23 de junho de 2018

Medo de mudar - Osho


Pergunta: Osho, porque tenho tanto medo de mudar?
"Isso é natural. Sempre que você se sentir assustado, apenas relaxe. Aceite o fato de que o medo está lá, mas não faça nada com ele. Ignore-o, não lhe dê atenção. Observe o corpo. Não devia haver nenhuma tensão nele. Se não houver nenhuma tensão no corpo, o medo desaparece automaticamente.

O medo cria um certo estado de tensão no corpo, para ficar enraizado nele. Se o corpo estiver relaxado, medo está fadado a desaparecer. Uma pessoa relaxada não pode ser medrosa. Você não pode assustar uma pessoa relaxada. Mesmo que surja o medo, ele virá como uma onda... Não criará raízes.

O medo chegando e indo como ondas e você permanecendo intocado por ele, é belo. Quando ele cria raízes em você e começa a crescer em você, então se torna um crescimento, um crescimento canceroso. Assim deforma seu organismo interior.

Portanto, sempre que você se sentir temeroso, uma coisa para olhar é que o corpo não deve ficar tenso. Deite-se no chão e relaxe – relaxamento é o antídoto para o medo – e ele irá chegar e passar. Você simplesmente observa.

Esse observar não deve ser de interesse – indiferente. A pessoa apenas aceita que está ok. O dia está quente, o que você pode fazer? O corpo está transpirando... É preciso passar por isso. A noite está próxima e uma brisa fresca estará soprando... Então apenas observe isso e fique relaxado.

Uma vez que você pega o jeito disso e você logo terá isso – que se você está relaxado, o medo não pode grudar em você, ele vem e passa e lhe deixa tranqüilo – assim você tem a chave. E ele virá. Ele virá porque quanto mais mudamos, mais medo virá.

Toda mudança gera medo, porque toda mudança está lhe pondo no desconhecido, num mundo estranho. Se nada mudar e tudo permanecer estático, você nunca terá medo algum. Isso significa, se tudo estiver morto, você não ficará amedrontado.

Por exemplo, você está sentado e existe uma rocha ao lado. Não há nenhum problema: você olha para a rocha e está tudo bem. De repente a rocha começa a se mover; você fica assustado. Vivo! Movimento gera medo; e se tudo estiver parado, não há nenhum medo.

Eis porque pessoas, com medo de cair em situações temerosas, arranjam uma vida sem mudanças. Tudo permanece na mesma e a pessoa segue uma rotina morta,

Completamente esquecida de que a vida é um fluxo. Ela permanece numa ilha própria onde nada muda. A mesma sala, as mesmas fotografias, a mesma mobília, a mesma casa, os mesmos hábitos, as mesmas camas – tudo na mesma. O mesmo maço de cigarros; você não gostará nem mesmo de uma marca diferente. Entre isso, no meio dessa mesmice, a pessoa se sente à vontade.

As pessoas vivem quase que em seus túmulos. O que você chama de uma vida conveniente e confortável não é nada senão um túmulo disfarçado. Então quando você começa a mudar, quando você começa na jornada do espaço interior, quando você se torna um astronauta do espaço interior, e tudo está mudando tão ligeiro, cada momento tremendo de medo. Desse modo, mais e mais medo precisa ser enfrentado.

Deixe o medo estar lá. Pouco a pouco você começará a desfrutar tanto das mudanças que você estará preparado a qualquer custo.

Mudanças irão lhe dar vitalidade... Mais vivacidade, alegria, energia. Então você não será como um poço – encerrado por todos os lados, estático. Você se tornará como um rio correndo em direção ao desconhecido, em direção ao oceano onde desaparece.

~Osho em Come and follow me

16 de junho de 2018

Existência virtuosa - Osho



"A existência é muito virtuosa. Mesmo que você encontre algo que você não consiga chamar de virtude, deve ser devido à sua incompreensão; de outra forma, a existência é absolutamente virtuosa. O que quer que aconteça aqui, sempre acontece corretamente. O errado nunca acontece. Pode parecer errado a você , porque você tem certas idéias do que é certo, mas quando você olha sem nenhum preconceito, nada está errado, tudo está certo.

O nascimento é correto, a morte é correta. A beleza é correta e a feiúra é correta. Mas nossas mentes são pequenas, nossa compreensão é limitada; não podemos ver o todo, sempre vemos somente uma pequena parte. Somos como uma pessoa que está escondida atrás da porta, olhando a rua pelo buraco da fechadura. Ela sempre vê coisas... Sim, alguém está passando, um carro passa de repente... Num momento está ali, e num outro momento se foi para sempre. Eis como olhamos para a existência. Dizemos que algo está no futuro, então, entra no presente e, depois, foi para o passado.

Na verdade, o tempo é uma invenção humana. É sempre agora! A existência não conhece nenhum passado, nenhum futuro – ela só conhece o presente.
Mas nós estamos postados atrás de um buraco de fechadura, olhando o lado de fora.

Nada é passado, nada é futuro – tudo é sempre presente. Mas nossos meios de ver são muito limitados.

Por isso continuamos a perguntar por que há sofrimento no mundo, por que há isto e aquilo... por quê? Se pudéssemos ver o todo, todos esses por quês desapareceriam. E para olhar para o todo, você terá de sair do seu quarto, terá de abrir a porta... terá de abandonar essa visão do buraco de fechadura.

É isto que é a mente: um buraco de fechadura, e é um buraco de fechadura bem pequeno. Comparado a este vasto universo, o que são os nossos olhos, ouvidos, mãos? O que eles podem alcançar? Nada de muita importância. E a esses frágeis fragmentos de verdade, ficamos muitíssimo agarrados.

Se você vir o todo, tudo é como deveria ser – eis o significado de “tudo está certo como está”.

~Osho em The Dhammapada vol 1

9 de junho de 2018

Unio Mystica - Osho


"Esse é o primeiro passo da Unio Mystica: seja um consigo mesmo. E então o segundo, e último passo, é ser um com a existência. O segundo é fácil. O primeiro ficou difícil devido a tantos condicionamentos, a tanta educação, e tantos esforços para civilizar. O primeiro passo tornou-se difícil.

