25 de julho de 2014

Religiosidade - Osho



"O ser humano precisa de uma nova prescrição, de uma nova Bíblia. E a novidade será esta: ela não será um livro, uma seita, ou uma igreja, mas uma qualidade - as pessoas podem ser religiosas. Não há necessidade de elas serem cristãs, hindus ou muçulmanas; elas podem ser simplesmente religiosas. Não há necessidade de qualquer adjetivo. A religiosidade pode tornar-se apenas um modo de vida. Uma pessoa religiosa caminhará de uma maneira diferente da não-religiosa. Qual será a diferença? A diferença será sua consciência.

Uma pessoa religiosa agirá de uma maneira diferente da não-religiosa. Sua ação virá a partir do amor. Uma pessoa religiosa natural, obviamente criará um tipo diferente de fragrância à sua volta - porque não haverá ego e, portanto, não haverá nenhuma nuvem à sua volta. Uma pessoa religiosa viverá uma vida luminosa; uma luz seguirá filtrando-se para fora do seu centro mais profundo. Uma pessoa religiosa será uma pessoa consciente - não cristã, hindu ou muçulmana.

E lhe digo que o dia para isso chegou. Nunca antes na história da humanidade houve um tal momento crítico, nunca as pessoas estiveram tão desenraizadas do passado, tão saturadas de todos os velhos conceitos, os velhos ídolos e as velhas ideologias. É a primeira vez, que as pessoas estão completamente saturadas. Esse é um bom sinal e de imenso valor, e simplesmente mostra que o salto quântico é possível agora: a religião pode ser tentada, pode ser feita uma tentativa.

O espírito do tempo está aprontando para receber a religiosidade - e isso pode acontecer somente quando o tempo estiver pronto, quando o espírito do tempo estiver pronto.

Até agora, o ser humano tem vivido um tipo de infantilidade. Deus era uma figura paterna ou materna; tratava-se de uma projeção de uma criança. A criança não pode viver sem um pai, sem proteção, sem mãos protetoras. Mesmo duas mãos não são suficientes, assim, os hindus dizem que Deus tem mil mãos - para protegê-lo. Isso simplesmente demonstra medo.

Agora, o ser humano não está mais com medo e não precisa de qualquer tipo de proteção. Pelo contrário, ele deseja entrar no desconhecido e ser aventureiro.

Ora, ir a lua nada mais é do que a indicação do espírito aventureiro. Na verdade isso não tem utilidade. Ir ao Everest não tem utilidade - não se pode viver lá e não há nada para ser encontrado. Mas em todas as direções e dimensões o estado aventureiro está tomando conta do espírito humano. O ser humano deseja penetrar na insegurança, por isso digo que o espírito do tempo está pronto. 

Agora podemos procurar um Deus que não seja uma figura paterna, que não seja uma pessoa. Agora estamos prontos para procurar pela verdade de Deus, que somente pode ser encontrada através da verdade da consciência; não há outra maneira. Você pode perceber somente aquilo para o qual você está pronto. Quanto mais consciente você estiver, mais altas as realidades que estarão disponíveis a você. Quanto mais alto você se elevar em sua consciência, mais as realidades superiores se tornarão disponíveis a você. Você estará posicionado no cume mais elevado: a partir daí tudo é disponível. Deus é revelado como totalidade.

Sufismo, Zen, Hassidismo - esses são os tipos mais elevados de religiões que existiram até o momento. (...)
Agora o sannyas é um esforço para juntar tudo o que é belo no Sufismo, no Zen, no Hassidismo, no Tantra, Yoga. Tudo o que é belo em todas essas grandes aventuras precisa se tornar a base do sannyas. Ela pode liberar a religiosidade ao mundo, pode fazer com que seja possível dar uma chance à religiosidade. (...)
O ser humano sofreu o suficiente! Mas lembre-se o sofrimento não está vindo dos capitalistas, senão o comunismo teria ajudado. O sofrimento não está vindo de fora, mas é criado pelo próprio ser humano. Assim, as raízes do ser humano precisam ser mudadas, e as chaves estão disponíveis, sempre estiveram disponíveis, porém não foram usadas. (...)


Para a pessoa penetrar na religiosidade ela terá de abandonar sua religião, sua contenda. A pessoa deve estar completamente livre das contendas. Não se pode ir à verdade como um cristão, muçulmano ou comunista. Não se pode ir à Deus com qualquer ideia própria. Pode-se ir somente em pura e completa nudez, pode-se ir somente como um espelho."
Osho em A Sabedoria das Areias vol 3

23 de julho de 2014

Atividade e Ação - Nisargadatta


"Onde está a necessidade de mudar o que quer que seja? A mente está mudando de alguma forma todo o tempo. Olhe para sua mente desapaixonadamente; isso é o suficiente para acalmá-la. Quando ela estiver quieta, você pode ir além dela. Não a mantenha ocupada todo o
tempo. 


Pare-a, e simplesmente seja. Se você der descanso à mente, ela se centrará e recobrará sua pureza e força. O pensar constante a faz decair.
Nada que você faça mudará a si mesmo, pois você não precisa de nenhuma mudança. Você pode mudar sua mente ou seu corpo, mas isso é sempre algo externo a você que foi mudado, não você mesmo. 

Por que se importar com toda essa história de mudança? Realize de uma vez por todas que nem seu corpo, nem sua mente e nem mesmo sua consciência é você e mantenha-se de pé sozinho em sua verdadeira natureza além da consciência e inconsciência. Nenhum esforço pode levá-lo lá, somente a clareza do entendimento. Não tente reformar a si mesmo, simplesmente veja a futilidade de toda mudança. 

O mutável mantem-se em mutação enquanto o imutável espera. Não espere que o mutável o leve ao imutável – isso jamais acontecerá. Somente quando a própria idéia de mudança é vista como falsa e abandonada, o imutável pode surgir.

As atividades da maioria das pessoas é sem valor, senão destrutiva. Dominado pelo desejo e medo, eles não podem fazer qualquer coisa de bom.

