31 de maio de 2011

A Criança interior...



"Há momentos raros, únicos, mas ainda assim há momentos em que você chega mais perto da melodia da existência. As circunstâncias podem ser diferentes, mas a melodia é a mesma.

Uma criança corre atrás de uma borboleta, uma criança colhe flores no jardim, uma criança simplesmente deita sobre a grama, sente certa harmonia na existência sente certa melodia. Nesse momento, deitada ali sobre a grama relaxada, ou correndo - correndo atrás da borboleta, ou correndo para colher flores - ou não fazendo nada: apenas brincando com seixos na praia - nesse momento, a criança está totalmente unida à existência. Não há nenhuma tristeza ou pesar, nenhuma negatividade.

Uma criança aceita a existência como ela é e é aceita pela existência.

Quando você aceita a existência, a existência o aceita. Quando você rejeita, é rejeitado. A existência é um eco do que você faz. Tudo o que fizer com ela será feito com você.

A criança aceita. Para a criança não existe passado, nem futuro. O momento presente é suficiente. A criança existe aqui-agora. Então ela sente uma certa harmonia, uma melodia é sentida.
É por isso que mais tarde, quando você fica muito velho, você continua a se recordar de sua infância, vive dizendo que a infância era um paraíso. Por quê? Porque houve muitos momentos nos quais você aceitava tudo totalmente. E uma criança Negritoé aceita totalmente. No instante e, que a criança começa a rejeitar, deixa de ser criança. A infância é perdida, o paraíso é perdido.

Recorde alguns momentos de sua infância nos quais você teve o sentimento de que a vida era uma bem-aventurança, de que simplesmente ser era um êxtase. Simplesmente ser, respirar, era o bastante. Você não precisava de mais nada para ser feliz. Seja o que for que você fosse, era o suficiente para ser feliz.
Reúna esses momentos. Recorde-os, reviva-os. De vez em quando esqueça sua idade. Feche os olhos e retorne, retroceda, seja novamente uma criança. Não se recorde apenas, mas reviva. Seja novamente uma criança. Em sua memória corra como uma criança, cante, brinque e obterá uma nova luz, um novo despertar. Uma nova energia vital correrá através de você. E você se tornará mais receptivo. (...)

Mas olhe para a mente humana. Ela coleciona misérias, coleciona sofrimento, coleciona amarguras. Jamais coleciona momentos felizes. Vive colecionando miséria após miséria. Então a vida se torna um inferno. Essa é a sua coleção: é o seu modo de olhar para as coisas.

Você sempre diz que a felicidade é apenas momentânea. Mas ninguém diz que o sofrimento é momentâneo, ninguém diz que a angústia é momentânea. Você continua a sentir que a angústia é permanente, que o sofrimento é permanente e que a felicidade é momentânea. Está errado. (...)No final das contas o contrário é verdadeiro. O sofrimento é momentâneo e a bem-aventurança revela-se eterna. (...)

Mas você continua a colecionar sofrimento, logo ele parece permanente; você nunca coleciona, nunca nutre os momentos felizes e alegres, logo, eles dão a impressão de serem momentâneos.

É você que escolhe assim. Mude sua escolha - porque, com tanto sofrimento reunido, você acumulará mais sofrimento. O sofrimento aumentará; você está colaborando para que ele aumente. Desse modo, chegará o momento em que você estará tão coberto de sofrimento que não poderá vislumbrar qualquer possibilidade de bem-aventurança. Então você se tornará totalmente negativo.

Faça exatamente o contrário. Somente isso será de ajuda à sua meditação. Sempre que o sofrimento se manifesta, não o guarde. Deixe-o manifestar-se, mas não o alimente. Lembre-se de uma das leis: se você der muita atenção a uma coisa, seja o que for, ela crescerá."
Osho em A Nova Alquimia.

30 de maio de 2011

Sem adversários, só aliados...


"As contingências da vida não são teus adversários, mas teus aliados. Aprende a recebê-las, mesmo quando te transtornam.
A aceitação é a forma mais elevada de Amor.
É o "sim" definitivo à experiência sagrada da vida.

Quando tu andas, abandona-te à estrada, com o espírito calmo, sem tensão nem agitação. A marcha é regeneradora. Utiliza-a como uma meditação.
O corpo físico é uma prenda suprema que deves proteger e respeitar. É chamado "corpo precioso" nos ensinamentos do Vajrayana. Toma consciência do milagre da tua existência.

