26 de maio de 2018

Vida, uma decisão contínua - Osho


"Amamos os conflitos porque, com eles, nos sentimos poderosos.
Quando tudo está indo bem, a gente sente como se nada estivesse acontecendo. A gente sente como se a vida fosse vazia. Se a vida está realmente harmoniosa, nos sentimos vazios...nenhuma excitação, nenhum pontapé, nenhuma emoção. Assim as pessoas dizem que elas gostariam de uma vida bem pacífica, mas ninguém realmente deseja isso, do contrário, ninguém está criando qualquer barreira. Assim eles prosseguem falando sobre isso e continuam buscando por uma vida pacífica – e continuam criando perturbações. Então fique atenta, cuidado.

A vida é uma decisão contínua de momento a momento. Você não pode ir por todos os caminhos. Se você quer vir à Índia, você tem que deixar o Canadá. Se você quer viver no Canadá, você precisa deixar a Índia. Você não pode viver em todos os lugares. Não podemos nos espalhar por toda a terra. Iremos perder nosso ser totalmente. Temos que permanecer centrados.

Portanto, não somente com o amor, sobre tudo, seja decisiva. Eu sei, eu compreendo que isso é duro. Ás vezes é somente meio a meio. Parece difícil decidir, mas assim também, a gente precisa decidir. Jogue uma moeda ou consulte o I Ching, mas decida. Permanecer numa indecisão por muito tempo é muito perigoso. Isso lhe dá uma qualidade de ser indecisa. E se a pessoa aprende esse truque, então a pessoa desperdiça toda sua vida. Então nas pequenas coisas a pessoa começa a ficar indecisa também. A pessoa retarda, retarda... hesita. E também se houver muito retardamento e hesitação, será muito difícil dar o salto final para Deus, para o divino.

O amor é um aprendizado… a primeira lição da religião. Ela lhe ajuda a decidir. E se você puder decidir, na própria decisão algo dentro de você se cristaliza. Você verá isso. Senão você irá ficar bifurcado, você se tornará um esquizofrênico: uma parte indo nessa direção e outra parte indo naquela direção. Uma casa dividida está sempre em perigo. Pode cair a qualquer momento.

Então você decide. Se você realmente quer ser feliz, seja decisiva. É preciso coragem para decidir, quase a coragem de um jogador, mas a vida é assim, mm? Nada é barato na vida, pelo menos não o amor. Ele exige. E essa é a beleza dele – que ele exige. Essa própria exigência lhe dá uma sintonia, um espírito... integridade, individualidade."
Osho em Be Realistic: Plan for a Miracle

19 de maio de 2018

O sagrado 108 do Yoga - Pedro Kupfer


"O amigo praticante sabe que o 108 é um número sagrado no Yoga: tradicionalmente, se fazem 108 repetições de um mantra ao meditar, ou 108 ciclos da saudação ao sol em práticas especiais. Também sabe que asjapamālās, terços para meditação, têm 108 contas.

Ainda, que na espiritualidade da Índia, tanto no hinduísmo quanto no budismo, existem templos com 108 degraus, rituais onde se usam 108 yantras (diagramas para meditação), ou cerimônias onde há 108 altares para fazer oferendas ao fogo sagrado.

Há listas de 108 nomes que apontam para as diferentes manifestações do poder de cada deus hindu, e outros tantos caminhos para conecer cada um deles. O budismo menciona 108 virtudes que devem ser cultivadas e outras tantas imperfeições do caráter que precisam ser superadas para se alcançar o nirvāṇa, a iluminação.

Chegou a se perguntar qual é a razão disso? Embora várias interpretações tenham sido dadas, a mais convincente provém do jyotiśa, a tradição de observação dos astros da idade védica.

Os sábios daquele tempo, chamados ṛṣis, não somente praticavam Yoga, mas eram igualmente atentos observadores da natureza, que sempre perceberam como manifestação da ordem de Īśvara, a Consciência Ilimitada sempre presente, em tudo e em todos.

Eles compreenderam e nos legaram a visão dessa ordem, invariável e presente em todos os lugares, bem como perceberam as correlações e correspondências, entre as diferentes dimensões da criação, do infinitamente grande ao infinitesimalmente pequeno. Essas as correlações são chamadas bandhu, em sânscrito, e admitem em muitos casos expressões numéricas. O 108 é um deles.

108 ciclos até o sol.

Assim, esses sábios de outrora, através de observações a olho nu, chegaram à conclusão que em termos de diâmetro solar, a distância aproximada entre o sol e a terra é de 108 vezes o diâmetro do sol.

Descobriram também que a distância média entre a lua e a terra é de 108 vezes o diâmetro lunar. Esses valores se obtêm através de simples constatações visuais: colocando uma vara no chão e afastando-se dela 108 vezes a sua altura, aprecia-se o diâmetro aparente do sol ou da lua.

Essa é a razão pela qual o 108 é considerado sagrado, e pela qual as japamālās que mencionamos acima possuem 108 contas. 


Simbolicamente, completar uma volta de japamālā na meditação equivale a fazer uma jornada até o sol, fonte e origem da vida na terra. Por outro lado, como parte da correspondência entre o que está embaixo e o que está acima, 108 é o número que representa a região intermediária, chamada em sânscrito antarīkṣa, que fica entre o céu e a terra.

Desta forma, as 108 contas do terço de meditação representam o número equivalente de degraus que nos levam de volta ao Absoluto, de volta para casa. Esse passeio ritual é muito característico da cultura védica, berço do Yoga e é visível nas peregrinações a lugares sagrados como o Monte Kailash, no Tibete, considerado a moradia do deus Śiva, criador do Yoga, bem como em todo passeio em volta dos templos, que se faz completando um círculo em sentido horário em volta do sanctum santorum, o altar principal.

O alfabeto sânscrito e suas vibrações.

Além disso, há ainda outro motivo importante para considerar especial este número: 108 é o dobro de 54, o total das letras do alfabeto sânscrito. Se fazem 108 repetições de um mantra, ou do sūrya namaskār, a saudação ao sol, pois isso equivale, simbolicamente, a um passeio ritual aos limites da criação, com seu respectivo retorno.

Garuḍa é a águia mítica que serve de montaria ao deus Viṣṇu. Seu nome significa “asas da eloquência”, pois elas não são compostas de plumas, mas das sílabas do alfabeto sânscrito. Assim os 54 sons do sânscrito e os significados para os quais eles apontam são como as asas que nos permitem voar até todos os cantos da criação e, conhecendo a nós mesmos, conhecer tudo o que há para ser conhecido.

Diz a esse respeito a Chāṇḍogya Upaniṣad: “Conhecendo um único pote de argila, todos os objetos feitos desse material tornam-se conhecidos”.

Essa jornada chama-se parikrāma, circunvolução, e se faz tradicionalmente tanto nos templos como nas peregrinaçòes aos tīrthas, lugares sagrados da Índia. Interiormente, o yogi faz parikrāma no início de uma meditação ou no yoganidrā, levando a atenção sucessivamente para cada parte do seu corpo.