Os gurus estilizados falam de madurez e esforço, de mérito e aquisições, de destino e graça; tudo isso é mera formação mental, projeções de uma mente viciada. Ao invés de ajudar, eles obstruem. Não corra para a atividade. Nem aprendizagem nem ação podem realmente ajudar.

Não é o que você faz, mas o que você para de fazer que importa.

A atividade não é ação. Ação é oculta, desconhecida, inconhecível. Você pode somente conhecer o fruto. Ação não leva à perfeição; perfeição é expressa na ação. Há uma diferença entre trabalho e mera atividade.

Toda a natureza trabalha. Trabalho é natureza. Natureza é trabalho. Por outro lado, a atividade é baseada no desejo e no medo, no desejo de possuir e desfrutar e no medo da dor e aniquilação. Trabalho é pelo todo para o todo, atividade é para si mesmo e por si mesmo.

Sua mente está estagnada nos hábitos de avaliação e aquisição, e não admitirá que o incomparável e o inobtenível estão esperando eternamente dentro de seu próprio coração por reconhecimento.Tudo que você tem a fazer é abandonar todas as memórias e expectativas. Apenas mantenha-se pronto em total nudez e vazio. Não faça nada, apenas seja. Apenas sendo tudo acontece naturalmente. Seja nada, saiba nada, tenha nada.

Esta é a única vida que vale a pena ser vivida, a única felicidade que vale a pena ter.

Você não pode fazer nada. O que o tempo traz, o tempo levará embora.
Este é o fim da Yoga, realizar independência. Tudo o que acontece, acontece na e para a mente, não para a fonte do “Eu sou”. Uma vez que você realize que tudo acontece por si mesmo (chame a isso destino ou vontade de Deus, ou mero acidente), você permanece como testemunha somente, compreendendo e apreciando, mas nunca perturbado. Você é responsável somente pelo que você pode mudar. Tudo que você pode mudar
é sua atitude. 
Aí mora a sua responsabilidade."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

21 de julho de 2014

Sendo, sendo, sendo...


“Imagine dois peixes discutindo sobre o que a água é.
Imagine dois pássaros tentando chegar a alguma compreensão conceitual
sobre o ar.
Imagine o oceano tentando capturar o que "molhado" significa.
Imagine um cachorro acreditando que precisa entrar num caminho espiritual para alcançar a “cachorritude”.
Imagine dois alienígenas em outro planeta tentando entender o que a
vida é.

Você vê a insanidade de toda iluminação? 

A iluminação significa apenas presença, ser, vivência. As palavras não são as coisas que elas descrevem. Essas palavras estão meramente apontando para essa mesma vida em que você está neste momento.

Toda sua busca por iluminação está ocorrendo na iluminação. 

Toda sua busca por presença está acontecendo na presença. 

Sua busca por ser está acontecendo sendo

A busca pela vida está sendo conduzida para a vida ela mesma. 

Você é o que você está buscando. 

Você está procurando por Deus com os olhos dele.

Conforme isso é percebido, e só pode ser percebido agora porque a vida é só agora, é percebido que nenhuma palavra, idéia, filosofia, sistema de conhecimento ou guia poderia jamais chegar mais perto d’Isso” do que você está.

“Isso” é tão simples, tão óbvio e tão imediatamente perto que é ignorado assim que procuramos por isso ou assim que você começa a tentar achá-lo em pensamento.”
Scott Kiloby, em Reflections of the One Life

***
Até quando iremos nos deixar levar por ideias ao invés de nos deliciarmos com a Realidade?
Até quando iremos valorizar aquilo que é dito, aquilo que é idealizado, ao invés de simplesmente olharmos aquilo que está a nossa frente, ao lado, atrás e sentir no mais profundo do nosso ser...Deus é Isso! Deus aqui! Deus e Eu! DeuS !! 
Tão óbvio a plenitude divina nos mínimos detalhes, no micro, no macro, na ausência de separação, na ausência de divisão, na fluidez da vida, da realidade, no nascer, no morrer, no dia, na noite, na respiração, no céu, no vento, no mar.. na terra...
Cercados de presença por todos os lados, somos peixes mergulhados num mar de Deus, peixes-Deus, aves-Deus voando neste céu-Deus...somos Deus vivente, expressões infinitas de Deus... Só Deus É...

A simplicidade da Verdade não requer explicações, é uma constatação imediata, simples, absoluta e definitiva.

Isso é tão próximo, tão óbvio que é ignorado, e assim procuramos por isso em pensamentos... e aí a falta começa, a infelicidade, a busca, e toda miséria humana tem início...nessa simples mudança de olhar...
Perdemos aquilo que é, ( Realidade ) por aquilo que não é ( Sonhos, pensamentos, imaginação )...


Pensamentos são apenas pensamentos...nada mais...
Reconhecer isso, é enxergar...é simplesmente Ser... isso não requer nenhuma explicação, não requer nenhum ensinamento...

Vida, Realidade é agora, e o agora é Ser...

Namastê
Amidha

19 de julho de 2014

Sem amor - Osho


"Sem amor a pessoa permanece sozinha, separada do centro da existência.

Sem amor cada um é uma entidade isolada, sem qualquer conexão com
outros de sua espécie.

Hoje, o ser humano se acha totalmente solitário. Nós todos estamos isolados uns dos outros, presos dentro de nós mesmos.
Você esta vivo? Você sente o fluxo do amor nas suas veias? Se não sente
esse fluxo, se a vibração do amor cessou em seu coração, então você deve entender bem que não está realmente vivo de jeito nenhum.

Uma vez eu estava numa viagem e alguém me perguntou qual a palavra no
vocabulário humano era a mais valiosa. Minha resposta foi amor. O homem
ficou surpreso. Ele disse que esperava que eu dissesse alma ou deus. Eu
ri e disse 'Amor é Deus.'

Elevando-se no raio do amor alguém pode entrar no iluminado reino de Deus. É melhor dizer que amor é Deus do que dizer que a verdade é Deus, porque a harmonia, a beleza, a vitalidade e o êxtase, que são partes do amor, não são partes da verdade. 


