31 de julho de 2015

O ego e os desejos - Eckhart Tolle


"O ego se identifica com possuir, mas sua satisfação com isso é de certa forma superficial e passageira. Oculta internamente, ela permanece como um sentimento profundo de insatisfação, de estar incompleto, de "não é o bastante", "não tenho o suficiente", com o que o ego de fato quer dizer: "Não sou o bastante ainda."
Como vimos, ter - o conceito de propriedade - é uma ficção criada pelo ego para adquirir solidez e permanência e se destacar, tornar-se especial. Mesmo que não sejamos capazes de nos encontrar por meio disso, existe outro impulso mais forte subjacente a esse que pertence à estrutura do ego: a necessidade de mais, o que podemos também chamar de "desejo". 

O ego não dura muito tempo sem isso. Portanto, querer o mantém vivo muito mais do que ter. Para ele, o apelo de querer é mais forte do que o de ter. E, assim, a satisfação superficial de ter é sempre substituída pelo querer mais. Essa é a necessidade psicológica de mais, isto é, de mais coisas com as quais se identificar. É como um vício, não é verdadeira.

Em alguns casos, essa necessidade psicológica, ou a sensação de que ainda não há o bastante, que é tão característica do ego, é transferida para o nível material e, então, converte-se na avidez insaciável. Em geral, as pessoas que sofrem de bulimia obrigam-se a vomitar para continuar comendo. É sua mente que está faminta, e não seu corpo. Os que sofrem desse distúrbio alimentar poderiam se curar se, em vez de se identificar com a mente, conseguissem entrar em contato com o próprio corpo e assim sentissem suas verdadeiras carências físicas em lugar das pseudo necessidades da mente egóica.

Alguns egos sabem o que querem e perseguem seu objetivo com uma determinação inflexível e implacável - Gêngis Khan, Stalin, Hitler, para dar apenas alguns exemplos inquestionáveis. A energia por trás da sua vontade, porém, cria uma energia oposta de igual intensidade que, por fim, leva à queda desses indivíduos. Nesse ínterim, eles se tornam infelizes e fazem o mesmo com muitas pessoas ou, como mostram episódios clássicos, criam o inferno sobre a Terra. A maioria dos egos tem vontades conflitantes. Eles querem coisas diferentes em momentos distintos ou talvez nem saibam o que desejam. Só sabem o que não querem: o momento presente. Desconforto, desassossego, tédio, ansiedade, insatisfação, tudo isso é resultado da vontade insatisfeita. 

Como querer é algo estrutural, nenhum acúmulo de conteúdo consegue oferecer
uma satisfação duradoura enquanto essa estrutura mental está em ação. O desejo intenso que não tem um objeto específico costuma ser encontrado no ego ainda em desenvolvimento dos adolescentes. É por isso que alguns desses jovens vivem num estado permanente de negativismo e insatisfação.

Todos os seres humanos do planeta poderiam ser facilmente atendidos em suas carências materiais em relação a alimento, água, abrigo, roupas e confortos básicos, não fosse pelo desequilíbrio de recursos criado pela necessidade insana e voraz de querer sempre mais, a ganância do ego. Isso encontra expressão coletiva nas estruturas econômicas, como as grandes corporações, que são entidades egóicas que competem entre si por mais. Seu único - e cego - objetivo é o lucro. Elas perseguem essa meta do modo mais implacável possível. A natureza, os animais, as pessoas, até mesmo os funcionários, não são mais do que algarismos no seu balanço comercial, objetos inanimados a serem usados e depois descartados.

As formas de pensamento "mim", "meu", "mais do que", "eu quero", "eu preciso", "eu devo ter" e "não o bastante" pertencem não ao conteúdo, mas à estrutura do ego. O conteúdo pode ser trocado. Enquanto não reconhecemos
essas formas de pensamento em nós mesmos, isto é, enquanto elas permanecem inconscientes, acreditamos no que elas dizem. Assim, ficamos condenados a agir de acordo com esses pensamentos inconscientes, a buscar e não encontrar, pois, quando eles entram em ação, nenhum bem, nenhum lugar, nenhuma pessoa, nenhuma condição jamais nos satisfaz. Não há conteúdo capaz de atender nossa vontade enquanto a estrutura egóica permanece atuante. Não importa o que tenhamos nem o que venhamos a conquistar, não seremos felizes. 

Sempre estaremos procurando alguma coisa além que nos prometa mais plenitude, que nos diga que vai completar a percepção do eu insatisfeito e saciar aquele sentimento de carência que trazemos dentro de nós."
Eckhart Tolle em o Despertar de uma nova consciência

26 de julho de 2015

Somos o coração da vida - Osho


"As pessoas conhecem os seus seres - mas elas têm um objetivo de vir a ser. Vir a ser é a doença da alma. O ser é você e descobrir o seu ser é o começo da vida.

Então cada momento é uma nova descoberta, cada momento traz uma alegria. Um novo mistério abre as suas portas, um novo amor começa a crescer em você, uma nova compaixão que você nunca sentiu antes, uma nova sensibilidade a respeito da beleza, a respeito da bondade.

Você se torna tão sensível que até a menor folha de grama passa a ter uma importância imensa para você. Sua sensibilidade torna claro para você que essa pequena folha de grama é tão importante para a existência quanto a maior estrela; sem esse folha de grama, a existência seria menos do que é.

E essa pequena folha de grama é única, ela é insubstituível, ela tem a sua própria individualidade.
E essa sensibilidade criará novas amizades para você - amizades com árvores, com pássaros, com animais, com montanhas, com rios, com oceanos, com as estrelas. A vida se torna mais rica enquanto o amor cresce, enquanto a amizade cresce...

