20 de agosto de 2014

Sobre a Intuição - Osho


"Quando você está totalmente desperto, um movimento acontece: do hemisfério esquerdo do cérebro a energia se move para o hemisfério direito. Sempre que você está alerta, você se torna intuitivo. Lampejos chegam até você, lampejos do desconhecido, inesperadamente.

Você pode não segui-los; então você irá perder muito.

De fato todas as grandes descobertas da ciência também procedem do hemisfério direito, não do esquerdo.

Vocês já devem ter ouvido sobre Madame Curie, a única mulher que recebeu o Prêmio Nobel. Ela estava trabalhando muito por três anos em um certo problema matemático, mas não pôde resolvê-lo. Ela trabalhava arduamente. Tentou de uma maneira e de outra, mas não teve êxito. Uma noite, cansada, exausta, ela adormeceu, e enquanto estava adormecendo, mesmo assim ela continuou tentando resolver o problema. No meio da noite, ela acordou, caminhou, escreveu a resposta em algum papel, voltou para a cama e adormeceu novamente.

Não podia ter vindo do hemisfério esquerdo do cérebro; o esquerdo tinha estado trabalhando duro por três anos. E não havia cálculos sobre o papel, somente a conclusão. Se tivesse vindo do hemisfério esquerdo haveria um processo, isso acontece passo a passo. Mas isso foi como um lampejo... O mesmo tipo de vislumbre que tinha acontecido ao menino no peito. O hemisfério esquerdo, cansado, exausto, desamparado, procurou a ajuda do hemisfério direito.

Sempre que você está numa tal situação na qual sua lógica falha, não se desespere, não perca as esperanças. Esses momentos podem provar as maiores bênçãos de sua vida: esses são os momentos que o lado esquerdo do cérebro permite ao direito ter sua vez. Então a parte feminina, a parte receptiva, lhe dá uma idéia. Se você a seguir, muitas portas serão abertas. Mas é possível que você as perca; você pode dizer: ‘Que bobagem!’

Toda a arte é como funcionar a partir do lado feminino da mente; porque o feminino está ligado com o todo e o masculino não está ligado com o todo. O macho é agressivo, o macho está constantemente em luta; o feminino está constantemente em rendição, em profunda confiança. Dessa forma, o corpo feminino é tão belo, tão roliço. Há uma profunda confiança e uma profunda harmonia com a natureza.

Uma mulher vive em profunda entrega; um homem está continuamente lutando, zangado, fazendo isso e aquilo, tentando provar algo, tentando alcançar algum lugar. Uma mulher está feliz, não tentando alcançar lugar algum. Pergunte as mulheres se elas gostariam de ir a lua? Elas simplesmente ficarão surpresas. Para que? Qual é o sentido? Porque ter tanto trabalho? O lar está perfeitamente bem. A mulher não está interessada no que está acontecendo no Vietnam e no que está acontecendo na Korea e no que está acontecendo em Israel. Ela está no máximo interessada em saber sobre o que está acontecendo na vizinhança, no máximo interessada em saber quem se apaixonou por quem, quem fugiu com quem... em fofocas, não em política.

Vocês perdem muito em sua vida porque a cabeça prossegue falando; Ela não permite... E a única qualidade da cabeça é que ela é mais articulada, esperta, perigosa, violenta. Por causa de sua violência, ela se tornou a líder interior, e essa liderança interior tornou-se uma liderança externa para o homem. O homem dominou as mulheres no mundo externo também; a graça foi dominada pela violência.

A mente masculina é um fenômeno gerador de problemas; dessa maneira ela se apodera; ela domina. Mas bem no fundo, embora você possa alcançar o poder, você perde vida e bem lá no fundo, a mente feminina continua.

A menos que você volte para o feminino e se entregue, a menos que sua resistência e luta se torne uma rendição, você não conhecerá o que a vida real é, e o que a celebração dela é.

Mude mais e mais em direção ao hemisfério direito, torne-se mais e mais feminino, mais e mais amoroso, rendendo-se, confiando, mais e mais perto do todo. Não tente ser uma ilha; torne-se parte do continente."
Osho em Ancient Music in the Pines

16 de agosto de 2014

Conheça o conhecedor - Nisargadatta


"Antes que você possa conhecer qualquer coisa diretamente, não-verbalmente, você deve conhecer o conhecedor [aquele que conhece]. Até aqui, você achava que a mente era o conhecedor, mas não é assim. A mente o obstrui com imagens e idéias, as quais deixam cicatrizes na memória. Você toma a lembrança por conhecimento. O verdadeiro conhecimento é sempre fresco, novo, inesperado. Ele brota de dentro. Quando você sabe quem você é, você também é o que conhece. Entre o saber e o ser, não há diferença.(...)

Além do mais, quem é o Guru? É aquele que conhece o estado no qual não há nem mundo nem o pensamento sobre ele [o mundo], ele [o Guru] é o Mestre Supremo. Encontrá-lo significa alcançar o estado no qual a imaginação não é mais tomada por realidade, pela verdade, pelo que existe [pelo que é]. Ele é um realista no mais alto sentido do termo. Ele não pode e não discute com a mente e suas ilusões. Ele vem para lhe levar ao real; não espere dele nada além disso. O Guru que você tem em mente, aquele que lhe dá informações e instruções, não é o Guru real. O guru real é aquele que conhece o real, além do glamour das aparências. O que existe para você não existe para ele. O que você toma por certo, ele nega absolutamente. Ele quer que você veja a si mesmo como ele o vê. Aí [então] você não precisará de um guru para obedecer e seguir, porque você obedecerá e seguirá sua própria realidade.(...)

Seu corpo dura pouco no tempo. Tempo e espaço estão apenas na mente. Você não está preso. Apenas compreenda a si próprio - isso, em si mesmo, é a eternidade.(...)

Aquiete-se. Faça seu trabalho no mundo, mas interiormente aquiete-se. Então, tudo virá a você. Não confie em seu trabalho para sua realização. Ele pode trazer lucros para os outros, mas não para você. Sua esperança jaz em fazer silêncio na sua mente e no seu coração. Pessoas realizadas são muito quietas.(...)

Como em um cinema tudo é luz, assim também a Consciência se torna o vasto mundo. Olhe atentamente e você verá que todos os nomes [palavras] e formas [geométricas ou não] são apenas ondas transitórias no oceano da Consciência, [e] que apenas a Consciência pode ser dita como existindo, não suas transformações. Na imensidão da Consciência, uma luz aparece, um pequeno ponto se move rapidamente e traça formas, pensamentos e sentimentos, conceitos e idéias, como uma pena escrevendo em um papel. 


A tinta que deixa o traço, é a memória. Você é esse pequeno ponto, e por seu movimento o mundo é sempre recriado. Pare de se mover e não haverá mundo. Olhe para dentro e você descobrirá que o ponto de luz é o reflexo da imensidão da luz no corpo, aparecendo como o sentimento de 'Eu Sou'. Há apenas luz, tudo o mais apenas aparece. Para a mente, ela [essa luz] aparece como escuridão. Ela pode ser conhecida apenas pelos seus reflexos. Tudo é visto à luz do dia, exceto a luz do dia em si mesma. A Suprema Ciência [a união definitiva entre criatura e criador] é ser o ponto de luz traçando o mundo. A luz, em si mesma, é a própria união. Mas para que servem os nomes, se a realidade está tão perto?(...)

Eu Sou o que Eu Sou, nem com forma nem sem forma, nem consciente nem inconsciente. Eu Sou/Estou fora de todas essa categorias. Você não pode me encontrar pela simples negação. Eu Sou tanto tudo como nada. Nem ambos e nem nenhum dos dois. Estas distinções se aplicam ao Senhor do universo, não a mim. Eu Sou/Estou completo e perfeito. Eu Sou a existência do existir, o Saber do saber, a Plenitude da felicidade.(...)

