28 de fevereiro de 2013

A Paz sempre presente - Mooji

"A paz quando a mente está silenciosa é fácil. 

Mas, o que quero que descubra é a paz mesmo quando a mente esteja presente. Isso é maravilhoso!

Se você somente descobre a paz, quando a mente está quieta, o que acontece quando a mente começa a tagarelar novamente?

O importante é encontrar a paz quando a mente esteja ativa. Não diga: A mente deve se aquietar.Pelo contrário, diga a mente: Você pode se agitar ainda mais. Não brigue com isso.
Faça isso agora! 
Se não for agora, quando então? (pausa.)

Muitos falam: Oh, Mooji, não consigo ser eu mesmo porque minha mente é muito agitada...
Ou: Não posso ser eu mesma porque este lugar é sujo... (risos...)

Sempre se criando condições, e mais condições...
Esqueça essas coisas todas...


Não tem nada a ver com o Ser. Você já é o Ser..


Não há nada especial sobre isso...
O que ocorre, é que você se mantém interpretando os discursos da mente. E parece que a mente está aqui e o Ser está ali. Isso não é verdade.

A mente pode ser qualquer coisa que quiser. 
Você não precisa acreditar naquilo que a mente te diz.Você pode reconhecer a liberdade nisso?
Se isso não acontece, você acaba se tornando um escravo do próprio pensar. Já imaginou Cristo dizendo: Oh, minha mente hoje está muito cheia, não estou me sentindo um Cristo hoje. ( risos...)
Claro que você ri, isso é para rir de si mesma...

Imagine Deus dizendo: Ah hoje não me sinto como Deus, existem muitos diabinhos na minha cabeça...muitos pensamentos... risos...

Que bom que você esteja rindo disso!
Na verdade tomamos nossa mente com muita seriedade.
Realizar a si mesmo é somente transcender a crença sobre a sua mente, ir além daquilo que se passa na sua mente. Não dê muita atenção a isso.
Não espere que sua mente aja de forma diferente.

Salte fora disso completamente. Abandone essas crenças nas falas da mente.
Não é simples?Porque somos tão leais as nossas mentes?
Mooji em Satsang

**
Temos a crença de que somos a mente. Mas nós temos uma mente.
Ela é um aspecto nosso. Só mais uma dimensão nossa. Maravilhosa por sinal, mas só mais uma dimensão...

Todo Ser Humano ganha uma mente de presente... e isso é um atributo da nossa Humanidade. Pensar. Refletir. Julgar. Escolher. Acreditar...

Esses atributos são presentes que ganhamos. 

Mas nós não podemos nos tornar escravos desses atributos. 
São ferramentas preciosas que temos, mas só isso.

Mooji nos coloca uma questão interessante, de como somo fiéis a nossas mentes... isso é se tomar por aquilo que se pensa... 


Acreditamos TANTO naquilo que se passa na mente que temos certeza de que somos isso. Só que da mesma forma que os pensamentos vem e vão, existe "algo" que fica, "algo" que permanece, e é esse "algo que vê", esse "algo que indica" inclusive aquilo que a mente está dizendo...

Esse "algo" que permanece é a Consciência. 

E é sempre presente. Só que não é percebida, não é passante, não existe qualquer movimento nela, ela é sempre pacífica, silenciosa, e não tem como ser vista... pois não é um objeto...

Na verdade, a Consciência é que permanece... sempre, e sempre... 
É ela que ilumina cada pensamento que acontece. Sem a Consciência iluminando cada um, os pensamentos não tem vida própria... 
É a luz da Consciência que dá vida a cada um deles. Se apenas observamos os pensamentos passarem, sejam lá quais forem, e não os alimentamos com a atenção da Consciência, que poder eles tem? Nenhum. Pensamentos são só pensamentos, nada mais.

Acreditar demasiado na mente, alimentar demasiados pensamentos, é pura escravidão. A mente foi feita para ser fluxo, ser mutação, ser expressão... ser multidão... deixe que a mente seja fluxo, deixe que seja pensante, isso não tem poder nenhum sobre a Consciência, o Ser...

A Consciência observa. É Luz. Ilumina, mas não é tocada por aquilo que ilumina... 
Consciência é Serenidade, é calma, em profundo êxtase em Si mesma...
A Paz é sempre presente...
Desfrute!!
Amor
Lilian

27 de fevereiro de 2013

Sobre a Satisfação - Satyaprem

"Se você casa consigo mesmo, uma coisa é certa: você nunca vai experimentar a separação. Nesse sentido, até mesmo o relacionamento com alguém passa a ser um luxo, e não uma necessidade. 

De repente, você está entrando em algo novo, por uma outra porta. É luxo. Puro deleite. 

Envolver-se com alguém pelo prazer daquela presença, daquele encontro... simplesmente por ser bom e nada mais.Você casa consigo mesmo quando há satisfação em si. E, saiba, não existe nada mais satisfatório do que auto-satisfazer-se. 

Agora, aqui, não se engane. O seu ego não pode satisfazê-lo, aliás, 
é ele quem propõe a insatisfação constante. A satisfação real nasce da realização que quem você é na sua mais tenra natureza.
Veja quem você é, de verdade, e veja do que você necessita. Agora. Não espere para depois. 
Se você realiza a sua natureza como a Consciência, o Todo indivisível, do que você viria a necessitar, se não há sequer uma fagulha de pó que exista fora de você?

