30 de janeiro de 2016

Compaixão é liberdade - Osho



"Pergunta - Osho, toda vez que você fala sobre transformar paixão em compaixão, algo em meu coração dispara; mas, ainda assim, eu não entendo o que isso significa. Você poderia explicar isso para mim de novo?

Osho - A energia chamada paixão é sempre dirigida a alguém. Ela é possessiva, e porque é possessiva é feia. Transformar a paixão em compaixão significa que sua energia para o amor não é dirigida a ninguém em particular, é simplesmente o seu perfume, é simplesmente a sua presença, é simplesmente o jeito que você é. Não é dirigida, não é unidimensional. É radiação. Assim quem quer que chegue perto vai se sentir seu amor - e isso é não-possessivo.

O amor possessivo é uma contradição em termos, porque possessividade significa que você está reduzindo a outra pessoa a uma coisa. Apenas coisas podem ser possuídas, não pessoas. Apenas coisas podem ser propriedades, não pessoas.

A qualidade essencial das pessoas que as diferencia das coisas é a sua liberdade, e a posse, a dominação, destrói a liberdade.

Assim, por um lado você acha que você está amando uma pessoa, por outro lado você está destruindo a própria essência dela.

Compaixão é soltar o amor das garras de possessividade. Então, o amor é apenas um brilho suave, sem direção, sem endereço. Você simplesmente transborda-o porque você está cheio dele, não é uma questão de apenas pensar.

A paixão tem que passar por todo o processo de meditação para se tornar compaixão. A meditação vai tirar toda a possessividade, a dominação, o ciúme, e deixar apenas a pura essência, o puro perfume do amor.

Apenas um homem profundamente enraizado na meditação pode ter compaixão.

Portanto, quando eu digo para você transformar a sua paixão em compaixão, eu estou dizendo para você deixar a sua energia ser purificada, por meio da meditação, de tudo o que há de lixo nela.

Deixe-a tornar-se simplesmente uma fragrância disponível para todos.

Então ela não destrói a liberdade de ninguém, mas intensifica-a, e no momento em que seu amor aumenta a liberdade de alguém o amor se torna espiritual."

Osho em The Transmission of the Lamp

23 de janeiro de 2016

Perceba apenas - J.Krishnamurti


"Por favor, ouçam. Apenas ouçam. Façam isso, enquanto eu falo. Não pensem apenas em fazê-lo. Ou seja, tomem ciência das árvores, da palmeira, do céu; ouçam os corvos; vejam a luz nas folhas, a cor do sari, o rosto das pessoas, e em seguida concentrem-se em seu interior. 

As coisas exteriores vocês podem observar, podem dar-se conta delas sem fazer escolhas. É muito fácil. 
Mas concentrar-se em seu interior e tomar ciência sem condenação, sem justificativas, sem condenações, é mais difícil. Limitem-se a inteirar-se do que se passa dentro de vocês — de suas crenças, de seus medos, de seus dogmas, de suas esperanças, de suas frustrações, de suas ambições e de todo o resto. 

Tem início então o desdobrar da consciência e do inconsciente. Você não precisa fazer absolutamente nada.

Perceba apenas; isto é tudo o que precisa fazer: sem condenar, sem forçar, sem tentar mudar aquilo que percebe. Você verá então que isso é como uma maré subindo. 
Você é incapaz de impedir: pode construir um muro ou fazer o que quiser, e a maré, ainda assim, subirá com tremenda energia. Da mesma forma, se você percebe sem fazer escolhas, todo o campo da consciência começa a se desenrolar. E, à medida que ele se desenrola, você precisa acompanhar, e este acompanhar torna-se extremamente difícil — acompanhar no sentido de acompanhar o movimento de cada pensamento, de cada sentimento, de cada desejo secreto. 
Torna-se difícil a partir do momento em que você diz: "Isto é feio", "Isto é bom", "Isto eu manterei", "Isto eu não guardarei".

Assim, você começa com o exterior e move-se para o interior. E a seguir descobrirá, quando se mover para o interior, que o interior e o exterior não são diferentes, que a percepção do exterior não é diferente da percepção interior, e que ambas são uma só. 