Nada o impede de se tornar um sábio aqui e agora, exceto o medo. Você tem medo de ser impessoal, do Ser impessoal. É tudo muito simples. Dê as costas aos seus desejos e medos, dos pensamentos que eles criam, e você estará imediatamente no seu estado natural.(...)

Eu existo além do tempo. Não importa quão longa uma vida possa ser, é apenas um momento e um sonho. Da mesma maneira, eu existo além de todos os atributos. Eles aparecem e desaparecem na minha luz, mas não podem me descrever. O universo é todo nomes e formas, baseados em qualidades e diferenças, enquanto eu existo além. O mundo está lá porque eu sou, mas eu não sou o mundo. Eu sei que há um mundo, o qual inclui este corpo e esta mente, mas eu não os considero mais 'meus' do que outros corpos e mentes. Eles estão ali, no tempo e no espaço, mas eu sou intemporal e sem medidas.(...)

Primeiro realize seu próprio ser. Isto é fácil, porque o sentimento de 'Eu Sou' está sempre com você. Então, encontre a si mesmo como o conhecedor [aquele que conhece], separado do conhecido. Uma vez que você [re]conhece a si mesmo como puro Ser, o êxtase da liberdade é seu.(...)

O valor definitivo do corpo é que ele serve para descobrir o corpo cósmico, o qual é o universo na sua totalidade. Na medida em que você se descobre se manifestando, você continua a descobrir que é sempre mais do que tinha imaginado.(...)

Aquele que acredita que nasceu tem muito medo da morte. Por outro lado, para aquele que conhece a si mesmo verdadeiramente, a morte é um evento feliz.(...)

Uma vez que você compreenda que a estrada é a meta, e que você está sempre na estrada, não para alcançar a meta, mas para aproveitar sua beleza e sua sabedoria, a vida cessa de ser uma tarefa e se torna natural e simples, um êxtase em si mesmo.(...)

Uma coisa é bem clara para mim: tudo o que vive e se move tem seu Ser na Consciência, e Eu Sou/Estou dentro e além da Consciência. Eu Sou/Estou dentro como testemunha. Eu Sou/Estou além como Ser.(...)

Dor e prazer sempre andam juntos. Liberdade de um significa liberdade de ambos. Se você não se importa com o prazer, não terá medo da dor. Mas há a felicidade, a qual não é nenhum dos dois, a qual está completamente além.(...)

Identificar-se com o particular é todo o pecado que existe. O impessoal é real, o pessoal aparece e desaparece. 'Eu Sou' é o Ser impessoal, 'Eu sou isto' é a pessoa. A pessoa é relativa, e o puro Ser [é] fundamental.(...)

Você fala sobre o fluxo do tempo como se você fosse estacionário. Mas os eventos que você testemunhou ontem, alguém mais pode ver amanhã. É você que está se movendo e não o tempo. Pare de se mover e o tempo cessa. Passado e futuro se fundem em no eterno agora. (...)

Enquanto se for consciente, haverá dor e prazer. Você não pode lutar contra a dor e o prazer no nível da Consciência. Para ir além deles, você tem de ir além da Consciência, o que é possível apenas quando você olha a Consciência como algo que acontece a você, e não em você, como algo externo, alienígena, super-imposto. Então, subitamente, você está livre da Consciência, realmente sozinho, sem nada se intrometendo. E esse é o seu estado verdadeiro. A Consciência é uma irritação que faz você se coçar. Claro, você não pode escapar da Consciência , porque o próprio [ato de] escapar está dentro da Consciência. Mas se você aprender a olhar para a sua Consciência como um tipo de febre, pessoal e particular, na qual você está preso como um pintinho no seu ovo, dessa atitude virá a crise, a qual quebrará o ovo.(...)

Não tente ser feliz, ao invés disso, questione a sua própria busca por bem-aventurança. É porque você não é feliz que você quer ser feliz. Descubra porque você é infeliz. Porque você não é feliz, você busca a bem-aventurança no prazer; o prazer traz a dor, e por isso você o chama de mundano; você então anseia por algum outro prazer, sem dor, ao qual chama de divino. Na realidade, o prazer é apenas uma folga da dor.(...)

A Consciência em você e a Consciência em mim, aparentemente duas, mas realmente uma, buscam a unidade e isso é Amor.(...)

Aquilo que você é, seu verdadeiro Self, você o ama, e o que quer que você faça, você faz para sua própria felicidade. Encontrar seu verdadeiro Self, conhecê-lo, amá-lo é sua urgência básica. Seja verdadeiro com você mesmo, ame a si mesmo absolutamente. Não finja que você ama os outros como a si mesmo. Você não pode amar o outro a menos que você tenha compreendido que ele [o outro] é um com você. Não finja ser o que você não é, não se recuse a ser o que você é. O seu amor pelos outros é o resultado do seu auto-conhecimento, não a sua causa. Sem a auto- realização, nenhuma virtude é genuína. Quando você sabe além de qualquer dúvida que a mesma vida flui através de tudo que é, e que você é essa vida, você irá amar tudo natural e espontaneamente. Quando você compreende a profundidade e a amplitude do seu amor por você mesmo, você sabe que cada ser vivo e o universo inteiro estão incluídos no seu afeto. Mas quando você olha para qualquer coisa como separada de você, você não pode amá-la porque você a teme. A alienação causa medo, e o medo aumenta a alienação. É um circulo vicioso. Apenas a auto-realização pode quebrá-lo.(...)

Você reconhecerá que voltou ao seu estado natural pela completa ausência de todo desejo e medo. Além do mais, na raiz de todo desejo e medo, está o sentimento de não ser o que você é. Assim como uma junta deslocada dói enquanto está fora do lugar, e é esquecida tão logo volte à sua posição correta, assim toda auto-preocupação é [também] um sintoma de uma distorção mental, que desaparece tão logo se volte ao estado natural.(...)

O que é religião? Uma nuvem no céu. Eu vivo no céu, não nas nuvens, as quais tantas palavras mantém unidas. Tire o palavreado, e o que permanece? A verdade permanece."
Nisargadatta Maharaj em I Am That

14 de agosto de 2014

Sanidade - Osho


"Depois que tudo o que não é essencial for eliminado, o essencial será como uma chama — vivo em sua glória total... Samadhi Sadhana Shibir, este campo de meditação, nada mais é do que persuadi-lo a seguir na direção do
sem forma. 


Sem forma significa sem ego... o seu centro está em toda parte ou em parte
alguma. Isso é possível, isso que parece quase impossível é possível.

Você pertence ao sem forma, você pertence ao total, ao todo.

Assim, seja qual for a forma que você pensa que tem, você está louco. Você é sem forma. Você não pertence a nenhuma forma, e você não pertence a nenhum organismo, você não pertence a nenhuma casta, religião, credo; você não pertence a nenhum nome. 

E, a menos que você se torne sem forma, sem nome, você nunca será saudável.
Todo mundo é louco, a menos que chegue a compreender que não está identificado com nenhuma forma — só então vem a sanidade.

Sanidade significa chegar ao que é natural, chegar ao que é perfeito em você, ao que está escondido atrás de você.

Depois que tudo o que não é essencial for eliminado, o essencial será como uma chama — vivo em sua glória total.

Essa é a sua natureza. Esse é o Tao. 

Assim é o homem perfeito - Seu BARCO está VAZIO...."
Osho em O Barco Vazio


***
Toda identificação é fruto da inconsciência e gera prisão, gera limitação e gera mais inconsciência...
Quando nos identificamos com aquilo que é limitado, que é passageiro, nos reduzimos...

Perceber que nada pode realmente nos prender, uma vez que não somos sombras nem imagens, mas "aquilo" que tudo vê, tudo percebe, somos a própria percepção consciente, lúcida, intocável... saímos desse conflito ilusório e finalmente retomamos nossa natureza original, sem forma, sem qualquer limitação...