A verdade é para ser conhecida; o amor é para ser sentido tanto quanto ser conhecido. 

O crescimento e a perfeição do amor levam para a suprema união com Deus.
A maior pobreza de todas é a ausência de amor. O humano que não desenvolveu a capacidade de amar vive num inferno privado, próprio. 

Um humano que está preenchido com amor está no paraíso. 

Você pode ver o humano como uma maravilhosa e única planta; uma planta que é capaz de produzir néctar e veneno, ambos. 

Se um humano vive no ódio, ele colhe uma safra de veneno; se vive em amor, ele junta flores carregadas de néctar."
Osho em Todos os Dias

17 de julho de 2014

Namaste! - Pedro Kupfer


"Todos conhecemos bem a palavra sânscrita namaste. Até os não
praticantes de Yoga da minha família adotaram o namaste como uma saudação cotidiana, por força de nos ouvir usando esse termo tão lindo, e a gente se diverte com isso. Esta saudação se estendeu atualmente a muitos ambientes alheios ao Yoga e à espiritualidade e até entrou para os dicionários
ingleses, por influência dos emigrantes indianos para o Reino Unido. 


De namaste deriva ainda a palavra persa namaz ou namasés, que é o nome da prece/prostração que os muçulmanos fazem cinco vezes por dia.

Namaste vem de namah, que significa “entrega”, “reverência”. 

O Yoga explica que toda a criação é namarupa, uma infindável miríade de formas e nomes, que são todos nomes e formas do único Ser, Brahman. 

Namaste aponta então para o Ser, manifestado e presente sob todos os nomes e todas as formas, animadas e inanimadas. Sendo estes nomes e formas diferentes aspectos da manifestação de Brahman, o Ser, todas as formas de vida, bem como todas as formas inanimadas, são sagradas e dignas de respeito.
É por isso que o hinduísmo reverencia todas as criaturas e formas de vida, e
é por isso que o princípio da não-violência, ahimsa, é tão importante para todos nós, praticantes e não praticantes de Yoga. 

Nós conhecemos esse respeito pela vida através da imagem de Kamadhenu, a vaca sagrada, que simboliza a generosidade sem limites de toda mãe, e representa a sacralidade da própria existência.

Assim como no Ocidente existe um significado lindo e profundo por trás
da palavra “adeus”, namaste também tem uma historinha por trás das suas sete letras. Aliás, “adeus” é a contração de uma antiga fórmula de saudação que, completa, era “entrego-te a Deus”.
Noutras palavras, “a Deus encomendo tua alma já que, a partir de agora,
não estarei contigo para te cuidar”
.
De adeus, o dicionário Houaiss diz: “Fórmula de despedida com que se pede
a proteção de Deus para quem fica ou parte e que significa Deus fique contigo, Deus vá contigo”.


Similarmente, namaste ou namaskar são usadas como saudação, tanto no encontro como na despedida entre as pessoas. 

Literalmente, significa “a você, meu namaskar”, minha reverência,
meu reconhecimento da presença do Ser em você. 
Esta palavra é a primeira num mantra védico para Shiva, chamado Sri Rudram, que aparece no Rig Veda, o livro mais antigo da Humanidade, que trata extensamente da vida de Yoga. 

A estrofe inicial deste hino é assim:

Namaste astu Bhavagan, 
Vishveshvaraya Mahadevaya Tryambakaya
Tripurantakaya Trikalagnikalaya
Kalagnirudraya Nilakanthaya
Mrityuñjayaya
Sarveshvaraya Sadashivaya
Shrimanmahadevaya Namah.


A tradução do mantra é a seguinte:
Minha saudação a ti, Senhor, Mestre do Universo, 
Grande Senhor, dotado de três olhos, Destruidor de Tripura, 
Destruidor do fogo Trikala e do fogo da morte, Aquele de Garganta Azul, o Vitorioso sobre a Morte, o Senhor de Tudo, o Sempre-Auspicioso, o Glorioso
Senhor de todas as Deidades”.


Shiva é, no hinduísmo, a forma divina que dissolve a criação no fim dos
ciclos cósmicos. O nome significa “auspicioso”. Shiva representa assim,
transformação, mudança, renovação, aceitação e gratidão. Como toda
mudança é para o bem, ou acontece para o bem, Shiva aponta para o poder dessa transformação, bem como para a gratidão decorrente dela.

Isto nos mostra que, mesmo quando não compreendemos, ou temos dificuldade em aceitar as contingências boas e menos boas que a vida nos coloca, o que cabe é cultivar o contentamento e a aceitação pacífica dessas mudanças. 
O terceiro olho de Shiva representa a sabedoria, pela qual o adharma (erro de conduta), é eliminado e moksha é alcançado. 
Moksha é a libertação da roda dos condicionamentos, o samsara.

A saudação namaste é tradicionalmente acompanhada de um gesto chamado añjali mudra, com as palmas das mãos unidas frente ao coração, e uma ligeira
inclinação da cabeça, em sinal de respeito. Nos templos hindus, as deidades são reverenciadas fazendo-se o gesto de namaskar, que é, para os homens, uma prostração completa de bruços e, para as mulheres, uma inclinação da cabeça até o chão, sentando sobre os calcanhares.

Desses dois gestos físicos de prostração, o masculino e o feminino nasceram, naturalmente, o surya e o chandra namaskar, a saudação ao Sol e à Lua, que são muito familiares para os praticantes de Hatha Yoga. 

À beira do rio Ganges, na Índia, é muito freqüente vermos pessoas fazendo
namaste para as águas sagradas, com um gesto também familiar para os
praticantes de Yoga, que consiste em elevar os braços até o céu e fazer uma
flexão à frente.
Assim, na próxima vez que formos usar esta linda saudação, façamos isso
conscientemente, lembrando que aquele que está na nossa frente não é,
essencialmente, diferente de nós mesmos. Todos os nomes, todas as
formas, todos os humanos, todas as criaturas vivas, são dignas do mesmo respeito, da mesma reverência.
Que possamos lembrar e celebrar esse significado nos encontros e despedidas
com cada amigo, com cada companheiro de caminhada, com cada ser humano,
mesmo se ao invés de namaste, dizermos
bom dia”. 
Namaste para você!
Pedro Kupfer em Namaste

16 de julho de 2014

Caminha livre - Mooji


"Todos estão convidados a este fogo.
Lance todas suas perguntas.
Também lance todas as suas respostas.
Jogue todas as suas preocupações.
Tenha essa coragem.
Não tenho mais tempo para respostas.
Coloque tudo no fogo.
E faça agora.