Se você deu o primeiro passo de apenas aceitar e amar a si mesmo como você é, de momento a momento... Por exemplo, você está triste. Nesse momento você está triste. Todo o seu condicionamento lhe diz, “Você não deve ficar triste. Isso é ruim. Você não deve ser triste. Você tem que ser feliz”. Assim surge a divisão, agora surge o problema.

Você está triste: essa é a verdade desse momento.

E seus condicionamentos, sua mente diz, “Você não deve ser assim, você tem que ser feliz. Sorria! O que as pessoas irão pensar de você?”
Sua mulher pode lhe deixar se você ficar tão triste, seus amigos podem fugir de você se você for tão triste, e seu negócio será destruído se você permanecer triste. Você tem que rir, você precisa sorrir, e você tem que pelo menos fingir de que você é feliz. Se você for um doutor seus pacientes não se sentirão bem se você for triste. Eles querem um doutor que seja feliz, alegre, saudável, e você parece tão triste. Sorria – mesmo que você não possa mostrar um sorriso verdadeiro, mostre um sorriso falso, mas sorria. Pelo menos finja, represente.

Esse é o problema: você finge, você representa. Você pode conseguir rir, mas assim você se dividiu em dois. Você reprimiu a verdade, você se tornou falso.
E o falso é apreciado pela sociedade. O falso se torna o santo, o falso se torna o grande líder, e o falso se torna o Mahatma. E todo mundo começa a seguir o falso. O falso é o seu ideal.

Eis porque você é incapaz de conhecer a si mesmo. Como você pode conhecer a si mesmo se você não se aceita? Você está sempre reprimindo seu ser. O que pode ser feito então? Quando estiver triste, aceite a tristeza: ela é você. Não diga, “Estou triste”. Não diga que a tristeza é alguma coisa separada de você. Simplesmente diga, “Sou a tristeza. Nesse momento, sou a tristeza”.

Viva sua tristeza com total autenticidade.

E você ficará surpreso de que uma porta miraculosa se abre em seu ser. Se você puder viver sua tristeza sem nenhuma imagem de ser feliz, você fica feliz imediatamente, porque a divisão desaparece. Não há mais nenhuma divisão. “Sou a tristeza”. E não há nenhuma questão de algum ideal de ser algo mais. Assim não há nenhum esforço, nenhum conflito. “Sou simplesmente assim” e há um relaxamento. E esse relaxamento é graça, e esse relaxamento é alegria.

Todo sofrimento psicológico só existe porque você está dividido. Dor significa divisão e alegria significa nenhuma divisão. Isso pode parecer paradoxal a você: se a pessoa estiver triste, como é que ela pode ficar alegre aceitando sua tristeza? Irá parecer paradoxal, mas é assim. Experimente!

Não estou dizendo para tentar ser feliz; não estou dizendo isso, “Aceite sua tristeza para que você possa ser feliz”. – Não estou dizendo isso. Se essa for sua motivação então nada irá acontecer; você ainda estará lutando. Você estará olhando pelo canto de seu olho: “Tanto tempo já passou e eu aceitei até mesmo a tristeza, e estou dizendo ‘Sou a tristeza”, e ainda assim a alegria não está vindo”. Ela não virá desse jeito.

Alegria não é uma meta, é um subproduto.

Isso é uma consequência natural da integridade, da unidade. Apenas seja um com essa tristeza, por nenhum motivo, por nenhum propósito particular. Não há nenhuma questão de qualquer propósito. É assim que você é nesse momento, essa é sua verdade nesse momento. E no próximo momento você pode ficar zangado: aceite isso também. E no próximo momento você pode ser algo mais: aceite isso também.

Viva de momento a momento, com tremenda aceitação, sem criar qualquer divisão, e você está a caminho do autoconhecimento. Autoconhecimento não é uma questão de ler os Upanishads e sentar em silêncio e recitar, “Aham Brahmasmi, sou Deus”. Esses são esforços inúteis. Ou você sabe que você é Deus, ou você não sabe. Você pode continuar repetindo por toda sua vida, “Aham Brahmasmi, sou Deus”. Você pode desperdiçar toda sua vida repetindo isso, mas você não irá conhecer isso.

Se você conhece-o, não há nenhum sentido em repetí-lo. Porque você está repetindo-o? Se você sabe, você sabe. Se você não sabe, como você pode vir a saber pela repetição? Apenas veja toda a estupidez disso.

Mas isso é o que está sendo feito nesse país e em outros países também, nos monastérios e Ashrams. O que as pessoas estão fazendo? Repetindo como papagaios.

Estou lhes dando uma abordagem totalmente diferente. Não é pela repetição da Bíblia ou dos Vedas que você irá se tornar um conhecedor, não. Você ficará apenas culto. Então como é que a pessoa conhece a si mesma?

Abandone a divisão: a divisão é todo o problema. Você está contra si mesmo. Abandone todos os ideais, os quais criam antagonismo em você.

Você é do jeito que você é: aceite isso com alegria, com gratidão.

Subitamente uma harmonia será sentida. Os dois eus em você, o eu ideal e o eu verdadeiro, não estarão mais aí para lutar de maneira nenhuma. Eles irão se encontrar e se fundir numa unidade.

Não é realmente a tristeza que lhe causa sofrimento. É a interpretação de que a tristeza é errada que lhe causa sofrimento, e isso se torna um problema psicológico. Não é a raiva que é dolorosa; é a idéia de que a raiva é errada que cria ansiedade psicológica. É a interpretação, não o fato. O fato é sempre libertador.

Jesus diz, “A verdade liberta”. E isso é de tremenda importância. Sim, a verdade liberta, mas não conhecer sobre a verdade. Seja a verdade, e ela liberta. Seja a verdade, e há libertação. Você não precisa trazê-la, você não precisa esperar por ela: ela acontece instantaneamente.

Como ser a verdade? Você já é a verdade. Você apenas está carregando falsos ideais; eles estão criando o problema. Abandone os ideais: por alguns dias seja um ser natural. Exatamente como as árvores, os animais e os pássaros, aceite seu ser como você é. E surge um grande silêncio. Como pode ser de outra maneira? Não há nenhuma interpretação: assim a tristeza é bela, ela tem profundidade.

Assim a raiva também é bela, ela possui vida e vitalidade. Então o sexo também é bonito, porque tem criatividade.

Quando não há nenhuma interpretação, tudo é belo.
Quando tudo for belo, você fica relaxado.