Desfrutemos daquilo que se apresenta. E deixemos que se vá...

O barco vazio é uma bela imagem para essa sanidade...para essa liberdade...

O livre fluxo da vida segue, e o barco está vazio...ou melhor, está cheio de espaço...aberto... tudo acolhe, nada aprisiona e permanece absolutamente livre...
Amor
AmidhaPrem

10 de agosto de 2014

Tao Te Ching - por Eckhart Tolle 2/2


"As pessoas vivem como se fossem em um sonho. Por exemplo: Onde está o que lhe aconteceu ontem? Em certo sentido, é como um sonho. Qualquer coisa que em seu momento era importante. (...) Não há muita diferença. Ou chegas ao final de sua vida, e recorda todos esses anos. Esse foi um longo sonho! Ou um pequeno pesadelo, talvez!

"Seu coração se torna terno como o de uma avó."
Uma linda imagem. A avó já passou por tudo, é um pouco como o Buda barrigudo, - o Tao está influenciado pelo Buda chinês barrigudo. Recomendo aos que crêem que possuem muitos problemas, que se compre este Buda de barriga grande e o olhem por um longo tempo; é um Buda que está rindo, ele não é sério. Significa que ele está conectado a algo mais profundo. Não se leva esse mundo muito a sério. Essa influência é benéfica.
Só quem não leva o mundo tão a sério, pode ser um bem para o mundo e pode melhorá-lo. Se crêem que o mudo é algo muito sério, não poderá melhorá-lo, só irá contribuir para aumentar sua loucura.; estará de uma maneira ou de outra lutando com alguém, alguma organização, ou um grupo de gente.
É necessário que haja uma certa desidentificação, e se converte no Buda barrigudo, ou na avó.

Ter a dignidade de um rei, quer dizer a dignidade, ou a integridade de quem és. A mesma que existe em cada animal, mas que muitos humanos perderam.
Não há divisão. Sempre que você olha um cão, ou um gato, um pássaro, ou o que seja, ele é um consigo mesmo. Tem uma enorme dignidade.
As vezes, se pode notar a diferença entre olhar um ser humano e sua estupidez. E ás vezes os humanos são tolos, tem um cão digno.(risos...)
E as únicas ocasiões em que saem da sua estupidez é quando acariciam seu cão. Por esse momento podem ser eles mesmos. Já com outras pessoas interpretam algum papel, sem saber que o estão interpretando. Por um momento com o cão, existe a habilidade de ser eles mesmos, sem ter que fingir e relaxar. E é por isso que não entendem como podem amar tanto aquele cão, ou gostam tanto de estar com seu gato.
Isso é porque os animais lhe permitem serem eles mesmos, autênticos; encontram a si mesmos através destes animais. Essa é a dignidade do animal, mas que também está em você.

Essas próximas frases são interessantes para aqueles que estão a cargo de liderança de alguma organização, ou país, ou seja, como governar um país, ou uma organização.

"Quando o mestre governa, as pessoas são apenas conscientes de que ele existe.
O governante inferior é aquele que é amado.
O governante mais inferior ainda, é temido.
O pior é o que é depreciado.
Se não confias nas pessoas, as pessoas perdem sua confiança.
O mestre não fala, age. Quando seu trabalho está feito, as pessoas dizem: Que bom, nós fizemos por nós mesmos."

Então, quando existe um governante verdadeiro, ninguém é consciente dele. Ele se faz notar raramente. Não fala. Não fica dizendo: Olhem para mim! Eu fiz isso!
Isso significa que, identificar-se com as ações, e atribuir-se méritos, ou discutir com alguém, não se trata de um verdadeiro mestre.

O verdadeiro mestre governa além da mente, além da identificação com as ações. Este é o mesmo fenômeno que encontramos em pessoas simples, humildes, que ainda não desenvolveram um ego. Às vezes elas fazem coisas incríveis, mas não existe dentro delas uma entidade dizendo: Olha, eu fiz isso! Ou que se sente o quanto ele é importante.
Isso é muito bem expresso no filme Forest Gump. Ali o herói, ou anti-herói, não tem ego. Ele está abaixo do ego; ajuda muitas pessoas, e vive coisas boas, mas ele não tem o sentido de separação, de diferença dos outros. Ele vive bem.

O que dissemos antes, se tratava em transcender ao ego, mas aqui no caso de Forest, ainda não foi desenvolvido um ego, daí ele viver com um sentido de unidade.
Quando se vive assim, o universo se torna amigo, nos ajuda; muitas coisas boas chegam a sua vida, porque deixas de se separar-se da vida. Começa-se a viver em unidade com o momento presente.(...)

Seu destino não se determina pelo que te ocorre, isso é o que a maioria das pessoas acreditam: "O que acontece comigo determina minha vida".
Seu destino se determina por como você responde ao que acontece. E o que acontece depois, está determinado por como você reage, ou responde ao que acontece agora.
Algo que parece ser mal acontece, algo dá errado, sua reação é negativa, você está atraindo o momento seguinte de forma negativa; se sua reação é uma resposta, se diz: Bom, assim são as coisas; vamos observar isso.
O que vier em seguida irá refletir esse estado de consciência. A maioria das pessoas vivem todas suas vidas, presas a uma corrente em que as mesmas coisas negativas vão sempre acontecendo. Porque não se dão conte de que em todo momento, tem a liberdade de mudar suas vidas, mudando de atitude, reagindo de modo diferente ao que acontece; Sua reação presente determina o futuro. Não é o que lhe acontece, mas como você reage ao que lhe acontece, é o que determina o momento seguinte.

É assim que você pode mudar sua vida. No lugar de estar preso em um mau Karma por um longo tempo. Na verdade é muito fácil, só necessita estar consciente.

Aqui o Tao Te Ching fala de como a consciência coletiva afeta o planeta...

" Em harmonia com o Tao, o céu é claro e espaçoso. A Terra é sólida e plena. Todas as criaturas florescem juntas, felizes com aquilo que são, renovando-se infinitamente.
Quando o homem interfere no Tao, o céu se torna sujo e a Terra, pobre; o equilíbrio tomba e as criaturas se extinguem.
O mestre vê tudo com os olhos da compaixão, porque ele compreende o todo. Sua prática é contínua na humildade. Não brilha como jóia, mas se deixa moldar pelo Tao; é tão forte e comum como uma rocha."

Belas imagens.
Quando os homens vivem desconectados da consciência superior, o Tao, o transcendente, a realidade, tudo que manifestam externamente reflete esta desconexão. E então, o planeta e todos a sua volta, sofrem com isso. Isso é um reflexo do estado de consciência.

Este princípio eterno, Lao Tse pode ver há 2.500 anos atrás. E isso implica também que a solução para o que acontece no planeta, não pode encontrar-se somente na dimensão externa. É claro, que devemos mudar as coisas com respeito a dimensão externa, mas a não ser que mudemos nosso estado de consciência habitual, não servirá de nada remover qualquer demônio que ande por aí á fora, porque aparecerá outra coisa que terá a mesma influência danosa sobre a natureza e o planeta.

Logo o fundamental é a mudança de consciência da humanidade. Ao invés de esperar que os outros mudem primeiro, lembre-se que a humanidade é você, a humanidade sou eu. A mudança de consciência deve acontecer em ti, em mim, então o planeta estará salvo. Isso é decisivo.

Aqui temos duas belas linhas: "O mestre... - o mestre significa o ser iluminado, o que está em contato com o Tao;(...)
"O mestre vê as partes com compaixão, porque compreende o todo."

