5 de março de 2012

Bodhidharma e o Imperador


"Conta-se uma história sobre o encontro entre Bodhidharma e o Imperador chinês Wu. Um encontro muito estranho, mas muito frutífero também.
Nessa época, o Imperador Wu era tido como o Imperador do Mundo, ele governava a China, Mongólia, Korea, toda a Ásia, exceto a Índia.

Estava ele, convencido dos ensinamentos de Gautama Buda, mas os mestres que lhe haviam levado os ensinamentos eram todos intelectuais, nenhum deles era um místico de verdade.
Então, se ouviu falar que Bodhidharma estava chegando a China, e isso causou uma movimentação em todo o país.

Agora o Imperador iria ter com um místico de verdade, um verdadeiro Buda. Isso era motivo de grande alegria! O Imperador nunca havia ido até a fronteira da China com a Índia, então ele viajou até lá com sua comitiva, para recebê-lo pessoalmente.

No dia marcado, o Imperador deu-lhe as boas vindas com muito respeito e lhe perguntou: Venho perguntando a vários monges e eruditos que aqui vieram, mas nenhum deles me respondeu, nem puderam me ajudar. Tenho tentado de tudo, me responda por favor: Como é possível libertar-se do "eu"?
Bodhidharma lhe respondeu: A menos que se converta em um não-eu, tua miséria não terá fim.
Ele era sincero, então lhe fixou os olhos e disse: Estarei junto ao rio, perto das montanhas, no templo. Venha pela manhã bem cedo, exatamente as quatro horas, e acabarei com esse "eu" para sempre. Mas se lembre, não deves trazer nenhuma arma contigo, nem nenhum guarda, tens que vir só.

O Imperador Wu ficou realmente preocupado: Aquele homem era estranho! Como pode destruir o "eu" assim tão rápido? Segundo os eruditos - são necessárias muitas e muitas vidas de meditação, para só então desaparecer o "eu". Este homem é raro! E além disso quer que eu vá encontrá-lo de madrugada, sem armas, sem guardas, este homem parece tão estranho, ele poderia me fazer qualquer coisa. O que ele quis dizer - que vai destruir o "eu" para sempre? Pode ele matar-me, mas como matará o "eu"?

O Imperador ficou a noite toda pensado, pensando e não conseguiu dormir. Ir ou não ir? Pensava ele. Mudava de opinião todo o tempo, mas havia algo na voz desse homem e ele possuía uma aura de autoridade quando disse: Vem, que acabarei com o "eu" para sempre! Não se preocupe com isso.

Finalmente o Imperador decidiu ir. Decidiu correr todos os riscos. Quando muito pode matar-me, pensou ele, que outra coisa pode ele fazer, já tentei de tudo.. Não posso alcançar o não-eu, e sem alcançar o não-eu a miséria não tem fim...

Na hora combinada, o Imperador bate a porta do templo e Bodhidharma diz: Sabia que viria, e sabia também que estava duvidando por toda a noite.
Mas isso não importa, você veio.
Agora senta na postura de Itálicolótus, feche seus olhos e eu me sentarei à sua frente.
No momento em que você encontrar seu eu dentro de você, agarre-o para que que eu possa matá-lo.
Agarre-o bem forte, e me diz assim que o encontrar, eu o matarei e assim acabamos com ele. É uma questão de minutos.

Wu tinha um pouco de medo. Bodhidharma parecia um louco, e havia sido retratado como um louco também. Essa é a impressão que deve ter deixado nas pessoas.

Bodhidharma estava sentado diante do Imperador com um bastão de madeira na mão pronto para atacar, e lhe disse: Vá, não perca nem um minuto.
Justo no momento em que conseguir agarrá-lo, lembre-se de procurá-lo em cada canto, cada pedaço da sua mente, no exato momento em que encontrá-lo abra os olhos e me diga que o agarrou que acabo com ele.

Então aconteceu um grande silêncio. Uma hora se passou, duas horas, e o sol começou a sair, e Wu era outro homem. Nessas horas havia olhado para dentro de si mesmo, em cada canto, cada esquina de si mesmo. Teria que olhar, pois com aquele homem ali sentado, podia dar-lhe com o bastão na cabeça a qualquer momento.
Wu olhou para dentro de si mesmo intencionalmente, intensamente.
A medida que ia buscando, ia relaxando, porque não via o eu em nenhuma parte. E ao buscá-lo, todos os pensamentos foram desaparecendo. A busca era tão intensa, que todas sua energia estava implicada nisso. Não se distraía com nenhum pensamento, ou desejo...

Foi então que Bodhidharma olhou no rosto do Imperador, e viu que ali havia um novo homem. Nunca havia experimentado tamanha doçura, tamanha paz, tamanha frescura e beleza em si mesmo. E não era nenhum "eu". Havia apenas a bem-aventurança acontecendo, para ninguém.

Bodhidharma havia cumprido sua promessa. O Imperador se prostrou diante dele, tocou-lhe os pés e disse: Por favor me perdoe, pois pensei que fosse louco, que não tinha educação, pensei até que era perigoso. Nunca encontrei um homem mais compassivo. Sinto uma total plenitude. Agora já não resta mais nenhuma pergunta em mim.

O Imperador Wu disse que quando morresse, em sua tumba, seu mausoléu, seria gravado em ouro uma declaração a Bodhidharma, para que as gerações futuras soubessem que: Houve um homem que parecia louco, mas que era capaz de fazer milagres. Sem fazer nada, o ajudou a ser um não-eu. E desde então, tudo mudou. Tudo é igual, mas eu não sou o mesmo, e a vida se converteu em uma pura canção de silêncio e paz".
Osho em Além da Psicologia

2 comentários:

  1. Lilian, que delícia de texto!! Comovente!! Por isso venho sempre aqui, seus textos sempre me trazem muita paz e tranquilidade, e me fazem refletir...

    Tenha uma semana repleta de amor, luz e paz!♥

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  2. Essa história de Bodhidharma também me tocou muito...luz, beleza e simplicidade...
    Beijos no seu coração! <3

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