Munidos desse conhecimento, na próxima vez que nos depararmos com este número, poderemos lembrar que ele representa a jornada do caminhante em direção ao Absoluto. Com isso, a nossa caminhada poderá ficar mais significativa e inspiradora. Namaste!"


12 de maio de 2018

Vivendo Zen - Joko Beck


"Na prática zen nós saímos de uma vida dramática — espécie de novela das 20 horas — para uma vida não-dramática. A despeito do que possamos dizer, todos nós gostamos muito de nossos dramas pessoais. A razão para tanto? Seja qual for o nosso drama particular, sempre estamos no papel principal — que é onde nós queremos estar. E, pela prática, nós gradualmente nos deslocamos para longe dessa preocupação com nós mesmos. Assim, sair de uma vida dramática para uma vida não-dramática, embora possa parecer sem nenhum atrativo, é do que trata a prática zen. Examinemos esse processo mais de perto.

Quando começamos a praticar, é bom começar respirando algumas vezes bem fundo, enchendo a cavidade abdominal, o meio do peito e embaixo dos ombros, até estarmos repletos de ar; depois, soltamos o ar, interrompendo a expiração um instante. Faça isso três ou quatro vezes. Em certo sentido, é artificial, mas ajuda a criar um certo equilíbrio e forma uma base conveniente para se sentar e praticar. Depois de termos feito isso, o passo seguinte é esquecer exatamente isso, esquecer de controlar a respiração. Não o esqueceremos por completo, é claro, mas é inútil controlar a respiração. Em vez disso, apenas vivencie esse processo, o que é muito diferente. Não estamos tentando fazer uma respiração lenta, longa e regular, como muitos livros sugerem. Em lugar disso, o que queremos é deixar que o ar seja o comandante, para que a respiração esteja nos respirando. Se a respiração for superficial, que seja assim. Quando nos tornamos a nossa respiração, por sua própria pulsação a respiração se torna mais lenta. A respiração permanece superficial porque queremos pensar em vez de vivenciar a nossa vida. Quando fazemos isso, tudo se torna mais superficial e controlado. A palavra retesado é bastante sugestiva: descreve como subimos para a cabeça, a garganta, os ombros e lá nos tensionamos; estamos com muito medo e nossa respiração também fica alta. Uma respiração que consegue ser abdominal, como tende a ocorrer após anos de prática, é aquela que vem quando a mente perdeu as esperanças. Tudo aquilo pelo que esperamos é do que lentamente aprendemos a desistir e, então, a respiração desce. Não é algo que precisemos tentar fazer. A prática consiste em vivenciarmos a respiração como ela é.

Também pensamos que deveríamos ter uma mente sossegada. Muitos livros dizem isto: que a pessoa iluminada é aquela que tem uma mente sossegada. É verdade: quando não temos nenhuma esperança, nossa mente sossega. Enquanto alimentamos esperanças nossa mente está tentando descobrir como satisfazer essas vontades maravilhosas de coisas que queremos que aconteçam, ou estamos tentando nos proteger de todas as coisas terríveis que não deveriam acontecer. Assim, a mente está tudo, menos sossegada. Agora, em lugar de forçar a mente para que ela sossegue, o que podemos fazer? Podemos nos tornar conscientes do que ela está fazendo. É isso que é rotular nossos pensamentos. Em vez de nos atolarmos em esperanças começamos a ver: “É, sim, pela vigésima vez hoje estou esperando sentir algum alívio”. Depois de um bom sesshin, poderemos ter dito isso umas quinhentas vezes: “Espero que ele me telefone quando o sesshin acabar”. E então rotulamos: “Com esperança de que ele me telefone quando o sesshin terminar”; “Com esperança de que ele me telefone quando o sesshin terminar”. Depois de termos dito isso quinhentas vezes, o que acontece com isso? Enxergamos exatamente o que é: um absurdo. Afinal de contas, a verdade é que ou ele telefona ou não telefona. Conforme vamos observando nossa mente ao longo dos anos, aos poucos as esperanças se dissipam. E o que nos resta? Pode parecer lúgubre, eu sei: resta-nos a vida tal como ela é.

É proveitoso entrar nesse processo com uma atitude de investigação. Em vez de ver a nossa prática sentada como algo bom ou mau, como algo que deve melhorar numa base firme, deveríamos só investigar, observar o que estamos de fato fazendo. Não existe uma boa ou má prática sentada; existe apenas a percepção consciente ou a inconsciência do que está se passando em nossa vida. E, quando nós mantemos mais tempo a percepção consciente, as indagações que temos a respeito da vida são vistas por um novo prisma. Não somos entregues pura e simplesmente a um outro ponto de vista, mas conquistamos uma maneira diferente de ver as coisas. Conforme esse processo se desenvolve com o tempo, muito devagar a nossa mente vai sossegando não por completo, e o que se aquieta não são os pensamentos (poderemos praticar vinte anos e continuar vendo os pensamentos que correm pela mente). O que sossega é o nosso apego aos nossos pensamentos. Cada vez mais os vemos como uma espécie de espetáculo, parecido com o que fazemos quando olhamos as crianças brincarem. (Minha mente pensa quase o tempo todo. Que pense, se é o que quer.) E nosso apego aos pensamentos que bloqueia o samadhi. Podemos ter muitos pensamentos e mesmo assim estar em profundo samadhi, desde que não estejamos apegados a eles e só permaneçamos na vivência. É verdade que quanto mais tempo de prática tivermos, menos tenderemos a pensar, porque nossa tendência é obcecarmo-nos menos. Sendo assim, a mente de fato aquieta, embora com toda certeza não por termos dito a nós mesmos:’ ‘Eu tenho de ter uma mente sossegada!”. Quando nos mantemos sentados na prática, de tempos em tempos alcançamos perspectivas de grande lucidez a respeito de nossas vidas, que esclarecem diferentes aspectos das mesmas. Em si mesmos esses momentos não são nem bons nem mau s e, do ponto de vista da prática zen, não são nem particularmente importantes. Apesar de esses momentos de lucidez repentina terem uma certa utilidade, zazen não é ir atrás deles.

Eles realmente ocorrem, e de repente vemos: “Ora, é isso isso é o que eu faço. Que interessante!”. No entanto, até mesmo captar o momento dessa repentina lucidez é só algo que vem e vai, vem e vai, por nossa mente. Tornamo-nos cientistas que vivem esse experimento chamado nossa vida. Nossos eus e nossos pensamentos estão espalhados à nossa frente; olhamos com interesse para esse espetáculo, mas não mais como nosso próprio drama pessoal. Quanto mais desenvolvida for essa perspectiva em nós, melhor será a nossa vida. Por exemplo: se estamos fazendo um experimento com sal e açúcar, não dizemos: “Que coisa terrível! O sal e o açúcar estão discutindo!”. Não nos importa o que o sal e o açúcar estejam fazendo, apenas os observamos e apreciamos como interagem. Por outro lado, em geral nós nos importamos muito com o que os nossos pensamentos estão fazendo. Não ficamos apenas na sua observação, com uma atitude de interesse, como os cientistas que apenas acompanham o que acontece. “Se eu misturar isso e aquilo — interessante. Se eu puser essas coisas em proporções diferentes — interessante.” O cientista simplesmente observa e acompanha processos.

