nem consciência nem vida, a qual transforma a matéria em veículo da consciência.

P: Você sustenta que, sem mim, não haveria mundo, e que o mundo e meu conhecimento do mundo são idênticos. A ciência chegou a uma conclusão muito diferente: o mundo existe como algo concreto e contínuo, enquanto eu sou um subproduto da evolução biológica do sistema nervoso, o qual é, primariamente, não tanto um centro de consciência como um mecanismo de sobrevivência como indivíduo e como espécie. Sua visão é totalmente subjetiva, enquanto a ciência trata de descrever tudo em termos objetivos. É inevitável esta contradição?
Maharaj: A confusão é aparente e puramente verbal. O que é, é. Não é nem subjetivo nem objetivo. A matéria e a mente não estão separadas, são aspectos da mesma energia. Veja a mente como uma função da matéria e você tem a ciência; veja a matéria como o produto da mente e você tem a religião.

P: Mas qual é a verdade? O que vem primeiro, a mente ou a matéria?
Maharaj: Nenhuma vem primeiro, pois nenhuma aparece só. A matéria é a forma, a mente é o nome. Juntas fazem o mundo. Impregnar e transcender são Realidade, ser puro – Consciência – bem-aventurança, sua essência verdadeira.

P: Tudo o que conheço é a corrente da consciência, uma sucessão interminável de fatos. O rio do tempo flui, trazendo e retirando implacavelmente. A transformação do futuro em passado continua todo o tempo.
Maharaj: Você não é vítima de sua linguagem? Fala sobre o fluxo do tempo como se você fosse estacionário. Mas os fatos testemunhados ontem por você, outra pessoa poderá vê-los amanhã. É você o que está em movimento, não o tempo. Deixe de mover-se e o tempo cessará.

P: O que isso significa – o tempo cessará?
Maharaj: O passado e o futuro se fundirão no eterno agora.

P: Mas o que isso significa na experiência real? Como sabe que, para você, o tempo cessou?
Maharaj: Pode significar que o passado e o futuro já não importam mais. Também pode significar que tudo o que aconteceu e tudo que acontecerá se convertem em um livro aberto para ser lido à vontade.

P: Posso imaginar uma espécie de memória cósmica, acessível com algum treinamento. Mas como poderia ser conhecido o futuro? O inesperado é inevitável.
Maharaj: O inesperado em um nível pode ser algo que seja certo acontecer quando visto de um nível mais alto. Depois de tudo, estamos dentro dos limites da mente. Na realidade, nada acontece, não há passado nem futuro, tudo aparece e nada é.

P: O que significa, nada é? Você se torna vazio, ou vai dormir? Ou você dissolve o mundo e nos mantém a todos em expectativa até que somos devolvidos à vida, com a piscada seguinte de seu pensamento?
Maharaj: Oh, não. Não é tão mau assim. O mundo da mente e da matéria, dos nomes e das formas continua, mas não me importa em absoluto. É como ter uma sombra. Está ali, seguindo-me aonde vou, mas sem atrapalhar-me de modo algum. Segue sendo um mundo de experiências, mas não de nomes e formas relacionados comigo pelos desejos e temores. As experiências não têm qualidades, são pura experiência, se assim posso dizer. Chamo-as experiências por falta de uma palavra melhor. São como as ondas sobre a superfície do oceano, sempre presentes,
mas sem afetar o seu calmo poder.

P: Você quer dizer que uma experiência pode ser indefinida, sem nome ou forma?
Maharaj: No princípio toda experiência é assim. São apenas o desejo e o temor, nascidos da memória, que lhe dão nome e forma e a separam de outras experiências. Não é uma experiência consciente, pois não se opõe a outras experiências, mesmo sendo igualmente uma experiência.

P: Se não fosse consciente, por que falar dela?
Maharaj: A maioria de suas experiências é inconsciente. São poucas as conscientes. Você não é consciente do fato porque para você só conta as conscientes. Faça-se consciente do inconsciente.

P: Poderia alguém ser consciente do inconsciente? Como seria feito?
Maharaj: O desejo e o temor são os fatores que obscurecem e distorcem. Quando a mente se libera deles, o inconsciente se torna acessível.

P: Quer dizer que o inconsciente se torna consciente?
Maharaj: É de preferência o contrário. O consciente se faz um com o inconsciente. A distinção cessa, não importando o modo que você olhar para ele.

P: Estou surpreso. Como se poderia ser consciente e ainda assim inconsciente?
Maharaj: A Consciência (awareness) não se limita à consciência (consciousness). Ela é tudo que é. A consciência pertence à dualidade. Não há dualidade na Consciência. É um só bloco de pura cognição. Do mesmo modo, pode-se falar do puro ser e da pura criação – sem nome, sem forma, silenciosos e, ainda assim, absolutamente reais, poderosos, efetivos. A indescritibilidade não os afeta o mínimo. Apesar de inconscientes, são essenciais. O consciente não pode mudar fundamentalmente, só pode modificar-se. Qualquer coisa, para mudar, deve passar pela morte, pelo obscurecimento e pela dissolução. As jóias de ouro devem ser fundidas antes de serem moldadas em outras formas. O que se nega a morrer não pode renascer.

P: Salvo a morte do corpo, como se morre?
Maharaj: A morte é recesso, retraimento, abandono. Para viver plenamente, a morte é essencial; cada final constitui um novo começo.Por outro lado, compreenda que só o morto pode morrer, não o vivo. Isto que está vivo em você é imortal.

P: De onde vem a energia do desejo?
Maharaj: O nome e a forma são retirados da memória. A energia flui da fonte.

P: Alguns desejos são totalmente incorretos. Como podem os desejos incorretos fluir de uma fonte sublime?
Maharaj: A fonte não é nem correta nem incorreta. Nem o é o desejo em si mesmo. Não é senão o esforço por ser feliz. Tendo-se identificado com a poeira de um corpo, sente-se perdido e busca desesperadamente o sentido de plenitude e totalidade que você chama felicidade.

P: Quando a perdi? Eu nunca a tive.
Maharaj: Você a tinha antes de despertar esta manhã. Vá além de sua consciência e a encontrará.

P: Como vou além?
Maharaj: Você já sabe; faça. (...) Não obstante, repito – já o sabe. Faça-o. Vá além, de volta a seu estado normal, natural, supremo.
P: Estou confundido.
Maharaj: Uma poeira no olho o faz pensar que está cego. Limpe-o e olhe.

P: Eu olho! Só vejo escuridão.
Maharaj: Elimine a poeira e seus olhos ficarão inundados de luz. A luz está aí, esperando. Os olhos estão aí – prontos. A escuridão que você vê é só a sombra da poeira. Desembarace-se dela e volte a seu estado natural."
Nisargadatta Maharaj em Eu Sou Aquilo

29 de março de 2012

Dissolvendo-se...


"A menos que atinja o seu objetivo, você será mandado de volta.
Na morte, você não morre. Simplesmente a energia que foi dada a você por meio do corpo e da mente é liberada e volta para o mundo.
Você volta para casa.

Se não morrer do jeito certo, você nascerá novamente. Agora deixe-me explicar isso a você. Se não morrer do jeito certo, se não chegar ao orgasmo pleno que é a morte, você nascerá outra vez porque não aproveitou e precisa de outra oportunidade.

A existência tem muita paciência com você. Ela sempre lhe dá outras oportunidades. Ela tem compaixão. Se você não aproveitou esta vida, a existência lhe dará outra. Se fracassou desta vez, você será mandado de volta para este mundo para uma outra rodada.

A menos que atinja o seu objetivo, você será mandado de volta muitas e muitas vezes. Esse é o significado da teoria do renascimento.