Então verá que está vivendo no passado; não há nunca um momento de viver real, no qual o passado nem o futuro existem — este seria o momento real. Descobrirá que está sempre vivendo no passado — o que você sentiu; o que você foi; se foi esperto, bom ou mau — e que está vivendo nas recordações. Isso é memória. Portanto, você precisa compreender a memória, não negá-la, suprimi-la, não fugir dela. 
Se um homem fez o voto de celibato e se apega a essa recordação, quando não obedece a essa recordação ele se sente culpado; e isso asfixia sua vida.

Então você passa a estar atento a tudo e, assim, torna-se muito sensível. Portanto, ao escutar — ao reparar não apenas no mundo exterior, no gesto exterior, mas ao escutar também a mente interior que olha e, portanto, sente — quando você toma ciência assim, sem escolhas, não existe esforço. 
É muito importante compreender isso."
J. Krishnamurti - Bombaim/1965

17 de janeiro de 2016

Tudo o que existe é Consciência - 2/2 Ramesh Balsekar



[continuação...]

"Pergunta: Você pergunta frequentemente: “quem está aprisionado?” “Quem está buscando?” Eu gostaria de fazer a mesma pergunta para você.

Ramesh: É a consciência individual ou pessoal que está buscando sua fonte. A consciência, tendo identificado a si mesma num “eu” pessoal, está agora tentando recuperar sua impessoalidade. Isso é tudo que está acontecendo. E o processo torna-se mais rápido quando a mente não interfere, quando o “eu” não está presente, apenas o eu, o Eu Subjetivo está presente. O sábio Ashtavakra nos diz o que é o aprisionamento.

Ele diz: “Significa aprisionamento quando a mente deseja algo ou se aflige por algo. Significa liberação quando a mente não deseja ou se aflige, não aceita ou rejeita, não sente-se feliz ou infeliz.”

Agora, a mente humana treinada e condicionada como é, prontamente diz: “Eu não posso desejar nada, não devo rejeitar nada.” Mas a mente é incapaz de perceber que esse não-desejar algo inclui desejar o conhecimento de sua verdadeira natureza. 
Desejo não significa apenas desejar algum objeto mas mesmo o desejo pela iluminação. A necessidade de saber, de ter o conhecimento de sua verdadeira natureza, mesmo isso é um desejo e esse desejo acontece através do “eu”.

Significa aprisionamento quando a mente deseja algo ou se aflige por algo. A mente deseja a iluminação e se aflige pelo fato que ela ainda não se iluminou. “Eu” estou nisso a dez, doze, vinte e cinco anos e ainda assim nada está acontecendo!” A mente se aflige por esse “não acontecer”. 

A mente deseja ou quer algum acontecimento e se aflige pelo não acontecimento desse evento. Significa liberação quando a mente não deseja, quer ou se aflige, quando a mente está vazia, quando a mente está aberta. A mente vazia não é a mente vazia de um idiota, é uma mente aberta, o mais alerta que a mente possa estar, porque ela não está condicionada. Não está querendo nada, não está preenchida de coisa nenhuma. Não há ninguém em casa. A mente está vazia. Ela não rejeita ou aceita, não sente feliz ou infeliz.

Em seguida, Ashtavakra diz: “ Significa aprisionamento quando a mente está apegada a qualquer experiência sensorial. É liberação quando a mente está desapegada de todas as experiências sensoriais.” Novamente ele coloca isso de uma maneira tão breve. Ele não forçou-se a explicar. 

O sábio quer que o suposto buscador descubra isso por si mesmo. Ele não está dizendo que a experiência sensorial não surgirá. Ele não está dizendo que a iluminação impede o surgimento de qualquer experiência sensorial. 

O surgimento de uma experiência, de um evento, está totalmente fora do controle de qualquer organismo corpo-mente, tenha a iluminação acontecido ou não. Portanto, não é que o sábio recusa toda experiência sensorial, ela está lá. A experiência sensorial é experimentada mas a mente não está apegada àquela experiência sensorial. Ela acontece e termina. E qualquer experiência é sempre no momento presente. Qualquer experiência boa ou ruim, prazerosa ou não-prazerosa, é sempre no momento presente. Toda experiência é uma experiência impessoal. 