Quando essa qualidade de observar, de apreciar e vivenciar o que acontece estiver mais fortalecida em nossa vida, a realidade (que é só a percepção consciente) depara a irrealidade ou o nosso pequeno drama tecido de pensamentos. E vemos com mais clareza o que é real e o que é irreal, como a luz que ilumina a escuridão. Mas, quando nós trazemos mais realidade (percepção consciente) para nossas vidas, aquilo que vinha sendo problemático parece mudar. Quando instilamos mais percepção consciente em nossas vidas, começamos a eliminar nossos dramas pessoais. E não queremos fazer isso de verdade. Gostamos de nossos dramas pessoais, gostamos de alimentá-los. Cada um de nós tem sua própria encenação predileta. Por exemplo, podemos acreditar: “As circunstâncias da minha vida são em especial difíceis. A minha infância foi mais difícil que a da maioria das pessoas”; ou “Aquela coisa que me aconteceu realmente arruinou a minha vida”. É verdade, essas coisas aconteceram e criaram os nossos condicionamentos. Porém, enquanto mantivermos nossas crenças de que as histórias que contamos são a verdade acerca de nossa vida, a prática genuína não irá ocorrer. As crenças interditam a prática.

A menos que haja uma certa disponibilidade para abandonar essas crenças pessoais de vida, não existe nada que eu ou qualquer outra pessoa possa fazer. Às vezes, um sofrimento é o suficiente para criar por si aquela mínima brecha por onde a percepção consciente consiga se infiltrar. Mas enquanto essa pequena fenda não se abrir não há nada que alguém possa fazer. E as pessoas realmente obstinadas conseguem manter suas histórias pessoais até a morte. A vida para elas é muito dura. Uma crença pessoal desse tipo — “Sou uma vítima” — é como um armário fechado e escuro. Se queremos sentar nesse armário com a porta bem trancada, nada conseguirá penetrar nele. Infelizmente, enquanto insistimos em ficar sentados dentro desse armário (e todos fazemos isso às vezes), descobrimos que ninguém quer, na realidade, entrar e sentar-se conosco. Com franqueza, ninguém tem um interesse particular pelo drama dos outros. O que nos interessa é o nosso próprio drama. Eu posso querer me fechar dentro do meu próprio armário, mas com certeza não vou ficar sentado dentro do seu.

Todos nós entramos em nossos armários particulares. O armário é o nosso drama pessoal, e queremos ficar sozinhos dentro dele para nos sentir bem no seu centro. É uma suculenta infelicidade. E quer nos demos conta, quer não, adoramos isso. Porém, quando passamos pela experiência de abrir a porta e deixar um pouco de luz entrar, depois de termos visto uma vez que seja o que é um pouco de luz genuína dentro do armário, nunca mais conseguiremos nos manter indefinidamente dentro dele. Pode nos custar anos, mas depois de algum tempo iremos abrir a porta. Uma maneira de entender os sesshins é que esses encontros fazem a porta abrir-se para algumas pessoas. Por isso é que os sesshins podem ser tão incômodos.

Em algum momento começamos a ver que aquilo que acontece em nossa vida não é a questão; sempre haverá algo acontecendo. O que acontece sempre será uma mescla daquilo de que gostamos e de que não gostamos. Não há tempo em que isso cesse. No entanto, quanto mais cientistas nos tomarmos, menos nos emaranharemos no que está acontecendo e mais seremos capazes de apenas observar o que está acontecendo. A capacidade de fazer isso e a disponibilidade para tanto aumentam com o passar dos anos na prática. No início essa postura observadora pode ser mínima. Nossa incumbência é aumentar nossa abertura para desenvolvê-la.

No final, não importa como nos sentimos. Não faz diferença se estamos deprimidos, inquietos, fragmentados, felizes. A tarefa do aluno é observar, vivenciar, tomar consciência. Por exemplo, a depressão, quando completamente vivenciada, deixa de ser depressão e torna-se samadhi. A inquietação também pode ser vivenciada e, quando isso acontece, dá-se um deslocamento interno e não temos mais de nos preocupar com a nossa inquietação. Nenhuma circunstância, nenhum sentimento, essa é a meta. O objetivo é a oportunidade de vivenciar.

Costumamos supor que temos de mergulhar fundo nas “questões” psicológicas submersas e trabalhar com esse material. Não é bem isso. Afinal de contas, onde essas questões se escondem? Não é suposição realmente acurada a de que existam coisas por baixo da consciência que irão dar um jeito de vir à tona, embora possa assim parecer a nós. Nos sesshins, podemos ficar emocionados, tristes, desesperados, mas essas emoções não são mistérios escondidos que aparecem de repente. Essas coisas são simplesmente o que somos, e estamos vivenciando quem somos. Quando tentamos trabalhar para que essas coisas venham à tona, estamos apenas diante de uma outra forma de auto-aperfeiçoamento que não funciona. A prática não é uma questão de sentar para que essas coisas possam emergir e assim consigamos trabalhar com o material para nos tornarmos pessoas melhores. O fato é que já estamos bem. Não se trata de ir a nenhuma outra parte.

Bloqueamos nossa percepção consciente com nossa culpa e nossos ideais. Por exemplo, vamos supor que eu disse para alguém: “É só que não sou uma boa professora. Não lido com todas as situações de maneira perfeita”. Quando fico apegada a esse pensamento, bloqueio toda a minha capacidade de aprender. A culpa e os ideais de como eu deveria ser bloqueiam a única coisa que de fato importa: uma clara percepção consciente: “Estou vendo o que aconteceu, eu realmente fiz uma bela confusão, não foi? Bom, o que posso aprender?”. Um outro exemplo poderia ser o do cozinheiro preocupado com o jantar. Vamos supor que o jantar queimou. O cozinheiro não tem de se descabelar: “Oh! é o fim do mundo! O que as pessoas vão pensar de mim? Eu acabo de queimar tudo!”. Nesse ponto o que pode ser feito? Basta procurar cada pedaço de pão que ainda houver em casa e reparti-lo. Não é o fim do mundo quando o jantar queima, mas a culpa interdita o aprendizado.

A única coisa que importa é a percepção consciente do que está acontecendo. Quando entramos pelo setor dos ideais e da culpa, as decisões em si tornam-se difíceis, porque nós não vemos como caímos nas armadilhas das nossas preocupações: “Será que isso vai servir para mim? O que acontecerá? Será realmente uma boa medida? Minha vida vai se tornar mais segura, mais maravilhosa, mais perfeita?”. Essas perguntas são erradas. Quais são as certas? E quais são as decisões certas? Não podemos dizer antes, mas, em algum momento, saberemos se não nos emaranharmos na culpa, nos ideais e no perfeccionismo que em geral acrescentamos ao nosso processo de tomar decisões. Sentar para praticar trata dessa espécie de clarificação.