Investigue e traga a Verdade à tona, com clareza. Uma criança precisa da sua mãe – ou de “uma” mãe, seja ela quem for –, até que ela não precise mais. Chega um momento em que as necessidades são superadas. Você precisa de um barco para atravessar o rio, até que – uma vez que esteja do outro lado do rio – você não precise mais do barco. Você não precisa carregá-lo nas costas, em terra firme.
O que acontece é que você tem olhado para si como aquele que precisa de uma mãe, de novo e de novo. A sua mãe, aquela que te gerou e limpou as 
suas fraldas já se foi e você fica em busca de uma outra ainda hoje, no auge dos seus 45 anos de idade. Ora! Veja o que você está buscando. Ou melhor, veja o que está lhe faltando e seja honesto com isso. 

O preenchimento de fora para dentro é superficial, qualquer ventinho pode desfazê-lo. É uma máscara. O buraco está lá, você o tapa, um vento bate, ele se abre, você remenda, aumenta o rombo, aumenta o sofrimento... Samsara. Isso não tem fim.
Com sorte, ou um pouco de inteligência e dedicação, você acaba desistindo de tapar os buracos, para de evitá-los e resolve olhar para dentro. Isso não significa que você não possa se relacionar, não há nenhum problema em compartilhar sua presença e partilhar da companhia de alguém com leveza, sem grandes exigências. Isso é muito bom. 

Aliás, é muito legal ser pacífico e ver que a paz nasce da aceitação. E uma vez que haja aceitação, inevitavelmente, haverá satisfação. 
À propósito, você já notou quantas abelhas dançam em torno de uma rosa satisfeita em si?" 
Satyaprem em Satsang

26 de fevereiro de 2013

A Essência não muda - John Sherman

"O que tenho a dizer não é um ensinamento espiritual. 
Não é algo que o conduzirá a uma transcendência, a uma transformação ou a uma fuga da vida humana comum. 
Não é algo que vai torná-lo iluminado. 

Você já é iluminado. 

Não é algo que lhe dará um meio de fugir da sua vida. 

Não é algo que tornará todas as experiências da sua vida tranquilas e fáceis. Não é algo que o livrará dos comportamentos condicionados, reações, relacionamentos e opiniões sobre as coisas acumulados com o tempo. 

Mas o que eu tenho a oferecer é algo que, com certeza, mais cedo ou mais tarde, o livrará dessa sensação subjacente de que a vida humana é, de certo modo, inerentemente errada, insatisfatória e perigosa. Eu prometo. 


Esta ação o livrará da ideia de que você precisa manter-se sempre alerta, vigiando os pensamentos, as sensações, os relacionamentos e ideias que vão e vêm dentro de você, para que você não tenha as ideias erradas, os relacionamentos errados, ou os desejos e aversões erradas. 

Todas essas coisas são efeitos. Elas fazem parte do aparato que foi criado para protegê-lo daquilo que não pode fazer-lhe mal algum: a sua vida.

Não há nada de espiritual no que eu proponho. 
Eu falo só de você, sempre só de você. 
Do jeito que você é, neste exato momento. 
Não falo do aparato da sua vida, da história da sua vida, das expectativas, desejos e aversões da sua vida; falo de você, em quem todas essas coisas vão e vêm.

O objetivo desta ação repetitiva de olhar para si mesmo não é livrá-lo da sua vida. 
O objetivo é livrá-lo da ideia de que a vida está errada e precisa ser consertada, que ela precisa mudar.  E este objetivo não será alcançado através da aquisição de um novo nível de entendimento dessas coisas, de modo que você possa concordar comigo e dizer: “Sim, entendi. 
Agora entendi, agora está tudo bem.” Esta ação não lhe dará isso. 
E se der, isso não o ajudará de maneira alguma.

A ação simples de tentar olhar para si mesmo (o seu cerne, a sua essência, isso que está sempre presente, que não muda nunca) põe toda a energia do aparato que evoluiu para protegê-lo em contato direto com o que ele está supostamente protegendo. 
Esse contato direto destrói, em sua totalidade, a suposição que deu forma ao próprio aparato. 
E isso acontece não através de uma compreensão nova, mas da mesma maneira que um fósforo aceso, quando mergulhado na água, se apaga. Não porque o fósforo agora compreende que foi mergulhado na água, mas porque ele simplesmente se apaga."
John Sherman em Satsang

O que é YOGA - Pedro Kupfer

"Muito se fala a respeito dessa filosofia. Muitas definições foram dadas, mas sempre temos a sensação de que alguma coisa fica faltando; de que o Yoga se recusa a ficar aprisionado numa definição. Porque essas quatro letras juntas significam muitas coisas. 

E o Yoga acaba sendo sempre mais do que as palavras podem dizer. Não inclui a crença em nenhum poder sobrenatural, nem exige fé religiosa. Simplesmente expõe um caminho de auto-análise que pode praticar-se, prescindindo de qualquer teoria, crença antiga ou moderna por parte de quem o pratica. Um caminho que conduz o homem a compreender-se verdadeiramente a si próprio.

Todo mundo já ouviu dizer que Yoga significa em sânscrito união, mas Yoga igualmente significa trabalho, aplicação. Ou seja, Yoga seria o meio e o fim ao mesmo tempo. Jaideva Singh, no comentário do Vijñánabhairava (p. XIII), um texto que ensina técnicas de meditação, afirma:

A palavra Yoga é usada tanto no sentido de união (com o Divino) como no de veículo (upáya) para essa união. (...) Desafortunadamente, nenhuma palavra foi tão profanada nos tempo modernos como a palavra Yoga. Andar sobre o fogo, tomar ácido lisérgico, parar o batimento cardíaco, etc. se consideram Yoga, quando, a bem da verdade, não têm nada a ver com ele. Mesmo os 
poderes psíquicos [siddhis] não são Yoga. 

Yoga é consciência; transformação da consciência humana em consciência divina.