O Deus cristão (...) só conhece uma vida. Isso gera muita tensão. Só uma vida? Não há tempo nem para errar nem para se extraviar. Isso causa uma profunda tensão. No Oriente, nós criamos o conceito de um Deus mais compassivo, que continua nos concedendo oportunidades. Você não aproveitou esta vida? Então tome outra!
E, num certo sentido, isso é muito sensato. Não existe um Deus personificado como esse que dê vida a você. Na verdade, é você quem faz isso.

Você já observou às vezes? À noite você vai dormir. Só observe. Quando cair no sono, quando estiver adormecendo, simplesmente observe o seu último pensamento, o seu último desejo e o último fragmento da sua mente. Então, pela manhã quando acordar, não abra os olhos; mais uma vez observe. O último fragmento será o primeiro.

Se você pensar em dinheiro quando estiver caindo no sono, exatamente o mesmo pensamento lhe ocorrerá pela manhã. Você estará pensando em dinheiro novamente — porque esse pensamento continuará na sua mente e esperará por você para voltar.
Se estiver pensando em sexo, pela manhã você também estará pensando em sexo. Seja o que for... Se estiver pensando em Deus e rezar e esse for o seu último pensamento à noite, a primeira coisa que você perceberá pela manhã é uma prece brotando dentro de você.
O último pensamento à noite é o primeiro pensamento pela manhã. O último pensamento desta vida será o primeiro pensamento da seguinte. O último pensamento quando você estiver morrendo se tornará a primeira semente da sua próxima vida.

Mas, quando um Buda morre, um homem que tenha chegado lá, ele simplesmente morre sem nenhum pensamento.(...)
Ele está tão preenchido, tão plenamente preenchido que não há necessidade de voltar. Ele desaparece no cosmo.
Não há necessidade de incorporar novamente."
Osho em O Livro do Viver e do Morrer

28 de março de 2012

Olhar sensível...


No olhar sensível não existem impedimentos,
Não existem regras,
Nem caminhos,
A sensibilidade tem asas próprias,
Alça seu vôo sem dar satisfações,
Nem explicações,
Abre as asas e vai...

A única diferença é que o olhar sensível não voa para fora,
Mas para dentro,
Alcança aquela dimensão profunda da alma,
Onde deixou um poema,
Onde a saudade se fez solidão,
Onde aquele sorriso está dizendo adeus...

O olhar sensível tem vida própria,
E linguagem própria também.
Ao contrário que muitos pensam,
O olhar sensível não se engana jamais,
Pois não se baseia na visão dos olhos,
Nem se perde na ilusão das formas formatadas,
Muito menos das falas, não ditas, ou malditas,
O olhar sensível é tão vasto que tudo cabe dentro dele,
E nele acaba por se transformar...

Por isso tudo aquilo que o olhar sensível vê, enxerga,
Enxerga dentro de Si,
E tudo fica absolutamente conhecido,
Tudo lhe pertence e é claro do jeito que é,
Resta apenas ao olhar sensível traduzir e ler,
Aquilo que a alma já sabe,
Mas nem precisa dizer...

26 de março de 2012

A Meditação Cristã - Padre Laurence


"Jesus é chamado de mestre, mais do que qualquer outro nome nos Evangelhos.

O que ele ensinava? Ele não ensinava nem regras, nem regulamentos. Jesus era um professor que ensinava a contemplação. Isto é de grande importância que nós geralmente perdemos quando pensamos, em Jesus.

Porque eu digo isso? Olhando para os evangelhos, vemos muitas indicações sobre preces, orações, e é bem claro o seu ensinamento sobre a contemplação.

Vejam por exemplo quando Jesus diz no Sermão da Montanha, no evangelho de Mateus; A religião externa se alimenta do ego. Ela é feita aos quatro cantos, com a intenção de atrair pessoas, impressionar sua esposa, seus amigos, tem a intenção de que você seja visto, seja notado.

Jesus dizia, quando você rezar entre no seu quarto, e reze ao Pai do Céu que está no lugar sagrado. Sagrado significa misterioso, profundo, silencioso.

Quando aprendemos sobre meditação, vislumbramos o mistério que somos nós, Deus é um mistério. Mas através da meditação entramos no mistério do Self, que nos revela o mistério de Deus.
O primeiro elemento deste ensinamento é sobre interioridade. Prece significa interioridade.

Jesus dizia que rezar não é ficar falando coisas vazias. Os homens acham que quanto mais eles falarem mais eles serão ouvidos, mais eles serão atendidos. É muito importante compreender o significado da oração cristã, pois se tendemos a se usar muitas palavras, nós enchemos nossas igrejas com palavras intermináveis, pedidos intermináveis. Não existe silêncio. Jesus enfatizou bem a qualidade do silêncio na oração, e a razão disso é que o Pai Divino sabe o que você precisa antes mesmo que você peça.

A maioria das preces é como súplicas, pedidos, pedindo a Deus por isso, por aquilo. Mas Deus sabe o que nós precisamos antes mesmo de pedirmos. Logo, isto muda a maneira de fazermos nossas orações. Nós não precisamos chamar a atenção de Deus, nem de tentar fazer com que Deus mude de idéia, nem de que Deus venha intervir sobre minha pessoa. Deus sabe o que precisamos antes mesmo que pedirmos. Isso nos uma tremenda confiança de permanecer no momento presente. Não precisamos tentar chamar a atenção de Deus. Isso nos ensina que somos nós que precisamos aprender a prestar atenção, porque Deus já está prestando a atenção em nós.

O próximo elemento que Jesus ensina na oração é sobre a ansiedade. Quando Ele diz para não se preocupar sobre o que comer amanhã, o que beber, o que vestir. Muitos desperdiçam suas vidas preocupados com o que irão comprar, o que irão vestir. Ele dizia para que isso não gerasse angústia, não se caísse em um consumismo louco. Jesus dizia: Vejam a beleza do mundo, a beleza das flores, dos campos, dos pássaros no céu.

Contemplar a beleza nos torna parte da beleza natural do mundo. Nós podemos encontrar em nós mesmos mais paz e mais espaço, e mais liberdade dos nossos desejos. Então nós nos descobrimos mais atentos. Despertamos para a consciência do Reino de Deus, enquanto realidade última, anterior a tudo o que existe. Nesta consciência tudo que você necessita vem até você.

Atenção. Não ficar pulando de um pensamento a outro, uma ação a outra sem consciência do que estamos fazendo, sem nenhuma paz ou atenção daquilo que se está fazendo. Estar atento é o modo de oração que Ele falava. E finalmente Ele nos convida a estarmos no momento presente, não preocupados com o amanhã.

Estar no momento presente, esta atento, deixar ir nossos medos, nossas raivas, nossas ansiedades no momento da oração, mover-se entre as palavras com confiança, amor e atenção, e finalmente neste lugar de interioridade nosso coração está aberto ao mistério de Deus em nós. Essa era a forma de oração que Jesus ensinava.
Como podemos colocar esses ensinamentos em prática? Meditação é o presente no qual podemos nos tornar conscientes desta contemplação; é o caminho no qual podemos mergulhar nesta experiência. Todos nós somos capazes disso, cada um de nós.

Se você meditar com uma criança de cinco anos de idade, você verá como a meditação é algo extremamente natural.

Aprender a meditar é aprender a Ser. Ser cheio de vida, estar em contato com você mesmo e com todo o mundo que o cerca, e aberto ao mistério de Deus, que nos faz viver, que nos move, e no qual estamos mergulhados a cada momento e por toda a vida"
Padre Laurence Freeman OSB  em  A Meditação Cristã.

