23 de março de 2012

Universo autoconsciente - Amit Goswami-2


"Porque então em nossa experiência comum, nós nos sentimos tão separados? A separatividade, insiste o místico, é uma ilusão. Se meditarmos sobre a verdadeira natureza do nosso Ser, descobriremos , como descobriram místicos de muitas eras e tempos, que só há uma consciência por trás de toda diversidade. Esta - consciência/sujeito/ ser - recebe numerosos nomes.
Os hindus a chama de Atman, os cristãos de Espírito Santo, ou no cristianismo quaker, de luz interior. Por qualquer nome que seja conhecida, todos concordam que a experiência dessa consciência una é de valor inestimável.

Místicos budistas referem-se frequentemente à consciência para além do indivíduo como o não-ser, o que leva a confusão potencial de que a possam estar negando inteiramente. O próprio Buda, no entanto esclareceu essa má interpretação: "Há o Não-nascido e o Não-originado, o Não-criado, o Não-formado. Se não houvesse esse Não-nascido, esse Não-originado, esse Não-criado, esse Não-formado, escapar o mundo do originado, do criado, do formado, não seria possível. Mas desde que há um Não-nascido, Não-originado, Não-criado, Não-formado é possível também transcender o mundo do nascido, do originado, do criado, do formado".
Os místicos portanto, são aqueles que dão testemunho dessa realidade fundamental da unidade na diversidade. Uma amostragem de escritos místicos de culturas e tradições espirituais diferentes confirma a universalidade da experiência mística da unidade.

A mística cristã Catarina Adorna de Gênova, que viveu na Itália do século XV formulou clara e primorosamente seu conhecimento: "Meu ser é Deus, não por participação simples, mas por uma transformação autêntica de meu ser."
O grande Hui-Neng, da China do século VI, um camponês analfabeto cuja súbita iluminação resultou finalmente na fundação do Zen Budismo, declarou: "Nossa própria natureza do ser é Buda e, à parte essa natureza, não há outro Buda".
Ibn-Arabi, místico do século XII, reverenciado pelos sufistas, como o Xeque dos xeques, teve o seguinte a dizer: " Tu nem estás deixando de ser nem ainda está existindo. Tu és Ele, sem uma dessas limitações. Sem então, conheceres tua própria existência dessa maneira, então conhecerás a Deus, e se não, não o conhecerás".
O cabalista Moisés de Leon, do século XIV, que foi provavelmente o autor do Zoar, a principal fonte de referencia dos cabalistas, escreveu: "Deus...quando decide iniciar seu trabalho de criação é chamado Ele. Deus no desdobramento completo de seu Ser, Bem-aventurança e Amor, no qual torna-se capaz de ser percebido pelas razões do coração...é chamado Vós. Mas Deus, em sua manifestação final no último e todo abrangente de seus atributos é chamado Eu".
Atribui-se a Padmasambhava, místico do século VIII, ter levado o budismo tântrico ao Tibet. Sua esposa, a carismática Yeshe Tsogyel, expressou sua sabedoria da seguinte maneira: "Mas quando finalmente me descobrires como única pura Verdade nascida de dentro, a Consciência Absoluta, permeia o Universo".
Meister Ekhart, o monge dominicano do século XIII, escreveu: "Nesta iluminação, percebo que Deus e eu somos um só. Depois, sou o que era e, então, nem diminuo nem aumento, porque então sou uma causa imóvel que move todas as coisas".
Do místico sufista do século X, Monsoor al- Halaj, ouvimos o pronunciamento seguinte: "Eu sou a Verdade!".
Shankara, místico hindu do século VIII, expressou exuberantemente essa iluminação: "Eu sou a verdade sem começo, sem igual. Não participo da ilusão "Eu" e "Vós", "Isto" e " Aquilo". Eu sou Brahman, o primeiro sem segundo, a bem-aventurança sem fim, a verdade eternam imutável...Eu resido em todos os seres como a alma, a consciência pura, o fundamento de todos os fenômenos, internos e externos. Eu sou o que desfruta e o que é desfrutado. Nos dias de minha ignorância, eu costumava pensar nessas coisas separadas de mim. Agora, sei que sou Tudo".
E finalmente, Jesus de Nazaré declarou: "O Pai e Eu somos Um".

Qual o valor da experiência da unidade? Para o místico, ela abre a porta para a porta para uma transformação do ser que gera amor, compaixão universal e liberta o homem dos grilhões de viver em separatividade adquirida e dos apegos compensatórios a que nos agarramos. (Este liberado é chamado de moksha em sânscrito ).

A filosofia idealista nasceu das experiências e intuições criativas de místicos que frisam constantemente o aspecto experiencial direto da realidade subjacente. " O Tao do qual se pode falar não é o Tao absoluto", disse Lao Tzu. Os místicos alertam que todos os ensinamentos e escritos metafísicos devem ser considerados como dedos apontados para a lua, e não como a própria lua. Ou, como nos lembra o Lankavatara Sutra: "Esses ensinamentos são apenas um dedo apontado para a Nobre sabedoria...Destinam-se ao estudo e orientação das mentes discriminadoras de todas as pessoas, mas não são a Verdade em sim que só pode ser autocompreendida no mais profundo estado de nossa própria consciência".

Alternativamente, alguns místicos recorrem a descrições paradoxais. Escreve Ibn al-Arabi: "Ela (a consciência) nem tem o atributo do ser nem do não-ser...Ela nem é existente nem não-existente. Não se pode dizer que seja a Primeira ou a Última".

Na verdade, a metafísica idealista em si pode ser considerada como paradoxal, implicando como acontece, o conceito paradoxal de transcendência.
O que é a transcendência? A filosofia só pode dizer neti, neti - não é isso nem aquilo. Mas o que é? A filosofia permanece em silêncio. Ou alternativamente diz um dos Upanishads; "Ela está em tudo isso/ Está fora de tudo isso."
No reino transcendente, dentro do mundo imanente? Sim. Fora do mundo imanente? Sim. A coisa se torna muito confusa.
A filosofia idealista permanece na maior parte silenciosa diante de perguntas como: de que maneira a consciência divide-se na realidade sujeito-objeto? De que maneira a consciência única torna-se muitas? Dizer que a multiplicidade observada do mundo é ilusão, dificilmente nos satisfaz.

A integração de ciência e misticismo não tem que ser tão desconcertante assim. Afinal de contas elas compartilham de uma semelhança importante: ambas nasceram de dados empíricos interpretados à luz de princípios explanatórios teóricos. Em ciência, a teoria serve como explicação dos dados e como instrumento de previsão e orientação para experimentos futuros. A filosofia idealista, igualmente, pode ser considerada como uma teoria criativa, que atua como uma explicação das observações empíricas dos místicos, bem como uma orientação para outros pesquisadores da Verdade."
Amit Goswami em Universo Autoconsciente

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