Isso é instantaneamente.
Jogue tudo agora.
Sem prática nem nenhuma filosofia.

Mas quem pode fazê-lo? Veja ?
Estás disposto a estar completamente vazio?
Não ser uma mulher ou mesmo um homem 
Não seja um motor de busca.
Não ter nada.
Não dize mais orações.
Não cantar mais mantras.
Não ir mais peregrinações .
Deixar tudo , porque até agora a 
procura é ainda uma evasão ,
é uma outra desculpa de sua mente 
para não descobrir a verdade sempre presente .

Nossas mentes querem dizer muito sobre a verdade.
Mas nada do que ela diz é verdade.
Estás aqui diante da mente .
Conheces suas maneiras.
É por isto que eu digo

Jogue tudo no fogo agora.

Minhas palavras parecem muito drástica 
mas são totalmente poderosas.

Por que seguir carregado a mente 
atrás das costas ?
Sacrifique-a e caminha livremente.."
Mooji em Satsang

14 de julho de 2014

Lembrar de Si - Nisargadatta Maharaj


"Pergunta: Quando olho para dentro de mim, encontro sensações e percepções, pensamentos e sentimentos, desejos e medos, memórias e expectativas. Estou imerso nesta nuvem e não consigo ver nada mais.
Nisargadatta: Aquele que vê tudo isso, e o nada também, é o mestre interno.
Apenas ele existe; todo o resto apenas parece existir. Ele é seu próprio Ser (swarupa), sua esperança e garantia de liberdade; encontre-o e agarre-se a
ele e você será salvo e estará seguro.

Ver o falso como falso é meditação. Isto deve ser contínuo, o tempo todo.

Posso falar-lhe sobre mim. Eu era um homem simples, mas confiei em meu Guru. O que ele me disse para fazer, eu fiz. Ele disse que me concentrasse
no “Eu sou” – assim o fiz. Ele me disse que eu estou além de tudo o que é perceptível e concebível – eu acreditei. Dei a ele meu coração e minha alma, minha completa atenção e todo meu tempo disponível (eu tinha que trabalhar para manter minha família). Como resultado da fé e esforço dedicado, eu realizei o Ser (swarupa) em três anos.

Estabeleça-se na consciência de “Eu sou”. Este é o começo e também o fim de todo o esforço.

Para saber o que você é, você deve primeiro saber e investigar o que você não é. E para saber o que você não é, você deve observar-se cuidadosamente, rejeitando tudo o que necessariamente não combina com o fato básico “Eu sou”.

Nossa atitude comum é “Eu sou isso”. Separe consistente e perseverantemente o “eu sou” do “isto” e do “aquilo”, e tente sentir o que significa ser, apenas ser, sem ser “isto” ou “aquilo”. Todos os nossos hábitos vão contra isto e a tarefa de lutar contra eles é longa e árdua às vezes, mas o entendimento esclarecido ajuda muito.
Quanto mais claramente você entender que no nível da mente você pode ser
descrito apenas em termos negativos, mais rapidamente chegará ao fim de sua busca e realizará seu ser ilimitado.

Pergunta: Como se alcança isto?
Nisargadatta: A ausência de desejo e de medo o levará lá.
O Supremo é o mais fácil de se alcançar pois é o seu próprio ser. É suficiente não desejar nem pensar em nada que não o Supremo.

É a falsidade que é difícil e que é fonte de problemas. Ela sempre quer, espera, exige. Sendo falsa, é vazia, sempre em busca de confirmação e reconfirmação. Tem medo da inquirição e a evita; identifica-se com qualquer
apoio, por mais fraco e momentâneo que seja. O que quer que consiga, perde, e pede mais.

Mesmo que eu lhe diga que você é a testemunha, o observador silencioso, isto não significará nada para você a menos que encontre o caminho para seu próprio ser.

Pergunta: Minha pergunta é: Como encontrar o caminho para o próprio ser?

Nisargadatta: Desista de todas as perguntas, exceto “Quem sou eu?” Pois,
afinal, o único fato do qual você tem certeza é que você é. O “Eu sou” é
certo. O “eu sou isto” não é.

Esforce-se para encontrar o que você é na realidade.
Lembrar-se de si mesmo é virtude, esquecer de si mesmo é pecado.

O procedimento correto é aderir ao pensamento de que você é o campo de
todo conhecimento, a Consciência imutável e perene de tudo o que acontece aos sentidos e à mente. A ideia “Eu sou apenas a testemunha” purificará o corpo e a mente e abrirá o olho da sabedoria. O homem vai além da ilusão e seu coração se liberta de todos os desejos.

Por sua própria natureza, o prazer é limitado e transitório. Da dor o desejo nasce, na dor ele busca realização e termina na dor da frustração e do desespero. A dor é o pano de fundo do prazer, toda busca de prazer nasce na dor e termina na dor. Discriminar e descartar (viveka-vairagya) são absolutamente necessários. 
Tudo deve ser examinado cuidadosamente e o desnecessário deve ser impiedosamente destruído.

Acredite-me, não poderá haver destruição demais. Pois na realidade nada tem valor. Seja apaixonadamente desapaixonado – isto é tudo.

Quando, através da prática da discriminação e desapego (viveka-vairagya), você perder de vista os estados sensorial e mental, o puro ser emergirá como o estado natural.

Para conhecer o mundo você se esquece do Ser – para conhecer o Ser, você se esquece do mundo.
O que é o mundo, afinal? Uma coleção de memórias. Agarre-se ao que importa, segure-se no “Eu sou” e abra mão de todo o resto. Isto é sadhana.