Quando você se torna mais sensível, a vida se torna maior. Ela não é um pequeno poço, ela se torna oceânica.
Ela não está confinada a você, sua esposa e seus filhos - ela não é confinada de jeito algum. Toda essa existência se torna a sua família e a não ser que toda essa existência seja a sua família, você não conheceu o que é a vida. - porque homem algum é uma ilha, nós estamos todos conectados. Nós somos um vasto continente, unidos de mil maneiras. E se o nosso coração não está cheio de
amor pelo todo, na mesma proporção a nossa vida é diminuída.

A meditação lhe traz sensibilidade, uma grande sensação de pertencer ao mundo. Este é o nosso mundo - as estrelas são nossas e nós não somos estrangeiros aqui. Nós pertencemos intrinsecamente à existência. Nós somos parte dela, nós somos o coração dela."
Osho em Eu sou a porta

24 de julho de 2015

Silêncio é a fala interminável - Ramana Maharshi



"Somente a Consciência existe. Quem conhece o SER, nada mais tem a fazer daí em diante, pois o Infinito Poder fará todas as demais ações que possam ser-lhe necessárias através Dele. O homem não tem mais pensamentos.

Durante a meditação, que está sendo dirigida para o SER, os pensamentos agora morrem automaticamente. A meditação pode ser dirigida aos diferentes objetos, mas quando estiver dirigida para o verdadeiro SER, significa estar fixada no mais alto objeto, ou melhor, o Sujeito.
Os pensamentos são os nossos inimigos. estando livres de pensamentos, ficamos no estado de bem-aventurança naturalmente. O vácuo entre os dois pensamentos é o nosso verdadeiro estado, este é o real SER. 


Afaste os pensamentos! esteja vazio deles, fique no estado perpétuo de não pensar. Então, passará a ser conscientemente Auto-Existente. Pensamentos, desejos e todas as qualidades são alienígenas à nossa verdadeira natureza. 

O Ocidente pode homenagear o homem por ser grande pensador.
Mas o que ele é? A verdadeira grandeza, pois, está em ficar livre de pensamentos! A verdadeira resposta à pergunta "Que sou eu?", não vem em pensamentos. Pois então, todos os pensamentos cessam — mesmo o próprio pensador desaparece.

Sejamos em nossa natureza! Assim, precisaremos buscar algo mais? Quando conhecermos a nós mesmos, os pensamentos e desejos não mais irão nos incomodar. Esse não é o nosso verdadeiro estado. Não temos de ir em busca
de nossos próprios seres, e sim, simplesmente SER nós mesmos. Isto para sermos como verdadeiramente somos — livres de pensamentos e do egoísmo.

Para alcançar a Auto-Realização, os meios são:
- a mente deve estar afastadas de seus objetos, a percepção objetiva do mundo deve cessar;

- as operações internas da mente também devem terminar;
- assim, a mente deve se submeter e continuar a despersonalizar-se a fim de perder sua índole finalmente;

- deve continuar a ficar no puro auto-conhecimento.

Silêncio é a fala interminável. Palavras impedem a fala silente.

Pensamentos são as predisposições acumuladas de inúmeros nascimentos anteriores. O aniquilamento deles deve tornar-se o nosso objetivo. Estar livre deles significa Pureza. O homem fica desanimado por misturar o ser consciente com o corpo inanimado; este desânimo deve cessar. O sempre-presente SER não precisa de esforços para se revelar. Mas antes o desânimo deve ser
desarraigado.

Paul Brunton: Então, os pensamentos não são reais?

Ramana: Isso mesmo. Quando a cânfora queima, não deixa resíduos. A mente é como a cânfora. Quando se tiver absorvido no SER, não deixará o menor vestígio do ego. É a Realização. 

A mente está abarrotada de pensamentos, embora tenha sua origem na Consciência ou SER. Os pensamentos não são reais; a única realidade é o SER.
O eternamente paciente fundo (background) livre de pensamentos e cuja expansão também é destituída de pensamentos é o SER. 

A Mente, em sua pureza, é SER.
O que você chama de mente é uma ilusão. Surge depois do "eu-pensamento" surgir. A mente é apenas um mero feixe de pensamentos. Os pensamentos têm sua raiz no "pensamento-eu".(...) Isso que está além do ego é a CONSCIÊNCIA, o SER.(...) Reconheça isso! (...)

Largue os pensamentos e simplesmente seja! Apenas seja! São os pensamentos, os únicos que geral obstáculos.

São eles que dificultam. Encontre a quem os pensamentos ocorrem; tanto quanto você pensar que o falso existe, fará com que ele se mostre assim, mas, encontrando de onde ele surge, logo desaparecerá. Os que descobriram a
Grande Verdade fizeram isso no profundo silêncio do SER.

Paul Brunton: A dificuldade está em manter o estado sem pensamento e, forçosamente, ainda pensando em obrigações.

Ramana: O pensador é você mesmo. Deixe a ação se ajeitar de acordo. Por que ligar-se às dificuldades? Quando você sai à rua, levanta os pés automaticamente e anda, sem pensar sobre isso. Assim, aos poucos, o estado se torna automático; pense, quando a necessidade surgir e deixe-a desaparecer por sua própria conta. A intuição trabalha quando o pensador não tem pensamentos, guiado pela intuição. Aqueles que fizeram grandes descobertas, fizeram-nas não quando ansiosos nelas pensaram, mas em silêncio, pela intuição.

A atividade mental cessa com a resposta à pergunta dirigida a si próprio. Mesmo quando você está pensando em Deus, ainda é uma atividade e tem que abandoná-la. A pergunta do autoconhecimento (que sou eu?) mergulha em
Deus e então cessa todo pensar sobre Ele.

A auto-realização consiste em fazer cessar os pensamentos, inclusive toda a atividade mental. Os pensamentos são como borbulhas na superfície do Mar
(SER).

O falso ego se relaciona com os objetos; só o Sujeito é Realidade. O mundo é o único que é percebido pelo reflexo da luz da mente. A lua brilha refletindo a luz do Sol.