Todas as técnicas são úteis e todas são limitadas. Seja qual for a técnica que inserirmos em nossa prática, ela nos servirá por algum tempo, até que deixemos realmente de empregá-la, que comecemos a devanear com ela ou a sonhar. Sendo assim, o importante com qualquer técnica é a intenção. Nossa intenção deve ser a de estarmos presentes, de tomarmos consciência, de estarmos praticando. E ninguém sustenta essas intenções o tempo todo. Elas se mantêm em caráter intermitente. Também queremos encontrar um professor que passe a tomar conta disso por nós; todos nós queremos ser salvos e cuidados. A intenção de praticar é a coisa mais importante. Não existe técnica que possa nos salvar, professor algum que venha nos salvar, centro algum que possa nos salvar. Não existe nada que venha nos salvar. Esse é o mais cruel de todos os golpes.

Quando transformamos nossa vida dramática numa vida não-dramática, isso quer dizer que pegamos a nossa vida de incessante buscar, analisar, alimentar esperanças e sonhar e a tornamos um espaço para apenas vivenciar a vida tal como ela se nos aparece, neste exato momento. 

O fator chave é a percepção consciente, o mero vivenciar da dor que é como é. Paradoxalmente isso é o contentamento. 
Não existe nenhum outro contentamento na Terra, exceto este.

Essa espécie de prática surte um efeito letal: eliminará de maneira irreversível nosso drama. Mas não a nossa personalidade. Todos somos diferentes e continuaremos sendo assim. Contudo, o drama não é real. É um impedimento a uma vida que flui e pode ser atenciosa."

Charlotte Joko Beck em Nothing special living zen.

5 de maio de 2018

O espaço vazio - Ramana Maharshi



"É falso falar de realização.
O que deve ser feito? 

O real é como sempre é.


Não estamos criando nada de novo. 

Realização é ensinada como algo que você conseguiu, algo que não havia antes.

A ilustração dada nos livros é essa.

A realização se assemelha a se cavar um poço.

Nós cavamos um poço e criamos um enorme buraco.
O espaço que surge no buraco, não foi criado por nós.
Nós apenas removemos a Terra. 
Era a terra que estava preenchendo todo o espaço lá.


O espaço já estava lá então, e também está lá agora.
Da mesma forma, nós simplesmente temos que jogar todos as tendências inatas ou samskaras envelhecidos que estão dentro de nós.


Quando todos eles forem abandonados, somente o Ser brilhará."
Por Ramana Maharshi

28 de abril de 2018

Quem é este eu? - Pedro Kupfer



"Quando nos olhamos no espelho, aquilo que chamamos Eu parece fugir à nossa percepção. Não podemos ver o Eu com os olhos, nem tocá-lo com as mãos, nem sentí-lo com o tato ou a audição. Como é que podemos perceber o Ser? Onde ele está? Como podemos dizer que de fato existe?

Certamente, o Ser acontece no corpomente, mas evidentemente, não está limitado aos contornos do físico ou do psíquico. Não somos as experiências ou diferentes partes do corpo, ou pensamento ou as emoções, mas estamos em todas e cada uma delas.

Se isso é fato, então, encontrar o Eu dentro de uma forma limitada, restrita ao espaço do corpo físico ou do psiquismo, é um pressuposto equivocado: se Eu não tenho um limite definido, então, lutar pelo “meu” é uma equivocação.

A visão do Yoga nos mostra que o Ser é ilimitado e, portanto, não está restrito às questões do corpomente. Ao mesmo tempo em que é ilimitado, está presente em todas as manifestações da natureza, em todas as emoções, em todos os pensamentos.

Nesse sentido, ensina um texto antigo: “Aqueles que percebem a si próprios, não como corpo ou mente, mas como o Ser ilimitado, o divino princípio da existência, encontram a fonte de toda felicidade e residem nela”.

O Yoga propõe então uma mudança de visão. Todos temos uma perspectiva sobre as coisas, sobre nós mesmos e sobre a vida. Cada um tem um olhar diferente. Numa praia, por exemplo, olhe para as pessoas.

Cada uma, com sua atenção seletiva, está atenta a uma parte diferente da paisagem e dos acontecimentos: os surfistas olham para as ondas, apreciam os ventos e as correntes, mas não dão a mínima para os peixes, que atraem toda a atenção dos pescadores.

As mães não olham para as ondas nem para os peixes, mas para seus filhos brincando na beira do mar. As crianças, por sua vez, estão totalmente absorvidas em seus castelos de areia.

Se quisermos que a nossa vida seja digna de ser vivida com plenitude e felicidade real, é fundamental cultivar uma atitude de aceitação de cada pessoa como é, cada uma preocupada na sua satisfação pessoal, em prover suas necessidades básicas.

Nessa ordem de coisas, é desejável aceitarmos com gratidão aquilo que a vida nos oferece agora, sem nos preocupar com como deveriam ser as coisas, e aceitando tudo e todos como presentes que a vida nos entrega para o benefício de todos.

Qualquer coisa que seja, é evidente para nós. Aquilo que os olhos vêem se torna evidente. Você é, logo você brilha. Brilha e ilumina os objetos à sua volta. Você não precisa ser iluminado por outra consciência para ser, e saber que é. Você é autoevidente. Sua existência é autoevidente. A consciência é a única que brilha por si mesma.

Os diferentes objetos na criação se tornam evidentes para você através de cinco meios de conhecimento, pelos quais você pode dizer que as coisas são, que as coisas existem. Esses cinco meios de conhecimento são os seguintes: 1) percepção, 2) inferência, 3) inferência complexa, 4) constatação da ausência e 5) ilustração.

Ainda quando dizemos "isto foi" para nos referir a algum evento do passado, fazemos isso no presente, desde o presente. Você diz que está com fome, sede, você tem emoções, experiências, conhecimento e ignorância sobre as coisas.

Tudo se torna evidente para si. Você é a testemunha que percebe as coisas. Portanto, não pode dizer que algo exista sem apelar para um desses meios de conhecimento.

Agora, você existe ou não? Através de qual desses meios de conhecimento é que você pode dizer que existe? Qual deles você usa para afirmar que você é? “Eu devo existir, pois penso que ninguém ia casar com uma pessoa inexistente”.

Quando você diz “eu sou”, não precisa de nenhum meio de conhecimento para afirmar isso. Você não precisa provar a sua existência. A existência é o significado da palavra Eu.

O corpo se torna evidente para si. A mente se torna evidente para si. Portanto, este Eu que você é, é autoevidente. E este Eu é, sempre foi e sempre será, livre e pleno. 

21 de abril de 2018

Tornar-se e Ser - Osho


"A fonte original de toda tensão é o tornar-se. O indivíduo está sempre tentando se algo; ninguém está tranquilo consigo mesmo tal qual é. O ser não é aceito, o ser é negado e algo mais é tomado como um ideal no qual se transformar. Assim, a tensão básica é sempre um ideal no qual se transformar. Assim, a tensão básica é sempre entre aquilo que você é e aquilo que você ambiciona vir a ser.