Pergunta-te a ti próprio:"Como posso ajudar os outros?". Reencontra o dom da atenção e da afeição, então os outros crescerão contigo, e conhecerás a alegria e a plenitude do coração.

Abandona-te ao amor, mesmo se não lhe conheceres a finalidade misteriosa. Libertar-te-á do teu medo e cobrirá de sol todos os teus atos.
Aquele que encontrou o seu lugar é semelhante à árvore. Ganha raiz e não se desloca mais.Afirma positivamente o mundo nos teus atos e nos teus pensamentos. Considera toda a criação com respeito e encantamento.

Felicidade do nômade: aquele que caminha enraíza-se a cada passo que dá. Tem o seu lugar onde quer que se encontre. Renova o amor deslocando-se.
Aceita o mundo tal como é realmente e não como ele se apresenta.
A aceitação de si e a aceitação dos outros são as duas faces de uma mesma moeda. A mesma riqueza.

Aprende a relaxar a tensão dos nervos, a controlar a respiração e o bater do coração, a ver flutuar as sensações sem procurar retê-las. Treina-te ao abandono do corpo e do espírito, se quiseres ganhar o mundo. Só se recebe o que se aceita perder.

Abandonar não quer dizer esquecer, mas tornar presente, sem amarras nem laços. É um ato de libertação. Afrouxam-se os laços, e o mundo que nos rodeia deixa de estar deformado pelas nossas obsessões, os nossos fantasmas. Torna-se de novo livre.
Não deves suportar a tua vida, mas levá-la. Só o amor é capaz de um tal prodígio.

O relaxamento é uma das primeiras formas de abandono. O corpo deixa de lutar contra a atração terrestre. Abandona-te à gravitação, como o fazem todos os astros e todos os corpos celestes.
Relaxar não quer dizer tomar repouso, isolar-te do tumulto ou do barulho, mas acolher o mundo, preparar-se para o receber.

O desapego não é a supressão, a sepultura. Pede uma presença constante no mundo, uma proximidade cada vez maior dos outros, sem intenção, gratuitamente.

Em certas circunstâncias, a vida entrega-se a nós por surpresa, para nos maravilhar. Surge por vezes onde menos se espera; em casa do estrangeiro, ou em casa do teu inimigo. É preciso largar carga, para subir mais alto.

A aceitação oferece um risco muito maior do que o simples fato de amar. Aquele que se abandona não se contenta apenas com amar. Dá-se a si próprio a audácia de o fazer. Empenha-se numa grande aventura.
Aquele que abandona não renuncia. Aceita. O abandono não é um reflexo egoísta, mas um dom de amor. Permite reencontrar os outros, autenticamente, atrás das máscaras, do artifício e da ilusão.

Abandonar-se significa tornar-se livre.

Aprende a renunciar ao que embaraça e faz obstáculo, para melhor acolher o outro. Retira tudo o que se opõe, protege, encerra - tudo o que pode ferir e incomodar o encontro com o outro.

Não nos abandonamos para nos entrincheirar contra o mundo, mas para acolher a alegria, no meio do mundo. Perdendo o inútil, reencontras o essencial. Abandonar-se ao mundo exige uma vigilância acirrada, um olhar de águia por cima do abismo. Aquele que se mantém constantemente em vigília deixa de cair."

28 de maio de 2011

O Fim da Busca...



"Dizemos que há dois níveis de realidade, uma visível e outra invisível, porque estamos vivendo na mente. O ser humano vive na mente. A mente sempre DIVIDE tudo em dois. Forte e fraco. Bem e mal. Deus e diabo. Negativo e positivo, etc.

O ponto é que tudo que é visto pelo ser humano é repartido em DOIS.Como a luz do sol quando passa por um prisma é repartida em 7 cores, a mente reparte a luz da Unicidade em pólos opostos e nasce o ying e o yang, o positivo e o negativo, o bem e o mal.

Por isso existe o ensinamento chamado Não Dual - que significa que a realidade parece ser duas coisas, mas é uma só. Este ensinamento está apontando para o que a mente naturalmente faz: ela reparte tudo em dois.

A mente reparte a completude natural da Essência, de Deus, em dois.

Essencialmente, tudo é completo, mas quando a mente está presente, nascem os opostos: completo e incompleto.