A experiência impessoal perde sua impessoalidade quando a mente-intelecto aceita essa experiência como sendo dela própria, aceita-a ou rejeita-a como boa ou ruim. Se é prazerosa ela quer que essa experiência venha mais frequentemente. Se for ruim ela rejeita-a, ela não quer. Portanto, o apego a uma experiência acontece sempre no tempo, na duração. A experiência impessoal, que é a experiência do sábio, é sempre no momento presente e quando essa experiência se vai a mente não pensa mais sobre ela. A mente está totalmente desapegada. A experiência é vista como uma experiência impessoal e naquele momento ela é terminada. A liberação é quando a mente está desapegada de todas as experiências sensoriais.

Por último Ashtavakra diz: “Quando o 'eu' está presente é aprisionamento. Quando o 'eu' não está lá é liberação. Sabendo disso o sábio mantém-se aberto para o que quer que a vida possa trazer, sem aceitar e sem rejeitar isso.” (...)
Pergunta: Esse sentimento íntimo e próximo que tenho de “eu”, ele de fato dissolve?
Ramesh: Ele dissolve, mas quem vai testemunhar essa dissolução? Você vê o que quero dizer? Ele de fato dissolve, portanto o que dissolve é o próprio “eu”. Quem é que sabe que o “eu” dissolveu? É apenas o “eu” que poderia experimentar isso.

Pergunta: Então o “eu” vai ir e vir e depois terminará?

Ramesh: Sim. E enquanto o “eu” vai e vem, o estado de testemunhar acontece. O “eu” é a mente, portanto, a mente não pode observar a si mesma. Se a mente observar sua própria operação, então sempre haverá comparação e julgamento: “Isso é bom, isso é ruim, isso é tal e tal.” Isso não é testemunhar. Testemunhar é meramente observar um evento ou um pensamento ou uma emoção conforme surjam, sem fazer nenhuma comparação, sem nenhum julgamento, meramente testemunhar. 

O testemunhar é impessoal e é vertical, portanto ele corta o envolvimento horizontal. Conforme o “eu” diminuir, o testemunhar irá acontecer mais frequentemente e por períodos mais longos. De repente chegará o momento em que as reações não mais acontecerão para um evento ou um pensamento, onde haverá um sentimento de paz, de bem-estar, mas não haverá “alguém” para sentir esse bem-estar. Não é que o “eu” repentinamente dirá: “Ah, eu desapareci!” Quem estará lá para dizer que desapareceu?
Pergunta: Mas ele dissolve?
Ramesh: Sim, mas não se você quiser que ele dissolva."

Ramesh Balsekar em Consciousness Speaks

16 de janeiro de 2016

Tudo o que existe é Consciência 1/2 - Ramesh Balsekar


"Pergunta: Existe Consciência no espaço físico entre você e eu?

Ramesh: Tudo o que existe é a Consciência. Você e eu somos meros objetos projetados neste espaço. 


Tudo o que há é a Consciência.
O espaço e o tempo são meros conceitos, um mecanismo para os objetos serem estendidos. Para os objetos tri-dimensionais serem estendidos o espaço é necessário. E o tempo é necessário para os objetos serem observados. 
A menos que aquele objeto seja observado, ele não existe.

Então o espaço e o tempo são meramente conceitos, um mecanismo, criado para esta manifestação acontecer e ser observada.

É incrível o quanto nos últimos poucos anos, comparativamente, a ciência deslanchou. A ciência diz a mesma coisa. Ela diz que o tempo e o espaço não são reais. Acho que foi o Sr. Fred Hoyle que disse: “Se você pensa que há um passado indo para o futuro ou futuro indo para o passo, você não poderia estar mais errado. Não pode existir tal fluxo. Está tudo aí, agora.”

A metáfora mais próxima que posso sugerir é esta: Se há uma pintura de uma milha de comprimento e dez andares de altura, está tudo lá, mas para você poder vê-la do início até o fim levaria algum tempo. Porque não conseguimos ver a figura toda num relance, a mente humana não é capaz disso, pensamos em termos de tempo. Mas a coisa toda está aí.

Pergunta: E como você disse, não vemos a figura toda, estamos vendo apenas uma pequena parte dela.

Ramesh: Parte por parte. Então até você chegar ao fim o tempo transcorreu. O conceito de tempo transcorreu.