25 de março de 2012

Descobrindo a semente do Ser - Nisargadatta


"Maharaj, então, disse ao visitante que ele devia entender toda situação clara e instantaneamente; isto ele poderia fazer apenas se fosse à raiz do assunto. Ele deveria descobrir como o conhecimento ‘eu sou’ apareceu pela primeira vez.

A semente é a coisa, disse Maharaj. Descubra a semente de seu ser, e você conhecerá a semente do universo inteiro.

Maharaj continuou: Como sabe, você tem um corpo e, no corpo, está o Prana, ou a força vital, e a consciência (o ser, ou o conhecimento ‘eu sou’). Agora, este fenômeno total do ser humano é de qualquer forma diferente do das outras criaturas, ou mesmo da grama que brota da terra? Pense profundamente sobre isto. Suponha que um pouco de água se acumule em seu quintal; depois de um tempo, o corpo de um inseto se forma ali; ele começa a mover-se, e sabe que existe. E, novamente, suponha que um pedaço de pão velho é deixado em um canto por alguns dias; um verme aparece nele e começa a mover-se, e sabe que existe. O ovo de uma ave, depois de chocado por certo tempo, quebra, repentinamente, e aparece um pequeno pinto; ele começa a mover-se, e sabe que existe. O esperma do homem germinou no útero da mulher e, depois do período de nove meses, nasce como um bebê. O esperma desenvolveu-se na forma de uma criança plenamente formada que passa pelos estados de vigília e sono e realiza suas funções físicas comuns, e sabe que existe.

Em todos estes casos – o inseto, o verme, o pinto e o ser humano – o que realmente nasceu? O que ‘supervisionou’ o processo da concepção ao nascimento? Não seria o conhecimento ‘eu sou’ que permaneceu latente da concepção ao parto e, no tempo devido, ‘nasceu’? Este ser ou consciência, idêntica em todos os quatro casos, achando-se sem qualquer tipo de ‘apoio’, identifica-se erroneamente com a forma particular que assumiu. Em outras palavras, o que é realmente sem qualquer aspecto ou forma, o conhecimento
‘eu sou’, precisamente este sentido de ser (não ser isto ou ser aquilo, mas tão só consciência), limita-se apenas a uma forma particular e, com isto, aceita seu próprio ‘nascimento’, e daí para frente vive sob a constante sombra do terror da ‘morte’. Assim nasce a noção de uma personalidade individual, ou identidade, ou ego.

Vê agora a origem desse estado de ‘eu sou’? Ele não é dependente do corpo para sua existência individual? E o corpo não é meramente o esperma germinado que desenvolveu a si mesmo? E, o que é mais importante, é o esperma outra coisa senão a essência do alimento consumido pelos pais da criança? E, finalmente, não seria o alimento algo constituído pelos quatro elementos (éter, ar, fogo e água) por meio do quinto, a terra?

Assim, segue-se o rastro da semente da consciência até chegar ao alimento, e o corpo é o ‘alimento’ da consciência; assim que o corpo morre, a consciência também desaparece. E, ainda, a consciência é a ‘semente’ do universo inteiro! Todo indivíduo tem, sempre que sonha, a experiência idêntica de um mundo sendo criado na consciência.

Quando uma pessoa não está totalmente acordada e a consciência é apenas estimulada, ela sonha; e, em seu sonho, naquele ponto mínimo de consciência, cria um mundo de sonhos inteiro, similar ao mundo ‘real’ externo – tudo em um instante – e, naquele mundo, são vistos o sol, a terra com montanhas e rios, construções, e pessoas (incluindo o próprio sonhador) comportando-se exatamente como as pessoas no mundo ‘real’.

Enquanto durar os sonho, o mundo do sonho é, de fato, bem real, e as experiências das pessoas no sonho, incluindo o próprio sonhador, parecem ser verdadeiras, tangíveis e autênticas, talvez mesmo mais do que aquelas do mundo ‘real’. Mas, uma vez que o sonhador acorde, todo o mundo de sonhos com todas as suas ‘realidades’ que existiam se desvanecem na consciência na qual foram criados.
No estado de vigília, o mundo surge por causa da semente da ignorância (Maya, consciência, ser, Prakriti, Ishwara, etc.) e o coloca em um estado de vigília-sonho. Você sonha que está acordado; você sonha que você está dormindo – e você não compreende que está sonhando porque você ainda está no sonho. De fato, quando você compreende que tudo é um sonho, você já terá ‘despertado’! Apenas o Jnani conhece a vigília e o sonho verdadeiros.(...)

Maharaj, então, continuou: O estado original – o Parabrahman – é incondicionado, sem atributos, sem forma, sem identidade. Sem dúvida, este estado não é nada senão plenitude (não um ‘vácuo’ vazio, mas pleno), de modo
que é impossível dar-lhe um nome adequado. Visando a comunicação, contudo, um certo número de palavras tem que ser usado para ‘indicar’ aquele estado. Naquele estado original, anterior a qualquer conceito, a consciência – o pensamento ‘eu sou’ – espontaneamente desperta para a existência. Como? Por quê? Por nenhuma razão aparente – como uma mansa onda sobre a superfície do mar!

O pensamento ‘eu sou’ é a semente do som Aum, o som primordial ou Nada, no momento da criação do universo. Ele consiste em três sons: a, u , m. Estes três sons representam os três atributos – Sattva, Rajas, Tamas, os quais produzem os três estados de vigília, sonho e sono profundo (também chamados consciência ou harmonia, atividade e inércia). Foi na consciência que o mundo surgiu. De fato, o primeiro pensamento ‘eu sou’ criou o sentido de dualidade no estado original de unicidade. Nenhuma criação pode aparecer sem a dualidade do princípio da maternidade e paternidade – masculino e feminino, Purusha e Prakriti.
A criação do mundo como uma aparência na consciência tem dez aspectos – o princípio gerador da dualidade; a matéria física e química, sendo a essência dos cinco elementos (éter, ar, fogo, água e terra) em fricção mútua; e os três atributos de Sattva, Rajas e Tamas.

Um indivíduo pode pensar que é ele que atua, mas, verdadeiramente, é a essência dos cinco elementos, o Prana, a força vital, que atua através da combinação particular dos três atributos em uma forma física particular.
Quando a criação do mundo é vista nesta perspectiva, é fácil perceber porque os pensamentos e ações de um indivíduo (o qual é apenas um aparato psicossomático) diferem tanto em qualidade e grau daqueles de milhões de outros; porque, por um lado, existem Mahatmas Ghandis e, por outro, Hitlers. É um fato evidente que as impressões digitais de uma pessoa não são nunca similares àquelas de qualquer outra pessoa; folhas da mesma árvore são diferentes umas das outras em ínfimos detalhes. A razão é que as permutações e combinações dos cinco elementos, mais os três atributos em seus milhões de matizes, chegariam a bilhões e trilhões.

Certamente, podemos admirar o que é admirável e amar o que é adorável, mas devemos compreender o que é que realmente amamos e admiramos – não o
indivíduo conceitual, mas a maravilhosa habilidade de atuação da consciência que é capaz de desempenhar simultaneamente milhões de papéis nesta representação de sonho que o mundo é!(...)

Para evitar perder-se na desconcertante diversidade do espetáculo de Maya (Lila), Maharaj disse que é necessário, neste estágio, não esquecer a unidade essencial entre o Absoluto e o relativo, entre o não-manifesto e o manifesto. A manifestação aparece na existência apenas com o conceito básico ‘eu sou'.(...)