Você deseja tornar-se algo. A tensão significa que você não está satisfeito com o que você é e você ambiciona ser o que não é. A tensão é criada entre estes dois. O que você deseja se tornar é irrelevante. Se quiser se tornar rico, famoso, poderoso ou mesmo se quiser ser livre, liberado, ser divino, imortal, mesmo se você ambicionar a salvação, moksha, também a tensão estará ali.

Qualquer coisa que seja desejada com algo a ser satisfeito no futuro, contra você como você é, cria tensão. Quanto mais impossível o ideal é, maior a tensão tende a ser. Por conseguinte, a pessoa que é materialista, normalmente não é tão tensa como a que é religiosa. porque a pessoa religiosa está ambicionando o impossível, o distante. A distância é tão grande que somente uma grande tensão pode preencher o vazio.

Tensão significa uma lacuna entre o que você é e o que quer ser. Se a lacuna for grande, a tensão será grande. Se a lacuna for pequena, a tensão será pequena. E se não há lacuna de forma alguma, significa que você está satisfeito com o que você é. Em outras palavras, você não ambiciona ser uma outra coisa que você não é. Então, sua mente existe no momento. Não há nada com o que estar tensa; você está satisfeito consigo mesmo. Você está no Tao. Para mim, se não há lacuna você é religioso. você está em dhrama.

A lacuna pode ter muitas camadas. Se a ambição for física, a tensão será física. Quando você busca um corpo em particular, uma forma particular - se você ambiciona algo diferente do que você é no nível físico - então há tensão no seu corpo físico. Alguém quer ser mais bonito. Agora o corpo torna-se tenso. Esta tensão começa no primeiro corpo, o fisiológico, mas se é insistente, constante, pode se aprofundar e se espalhar para outras camadas do seu ser.

Se você está ambicionando poderes psíquicos, então a tensão começa no nível psíquico e se espalha. O espalhar-se é exatamente como se você jogasse uma pedra no lago. A pedra cai num ponto particular, mas as vibrações criadas por ela continuarão a se espalhar até o infinito. Assim, a tensão pode se iniciar em qualquer um dos sete corpos, mas a fonte original é sempre a mesma; a lacuna entre um estado que é e um estado que é almejado.

Se você tem a mente de um tipo particular e quer trocá-la, transformá-la - se você deseja ser mais talentoso, mais inteligente - então a tensão é criada. Só se aceitamos a nós mesmos totalmente, não há tensão. Esta aceitação total é o milagre, o único milagre. Encontrar uma pessoa que tenha aceito a si mesma totalmente é a única coisa surpreendente.

A existência em si não é tensa. A tensão é sempre por causa das possibilidades hipotéticas, não existenciais. Não há tensão no presente; a tensão é sempre voltada ao futuro. Ela procede da imaginação. Você pode imaginar-se como algo diferente do que é. Este potencial imaginado criará tensão. Quanto mais imaginativa a pessoa é, pois, mais a possibilidade de tensão. Então a imaginação torna-se destrutiva.

A imaginação pode também tornar-se construtiva, criativa. Se toda sua capacidade de imaginar está focalizada no presente, no momento e não no futuro, então você pode começar a ver sua existência como poesia. Sua imaginação não está criando um ambição; está sendo usada na vivência. Está vivência no presente está além da tensão.
Os animais não são tensos, as árvores não são tensas, porque eles não têm a capacidade de imaginar. Eles estão abaixo da tensão, não além dela. A tensão deles é apenas uma potencialidade; não se tornou atual. Eles estão evoluindo. Surgirá um momento em que a tensão explodirá em seus seres e eles começarão a ambicionar o futuro. É propenso a acontecer. A imaginação torna-se ativa.

A primeira coisa a respeito da qual a imaginação torna-se ativa é o futuro. Você cria imagens e porque não há realidade correspondente, continua a criar mais e mais imagens. Mas no que diz respeito ao presente, você não concebe a imaginação relacionada a ele. Como você pode ser imaginativo no presente? Parece não haver necessidade. Este ponto deve ser entendido.
Se puder estar conscientemente presente no presente, você não estará vivendo na imaginação. Então, a imaginação estará livre para criar dentro do presente em si. Só é necessário o focar correto. Se a imaginação é focalizada no real, ela começa a criar. A criação pode tomar qualquer forma. Se você é poeta, ela se converte numa explosão de poesia. A poesia não será uma ambição do futuro, mas será uma expressão do presente. Ou se você é pintor, a explosão será de pintura. A pintura não será algo como você imaginou, mas como o conheceu e o vivenciou.
Quando você não está vivendo na imaginação, o momento presente lhe é dado. Você pode expressá-lo ou cair no silencio. Mas o silencio agora não é um silencio morto, é também uma expressão do momento presente. Este silencio é um florescer positivo. Algo floresceu dentro de você, a flor do silencio e através deste silencio, tudo o que você está vivendo é expressado."
Osho em Psicologia do Esotérico.

14 de abril de 2018

Osho fala sobre o batismo de Jesus


"Uma vez pediram a um rabino que resumisse toda a mensagem da Bíblia. Ele respondeu que toda a mensagem é muito simples e curta. É Deus gritando para o homem: "Entronize-me!"
Foi isso que aconteceu naquele dia no rio Jordão. Jesus desapareceu, Deus foi entronizado. Jesus esvaziou a casa, Deus entrou. Ou você existe ou Deus existe - os dois não podem coexistir. Se você insiste em existir, então abandone a busca de Deus; ela não se realizará. Dessa forma a busca é impossível, absolutamente impossível. Se você estiver presente, então, Deus não pode estar; a sua própria existência, a sua presença é a barreira. Você desaparece... e Deus está. Ele sempre esteve.

O homem vive como uma parte, separado do todo. Ao redor de si, ele cria ideias, sonhos, o ego, a personalidade, e pensa em si como uma ilha, desconectado do todo, sem relação com o todo. Você já conseguiu ver algum relacionamento entre você e as árvores? Já conseguiu ver algum relacionamento entre você e o mar? Se não conseguiu, então jamais chegará a ver o que é Deus. Deus, a divindade, não é nada mais que o todo, a totalidade, a unidade. Se você existe como uma parte separada, desnecessariamente existe como um mendigo. Você poderia ser o todo, a totalidade, a unidade. E mesmo quando pensa que é separado, você não é - isso é apenas um pensamento na mente. O pensamento não está enganando Deus, está enganando somente você. O pensamento é simplesmente uma barreira para seus olhos se abrirem.

Naquela manhã no rio Jordão, quando João Batista iniciou Jesus, ele matou Jesus completamente. Jesus desapareceu. E naquele momento de vazio - aquilo que Buda chama de shunyata, vacuidade - os céus se abriram e o espírito de Deus, como uma pomba, desceu sobre Jesus, iluminando-o. Isso é apenas simbólico; Jesus morreu, Deus foi entronizado. Isto é o que no zen se chama de transmissão especial, fora das escrituras. Nenhum conhecimento foi transmitido por João Batista a Jesus, nenhuma escritura foi transmitida - nem mesmo uma única palavra foi pronunciada. Nenhuma dependência de palavras ou letras, apenas um apontar direto para a alma do homem, uma penetração na natureza do homem - a obtenção do estado búdico.(...)