Yoga também é liberdade. Libertar-se de condicionamentos e preconceitos em relação à palavra, por exemplo, poderia considerar-se uma forma de sádhana. As palavras não são nem boas nem ruins em si. Nós lhes damos valores e 
significados que associamos às nossas próprias emoções ou preconceitos. Está escrito na Bhagavad Gítá: Yogah karmashu kaushalam ('Yoga é 
perfeição em todas as ações'). Essa é uma visão tão ampla como simples da prática: qualquer coisa que você fizer, deve fazer-se como uma prática contínua e constante. 
Mas aqui temos um paradoxo: a perfeição não existe. Que significa 
'perfeição'? A perfeição, assim como o zero, é um dos muitos produtos da capacidade de especulação da mente. Ou seja: não existe. Não é algo preexistente, nem uma verdade tautológica, daquelas que se sustentam por si próprias. A perfeição, diria, não é uma abstração etérica, inatingível, senão um modelo, um paradigma no qual nos espelhamos para transformar a própria 
existência numa obra de arte, algo digno de ser vivido (e perdoe-me o leitor o mau gosto da frase, mas é para que fique claro). Perfeição aqui significa arte de viver consciente. Nada mais. Pátañjali explica o mesmo com outras palavras:

"Discernimento constante é o meio para destruir a ignorância."Yoga Sútra, II:26

Embora no início possa parecer difícil, ou incompreensível, chega uma hora em que a sua consciência se expande e você começa a entender. Nesse ponto, o Yoga não fica apenas no plano das idéias, nem se restringe unicamente à sala de prática. Com isso em mente, fazer Yoga é como um jogo que é preciso aprender a jogar desde o início. Um jogo que se joga tanto com a cabeça como com as vísceras. Mesmo se você não tiver nenhuma experiência com Yoga, saiba que suas atividades diárias, como trabalhar, criar os filhos ou estudar, também podem ser encaradas como um sádhana. É por isso que o 

Yoga é um jogo, cuja única regra é permanecer totalmente consciente o tempo todo, de cada ato, a cada momento.
A frase da Bhagavad Gítá citada acima possui implicações que vão longe e escapam a uma análise fora do contexto adequado a causa da aplicação prática da coisa. Porque se usa, porque funciona para libertar. Jaimini Rishi 
disse: "o resultado da prática acontece agora". 
Os outros rishis perguntam: "mas não há outro resultado espiritual, no final?". E ele responde: "quando você obtém um resultado concreto agora, não espere por outro invisível mais tarde".

A experiência é a única coisa que salva o yogi. Se você não fizer, não viver, não experimentar em sua própria carne, não sentir no mais íntimo do seu ser, não adianta ler, pesquisar ou ouvir palestras sobre o assunto. Aliás, o yogi precisa ser crítico. É uma das qualidades básicas para poder avançar na prática. A capacidade de observação, de si próprio e do ambiente, é essencial: estar sempre atento.
Talvez você possa achar, como muita gente, que o Yoga é algo separado de si próprio ou do seu dia a dia. Algo que você 'faz', como ir às compras ou atender o telefone. Você precisa, não apenas fazer Yoga três ou quatro vezes por semana, senão viver em Yoga, 24 horas por dia, todos os dias da sua existência. 
Esse viver consciente, essa atentividade constante é a essência da prática, mas não se consegue exercendo a vontade. Não adianta apenas querer fazê-lo, nem acontece da noite para o dia. A atentividade constante é o fruto do amadurecimento interior, um processo em que se desenvolve gradativamente 
a consciência de alerta, que vai expandindo até abranger cada momento da existência.

Por isso, não convém dizer 'eu faço Yoga', pois, em verdade, você não 'faz' Yoga. Ele já está feito! Você 'desliza' para o estado de Yoga (união) em certos momentos. Por exemplo, quando consegue ficar totalmente consciente da sua respiração. E, se quiser transcender mesmo, chegar ao samádhi, deverá manter esse estado constantemente. A 'prática', a técnica em si, funciona apenas como um catalisador que acelera esse processo.
Isso tem a ver com você, com a sua existência, com o seu momento presente, com o ar que entra por suas narinas no mesmo instante em que você está aqui sentado lendo. Daí a intenção implícita no título deste livro (Yoga Prático), já que sádhana significa praticar, fazer a coisa. Se você não for usar o Yoga, para que vai querer estudá-lo? Isso equivaleria a contentar-se com ver um filme sobre uma linda praia, tendo a oportunidade de ir pessoalmente dar um mergulho nas águas transparentes, e depois deitar na areia morna, sentindo o sol na pele e bebendo uma água de coco sob uma palmeira. São coisas diferentes, concorda?

A posição do observador (em sânscrito, sakshi, 'testemunha') é fundamental para a prática, mas funciona unicamente desde que o observador seja parte ativa do processo, ou seja, observe, estude e analise, mas que o faça estando dentro da experiência.

Por isso, amigo leitor/navegante, convido você, antes de continuar esta leitura, a sentar bem confortável, com as costas eretas e os olhos fechados. Tome consciência da sua respiração e desfrute intensamente da certeza de estar vivo. Respire fundo, usando toda a extensão dos seus pulmões. Faça isso por pelo menos dez vezes, exalando devagar.Se, após haver respirado conscientemente por alguns segundos, você tiver percebido alguma mudança no ritmo dos seus pensamentos ou emoções, você conseguiu praticar Yoga. Bem-vindo!

A propósito, quando foi a última vez que você lembrou que estava vivo? Às vezes, quando faço essa pergunta em cursos, vejo rostos assustados... Porque as pessoas esquecem. Esquecem que estão vivas!!! E o Yoga serve para isso, para lembrar. O yogi deve estar consciente a cada momento da existência, assim como você acabou de fazer. A cada inspiração e exalação. O verdadeiro significado de estar vivo só pode experimentar-se quando se está totalmente consciente. Consciente de cada respiração, cada pensamento, cada ato. Tempo, espaço e pensamento não são mais prisões, mas campos da expressão do ser. A verdadeira origem, a fonte do ser, está além do tempo, além do espaço e além do pensamento. A experiência dessa fonte nos dá o conhecimento absoluto, livre de objetos, tempo e memória.