É necessário entender – e nunca esquecer – esta identidade essencial. Uma vez que o conceito ‘eu sou’ surja, a unidade fundamental fica teoricamente separada, como sujeito e objeto, na dualidade.
Quando a consciência impessoal se manifesta e identifica a si mesma em cada forma física, a noção do eu surge, e esta noção, esquecendo que não tem nenhuma entidade independente, converte sua subjetividade original em um objeto com intenções, necessidades e desejos e é, portanto, vulnerável ao sofrimento. Esta identidade errada é precisamente a ‘escravidão’ da qual se busca liberação.

E o que é ‘liberação’? Liberação, iluminação, ou despertar, não é outra coisa senão entender profundamente, aperceber-se – (a) que a semente de toda a manifestação é a consciência impessoal, (b) que o que se busca é o aspecto não-manifestado da manifestação e (c) que, portanto, o próprio buscador é o buscado!

Resumindo o discurso, Maharaj disse: Revisemos tudo isto novamente.
1.No estado original prevalece o Eu sou, sem qualquer conhecimento ou condicionamento, sem atributos, sem forma ou identidade.
2.Então, por nenhuma razão aparente (exceto aquela de que é sua natureza ser assim), surge o pensamento ou conceito eu sou, a Consciência Impessoal, sobre a qual o mundo aparece como um sonho vívido.
3.A consciência, para se manifestar, necessita de uma forma, um corpo físico, com o qual se identifica e, assim, começa o conceito de ‘escravidão’, com uma objetivação imaginária do ‘eu’. Quando se pensa e se atua do ponto de vista desta auto-identificação, pode-se dizer que se cometeu o ‘pecado original’ de transformar a pura subjetividade (o potencial ilimitado) em um objeto, uma realidade limitada.
4.Nenhum objeto tem uma existência independente por si mesmo e, portanto, não pode despertar do sonho vivente; ainda assim – e esta é a piada – o fantasma individual (um objeto) busca algum outro objeto como o ‘Absoluto’ ou ‘Realidade’, ou o que for.
5.Se isto estiver claro, deve-se inverter o rumo e voltar para descobrir o que se era originalmente (e sempre se tem sido) antes do surgimento da consciência.
6.Neste ponto surge o ‘despertar’ de que não se é nem o corpo nem mesmo a consciência, mas o estado inefável da total potencialidade, anterior à chegada da consciência (na consciência, este estado, seja qual for o nome, pode ser apenas um conceito).
7.E, assim, o círculo está completo; o buscador é o buscado.
Em conclusão, disse Maharaj, deve-se entender profundamente que, como ‘Eu’, se é númeno. A condição atual da fenomenalidade (cuja semente é a consciência) é temporária, como uma doença ou um eclipse sobre a condição imutável original da numenalidade, e tudo o que se pode fazer é viver o tempo destinado da vida, no fim do qual o eclipse da fenomenalidade termina e a numenalidade prevalece novamente em sua pura unicidade, totalmente inconsciente de sua Consciência."
Nisargadatta Maharaj em Sinais do Absoluto - Pointers from Nisargadatta

24 de março de 2012

A Corrente Interior...


"A meditação que eu falo é como flutuar, não é como nadar.

Observem a um homem que nada e a uma folha que flutua no rio.
O prazer e a alegria da folha que flutua não são deste mundo. Para a folha não há problemas, nem obstáculos, nem disputas nem problemas.

A folha é muito sábia. E no que se baseia sua sabedoria? A folha é sábia porque tem feito do rio seu barco e agora navega sobre ele. A folha está preparada e disposta a ir ali onde o rio quiser levá-la. Assim, a folha dobrou a força do rio.

O rio não pode causar danos, porque a folha não luta contra o rio. A folha não quer oferecer nenhuma resistência; limita-se a flutuar.

Assim, a folha tem uma conformidade completa. por que? Porque agora procura estar de acordo com o rio; limita-se a flutuar: isso é tudo. Que o rio a leve onde queira: assim seja.
Tenham consciência então da folha que flutua.

Vocês podem flutuar assim no rio da vida? Não deverão pensar sequer em nadar, nem sequer ter a sensação de que nadam; a mente não deve existir para nada. (...)

A meditação que eu falo é semelhante a flutuar; não é semelhante a nadar.

Têm que flutuar, simplesmente. Quando digo que relaxem o corpo, quero dizer que têm que deixar que o corpo flutue. Então não mantêm nenhuma sujeição sobre o corpo; logo, não se prendam à borda do corpo: soltem, flutuem.

Quando digo que soltem também a respiração, não se prendam à beira da respiração. Deixem-na também, flutuem com ela também. Portanto, onde iremos? Se soltarem o corpo flutuarão; se lhes aferrarem ao corpo, ficarão nas bordas.

Como pode alguém entrar no rio se se prender à borda? Só poderá voltar para a borda.
Se a gente deixar a borda, entrará diretamente no rio. Assim, dentro de nós flui uma corrente de consciência divina, mas nos estamos aferrando à borda, à borda do corpo, á borda da respiração.

Soltem. Soltem também a respiração. Soltem também os pensamentos. Assim deixarão atrás todas as bordas.
Onde irão? Começarão a flutuar , a corrente flui dentro. Quem se deixa flutuar nessa corrente chega ao mar.
A corrente interior é como um rio, e o que se deixa flutuar nela chega ao mar.
A meditação é como flutuar. Quem aprende a flutuar alcança o divino. (...)

O nadador só pode alcançar a borda. Mas e o que flutua? Nenhuma borda pode deter o que flutua, porque se deixou levar pela corrente. A corrente o levará.
Levará e o fará chegar ao mar, com toda segurança."
Osho em Aqui e Agora

23 de março de 2012

Universo autoconsciente - Amit Goswami-2


"Porque então em nossa experiência comum, nós nos sentimos tão separados? A separatividade, insiste o místico, é uma ilusão. Se meditarmos sobre a verdadeira natureza do nosso Ser, descobriremos , como descobriram místicos de muitas eras e tempos, que só há uma consciência por trás de toda diversidade. Esta - consciência/sujeito/ ser - recebe numerosos nomes.
Os hindus a chama de Atman, os cristãos de Espírito Santo, ou no cristianismo quaker, de luz interior. Por qualquer nome que seja conhecida, todos concordam que a experiência dessa consciência una é de valor inestimável.

Místicos budistas referem-se frequentemente à consciência para além do indivíduo como o não-ser, o que leva a confusão potencial de que a possam estar negando inteiramente. O próprio Buda, no entanto esclareceu essa má interpretação: "Há o Não-nascido e o Não-originado, o Não-criado, o Não-formado. Se não houvesse esse Não-nascido, esse Não-originado, esse Não-criado, esse Não-formado, escapar o mundo do originado, do criado, do formado, não seria possível. Mas desde que há um Não-nascido, Não-originado, Não-criado, Não-formado é possível também transcender o mundo do nascido, do originado, do criado, do formado".
Os místicos portanto, são aqueles que dão testemunho dessa realidade fundamental da unidade na diversidade. Uma amostragem de escritos místicos de culturas e tradições espirituais diferentes confirma a universalidade da experiência mística da unidade.