Ao pôr do sol, a lua é útil para que os objetos possam ser vistos. De madrugada ninguém precisa de lua, embora seja visível no céu. Assim é com a mente e Coração. A mente serve para perceber os objetos.
O intelecto é um instrumento do SER, que o usa para medir a variedade. O SER o acompanha. Como poderiam surgir as manifestações do intelecto sem as suas sementes — existindo? (...) 

A mais valiosa coisa no oceano jaz no fundo dele. A pérola é tão pequena, uma coisa de tanto valor e de tão difícil acesso! Semelhante ao SER é como uma pérola preciosa, mas, para achá-lo, deve-se mergulhar bem fundo no silêncio, toda vez mais e mais fundo até que seja encontrado."
Ramana Maharshi em A Imortalidade Consciente

20 de julho de 2015

Meditação é passividade - Osho


"A meditação é sempre passiva; sua própria essência é passiva. Não pode ser ativa porque a própria natureza dela é o não-fazer. Se você está fazendo algo esse fato de fazer algo perturba tudo. O fazer, em si mesmo, sua própria atividade, cria perturbação.

Não-fazer é meditação, mas quando digo que não-fazer é meditação não quero dizer que você não precise fazer nada. Mesmo para atingir esse não-fazer precisamos fazer muito! Mas esse fazer não é meditação. É, apenas, um degrau, um trampolim. Todo o "fazer" não passa de um trampolim — não é meditação.

Você está exatamente à porta, nos degraus... A porta é o não-fazer, mas, para atingir o estado de espírito do não-fazer é preciso fazer muito. Mas é preciso não confundir esse fazer com meditação.
A energia vital trabalha com contradições. A vida existe como uma dialética: não é um simples movimento. Não flui como um rio: é dialética. Com cada movimento a vida cria seu próprio oposto, e através da luta com o oposto move-se para a frente. Cada movimento leva a tese a criar antítese. E isso continua sempre: tese criando antítese, incorporando-se à antítese, e tornando-se a síntese que, então, faz de novo tese. Então, vem de novo a antítese.

Quando falo em movimento dialético não quero falar de movimento simples, direto: é um movimento dividido em si mesmo, criando o oposto, depois encontrando-se novamente com o oposto, e dividindo-se de novo no oposto. E a mesma coisa se aplica à meditação, porque ela é a coisa mais profunda da vida.

Se eu lhe digo: "Relaxe, apenas", isso é impossível, porque você não saberia o que fazer. Assim, muitos dos pseudo-professores de relaxamento continuam dizendo: "Relaxe, apenas, não faça nada, relaxe, apenas." Então, o que você vai fazer? Pode se deitar, mas isso não é relaxamento. Todo redemoinho interno permanece... E agora há um novo conflito: relaxar. Algo foi acrescentado sobre
e acima. Toda insensatez está ali, todo redemoinho está ali, com algo acrescentado: relaxar. Uma nova tensão está, agora, acrescentada a todas as velhas tensões.

Assim, a pessoa que está tentando viver uma vida relaxada é a pessoa mais tensa possível. Está fadada a sê-lo, porque não compreendeu o fluxo dialético da vida. Pensa que a vida é um fluxo reto, bastando que se diga a si mesmo que relaxe para estar relaxado.
Isso não é possível! Assim, se você vier a mim, jamais direi que apenas relaxe. Primeiro fique tenso, tão fortemente tenso quanto puder. Fique totalmente tenso!

Primeiro deixe que todo seu organismo fique tenso, e continue a estar tenso até o máximo, até a sua total possibilidade. E então, subitamente, você sentirá que o relaxamento se instala. Você fez o que lhe era possível: agora a energia da vida cria o oposto.
Você levou a tensão ao auge. Agora, não há nada para além disso, você não pode continuar. Toda energia foi devotada a tensão. Mas você não pode continuar com essa tensão indefinidamente. Ela tem de se dissolver, e depressa
começará a se dissolver. Agora, seja uma testemunha desse acontecimento.

Através da tensão você chegou ao limiar, do ponto de onde se salta. Por isso você não pode continuar. Se continuasse, poderia estourar, morrer. O ponto excelente foi encontrado. Agora, a energia da vida relaxará a si mesma.

Ela se relaxa. Agora, fique consciente, e veja esse relaxamento se instalar. Cada membro do corpo, cada músculo do corpo, cada nervo do corpo vai relaxando,
inocentemente, sem que nada seja feito de sua parte. Você nada está fazendo para relaxar, ele está se relaxando.

Você começará a sentir muitos pontos no organismo que se relaxa. Todo organismo será uma reunião de pontos relaxados. Fique consciente.

Essa consciência é meditação. Não é um não-fazer. Você nada está fazendo, porque estar consciente não é um ato.
Não é absolutamente um ato, é sua natureza, uma qualidade intrínseca de seu ser. Você é consciência. Sua não-consciência é a sua conquista... e você a conquistou com muito esforço.

Assim, para mim, a meditação tem dois passos: primeiro, um ativo (que não é, realmente, de modo algum, meditação) e segundo, um completamente não-ativo (a consciência passiva, que é, realmente, meditação). 


A consciência, ou conhecimento, é sempre passiva, e, no momento em que você
se torna ativo perde seu conhecimento. É possível estar ativo e consciente apenas quando a consciência chegou a um tal ponto que agora já há, necessidade da meditação para alcançá-la, ou conhecê-la, ou senti-la.
Quando a meditação se torna inútil, você, simplesmente, coloca de lado a meditação. Agora, você está consciente.
Se então você pode estar ao mesmo tempo consciente e ativo — de outra maneira não é possível. Enquanto a meditação ainda for necessária, você não será capaz de estar consciente durante a atividade. Mas, quando a meditação já não é necessária...

Se você se tornou meditação, já não precisará dela.

Então, pode ser ativo, mas mesmo nessa atividade você é sempre o espectador passivo. Agora, você jamais é o ator: é, sempre, uma consciência que testemunha.

A consciência é passiva... e a meditação está fadada a ser passivo porque é apenas uma porta para a consciência— a perfeita consciência. Assim, quando as pessoas falam de meditação "ativa", estão erradas. 