Pergunta: Então, na realidade estamos limitados pelo tempo e o espaço?
Ramesh: Correto. Limitados pelo tempo, pelo espaço e pelo intelecto.(...)

Pergunta: Há um ditado Zen: “Quando você carrega água, carregue água.”
Ramesh: Sim! Assim como um mestre Zen que disse: “Se você quer a iluminação vá lavar os pratos.” O que quer dizer que quando você lavar os pratos, não lave-os com suas mãos enquanto sua mente está vagando por toda parte.

Participante: Com ressentimento.

Ramesh: Isso não é lavar pratos. O sábio, o homem de sabedoria, tem uma atitude básica de trabalho e de vida de uma confiança respeitosa com relação à natureza e à natureza humana, a despeito das guerras, das revoluções, da fome, do aumento da criminalidade e todos os tipos de horrores. Ele não está preocupado com a noção de um pecado original e nem tem o sentimento de que a existência, samsara mesmo, é um desastre. Seu entendimento básico tem a premissa de que se você não pode confiar na natureza e nas outras pessoas, você não pode confiar em você mesmo.

Sem essa confiança como pano de fundo, uma fé no funcionamento da Totalidade, em todo o sistema da natureza, ficamos simplesmente paralisados. Afinal, não é realmente uma questão de você estando de um lado e a confiança na natureza de outro. Na verdade é uma questão de perceber que nós e a natureza somos um e o mesmo processo, não entidades separadas. Você não pode omitir um inteiro sem perturbar o sistema todo.

Em outras palavras, o universo é um processo orgânico e relacional, não um mecanismo. Ele não é de maneira nenhuma análogo a uma hierarquia política ou militar onde há um comandante supremo. Ele é múltiplo, uma rede multi-dimensional de jóias, cada uma contendo o reflexo de todas as outras. É assim que o universo tem sido descrito. Cada jóia é uma coisa-evento e entre uma coisa-evento e outra não há obstrução. A mútua interpenetração e interdependência de tudo no universo. É por isso que o Chinês diz: “Arranque uma folha de grama e você chacoalhará o universo.”

O princípio básico dessa visão orgânica do universo é que o cosmos está implícito em cada membro dele e cada ponto dele pode ser considerado como um centro. A compreensão perfeita é um holofote de luz no universo todo em seu funcionamento, exibindo-o como uma harmonia de padrões intrincados. Enquanto que a visão-lanterna da mente dividida da entidade individual ilusória vê apenas cada padrão por si mesmo, parte por parte, e conclui que o universo é uma massa de conflito. É uma visão-lanterna limitada que daria um senso de horror ao normal fenômeno universal de uma espécie no mundo biológico sendo a comida de outra. A perspectiva mais ampla, a do holofote, é a compreensão perfeita e ela veria as coisas como elas são.

O nascimento e a morte não são nada além de integração e desintegração, o aparecimento e o subsequente desaparecimento dos objetos fenomenais na manifestação. A compreensão verdadeira, a apercepção, inclui a compreensão de que não existe separação entre a compreensão e a ação. (...)

Pergunta: A utilização do termo “evolução espiritual” pressupõe um envolvimento com o tempo.
Ramesh: De fato, é claro. Todo o processo é na fenomenalidade tempo-espaço.

Pergunta: O que é isso que está envolvido com o tempo, é o mecanismo corpo-mente?

Ramesh: Não. O que está envolvido no tempo-espaço é a Consciência identificada, a Consciência que deliberadamente identificou-se com um organismo individual.

Pergunta: Por que isso ocorreu?

Ramesh: Para que esse lila, esse jogo, esse sonho cósmico pudesse acontecer. Esse processo de identificação é contínuo. Novas criaturas, novos seres humanos estão constantemente sendo criados e neles a identificação acontece. Essa identificação prossegue num processo de evolução. Em algum ponto a mente volta-se para dentro e o processo de desidentificação se inicia. Esse processo leva muito tempo e muitos nascimentos. Todo o jogo é identificação, depois a mente volta-se para o interior e então dá-se o processo de desidentificação. Saiba você, tudo isso é um conceito, mas pode ajudar a trazer a compreensão final.

Pergunta: Esse voltar-se para dentro é um meio de ignorar o ego?