A mística cristã Catarina Adorna de Gênova, que viveu na Itália do século XV formulou clara e primorosamente seu conhecimento: "Meu ser é Deus, não por participação simples, mas por uma transformação autêntica de meu ser."
O grande Hui-Neng, da China do século VI, um camponês analfabeto cuja súbita iluminação resultou finalmente na fundação do Zen Budismo, declarou: "Nossa própria natureza do ser é Buda e, à parte essa natureza, não há outro Buda".
Ibn-Arabi, místico do século XII, reverenciado pelos sufistas, como o Xeque dos xeques, teve o seguinte a dizer: " Tu nem estás deixando de ser nem ainda está existindo. Tu és Ele, sem uma dessas limitações. Sem então, conheceres tua própria existência dessa maneira, então conhecerás a Deus, e se não, não o conhecerás".
O cabalista Moisés de Leon, do século XIV, que foi provavelmente o autor do Zoar, a principal fonte de referencia dos cabalistas, escreveu: "Deus...quando decide iniciar seu trabalho de criação é chamado Ele. Deus no desdobramento completo de seu Ser, Bem-aventurança e Amor, no qual torna-se capaz de ser percebido pelas razões do coração...é chamado Vós. Mas Deus, em sua manifestação final no último e todo abrangente de seus atributos é chamado Eu".
Atribui-se a Padmasambhava, místico do século VIII, ter levado o budismo tântrico ao Tibet. Sua esposa, a carismática Yeshe Tsogyel, expressou sua sabedoria da seguinte maneira: "Mas quando finalmente me descobrires como única pura Verdade nascida de dentro, a Consciência Absoluta, permeia o Universo".
Meister Ekhart, o monge dominicano do século XIII, escreveu: "Nesta iluminação, percebo que Deus e eu somos um só. Depois, sou o que era e, então, nem diminuo nem aumento, porque então sou uma causa imóvel que move todas as coisas".
Do místico sufista do século X, Monsoor al- Halaj, ouvimos o pronunciamento seguinte: "Eu sou a Verdade!".
Shankara, místico hindu do século VIII, expressou exuberantemente essa iluminação: "Eu sou a verdade sem começo, sem igual. Não participo da ilusão "Eu" e "Vós", "Isto" e " Aquilo". Eu sou Brahman, o primeiro sem segundo, a bem-aventurança sem fim, a verdade eternam imutável...Eu resido em todos os seres como a alma, a consciência pura, o fundamento de todos os fenômenos, internos e externos. Eu sou o que desfruta e o que é desfrutado. Nos dias de minha ignorância, eu costumava pensar nessas coisas separadas de mim. Agora, sei que sou Tudo".
E finalmente, Jesus de Nazaré declarou: "O Pai e Eu somos Um".

Qual o valor da experiência da unidade? Para o místico, ela abre a porta para a porta para uma transformação do ser que gera amor, compaixão universal e liberta o homem dos grilhões de viver em separatividade adquirida e dos apegos compensatórios a que nos agarramos. (Este liberado é chamado de moksha em sânscrito ).

A filosofia idealista nasceu das experiências e intuições criativas de místicos que frisam constantemente o aspecto experiencial direto da realidade subjacente. " O Tao do qual se pode falar não é o Tao absoluto", disse Lao Tzu. Os místicos alertam que todos os ensinamentos e escritos metafísicos devem ser considerados como dedos apontados para a lua, e não como a própria lua. Ou, como nos lembra o Lankavatara Sutra: "Esses ensinamentos são apenas um dedo apontado para a Nobre sabedoria...Destinam-se ao estudo e orientação das mentes discriminadoras de todas as pessoas, mas não são a Verdade em sim que só pode ser autocompreendida no mais profundo estado de nossa própria consciência".

Alternativamente, alguns místicos recorrem a descrições paradoxais. Escreve Ibn al-Arabi: "Ela (a consciência) nem tem o atributo do ser nem do não-ser...Ela nem é existente nem não-existente. Não se pode dizer que seja a Primeira ou a Última".

Na verdade, a metafísica idealista em si pode ser considerada como paradoxal, implicando como acontece, o conceito paradoxal de transcendência.
O que é a transcendência? A filosofia só pode dizer neti, neti - não é isso nem aquilo. Mas o que é? A filosofia permanece em silêncio. Ou alternativamente diz um dos Upanishads; "Ela está em tudo isso/ Está fora de tudo isso."
No reino transcendente, dentro do mundo imanente? Sim. Fora do mundo imanente? Sim. A coisa se torna muito confusa.
A filosofia idealista permanece na maior parte silenciosa diante de perguntas como: de que maneira a consciência divide-se na realidade sujeito-objeto? De que maneira a consciência única torna-se muitas? Dizer que a multiplicidade observada do mundo é ilusão, dificilmente nos satisfaz.

A integração de ciência e misticismo não tem que ser tão desconcertante assim. Afinal de contas elas compartilham de uma semelhança importante: ambas nasceram de dados empíricos interpretados à luz de princípios explanatórios teóricos. Em ciência, a teoria serve como explicação dos dados e como instrumento de previsão e orientação para experimentos futuros. A filosofia idealista, igualmente, pode ser considerada como uma teoria criativa, que atua como uma explicação das observações empíricas dos místicos, bem como uma orientação para outros pesquisadores da Verdade."
Amit Goswami em Universo Autoconsciente

22 de março de 2012

Universo autoconsciente - Amit Goswami-1


"No idealismo monista, a consciência, e não a matéria, é fundamental. Tanto o mundo da matéria quanto o dos fenômenos mentais, como os pensamentos por exemplo, são criados pela consciência.

Além das esferas material e mental ( que juntas formam a realidade imanente ou seja, o mundo das manifestações) o idealismo postula um reino transcendente, arquetípico de idéias como origem dos fenômenos materiais e mentais. Trata-se de uma filosofia Unitária. Quaisquer subdivisões, como imanente, transcendente situam-se na consciência. A consciência é portanto a realidade única e final.

No Ocidente, a filosofia monista teve em Platão seu proponente mais conhecido.(...) Platão imagina seres humanos sentados imóveis numa caverna, em tal posição que estão sempre voltados para a parede. O grande universo no lado de fora é um espetáculo de sombras projetadas na parede, e nós somos observadores de sombras. A realidade autêntica está às nossas costas, na luz e formas arquetípicas que lançam sombras na parede. Nessa alegoria, os espetáculos de sombras são as manifestações imanentes irreais na experiência humana, de realidades arquetípicas que pertencem a um mundo transcendente. Na verdade a luz é a única realidade, porquanto ela é tudo que vemos. No idealismo monista, a consciência é como a luz na caverna de Platão.

Estas mesmas idéias básicas reaparecem com grande frequência na literatura idealista de numerosas culturas. Nos textos do Vedanta da Índia, a palavra sânscrita nama é usada para denotar arquétipos transcendentes e rupa sua forma imanente. Para além de nama e rupa brilha Brahman, a Consciência Universal, a única sem um segundo, o fundamento de todo Ser. "Todo este universo sobre o qual falamos é pensamos, nada mais é do que Brahman. Brahman existe além do alcance de Maya ( ilusão). Nada mais existe"

Na filosofia budista, os reinos material e das idéias são chamados de Nirmanakaya e Sambhogakaya respectivamente, mas acima deles há a a luz da consciência única, Dharmakaya, que ilumina a ambos. E na realidade só há Dharmakaya. "Nirmakaya é a aparência do corpo de Buda e de suas atividades inescrutáveis. Sambhogakaya possui potencialidade vasta e ilimitada. O Dharmakaya de Buda está livre de qualquer percepção ou concepção de forma".

Talvez o símbolo taoísta do Yin e do Yang seja em geral mais conhecido do que seus equivalentes indianos. O Yang, claro, considerado como símbolo masculino, define o reino transcendente, e o Yin, escuro, considerado como símbolo feminino, o imanente. Notem a relação figura-base: "Aquilo que permite ora as trevas, ora a luz é o Tao",o uno que transcende suas manifestações complementares.

Na Kabbalah judaica descreve duas ordens de realidade a transcendente e a imanente. De acordo com o Zoar "se o homem contempla as coisas em meditação mística tudo se revela como Uno".