Meditação é passividade. Você pode precisar de alguma atividade, de algum "fazer" para chegar a ela — e isso pode ser compreendido — mas isso não se dá porque a meditação seja, em si, ativa. Isso, antes, se dá, porque você esteve ativo em tantas e tantas vidas — a atividade tornou-se de tal forma parte e parcela de sua mente — que você precisa até mesmo da atividade para alcançar a não-atividade.

Você esteve tão envolvido em atividade que não pode abandoná-la. Assim, pessoas como Krishnamurti podem continuar a dizer: "Abandone isso", mas você continuará perguntando como abandonar isso. Krishnamurti dirá: "Não
pergunte como. Estou dizendo para que você abandone isso!
Não há um 'como' para tanto. Não há necessidade de nenhum 'como'."

De certa forma ele está certo. Consciência passiva ou meditação passiva não têm um "como". Não pode ter, porque se houver um "como" então não pode ser passiva. Mas está certo, também, porque não leva em conta seu ouvinte. Está
falando de si próprio.
A meditação se faz sem "como", sem tecnologia, sem qualquer técnica. Assim, Krishnamurti está absolutamente correto, mas o ouvinte não foi levado em conta. O ouvinte nada mais tem senão a atividade; para ele, tudo é atividade. Assim, quando você diz "A meditação é passiva, não-ativa, sem escolha; você pode apenas estar nela; não há necessidade de esforço, de nenhum esforço, ela é sem esforço", você está falando uma linguagem que o ouvinte é capaz de entender. 
Ele entende a parte linguística do que você diz — e é isso que torna tudo tão difícil. Ele diz: "Intelectualmente, compreendo tudo. Tudo o que o senhor está dizendo está sendo inteiramente compreendido", mas ele é incapaz de compreender o significado.
Não há nada de misterioso nos ensinamentos de Krishnamurti. Ele é o menos místico dos mestres. Nada há de misterioso! 

Tudo é obviamente claro, exato, analisado, lógico, racional, de forma que todos podem entender. E isso tornou-se uma das grandes barreiras, porque o ouvinte pensa que compreendeu. Compreende a parte linguística, mas não compreende a linguagem da passividade. 
Compreende o que lhe está sendo dito — as palavras.
Ouve-as, compreende-as, conhece o sentido daquelas palavras. Faz correlações. Um quadro inteiramente correlato vem à sua mente. O que está sendo dito é
compreendido, há uma comunicação intelectual. Mas ele não compreende a linguagem da passividade. Não pode compreender. Só pode compreender a linguagem da ação — da atividade."
Osho em Meditação: a arte do êxtase

15 de julho de 2015

O medo da intimidade - Osho


"Já reparou? É mais fácil ser verdadeiro com os estranhos. As pessoas que viajam de comboio começam a falar com estranhos e contam coisas que nunca contaram aos amigos, porque, com um estranho, não se sentem envolvidas. Meia hora mais tarde, chegam ao seu destino e saem; esquecem e o estranho esquecerá tudo aquilo que lhe contaram. Por isso nada do que lhe disseram tem qualquer importância. Não se correm riscos com um estranho.

Ao falar com estranhos, as pessoas são mais verdadeiras e revelam o seu coração. Mas ao falar com os amigos, com os familiares — pai, mãe, mulher, marido, irmão, irmã — há uma profunda inibição inconsciente. 'Não digas isso, ele pode ficar magoado. Não faças isso, ela pode não gostar.
Não te comportes dessa maneira, o pai é velho, pode ficar chocado.' 

Então a pessoa continua a controlar-se. A pouco e pouco, a verdade cai na cave do seu ser e ela torna-se muito esperta e astuciosa com o não verdadeiro.

Continua a fazer falsos sorrisos, que não passam de pinturas nos lábios. Continua a dizer coisas simpáticas, sem qualquer significado. Começa a sentir-se aborrecida com o namorado ou com os pais, mas continua a dizer:

'Estou muito contente por te ver!' Enquanto isso, todo o seu ser diz: 'Agora deixa-me em paz!' 
Mas verbalmente continua a fingir. E os outros também estão a fazer a mesma coisa; ninguém se apercebe de que estamos todos no 
mesmo barco.(...)

Toda a gente tem medo da intimidade — ter ou não ter consciência desse medo é outra história. A intimidade significa expor-se perante um estranho — e todos nós somos estranhos; ninguém conhece ninguém. Somos mesmo estranhos a nós próprios, porque não sabemos quem somos.

A intimidade aproxima-o de um estranho. Tem de deixar cair todas as suas defesas; só assim a intimidade é possível. E o seu medo é que se deixar cair todas as suas defesas, todas as suas máscaras, quem sabe o que o estranho lhe poderá fazer. Todos nós andamos a esconder mil e uma coisas, não só dos outros mas de nós próprios, porque fomos criados por uma humanidade doente com toda a espécie de repressões, inibições e tabus. E o medo é que, com alguém que seja um estranho — e não importa se se viveu com a pessoa durante trinta ou quarenta anos; a estranheza nunca desaparece —, parece mais seguro manter uma ligeira defesa, uma pequena distância, porque alguém
se poderá aproveitar das suas fraquezas, da sua fragilidade, da sua vulnerabilidade.

Toda a gente tem medo da intimidade. O problema torna-se mais complicado porque toda a gente quer intimidade. Toda a gente quer intimidade porque, de outro modo, está sozinho neste Universo — sem um amigo, sem um amante, sem ninguém em quem confiar, sem ninguém a quem abrir todas as suas feridas. E as feridas não saram se não forem abertas. (...)

Ninguém sabe nada sobre o futuro. O seu céu, o seu inferno e o seu Deus muito provavelmente não passam de hipóteses, não comprovadas. A única coisa que está nas suas mãos é a sua vida - faça dela a mais interessante possível.