O Yoga funciona em todos os casos. Não é apenas para pessoas sadias ou apenas para doentes, para extrovertidos ou deprimidos. É para seres humanos. E, com isso, não estou querendo convencer você, leitor, nem fazendo parte de um grupo de 'escolhidos' que querem catequizar, 'converter' os pobres mortais que não viram a luz e vivem nas trevas da ignorância e do 
pecado. Ou, ainda, lhe dar a sensação de haver 'encontrado a Verdade'. Longe de mim essa intenção. Como praticante, sou mais um veículo, um instrumento através do qual o Yoga fala.

Como técnica, o Yoga não está preocupado com explicações. Isso pode resultar repetitivo, mas é tão simples quanto importante, e se impõe 
deixá-lo claro outra vez. O Yoga quer aniquilar os condicionamentos do indivíduo. Não se limita a nenhum plano teórico, nem quer a substituição do sistema de valores ou mitologias do 'mundo ocidental e cristão' por outro exótico e alienígena, o que poderia parecer uma espécie de escapismo, de resposta desesperada de uma juventude que precisa achar a sua identidade 
e uma alternativa viável ao terrível vazio que a nossa fria sociedade tecnocrática oferece (e, no lugar de 'fria', você pode colocar seus adjetivos preferidos).(...)
O que atrai as pessoas para o Yoga é justamente isso. Porque ele lida com o poder, com a energia, e isso fascina: todo mundo quer ter. Mas o poder verdadeiro só vem com a iluminação. 

Porém, esse poder não pode obter-se apenas com alguns minutos de pránáyáma e alguns ásanas escolhidos aleatoriamente. Não é de graça. As 
práticas precisam fazer-se com dedicação e perseverança para revelarem seu efeito real.E poder para quê? 

A própria palavra o diz: yuj, unir. Unir tudo: os poderes do corpo, aconsciência e a ánima para alcançar o samádhi, a fusão entre o Ser e o Conhecer.
"A unidade da respiração, a consciência e os sentidos, seguida pela aniquilação de todos os conceitos: isso é o Yoga."Maitrí Upanishad, VI:25.

Esclarecendo um pouco mais, para o Yoga, consciência não é apenas o conjunto das funções psicomentais ou suas manifestações separadas: pensamentos, emoções e sensações. Ela inclui essas funções mas, ao mesmo tempo, está separada delas e pode observar e ser observada isoladamente. Isso é importante para entendermos o papel fundamental que tem essa capacidade da consciência de permanecer como testemunha das suas próprias ações. A consciência é então o pano de fundo sobre o qual pensamentos, emoções e sensações se revelam: um campo vibratório sutil, que torna possíveis as associações e o pensamento, e observa o mundo 
e os fenômenos como eterna testemunha. Diz a Mundaka Upanishad: Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho intimamente amigos, o ego e a Consciência habitam o mesmo corpo.O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida; o segundo tudo vê em seu distanciamento.

Os dois pássaros representam a consciência individual e a Consciência Universal. A consciência individual ofusca e esconde a Consciência Universal, que faz com que ela pense e perceba o mundo. A consciência é vasta e profunda como o oceano, e abrange todas as experiências e todas as memórias do indivíduo desde o início da existência.

A partir da definição de Pátañjali, "Yoga é a supressão das modificações da consciência", vemos que a prática começa numa sede profunda de transcender os condicionamentos humanos; vemos a necessidade de tornar cósmico o homem, de desenvolver as suas potencialidades para conquistar a iluminação. 

O método através do qual o Yoga pretende atingir esse objetivo é a 
execução de técnicas que possuem como único objetivo aniquilar, um a um, os diferentes condicionamentos que escravizam o homem. Os condicionamentos não nos deixam viver em paz e nos fazem repetir os mesmos erros, ano após ano, ad eternum. Para 'sair da roda do karma', ou seja, alcançar a liberdade verdadeira, o yogi precisa aniquilar um a um esses condicionamentos na sua própria fonte: o inconsciente, a parte 'escura' do ser.

Dizem os shastras que o caminho do Yoga começa 'quando o homem consegue quebrar a prisão das suas misérias'. O Yoga parte da condição humana desamparada, nua e crua, e tem o mérito sem par na história do pensamento de descobrir o verdadeiro potencial do homem: o da sua espiritualidade. 


A vida espiritual sempre começa no conflito interior, na sede de transcendência. E, neste kali yuga, a era dos conflitos, requer muita mais pureza de coração, coragem e determinação que em outro tempo qualquer. 

caminho para o samádhi inclui mais lágrimas do que você possa imaginar ao pensar em iluminação. 

Descobrir, identificar e desintegrar o lixo enterrado no subconsciente dói bastante. Mas não esqueça da constatação de Wayne Dyer: 'não existe caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho'. Esse paradoxo entre lágrimas, lixo e felicidade se resolve ao andar, na prática. Precisamos quebrar o casulo do ego para chegar à essência.

A Katha Upanishad diz que o Yoga é ao mesmo tempo dissolução e emergência, morte e renascimento (Yogah prabhavápyayau). É preciso matar o ego para poder viver. Aliás, sabe o que significa literalmente a palavra samádhi? Samádhi, que se traduz como iluminação, é morte. Entrar em samádhi significa morrer. Morrer em vida. Porque o que há além dessa morte é a experiência da luz. Só que, para ter essa experiência numinosa, como diz Jung, não é necessário morrer. A morte, na real, é a morte do ego, não a do corpo. Anaïs Nin dizia 'não vemos as coisas como elas são, senão como somos nós mesmos'. No momento em que deixamos de ser 'nós mesmos' (o ego), a natureza da realidade se desvela como ela é.