Nesse relaxamento você caiu na sua própria fonte, e isso traz autoconhecimento. Cair na nossa própria fonte é o que “Conhece a ti mesmo” significa. Não é uma questão de adquirir conhecimento, é uma questão de transformação interior.

E de que transformação estou falando? Não estou lhe dando nenhum ideal que você tenha que seguir, não estou dizendo que você precisa transformar-se daquilo que você é e tornar-se outra coisa. Você precisa simplesmente relaxar no que você é, e apenas ver.

Vocês ouviram o que estou dizendo? Apenas vejam o ponto: é libertação. E uma grande harmonia, uma bela música é ouvida. Essa música é do autoconhecimento. E sua vida começa a mudar.

Assim você tem a chave mágica, a qual abre todas as fechaduras.

Se você aceitar a tristeza, ela irá desaparecer. Quanto tempo você pode ficar triste se você aceitar a tristeza? Se você for capaz de aceitar a tristeza você será capaz de absorvê-la em seu ser; tornar-se-á sua profundidade."
Osho em Unio Mystica, vol. 1

2 de junho de 2018

Trabalho e ocupação - J. Krishnamurti


"Pergunta: Dizeis que uma mente ocupada não pode receber aquilo que é a Verdade ou Deus. Mas, de que jeito posso ganhar a vida, a menos que esteja ocupado com meu trabalho? E vós, não estais ocupado com estas palestras, que são o vosso particular meio de ganhar a vida?

J.Krishnamurti: Deus me livre de estar ocupado com minhas palestras! Não estou. E elas não constituem meu meio de vida. Se eu estivesse ocupado, não existiria nenhum intervalo entre pensamentos, aquele silêncio que é essencial para se ver qualquer coisa nova. Em tal caso, o falar me seria a coisa mais aborrecida do mundo. Não quero aborrecer com minhas palestras, e por esta razão não falo de memória. O que faço é uma coisa completamente diferente. Mas, isso não tem importância, e podemos conversar a seu respeito, noutra ocasião. 


O interrogante pergunta como poderá ganhar o seu sustento, se não se ocupar com seu trabalho. Escutais bem isto: Se vos ocupais com vosso trabalho, então não amais o vosso trabalho. Compreendeis a diferença? Se amo o que estou fazendo, não estou ocupado com isso, meu trabalho não está separado de mim. Porém, neste país, somos exercitados — e infelizmente este mesmo hábito se está generalizando no mundo inteiro — para adquirirmos eficiência num trabalho que não amamos. Pode haver uns poucos cientistas, uns poucos técnicos especialistas, uns poucos engenheiros que realmente amam o que fazem, no sentido total da palavra, o que explicarei mais adiante. Mas, em geral, não gostamos do que estamos fazendo, e por esta razão é que andamos ocupados com nosso meio de vida. Acho que se pode perceber uma diferença entre as duas coisas, se se examinar bem isso. Como posso amar o que estou fazendo, se estou sendo impelido, a todas as horas, pela ambição, se quero, com meu trabalho, alcançar um fim, tornar-me pessoa importante, ter êxitos felizes? O que artista está interessado no seu nome, sua grandeza, na comparação, na realização de suas ambições, deixou de ser artista, sendo meramente um técnico como outro qualquer. E isso significa, realmente, que para se amar uma coisa, faz-se necessária a cessação completa de toda ambição, todo desejo de reconhecimento por parte da sociedade, que afinal está podre (risos). 

Senhores, por favor, não façais isso! Mas, nós não somos preparados para isso, não somos educados para isso; temos de adaptar-nos a uma certa rotina que a sociedade ou a família nos deu. Porque os meus antepassados foram médicos, advogados, ou engenheiros, tenho de ser médico, advogado ou engenheiro. E atualmente há necessidade de mais e mais engenheiros, porque a sociedade o está exigindo. E, assim, perdemos o amor à coisa em si — se alguma vez o tivemos, do que duvido muito. E, quando amais uma coisa, não há nenhuma ocupação com ela. 
O espírito não está pretendendo alcançar alguma coisa ou procurando ser melhor do que outro; toda comparação, toda competição, todo desejo de sucesso, de preenchimento, desapareceu totalmente. 
É só a mente ambiciosa que anda ocupada.

De modo idêntico, a mente que está ocupada a respeito de Deus, da verdade, nunca o descobrirá, porque se a mente está ocupada com uma coisa, já a conhece. Se já conheceis o imensurável, o que conheceis é produto do passado, e, por conseguinte, não é o imensurável. A Realidade não pode ser medida, e por conseguinte não pode haver ocupação com ela; o que deve haver é só uma serenidade da mente, um vazio, em que nenhum movimento existe, e é só então que pode despontar na existência o Desconhecido."

J.Krishnamurti em, Realização sem esforço

26 de maio de 2018

Vida, uma decisão contínua - Osho


"Amamos os conflitos porque, com eles, nos sentimos poderosos.
Quando tudo está indo bem, a gente sente como se nada estivesse acontecendo. A gente sente como se a vida fosse vazia. Se a vida está realmente harmoniosa, nos sentimos vazios...nenhuma excitação, nenhum pontapé, nenhuma emoção. Assim as pessoas dizem que elas gostariam de uma vida bem pacífica, mas ninguém realmente deseja isso, do contrário, ninguém está criando qualquer barreira. Assim eles prosseguem falando sobre isso e continuam buscando por uma vida pacífica – e continuam criando perturbações. Então fique atenta, cuidado.

A vida é uma decisão contínua de momento a momento. Você não pode ir por todos os caminhos. Se você quer vir à Índia, você tem que deixar o Canadá. Se você quer viver no Canadá, você precisa deixar a Índia. Você não pode viver em todos os lugares. Não podemos nos espalhar por toda a terra. Iremos perder nosso ser totalmente. Temos que permanecer centrados.

Portanto, não somente com o amor, sobre tudo, seja decisiva. Eu sei, eu compreendo que isso é duro. Ás vezes é somente meio a meio. Parece difícil decidir, mas assim também, a gente precisa decidir. Jogue uma moeda ou consulte o I Ching, mas decida. Permanecer numa indecisão por muito tempo é muito perigoso. Isso lhe dá uma qualidade de ser indecisa. E se a pessoa aprende esse truque, então a pessoa desperdiça toda sua vida. Então nas pequenas coisas a pessoa começa a ficar indecisa também. A pessoa retarda, retarda... hesita. E também se houver muito retardamento e hesitação, será muito difícil dar o salto final para Deus, para o divino.