Pela intimidade, pelo amor, por se abrir a muitas pessoas, você se torna mais interessante. E se puder viver um amor profundo, uma amizade verdadeira, uma intimidade generosa, com muitas pessoas, você terá vivido da melhor maneira possível, e onde quer que esteja, se tiver aprendido essa arte, viverá assim ali também, com felicidade.

Se for simples, carinhoso, receptivo, compreensivo, íntimo, você terá criado um paraíso ao seu redor. Se for fechado, constantemente na defensiva, sempre preocupado que alguém possa perceber os seus pensamentos, os seus sonhos, as suas perversões - você estará vivendo no inferno. O inferno está dentro de você, assim como o paraíso. Eles não são lugares geográficos, são espaços
espirituais.

Purifique-se. E a meditação não é nada além de uma limpeza de todo o lixo que se acumulou na sua mente.
Quando a mente estiver em silêncio e o coração batendo, você estará pronto - sem nenhum medo, mas com uma grande alegria - para ser íntimo. E sem intimidade você está sozinho aqui, entre estranhos. Com intimidade você está
cercado de amigos, de pessoas que o amam. 


A intimidade é uma experiência importante. Não se deve esquecer disso."
Osho em Intimidade - como confiar em si mesmo e nos outros.

12 de julho de 2015

Sobre os conflitos - J.Krishnamurti


"Como se pode observar na vida cotidiana, toda a relação com as pessoas, com as ideias, com as coisas, com o que se possui, está cheia de conflito. Todo relacionamento se tornou para nós um campo de batalha, uma luta constante.

Desde que nascemos até que morremos, viver é um processo de acumular problemas, sem nunca os resolver, de estar carregado de toda espécie de questões. É fundamentalmente um campo em que os homens estão uns contra os outros.

Assim, viver é conflito. Ninguém o pode negar. Quer nos agrade quer não, todos estamos em conflito.
Como desejamos afastar-nos desse conflito permanente, inventamos então toda espécie de fugas — desde o futebol a uma imagem de Deus. Cada um de nós conhece, não só o fardo desse conflito, mas também o sofrimento, a solidão,
o desespero, a ansiedade, a ambição e frustração, o imenso tédio, a rotina. Há ocasionais lampejos de alegria, a que a mente imediatamente se agarra, como algo muito raro, e que quer que se repita; depois, essa alegria torna-se uma lembrança, cinzas. É a isso que chamamos vier.

Se olharmos para a nossa própria vida — não verbalmente, ou intelectualmente, mas como ela é na realidade — veremos como é vazia. Pensem no que é passar quarenta, cinquenta anos indo todos os dias para o emprego, para juntar dinheiro, para sustentar a família, etc. É a tudo isso que chamamos viver — com a doença, com a velhice e com a morte. E tentamos fugir a esse tormento por meio da religião, por meio da bebida, da erudição, do sexo, por meio de todas as formas de evasão, religiosas ou de outra espécie. A nossa vida é isso, apesar de nossas teorias, dos nossos ideais, da nossa filosofia — vivemos em conflito e sofrimento.

A nossa vida dá origem a uma cultura, a uma sociedade que se torna a armadilha em que estamos prisioneiros. Somos nós que construímos a armadilha; cada um de nós é responsável por ela. Embora possamos revoltar-nos contra a ordem estabelecida, essa ordem é aquilo que temos feito, aquilo que temos construído. E a mera revolta contra ela tem pouquíssimo significado, porque se criará então uma outra ordem estabelecida, uma outra burocracia.

Tudo isto, com as diferenças nacionais, raciais, religiosas, as guerras, e o derramamento de sangue e lágrimas. é o que chamamos vida; e não sabemos o que havemos de fazer. Estamos confrontados com isto. E não sabendo o que fazer, procuramos fugir ou tentamos encontrar alguém que nos diga o que devemos fazer, alguma autoridade, algum guru ou instrutor espiritual, alguém
que afirme: "este é que é o caminho."

Os instrumentos espirituais, os gurus, os mahatmas, os filósofos têm-nos orientado mal, porque afinal não temos resolvido realmente os nossos problemas; as nossas vidas não são diferentes. Continuamos atormentados, infelizes, carregados de sofrimento. (...) 

Sem sabermos o que é o sofrimento e sem compreendermos a sua natureza e estrutura, não saberemos o que é o amor, porque para nós o amor é sofrimento, aflição, prazer, ciúme. Quando o marido diz à mulher que a ama e ao mesmo tempo é ambicioso, será que esse amor tem algum significado? Um homem poderá amar? E apesar disso falamos de amor, de ternura, de acabar com as guerras, quando afinal somos competitivos, ambiciosos, procurando o nosso avanço pessoal, a nossa posição, etc.
Tudo isso traz sofrimento.

O sofrimento poderá acabar? Só poderá acabar quando a pessoa compreender a si mesma — que é realmente aquilo que é. Então compreenderá por que é que sofre, quer esse sofrimento seja autopiedade, seja medo de estar só, seja
o vazio de sua própria existência ou o sofrimento que surge quando se depende de outro. E isto faz parte de nossa vida. (...) 

Intelectualmente estamos limitados e emocionalmente somos inautênticos, deformados, cheios de sentimentalismo, falsidade e hipocrisia. Assim, na vida
perdemos toda a liberdade, exceto no sexo. Essa é provavelmente a única coisa livre que se tem. E com ele anda o prazer, a imagem que o pensamento cria a respeito do ato, e ruminamos essa imagem, esse prazer, como uma vaca mastiga repetidamente o alimento. É a única coisa que se tem em que a pessoa se sente realmente livre como ser humano. Em tudo o mais não é livre, porque somos escravos da propaganda(...) E, faltando a liberdade por todo o lado, apenas existe essa, que também não é liberdade, porque se fica aprisionado pelo prazer e pela responsabilidade desse prazer, que é a família. Mas se realmente se amasse a família, se realmente se amassem os filhos, de todo o coração, pensam que teria um único dia de guerra?
Encontra-se segurança no prazer e por consequência nessa "segurança" há dor, tristeza e confusão; dessa maneira, em tudo, incluindo o sexo, há sofrimento, tortura, dúvida, ciúme, dependência. A única coisa que se tem em que a pessoa se sente livre também se torna uma escravidão.