Jesus tornou-se uno com Deus, mas imediatamente foi banido por sua própria tradição. Ele tentou de mil e uma maneiras permanecer parte da comunidade, mas foi impossível. Ele não podia fazer parte das escrituras, não podia fazer parte da tradição. Algo do além entrara nele e, quando Deus entra, todas as escrituras se tornam inúteis. Quando você mesmo vem a conhecer, todos os conhecimentos se tornam lixo.

Essa foi a luta entre Jesus e os rabinos. Eles tinham conhecimento, Jesus tinha o saber - e estes nunca se encontram. O homem do saber é rebelde, o homem do saber tem seus próprios olhos; ele diz o que quer que veja. O homem do conhecimento é cego; ele carrega a escritura e nunca olha ao redor; segue apenas repetindo as escrituras. O homem do conhecimento é mecânico, não tem nenhum contato pessoal com a realidade."
Osho em Palavras de Fogo, reflexões sobre Jesus de Nazaré.


7 de abril de 2018

Centramento através do corpo - Osho


"Lembre de confiar em seu próprio organismo. Quando você sente que o corpo está dizendo para não comer, pare imediatamente. Quando o corpo disser para comer, então não se importe se as escrituras dizem para jejuar ou não. 

Se seu corpo diz para comer três vezes ao dia, está perfeitamente bem. 
Se ele diz para comer uma vez ao dia, está perfeitamente bem.

Comece a aprender como escutar seu corpo, porque ele é o seu corpo.

Você está dentro dele; você precisa respeitá-lo, você precisa confiar nele.
É o seu templo; é sacrilégio impor coisas ao seu corpo. 
Por nenhum motivo nada deve ser imposto! 

E isso não somente lhe ensinará a confiar em seu corpo, isso lhe ensinará, pouco a pouco, a confiar na existência. Assim sua confiança crescerá e você irá confiar nas árvores, nas estrelas, na lua, no sol e nos oceanos: você confiará nas pessoas.

Mas o começo da confiança tem que ser confiar em seu organismo.
Confie em seu coração.
Um sannyasin é aquele que confia em seu próprio organismo e essa confiança o ajuda a relaxar em seu ser e o ajuda a relaxar na totalidade da existência. 
Isso traz uma aceitação geral de si mesmo e dos outros.

Confiança dá um tipo de enraizamento, de centramento. 

Então há uma grande força e poder, porque você está centrado em seu próprio corpo, em seu próprio ser."
Osho em O Sutra do Coração #10

31 de março de 2018

Sobre a solidão - Pëma Chödrön


"Normalmente vemos a solidão como um inimigo. A melancolia não é algo que escolhemos convidar. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém que nos faça companhia. Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com a solidão, uma solidão relaxante e refrescante que transforma radicalmente nossos amedrontados padrões habituais.

Não há ponto de referência no caminho do meio. A mente, sem ponto de referência, não se define, não se fixa, não se agarra. Como é possível não ter um ponto de referência? Isso seria mudar uma resposta arraigada e habitual diante do mundo: querer que as coisas funcionem bem, de um jeito ou de outro. Se não podemos virar nem para esquerda nem para a direita, achamos que vamos morrer! Quando não escolhemos uma direção, temos a sensação de estar em uma clínica de desintoxicação. Sentimos a angústia da abstinência, com toda a irritação que temos tentado evitar por meio de nosso padrão habitual. Esse sentimento pode ser bastante penoso.

No entanto, anos e anos de virar para um lado ou para o outro, de escolher sim ou não, de dizer certo ou errado nunca mudaram, de fato, coisa alguma. Lutar por segurança nunca trouxe nada além de alegria momentânea. Assemelha-se a mudar de posição das pernas durante a meditação. Nossas pernas cruzadas começam a doer e nós as movemos. Então, pensamos: “Puxa! Que alívio!”. Ficamos girando, procurando prazer, procurando conforto, e a satisfação que conseguimos tem vida curta.

Ouvimos muito falar sobre a dor do samsara e também sobre libertação. Mas não se fala muito sobre quanto é doloroso sair do aprisionamento para a liberdade. Esse processo exige enorme coragem, já que, basicamente, estamos mudando totalmente nossa percepção da realidade – algo como mudar nosso DNA. Estamos desfazendo um padrão que não é apenas nosso, mas de toda a humanidade: projetamos sobre o mundo um trilhão de possibilidades para alcançar a solução. Queremos ter dentes mais brancos, um gramado sem ervas daninhas, uma vida sem antagonismo, um mundo sem confusão. Queremos viver felizes para sempre. Esse padrão nos mantém insatisfeitos e nos causa muito sofrimento.

Nosso direito inato: O Caminho do Meio

Como seres humanos, não apenas buscamos uma solução – achamos que a merecemos. Entretanto, não apenas não merecemos uma solução – sofremos por causa dela. Na verdade, temos direito a algo melhor, àquilo que é nosso direito inato, ao caminho do meio – um estado mental aberto onde é possível relaxar no paradoxo e na ambiguidade. Na medida em que estamos evitando a incerteza vamos, naturalmente, sentir os sintomas da privação – de deixar de pensar que existe um problema e alguém, em algum lugar, precisa resolvê-lo.

O caminho do meio é muito aberto, mas não é fácil caminhar por ele, pois vai contra a textura de um antigo padrão neurótico que todos nós compartilhamos. Quando nos sentimos sozinhos, quando estamos desesperados, sentimos necessidade de virar para a esquerda ou para a direita. Não desejamos sentar e experimentar o que estamos sentindo. Não queremos passar pela desintoxicação. Mas é exatamente isso que o caminho do meio nos encoraja a fazer. Ele nos estimula a despertar a coragem que existe em cada um de nós, sem exceção, o que existe em mim e em você.

A meditação nos fornece um método para treinarmos no caminho do meio – para estarmos exatamente ali, naquele lugar. Na verdade, somos encorajados a nem mesmo agarrar qualquer coisa que surja em nossa mente. Reconhecemos simplesmente como “pensando” aquilo que chamamos de bem ou mal, sem todo o drama habitual que acompanha o certo e o errado. Somos instruídos a permitir que os pensamentos venham e se dissolvam, como se estivéssemos tocando em uma bolha com uma pena. Essa disciplina direta nos leva a parar de lutar e a descobrir uma disposição nova e imparcial.

Quando experimentamos determinados sentimentos podemos perceber como eles são especialmente férteis e cheios de expectativa de solução: solidão, tédio, ansiedade. Não é fácil permanecer no caminho do meio quando os estamos sentindo e isso só será possível se pudermos relaxar nesses sentimentos. Queremos vitória ou derrota, elogios ou culpa. Quando alguém nos abandona, por exemplo, não queremos permanecer com esse penoso mal-estar. Em vez disso, evocamos mentalmente nossa bem conhecida identidade de vítima infeliz. Talvez tentemos evitar a rudeza da situação dissimulando e, cheios de razão, dizendo a essa pessoa o quanto ela é confusa. Automaticamente, desejamos encobrir a dor, de uma forma ou de outra, por meio da identificação com o vitorioso ou com a vítima.