Tudo é essencialmente amor, mas na mente, tudo se transforma em amor e medo (contrário de amor).
O amor simboliza então aquilo que buscamos, que está além, que está distante (aparentemente). E o medo passa a ser a realidade natural de todos nós, o medo da vida e o medo da morte. Desenvolvemos tudo neste mundo a partir deste medo básico. E este medo básico é o nascimento da separação, dos opostos. Ou seja, Deus é transformado de uma UNICIDADE em uma DUALIDADE.

Na dualidade Deus passa a ser o oposto de diabo. O bem passa ser o oposto do mal. Então, a realidade no modo relativo é mental. E no modo absoluto está além do mental.

Quando os mestres espirituais falam em conhecer quem você é, eles estão falando em conhecimento absoluto. A mente não pode conhecer aquilo que nós somos, porque a mente opera em nivel RELATIVO (dividindo a realidade una em dois). E é por isso que em um ponto da busca você tem que desistir.

Mas não que você desista, o Ego se dá conta de que não pode conhecer a verdade, que não pode descobrir aquilo que está além da mente, além dos conceitos mentais. É o ego que vê sua própria limitação!

Quando o Ego se dá conta disso, algo acontece: a busca mental dá vazão ao desabroxar da fé, da confiança, da naturalidade de viver cada momento com o sabor divino, da caridade natural, da amizade com todas as criaturas vivas deste mundo, do cuidado que devemos ter com cada momento, com cada ser, com cada palavra.
A busca acabou, porque Deus está ao seu lado quando você desiste de buscar Deus no horizonte distante ou no futuro.
Este é o ponto do fim da busca. Você passa a ser guiado a cada momento.
Deus não está mais longe. Ele está tão perto de você como seu coração, e também distante como todos os universos.
Então toda a caminhada toma um sentido diferente. Tudo fica mais leve. E a cada momento a voz do sagrado ilumina o coração com os desafios e insights de novas descobertas e visões.

E mesmo que o sofrimento aconteça, você tem a clareza de saber que Deus e você são a mesma entidade em essência, e que você pode confiar no processo, pode se abrir para aprender mais e mais, pode relaxar no meio de uma lágrima, pode acolher a celebração e a dificuldade.

O fim da busca é o início da fé que vai além da crença. E quando a fé não é cega, quando a fé brota do coração, Deus e você cantam a mesma canção."
Swami S. Naseeb em O Fim da Busca

Aprendendo com a rejeição...


Como cada um de vocês lida com a rejeição? Como se sentem quando a vida coloca à sua frente, vindo de alguém inesperado, ou alguém que amamos verdadeiramente, profundamente - eis que aparece um sentimento de afastamento, de ruptura, de brusco distanciamento, sem qualquer motivo real, simplesmente assim...acontecendo - bem ali diante de nossos olhos, do nosso coração?

Dizer que não dói, é se enganar...dizer que é fácil, também...

O coração une, aproxima, quebra barreiras, faz pontes...essa é a natureza do amor...ligar...
A mente fraciona, divide, pulveriza...e por analises infindáveis, muitas vezes deduz a partir da imaginação, de sonhos....e atitudes tomadas a partir dos sonhos tem grandes chances de serem enganosas, danosas...dolorosas...

Mas, somos eternos aprendizes. Estamos aprendendo sempre. E lidar com a rejeição, com a injustiça também faz parte da vida, logo precisam ser vistos com atenção e com o coração aberto...sempre...

Sei que todos já viveram situações semelhantes, e tiveram as mais diversas reações.
O mais importante é colocar luz e consciência em tudo que nos acontece, seja lá o que for.

A impermanência da vida é a única regra. Por isso, aprender a lidar com a rejeição, o desafeto, a injustiça, os afastamentos, separações....também são excelentes lições que a vida nos trás, e nenhuma dessas situações deve ser perdida para que possamos nos conhecer mais e mais.

Centrados na consciência, podemos ver claramente que nada nos atinge verdadeiramente. Tudo que acontece, acontece ao ego, acontece à periferia. A tormenta, as tsunamis... acontecem ao ego. Se estamos identificados com ele, fatalmente somos levados, e ficamos a deriva como um tronco boiando, sem rumo...confusos, perdidos...
Mas a consciência de que não somos o ego, e sim que temos um ego - lidamos no mundo com ele - mas nosso Ser é infinitamente mais amplo, lidamos com esses eventos da vida com uma tranquilidade muito maior....inclusive, não julgamos quem nos rejeita, nem quem nos julga...compreendemos que não foi "alguém" fazendo nada, e sim a própria existência escolhendo aquela situação em nós para mais um aprendizado...