Os ensinamentos do Yoga são somente acessíveis através da praxis: o praticante deve pôr sob o jugo seu corpo, sua mente e sua psique, para 
alcançar a liberdade interior. Múltiplo em suas diferentes correntes e manifestações, ele é sempre fiel a um modo de ver o homem e de servi-lo: após a severidade e paciência exigidas pela prática, sente-se a calidez 
da sua solicitude carinhosa por todos e respeito por todo o criado. 
Seu caminho é radical mas acessível e nos leva à conquista da liberdade 
mais absoluta. 
Quando você dá um passo em direção ao Yoga, ele dá cem em direção a você.
Pedro Kupfer - Extraído do livro Yoga Prático.

25 de fevereiro de 2013

O Aperfeiçoamento no Zen...

"Um jovem aspirante perguntou ao mestre Zen:– Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal? 

– Pessoas como eu – respondeu o mestre.

O aspirante se surpreendeu:
– Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?

– O aperfeiçoamento – explicou o sábio, – é simples como alimentar-se, banhar-se ou vestir-se...

– Mas – replicou o praticante – fazemos isto todos os dias! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo muito mais profundo para um mestre!

– O que achas que faço todos os dias? 
A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, coloco atenção, cuidado e honestidade nas ações comuns do meu cotidiano. 
Nada é mais profundo do que isto.."
John Weeler em The Light Behind Consciousness

**
Aquilo que chamamos de "cotidiano" pode parecer algo corriqueiro e sem nenhuma novidade, sem valor, em realidade é o momento presente, é único e completamente auto-realizado em si mesmo, é tudo o que temos. 
Todos os elementos do instante são expressões máximas da existência, auto revelada, auto manifesta, no aqui e agora.

O Zen, nos aponta esta verdade, não de forma teórica, mas existencial, vivencial. Precisamos experimentar esta maneira absolutamente consciente de viver. Tomar as tarefas do cotidiano, do nosso dia a dia, com uma atenção plena, em profundo contato com aquilo que fazemos, pensamos e somos.
Neste ato completo, mente, corpo e espírito estão em perfeita unicidade, em perfeita harmonia. É isso que nos propõe este belo ensinamento de John Weeler. 

O aprimoramento não é algo extraordinário, mas em sermos o instante, e se somos o instante, nada mais é necessário. As divisões da mente já não mais estão presentes. 
O que permanece é o Ser - Consciência... Totalidade...
E já não existe mais nenhuma "pessoalidade" nisso...
Amor
Lilian


24 de fevereiro de 2013

A Beleza da Mente - Osho

"A mente é um grande milagre. 
A existência não foi ainda capaz de criar algo superior à mente. Sua função é tão complexa que desconcerta os maiores cientistas. Ela controla todo seu corpo e este é um mecanismo muito complexo. 

Quem faz com que somente uma certa quantidade de oxigênio deva alcançar seu cérebro? Quem delibera qual parte do seu alimento deve se transformar em ossos, em sangue ou em pele? (...) Certamente não é você que está fazendo isso, eu não vejo nenhum outro dirigente por perto.

Assim, a primeira coisa é que você deve ser agradecido à mente. Este é o primeiro passo para ir além da mente; não como inimigo, mas como um amigo. Eu tenho um tremendo respeito pela mente. Nós devemos tanto à mente que não há forma de retribuir nossa gratidão.

Então, a primeira coisa é: A meditação não é contra a mente, é ir além da mente. E além não é equivalente a contra: este mal entendido propaga-se quanto mais as pessoas falam sobre meditação; (...)
A função de um mestre é ensiná-lo a amar a mente e mesmo assim ir além dela. Com esta amizade, aprofundando-se quando quer que você medite, a mente não o perturbará, porque sua meditação não é contra ela. Na verdade, é sua própria realização, seu próprio florescimento. Ir além não é uma atitude antagonista, mas uma evolução amistosa.

Assim, esta deveria ser a base de todos os meditadores: não ser um lutador.

Se você lutar, poderá ser capaz de fazer a mente aquietar-se durante algum tempo, mas esta não será sua vitória. A mente voltará - você precisará dela. Você não pode viver sem ela, não pode, não pode existir no mundo sem ela. E se você puder criar um relacionamento amistoso com a mente, uma ponte amorosa, em vez de obstáculos para a meditação, ela começará a se tornar uma ajuda. Ela protegerá o seu silencio, porque esse silencio também será um tesouro para ela, e não apenas para você. Ela se tornará um solo onde as rosas da meditação florescerão, e o solo será tão feliz como as rosas. Quando as rosas estão dançando ao sol, à chuva, ao vento, o solo irá também celebrar.

Para mim, a meditação é a própria alma da religião. Mas é obtida apenas se você se move corretamente; apenas um único passo numa direção errada... Você está sempre se movendo num fio de navalha...

Comece com amor pelo próprio corpo, que é a sua parte mais externa; Comece amando a sua mente - e se você amá-la você começará a embelezá-la, da mesma forma que você costuma embelezar seu corpo. Você o mantém limpo, fresco; você não quer que ele tenha mau cheiro. Você quer que o seu corpo seja amado e respeitado pelos outros. Sua presença não deve ser simplesmente tolerada, mas bem-vinda.