Ele compreende o todo porque está conectado com o todo. Podes olhar uma parte, em cada ser humano, ou cada uma das formas de vida, com compaixão, porque as reconhece como expressões, manifestações da vida única, a mesma que também se manifesta em si mesmo. Expressões da vida única, consciência, que também é sua essência.
Quando não impomos pensamentos sobre a realidade, mas ao invés disso permitimos que a realidade se expresse livremente, por exemplo a uma flor ser como é, com o espaço, uma percepção espaçosa, o mesmo com outro ser humano, eis que surge a compaixão.
A compaixão tem uma dimensão mais profunda, o reconhecimento da unidade. É daí que provém a verdadeira compaixão. (...)

Eu Sou a vida! Sou a expressão da vida única! A consciência única. o Tao. Expressando-se a si mesmo por um tempo e através desta forma. E o mesmo poder da vida está aqui. Para que ter uma estrutura mental que me dê uma identidade, que me diga quem sou com definições, juízos, e que diz que "não sou bom o bastante" ou " sou melhor que.."? Isso é desnecessário!

Como as vezes o chama no  Tao Te Ching "bagagem desnecessária". Andar por aí com uma bagagem desnecessária.
"Minha vida é tão pesada e difícil..Tenho uma vida muito dura.."

Onde está sua vida dura neste momento? Não consigo ver! Ela existe somente quando pensa nisso. Mas, onde ela está quando você a vê a partir do agora? É uma entidade imaginária! O "eu" consiste de pensamentos e opiniões, é imaginário. Irreal.

É maravilhoso dar-se conta de que no agora, não se tem carga nenhuma, nenhuma "minha vida", você É a vida no agora. Eu sou a vida. Não preciso me definir mentalmente, como bom ou ruim, melhor que... tenho sucesso ou sou um fracassado. Tudo isso me afasta do poder que já está aqui. O poder do Tao.
É por isso que o livro diz, como nós vimos antes: Esvazie-se de tudo. Que significa, esvazie dessas ideias de quem és, que de outra forma de dominam. Jesus disse a mesma coisa: "Bem aventurados são os pobres em espírito." Pobres de espírito significa que não levam bagagens internas. Bagagens de seus pensamentos, de quem são. A frase de Jesus, faz referência a aqueles que se sentem livres por dentro, não ficam aprisionados pelos pensamentos, e pelas identificações, nem em criar uma imagem de quem eles acreditam ser. Essas bagagens mentais se tornam a sua própria vida. E se chega a acreditar que podem perder sua vida. (...)

Você é a vida, não se pode separar da vida, isto é, não se pode dizer eu tenho uma vida! Quem é você,
 não é separado da vida. Você não tem uma vida, você é a própria vida. A mente lhe diz que você tem uma vida... isso é loucura! Mas normal..normal e louco.

Uma mais.
"Aquele que fica na ponta dos pés não tem estabilidade.
Aquele que está com pressa não vai longe.
Aquele que tenta brilhar, obscurece a própria luz.
Aquele que define a si mesmo, não pode saber quem é.
Aquele que tem poder sobre os outros, não pode apoderar-se de si mesmo.
Aquele que se prende ao trabalho não criará nada duradouro.
Se quiser estar em harmonia com o Tao, faz seu trabalho e logo deixe-o ir."

"Aquele que fica na ponta dos pés não tem estabilidade."
Olhe para mim!! Eu, minha vida! Ou então: Olha como estou infeliz! Ou olha como sou grandioso!

"Aquele que está com pressa não vai longe."
Sempre olhando o seguinte. O que devo fazer agora? Sempre se arrastado entre um pensamento e o próximo. Qual será o seguinte pensamento para me preocupar?
Toda uma civilização estressada. Todos desconectados do Tao. Todos apressados. Não há mais tempo para nada!!
Aquele que está com pressa, não vai longe. Não chegará a parte alguma.

"Aquele que tenta brilhar, obscurece a própria luz." Ao acreditar nos papéis que representa, ao identificar-se com a ideia de que se é especial.. Olhem-me!! Se afasta do poder do Tao. Quando deixas de prestar atenção ao falso "eu", o poder flui através de ti. Quando deixas de se identificar com o que fazer, porque não é você quem faz.(...)

Algo importante aqui:
Aquele que define a si mesmo, não pode saber quem é. É disso que estamos falando. Essas definições constantes de quem somos que trazemos em mente. Porque não ser simplesmente consciência? Ser a presença. Agora. Aí está o poder.
Que ensinamento maravilhoso."
Eckhart Tolle em Satsang

9 de agosto de 2014

Tao Te Ching - por Eckhart Tolle 1/2


"Estaremos falando, não apenas falando, mas entrando na essência de um livro que me tem acompanhado nos últimos trinta anos.Um livro que sempre consulto diariamente, e sigo consultando todos os dias...leio uma página, ou duas ou três...e medito...
Trata-se de um dos grandes tesouros da literatura espiritual.
É um livro escrito na China a 2.500 anos atrás, o TAO TE CHING.

Pode parecer que se passou muito tempo desde aquela época, e sem dúvida o livro segue sendo imensamente vivo. E um livro escrito a tanto tempo, para estar tão vivo, significa que foi escrito a partir de uma dimensão muito profunda e aponta algo, que está fora do tempo (timeless).
Se não tivesse sido escrito a partir dessa dimensão, que está fora do tempo, e não apontasse esse algo atemporal, um livro escrito a 2.500 seria irrelevante, não teria sentido e seria na verdade incompreensível.
Isso ocorre com muitos livros, que foram escritos há 20 anos atrás! Ou mesmo o jornal de ontem, já está desatualizado.

Logo, existe algo para que este livro siga vivo agora e siga sendo profundo em significado, para muitas pessoas. Logo, deve haver algo aí que está fora do tempo.
Esta é a essência deste livro, e é isso que gostaria de aprofundar com vocês.
Assim, não é um livro que abordaremos, mas, não vamos analisar o texto, vamos usar o texto para ir profundamente para nosso interior, e descobrir algo dentro de nós mesmos. O livro não é mais que um recurso, que nos ajuda a descobrir, ajuda a ver nossa conexão com o Todo, com o Universo, ou como vocês o chamam.

Explico brevemente o contexto histórico; pode ser útil se saber um pouco mais sobre isso.
Este livro foi escrito por volta de 2.500 - 2.600 anos, na China. Em outras palavras, a 500-600 anos a.C; este foi um período muito apaixonante e significativo; algo incrível estava acontecendo nestes 150-200 anos.
Pela primeira vez na humanidade, pelo que podemos ver, estava acontecendo uma onda universal de despertar espiritual por todo planeta.
O autor do Tao Te Ching, Lao Tse, é um contemporâneo de Buda, que estava na Índia. Os ensinamentos de Buda surgiram aproximadamente na mesma época dos ensinamentos de Lao Tse, o autor de Tao Te Ching.

O Buda começava a ensinar na Índia,e aí também havia outro mestre muito importante, Mahavira, cujos ensinamentos não foram muito longe neste momento, nem tampouco hoje em dia, mas se manteve como algo muito significativo na Índia. Era aproximadamente a mesma época que viveu Buda. E deu início ao Jainísmo, uma religião muito bonita, que segue sendo praticada na Índia, embasada no termo "ahimsa", que quer dizer, não violência, isto é, um profundo respeito por todos os seres vivos.

Nestes tempos, todos estes ensinamentos estavam sendo revelados e ensinados.
Temos Buda e Mahavira na Índia, também estava surgindo o Zoroastro, na Pérsia ( não confundir com Zaratrusta de Nietszche) (...) Zoroastro, o Profeta da Pérsia; Temos também na antiga Grécia, e estou falando de antes dos grandes filósofos como Platão, Aristóteles, Sócrates, começarem a ensinar. Estamos falando de antes disso.
Estamos falando dos filósofos pré-Socráticos, pois precediam a Sócrates;
Somente encontramos fragmentos de suas filosofias, mas são suficientes para nos mostrar que seus ensinamentos, eram em alguns aspectos, mais profundas que os de Platão, Sócrates e Aristóteles, que eram de outro tipo.
Meus filósofos pré-socráticos favoritos são Heráclito e Parménides. Só temos pequenos fragmentos, mas estes fragmentos nos mostram que estes ensinamentos estavam em contato com a fonte do Ser, a fonte da Vida. A Unidade que existe na essência de todos os fenômenos. E depois, a medida que a filosofia foi se diferenciando, isso foi se perdendo. Os filósofos se tornaram interessados nas diferenças, mas a conexão com a raíz da vida, a unidade imanifestada, a dimensão transcendental, gradualmente foi se perdendo.