Ramesh: Não. O voltar-se para o interior pode apenas acontecer, você vê. O voltar-se para dentro é esse processo de evolução espiritual. A evolução ocorre em todas as coisas. Há a evolução física, há a evolução na música, na arte, na ciência e há evolução espiritual.


Nessa evolução espiritual, há primeiro a identificação que ocorre através de muitos milhares de organismos corpo-mente. Quero dizer, poderiam ser centenas de milhares ou milhões, esse não é o ponto mas é que ocorre através de diversos organismos corpo-mente. E num certo organismo corpo-mente o voltar-se para dentro irá acontecer. Um pensamento ocorre ou um evento ocorre ou algo acontece, e com isso como uma aparente causa, a mente volta-se para dentro. 
E em vez da mente ir para fora, querendo mais e mais objetos materiais, a mente volta-se para dentro e quer conhecer sua natureza real: 
“Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Qual é o sentido da vida?” Então o processo de desidentificação começa. A busca espiritual nessa evolução começa com a mente voltando-se para dentro e o indivíduo começando a buscar. E essa busca, que na verdade é o processo de desidentificação, continua através de vários processos na evolução. De um tipo de busca você vai para outro tipo de busca e passa por muitas frustrações, até que finalmente há uma compreensão repentina de que nenhum “indivíduo” jamais pode ser iluminado. 

A iluminação, sendo um acontecimento impessoal, pode acontecer apenas através de um objeto. Para qualquer evento poder acontecer um objeto é necessário. Assim, quando a iluminação está para acontecer um organismo corpo-mente que está pronto para receber essa iluminação é criado nesta evolução. Ele tem as características físicas, mentais, temperamentais, que tornam esse organismo corpo-mente capaz de receber a iluminação. E esse próprio organismo corpo-mente é um processo de evolução.

O início dessa compreensão, na duração, é a aceitação de que a iluminação pode não acontecer através deste organismo corpo-mente. Para um buscador é uma coisa muito difícil de aceitar, para um indivíduo buscador, mas esse é um marco importante nesse processo na dualidade. Então um “abrir mão” acontece e há um tremendo sentido de liberdade. “Se eu não posso ter a iluminação e se um objeto não pode ser iluminado, o que estou buscando?”
De modo que esse “abrir mão” acontece e essa identificação com este corpo-mente, esse “eu”, fica mais fraca. Mas um certo salto quântico acontece no processo. E o salto quântico final, que está logo antes da iluminação, é este: “não há mais busca, não há mais preocupação se a iluminação vai acontecer ou não.” Quando essa aceitação surge, o “eu” praticamente já se foi. Porque é o “eu” que é o buscador, não o organismo corpo-mente. O organismo por si mesmo é apenas um objeto inerte, necessário para a iluminação acontecer.

Pergunta: O “eu” é o “eu” enquanto houver o buscador, correto?

Ramesh: Sim, correto. Então quando a busca desaparece, o “eu” buscador também desaparece.

Pergunta: Então, esse é o ponto final, a evolução de “eu”?

Ramesh: Sim. O “eu” evolui, mas não esse “eu”.

Pergunta: Sei, quero dizer coletivamente.

Ramesh: Sim, como disse, um “eu” chamado Albert Einstein foi evoluído para a teoria da relatividade. Mas apenas para a teoria da relatividade. Para uma subsequente evolução na ciência, outros corpos-mentes foram criados. Einstein não estava pronto para aceitar o desenvolvimento ulterior da teoria quântica. Ele não podia aceitar a teoria da incerteza de Heisenberg. Einstein disse que essa teoria da incerteza significava que “Deus estava jogando dados com o universo.” Ele disse que ele não podia aceitar que Deus estava jogando dados com o universo. Niels Bohr respondeu: “Deus não está jogando dados com o universo. Nós pensamos isso porque não temos todas as informações que Deus tem!” [ continua....]

Ramesh Balsekar em Consciousness Speaks

9 de janeiro de 2016

Entoando o mantra Oṁ - Pedro Kupfer



"Se você for à Índia, verá o mantra Oṁ por todas partes: em todas as casas e comércios, pintado nos muros e carros, onipresente na paisagem. Hindus de todas as etnias, castas e idades conhecem perfeitamente seu significado. Ele ecoa desde a noite das cidades em todos os templos e comunidades ao longo do subcontinente.
Oṁ é o mais importante de todos os mantras. Diz-se que ele contém todo o conhecimento dos Vedas e se considera o Corpo Sonoro do Ser Absoluto, Śabda Brahman. 