Tudo passa, sejamos passantes também...
Não reter é a lei mais preciosa. Não reter significa amar, acolher, tirar lições e transcender...
E mesmo os eventos sombrios, frios, tristonhos...mesmo nos vales da vida, podemos permanecer centrados, ancorados no coração confiante, radiante...
A luz da consciência jamais se apaga. É ela que verdadeiramente ilumina o caminho...é para isso que estamos aqui..aprender com cada situação que a vida nos trouxer...
O Amor tudo toca, mas nada sequer toca o verdadeiro Amor...

Amor e consciência são sinônimos.
Se passamos por momentos de desamor, injustiça, abandono, rejeição, ainda assim, mesmo aí é possível acolher com amor cada palavra, cada gesto, cada silencio, cada lágrima...
Nada supera o Amor-consciência..
Nem mesmo a morte...pois a morte só alcança aquilo que não somos nós de fato...
O Ser, nossa natureza verdadeira, essa é absolutamente intocada, é divina, é imortal...
Lilian

27 de maio de 2011

Coração confiante...


"Se você tem o coração que confia, nada é impossível —até mesmo Deus não é impossível.

Mas você precisa ter um coração confiante.
Uma mente confiante não adiantará, porque estruturalmente a mente não pode confiar. Ela é incapaz de confiar.
A mente só pode duvidar; a dúvida é natural para a mente, é intrínseca à mente.
A cabeça nada pode fazer a não ser duvidar. Assim, se você começar a forçar crenças à cabeça, essas crenças só esconderão suas dúvidas.
Nada acontecerá através delas.(...)

Para a mente, crer não é possível; a mente pode apenas duvidar. A dúvida cresce da mente como as folhas crescem das árvores.

A crença surge no coração.
O coração não pode duvidar, só pode confiar.(...)
A cabeça pode apenas criar falsidades, substitutos.
Você pode permanecer comprometido com elas, mas sua vida será desperdiçada. Você permanecerá uma terra árida, um deserto.
Você nunca florescerá, nunca saberá o que é um oásis.
Não conhecerá o menor contentamento, a menor celebração.

Assim, quando digo que crer pode tornar coisas impossíveis em possíveis, refiro-me a crer pelo coração — um coração inocente, o coração de uma criança que não sabe como dizer "não", que conhece apenas o sim — mas não o "sim" contra o "não".

Não que a criança diga "não" por dentro e "sim" por fora; isso é da cabeça.
Essa é a maneira da cabeça; sim por fora, não por dentro, não por fora, sim por dentro.
A cabeça é esquizofrênica. Nunca é total e una.

Quando o coração diz "sim" ele simplesmente diz "sim".
Não existe conflito, não existe divisão.
O coração está integrado com o seu sim; essa é a verdadeira crença, confiança.
É um fenômeno do coração.
Não é um pensamento, mas um sentimento, e, essencialmente, nem mesmo um sentimento, mas um estado de ser.

No início, a confiança é um sentimento; em seu florescimento final, é um estado de Ser."
Osho em Mojud: O Homem com a Vida Inexplicável

Alcançar a dimensão da confiança em nós, é o mesmo que apaziguar os conflitos, aquietar as expectativas, soltar as rédeas do controle, descansar a alma naquilo que É.
Vivemos tão intensamente de sonhos, de futuro, daquilo que será - que por ser distante do momento presente gera uma grande tensão - pelo simples fato de que não existe ainda...daí que todas as possibilidades ainda estão em aberto, todas as possíveis respostas ainda não foram de fato respondidas, e só nos resta esperar que aquilo que tiver que acontecer aconteça.
Nesse meio termo, ao que nos agarramos? Na mente.
Nos infindáveis pensamentos, analises, possibilidades imaginárias, possíveis problemas, possíveis soluções...a rede de pensamentos se multiplica...indefinidamente...
Nada se tem de verdade. Apenas pensamentos que passam na tela da consciência.

Mas o coração confia, sempre! Pois o coração é único, indivisível, absoluto. Manifesta a unicidade da consciência universal, está ancorado naquilo que É.
Enxerga além das aparências, sente além das ilusões, e conhece profundamente, muito além de qualquer contradição...
Centrados no coração, estamos ancorados na verdade, somos a própria verdade.
Não importa mais nada. O coração é o único que realmente conhece...ou melhor, o coração é o verdadeiro conhecimento...
Amor
Lilian

26 de maio de 2011

Percepção Lúcida...