Estes filósofos de 500-600 anos a.C, ainda tinham esta conexão. Eles também se haviam dado conta de que a humanidade havia perdido essa dimensão, assim foi que tudo se tornou numa onda de despertar, que estava passando por todo o planeta. Vejam que não estamos falado da filosofia como a vemos hoje em dia, se tratava de uma transformação interior, e não uma especulação, como ocorre hoje.
Aqueles, eram filósofos que investigavam a si mesmos, Buda, Mahavira, não eram especulativos, eram investigadores de si mesmos. Seu ensinamentos eram vivenciados. Tudo era em função de uma transformação interior, e não de se entender algo com sua mente.

Assim, que temos: o despertar na Pérsia, o despertar na Índia,e o despertar na antiga Grécia, e agora vamos a China, temos Lao Tsé e seus ensinamentos, que surgia na mesma época na China.
Tudo parte desta onda de despertar global, que agora estamos vivendo atualmente. Agora, em uma escala muito maior que naquela época.
Estamos em um período similar a aquele, exceto porque desta vez a onda de despertar espiritual é muito mais poderosa, está em uma escala muito maior e muito mais generalizada que antigamente.Estamos no meio disso.

A 200 anos ninguém no Ocidente falava do Tao Te Ching. Agora estamos despertando, e é por isso que agora podemos falar do Tao Te Ching e compreendê-lo.

Lao Tse, estava...se sabe pouco de sua vida - dizem que ele estava a cargo dos arquetipos de um reino chamado Zhou.Não sabemos com que idade estava, mas começou a se sentir cansado com a corrupção, de como atuava a corte e os conflitos a sua volta, e então ele decide deixar seu trabalho e partir só para as montanhas.
A história conta isso, mas não sabemos se é verdade; diz-se que chegou até a fronteira desde reino, onde havia uma porteira, e o guarda disse que Lao Tse não poderia passar a menos que escrevesse sua sabedoria. Ele tinha a reputação de um sábio, mas nunca havia escrito nada. Então, ele disse: Está bem vou escrever.
Não sabemos quanto tempo levou, mas escreveu. Após isso a porteira se abriu e o deixou partir. Este pequeno livro é o Tao Te Ching. Este é o ensinamento este é o livro. E então, de acordo com uma versão do que se conta, Lao Tse montou em um búfalo e partiu para as montanhas e nunca mais foi visto. Em outra versão, dizem que ele seguiu ensinando e chegou até os seus 160 anos.

Tao Te Ching é o título do livro, e geralmente não se traduz. Alguns tentaram traduzir o título mas não tiveram sucesso. As vezes se coloca um sub-título, que diz assim: Tao Te Ching - o caminho da virtude. E essa é uma das traduções errôneas. Tao poderia ser traduzido por "o caminho", mas não é possível traduzir o que seja Tao. Mesmo que se traduza como "o caminho" tem pouco sentido. E se você for chines, isso pouco importa, seguirá sem saber o que significa Tao.

Tao não se pode nomear, logo falaremos disso.
Em um subtítulo " O caminho da virtude"; Virtude é uma tradução errônea para "Te". Virtude em nosso idioma inglês, não tem vida; Quando foi a última vez que você usou a palavra virtude? Provavelmente a muito tempo, se é que usou alguma vez. Virtude não se usa; Te, o que realmente aponta e "poder".

Logo, Tao Te Ching, seria "O Poder do Espírito", "O Poder da dimensão transcendental"; O Caminho e seu poder, é um subtítulo mais adequado para o Tao Te Ching.
O caminho, se refere a como viver. O caminho é viver alinhado com o único poder que subjaz no universo. A única coisa que não pode se nomear, que não é uma coisa. Viver alinhado com o Absoluto, que as vezes chamamos de Deus. Mas quando se diz, Deus, o transformamos em algo, e não é isso. Não é algo. É uma não-coisa que flui por todo o universo, que dá vida ao universo, e está além dele. Isso é Tao. E somente podes descobrir em si mesmo. Podes viver de uma maneira em que estejas conectado com essa fonte interior de toda a vida, de todo ser.

O Caminho e seu poder; Isto nos ensina como nos alinharmos com esse poder que subjaz a toda a vida; E como disse Lao Tsé: Por não possuir a palavra adequada, o chamarei de Tao.
Está bem, chamá-lo assim, porque é uma palavra que não se presta a distintas significados; Não se pode entender o que exatamente significa.

Da mesma forma, Buda usava a palavra "vazio";Não se pode venerar o vazio. É um termo negativo, que nega a existência da forma. Os humanos sempre tiveram a tendência a venerar a forma. O conceito de Deus que surge na mente, e começa a falar Dele. O conceito de Deus se transforma em um ídolo, porque não é mais que um pensamento.
Mas não se pode fazer o mesmo com Tao, porque não se pode imaginá-lo, formar uma imagem dele, da mesma maneira que não se pode imaginar o vazio.
Essa é a realidade transcendental da qual o livro fala, e se mostra como um caminho. Existe um grande poder aí.

O Tao Te Ching veio a mim na década dos meus 20 anos. Alguém me disse, "dê uma olhada nisso, é interessante".E fui ver, e algo do livro me atraiu, mas estava tão oculto que não pude... eu sabia que havia algo ali, alguma verdade, mas não sabia o que era, não podia decifrá-la. Então, o coloquei de lado, e me dediquei a outras coisas. Depois de uns anos, no início dos meus 30 anos, redescobri o livro em outra tradução, que já não existe mais, e não só me encontrei com uma tradução melhor, mas havia ocorrido algo em mim, um despertar, uma mudança de consciência,  e através desta nova consciência, li o livro e disse: Uau!! É a isso que ele se refere!! Me dei conta da profundidade dessas palavras.
Desde então, o livro em suas diversas versões - não me refiro ao livro físico,- mas ao que o Tao Te Ching se refere, nunca mais me abandonou. Sempre esteve comigo, de uma forma ou de outra.

Esta é a história por trás do Tao Te Ching. Agora podemos sim, adentrar nele mais profundamente.

Tenho aqui duas traduções, que são as minhas favoritas neste momento. Vamos usar a de Stephen Mitchel, Tao Te Ching, que é muito recente; e outra que tenho a muito tempo e que gosto muito é a de Gia-fu Feng e Jane English, eles o traduziram juntos. Essa é uma outra belíssima tradução. Hoje estarei usando a versão de Stephen Mitchell.

As primeiras duas linhas do Tao Te Ching são muito famosas, algumas vezes as citei. Mesmo aí as traduções variam.

As duas primeiras linhas:
"O Tao que se pode expressar
não é o Tao eterno"

O que quer dizer é que, não se pode falar sobre a realidade transcedental. Qualquer coisa que se diga a cerca dessa realidade última, é falso. Entretanto ele continua falando sobre isso. Como pode ser isso então? Ele está dizendo para que nós não fiquemos presos a essas palavras, que não creiamos que essas palavras, estes conceitos; que eles não se convertam em crença.
A Verdade é infinitamente maior que qualquer descrição que façamos dela, ou sobre ela.

Estas duas linhas são muito importantes: O Tao que pode ser expressado  ( ou contado, ou falado ) não é o Tao eterno. Está bem, agora posso contá-lo a vocês! Porque o Tao está em ti, e o único lugar em que podes descobri-lo é em você mesmo. O livro mostra a forma de descobrir quem você é, mais além daquilo que você acredita ser; mais além daquilo que a sua mente está te dizendo sobre quem você é.