O Oṁ é o som do Ilimitado, a semente que dá sentido a todos os demais mantras. 

A Maṇḍūkya Upaniṣad começa dizendo que 
o Oṁ é o mundo inteiro. 
O passado, o presente, o futuro: 
tudo é o mantra Oṁ”.

Diz essa mesma Upaniṣad sobre ele (II:12):

Segure o arco das escrituras, coloque nele a flecha da devoção.
Tensione a corda da meditação e alcance no alvo, que é o Ser.
O mantra é o arco, o aspirante a flecha, o Ser o objetivo. 
Estique agora a corda da meditação e seja uno com o objetivo.

Uma das perguntas que surgem frequentemente é se os mantras teriam efeitos calmantes. Os mantras não são especificamente calmantes: trabalhando sobre a mente, influem diretamente na força vital, prāṇa.
Os efeitos variam de pessoa a pessoa: para alguns podem ser estimulantes e para outros relaxantes.

Por isso, e para não antecipar resultados nem sugestionar a mente, não é bom dar receitas sobre como agem os mantras. O que um lápis escreve, e como ele pode ser usado, vai depender sempre da mente que o comanda.

O mantra é formado pelo ditongo das vogais a e u, e a nasalização, representada pela letra ṁ. Por isso é que, às vezes, aparece grafado Auṁ. Essas três letras correspondem, segundo a Maitrī Upaniṣad (VIII), aos três estados de consciência: vigília, sono e sonho: este Átman é o mantra eterno Oṁ, os seus três sons, a, u e ṁ, são os três primeiros estados de consciência, e estes três estados são os três sons.”

De acordo com as regras do sânscrito, o Oṁ não precisa ser nem muito curto nem muito longo. Pelo fato de ter três letras (a+u+ṁ, como vimos na última aula), sua pronúncia não deve se estender, nem ser mais breve, do que três mātras.

Os mātras são as unidades de tempo que se usam para medir a pronúncia no sânscrito. Um mātra corresponde a pouco menos de um segundo. Portanto, o Oṁ se faz em menos de três segundos.

Porém, alguns músicos popularizaram formas de verbalizar este mantra mais extensas. Os músicos, sabemos bem, têm licença poética para fazer isso. Para efeitos de meditação, fazer o mantra de acordo com as regras que expusemos acima é mais eficiente.

Não obstante, cabe lembrar que nenhuma forma de fazer o Oṁ é errada, desde que o mantra se faça com consciência e intenção dirigidas e conhecendo seu significado.

Como fazer a vocalização correta sem nunca haver escutado este mantra da boca de alguém que sabe realmente fazê-lo? O mantra se faz numa expiração breve, em ritmo regular, inspirando pelas narinas.

A inspiração, sempre nasal, pode ser feita depois de cada repetição ou no fim de uma série delas, dependendo da sua capacidade pulmonar.

Começa com a boca entreaberta, mantendo a língua colada no fundo da boca e a garganta relaxada. O som vibra na garganta e no peito e se propaga para cima.

Quando o ar flui pelo nariz, a vibração do som se expande para o crânio, estimulando as glândulas pineal e hipófise, que se relacionam com os centros de força (cakras) da cabeça e estimulam a secreção de endorfinas, as chamadas “drogas de felicidade”, que produzem paz, alegria e bem-estar.

Aconselhamos que você treine colocando uma mão no peito e a outra na testa para perceber como a vibração vai subindo conforme o mantra evolui.

Ao perseverar na vocalização, você sentirá nitidamente que a vibração se origina no centro da cabeça e vai expandindo até abranger o tórax e o resto do corpo. Permita-se ser respirado pelo mantra, ao invés de apenas puxar o ar. Concentre-se no silêncio da inspiração e no fato de que o mantra continua nesse silêncio.

O som de um mantra é muito mais que o “eco” mental que acontece quando repetimos uma palavra um monte de vezes. É uma ferramenta transformadora. Ao vocalizar, procure localizar o ponto onde inicia o mantra.