Assim, ao vermos tudo isto — de fato, não verbalmente, sem sermos desviados pela descrição, porque a descrição nunca é o que é descrito — ao vermos com os nossos olhos, coração e amente, com completa atenção, saberemos o que é
o amor. E saberemos também, o que é a morte e o que é a vida."
Krishnamurti em O Mundo somos nós

10 de julho de 2015

Os dez touros do Zen - Osho



"Apascentar o boi é um símbolo antigo na história do Zen. Há dez figuras na China;(...) Gostaria que você entendesse essas dez figuras.

As dez figuras são imensamente bonitas. 


Na primeira, o boi está perdido. O homem a quem o boi pertence está apenas parado, olhando em volta na mata densa e não consegue ver para onde o boi foi. Ele está simplesmente desnorteado, confuso. Está ficando tarde, o sol está se pondo; logo será noite e, então, entrar naquela floresta fechada para procurar o boi vai ficar cada vez mais difícil.


Na segunda figura, ele encontra as pegadas do boi. Ele se sente um pouco mais feliz; quem sabe haja uma possibilidade de encontrar o boi - ele achou as
pegadas. Ele as segue.
Na terceira figura, ele vê a parte de trás do boi na mata densa. É difícil enxergar, mas ele consegue imaginar que é a parte traseira do seu boi.

Na quarta, ele chegou até o boi; ele pode ver o boi agora, o corpo dele inteiro. Ele se alegra.

Na quinta figura, ele pega o boi pelos chifres. É uma grande luta levá-lo de volta para casa, mas ele vence.

Na sexta figura, ele está montado no boi, voltando para casa. Essas são belas figuras!
Na sétima figura, o boi está amarrado em seu lugar. 

Na oitava figura, o homem está tão contente que começa a tocar flauta.

A nona figura é uma moldura vazia - não há nada pintado ali.

Na décima figura, que é a causa de uma grande controvérsia, o homem está indo, com uma garrafa de vinho, em direção ao mercado, quase bêbado. Dá para perceber, ele nem consegue andar. Essa décima figura causou uma grande controvérsia que se estendeu por dois mil anos.

Uma seita, que é a maior seita mahayana, acredita que a nona seja a última figura. Ela representa a não-mente; você atingiu o objetivo. O boi é o seu eu mais interior que você tinha perdido, e a série inteira de figuras é a busca do seu eu interior. Você encontrou o eu na nona figura. 
O silêncio e a paz são imensos.
É o nirvana, é a não-mente.

Além da nona... as pessoas que dizem que esse é o fim da jornada acham que alguém acrescentou a décima figura, que parece ser absolutamente irrelevante. Mas as pessoas que pertencem a uma pequena seita zen acreditam na décima figura também. Elas dizem que, quando alguém se tornou iluminado, esse não é o final. Esse é o ponto mais elevado da consciência, é o maior feito, mas é preciso voltar para o mundo humano, ao mundo comum.

É preciso voltar a fazer parte da humanidade maior.

Somente então ele pode partilhar, somente então ele pode despertar os outros para a busca.E certamente quando ele chega de tal altura, ele está absolutamente inebriado de êxtase. A garrafa de vinho não é de um vinho comum. Ela simboliza um estado de êxtase.

Quando as figuras foram levadas para o Japão, há uns mil e duzentos ou mil e trezentos anos, só chegaram nove. A décima causava certo incômodo; ela foi
deixada na China.

Eu fiquei perplexo quando olhei pela primeira vez as figuras japonesas. Elas pareciam estar completas. Uma vez que tenha alcançado o nirvana, o que mais pode haver? E então eu descobri dez figuras num velho livro chinês.

Fiquei imensamente feliz pelo fato de que alguém, dois mil anos atrás, tinha tido a percepção de que um buda não é um buda se ele não puder voltar à humanidade comum, se ele não puder tornar-se de novo simples, inocente, levando seu nirvana, levando seu êxtase numa garrafa de vinho, completamente inebriado com o divino, mas ainda se dirigindo ao mercado.

Pude perceber que quem quer que tenha pintado a décima figura estava certo. Até a nona, é apenas lógico. 

Além da nona, a décima, é uma grande compreensão.
A meu ver, até a nona o homem é apenas um buda; com a décima ele também se torna um Zorba

E este tem sido meu tema constante: tenho insistido em dizer que a décima figura é autêntica e, se ela não existisse, eu iria pintá-la. Sem ela, acabar no nada dá uma impressão um pouco triste, parece um pouco sério, parece vazio.

Todo esse esforço para se encontrar, meditar, ir além da mente, compreender seu ser e terminar no deserto do nada... não, deve haver alguma coisa mais para isso, alguma coisa além disso, onde as flores desabrochem, onde as canções surjam, onde a dança seja possível novamente - num nível completamente diferente, é claro.

Essas figuras que representam o apascentar do boi mostraram-se tremendamente significativas para a explicação do caminho inteiro, passo a passo. "
Osho em Zen: Sua História e Seus Ensinamentos.

9 de julho de 2015

Jeff Foster responde...


"Jeff - Há uma busca de algo mais. E, ainda que não saibamos muito bem o que estamos buscando, sabemos que esta, quer dizer, nossa vida presente, é um problema. A mesma busca implica a existência de um outro problema, não é certo?
Que deveríamos buscar se não houvesse nenhum problema com nossa presente vida? A mensagem da não dualidade é que a busca da Unidade, da libertação, de Deus, da perfeita paz, da perfeita felicidade — e de milhares de outros diferentes objetivos — não é mais que uma tentativa de fugir do que realmente está ocorrendo, porque o "eu", o buscador, o que quer ser livre e que tanto se empenha em alcançar a libertação e a Unidade, já emerge da libertação e da Unidade.