E agora, o mais próximo que podemos chegar nessa definição de Tao é que ele é indefinível. E é isso que encontramos nas próximas linhas, que vou ler agora, e devem escutar não só com a cabeça, mas com todo o seu ser. Porque não se pode entender só com a mente. Se puderem sentir o poder que existe nessas palavras, é porque estão sentindo o seu próprio poder, além da atividade mental.

"Já existia algo perfeito e sem forma antes do nascimento do Universo.
É sereno, vazio, solitário, imutável, infinito. Eternamente presente. É a mãe do Universo.
Por não encontrar um nome apropriado, lhe dei o nome de Tao."

Notem que ele começa dizendo: "Havia algo perfeito e sem forma, antes do Universo nascer. Antes de que surja a forma, antes do Big Bang podemos dizer. Aí ele usa o verbo no passado, na seguinte linha ele diz: é sereno, vazio, solitário. Não se refere ao que existia antes do nascimento do universo, mas que continua sendo fora do tempo em ti mesmo. Isso que estava ali antes do Big Bang, segue sendo presente em você.É a vida única, não-manifestada, a consciência única; sem a qual, não existirias. É a essência de quem és.
E claro, se dizemos isso a qualquer cientista materialista, ou o que seja, não digo um grande cientista, mas um qualquer, ele dirá: Mas que absurdo! Ou se dizemos isso a alguém muito fechado, ele dirá: Isso não faz sentido. Algo existir antes do Universo? Do que você está falando?

Muito sabiamente, Mitchell cita um dos grandes cientistas, Albert Einstein. O que ele teria a dizer sobre isso.
Einstein utilizou enormemente o pensamento, mas um pensamento que estava enraizado no silencio. O pensamento por certo, é uma parte essencial do Tao. Seu pensamento estava enraizado no Tao, no silencio que está além do ruído mental. Deste lugar, dessa dimensão, surgiam os descobrimentos de Einstein. Ele não estava preso em seu ruído mental, como a maioria dos cientistas que negam a realidade do transcedental.
Einstein estava conectado com a realidade, e disse:
"O sentimento religioso dos cientistas toma a forma de um extasiado assombro, ante a harmonia da lei natural, que revela uma inteligência de tal superioridade que, comparada a esta, todos pensamentos sistemáticos dos seres humanos, são apenas reflexo absolutamente insignificante. Este sentimento é o valor central da minha vida e do meu trabalho."

O reconhecimento de que existe uma vasta inteligência que está por trás de toda a criação.(...)
Isso está na flor. Isso a cria. Está em ti, inundando todo o espaço que nos rodeia. Surge através do cérebro humano, e este lhe dá forma; quando o cérebro não opera, deixa de mover-se através dessa forma.
É a consciência mesma que você é.
Isto demonstra que Einstein estava conectado com essa dimensão, e por isso tinha essa inspiração em seu pensamento, por isso obteve descobrimentos repentinos.

Agora chegamos a algo um pouco mais amplo, só algumas linhas, iremos vendo aos poucos, uma linhas de cada vez.

Como viver, como estar em contato com Isso?
Irei ler a primeira sessão, e logo veremos mais detalhadamente algumas linhas. Não só com o a mente intelectual, mas sentindo com todo nosso ser.

"Podes deslocar sua mente de suas inquietações e deixá-la nas mãos da unidade?
Podes deixar que seu corpo se torne tão sutil, como o de um bebe recém-nascido?
Podes limpar sua visão interior, até que somente vejas a luz?
Podes amar aos demais e guiá-los sem impor sua própria vontade?
Podes lidar com assuntos importantes, deixando que eles sigam seus caminhos?
Podes tomar distância de sua própria mente e entender tudo?
Dar a luz e nutrir?
Ter sem possuir?
Agir sem expectativas?
Guiar sem tentar controlar?
Esta é a suprema virtude.

Virtude significa "Poder".
O poder flui através de você, se vives dessa maneira, se se transformar nisso. Se te das conta de que és uno com isso.

Vamos ao início: Podes deslocar sua mente de suas inquietações... se se fixas em sua própria mente, verás que isso é o você faz. Vai de uma coisa a outra, de um pensamento a outro, e continua e continua... As vezes chamamos de voz em nossa cabeça.
Podes deslocar sua mente de suas inquietações e deixá-la nas mãos da unidade? Em outras palavras: É possível a você se sentar por um momento em silencio, e não dar atenção a cada pensamento que diz: Siga-me eu lhe mostrarei o caminho! Sou um pensamento importante!!
E uma vez que siga a um pensamento, chega outro e outro... é uma corrente, é assim como a maioria das pessoas vivem, imersos continuamente em sua tagarelice mental.(...)

Inclusive se vê isso na literatura do século XX, se chama " A Corrente da Consciência" de James Joyce. Podes encontrar trinta páginas seguidas sem nenhuma pontuação. Ela observava sua própria mente e anotava o funcionamento. Fazia sem nenhuma pausa, sem nenhum ponto, nem vírgulas, nem nada..."normal".(risos...)

Quando entender isso...é surpreendente que eles não se percam, pois estão tão identificados com isso, que se convertem nisso. Dizem: eu penso, eu sou isso. Na verdade são os próprios pensamentos que dizem isso, eles que dizem: "eu penso" (risos...)
Perdem a vasta dimensão interior que está por baixo dos pensamentos, e é por isso que o Tao Te Ching diz para que não demos muita importância a esses pensamentos, e encontre um descanso, e é por isso que o momento presente é tão importante, porque é este que pode te tirar dessa corrente de pensamentos. Só se tornando atento a este momento. Não há muito no que pensar, só em permanecer sentado aqui.

O que poderia agregar a este momento, para que se torne melhor, e que já não esteja aqui? Ou ao olhar uma flor, porque agregar-lhe pensamentos? Ou ao olhar um outro ser humano...porque agregar  pensamentos a esta percepção tão linda? Deixe nas mãos da Unidade. Quando deixa de estar sob o controle dos pensamentos e te das conta de que existe um lugar dentro de ti que transcende ao pensamento, você se conecta com a Unidade. É somente através do pensar que surge a ilusão de separação. Começas a nomear as coisas - isso, aquilo, julgando as coisas.. Não significa que já não possa mais fazê-lo, é apenas que já não estás preso a isso...

"Podes deixar que seu corpo se torne tão sutil, como o de um bebe recém-nascido?"
Ao se estar imerso em pensamentos, seu corpo se torna rígido, já que ele espelha o que está se passado na mente, o que na maioria das vezes é problema que sua mente está criando. "Preciso pensar nisso, e naquilo..." Quanto mais problemático seja um pensamento,- e todo pensamento é problemático-, menos vida haverá em seu corpo. O fluxo de energia corporal diminui. Você se torna rígido, tenso, você se reprime.

"Podes deixar que seu corpo se torne tão sutil, como o de um bebe recém-nascido?" Lembre-se que esta é uma tradução livre, se você vai além da tradução mais literal, o que se diz aqui é: "Você pode concentrar seu Chi, ou energia vital, até que seu corpo se torne tão sutil como o de um recém-nascido?
Este ensinamento pode ser chamado de Consciência Corporal. Se pode interiorizar? Levar sua atenção até o interior do corpo, e sentir que você está vivo por dentro. Pode sentir a vitalidade em suas mãos? Pode sentir a vitalidade em seus pés? Pode sentir a vitalidade que inunda todo o corpo? Isso te tira da mente. Mesmo sentados aqui, vocês podem sentir isso?
Isso é uma prática taoísta muito antiga, que já existe há milhares de anos, quase tão antiga quanto o Tao Te Ching; se trata de respirar dos calcanhares até encima. Se diz: Você pode respirar dos calcanhares até encima? Claro que não, porque não se podem aspirar com os pés.. mas o que eles querem dizer é para você dirigir sua atenção aos seus pés e imaginar que está respirando daí, que respiras pelos calcanhares.
Isso serve para que se torne consciente, comece na parte inferior de todo o seu campo energético. Quando imaginas que respiras desde seus pés, a energia começa a fluir de baixo até encima. Imaginar que realmente se está respirando com os calcanhares, e a energia da respiração fluirá pelo corpo. Uma prática muito antiga.(...)