No mundo cristão os nomes do reino transcendente e imanente - céu e terra- são partes do nosso vocabulário diário. (...) Além dos reinos do céu e da terra, há a Divindade, o Rei dos reinos. Os reinos, não existem separados do Rei; o Rei é os reinos.
Dionísio, o idealista cristão escreve : "Ela ( a consciência- o fundamento do ser) está em nosso intelecto, alma a corpo, no céu e na terra, enquanto permanece a mesma em Si Mesma. Ela está simultaneamente em, a volta e acima do mundo, super-celestial, um sol, uma estrela, fogo, água, espírito, orvalho, nuvem, pedra, rocha, tudo que há".

Em todas essas descrições, note que se diz a consciência única nos chega através de manifestações complementares: idéias e formas, nama e rupa, Sambhgakaya e Nirmakaya, yang e yin, céu e terra. Essa descrição complementar constitui um aspecto importante da filosofia idealista.
Quando olhamos em volta, vemos geralmente apenas a matéria. O céu não é um objeto tangível de percepção comum. Mas não é só isso que nos leva a referirmo-nos a matéria como real, mas também o que nos induz a aceitar a filosofia realista, que proclama que a matéria ( e sua forma alternativa, a energia) é a única realidade, Numerosos idealistas sustentam, contudo, que é possível experienciar diretamente o céu se procurarmos além das experiências mundanas do dia a dia; Os indivíduos que fazem essas alegações dão denominados místicos, que oferecem provas experienciais do idealismo monista.

O realismo nasceu de nossas percepções da vida diária. Em nossas experiências do dia a dia no mundo, é abundante a prova de que coisas são materiais e separadas umas das outras e de nós. Evidentemente, experiências mentais não se ajustam bem a essa formulação. Experiências dessa ordem como o pensamento, não parecem ser materiais, que é o motivo porque criamos a filosofia dualista que relega mente e corpo em domínios separados. Os defeitos do dualismo são bem conhecidos, principalmente por não conseguir explicar como uma mente separada, não-material, interage com um corpo material. Se há essas interações mente-corpo, terá que haver trocas de energia entre os dois domínios. Em um sem-número de experiências descobrimos que a energia do universo material em si permanece sempre constante ( a lei da conservação de energia). Tampouco qualquer evidência demonstrou que energia seja perdida para o domínio mental ou dela retirada. De que maneira pode isso acontecer, se interações acontecem entre os dois domínios?

Os idealistas embora sustentem que a consciência é a realidade primária, e portanto atribuam valor às nossas experiências subjetivas, mentais, não sugerem que a consciência seja a mente. (Neste livro a distinção entre mente e consciência é necessária e importante) Em vez delas, sugerem eles que os objetos materiais ( como uma bola por exemplo) e os objetos mentais ( como pensar em uma bola ) são ambos objetos NA consciência. Na experiência, há também o sujeito, aquele que experiencia.
Qual a natureza dessa experiência? Esta é uma pergunta da mais alta importância no idealismo monista.

De acordo com o idealismo monista, a consciência do sujeito em uma experiência sujeito-objeto é a mesma que constitui o fundamento de Todo Ser. Por conseguinte, a consciência é Unitiva. Só há um sujeito-consciência e somos essa consciência. "Tú és isso!" dizem os livros sagrados hindus, conhecidos coletivamente como UPANISHADS." [Continua]
Amit Goswami em O Universo Autoconsciente

21 de março de 2012

As teias da mente...


"Participante: Eu estou aqui porque não quero renascer...
Karl Reinz: E, precisamente por causa deste desejo, isto acontecerá.

P: O quê?
Karl: O desejo de evitar algo é sempre o comando que o faz acontecer.

P: Então, diga-me, como libertar-me deste desejo...
Karl: Não, você não pode libertar-se de nada.

P: ...ou como eu posso sair disto.
Karl: Você não pode sair. Mas você pode se devotar a não se libertar de nada, e não sair! Isto é tudo. Isto é autorrealização. A autorrealização está percebendo que você não pode escapar do que você é. Recoste-se e aprecie. Não haverá ninguém mais que possa faze-lo.

P: Se eu pudesse desfrutar a vida, eu não estaria aqui.
Karl: Você está aqui porque você não tem escolha. Você não pode fazer de outra forma. Você é a liberdade que não tem escolha de como se expressar. Se ela tivesse uma escolha, não seria a liberdade. Aprecie este estado sem escolha, esta inevitabilidade de sua existência. Esta é a apreciação real: ver que você nunca pode mudar o que você é.

P: Para mim isto é mais ou menos o oposto da apreciação.
Karl: Posso apenas dizer a você: aquilo que você é desfruta cada momento e o oposto de cada momento. Regozija-se completamente. E este que pensa que não está apreciando a si mesmo é também parte da apreciação.

P: O fato que eu sou parte de algum tipo de prazer não me leva a parte alguma. Quero ser aquele que desfruta.
Karl: Aquilo que você é desfruta também da não apreciação!

P: Isso parece ser uma trama complicada.
Karl: Você está certo. É uma trama complicada.

P: Obrigado.
Karl: Mas quem a tece? a aranha, é você! Você está tecendo a infindável rede de pensamentos cósmicos e formas. O momento virá quando você pensar: “O que significa essa teia? E, de qualquer maneira, quem a tece? Acho que sou eu mesmo que a está tecendo! É isto!” No despertar do ‘eu’, a trama começou. Você é a fonte desta trama infindável de guerra e paz: toda a teia da criação. Você é o tecedor de cada pensamento e cada forma. Mas, na realização repentina de que você é, toda a teia é sugada de volta. Uma vez que isto seja visto, não há mais nem mundo nem teia.

P: Você espera que eu o siga?
Karl: Não, de forma alguma. Eu não estou aqui para ajudá-lo a entender alguma coisa.

P: Mas?
Karl: Estou sentado aqui de forma que aquele que pensa que pode entender desapareça no não entendimento.

P: Antes de desaparecer, eu gostaria de receber algumas soluções.
Karl: Eu não dissolvo nada. Ao contrário. Eu crio nós.

P: Sim, eu percebo isto.
Karl: Eu não estou aqui para dissolver nós. Eu crio nós. Eu ato tantos nós em seu cérebro que você pode repentinamente perceber que é impossível desfazê-los. Assim você pode abandonar as tentativas e simplesmente se tornar tranquilo. Uma vez que esteja completamente tranquilo, quem se interessa se existiam palavras, ou renascimentos, ou teias, ou nós e dissoluções?"
Karl Reinz em Without a Second

20 de março de 2012

As sem razões do Amor...


O amor desconhece a razão
E a lógica,
Já está além do que aparenta ser,
Alcançou a profundidade além dos sentidos,
Das formas,
Das falas...
O amor surpreende pela espontaneidade,
Pela delicadeza,
Pelo desprendimento,
E por continuar apenas sendo...Amor...

O amor se divide e se dividindo ganha.
O amor toca e por tocar é tocado.
O amor abençoa e por abençoar é abençoado.
O amor sacraliza e por sacralizar é o próprio sagrado...

O amor não esquece, ele integra.
Não precisa ser grande para aparecer, já aparece.
O amor desconhece regras mortas, é a própria vida.
O amor desequilibra a razão,
Une sem misturar,
Junta sem ferir,
Compartilha sem sobrepor,
É síntese luminosa, sem oposição...

O amor não tem limite,
É espaço.
O amor deixa sua marca,
Sem dor.
O amor é fala silenciosa,
É plenitude sem falta,
É barco em mar aberto,
É imensidão sem fim...

O amor sintetiza para amar mais,
Deixa cair valores vãos,
Abre os braços da paz,
E se faz gratidão...