Você é o Buda, você é a verdade. Então porque não sente isso? Por que não conhece isto muito bem? Por que não conhece isto muito bem?

Por que existe um véu no caminho, que é o apego às aparências, como por exemplo a convicção de que você não é Buda, de que você é um indivíduo separado, um ego. Senão puder remover este véu de uma só vez, então ele terá que ser dissolvido gradualmente.

Se você conseguir enxergar através dele,

totalmente, mesmo que apenas por um instante, então poderá fazer isso novamente a qualquer momento.

Onde quer que esteja, o que quer que esteja diante de você, de qualquer forma que as coisas se apresentem; simplesmente retorne à esta clareza e abertura espaçosas e sempre presentes .(

Kalu Rinpoche)

Quando praticamos a meditação, o que fazemos equivale a descascar as camadas da persona. Nós continuamos a descascando, camada por camada, cada vez mais, em direção ao centro, trazendo à superfície e soltando, um após o outro, os muitos rostos que apresentamos ao mundo e a nós mesmos.

Se nós não somos os nossos pensamentos, então quem somos? Quem é esta pessoa que tenta meditar? Quem é o experimentador que experimenta? é nossa mente, nosso corpo, nossa alma, nosso espírito? A grande questão é esta, a questão da identidade.

A maioria dos meditadores traz consigo uma aspiração comum: experimentar as coisas diretamente como são, no momento presente. Agora é o único lugar onde podemos estar. Tanto as lembranças quanto os planos ocorrem no momento presente.

Na meditação nós voltamos sempre a este presente que é o único, despertando gradualmente para a verdade de quem e do que somos. Nós sabemos que não podemos fugir, que precisamos voltar sempre. Respiramos, praticamos a atenção plena e descascamos camadas e mais camadas. Cada vez mais fundo. Vendo os nossos estados mentais, soltando o que nos prende, desmascarando, descascando, até finalmente chegar ao estado original, não processado, o estado natural, o ser genuíno. Esta é a natureza búdica, a natureza verdadeira - a mente natural. O Buda interior está desperto.

Simplesmente ser - em meio a todo o fazer, o atingir e o vir-a-ser. Este é o estado natural da mente, nosso estado original e fundamental de ser. É a natureza búdica autêntica. É como o reencontrar o nosso equilíbrio.

Mente grande / mente pequena.

Para nos ajudar a compreender que não somos aquilo que pensamos, os ensinamentos de Buda fazem uma distinção entre o que é chamado de Grande Mente, ou Mente Natural, e a mente "pequena" ou mente comum e iludida.

A mente pequena ou iludida é a mente habitual, barulhenta, imprevisível e constantemente fora de controle. É a nossa mente finita, conceitual, racional, discursiva, pensante. A mente iludida tem muitos impulsos e necessidades, ela deseja muitas coisas. Está quase sempre confusa, atravessa flutuações constantes de ânimo e é muito inquieta. Fica com raiva, deprimida ou hiper-ativa. Alguns textos tradicionais antigos chamam esta mente pequena de "mente de macaco", e a descrevem como um cavalo selvagem e indomável, ou então como um pequeno macaco simpático mas totalmente caótico, pulando de árvore em árvore, procurando satisfação nos lugares errados.

O que se quer dizer com Grande é a natureza essencial da mente. É isto que chamamos de natureza búdica ou mente natural. Esta é a nossa verdadeira natureza - a consciência pura e ilimitada que reside no coração, e que é parte integrante de todos nós. O Buda a descreveu como imóvel, clara, lúcida, vazia, profunda, simples (descomplicada) e em paz. Na verdade, não é aquilo que chamamos habitualmente de nossa mente.

É a natureza luminosa e mais fundamental no âmago de nosso ser. Isto é rigpa, o cerne da iluminação. É a nossa cota de nirvana aqui na terra.

O Dogchen ensina que tudo o que precisamos fazer para nos tornarmos iluminados é o reconhecer e repousar nesse estado mental natural. No zen eles chamam isto de mente original. É a percepção crua, nua, e não algo que aprendemos ou fabricamos. Isto é o Buda interior - a presença perfeita na qual podemos confiar. Despertar para esta mente natural, esta natureza búdica, é sobre o que a meditação se ocupa.

Quando os mestres Dzogchen falam em permanecer na visão, o que querem dizer é reconhecer o estado natural da mente, a natureza búdica, e repousar nesta percepção lúcida.