"Podes limpar sua visão interior, até que somente vejas a luz?"
Aí dentro parece que existe algo obscuro, embora haja luz, é somente a mente que "cria" o escuro. O que significa limpar a visão interior, até que só se veja a luz?
Por "luz", se refere a Luz da Consciência. Com o "limpar a visão" interior, se refere a silenciar a mente, até o ponto em que se torne consciente da própria consciência; até que se torne consciente de que você é Consciência. E então, isso sempre permanece aí.

Este capítulo em essência, trata sobre como estar no mundo, e ao mesmo tempo, conectado com a fonte. Neste momento, pode ser útil que não te percebas como uma pessoa que tem passado e um futuro. O que resta de você, aqui e agora, sem isso? O que resta é a Consciência, apenas sua presença. É simplesmente uma presença. Não uma opinião, ou memória.Essa é a luz da consciência, e também é o Tao, você não pode sacar isso, não pode convertê-la em um objeto de conhecimento e dizer: Ah aí está! Ali está, posso vê-la. É a luz da consciência! Não! Você é a Luz da Consciência, e através dela pode-se ver tudo. Não pode vê-la , nem tocá-la. Ela subjaz a tudo. É isso que cada um de nós somos em realidade. A Presença que diz, "sua" presença, mas não é de todo correto porque não é que seja "sua", senão que és isso. Há uma unidade nisso. Se diz "sua presença" parece que existe uma presença de um lado e a presença de outro por outro lado. Essa linguagem parece criar uma dualidade. E é por isso que o Tao Te Ching nos aponta como a mente, a linguagem cria uma espécie de ilusão de separação.

"Podes amar aos demais e guiá-los sem impor sua própria vontade?" Impor sua vontade, em outras traduções, - já que estamos vendo distintas versões -, quer dizer: Você pode viver neste mundo sem ser astuto? Eu falo sobre isso em um dos meus livros, de como o ego é engenhoso, no sentido de que tenta levar vantagem para si mesmo, ou para "nós". Tem seus pequenos planos, tenta usar as pessoas. A maioria dos políticos são engenhosos, são espertos, são poucos que são inteligentes. (...)

Não se envolver em discussões inúteis; não se identificar com posições mentais de "estar certo", todo o tempo "eu estou certo você está errado"; Esta energia te deixa afasta completamente de si mesmo; não discutir inutilmente. Estar disposto a escutar, em um estado de abertura. Não se identificar com suas opiniões, já que assim acaba por se opor as opiniões dos outros.

"Podes lidar com assuntos importantes, deixando que eles sigam seus caminhos?" Encontrei uma outra tradução, mais próxima da original,que em lugar de dizer "deixando que eles tomem seu caminho", diz: "convertendo-se em feminino". Podes lidar com os assuntos mais importantes, convertendo-se em feminino?

O princípio da feminilidade, - e as vezes se usa feminilidade como sinônimo de Tao -, poderíamos dizer que o princípio feminino é o de "permitir ser", que é assim ( braços abertos ) e o masculino é assim ( braços fechados ). De acordo com este ensinamento, o gênero feminino, expressa o Tao mais claramente do que o masculino. É mais fácil de expressar o Tao através da forma feminina, do que da masculina.
Se és masculino, terás que descobrir a feminilidade ( a receptividade ) em si mesmo, para ser uno com o Tao. Deves descobrir essa receptividade, e permitir que a realidade seja aquilo que é.
Quando digo, permitir a este momento ser como é, essa é a feminilidade, não lute com aquilo que é, permita que seja; que haja aceitação.
Ás vezes se vêem estátuas de Kuan Nin, com as mãos estendidas, como as da Virgem Maria, todas são expressões da feminilidade. Tudo é acolhido, tudo é Universal.

Podes ser esse acolhimento, em qualquer situação?
Isso gera muitas discussões. Alguma mulher pode dizer:Não gosto dessa ideia, quero ser poderosa! Sem se dar conta de que o poder da feminilidade é enorme. É o poder desse "permitir ser", é muito maior daquele que interfere.

Vamos adentrar em outra pergunta extensa. O quanto estás aberto para receber esta mensagem. Isso é muito familiar para mim, por isso lerei apenas algumas linhas.

Alguns dizem que meus ensinamentos não tem sentido; outros o chamam de "nobre" mas não o põem em prática; mas para aqueles que os vêem a partir do profundo de si mesmos, este "sem sentindo" faz todo sentido; e para aqueles que os colocam em prática, esta nobreza tem raízes que vão profundo.

Então, existem algumas pessoas que não tem essa abertura, porque não encontram nenhum sentido nisso; tem que haver algo em ti que reconheça a verdade disso, além das palavras e dos conceitos.

"Esvazia sua mente de todos os pensamentos, e deixa que seu coração esteja em paz." Vou ler o mesmo, mas em outra das traduções, verá uma pequena mudança no sentido; outra sensação.
"Se esvazie de tudo. Deixe que a mente se transforme em silencio. Observa a agitação dos seres, mas contempla seu retorno."

Observa a agitação que existe neste mundo, toda a atividade dos seres.. como vão correndo. Observe. Quer dizer que sejas consciência, e contempla o retorno: tudo volta ao sem forma, cedo ou tarde. Imagine que está vendo um filme, - a mim me encantam os filmes antigos, dos anos 30-40; me encantam por exemplo cenas na rua, em Londres, Nova York, centenas de pessoas correndo por causa de seus trabalhos, - esta é a agitação dos seres, como diz aqui. Você precisa vê-los. Eu vejo, e observo surpreso, - e aqui diz: Observa e contempla seu retorno - quando eu vejo, essas cenas de rua, digo: Todas essas pessoas já não estão mais aí! Estão todos mortos neste momento. Era tão "importante" o que estavam fazendo, parece importante... correndo daqui e dali..carros.. (...)
E não resta mais nada. Só o vazio. Mesmo aqui e todos nós aqui, se colocarem câmeras aqui filmando, veremos os corpos gradualmente se dissolverem, ou evaporarem. E não demora muito. Ás vezes comparamos a bolhas de sabão, que se dissolvem uma atrás das outras.. e não sobra nada. Os corpos físicos duram um pouco mais, até que eles se dissolvam também. Mesmo as pedras se dissolvem, podem duram dois mil anos, mas um dia irão se dissolver.
Tudo o que existe se dissolve. Todas as formas terminam por se dissolver, são impermanentes.
E observar isso é extremamente poderoso, por isso é que o Tao Te Ching diz: Observa a agitação dos seres, mas contempla seu retorno. Significa que seja consciente da impermanência de toda forma que existe. Não como algo negativo, mas que veja como é. E se és consciente da impermanência das formas, de que todas as formas duram pouco, como é que você pode ser consciente? Deve haver algo em ti, que está além disso. Ás vezes é como dizer: se todo o universo fosse azul, a cor azul não existiria, porque não existiria nada para diferenciá-lo.
Diria: Tudo é azul. E te diriam: Do que está falando? Azul? o que é azul?