Esteja plenamente consciente de seu próprio ser e você estará na bem-aventurança conscientemente. É porque você dirige sua mente para fora de si mesmo e fixa naquilo que você não é, que você perde seu senso de bem estar, de estar bem.
Como sabe, a personalidade é apenas um obstáculo. A auto-identificação com o corpo pode ser boa para uma criança, mas crescer verdadeiramente depende de tirar o corpo do caminho ( ir além do corpo). Normalmente, a pessoa deveria superar em relação aos desejos do corpo cedo na vida. Mesmo o Boghi, que não recusa prazeres, não precisa ansiar por aquilo que ele já experimentou. Hábito, desejo pela repetição, frustra tanto o Yogi quanto o Boghi.

Existem tantos que tomam o alvorecer pelo meio dia, uma experiência momentânea pela plena realização e destroem até mesmo o pouco que tinham conseguido, por excesso de orgulho. A humildade e o silêncio são essenciais para um sadhaka [buscador], por mais avançado que seja. Apenas um jnani [iluminado] plenamente amadurecido pode permitir-se completa espontaneidade.
Seja atento, investigue incessantemente. Isto é tudo.

Com certeza, seja egoísta – da maneira certa. Deseje estar bem, trabalhe no
que é bom para você. Destrua tudo o que se coloca entre você e a felicidade. Seja tudo – ame tudo – seja feliz – faça feliz.

A memória é material – destrutível, perecível, transitória. Sobre tais frágeis fundações construímos um sentido de existência pessoal – vago, intermitente, onírico. Essa vaga persuasão: “Eu sou isto e isto” obscurece o estado imutável da Pura Consciência e nos faz acreditar que nascemos para sofrer e morrer.

A liberdade para fazer o que se quer é, na realidade, escravidão, enquanto ser livre para fazer o deve, o que é correto, é a real liberdade.Tudo o que você tem a fazer é ver o sonho como sonho.

Seja qual for o nome que dê a isso: vontade, firme propósito, ou mente
focada, você retorna à seriedade, sinceridade, honestidade. Quando você é intensamente sério, você faz uso de cada acontecimento, cada segundo de sua vida ao seu propósito. Você não desperdiça tempo e energia em outras coisas. É totalmente dedicado, chame a isto vontade, amor ou total honestidade.

Encontre o permanente no efêmero, o único fator constante em cada experiência.Nada pode bloqueá-lo mais que as concessões, pois elas mostram a falta de seriedade, sem a qual nada pode ser feito.

Comece desassociando-se de sua mente. Resolutamente lembre-se que você não é a mente e que os problemas dela não são seus.
Dê sua total atenção ao que é mais importante em sua vida – você mesmo.
Do seu universo pessoal, você é o centro – sem conhecer o centro, o que mais você pode conhecer?

Para ir além da mente, você deve manter sua mente em perfeita ordem. Você não pode deixar uma bagunça para trás e seguir em frente. A confusão vai lhe puxar. “Recolha seu lixo” parece ser uma Lei Universal. E uma lei justa também.

Apenas lembre-se de você mesmo. “Eu sou” é suficiente para curar sua mente e levá-lo além. Apenas confie um pouco.

Se quiser conhecer sua verdadeira natureza, deve ter a si mesmo em mente todo o tempo, até que o segredo de seu ser seja revelado."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

11 de julho de 2014

A crise é essencial - Osho


"O ser humano está sempre em crise. Ele é crise...constante, que não é acidental, mas essencial. O próprio ser das pessoas consiste de crise, daí a ansiedade, a tensão e a angústia. O ser humano é o único animal que se desenvolve, que se move, que se transforma, que não nasce completo, fechado ou como uma coisa, mas como um processo. Ele está em aberto, seu ser consiste em tornar-se e esta é a crise. Quanto mais ele se torna mais ele é.

O ser humano não pode tomar a si mesmo como algo garantido, do contrário a pessoa se estagna e vegeta, e a vida desaparece. A vida somente permanece quando a pessoa está se movendo de um lugar a outro; a vida é este movimento entre dois lugares. Não se pode ficar vivo num só lugar - esta é a diferença entre algo morto e um fenômeno vivo. Uma coisa morta permanece no mesmo lugar; ela é estática. A coisa viva se move - não apenas se move, mas salta, pula. A coisa morta permanece sempre no conhecido, e o fenômeno vivo segue se movendo do conhecido para o desconhecido , do familiar em direção ao não-familiar; esta é a crise. O ser humano é o mais vivo.

Você precisa continuar a se mover. O movimento cria problemas, pois ele significa que você precisa seguir morrendo para aquilo que você conhece, para o passado, que é familiar, confortável e aconchegante. Você o viveu, ganhou experiência, aprendeu muito com ele; agora não há perigo nele; ele se ajusta a você e você se ajusta a ele. Mas o ser humano precisa se mover, precisa continuar a aventura. Você é uma pessoa somente quando continuamente prossegue nesta aventura do conhecido ao desconhecido.

A mente se apega ao passado, pois ela é o passado. Mas seu ser deseja ir além do passado, deseja investigar. Seu ser tem um descontentamento intrínseco que eu chamo de descontentamento divino. Tudo que você tem, você consumou isso; tudo o que você é, você consumou isso. Você deseja ter aquilo que você não tem e ser aquilo que você não é. O ser humano tateia no escuro à procura de mais ser, de um novo ser, de um ser mais rico.

Não é correto dizer que o ser humano nasce num dia e more num outro. Isso é verdadeiro em relação aos outros animais, mas não em relação ao ser humano. Animais nascem um dia - eles têm um nascimento - e então um dia morrem. O ser humano está constantemente morrendo e constantemente nascendo. Cada momento é uma morte e um nascimento. Nele, a morte e o nascimento não são opostos, mas são como duas asas de um pássaro, complementares, uma ajudando a outra. 
A morte simplesmente ajuda o nascimento a acontecer. A morte segue limpando o terreno, de tal modo que o passado possa cessar e o futuro possa ser; a morte está a serviço do nascimento. Na verdade não está correto chamá-los de dois momentos. Trata-se de um processo visto de dois ângulos diferentes.