Você deve decorar sua mente com poesia, com música, com arte, com boa literatura. Seu problema é que a sua mente está apenas cheia do trivial, do ordinário. Coisas de tão má qualidade atravessam a sua mente que você não pode amá-la; você não pensa em nada grandioso. Sintonize-se mais com os grandes poetas. (...) Preencha-se com as maiores alturas já alcançadas pela mente humana. Assim, você não será inimigo da sua mente. Você irá rejubilar-se com ela. 

Mesmo se a mente estiver presente em seu silencio, ela terá uma poesia e uma música próprias. E transcender uma mente tão refinada é fácil. É um passo amigável em direção a picos mais altos; poesia tornando-se misticismo, grande literatura transformando-se em grandes descobertas sobre a existência, música tornando-se silencio.

E assim que as coisas começarem a se tornar picos mais altos, para além da mente, você irá descobrir novos mundo, novos universos para os quais não temos nem mesmo um nome. Podemos chamá-los de bem-aventurança, êxtase, iluminação, mas nenhuma palavra pode descrevê-los realmente. Está simplesmente fora do poder da linguagem reduzi-los a explicações, teorias, filosofias. Está simplesmente além... mas a mente celebra em sua transcendência...(...

Faça a sua mente a mais bela possível. Enfeite-a com flores. Primeiro deixe sua mente ser decorada. Somente através desse perfumado jardim da sua mente, você será capaz de ir além, silenciosamente, sem luta alguma. A mente será uma ajuda, e não um obstáculo."
Osho em Após a meia idade, Um Céu Sem Limites

23 de fevereiro de 2013

A Folha - Thich Nhat Hahn

"Num dia de outono, eu estava num parque, absorto a contemplar uma linda folha, muito pequena e em formato de coração. 

Sua cor era quase vermelha e ela mal se mantinha suspensa no galho, quase pronta para cair. Passei muito tempo com ela e fiz algumas perguntas. 

Descobri que a folha fora mãe da árvore. 

Geralmente, pensamos que a árvore é a mãe e as folhas, os filhos, mas enquanto olhava a folha percebi que a folha também é mãe da árvore. 

A seiva que as raízes transportam é só água e minerais, o que não basta para alimentar a árvore. 

A árvore distribui, portanto, a seiva para as folhas, as folhas transformam a seiva bruta em seiva elaborada e, com o auxílio do sol e do gás, devolvem o alimento para a árvore. As folhas são, portanto, mães da árvore. Como a folha é ligada à árvore por uma haste, a comunicação entre elas é fácil de se ver.

Nós não temos mais uma haste nos ligando a nossa mãe, mas quando estávamos dentro do útero tínhamos uma haste muito comprida, o
cordão umbilical. O oxigênio e o alimento de que necessitávamos chegavam a nós através desta haste. 

No dia em que nascemos, porém, ela foi cortada, e nós ficamos com a ilusão de sermos independentes. Isso não é verdade. Continuamos a depender da nossa mãe por muito tempo e, temos também muitas outras mães. 

A Terra é nossa mãe. Temos uma enorme quantidade de hastes nos ligando à nossa mãe Terra. Temos hastes que nos ligam às nuvens. Se não houver nuvens, não haverá água para beber. Somos compostos de pelo menos setenta por cento de água, e a haste entre a nuvem e nós existe realmente. 

Esse também é o caso do rio, da floresta, do lenhador e do agricultor. 

Há centenas de milhares de hastes que nos ligam a tudo o que existe no cosmos, que nos sustentam e possibilitam nossa existência. 

Você vê a ligação entre mim e você? Se você não estiver aí, eu não estou aqui. Isso é certo. Se ainda não percebe, por favor, olhe com mais profundidade e tenho certeza que verá.

Perguntei à folha se ela estava com medo por ser outono e porque as outras folhas estavam caindo. A folha me respondeu, “Não. Durante
toda a primavera e o verão eu estava inteiramente viva. Trabalhei muito para ajudar a alimentar a árvore, e agora grande parte de mim está nela. Não sou limitada por esta forma. Também sou a árvore inteira e, quando retornar ao solo, continuarei a alimentar a árvore. Por isso, não tenho nenhuma preocupação. Quando deixar este galho e for caindo até o chão, acenarei para a árvore e lhe direi, ´Vamos nos ver em breve´.”

Naquele dia o vento soprava e, depois de algum tempo, vi a folha cair do galho e dançar até o chão, cheia de alegria, porque
flutuando no ar ela já se via novamente na árvore. 

Ela estava muito feliz. 

Inclinei minha cabeça em reverência, sabendo que tenho muito a aprender com aquela folha.
Thich Nhat Hanh em Paz a cada passo

21 de fevereiro de 2013

Vibrações do Eterno....

Meditar...

Mergulhar no Absoluto
Desfazer os limites
que sempre foram ilusórios
Até que os olhos se dissipem das sombras
e retornem à Pura Luz
Incandescente...

Desfazer dos enganos
e sonhos,
Desfazer das angústias
e falas,
Desfazer os laços
e dos nós,
Desfazer do fazer e do
não-fazer..
Do ser e não-ser...

Desfazer de "ti"
e de "mim"...

Dança Cósmica...

Percorrer milhas e milhas
sem sair do lugar
Voar por sobre a Terra
e por sobre o Espaço
Sentir a Vibração do Eterno
dentro,
aqui...

Ninguém para assistir
Ninguém para sentir
Ninguém
Ninguém
Somente a Vastidão sem nome
Somente o Infinito sem lugar
Dando voltas em Si mesmo
e nada...

Pura Presença Consciente...
Onipresente...

Recolhe das Impressões
e Descansa...
Serenidade
Alegria
Amor
Silencio cantante,
em Profunda
PAZ....


20 de fevereiro de 2013

Ação, Atividade e Trabalho - Nisargadatta

"A atividade não é ação. 
Ação é oculta, desconhecida, inconhecível.
Você pode somente conhecer o fruto. 