Idealmente, não precisa haver tremor nem oscilações na voz. A nota musical em que se faz o som não interessa: serve a que resultar mais natural para você. Porém, quando praticarmos em grupo, todos devemos buscar um som intermediário, que seja confortável e adequado para todas as gargantas.

Esse som costuma ser a nota do que, via de regra, não é nem muito grave para as mulheres, nem muito aguda para os homens."
Prof. Pedro Kupfer

6 de janeiro de 2016

Todas as belezas acontecem na solitude - Osho

 

"Todas as belezas acontecem na solitude.
Nada acontece na multidão. Nada do além pode acontecer, exceto quando você está absolutamente só.

A mente extrovertida criou condições ao redor para te tornar aprisionado: quando você está sozinho, você se sente mal. Ela lhe diz que você precisa sair, encontrar pessoas, porque felicidade acontece no meio de outras pessoas. Isto não é verdade.

A felicidade que acontece junto com outras pessoas é muito superficial, mas a felicidade que acontece quando se está só, é tremendamente profunda. Puro êxtase...

Quando a solitude acontecer, desfrute dela. Cante, dance, ou apenas permaneça em silencio virado para a parede e espere que algo aconteça. Torne-se uma espera, e logo você conhecerá uma qualidade diferente. Qualidade que não é tristeza.

Uma vez que você tenha provado da profundidade da solitude, mesmo as relações se tornam superficiais. Mesmo no amor, não se pode ir tão fundo quanto a solitude, porque mesmo no amor o outro está presente, e mesmo a presença do outro o mantém próximo a circunferência, próximo à periferia.

Quando não existe ninguém, nem mesmo o pensamento de alguém, e você está realmente só, você começa a mergulhar em si mesmo.
Não tenha medo. No início pode parecer que se está morrendo, e a tristeza irá surgir ao seu redor, porque você sempre associou felicidade com outras pessoas, com relacionamentos.

Apenas espere um pouco mais. Deixe que o aprofundamento aconteça, mais e mais profundo, e você verá o silencio surgindo, e ele contém em si uma dança, uma serenidade.

Nada se move, e mesmo assim, tudo é absolutamente vibrante, vazio e completamente cheio... Paradoxos se encontram e os contrários se
dissolvem. (...)

Algo acontece e a dualidade surge.
Quando algo que você gosta acontece, o desejo de repetir aquilo surge. Quando algo acontece que faz com que você se sinta bonito, o medo de perder aquilo surge, logo, toda a corrupção acontece por ganância, por medo. Com a experiência, todo o conteúdo da mente retorna e novamente você cai numa armadilha.

Todo o meu esforço aqui é para levá-lo além e além da experiência, porque só assim, você estará além da mente, e lá é puro silencio.
Se você compreender o que estou apontando, você verá que todas as técnicas são desnecessárias, pois todas as técnicas visam lhe trazer experiências; um dia tudo isso será abandonado.
Você estará só na sua casa, com sua mobília, mas nenhuma experiência, e essa é a experiência última. Não se trata de nenhuma "experiência", isso é só um modo de falar.
Lembre-se, mesmo as experiências corrompem, mesmo as experiências são distúrbios, são agitações."

Osho em Meditaçãos Diárias

2 de janeiro de 2016

Porque o homem ama, Deus É - Osho



"Você pergunta: “O que é o amor?” É o profundo desejo de ser uno com o todo, o profundo desejo de dissolver o Eu, o Você, em uma unidade. O amor é isso, porque estamos separados da nossa própria origem, por isso, sente-se a necessidade de se voltar para um todo.
Se você arrancar uma árvore, ela sentirá o grande desejo de enraizar no solo, porque esta é sua verdadeira vida. Agora ela está morrendo. Separada a árvore não pode existir. Ela tem que existir na terra. Isso é amor.

Seu ego se tornou uma barreira entre você e a sua terra, o todo. O homem está sufocado, ele não consegue respirar, perdeu suas raízes.

O amor é um desejo de nutrição; o amor é enraizar-se na existência. E o fenômeno se torna mais fácil de se você cair no polo oposto – é por isso que o homem é atraído pela mulher, e a mulher pelo homem. O homem pode encontrar sua terra através da mulher, ele pode voltar a ficar com seus pés no chão, através da mulher, e a mulher pode por os pés no chão através do homem. Eles são complementares. O homem sozinho é metade. Quando essas duas metades se encontram e se misturam e se fundem, pela primeira vez nos sentimos enraizados, com os pés no chão.