Normalmente vemos a solidão como um inimigo. A melancolia não é algo que escolhemos convidar. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém que nos faça companhia. Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com a solidão, uma solidão refrescante que transforma radicalmente nossos amedrontados padrões habituais.

Existem seis atitudes para descrever esse tipo de solidão refrescante: desejar menos, contentar-se, evitar a atividade desnecessária, ter total disciplina, não vagar pelo mundo do desejo e não buscar segurança no mundo dos pensamentos discursivos.

Desejar menos

Desejar menos é a disposição para estar solitário sem buscar uma solução, quando tudo em nós anseia por algo que nos anime e mude nosso estado de espírito. Praticar esse tipo de solidão é uma forma de espalhar sementes para que a inquietação fundamental diminua. Na meditação, por exemplo, cada vez que rotulamos “pensando”, em vez de ficar interminavelmente às voltas como nossos próprios pensamentos, estamos apenas treinando estar exatamente ali, sem dissociação. Não conseguimos fazer isso agora, na medida em que estávamos dispostos a fazê-lo ontem, anteontem, na semana passada ou no ano passado. Mas, após praticarmos o desejar menos com perspicácia e coerência, alguma coisa muda. Temos menos desejo, no sentido de sermos menos solidamente seduzidos por nossa História Importantíssima. Assim, o caminho do guerreiro consiste em, diante da intensa solidão, conseguir sentar com essa inquietação durante 1,6 segundo, enquanto que, no dia anterior, era impossível estar com ela durante um único segundo. Esse é o caminho da coragem. Quanto menos nos dispersamos e enlouquecemos, mais saboreamos a satisfação da solidão refrescante. Como dizia frequentemente Katagiri Roshi, mestre Zen: “É possível ser solitário e não se sentir devastado por isso”.

Contentamento

Contentar-se é o segundo tipo de solidão. Quando não temos nada, não temos nada a perder. Nada temos a perder, a não ser nosso forte condicionamento para achar que temos muito a perder. Essa sensação tem suas raízes no medo – medo da solidão, da mudança, de tudo que não pode ser solucionado, da não existência. A esperança de evitar esses sentimentos e o medo de não consegui-lo tornam-se nossos pontos de referência.

Se desenharmos uma linha vertical no centro de uma página, saberemos quem somos se estivermos do lado direito ou do lado esquerdo. Mas ficamos sem saber quem somos quando não nos posicionamos em nenhum dos lados. Então, simplesmente não sabemos o que fazer. Simplesmente não sabemos. Não temos um ponto de referência, uma mão para segurar. Nesse momento, podemos nos apavorar ou nos aquietar. Contentamento é sinônimo de solidão, de solidão tranquila, de acomodar-se na solidão refrescante. Desistir de acreditar que somos capazes de fugir de nossa solidão. E que isso não vai nos trazer algum tipo de felicidade, alegria, bem estar, coragem ou força duradouras. Normalmente, precisamos desistir dessa crença um bilhão de vezes, mais uma vez fazendo amizade com nossos sobressaltos e medos, repetindo a mesma coisa milhões de vezes, conscientemente. Então, sem que saibamos como, alguma coisa começa a mudar. Podemos ser simplesmente solitários, sem alternativas, satisfeitos por estarmos exatamente ali, na qualidade e textura do que está acontecendo.

Evitar atividades desnecessárias

Evitar a atividade desnecessária é o terceiro tipo de solidão. Quando estamos solitários de um modo “intenso”, procuramos algo que nos salve, procuramos uma saída. Temos esse desagradável sentimento que chamamos de solidão e nossa mente simplesmente se descontrola, tentando encontrar alguma companhia que nos livre do desespero. Essa é a chamada atividade desnecessária – uma maneira de nos mantermos ocupados para não termos de sentir nenhuma dor. Esse processo pode assumir a forma de fantasiar obsessivamente o amor verdadeiro, de espalhar uma ótima fofoca aos quatro ventos, ou ainda de fugir sozinho para o deserto. A questão é que, com todas essas atividades, estamos buscando companhia de nosso modo costumeiro e habitual, usando as mesmas velhas e repetitivas fórmulas para afastar o demônio da solidão. Não poderíamos apenas nos aquietar e mostrar algum respeito e compaixão diante de nós mesmos? Que tal praticar deixar de sobressaltar-se e agarrar-se a algo no momento em que começamos a entrar em pânico? Relaxar na solidão é uma atividade que vale a pena. Como diz o poeta japonês Ryokan: “Se quiser encontrar o sentido, pare de correr atrás de tantas coisas”.

Completa disciplina

Outro componente da solidão refrescante é a disciplina total, que se relaciona com estarmos dispostos a voltar a cada momento, a simplesmente voltar com suavidade para o momento presente. Essa é a solidão como disciplina total. Estamos dispostos a sentar quietos, apenas estando ali, sozinhos. Não precisamos cultivar especificamente esse tipo de solidão; podemos apenas sentar quietos o bastante para perceber como as coisas realmente são. Somos fundamentalmente sós, e não há nada, em lugar algum, em que possamos nos agarrar. Além do mais, isso não é um problema. Na verdade, isso nos permite finalmente descobrir uma maneira de ser totalmente desconstruída. Nossas premissas habituais – todos os nossos conceitos sobre como as coisas são – impedem-nos de ter uma visão nova e aberta. Dizemos: “Sim, eu sei”. Mas não sabemos. Em última análise, não sabemos nada. Não existe certeza sobre coisa alguma. Essa verdade fundamental causa dor e queremos fugir dela. Entretanto voltar para algo tão familiar quanto a solidão e relaxar nela representa um bom exercício para perceber a profundidade das situações mal resolvidas de nossa vida. Estamos nos enganando quando fugimos da ambiguidade da solidão.

Não vagar pelo mundo do desejo

Não vagar pelo mundo do desejo é outra maneira de descrever a solidão refrescante. Vagar pelo mundo do desejo envolve procurar alternativas, buscar algo que nos conforte – comida, bebidas, pessoas. A palavra desejo inclui aquela qualidade de vício que já mencionamos, nossa tendência a nos apegarmos a algo porque queremos encontrar uma maneira de deixar tudo bem. Isso decorre de nunca termos crescido. Ainda queremos ir pra casa, abrir a geladeira e encontrá-la cheia de nossas guloseimas favoritas. Quando a situação fica difícil, queremos gritar: “Mamãe!”. À medida que continuamos no caminho, porém, deixamos nossa casa e nos tornamos desabrigados. Não vagar pelo mundo do desejo tem a ver com relacionar-se diretamente com as situações, do modo como são. A solidão não é um problema. Não é algo que precisa ser resolvido, e o mesmo é verdadeiro para qualquer outra experiência que possamos ter.

Não buscar segurança nos pensamentos discursivos

Não buscar segurança nos pensamentos discursivos é outro aspecto da solidão refrescante. Puxaram nosso tapete, a festa acabou, desta vez não temos saída! Não buscamos nem mesmo a companhia de nossa constante conversa interior sobre como as coisas são ou não são, sobre se são ou não são, sobre como deveriam ou não deveriam ser, como poderiam ou não poderiam ser. Na solidão refrescante, não esperamos que nossa tagarelice interior nos traga segurança. Essa é a razão pela qual somos instruídos a rotulá-la “pensando”. Ela não possui realidade objetiva. Somos encorajados a apenas tocar essa tagarelice e a permitir que se vá, sem fazer muito barulho por nada.