Isto implica uma imediação espontânea e uma consciência sem separações ou escolhas. Esta visão ampla, ou panorâmica, significa ser capaz de viver as coisas como são, com clareza total.

Essa visão, ou visão superior, não distorce. Ela é totalmente aberta e sem julgamentos. Quando permanecemos com a visão, não tentamos manipular ou alterar a verdade do que é. Um espelho não escolhe o que reflete.

Da mesma maneira, a medida que os objetos surgem na mente, eles simplesmente aparecem, sem distorções nem correções, no espelho límpido da consciência.

Com esse tipo de visão, nós nos lembramos do todo – Dzogchen, a Perfeição Natural das coisas justamente como são. Na meditação básica, praticamos a atenção plena à respiração.

O treinamento Dzogchen é mais avançado; ele nos ensina como estar despertos e unos com o que é. Na prática, Dzogchen, levamos conosco aonde quer que formos, nossa consciência sem separações, para que cada momento seja um momento de atenção plena, um momento de realidade, de liberdade e iluminação.

Como disse um mestre zen: "A eternidade é um único instante, e esse instante é agora. Acorde para ela!".

Isso pode soar esotérico, mas na verdade é um ensinamento muito prático. Tudo o que se tem a fazer é permanecer com a visão.

Este ensinamento introduz uma forma de manter a perspectiva maior em mente e ao mesmo tempo fluir com a grande corrente da realidade, sem ficar preso nos redemoinho da vida.

Quer você esteja praticando a meditação formal ou dando banho no cachorro da família, preserve sua mente natural, permaneça consciente e desperto, em vez de se deixar carregar por pensamentos e projeções. São todos apenas aparências ilusórias. Se você puder manter esta visão, então a meditação em ação se desenvolverá espontaneamente, e haverá menos separação entre a prática religiosa formal e os atos mundanos da vida cotidiana.

Nós vivemos na ilusão e na aparência das coisas.

Existe uma realidade.

Quando você compreender isto, verá que você não é nada.

E não sendo nada, você é tudo. É só isso. ( Kalu Rinponche)

Lama Surya Das em O Despertar do Buda Interior

25 de maio de 2011

Pássaro Livre...



"Não me reconheço ou me experimento como um ser.
Não reconheço ou experimento os outros como seres em separado.
Sou afável com todos, porque não sinto os outros como diferentes de mim.
Convido todos a participar desta Felicidade.
Nela existe somente Unidade, assim, como você poderia chamá-la de amor?
Não desejo nada, nem não desejo nada.
Tudo me parece bom como é.

Minha verdadeira natureza é o silêncio.
Permaneço sereno em meu Ser.
Aqueles que Me necessitam Me encontrarão.
Sei também que receberei tudo aquilo de que preciso.
Não tenho pensamentos sobre o futuro.
Sei que jamais há qualquer outro momento além do presente.

A vida ao redor de mim é o meu SER.
Medito neste SER com devoção.
A chama da vida está sempre acesa.
Sou tanto o devoto como o objeto de devoção.
Sou, ao mesmo tempo, cheio e vazio, tolo e sábio, vigilante e adormecido.
Não compreendo a mim mesmo!
Não posso Me localizar em qualquer lugar no espaço.
Não posso Me experimentar em qualquer ponto no tempo.
Não existo sob qualquer forma ou aparência e, no entanto, Eu sou. Meu SER é um mistério para mim!
Percebo a beleza, mas não sou eu quem a projeta, nem ela me vem do exterior.
Beleza e bondade estão na natureza da existência, esta é a conclusão a que cheguei.

Esta forma humana tem as suas fraquezas e pontos fortes, porém sei que não sou isto.
Portanto não estou limitado pelo corpo.
Não Me concebo como sendo isto ou aquilo.
Portanto, não estou delimitado pelo pensamento.
Nunca experimento um estado de que não estou consciente.
Portanto, não estou limitado pela ignorância.
Sei que um dia este corpo desaparecerá e todo o conhecimento do mundo terá um fim.
Portanto, não sou confinado pelo conhecimento.
Como uma flâmula voando ao vento mostra que o vento está ali presente, este mundo revela a minha existência, porém permaneço desconhecido.
Há alguma coisa de que necessito para a minha satisfação?
Não! Estou contente com o meu SER.
"Eu" não sou iluminado, desperto ou auto-realizado.
Não há alguém a quem essas palavras possam ser aplicadas.