O amor nada pede,
Pois tudo dá.
Nesse dar, tudo ganha,
Sem nem mesmo pedir...

O amor não tem definição,
É sentimento puro,
Divino,
Que ilumina os corações,
Acalma a mente,
Torna a vida mais viva,
E a eternidade instantânea,
Sorriso de criança,
Brincadeira, paixão,
Chuva que cai,
Flor que se abre,
Perdão...

Amar não significa perder,
Mas deixar apenas Ser.
Ser tudo,
Ser nada,
Tudo isso é o Amor,
Amor?
Não tem definição...

19 de março de 2012

A Corrente Viva...


"Há uma parábola.
Certo dia, Buda chegou diante de uma multidão com uma flor nas mãos. Ele ia fazer uma palestra, mas permaneceu em silêncio.

Aqueles que tinham ido para ouvi-lo começaram a se perguntar o que ele estava fazendo. O tempo foi passando. Isso nunca acontecera antes. O que ele estava fazendo?

Eles começaram a pensar consigo mesmos se ele iria falar ou não. Então, alguém perguntou: “O que você está fazendo? Você se esqueceu de que nós viemos para ouvi-lo?"
Buda disse: “Eu comuniquei algo. Comuniquei algo que não pode ser comunicado por palavras. Você ouviu ou não?"

Ninguém havia ouvido. Mas um discípulo — um discípulo totalmente desconhecido, mencionado naquele momento pela primeira vez —, um bhikkhu chamado Mahakashyap riu, riu entusiasticamente.

Buda disse: “Mahakashyap, venha aqui. Eu lhe dou esta flor. Tudo o que podia ser dado por palavras, eu dei a todos, mas o que é realmente significativo — o que não pode ser dado por palavras — dou a Mahakashyap”.

A tradição zen tem questionado repetidamente: “O que foi comunicado a Mahakashyap? o que foi transmitido a Mahakashyap?” — uma transmissão sem palavras. “O que Buda disse e Mahakashyap ouviu?” Sempre que aparece que aparece alguém que sabe, ri também. As questões são apenas um truque.

Quando alguém compreende, também ri, mas onde há pessoas eruditas — que conhecem muito e ao mesmo não conhecem nada — a história é debatida. E então, decidem o que foi ouvido. Mas aquele que sabe, ri!

Bankei, um grande mestre zen, disse: “Buda näo disse nada. Mahakashyap não ouviu nada”.
Alguém perguntou a ele: “Buda não disse nada?”
“Não”, respondeu Bankei. “‘Nada’ foi dito; ‘nada’ foi ouvido. Foi dito e foi ouvido. Sou testemunha.”

Entäo, alguém disse: “Você não estava lá”.
Bankeì disse: “Eu não precisava estar lá. Quando ‘nada’ foi comunicado, ninguém era necessário como testemunha. Eu não estava lá e mesmo assim sou uma testemunha”. Alguém riu. Bankei disse: “Ele também foi uma testemunha!”

A corrente viva não pode ser comunicada. Ela está sempre presente; você apenas tem de chegar a ela. Ela está próxima, bem à vista.

Ela está em você; você é a corrente viva. Mas você nunca olhou para dentro; sua atenção sempre esteve no lado de fora.

Você tem sido orientado para o lado de fora e tornou­-se fixado lá. Seu foco tem estado tão no exterior que no pode conceber qual o significado de estar dentro. Até mesmo quando tenta estar dentro, fecha os olhos e continua do lado de fora.

Estar dentro significa estar num estado da mente onde não há fora nem dentro. Estar dentro significa que não existe nenhuma barreira entre você e a totalidade. Quando não há nada fora, apenas então você chega à corrente interna.

Quando você tem um vislumbre, é transformado. Você sabe... conhece algo incompreensível. Sabe algo que o intelecto não pode compreender; sabe algo que o intelecto não pode comunicar. Ainda assim, alguém tem de comunicar mesmo com uma flor, mesmo com uma risada.

Como você comunica não interessa. São apenas gestos. Faz alguma diferença se eu uso meus lábios para falar ou se uso minhas mãos para presenteá­-lo com uma flor? Mas se o gesto é novo, ele o perturba.
Quando Buda deu a flor a Mahakashyap, foi um gesto, assim como quando eu falo também é um gesto.

Eu produzo um som: é um gesto. Eu permaneço em silêncio: é um gesto. Mas quando o gesto é novo, desconhecido, você pensa que alguma coisa diferente está acontecendo. Nada é diferente.

A corrente viva não pode ser comunicada, mas mesmo assim tem de ser comunicada. De algum modo ela tem de ser indicada, de algum modo tem de ser mostrada."
Osho em Eu Sou a Porta

18 de março de 2012

Apaixone-se pelo que você já é!



"Hoje, aqui, do meu humilde instante, vislumbro um desejo: apaixone-se por aquilo que você é. E jamais esqueça que aquilo que você é não é um corpo, não é a mente. Me apresento como um porta-voz disso, com a graça disponível a essa realização – e, reforço, não confunda aquilo que você está vendo com aquilo que você é, este é o grande segredo.

Num momento de transcendência, tudo o que você está vendo é você, você está em todos os lugares. Mas vamos com calma... Por enquanto quero que explore o máximo que puder essa perspectiva de que você não é aquilo que você está vendo.

Se você está aqui, é imperativo que veja o que está sendo apontado. Olhe para onde a seta está apontando e vá em frente, esse é o melhor jeito que você tem de “me fazer feliz”. Osho diz: “Não morda o meu dedo, olhe para onde estou apontando”. Isso eu ouvi e é o mesmo que repasso...

Meu convite, em exatidão, é: pare de fazer todos os movimentos que o levam para fora e veja o que acontece. Ao parar de fazer, desidentificando-se do “fazedor”, o fazer se torna uma expressão do “não-fazer” essencial à Observação que você é. As coisas acontecem além e apesar de “você” e não tem como ser de outra forma. Desfrute dessa realidade.(...)

Participante – É muito difícil a convivência com pessoas que não estão indo na mesma direção, que não entendem isso que estamos contemplando aqui em Satsang com você.

Você está preocupado com o que as pessoas estão fazendo ou com o que você está fazendo?

Participante – Estou preocupado comigo.
Satya - É você que está buscando afirmação dos outros, querendo mais e mais.

Participante – Não, acho que não é preciso querer mais e mais, não há necessidade.
Satya - Então, qual é o problema? Você quer que as pessoas pensem da mesma forma que você?

Participante– É isso que é difícil, essa espécie de "negociação" com as outras pessoas.
Satya - Mas por que você tem de fazê-las acreditar na mesma coisa que você?

Participante – Para que eu consiga viver melhor, mais em paz, mais tranquilo, mais saudável.
Satya - Uau! Este é o ponto. Não o perca! Você quer que as pessoas concordem com você, para que você possa viver em paz. Porém, este pensamento é o que te aprisiona no sofrimento. Somente quando puder ver isso, poderá ser dado o salto. Veja com clareza que é você que está querendo que todos concordem com o seu jeito de pensar para que você consiga viver em paz – isso é impossível. Não tem como fazer todo mundo concordar com você. Esta é uma estratégia extremamente equivocada, proposta pela sua mente.

Se a paz que você busca depende daqueles que estão ao seu redor, ela se torna inalcançável. A menos que você consiga sedar todos e implantar neles aquilo que você considera ideal para viver em paz. Mas, ouça, isso não tem nada a ver com realizar a si mesmo.

A proposta de Satsang vai muito além. Investigue quem é você e veja do quê esse "você" precisa, veja quem é o outro e o mundo a sua volta, e não mais se engane quanto às propostas da mente.