Ação não leva à perfeição; perfeição é expressa na ação. 

Há uma diferença entre trabalho e mera atividade. 

Toda a natureza trabalha. 
Trabalho é natureza. 
Natureza é trabalho. 

Por outro lado, a atividade é baseada no desejo e no medo, no desejo de possuir e desfrutar e no medo da dor e aniquilação. 

Trabalho é pelo todo para o todo, atividade é para si mesmo e por si mesmo.

Sua mente está estagnada nos hábitos de avaliação e aquisição, e não admitirá que o incomparável e o que não se obtém estão esperando eternamente dentro de seu próprio coração por 
reconhecimento.
Tudo que você tem a fazer é abandonar todas as memórias e expectativas. 

Apenas mantenha-se pronto em total nudez e vazio. 
Não faça nada, apenas seja. 
Apenas sendo tudo acontece naturalmente. 

Seja nada, saiba nada, tenha nada. 
Esta é a única vida que vale a pena ser vivida, a única felicidade que vale a pena ter.
Você não pode fazer nada. O que o tempo traz, o tempo levará embora. 

Este é o fim da Yoga, realizar independência. 

Tudo o que acontece, acontece na e para a mente, não para a fonte do “Eu sou”. 

Uma vez que você realize que tudo acontece por si mesmo (chame a isso destino ou vontade de Deus, ou mero acidente), você permanece como testemunha somente, compreendendo e apreciando, mas nunca perturbado. 
Você é responsável somente pelo que você pode mudar. 

Tudo que você pode mudar é sua atitude. 
Aí mora a sua responsabilidade."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

19 de fevereiro de 2013

Dharma..


"Dharma não é religião.
Dharma simplesmente significa sua natureza intrínseca.
Ela não está escrita nas escrituras e ninguém pode lhe dizer que é o seu Dharma.

Você próprio tem que encontrá-lo.
Esta é uma grande dignidade, conferida ao indivíduo pela existência, a de que você não precisa viver de conhecimentos emprestados.

A fonte viva da vida está simplesmente fluindo nas proximidades. Por que não a beber e se saciar? (...)

Quanto mais fundo você for nas suas meditações, mais perto estará do eterno fluxo de sua fonte de vida. Ele é puro néctar, pois declara a sua imortalidade, a sua eternidade. Ele declara que a morte é uma ficção; ela nunca aconteceu e jamais acontecerá a alguém. 
Simplesmente muda-se de casa, entra-se numa outra forma, ou talvez na existência sem forma.(...)

O Dharma vive em você como uma semente.
Não existe ninguém para guiar a semente.
Não há escrituras para a semente ler.
Ela está tomando o risco de pôr-se para fora e você deve compreender que o risco não é pequeno.
O risco é exatamente uma morte.
A semente precisa morrer no solo, somente então brotos da potencialidade da semente começarão a crescer.
Talvez ela se torne uma rosa, ou um lótus, ou algum outro tipo de flor. Não importa.O que importa é florescer e não o nome da flor. Uma flor selvagem é tão bela quanto uma preciosa rosa.

De uma certa maneira elas são irmãs, pois ambas chegaram ao seu florescimento. Ambas desfrutaram a alegria de crescer, ambas viram com seus próprios olhos o que estava oculto em suas sementes. Ambas assumiram o mesmo risco, o mesmo desafio. Na verdade, ela é uma morte e uma ressurreição.

A semente morre e ressuscita em muitas flores, em muitos frutos, em muitas sementes.( ...)
Apenas uma semente pode preencher a terra inteira com um verde absoluto. Tal é imensa possibilidade de uma pequena semente.
E você é uma semente, consciente.
A coisa mais preciosa na existência está dentro de você: a consciência.
A semente está tateando no escuro e ainda assim encontra o caminho. E você é consciente, você tem uma pequena luz."
Osho em Ma Tzu o espelho vazio.

***
Neste belíssimo texto do amado mestre Osho, fica claro que, se tomamos consciência da nossa potencialidade, e assumimos TODOS os riscos por essa caminhada, por esse germinar da semente, com todas as 'mortes', ressurreições, novas mortes e novas ressurreições, iremos aos poucos penetrando na luminosidade infinita da consciência búdica, a luminosidade profunda vai aos poucos se manifestando e com ela todas as transformações externas também vão acontecendo...

A semente que germina, morrendo, começa a florescer e dar frutos..
O Dharma começa a se revelar a cada um de nós, não por esforço ou estudo, ou trabalho, mas através da meditação, do silêncio, da simplicidade e da paz.
É no profundo que as maiores transformações acontecem...
É ali que o Dharma pessoal, nossa melodia individual, vai sendo tocada, cantada e dançada pela existência...
Amor
Lilian


Os Mantras na Meditação Cristã

"A tradição da oração solitária – oração que emprega uma palavra sagrada, repetida de forma contínua, no coração e no pensamento, numa postura de fé – é uma tradição venerável no cristianismo. 

Talvez tenha começado como uma forma de reverência pelo nome de Jesus. 

Esta utilização do Santo Nome foi adotada mais tarde nas várias formas de Hesychia* e na oração a Jesus da Igreja Ortodoxa.

A primeira descrição detalhada desta forma de oração foi encontrada na tradição dos Padres do deserto (...). 
Mil anos depois, em Inglaterra, o autor anônimo da obra “A nuvem do não saber”, recomenda o mesmo tipo de oração, mas sugere que se use um monossílabo como por exemplo “Deus”.
 