O amor é um aprendizado… a primeira lição da religião. Ela lhe ajuda a decidir. E se você puder decidir, na própria decisão algo dentro de você se cristaliza. Você verá isso. Senão você irá ficar bifurcado, você se tornará um esquizofrênico: uma parte indo nessa direção e outra parte indo naquela direção. Uma casa dividida está sempre em perigo. Pode cair a qualquer momento.

Então você decide. Se você realmente quer ser feliz, seja decisiva. É preciso coragem para decidir, quase a coragem de um jogador, mas a vida é assim, mm? Nada é barato na vida, pelo menos não o amor. Ele exige. E essa é a beleza dele – que ele exige. Essa própria exigência lhe dá uma sintonia, um espírito... integridade, individualidade."
Osho em Be Realistic: Plan for a Miracle

19 de maio de 2018

O sagrado 108 do Yoga - Pedro Kupfer


"O amigo praticante sabe que o 108 é um número sagrado no Yoga: tradicionalmente, se fazem 108 repetições de um mantra ao meditar, ou 108 ciclos da saudação ao sol em práticas especiais. Também sabe que asjapamālās, terços para meditação, têm 108 contas.

Ainda, que na espiritualidade da Índia, tanto no hinduísmo quanto no budismo, existem templos com 108 degraus, rituais onde se usam 108 yantras (diagramas para meditação), ou cerimônias onde há 108 altares para fazer oferendas ao fogo sagrado.

Há listas de 108 nomes que apontam para as diferentes manifestações do poder de cada deus hindu, e outros tantos caminhos para conecer cada um deles. O budismo menciona 108 virtudes que devem ser cultivadas e outras tantas imperfeições do caráter que precisam ser superadas para se alcançar o nirvāṇa, a iluminação.

Chegou a se perguntar qual é a razão disso? Embora várias interpretações tenham sido dadas, a mais convincente provém do jyotiśa, a tradição de observação dos astros da idade védica.

Os sábios daquele tempo, chamados ṛṣis, não somente praticavam Yoga, mas eram igualmente atentos observadores da natureza, que sempre perceberam como manifestação da ordem de Īśvara, a Consciência Ilimitada sempre presente, em tudo e em todos.

Eles compreenderam e nos legaram a visão dessa ordem, invariável e presente em todos os lugares, bem como perceberam as correlações e correspondências, entre as diferentes dimensões da criação, do infinitamente grande ao infinitesimalmente pequeno. Essas as correlações são chamadas bandhu, em sânscrito, e admitem em muitos casos expressões numéricas. O 108 é um deles.

108 ciclos até o sol.

Assim, esses sábios de outrora, através de observações a olho nu, chegaram à conclusão que em termos de diâmetro solar, a distância aproximada entre o sol e a terra é de 108 vezes o diâmetro do sol.

Descobriram também que a distância média entre a lua e a terra é de 108 vezes o diâmetro lunar. Esses valores se obtêm através de simples constatações visuais: colocando uma vara no chão e afastando-se dela 108 vezes a sua altura, aprecia-se o diâmetro aparente do sol ou da lua.

Essa é a razão pela qual o 108 é considerado sagrado, e pela qual as japamālās que mencionamos acima possuem 108 contas. 


Simbolicamente, completar uma volta de japamālā na meditação equivale a fazer uma jornada até o sol, fonte e origem da vida na terra. Por outro lado, como parte da correspondência entre o que está embaixo e o que está acima, 108 é o número que representa a região intermediária, chamada em sânscrito antarīkṣa, que fica entre o céu e a terra.

Desta forma, as 108 contas do terço de meditação representam o número equivalente de degraus que nos levam de volta ao Absoluto, de volta para casa. Esse passeio ritual é muito característico da cultura védica, berço do Yoga e é visível nas peregrinações a lugares sagrados como o Monte Kailash, no Tibete, considerado a moradia do deus Śiva, criador do Yoga, bem como em todo passeio em volta dos templos, que se faz completando um círculo em sentido horário em volta do sanctum santorum, o altar principal.

O alfabeto sânscrito e suas vibrações.

Além disso, há ainda outro motivo importante para considerar especial este número: 108 é o dobro de 54, o total das letras do alfabeto sânscrito. Se fazem 108 repetições de um mantra, ou do sūrya namaskār, a saudação ao sol, pois isso equivale, simbolicamente, a um passeio ritual aos limites da criação, com seu respectivo retorno.

Garuḍa é a águia mítica que serve de montaria ao deus Viṣṇu. Seu nome significa “asas da eloquência”, pois elas não são compostas de plumas, mas das sílabas do alfabeto sânscrito. Assim os 54 sons do sânscrito e os significados para os quais eles apontam são como as asas que nos permitem voar até todos os cantos da criação e, conhecendo a nós mesmos, conhecer tudo o que há para ser conhecido.

Diz a esse respeito a Chāṇḍogya Upaniṣad: “Conhecendo um único pote de argila, todos os objetos feitos desse material tornam-se conhecidos”.

Essa jornada chama-se parikrāma, circunvolução, e se faz tradicionalmente tanto nos templos como nas peregrinaçòes aos tīrthas, lugares sagrados da Índia. Interiormente, o yogi faz parikrāma no início de uma meditação ou no yoganidrā, levando a atenção sucessivamente para cada parte do seu corpo.

Munidos desse conhecimento, na próxima vez que nos depararmos com este número, poderemos lembrar que ele representa a jornada do caminhante em direção ao Absoluto. Com isso, a nossa caminhada poderá ficar mais significativa e inspiradora. Namaste!"


12 de maio de 2018

Vivendo Zen - Joko Beck


"Na prática zen nós saímos de uma vida dramática — espécie de novela das 20 horas — para uma vida não-dramática. A despeito do que possamos dizer, todos nós gostamos muito de nossos dramas pessoais. A razão para tanto? Seja qual for o nosso drama particular, sempre estamos no papel principal — que é onde nós queremos estar. E, pela prática, nós gradualmente nos deslocamos para longe dessa preocupação com nós mesmos. Assim, sair de uma vida dramática para uma vida não-dramática, embora possa parecer sem nenhum atrativo, é do que trata a prática zen. Examinemos esse processo mais de perto.