É como um portão, de um lado é a entrada e do outro é a saída; ou como a respiração: a mesma respiração entrando é chamada de inspiração e a mesma respiração saindo é chamada de expiração; trata-se da mesma respiração.

A morte é a expiração, o nascimento é inspiração. O nascimento é a entrada, a morte é a saída, mas é a mesma energia de vida, a mesma onda. O ser humano precisa morrer a cada momento e precisa estar pronto para renascer repetidas vezes. Entre essa constante morte e renascimento, está a vida, entre esses dois está o intervalo que é a vida. A vida está entre o passado e o futuro, neste pequeno intervalo chamado "presente". Ele não tem duração, ele existe sem qualquer duração. O passado tem duração e extensão; o futuro tem duração e extensão. O presente não tem duração; ele simplesmente existe... ele é atômico. Entre o passado, o longo passado e o longo futuro existe um intervalo. Conhecem esse intervalo apenas aqueles que prosseguem constantemente morrendo e renascendo, pois eles passam repetidamente através dele. Sempre que se está disposto a passar por esse intervalo, encontra-se uma crise.

A crise é que a mente naturalmente deseja se apegar ao conhecido, ao familiar; ela é eficiente nisso. De alguma forma, ela aprendeu, e a aprendizagem foi árdua; agora de repente, você se move e toda aquela aprendizagem é perdida e nunca será de novo relevante e eme nenhuma outra situação terá qualquer significado. Ela somente pode ter significado na situação na qual você viveu. Apegue-se a ela, diz a mente.

Mas o ser não pode ser contido pela mente; ele é infinito e a mente é uma abertura bastante pequena. O ser é como o céu - ele não poder ser contido nela. A mente é muito estreita e o ser deseja sair dela, deseja crescer e se tornar mais e mais amplo. O ser deseja ir ao recanto mais distante da existência; ele é uma aventura, ele deseja arriscar - esta é a crise.

E cada pessoa precisa encarar essa crise. Existem duas alternativas: devido ao medo você pára de morrer para o passado e fica estagnado. As pessoas chamam suas estagnações de segurança e proteção, mas essas duas são apenas racionalizações para permanecerem estagnadas. Elas se tornam poças ao invés de rios, se encolhem e jamais conhecem a satisfação do fluir. A satisfação é apenas um subproduto do fluir. Quando o rio flui, há satisfação, há dança, há canção. Quando sua vida flui de um espaço para outro, há satisfação - a excitação do novo.

Pode-se permanecer seguro e protegido com o passado, pode-se evitar a crise, e é isso que milhões de pessoas decidiram. Mas então elas permanecem medíocres e imbecis e apenas envelhecem e não amadurecem. Elas ficam estagnadas; suas vidas se tornam um deserto e elas jamais chegam a ver o oceano. Somente quando se chega a conhecer e a entrar no oceano é que se sabe o que é bem-aventurança. O ser humano precisa continuamente abandonar o passado e continuar a procura; ele precisa alimentar e nutrir a sua busca.

Mas o ser humano inventou muitas e muitas coisas para evitar isso; ele inventou muitas filosofias.(...)
O problema real é somente um: como seguir continuamente morrendo para o passado? Como continuar a permanecer corajoso o suficiente para tomar uma nova vida a cada momento? Como continuar a nascer? Este problema é evitado pela filosofia; ela fala sobre Deus, sobre o que é a verdade, sobre a criação, sobre o céu e inferno e sobre mil outras coisas; (...)

A filosofia distrai, a teologia engana e a arte decora e consola. A arte é uma espécie de unguento, quando que o necessário é uma cirurgia, não um unguento. Ela é consoladora, mas não transformadora.(...)

Deus não é permanente.Deus é desconhecido. Mesmo aqueles que o conheceram não o conhecem. Quando eles o conhecem, sabem somente uma coisa; que chegaram ao desconhecido. E esta é a beleza.

E Deus não é permanente. Certamente ele é eterno, mas não permanente. Mas a eternidade é um fluxo. Deus está mais na flor do que na estátua que você venera no templo. Ele está presente em cada momento, em cada morte, em cada nascimento.

Deus é mudança, é crise, é caos.(...)
Mudança é Deus, pois somente a mudança é eterna.(...)

A verdadeira religião não está preocupada com nada além desta vida. Ela investiga esta vida e encontra o além. A outra realidade não está em algum outro lugar, mas oculta nesta realidade. Esta realidade é a outra realidade! A diferença está na sua visão; se você tiver profundidade, verá que esta realidade é a outra realidade. Isto é aquilo! Este significado do famoso dizer dos Upanixades: Swetketu, vós sois aquele, Tatwamasi, Swetketu.

Deus está presente em tudo, é a profundidade de tudo - deixe-nos dizê-lo desta maneira. Deus é a profundidade da rosa, da rocha, do homem e da mulher, do amor, da tristeza, da alegria... Deus significa profundidade. E se você sabe como viver profundamente...você só saberá como viver profundamente se prosseguir constantemente morrendo para o passado e nascendo no futuro. Entre esses dois acontece a profundidade e o seu ser se aprofunda. De repente a porta se abre e você pode ver aquilo que é. Por um momento a mente não está mais funcionando e é abandonada. A nova mente ainda não nasceu e você pode ver a verdade como ela é. Logo a nova mente nascerá, e no momento em que ela nasce ela começa a envelhecer; novamente você terá de abandoná-la. Isso eu chamo de meditação.

Meditação é uma maneira de encarar a crise real da vida, de encarar o próprio crescimento e as dores crescentes."
Osho em A Sabedoria das Areias

8 de julho de 2014

A Nascente - O. M. Aïvanhov


"Já vos falei muitas vezes da nascente e não somente da pequena nascente das montanhas, mas dessa nascente muito mais poderosa, a nascente única: o sol. Infelizmente, quando se observa os humanos, percebe‑ se, em função dos seus raciocínios e das suas atitudes, que eles nunca se preocuparam com a nascente, com o ponto que vibra, que brota, que projeta. 