No século XX John Main, ao divulgar esta mesma tradição, recomendou a utilização de uma expressão do Aramaico, maranatha. 
Esta palavra, que significa “Vem Senhor”, foi retirada do Novo Testamento. Vem redigida em Aramaico, a língua que Jesus falava, e é uma expressão sagrada na liturgia dos cristãos primitivos. 
Há muitos outros exemplos de palavras de oração sugeridas ao longo da história da oração cristã, que refletem a época e a personalidade do líder espiritual que as recomendava, na esperança de conduzir os seus seguidores na senda do silêncio contemplativo e do silencio do coração. 

Esta tradição caracteriza-se pela repetição contínua da palavra sagrada com uma fé profunda, mantendo uma grande fidelidade a essa palavra à medida 
que ela vai ficando enraizada no coração e nos abre para a graça da contemplação – a nossa entrada no âmbito da oração de Jesus banhada Espírito Santo.
Aqueles que recorriam ao nome de Jesus referem-se à palavra como “O nome” ou “O santo nome”. Cassiano porém não aconselha o nome de Jesus e refere-se à palavra que ele próprio recomenda como “a fórmula” no sentido de “regra ou princípio”, pois “a formula” não tinha um 
significado sagrado em particular, mas dizia respeito a um modelo ou padrão que implicava o uso da mesma palavra recitada com fé, em qualquer condição de espírito, a qual nos 
conduziria a uma oração marcada pela pobreza de espírito. 

John Main refere-se à palavra de oração como “a palavra” ou “o mantra”. 

Porque é que ele recorre à expressão mantra, uma palavra associada com as 
formas orientais de meditação?
Para percebermos isso é necessário recordar a envolvente religiosa na qual John Main pessoalmente evoluiu e onde deu os primeiros passos no ensino da Meditação de acordo com a tradição Cristã. Antes de ser monge, John Main 
entrou em contacto com a meditação oriental, muito embora ele sempre tivesse praticado meditação como uma forma de oração cristã. Foi neste contexto que ele descobriu o termo MANTRA, entendido como “uma palavra ou fórmula cantada ou murmurada como um encantamento ou oração”. 

Vinte anos mais tarde, ele retoma a sua própria prática e descobre a respectiva dimensão universal, particularmente relevante para a espiritualidade cristã contemporânea. 
Por volta de 1975 tornam-se populares no ocidente várias formas de meditação oriental, com particular relevo para a Meditação Transcendental. É assim que a expressão mantra entra no vocabulário comum. 

Hoje a palavra Mantra é definida como “texto ou passagem sagrada” . (...)

Muitas pessoas ao verem a palavra mantra relacionada com a oração cristã, sentem-se confusas e duvidosas por causa da sua ligação com a cultura oriental. Porém, desde que John Main a adotou como uma expressão 
cristã, tem vindo a ser cada vez mais utilizada pelos cristãos, podendo mesmo afirmar-se hoje, que a palavra já integra o vocabulário da 
espiritualidade cristã. 

Do mesmo modo, a expressão “meditação”, que remete para as raízes da tradição cristã, deve ser entendida e recuperada a partir do seu significado original, imbuído da dimensão contemplativa. Para muitos cristãos a meditação limita-se a ser uma forma de oração mental, que recorre ao pensamento e à imaginação a partir da leitura da Sagrada Escritura. Esta é uma forma válida de oração. 

A “meditação” que, na sua forma original, conduzia a uma forma de oração contemplativa, silenciosa, não discursiva, e sem imagens, tornou-se hoje popular no ocidente através da divulgação de métodos de espiritualidade oriental. O desafio lançado por John Main foi o de recuperar e reintegrar o pleno significado da palavra “meditação” no universo cristão. 

Há assim duas novas razões que justificam o uso da expressão mantra. Em primeiro lugar o fato de ela ter hoje uma utilização universal e ser facilmente entendida num contexto cristão. Em segundo lugar, aqueles que contactam pela primeira vez com a dimensão contemplativa da oração, podem necessitar de uma cuidadosa reflexão e discussão. Ao serem encorajados a refletir sobre o significado das expressões mantra e “meditação”, os cristãos modernos 
sentem-se estimulados a entender e a recuperar a dimensão contemplativa da sua fé e da sua vida de oração. (...)

A expressão mantra poderá ter de ser explicada como a utilização da expressão “palavra de oração” em vez de mantra. Depois, ao recomendar uma palavra específica – por exemplo, Jesus, ou Abba ou maranatha; “mantras ou palavras sagradas utilizados pelos cristãos primitivos”. 

Sensível a este contexto, a experiência da Meditação Cristã, aponta para que a utilização do termo mantra não é de modo algum impeditiva de se progredir na transmissão destes ensinamentos. O maior desafio está em fazer entender, àqueles que têm hábitos de oração sacramental, como podem aceder ao entendimento profundo da oração do coração ou oração contemplativa, a partir da sua própria prática. 
Apesar de para algumas pessoas o termo mantra fazer alguma confusão, ao serem ajudadas a entender o seu significado, poderão mais facilmente assimilar o sentido da meditação enquanto forma de aceder ao silêncio de Cristo, que está para além das palavras, pensamentos e imagens. 

Isto mesmo está expresso na oração de abertura que John Main compôs para a meditação Cristã:Pai do Céu, abre o meu coração à presença silenciosa do Espírito do Teu Filho. Conduz-me ao silêncio misterioso onde o Teu amor é revelado a todos que clamam maranatha, “Vem Senhor Jesus”.

*Hesychia - é um processo de recolhimento interior que implica em se aceder a uma experiência de ”visão de Deus”. Pressupõe uma atitude de espectador, de quietude e passividade, fazendo apelo às faculdades contemplativas. A beleza ou Deus serão o foco dessa atitude - o ato de observar com os “olhos do coração”.
Padre Laurence Freeman em Mantras na Meditação Cristã
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