Quando começamos a praticar, é bom começar respirando algumas vezes bem fundo, enchendo a cavidade abdominal, o meio do peito e embaixo dos ombros, até estarmos repletos de ar; depois, soltamos o ar, interrompendo a expiração um instante. Faça isso três ou quatro vezes. Em certo sentido, é artificial, mas ajuda a criar um certo equilíbrio e forma uma base conveniente para se sentar e praticar. Depois de termos feito isso, o passo seguinte é esquecer exatamente isso, esquecer de controlar a respiração. Não o esqueceremos por completo, é claro, mas é inútil controlar a respiração. Em vez disso, apenas vivencie esse processo, o que é muito diferente. Não estamos tentando fazer uma respiração lenta, longa e regular, como muitos livros sugerem. Em lugar disso, o que queremos é deixar que o ar seja o comandante, para que a respiração esteja nos respirando. Se a respiração for superficial, que seja assim. Quando nos tornamos a nossa respiração, por sua própria pulsação a respiração se torna mais lenta. A respiração permanece superficial porque queremos pensar em vez de vivenciar a nossa vida. Quando fazemos isso, tudo se torna mais superficial e controlado. A palavra retesado é bastante sugestiva: descreve como subimos para a cabeça, a garganta, os ombros e lá nos tensionamos; estamos com muito medo e nossa respiração também fica alta. Uma respiração que consegue ser abdominal, como tende a ocorrer após anos de prática, é aquela que vem quando a mente perdeu as esperanças. Tudo aquilo pelo que esperamos é do que lentamente aprendemos a desistir e, então, a respiração desce. Não é algo que precisemos tentar fazer. A prática consiste em vivenciarmos a respiração como ela é.

Também pensamos que deveríamos ter uma mente sossegada. Muitos livros dizem isto: que a pessoa iluminada é aquela que tem uma mente sossegada. É verdade: quando não temos nenhuma esperança, nossa mente sossega. Enquanto alimentamos esperanças nossa mente está tentando descobrir como satisfazer essas vontades maravilhosas de coisas que queremos que aconteçam, ou estamos tentando nos proteger de todas as coisas terríveis que não deveriam acontecer. Assim, a mente está tudo, menos sossegada. Agora, em lugar de forçar a mente para que ela sossegue, o que podemos fazer? Podemos nos tornar conscientes do que ela está fazendo. É isso que é rotular nossos pensamentos. Em vez de nos atolarmos em esperanças começamos a ver: “É, sim, pela vigésima vez hoje estou esperando sentir algum alívio”. Depois de um bom sesshin, poderemos ter dito isso umas quinhentas vezes: “Espero que ele me telefone quando o sesshin acabar”. E então rotulamos: “Com esperança de que ele me telefone quando o sesshin terminar”; “Com esperança de que ele me telefone quando o sesshin terminar”. Depois de termos dito isso quinhentas vezes, o que acontece com isso? Enxergamos exatamente o que é: um absurdo. Afinal de contas, a verdade é que ou ele telefona ou não telefona. Conforme vamos observando nossa mente ao longo dos anos, aos poucos as esperanças se dissipam. E o que nos resta? Pode parecer lúgubre, eu sei: resta-nos a vida tal como ela é.

É proveitoso entrar nesse processo com uma atitude de investigação. Em vez de ver a nossa prática sentada como algo bom ou mau, como algo que deve melhorar numa base firme, deveríamos só investigar, observar o que estamos de fato fazendo. Não existe uma boa ou má prática sentada; existe apenas a percepção consciente ou a inconsciência do que está se passando em nossa vida. E, quando nós mantemos mais tempo a percepção consciente, as indagações que temos a respeito da vida são vistas por um novo prisma. Não somos entregues pura e simplesmente a um outro ponto de vista, mas conquistamos uma maneira diferente de ver as coisas. Conforme esse processo se desenvolve com o tempo, muito devagar a nossa mente vai sossegando não por completo, e o que se aquieta não são os pensamentos (poderemos praticar vinte anos e continuar vendo os pensamentos que correm pela mente). O que sossega é o nosso apego aos nossos pensamentos. Cada vez mais os vemos como uma espécie de espetáculo, parecido com o que fazemos quando olhamos as crianças brincarem. (Minha mente pensa quase o tempo todo. Que pense, se é o que quer.) E nosso apego aos pensamentos que bloqueia o samadhi. Podemos ter muitos pensamentos e mesmo assim estar em profundo samadhi, desde que não estejamos apegados a eles e só permaneçamos na vivência. É verdade que quanto mais tempo de prática tivermos, menos tenderemos a pensar, porque nossa tendência é obcecarmo-nos menos. Sendo assim, a mente de fato aquieta, embora com toda certeza não por termos dito a nós mesmos:’ ‘Eu tenho de ter uma mente sossegada!”. Quando nos mantemos sentados na prática, de tempos em tempos alcançamos perspectivas de grande lucidez a respeito de nossas vidas, que esclarecem diferentes aspectos das mesmas. Em si mesmos esses momentos não são nem bons nem mau s e, do ponto de vista da prática zen, não são nem particularmente importantes. Apesar de esses momentos de lucidez repentina terem uma certa utilidade, zazen não é ir atrás deles.

Eles realmente ocorrem, e de repente vemos: “Ora, é isso isso é o que eu faço. Que interessante!”. No entanto, até mesmo captar o momento dessa repentina lucidez é só algo que vem e vai, vem e vai, por nossa mente. Tornamo-nos cientistas que vivem esse experimento chamado nossa vida. Nossos eus e nossos pensamentos estão espalhados à nossa frente; olhamos com interesse para esse espetáculo, mas não mais como nosso próprio drama pessoal. Quanto mais desenvolvida for essa perspectiva em nós, melhor será a nossa vida. Por exemplo: se estamos fazendo um experimento com sal e açúcar, não dizemos: “Que coisa terrível! O sal e o açúcar estão discutindo!”. Não nos importa o que o sal e o açúcar estejam fazendo, apenas os observamos e apreciamos como interagem. Por outro lado, em geral nós nos importamos muito com o que os nossos pensamentos estão fazendo. Não ficamos apenas na sua observação, com uma atitude de interesse, como os cientistas que apenas acompanham o que acontece. “Se eu misturar isso e aquilo — interessante. Se eu puser essas coisas em proporções diferentes — interessante.” O cientista simplesmente observa e acompanha processos.