Eles dirão: «Mas o que é que pode trazer‑nos o fato de nos determos nessa imagem da nascente?» Coitados! Talvez sejam eruditos, mas não viram o essencial.

Não viram que toda a orientação da sua existência e dos seus atos depende
exclusivamente da imagem que colocaram na sua cabeça. Eles escolheram imagens vivas, jorrantes, como a nascente, como a fonte, como o sol, ou imagens mortas como o pântano? Tudo reside nisto. Em função das observações que faço diariamente, como a nascente, eu descubro que tudo depende da escolha que o homem faz, do ponto de vista simbólico, entre a nascente e o pântano; esta escolha revela a sua compreensão da vida.

Ouve‑se muitas vezes as pessoas queixarem‑se de que tudo lhes corre mal. E por que é que tudo lhes corre mal? Porque elas não entenderam que no seu intelecto, na sua alma, deveriam ter colocado em primeiro lugar o que existe de mais puro e de mais divino – a nascente –, para que esta nascente, ao correr, purifique tudo neles e faça crescer todas as suas sementes divinas. 

Nos seus pensamentos e nos seus desejos não se sente esta preocupação essencial com um centro, uma nascente, um sol, um espírito, um amor. Elas detiveram‑se em coisinhas insignificantes e não conseguem compreender, não querem compreender. Chafurdam continuamente em águas estagnadas e poluídas onde se agita toda a espécie de animalejos e até zombam da filosofia dos Iniciados, que insistem sempre na importância mágica da ligação à nascente, à fonte. Como podem elas estar convencidas de que o que está a apodrecer, a criar bolor, a desagregar‑se, vai ajudá‑las?

Há quem não compreenda por que é que nós vamos ver o sol nascer... É simbólico, é para conseguirmos perceber que em todos os domínios da vida devemos ligar‑nos ao sol, quer dizer, à fonte. Mas tentai convencer todas essas pessoas “inteligentes” a ir ver o nascer do sol! Elas dirigem sempre a sua atenção para o que está morto, estagnado, poluído, e depois, quando lhes acontecem infelicidades, perguntam porquê. É porque têm nelas impurezas, porque não tomaram a nascente como modelo!

Eu pergunto a alguém: «Já viu uma nascente? Pode dizer‑ me o que se passa junto de uma nascente?» «– Claro que sim!», responde a pessoa. Mas, na realidade, ela não observou bem... Por isso, eu faço perguntas: «Então, o que
há à volta da nascente? – Plantas, vegetação. – E mais? – Insetos, aves, animais. – E além disso? – Também há homens que vieram instalar‑se. – Muito bem. 
E já reparou no que se passa quando a nascente seca? A erva
desaparece imediatamente, depois os animais, depois os homens. As árvores são o que resiste mais tempo.

Compreendeu realmente tudo isto? –
Claro que sim, é muito simples. – Então, por que é que deixou secar a sua nascente? – Qual nascente? Não compreendo...»

Como vedes, a pessoa não compreende. As pessoas creem sempre que compreendem, mas isso só acontece aparentemente. Então, eu digo: «Estou
a falar da nascente que jorra no seu interior. Por que a deixou secar? –
Qual nascente? Eu não deixei secar nascente nenhuma. – Sim, deixou secar
a sua nascente: já não tem amor.
Alguém o ofendeu, lesou, roubou ou enganou um pouco e você disse: «Acabou‑se! Não voltarei a ser generoso, bom, caridoso, não vale a pena, os homens não merecem.» E agora a sua nascente já não corre.
Evidentemente, já ninguém o enganará ou o lesará e você julga ter ganho alguma coisa, mas, na realidade, perdeu tudo. Deveria ter continuado a deixar‑se enganar, se necessário, o importante era que a nascente nunca secasse! Alguém o ofendeu, o roubou, mas isso não é nada comparado com a bênção que é ter em si uma nascente que corre, pois ela traz‑lhe tudo, limpa tudo, restabelece tudo.»

Os humanos têm necessidade desta filosofia, a mais maravilhosa, a mais verídica: a filosofia da nascente... 
Com a desculpa de que sofreu uma pequena injustiça, uma pessoa decide já não ter amor por quem quer que seja; então, acabou‑se!, ela fica morta. E um morto, o que é que ganhou?
É formidável a maneira como os humanos raciocinam! E é junto deles que eu
deverei ir instruir‑me? O que é que aprenderei? Irei é junto de uma nascente, ficarei horas inteiras a escutá‑la, a olhar para ela, a tocar‑lhe, a falar com ela, e em seguida pensarei nessa outra fonte, o sol, e em todas as nascentes do
universo, até à única verdadeira nascente, que é o próprio Deus, irei ligar‑me a Ele para compreender finalmente o essencial. 
Perguntareis: «Mas o que é que se pode compreender junto de uma nascente?»... Tudo! (...)

A nascente é a vida, é o amor, e o amor é omnipotente, é ele que faz nascer todas as inspirações, todas as alegrias. Não há maior verdade. Eu sei bem que, apesar de todas as verdades que ouvem há anos, muitos de vós estais num triste estado; é porque não tendes qualquer método de trabalho. O que quer que escuteis, quaisquer que sejam as verdades que poderiam ajudar‑vos, não anotareis nem fixareis nada. Se escrevêsseis pelo menos uma verdade e a colocásseis diariamente diante dos vossos olhos para a verdes, para estardes em contato com ela!... (...)
Graças a esta nascente – o amor, a vida, a água viva – tornamo‑nos um instrumento perfeito nas mãos do Senhor."

O.M Aivanhov em Os Segredos do Livro da Natureza
[ enviado por Margelino Semião - amigo e colaborador do blog - Gratidão! ]

6 de julho de 2014

Pensamento é mente - Nisargadatta Maharaj


"Maharaj: Sábio filho, abandone a mente – o atributo limitador que origina a
individualidade, assim causando a grande enfermidade de repetidos nascimentos e mortes – e realize Brahman.