Não é certo, dito em outras palavras, que agora existe uma ideia de "eu"? Não é certo que agora mesmo exista uma ideia de eu e de minha vida? E a mensagem é que o indivíduo é precisamente isso, algo que agora emerge, uma historia, uma crença. Você não é mais que uma historia!
Uma historia que está contando-se sem ninguém que a conte! Essa é a ilusão! Não há nenhum "eu" contando minha história, o único que há é a história do "eu".

Mas, logo lemos nossos livros espirituais e nos inteiramos de que, para alcançar a iluminação, temos que acabar com o "eu". Quem já não ouviu alguma vez se dizer que temos que acabar com o "eu"? Mas, quem poderia acabar com o "eu", senão um "eu"? Mostra-se muito frustrante dar voltas e mais voltas tratando de colocar fim ao "eu"!

Isso é algo que, na historia de "Jeff", ocorreu muitas vezes! Dar voltas e mais voltas ao pensamento tratando de colocar fim ao meu "eu" e aos "meus problemas"! Eu tratando de acabar comigo!
Alguns de nós nos sentimos atraídos pelos ensinamentos não duais e recorremos a encontros para ver pessoas que parecem haver colocado fim ao "eu" e de haver acabado com a busca. E essas pessoas nos dizem que não existe tais coisas como a libertação e o despertar! Mas, apesar disso, a busca prossegue! Não podemos aceitar que isso seja tudo. Como poderíamos aceitá-lo?

Pergunta: Mas, não há pessoas que acabaram descobrindo o que estavam buscando? Não há pessoas que conseguiram chegar até ali, quer dizer, na Unidade? O que você diz parece muito complicado...

Jeff - É certo. Isso é tudo o que as palavras podem fazer, complicar as coisas. E só o fato de falar implica que tenho algo a dizer, que há algo que merece ser escutado e que deve haver algo que se alcançar! Que, quem sabe, tenha descoberto algo, conquistado algum tipo de compreensão e que estou dando uma "palestra" a respeito.

Mas se aparece essa historia (a de que 'Jeff tem algo para ensinar'), só é uma simples historia. A historia que encoraja a busca! E o que você diz é muito certo, porque também existe a historia de que há pessoas que tenham alcançado algum tipo de "estado elevado", um estado que supostamente é melhor que "seu" estado — eu quero seu estado, porque o meu já não é suficiente! — É assim que a busca prossegue, durante toda a vida, em mil formas diferentes.

Nós passamos a vida buscando. Mas, no fim das contas, o que é que queremos? O que realmente queremos é colocar fim a essa busca e, visto que a busca é o problema, buscar implica que há algo de equivocado nisto. A mensagem é muito simples!

E a única razão pela qual o personagem aparente "Jeff" está aqui sentado dando esta palestra é que, num determinado momento (ainda que realmente não gosto de dizer "num determinado momento", porque parece como se houvesse ocorrido algo concreto e definido), houvesse visto através desta fútil busca de algo mais.

Se a busca é o problema, como poderia acabar com ela?
Levei muitos anos tratando de tentá-lo, mas, todavia, não o consegui! Necessito de ajuda! Mas, não nos damos conta de que o desejo de acabar com a busca continua sendo mais do mesmo! Buscar o modo de acabar com a busca não deixa de ser mais uma busca!

Mas foi a busca o que nos trouxe até aqui! Toda a vida buscando, de mil modos diferentes, toda a vida tratando de melhorar a nós mesmos e de nos convertermos em outras pessoas, só nos tem servido para nos trazer até aqui e
escutar a mensagem de que não há nenhum lugar para ir!

Pergunta: Você quer dizer que devemos nos render?

Jeff - Mas, não seria por acaso a tentativa de nos rendermos outra diferente versão da busca? Não nos libertaríamos, se pudéssemos, da carga do "eu"? As coisas não parecem ser tão simples porque, se o fossem, todo mundo se
renderia.
Lemos livros espirituais e ouvimos falar de "pessoas iluminadas", de pessoas que tenham colocado fim na busca, que estão completamente satisfeitas com o presente momento, que nada desejam e que nunca possuem problemas.
E quando logo nos comparamos com elas, não vemos mais que sofrimento e se dispara uma nova busca!

Pergunta: Desapareceu para você o desejo de modificar as coisas? É essa a libertação?

Jeff - É esta historia — a historia de que existe uma possibilidade de libertação — o que perpetua a busca de libertação. Mas, não há libertação, não há mais que isto. 

E, paradoxalmente, esta é a tão desejada libertação.

Pergunta: Portanto, não existe libertação disto?

Jeff - Não perpetua a busca a ideia de que existe uma libertação além disto? Não é a ideia de que é possível alcançar uma libertação fora daqui e no futuro o que converte isto num problema?

Pergunta: Portanto que, se aqui existe uma sensação de tédio, então isso é o que emerge...
Jeff - Sim. Isso só é um problema se "você" quer se libertar disso.

Pergunta: Sim, mas a literatura parece sugerir que algumas pessoas tem descoberto a existência de um lugar tranquilo.

Jeff - Sim, essa é outra boa historia. Ao longo da historia de minha vida tenho devorado esse tipo de literatura.
Pratiquei a meditação, a auto-investigação, tive extraordinárias experiências espirituais, etc. Mas isso não é mais que outra historia! É a história de "Jeff" que aparece agora mesmo. Uma historia que agora contamos.
Essa é a única que temos! Uma mera historia! E são muitas as historias que podem ser contadas. Só a Unidade e historias que, como qualquer outra coisa, são expressões da Unidade.

Pergunta: Mas os sábios tem contado uma e outra vez a historia de que, quando conseguimos ver mais além, aparece a serenidade.
Jeff - Mas, quem é que vê através do eu? Só um eu poderia afirmar ver através do eu.
Existe a historia de que "eu não posso acabar com meu eu", não é certo? Existe a historia de indivíduos que tenham acabado com a individualidade, de pessoas que tenham colocado fim em sua sensação de identidade.