Quando essa qualidade de observar, de apreciar e vivenciar o que acontece estiver mais fortalecida em nossa vida, a realidade (que é só a percepção consciente) depara a irrealidade ou o nosso pequeno drama tecido de pensamentos. E vemos com mais clareza o que é real e o que é irreal, como a luz que ilumina a escuridão. Mas, quando nós trazemos mais realidade (percepção consciente) para nossas vidas, aquilo que vinha sendo problemático parece mudar. Quando instilamos mais percepção consciente em nossas vidas, começamos a eliminar nossos dramas pessoais. E não queremos fazer isso de verdade. Gostamos de nossos dramas pessoais, gostamos de alimentá-los. Cada um de nós tem sua própria encenação predileta. Por exemplo, podemos acreditar: “As circunstâncias da minha vida são em especial difíceis. A minha infância foi mais difícil que a da maioria das pessoas”; ou “Aquela coisa que me aconteceu realmente arruinou a minha vida”. É verdade, essas coisas aconteceram e criaram os nossos condicionamentos. Porém, enquanto mantivermos nossas crenças de que as histórias que contamos são a verdade acerca de nossa vida, a prática genuína não irá ocorrer. As crenças interditam a prática.

A menos que haja uma certa disponibilidade para abandonar essas crenças pessoais de vida, não existe nada que eu ou qualquer outra pessoa possa fazer. Às vezes, um sofrimento é o suficiente para criar por si aquela mínima brecha por onde a percepção consciente consiga se infiltrar. Mas enquanto essa pequena fenda não se abrir não há nada que alguém possa fazer. E as pessoas realmente obstinadas conseguem manter suas histórias pessoais até a morte. A vida para elas é muito dura. Uma crença pessoal desse tipo — “Sou uma vítima” — é como um armário fechado e escuro. Se queremos sentar nesse armário com a porta bem trancada, nada conseguirá penetrar nele. Infelizmente, enquanto insistimos em ficar sentados dentro desse armário (e todos fazemos isso às vezes), descobrimos que ninguém quer, na realidade, entrar e sentar-se conosco. Com franqueza, ninguém tem um interesse particular pelo drama dos outros. O que nos interessa é o nosso próprio drama. Eu posso querer me fechar dentro do meu próprio armário, mas com certeza não vou ficar sentado dentro do seu.

Todos nós entramos em nossos armários particulares. O armário é o nosso drama pessoal, e queremos ficar sozinhos dentro dele para nos sentir bem no seu centro. É uma suculenta infelicidade. E quer nos demos conta, quer não, adoramos isso. Porém, quando passamos pela experiência de abrir a porta e deixar um pouco de luz entrar, depois de termos visto uma vez que seja o que é um pouco de luz genuína dentro do armário, nunca mais conseguiremos nos manter indefinidamente dentro dele. Pode nos custar anos, mas depois de algum tempo iremos abrir a porta. Uma maneira de entender os sesshins é que esses encontros fazem a porta abrir-se para algumas pessoas. Por isso é que os sesshins podem ser tão incômodos.

Em algum momento começamos a ver que aquilo que acontece em nossa vida não é a questão; sempre haverá algo acontecendo. O que acontece sempre será uma mescla daquilo de que gostamos e de que não gostamos. Não há tempo em que isso cesse. No entanto, quanto mais cientistas nos tomarmos, menos nos emaranharemos no que está acontecendo e mais seremos capazes de apenas observar o que está acontecendo. A capacidade de fazer isso e a disponibilidade para tanto aumentam com o passar dos anos na prática. No início essa postura observadora pode ser mínima. Nossa incumbência é aumentar nossa abertura para desenvolvê-la.

No final, não importa como nos sentimos. Não faz diferença se estamos deprimidos, inquietos, fragmentados, felizes. A tarefa do aluno é observar, vivenciar, tomar consciência. Por exemplo, a depressão, quando completamente vivenciada, deixa de ser depressão e torna-se samadhi. A inquietação também pode ser vivenciada e, quando isso acontece, dá-se um deslocamento interno e não temos mais de nos preocupar com a nossa inquietação. Nenhuma circunstância, nenhum sentimento, essa é a meta. O objetivo é a oportunidade de vivenciar.

Costumamos supor que temos de mergulhar fundo nas “questões” psicológicas submersas e trabalhar com esse material. Não é bem isso. Afinal de contas, onde essas questões se escondem? Não é suposição realmente acurada a de que existam coisas por baixo da consciência que irão dar um jeito de vir à tona, embora possa assim parecer a nós. Nos sesshins, podemos ficar emocionados, tristes, desesperados, mas essas emoções não são mistérios escondidos que aparecem de repente. Essas coisas são simplesmente o que somos, e estamos vivenciando quem somos. Quando tentamos trabalhar para que essas coisas venham à tona, estamos apenas diante de uma outra forma de auto-aperfeiçoamento que não funciona. A prática não é uma questão de sentar para que essas coisas possam emergir e assim consigamos trabalhar com o material para nos tornarmos pessoas melhores. O fato é que já estamos bem. Não se trata de ir a nenhuma outra parte.

Bloqueamos nossa percepção consciente com nossa culpa e nossos ideais. Por exemplo, vamos supor que eu disse para alguém: “É só que não sou uma boa professora. Não lido com todas as situações de maneira perfeita”. Quando fico apegada a esse pensamento, bloqueio toda a minha capacidade de aprender. A culpa e os ideais de como eu deveria ser bloqueiam a única coisa que de fato importa: uma clara percepção consciente: “Estou vendo o que aconteceu, eu realmente fiz uma bela confusão, não foi? Bom, o que posso aprender?”. Um outro exemplo poderia ser o do cozinheiro preocupado com o jantar. Vamos supor que o jantar queimou. O cozinheiro não tem de se descabelar: “Oh! é o fim do mundo! O que as pessoas vão pensar de mim? Eu acabo de queimar tudo!”. Nesse ponto o que pode ser feito? Basta procurar cada pedaço de pão que ainda houver em casa e reparti-lo. Não é o fim do mundo quando o jantar queima, mas a culpa interdita o aprendizado.