A solidão refrescante nos permite olhar honestamente e sem agressão para nossa própria mente. Gradualmente, podemos deixar de lado nossos ideais sobre quem achamos que deveríamos ser, quem achamos que queríamos ser, ou o que achamos que os outros acham que seríamos ou deveríamos ser. Desistimos e apenas olhamos diretamente, com humor e compaixão, para aquilo que somos. Então, a solidão não representa mais ameaça e a melancolia deixa de ser punição.

A solidão refrescante não nos fornece soluções e não nos dá um apoio. Ela nos desafia a entrar em um mundo onde não existe ponto de referência, sem polarizá-lo e sem cristalizá-lo. Esse processo é chamado caminho do meio ou a trilha sagrada do guerreiro.

Você saberia aproveitar essa oportunidade de ouro, quando acordar pela manhã e, de repente, começar o sofrimento da alienação e solidão? Em vez de se atormentar ou sentir que algo terrivelmente errado está acontecendo, exatamente ali, no momento da tristeza e da saudade, poderia relaxar e tocar o espaço ilimitado do coração humano? Experimente da próxima vez em que tiver essa oportunidade."

Pëma Chödrön em “Quando tudo se desfaz” 

24 de março de 2018

A prática da Gratidão - Monja Isshin


"Talvez o exercício mais profundo no Budismo seja a prática de Gratidão. Imagine passar um dia inteiro agradecendo cada pessoa que encontra e cada acontecimento! Obrigada, obrigada, obrigada. Saio da cama e vejo que está chovendo lá fora – obrigada. Encontro o meu marido, sonolento, com a barba por fazer – obrigada. Preparo o café da manhã – obrigada. Como o pão de cada dia – obrigada. Entro no carro e dou partida no motor – obrigada. Um motorista apressado me fecha no trânsito – obrigada.

O quê? Vou agradecer o cara que me fecha no trânsito, quase causando um acidente???

Sim! Vou agradecer! Talvez na hora nem consiga imaginar um motivo para ter gratidão – simplesmente vou fazer a minha prática de agradecer todas as pessoas e todos os acontecimentos.

Lembro me de quando iniciei a prática de Aikidô. No final das aulas, havia um exercício chamado “jiu-waza”, onde, um por um, os alunos tentam atacar o mestre e recebem as técnicas de defesa. O nosso professor honrava até os mais novos principiantes com a oportunidade de passar por este treinamento. No meu primeiro dia de aula, confesso que fiquei paralizada. Faltou coragem e não fui. No segundo dia, jurei para mim mesma que iria, custasse o que custasse – e fui. No final do exercício, tinha que fazer uma reverência e agradecer – em japonês – “arigatô gozaimashita”. Gente, que prática maravilhosa!

Entortava a língua com aquelas palavras estranhas que mal conseguia lembrar. E, de tanto medo que tive – medo de me entregar, de aceitar que alguém me jogasse ao chão, que me aremessasse para longe – gente, alguém vai achar que, no início, eu encontrava qualquer espírito de gratidão? É claro que não! Mas, o exercício era justamente isto – fazer uma reverência e agradecer. Dentes cerrados, entortava a língua e forçava aquelas palavras a saírem da minha boca. E aí que começou a operar-se um milagre!

Mesmo forçando o agradecimento, o simples ato de agradecer abria o meu coração, pouco-a-pouco. Até o meu subconsciente começou a ficar curioso para entender o que havia lá para agradecer, pois, inicialmente, só percebia o medo de ser machucado. Esta curiosidade me ajudou a observar melhor os outros colegas, quando iam para o “jiu-waza” – e perceber o prazer deles. Aos poucos, agradecendo cada exercício, comecei a perceber que o agradecimento vinha menos forçado. Começou a sair com facilidade. O “jiu-waza” em si começou a se tornar divertido! Aos poucos, o agradecimento começou a ser a partir do coração. Tinha descoberto o que havia ali para agradecer – e agradecia mesmo, do fundo do coração! Até hoje, sinto uma profunda gratidão por tudo que aprendi do meu mestre de Aikidô, tudo que aprendi com a prática de Aikidô.

Então, se, inicialmente, alguns de nossos agradecimentos possam sair forçados, a contra-gosto, mesmo assim, a Prática de Gratidão vai operar os seus milagres. Agradecendo, começamos a perceber mais e mais coisas a agradecer. Agradecendo, o coração se abre. Agradecendo, começamos a perceber o quanto temos para agradecer. Começamos a descobrir que até as situações difíceis têm um lado positivo a ser agradecido.

O motorista que me dá uma fechada no trânsito me dá uma oportunidade de treinar os meus reflexos e habilidade como motorista, também me dá uma oportunidade de treinar a minha compaixão com o exercício de me identificar com ele e com a pressa que o levou a me fechar. Oferece uma oportunidade de agradecer o Universo, o Sagrado, por ter me protegido, pelo fato de que houve um canto para eu encostar para escapar da fechada. Uma oportunidade de agradecer pelo fato que não aconteceu nada grave, de agradecer pela vida que tenho. De agradecer que tudo correu de tal forma que eu pudesse praticar a Generosidade e dar espaço para uma pessoa que, por algum motivo, estava com muito mais pressa do que eu.

A Prática de Gratidão faz parte da abertura do Coração de Compaixão. Mas, não é por isso que vamos nos fazer de capacho e deixar um agressor impune. É uma diferença de atitude, de postura interna que estamos desenvolvendo, mesmo que, às vezes, ações firmes se tornem necessárias. Mas podemos ter gratidão e compaixão até por um agressor – mesmo mandando ele preso, por exemplo – pois temos a oportunidade de nos fortalecer, enfrentando dificuldades. Lembro dos relatos dos monges tibetanos, exercitando o seu poder de compaixão enquanto passavam por torturas nas mãos dos chineses.

Não temos como negar que as pessoas que cultivam o Coração de Compaixão e a Gratidão são as pessoas mais felizes no mundo. Essa sabedoria milenar finalmente vem sendo provada cientificamente.

Como diz a Dhammapada: “Ódios nunca cessam pelo ódio nesse mundo; através somente do não-ódio eles cessam. Essa é uma lei eterna.”

Não é pela raiva que cessa a raiva – é somente pela não-raiva que a raiva cessa. E a Gratidão é um grande remédio para a “raiva” e “ódio” – uma grande parte da prática da “não-raiva”, do “não-ódio”.

Imagine passar não somente um dia inteiro agradecendo todas as pessoas e acontecimentos – imagine passar uma vida inteira agradecendo – banhando-se constantemente da energia da Gratidão e da Alegria de Viver! Um dia atrás de outro. Convido você a experimentar isto!

Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o caminho iluminado."
Gassho

Monja Isshin Havens - Missionária Soto Zen Japão
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