Pergunta: Pessoas que estão em paz consigo mesmas?

Jeff - Sim, essa é a historia, e é uma historia que emerge agora.

Pergunta: E essa é também sua historia, não é certo?

Jeff - É uma historia que poderia contar.

Pergunta: E o que isso significa?
Jeff - Não significa absolutamente nada. "

5 de julho de 2015

Felicidade e Verdade - Osho


"Existem apenas dois tipos de pessoas: uma que está em busca da felicidade; é o tipo mundano. Pode ir para o mosteiro, mas o tipo não muda; lá, ele também pede pela felicidade, pelo prazer e gratificação. 
Agora, de maneira diferente — através da meditação, da prece, de Deus —
está tentando ser feliz, cada vez mais feliz. 

Há, depois, o outro tipo de pessoa — e só existem dois tipos — a que está em busca da verdade. 
E isso é um paradoxo: aquele que busca a felicidade, nunca a encontra, pois ela não é possível a menos que você encontre a verdade. 
A felicidade é apenas uma sombra da verdade; em si mesma não é nada — é apenas uma harmonia.

Quando você se sente uno com a verdade, tudo se agrega, tudo se harmoniza. Você sente um ritmo — e esse ritmo é felicidade. Não se pode buscá-la diretamente.
A verdade tem de ser procurada. A felicidade é encontrada quando se encontra a verdade, mas a felicidade não é o objetivo. E se você buscar a felicidade diretamente, será cada vez mais infeliz. E sua felicidade será, no máximo,
apenas um intoxicante para que você esqueça a infelicidade; é só o que vai acontecer. 

A felicidade é como uma droga.
Por que o Ocidente chegou às drogas? É um processo muito racional. Teve de chegar a elas porque, na sua busca de felicidade, mais cedo ou mais tarde chega-se à droga. O mesmo aconteceu antes na Índia. Nos Vedas, eles chegaram às drogas porque
 estavam buscando a felicidade; não eram realmente buscadores da verdade. Buscavam a mais e mais gratificação. (...)

Sempre que uma sociedade, um homem, uma civilização, buscam a felicidade, têm de chegar de alguma forma às drogas — porque a felicidade é a busca pelas drogas. 
A busca da felicidade é uma busca do auto-esquecimento; é isso o que a droga ajuda a fazer. Você esquece de si e assim não há mais miséria. Como pode haver miséria se você não está? Você está dormindo profundamente.

A busca da verdade está exatamente na dimensão oposta: não é gratificação, não é prazer, não é felicidade, mas —Qual é a natureza da existência? O que é a verdade? Um homem que busca a felicidade nunca a encontrará — encontrará, no máximo, o esquecimento. Um homem que busca a verdade a encontrará, porque para buscá-la ele próprio terá de se tornar verdadeiro. Para buscar a verdade na existência, primeiro terá de buscar a verdade em seu próprio ser. Terá de se tornar cada vez mais atento em relação a si mesmo.

Estes são os dois caminhos: o auto-esquecimento — o caminho do mundo; e a lembrança de si mesmo — o caminho de Deus. E o paradoxo é que aquele que busca a felicidade nunca a encontra; e aquele que busca a verdade e não se
importa com a felicidade, encontra-a sempre. (...) 

O autoconhecimento tem que ser a única busca, tem que ser o único objetivo; porque se você conhecer todo o resto sem conhecer a si mesmo, isto não significará nada.
Você pode chegar a conhecer tudo, exceto você mesmo, mas o que isso significa? Não pode ter nenhum significado — porque se o próprio conhecedor é ignorante, o que pode significar esse conhecimento, o que seu conhecimento pode lhe dar? Quando você mesmo permanece na escuridão, pode reunir milhões de luzes à sua volta mas elas não o preencherão de luz. 
Apesar delas você continuará na escuridão. Viverá e se moverá na escuridão. A ciência é esse tipo de conhecimento. Você conhece um milhão de coisas mas não conhece a si mesmo.

Ciência é conhecimento de tudo menos de si mesmo, exceto do autoconhecimento; o próprio buscador permanece no escuro. Isso não adianta muito. A religião é basicamente auto-conhecimento. Você tem de estar iluminado por dentro, a escuridão deve desaparecer do seu interior, e então por onde quer que você ande, a sua luz interior incindirá sobre o caminho. Onde quer que você vá, faça o que fizer, tudo será iluminado pela sua luz interior. E esse movimento com luz lhe dá um ritmo, uma harmonia, que é a felicidade. Então você não tropeça, não esbarra, não tem mais conflitos. Você se move mais facilmente, seus passos são uma dança, e tudo é satisfação. Você não quer
mais que alguma coisa extraordinária aconteça. 
Você é feliz. É simplesmente feliz no seu ser comum.

E a menos que você se sinta feliz sendo comum, jamais será feliz.

Você é feliz apenas por respirar, você é feliz por ser; é feliz apenas por comer, por dormir mais uma noite. Você é feliz. Agora a felicidade não deriva de nada — ela é você. Um homem que se conhece é feliz, não por qualquer razão, sua felicidade não tem causa. Não é uma coisa que lhe acontece, é toda sua maneira de ser. É simplesmente feliz. Para onde quer que se mova, leva consigo sua felicidade. Se você o atira no inferno, ele cria à sua volta um paraíso; com ele, um paraíso penetra no inferno.
Como você é, ignorante de si mesmo, se pudesse ser jogado no paraíso, conseguiria criar um inferno, porque você carrega consigo o seu inferno. Vá onde for, isso não fará muita diferença, você terá à sua volta o seu próprio
mundo. Esse mundo está dentro de você, é a sua escuridão.

Essa escuridão interior precisa desaparecer — é isso o que significa autoconhecimento".
Osho em O Livro dos Segredos V
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