Possam todos os que buscam o SER chegar a esta compreensão - que não há caminho que leve àquele que está procurando.
Possam todos aqueles que exercem práticas espirituais chegar a esta compreensão - não há nada que você possa fazer para tornar-se aquilo que você já é.
Possam, todos os que buscam, em todos os lugares, chegar ao final de sua busca e viver livre em paz e felizes.
Sou um pássaro livre. Não possuo tarefas a executar nem obrigações a cumprir."
Mestre Ranjit Maharaj

A Alquimia do Amor...


"Você chega a nós
Vindo de um outro mundo
Além das estrelas e
De um espaço sem fim.

Transcedental, puro,
De uma beleza inimaginável,
Trazendo com você
A essência do amor.

Você transforma tudo o que toca
Aflições banais,
Problemas e tristezas
Dissolvem-se na sua presença,
Trazendo alegria
Aos comandantes e aos comandados,
Aos plebeus e aos reis.

Você nos enfeitiça
Com sua graça.
Qualquer mal
Transforma-se em Bem.

Você ascende a chama do amor
Na terra e no céu,
No coração e na alma
De cada ser humano.

Com seu amor
O existir e o não-existir se unem.
Os opostos de fundem.
E tudo o que é profano
Torna-se sagrado outra vez."
Poema de Rumi

24 de maio de 2011

Pequenos gestos...



Nosso dia floresce mais e mais com os detalhes pequeninos, cotidianos,
sutilezas,
simplicidades...

Nem nos damos conta de que são mesmo os pequenos gestos que mais nos tocam o coração,
que mais atingem como flechas luminosas nossa alma,
que ao percebê-los, canta, sorri e se sente acolhida naquele momento,
e como se fosse para sempre,
nos sentimos em casa, no meio do mundo,
abolutamente em casa...

As cenas do dia a dia se desdobram,
entre o piscar de olhos,
entre o inspirar e o expirar
vão passando,
E o perfume de um abraço sincero,
O toque de uma mão na nossa mão,
Um afago nos cabelos,
Um beijo,
Uma palavra que foi dita para nos fazer sorrir,
Uma lembrança que foi trazida para nos emocionar de paixão
Uma xícara de chá quentinho, surge assim de repente, naqueles dias frios, chuvosos...

É assim que florescemos, na tranquilidade do amor acolhido ao longo de nossas vidas,
Não são necessários grandes gestos, grandes demonstrações de alguma coisa,
Mas esses pequenos momentos de verdade dizem tanto, mostram tanto, sem dizer
Que a alma se torna cada vez mais sutil em perceber.

É como se a alma fosse feita dessa sutileza também,
E a partir desses pequenos gestos a alma se reconhecesse,
E aos poucos encontrasse seu lugar,
Que pode ser um lugar qualquer,
Mas com certeza é um lugar perfumado de amor,
Nem nome é necessário ter,
Mas esse perfume amoroso dos pequenos gestos...
Ah! Isto é fundamental...

23 de maio de 2011

Há somente Ser...


"Não há indivíduo fazedor.

É algo difícil para a mente compreender, porque a mente faz parte do fazedor pessoal, e ela pensa que faz todas as coisas. Tenho recebido cartas de pessoas que dizem: Como eu posso parar de pensar ? Que eu posso fazer para parar de ser negativo? Como eu ultrapasso o medo?

Alguém consegue parar com os pensamentos Alguém tem poder sobre suas emoções ? Não, isso não pode ser feito.

Tão logo pensamos que podemos controlar nossos pensamentos, nossas emoções e nossos medos, estamos entrando em tumulto. O que nós chamamos de culpa e medo, e todos os tumultos emocionais, são nada mais que um pensamento, a crença de que você é o FAZEDOR PESSOAL. Disso vem culpa, e culpa automaticamente traz a massa de sentimentos e emoções.

O pessoal em você (que você pensa que você é) não faz nada. Absolutamente nada.

Vamos passo a passo. A parte humana do ser humano não tem controle. Quando o humano, o qual é a mente diária condicionada programada, diz, Eu quero controlar, Eu estou com medo de perder o controle, isso é o que cria dor emocional, ataque de pânico, e problemas de ansiedade.

Uma coisa que você continua perdendo é a simplicidade da realidade. Você é um ser humano.

O humano é um computador, nada mais, nada menos. Mas há uma coisa que nós como seres humanos temos acima do computador – nós somos um ser. Isso é o que temos esquecido. É o Ser que faz todas as decisões e todas as escolhas, todas as coisas. Mas porque nós nos identificamos com o humano e queremos controle, nós estamos trabalhando de uma premissa ilusória. Eis porque nós ficamos frustrados, confusos, e até insanos.