Não estamos falando de "opiniões". Sabedoria implica em descobrir quem você é e, consequentemente, realizar que não tem ninguém para ter opinião alguma. Seu sofrimento persiste porque você insiste em existir. Você reforça, dia após dia, a crença de ser uma pessoa,
cheia de conteúdo, pronomes, gêneros e adjetivos. Pare por um instante e veja se tudo isso é verdade. Essa sabedoria está disponível aqui e agora: quem você é, é Paz."
Satyaprem em Satsang

17 de março de 2012

Reconciliação...


"Jesus era um homem de amor, de imenso amor. Amava esta terra, amava o cheiro desta terra. Amava as árvores, amava as pessoas. Amava as criaturas, porque só assim se ama o criador. Ao elogiar o quadro, você está elogiando o pintor.
Quando elogia a poesia, esse elogio se estende ao poeta.

Jesus é afirmativo, positivo. E ele sabe de um fato muito significativo, quase sempre presente em seus dizeres: Deus é uma abstração; você não pode se colocar face a face com Deus. "Deus" é uma abstração, assim como a "humanidade". Você depara com seres humanos, mas nunca com a humanidade. Você sempre depara com o concreto. Nunca encontrará o Deus abstrato, porque ele não tem rosto algum. Ele não tem rosto. Você não poderia reconhecê-lo. Então, onde o encontraria?

Olhe cada olho com que deparar; olhe cada ser com quem deparar. Eles são Deus na forma concreta; Deus materializado. Todas as pessoas são encarnações de Deus - as rochas, as pedras, as pessoas, e tudo o mais.
Ame essas pessoas, ame essas árvores, ame essas estrelas, e através desse amor, você começará a sentir a imensidão de ser. Mas terá de passar pela pequena porta de um ser particular.

Jesus tinha imensa paixão por este terra, por esta vida.
Se você nega a existência, intrinsecamente está negando Deus.
Se disser não à vida, terá dito não à Deus, porque é a vida de Deus.

E lembre-se sempre que Deus não tem lábios próprios, ele beija você através dos lábios da outra pessoa. Ele não tem mãos próprias; abraça você através das mãos de outra pessoa. Ele não
tem olhos próprios, olha para você através dos olhos de outra pessoa. Ele vê você pelos olhos do outro e é visto por seus olhos, e assim Ele vê através dos seus olhos também.

Os quakers dizem, e com razão, que Deus nada mais tem além de você; só você - é isso o que ele tem. Essa visão tem de penetrar fundo, só assim você poderá compreender os dizeres de Jesus; do contrário passarão batido - como tem ocorrido usualmente há séculos. Que isto seja a própria pedra fundamental: a vida é Deus. E as coisas, então, se tornarão muito, muito simples.

Você terá a perspectiva certa. Diga "sim", e de repente sentirá uma espécie de poder despertando em você.

Jesus diz: "Se você vai ao templo com flores, oferendas, para rezar, se entregar a Deus, e se lembrar de que há alguém zangado com você, então a primeira necessidade é voltar e se reconciliar com o seu irmão".

Todos são irmãos aqui, lembre-se, porque o Pai é UM. As árvores são suas irmãs; São Francisco costumava conversar com as árvores - "Irmãs, Irmãos". Os peixes, as gaivotas, as rochas, as montanhas - todos são seus irmãos e irmãs porque todos vêm da mesma fonte.

Jesus está dizendo que se você não se reconciliar com o mundo, não pode rezar para Deus. Como pode chegar ao Pai, se não estiver em paz com o irmão? E o irmão é concreto; e o Pai é abstrato. O irmão existe; o Pai está oculto. O irmão é manifesto, e o Pai é não manifesto. Como você pode se reconciliar com o não-manifesto? Você nem conseguiu se reconciliar com o seu irmão... Essa é uma frase significativa. Não se refere apenas ao seu irmão; não se refere apenas aos seres
humanos. Refere-se a toda a existência - a tudo o que você tem insultado. Se você foi cruel com alguém, ou mesmo com algo...

Um grande mestre zen, Rinzai, estava sentado. Chegou um homem, empurrou a porta com força - devia estar muito zangado - e a bateu. Não estava de bom humor. Jogou os sapatos e entrou. Rinzai disse:- Espere. Não entre. Primeiro, peça desculpas à porta e aos seus sapatos.

O homem disse:- Do que você está falando? Ouvi dizer que os mestres zen são loucos, e deve ser verdade. Pensei que fosse apenas boato. De que absurdo você está falando? Por que devo pedir desculpas à porta? Seria muito embaraçoso... e aqueles sapatos são meus!

Rinzai disse:- Saia! Nunca mais volte aqui! Se você está bravo com os sapatos, por que não pode pedir perdão a eles?
Quando você estava zangado, não achava tolice ficar irritado com os sapatos. Se consegue sentir raiva, por que não sente amor? Relação é relação. Raiva é uma relação. Quando você bateu a porta com raiva, foi uma relação com a porta; comportou-se de maneira errada, imoral. E a porta nada lhe fez de mal. Vá, do contrário não poderá entrar.

Sob o impacto do silêncio de Rinzai, e das pessoas sentadas ali, e daquela presença... como um flash, o homem compreendeu. Entendeu a lógica da coisa; tudo ficou muito claro. "Se você pode ficar com raiva, por que não pode amar? Saia." E ele saiu. Talvez em toda a sua vida, aquela tivesse sido sua primeira vez. Ele tocou a porta, e seus olhos se encheram de lágrimas. Não podia contê-las. E quando se curvou diante dos próprios sapatos, uma grande mudança aconteceu a ele - sobreveio-lhe o estado de prece. Quando se virou e voltou a Rinzai, este o recebeu e o abraçou.

Isso é reconciliação. Como você pode rezar se não se reconciliar?
É preciso ganhar a prece. Quando você se reconcilia com a existência, ganha a prece. A prece não se limita a você entrar no templo e rezar. Não é uma espécie de atividade; é um despertar da consciência para novos picos. Mas isso só é possível se você estiver reconciliado, relaxado com a existência.

A prece é uma fórmula mágica, um mantra, um encantamento. Mas tem de ser provocada no momento certo. Você não pode rezar a qualquer momento, em qualquer lugar; tem de estar na sintonia certa. É a gratidão e a reconciliação que lhe proporcionarão essa sintonia. A prece só pode ser feita quando você está sintonizado.

Você briga todos os dias. Lembre-se, seja com quem for que você briga, está brigando com Deus, porque nada mais existe. Sua vida muitas vezes é uma briga contínua. E essas brigas vão se acumulando; elas envenenam o seu organismo, o seu ser. Um dia, enfim, você quer rezar, e a sua prece falha; não se forma, não se cumpre, parece falsa em seus lábios; não lhe é possível rezar de repente - você terá de se preparar para isso.

A primeira preparação mencionada por Jesus é: "Reconcilia-te com o teu irmão"."Com o teu irmão" significa com todos os seres humanos, os animais, os pássaros. Toda a existência é sua irmã, porque vimos todos de uma fonte, de um pai e uma mãe. Toda essa simplicidade vem da unidade.

Lembre-se, então, de que Deus só pode ser amado através do homem. Você nunca se encontrará com Deus, sempre se encontrará com o homem. Quando você começar a amar a Deus através do homem, pode ir mais fundo ainda - pode amar a Deus através dos animais. E mais fundo ainda -pode amar a Deus através das árvores. E mais fundo - pode amar a Deus através das montanhas e rochas. E quando tiver aprendido a amar a Deus através de todas as formas dele - você se reconciliou; é aí que Deus se revela -, só então o seu amor se transformará em prece."
Osho em A Semente de Mostarda

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