A única coisa que importa é a percepção consciente do que está acontecendo. Quando entramos pelo setor dos ideais e da culpa, as decisões em si tornam-se difíceis, porque nós não vemos como caímos nas armadilhas das nossas preocupações: “Será que isso vai servir para mim? O que acontecerá? Será realmente uma boa medida? Minha vida vai se tornar mais segura, mais maravilhosa, mais perfeita?”. Essas perguntas são erradas. Quais são as certas? E quais são as decisões certas? Não podemos dizer antes, mas, em algum momento, saberemos se não nos emaranharmos na culpa, nos ideais e no perfeccionismo que em geral acrescentamos ao nosso processo de tomar decisões. Sentar para praticar trata dessa espécie de clarificação.

Todas as técnicas são úteis e todas são limitadas. Seja qual for a técnica que inserirmos em nossa prática, ela nos servirá por algum tempo, até que deixemos realmente de empregá-la, que comecemos a devanear com ela ou a sonhar. Sendo assim, o importante com qualquer técnica é a intenção. Nossa intenção deve ser a de estarmos presentes, de tomarmos consciência, de estarmos praticando. E ninguém sustenta essas intenções o tempo todo. Elas se mantêm em caráter intermitente. Também queremos encontrar um professor que passe a tomar conta disso por nós; todos nós queremos ser salvos e cuidados. A intenção de praticar é a coisa mais importante. Não existe técnica que possa nos salvar, professor algum que venha nos salvar, centro algum que possa nos salvar. Não existe nada que venha nos salvar. Esse é o mais cruel de todos os golpes.

Quando transformamos nossa vida dramática numa vida não-dramática, isso quer dizer que pegamos a nossa vida de incessante buscar, analisar, alimentar esperanças e sonhar e a tornamos um espaço para apenas vivenciar a vida tal como ela se nos aparece, neste exato momento. 

O fator chave é a percepção consciente, o mero vivenciar da dor que é como é. Paradoxalmente isso é o contentamento. 
Não existe nenhum outro contentamento na Terra, exceto este.

Essa espécie de prática surte um efeito letal: eliminará de maneira irreversível nosso drama. Mas não a nossa personalidade. Todos somos diferentes e continuaremos sendo assim. Contudo, o drama não é real. É um impedimento a uma vida que flui e pode ser atenciosa."

Charlotte Joko Beck em Nothing special living zen.

5 de maio de 2018

O espaço vazio - Ramana Maharshi



"É falso falar de realização.
O que deve ser feito? 

O real é como sempre é.


Não estamos criando nada de novo. 

Realização é ensinada como algo que você conseguiu, algo que não havia antes.

A ilustração dada nos livros é essa.

A realização se assemelha a se cavar um poço.

Nós cavamos um poço e criamos um enorme buraco.
O espaço que surge no buraco, não foi criado por nós.
Nós apenas removemos a Terra. 
Era a terra que estava preenchendo todo o espaço lá.


O espaço já estava lá então, e também está lá agora.
Da mesma forma, nós simplesmente temos que jogar todos as tendências inatas ou samskaras envelhecidos que estão dentro de nós.


Quando todos eles forem abandonados, somente o Ser brilhará."
Por Ramana Maharshi

28 de abril de 2018

Quem é este eu? - Pedro Kupfer



"Quando nos olhamos no espelho, aquilo que chamamos Eu parece fugir à nossa percepção. Não podemos ver o Eu com os olhos, nem tocá-lo com as mãos, nem sentí-lo com o tato ou a audição. Como é que podemos perceber o Ser? Onde ele está? Como podemos dizer que de fato existe?

Certamente, o Ser acontece no corpomente, mas evidentemente, não está limitado aos contornos do físico ou do psíquico. Não somos as experiências ou diferentes partes do corpo, ou pensamento ou as emoções, mas estamos em todas e cada uma delas.

Se isso é fato, então, encontrar o Eu dentro de uma forma limitada, restrita ao espaço do corpo físico ou do psiquismo, é um pressuposto equivocado: se Eu não tenho um limite definido, então, lutar pelo “meu” é uma equivocação.

A visão do Yoga nos mostra que o Ser é ilimitado e, portanto, não está restrito às questões do corpomente. Ao mesmo tempo em que é ilimitado, está presente em todas as manifestações da natureza, em todas as emoções, em todos os pensamentos.

Nesse sentido, ensina um texto antigo: “Aqueles que percebem a si próprios, não como corpo ou mente, mas como o Ser ilimitado, o divino princípio da existência, encontram a fonte de toda felicidade e residem nela”.

O Yoga propõe então uma mudança de visão. Todos temos uma perspectiva sobre as coisas, sobre nós mesmos e sobre a vida. Cada um tem um olhar diferente. Numa praia, por exemplo, olhe para as pessoas.

Cada uma, com sua atenção seletiva, está atenta a uma parte diferente da paisagem e dos acontecimentos: os surfistas olham para as ondas, apreciam os ventos e as correntes, mas não dão a mínima para os peixes, que atraem toda a atenção dos pescadores.

As mães não olham para as ondas nem para os peixes, mas para seus filhos brincando na beira do mar. As crianças, por sua vez, estão totalmente absorvidas em seus castelos de areia.

Se quisermos que a nossa vida seja digna de ser vivida com plenitude e felicidade real, é fundamental cultivar uma atitude de aceitação de cada pessoa como é, cada uma preocupada na sua satisfação pessoal, em prover suas necessidades básicas.

Nessa ordem de coisas, é desejável aceitarmos com gratidão aquilo que a vida nos oferece agora, sem nos preocupar com como deveriam ser as coisas, e aceitando tudo e todos como presentes que a vida nos entrega para o benefício de todos.

Qualquer coisa que seja, é evidente para nós. Aquilo que os olhos vêem se torna evidente. Você é, logo você brilha. Brilha e ilumina os objetos à sua volta. Você não precisa ser iluminado por outra consciência para ser, e saber que é. Você é autoevidente. Sua existência é autoevidente. A consciência é a única que brilha por si mesma.

Os diferentes objetos na criação se tornam evidentes para você através de cinco meios de conhecimento, pelos quais você pode dizer que as coisas são, que as coisas existem. Esses cinco meios de conhecimento são os seguintes: 1) percepção, 2) inferência, 3) inferência complexa, 4) constatação da ausência e 5) ilustração.