É o Ser que controla todas as coisas. Então a pergunta surge: O que é isso que decide ? O que é isto que age através de nós, como se isso fosse nós ?

Há três fatores importantes para entendermos isto.

O primeiro é o destino.

O segundo é condicionamento.

E o terceiro é amor incondicional. Esses três determinam cada ato, cada pensamento, cada crença, todas as coisas que acontecem a você, ao qual você pensa que você fez.

Vamos focar o destino, ao qual você não tem absolutamente controle. Destino determina o que você é nesta vida particular. Por exemplo, um homem ou uma mulher. Você não tem escolha sobre isso nessa vida particular. (...) Não há nada de errado no destino. O signo astrológico, se você é introvertido ou extrovertido – isso é seu destino. Destinos nos dá inclinações e tendências que não mudam.

Então vem o condicionamento. Seus pais, nacionalidade, suas crenças religiosas, o sistema político, sua raça, todos os diferentes fatores do meio ambiente formam seu básico ponto de vista e seleção mental.

Quando nós colocamos destino e condicionamento juntos, nós temos o que nós chamamos de programação. Eis o computador mental. O computador é inútil até que você programe ele, e nó seres humanos somos a mesma coisa. A programação decide e pensa – apenas parece ser nós.

Mas há uma coisa que nós temos que um computador não tem. Nós somos um Ser. E Ser é consciência, amor. Mas, quando nós falamos sobre amor, teremos que voltar para as idéias sobre o amor, então eu gostaria que você pensasse no amor como ESPAÇO.

Ser é ESPAÇO. Isso é o estado do Ser. Espaço.

É através da inteligência do Ser que seu coração está batendo. Agora, quem está respirando você ? Ser. Quem está mantendo seu coração batendo ? Ser. Quem faz você agir ? Ser.

Ser faz todas as coisas. Há somente consciência. Não há nada exceto consciência.

Você sabe, quando eu era garoto. Eu acreditava que tinha de fazer a vontade de Deus. Então eu me dei conta de que tinha a vontade de Deus e a minha vontade. Se eu faço algo mau, eu estou fazendo algo mau e não a vontade de Deus. Mas mais tarde você realiza que não há tal coisa como sua vontade. Há somente a vontade de Deus. Mesmo quando você pensa que está fazendo da tua maneira, você está fazendo a vontade de Deus. Quando você pensa que você está fazendo uma decisão, você na verdade faz a vontade de Deus.

Deus é consciência. Tudo que há é consciência. Nada há exceto consciência.

Então quando nós falamos sobre o ser humano, nós podemos dizer que destino e programação são programações, e a parte do Ser é Amor Incondicional. Isto apenas é. Isto é um espaço. Eu gostaria que você pensasse isto assim dessa maneira – pense em um vaso. Poderia ser bonito ou feio – o ponto é, o que é há útil num vaso ? Não é o seu espaço vazio, certo ? Se o espaço vazio isto poderia conter alguma coisa. O vaso é inútil. Mas quando nós olhamos um vazo, nós olhamos o vaso e não seu propósito.

Isso é também o que acontece conosco. Nós olhamos uma pessoa e nós vemos personalidade e corpo, e não realizamos que o que faz o humano possível, o que faz uma pessoa, é o espaço, o Ser.

O maravilhoso sobre o ser humano é que o humano na verdade não existe. Isto é o Ser aparecendo como humano. Tem sido cientificamente provado que o corpo é nada mais que energia que é solidificada através da estrutura molecular do pensamento. Cada célula do corpo, cada uma é inteligente e consciente e sabe exatamente o que fazer. Se você se corta, ela sabe exatamente o que fazer para reparar e curar a si mesma. Isto é uma inteligência surpreendente.

De onde essa inteligência vem ? Está vindo do corpo ou do Ser no corpo. É o Ser que faz tudo. Da mesma maneira que seu cabelo cresce, seu sangue pulsa, suas emoções e sentimentos e todas as coisas estão sendo feitas pelo Ser.

Nós sempre pensamos em termos de dois, não de um. Nós fazemos isto com o ser humano, pensando que isto é um humano e um ser, dividindo isso em dois, mas em realidade não há ser humano – há somente Ser aparecendo como humano. Há somente Ser.

Burt Harding em Satsang

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