Não é somente na mulher que você se enraíza; é através da mulher que você se enraíza em Deus. A mulher é simplesmente uma porta, o homem é simplesmente uma porta. O homem e a mulher são apenas portas para Deus. O desejo de amor é o desejo de Deus. Você pode entender isso, ou não pode entender, mas o desejo de amor realmente prova a existência de Deus. Não existe nenhuma outra porta.

Porque o homem ama Deus É. Porque o homem não pode viver sem amor, Deus é. A ânsia de amar simplesmente diz que sozinhos nós sofremos e morremos, juntos, nós crescemos, somos nutridos, realizados, preenchidos.

Você pergunta: “O que é o amor? Por que tenho tanto medo do amor?” É por essa razão que a pessoa tem medo do amor – porque no momento que você entra na mulher, você perde seu ego, e a mulher quando entra no homem, perde seu ego.

Agora isto precisa ser entendido: você pode estar enraizando no todo, somente se perder você mesmo; não há outra maneira. Você é atraído em direção ao todo por estar se sentindo desnutrido, e então, quando chega o momento de desaparecer no todo, você começa a sentir muito medo. Um grande medo surge porque você está perdendo a si mesmo. Você recua. Este é o dilema. Todo o ser humano tem que encarar isso, passar por isso, entender e transcender isso.

Você precisa entender que ambas as coisas estão surgindo da mesma coisa. Você sente que seria lindo desaparecer – nenhuma preocupação, nenhuma ansiedade, nenhuma responsabilidade. Você se tornará parte do todo, como as árvores e as estrelas. A simples ideia é fantástica! Ela abre portas, portas misteriosas para dentro de seu ser, ela da nascimento à poesia. Ela é romântica. Mas quando você realmente mergulha nisso, surge o medo de que: “Eu vou desaparecer, e quem sabe o que vai acontecer depois.”

É como um rio alcançando o deserto, ouvindo o sussurrar do deserto. O rio hesita, quer ir além do deserto, quer ir em busca do oceano; sente que existe um desejo, um sentimento sutil, uma certeza e uma convicção de que “meu destino é ir além!” nenhuma razão possível pode ser apontada, mas existe uma convicção interior de que “eu não terminarei aqui. Tenho que continuar procurando algo maior.”

Alguma coisa lá no fundo diz: “Tente energicamente! E transcenda esse deserto”.

E então o deserto diz: “Ouça-me: o único jeito é evaporar-se, entregando-se aos ventos. Eles o levarão além do deserto”. O rio quer ir além do deserto, mas a duvida é muito natural: “Qual é a prova, a garantia que depois os ventos permitirão que eu volte a ser um rio? Uma vez que eu tenha desaparecido, não estarei absolutamente controlando a situação. Então qual é a garantia que eu me tornarei novamente o mesmo rio, com a mesma forma, com o mesmo nome, o mesmo corpo? E quem sabe? E como poderia confiar que, uma vez que eu tenha me rendido aos ventos, eles permitirão que eu volte a me juntar?” este é o medo do amor.

Você sabe, está convencido de que sem amor não há vida, sem amor você permanece faminto por algo desconhecido, permanece insatisfeito, vazio.

Você é oco; você apenas um recipiente sem conteúdo. Você sente o vácuo, o vazio e o tormento disso. E você está convencido de que existem meios capazes de preenche-lo.

Mas quando você se aproxima do amor surge um grande medo, surge a dúvida: se você relaxar, se realmente mergulhar nele, será capaz de voltar novamente? Será capaz de proteger sua identidade? Vale a pena correr esse risco? E a mente decide não correr esse risco, porque pelo menos você é subnutrido, mal alimentado, faminto, miserável – mas pelo menos você é. Desaparecendo em algum amor, quem sabe? Você iria desaparecer, e qual é a garantia de que haverá felicidade, haverá beatitude, haverá Deus?

É o mesmo medo que uma semente experimenta quando começa a morrer no solo. Isso é morte, e a semente é incapaz de conceber que haverá vida surgindo desta morte."
Osho em Eu sou a porta
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