Participante: Mestre, como se pode extinguir a mente? Não é muito difícil? Não é a mente muito vigorosa, inquieta e sempre vacilante? Como se pode
renunciar à mente?

Maharaj: Abandonar a mente é muito fácil, tão fácil quanto amassar uma flor delicada. (...) Não tenha dúvida. Para um buscador resoluto, senhor de si e não enfeitiçado pelos sentidos, que pelo intenso desapaixonamento se tornou indiferente aos objetos externos, não pode haver a menor dificuldade em abandonar a mente.

Participante: Como pode ser tão fácil?

Maharaj: A questão da dificuldade só surge quando há uma mente a ser renunciada. Verdadeiramente falando, não existe mente. Quando lhe dizem: “Aqui tem um fantasma”, a criança ignorante é levada a acreditar na existência do fantasma inexistente, ficando sujeita ao medo, ao sofrimento e aos incômodos. Da mesma forma no imaculado Brahman, ao imaginar coisas que não existem – como isto e aquilo – uma falsa entidade conhecida como mente surge como algo aparentemente real, funcionando como isto e aquilo e
mostrando-se incontrolável e poderosa ao incauto; porém, para o buscador
senhor de si e dotado de discernimento, conhecedor da natureza da mente, ela é fácil de ser abandonada. Só um tolo, ignorante da natureza da mente, diz que é muito difícil.

Participante: Qual é a natureza da mente?

Maharaj: Pensar nisto e naquilo. Na ausência de pensamento, não existe mente. Extinguindo-se os pensamentos, a mente permanecerá apenas em nome, tal como o chifre de uma lebre; desaparecerá como uma não entidade, o chifre de uma lebre, ou uma flor no céu. Isto também é mencionado no Yoga Vasishta.
Participante: Como?

Maharaj: Vasishta diz: “Ouve, ó Rama, nada há chamado ‘mente’. Assim como o espaço existe sem forma, também a mente existe como um vazio inanimado. Permanece apenas como nome; ela não tem forma. Não está no exterior, nem no coração. Entretanto, como o espaço, a mente, embora não tenha forma, preenche tudo.”

Participante: Como pode ser assim?

Maharaj: Onde quer que o pensamento surja como isto e aquilo, lá estará a mente.

Participante: Se existe mente onde quer que haja pensamento, mente e pensamento são diferentes?

Maharaj: O pensamento é o sinal da mente. Quando surge um pensamento,
pressupõe-se uma mente. Na ausência de pensamentos, não pode haver mente.
Portanto, a mente nada mais é do que pensamento. O pensamento é, em si, a
mente.

Participante: O que é “pensamento”?

Maharaj: “Pensamento” é imaginação. O estado livre de pensamentos é a Suprema Bem-aventurança (Sivasvarupa). Os pensamentos são de dois tipos: a evocação de coisas experienciadas e não experienciadas.

Participante: Para começar, por favor diga-me o que é “pensamento”.

Maharaj: Os sábios dizem que nada mais é do que pensar em qualquer objeto externo como isto ou aquilo, é ou não é, deste ou daquele jeito, etc.

Participante: Como isto pode ser classificado sob o título de coisas experienciadas e não experienciadas?

Maharaj: Dos objetos dos sentidos (como o som, etc.) já experienciados – como “eu vi”, “eu ouvi”, “eu toquei”, etc. – pensar neles como tendo sido vistos, ouvidos e tocados é evocar coisas já experienciadas. Trazer à mente objetos dos sentidos não experienciados é o pensamento sobre coisas não
experienciadas.

Participante: Como, então, é possível extinguir a mente?

Maharaj: Esquecer tudo é o meio supremo. O mundo não surge, a não ser pelo pensamento. Não pense e o mundo não surgirá. Quando nada surge na mente, a própria mente é perdida. Portanto, não pense em nada; esqueça tudo. Este é o melhor modo de matar a mente.

Participante: Alguém já disse isto antes?

Maharaj: Vasishta assim falou a Rama: Vasishta: Elimine os pensamentos de todos os tipos – de coisas apreciadas, não apreciadas, ou outras. Como a madeira, ou a pedra, permaneça livre de pensamentos.
Rama: Devo eu esquecer tudo, completamente?

Vasishta: Exatamente, esqueça tudo completamente e permaneça como a madeira ou a pedra.
Rama: O resultado será a estagnação, como a das pedras ou da madeira.

Vasishta: Não é assim. Tudo isso é apenas ilusão. Esquecendo a ilusão, você estará livre dela. Embora pareça estar estagnado, você será a própria Beatitude. O seu intelecto ficará inteiramente claro e aguçado. Sem se embaraçar na vida mundana, mas parecendo ativo aos outros, permaneça como a própria Beatitude de Brahman e seja feliz. Diferentemente da cor azul do céu, não permita que a ilusão do mundo renasça no puro Espaço do Ser-
Consciência. Esquecer essa ilusão é o único modo de matar a mente e permanecer como Bem-aventurança. Mesmo que Shiva, Vishnu ou o Próprio Brahman sejam seus mestres, a realização não é possível sem este meio. Sem esquecer tudo é impossível estabelecer-se enquanto Ser. Portanto, esqueça tudo, inteiramente.
Participante: Não é muito difícil?

Maharaj: Embora seja difícil para o ignorante, é muito fácil para os poucos que discernem. Nunca pense em nada, exceto no Brahman único e ininterrupto. Praticando isso longamente, você esquecerá facilmente o não-Ser. Não pode ser difícil ficar quieto, sem pensar em nada. Não deixe nenhum pensamento surgir na mente; pense sempre em Brahman. Assim, todos os pensamentos mundanos desaparecerão e só restará o pensamento de Brahman.

Quando isso se tornar firme, esqueça até mesmo isso e, sem pensar “eu sou Brahman”, seja o próprio Brahman. Não pode ser difícil de praticar.

Agora, meu sábio filho, siga este conselho: pare de pensar em qualquer outra coisa que não seja Brahman. Com esta prática, a sua mente será extinta; você esquecerá tudo e permanecerá puramente como Brahman."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

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