Ainda quando dizemos "isto foi" para nos referir a algum evento do passado, fazemos isso no presente, desde o presente. Você diz que está com fome, sede, você tem emoções, experiências, conhecimento e ignorância sobre as coisas.

Tudo se torna evidente para si. Você é a testemunha que percebe as coisas. Portanto, não pode dizer que algo exista sem apelar para um desses meios de conhecimento.

Agora, você existe ou não? Através de qual desses meios de conhecimento é que você pode dizer que existe? Qual deles você usa para afirmar que você é? “Eu devo existir, pois penso que ninguém ia casar com uma pessoa inexistente”.

Quando você diz “eu sou”, não precisa de nenhum meio de conhecimento para afirmar isso. Você não precisa provar a sua existência. A existência é o significado da palavra Eu.

O corpo se torna evidente para si. A mente se torna evidente para si. Portanto, este Eu que você é, é autoevidente. E este Eu é, sempre foi e sempre será, livre e pleno. 

21 de abril de 2018

Tornar-se e Ser - Osho


"A fonte original de toda tensão é o tornar-se. O indivíduo está sempre tentando se algo; ninguém está tranquilo consigo mesmo tal qual é. O ser não é aceito, o ser é negado e algo mais é tomado como um ideal no qual se transformar. Assim, a tensão básica é sempre um ideal no qual se transformar. Assim, a tensão básica é sempre entre aquilo que você é e aquilo que você ambiciona vir a ser.

Você deseja tornar-se algo. A tensão significa que você não está satisfeito com o que você é e você ambiciona ser o que não é. A tensão é criada entre estes dois. O que você deseja se tornar é irrelevante. Se quiser se tornar rico, famoso, poderoso ou mesmo se quiser ser livre, liberado, ser divino, imortal, mesmo se você ambicionar a salvação, moksha, também a tensão estará ali.

Qualquer coisa que seja desejada com algo a ser satisfeito no futuro, contra você como você é, cria tensão. Quanto mais impossível o ideal é, maior a tensão tende a ser. Por conseguinte, a pessoa que é materialista, normalmente não é tão tensa como a que é religiosa. porque a pessoa religiosa está ambicionando o impossível, o distante. A distância é tão grande que somente uma grande tensão pode preencher o vazio.

Tensão significa uma lacuna entre o que você é e o que quer ser. Se a lacuna for grande, a tensão será grande. Se a lacuna for pequena, a tensão será pequena. E se não há lacuna de forma alguma, significa que você está satisfeito com o que você é. Em outras palavras, você não ambiciona ser uma outra coisa que você não é. Então, sua mente existe no momento. Não há nada com o que estar tensa; você está satisfeito consigo mesmo. Você está no Tao. Para mim, se não há lacuna você é religioso. você está em dhrama.

A lacuna pode ter muitas camadas. Se a ambição for física, a tensão será física. Quando você busca um corpo em particular, uma forma particular - se você ambiciona algo diferente do que você é no nível físico - então há tensão no seu corpo físico. Alguém quer ser mais bonito. Agora o corpo torna-se tenso. Esta tensão começa no primeiro corpo, o fisiológico, mas se é insistente, constante, pode se aprofundar e se espalhar para outras camadas do seu ser.

Se você está ambicionando poderes psíquicos, então a tensão começa no nível psíquico e se espalha. O espalhar-se é exatamente como se você jogasse uma pedra no lago. A pedra cai num ponto particular, mas as vibrações criadas por ela continuarão a se espalhar até o infinito. Assim, a tensão pode se iniciar em qualquer um dos sete corpos, mas a fonte original é sempre a mesma; a lacuna entre um estado que é e um estado que é almejado.

Se você tem a mente de um tipo particular e quer trocá-la, transformá-la - se você deseja ser mais talentoso, mais inteligente - então a tensão é criada. Só se aceitamos a nós mesmos totalmente, não há tensão. Esta aceitação total é o milagre, o único milagre. Encontrar uma pessoa que tenha aceito a si mesma totalmente é a única coisa surpreendente.

A existência em si não é tensa. A tensão é sempre por causa das possibilidades hipotéticas, não existenciais. Não há tensão no presente; a tensão é sempre voltada ao futuro. Ela procede da imaginação. Você pode imaginar-se como algo diferente do que é. Este potencial imaginado criará tensão. Quanto mais imaginativa a pessoa é, pois, mais a possibilidade de tensão. Então a imaginação torna-se destrutiva.

A imaginação pode também tornar-se construtiva, criativa. Se toda sua capacidade de imaginar está focalizada no presente, no momento e não no futuro, então você pode começar a ver sua existência como poesia. Sua imaginação não está criando um ambição; está sendo usada na vivência. Está vivência no presente está além da tensão.
Os animais não são tensos, as árvores não são tensas, porque eles não têm a capacidade de imaginar. Eles estão abaixo da tensão, não além dela. A tensão deles é apenas uma potencialidade; não se tornou atual. Eles estão evoluindo. Surgirá um momento em que a tensão explodirá em seus seres e eles começarão a ambicionar o futuro. É propenso a acontecer. A imaginação torna-se ativa.

A primeira coisa a respeito da qual a imaginação torna-se ativa é o futuro. Você cria imagens e porque não há realidade correspondente, continua a criar mais e mais imagens. Mas no que diz respeito ao presente, você não concebe a imaginação relacionada a ele. Como você pode ser imaginativo no presente? Parece não haver necessidade. Este ponto deve ser entendido.
Se puder estar conscientemente presente no presente, você não estará vivendo na imaginação. Então, a imaginação estará livre para criar dentro do presente em si. Só é necessário o focar correto. Se a imaginação é focalizada no real, ela começa a criar. A criação pode tomar qualquer forma. Se você é poeta, ela se converte numa explosão de poesia. A poesia não será uma ambição do futuro, mas será uma expressão do presente. Ou se você é pintor, a explosão será de pintura. A pintura não será algo como você imaginou, mas como o conheceu e o vivenciou.
Quando você não está vivendo na imaginação, o momento presente lhe é dado. Você pode expressá-lo ou cair no silencio. Mas o silencio agora não é um silencio morto, é também uma expressão do momento presente. Este silencio é um florescer positivo. Algo floresceu dentro de você, a flor do silencio e através deste silencio, tudo o que você está vivendo é expressado."
Osho em Psicologia do Esotérico.
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