Se tudo fosse impermanente, nem sequer haveria o que saber. Mas existe algo em ti que transcende a isso, e é por isso que sabes. É pós isso que ao contemplar o impermanente, te conecta com isso. Isso em ti, que é a consciência, a presença eterna, a luz da consciência, não é afetada pela impermanência.
E o que a mente diz sobre isso? Sim, mas o que acontece quando eu morrer? Perderei a consciência? Ou se cair uma pedra na minha cabela, perco a consciência? Como é isso?
Só significa que a consciência não pode seguir fluindo através do seu cérebro, neste mundo, então, deves se retirar e buscar outro canal.

Não podes perder a consciência. Isso não é surpreendente? Por que não?
Porque você é Consciência. É a sua essência. Não se pode perder a si mesmo. Em lugar de Consciência podes usar Vida; o Tao é o imanifesto, aquilo que subjaz à essência eterna de toda vida. Você é o que dá a vida a todas as formas, mesmo que durem pouco, você é Isso.

Não se pode conceituar isso. Se pensar nisso, não fará sentido algum. Tens que sentir em si mesmo. Sentir. Não se pode conhecer Isso como se conhece um objeto, só se pode conhecendo como a si mesmo. Porque é o sujeito de todo conhecimento.

"Cada ser retorna à fonte comum, regressa a esta fonte que é serenidade". Uma outra palavras para esta serenidade, pode ser silencio.
Tudo retorna à fonte da qual veio a vida. A vida única é imafestada.
Retornar à fonte é silencio. O bom é que não precisas esperar a morte para retornar à fonte. Ao viver uma vida de plena sabedoria e poder, podemos regressar à fonte, antes que o corpo morra. E viver conectados com a fonte da vida.
Por isso diz que: regressar à fonte que é silencio.
Quando encontrar o silencio dentro de ti, regressas à fonte de toda vida.
O que é o silencio? Um momento em que não estás pensando, mas estás consciente, em um espaço interior. Como agora. (...)
Podem sentir que há um espaço em ti, que é apenas consciente? Que não te diga nada, ou não me diga nada... só isso. Voltar à fonte, ao sem forma, ao eterno em ti.

"Se não te dás conta de que existe essa fonte, tropeças em confusão e em dor."
É assim que a maioria das pessoas vivem, infelizmente. Tropeçam, por estarem desconectados da sua essência, sem se dar conta da fonte do seu ser. Imediatamente surge a confusão, confusão mental, a mente cria todo tipo de problemas falsos. Você mesmo se torna um problema para si mesmo, e um problema para os outros, um problema para o planeta, e contribui para aumentar os problemas do mundo; e é a isso que chamam de ser "normal". Se tropeça em confusões, como acabamos de dizer, e a dor é o que provém quando se está desconectado com essa dimensão que há em ti, sofres em sua vida cotidiana.

É isso que disse Buda: "A vida é sofrimento". A menos que vá além deste sofrimento, e é isso que te mostra o ensinamento, o caminho.. é isso que nos mostra o Tao Te Ching. [ continua...]
Eckhart Tolle em Satsang

8 de agosto de 2014

Sobre a "hipnose" da televisão - Eckhart Tolle


"Para um número significativo de pessoas, ver televisão é algo “relaxante”. Observe a si mesmo e verá que, quanto mais tempo sua atenção permanece tomada pela tela, mais sua atividade intelectual se mantém suspensa.

Assim, por longos períodos você estará assistindo a atrações como programas de entrevistas, jogos, shows de variedades, quadros de humor e até mesmo a anúncios sem que quase nenhum pensamento seja gerado pela sua mente.

Você não apenas deixa de se lembrar dos seus problemas como se torna livre de si mesmo por um tempo – e o que poderia ser mais relaxante do que isso?
Então ver televisão cria o espaço interior?

Será que isso nos faz entrar no estado de presença?

Infelizmente, não é o que acontece.Embora a mente possa ficar sem produzir
nenhum pensamento por um bom tempo, ela permanece ligada à atividade do pensamento do programa que está sendo exibido.
Mantém-se associada à versão televisiva da mente coletiva e segue absorvendo seus pensamentos.

Sua inatividade é apenas no sentido de que ela não está gerando pensamentos. No entanto, continua assimilando os pensamentos e as imagens que chegam à tela. Isso induz um estado passivo semelhante ao transe, que aumenta a suscetibilidade, e não é diferente da hipnose.

É por isso que a televisão se presta à manipulação da “opinião pública”, como é do conhecimento de políticos, de grupos que defendem interesses específicos e de anunciantes – eles gastam fortunas para nos prender no estado de inconsciência receptiva. Querem que seus pensamentos se tornem nossos pensamentos e, em geral, conseguem.

Portanto, quando estamos vendo televisão, nossa tendência é cair abaixo do nível do pensamento, e não nos posicionarmos acima dele. A TV tem isso em comum com o álcool e com determinadas drogas. Embora ela nos proporcione um pouco de alívio em relação à mente, mais uma vez pagamos um preço
alto: a perda da consciência.
Assim como as drogas, essa distração tem uma grande capacidade de viciar.

Procuramos o controle remoto para mudar de canal e, em vez disso, nos vemos percorrendo todas as emissoras.
Meia hora ou uma hora mais tarde, ainda estamos ali, passeando pelos canais. O botão de desligar é o único que nosso dedo parece incapaz de apertar. Continuamos olhando para a tela. Porém, normalmente não porque algo significativo tenha chamado nossa atenção, e sim porque não há nada interessante sendo transmitido.
Depois que somos fisgados, quanto mais trivial e mais sem sentido é a atração, mais intenso se torna nosso vício.
Se isso fosse estimulante para o pensamento, motivaria nossa mente a pensar por si mesma de novo, o que é algo mais consciente e, portanto, preferível a um transe induzido pela televisão. Dessa forma, nossa atenção deixaria de ser prisioneira das imagens da tela.

O conteúdo da programação, caso apresente alguma qualidade, pode até certo ponto neutralizar, e algumas vezes até mesmo desfazer, o efeito hipnótico e
entorpecedor da TV. Existem determinados programas que são de uma utilidade extrema para muitas pessoas – mudam sua vida para melhor, abrem seu coração, fazem com que se tornem mais conscientes.

Há também algumas atrações humorísticas que acabam sendo espirituais, mesmo que não tenham essa intenção, por mostrarem uma versão caricata da insensatez humana e do ego.

Elas nos ensinam a não levar nada muito a sério, a permitir um pouco mais de
descontração e leveza na nossa vida. E, acima de tudo, nos ensinam isso enquanto nos fazem rir. O riso tem uma extraordinária capacidade de liberar e
curar.
Contudo, a maior parte do que é exibido na televisão ainda está nas mãos de pessoas que são totalmente dominadas pelo ego.

Assim, a intenção oculta da TV é nos controlar nos colocando para dormir, isto é, deixando-nos inconscientes.
Evite assistir a programas e anúncios que o agridam com uma rápida sucessão de imagens que mudam a cada dois ou três segundos ou menos. O hábito de assistir à televisão em excesso e essas atrações em particular são duas causas importantes do transtorno de déficit de atenção, um distúrbio mental que vem afetando milhões de crianças em todo o mundo.

A atenção deficiente, de curta duração, torna todos os nossos relacionamentos e percepções superficiais e insatisfatórios.
Qualquer coisa que façamos nesse estado, qualquer ação que executemos, carece de qualidade, pois a qualidade requer atenção.

O hábito de ver televisão com freqüência e por longos períodos não só nos deixa inconscientes como induz a passividade e drena toda a nossa energia.
Portanto, em vez de assistir à TV ao acaso, escolha os programas que despertam seu interesse.
Enquanto estiver diante dela, procure sentir a vívida atividade dentro do seu corpo – faça isso toda vez que se lembrar.De vez em quando, tome consciência da sua respiração.

Desvie os olhos da tela em intervalos regulares, pois isso evitará que ela se aposse completamente do seu sentido visual.
Não ajuste o volume acima do necessário para que a televisão não o domine no nível auditivo.

Tire o som durante os intervalos.
Procure não dormir logo após desligar o aparelho ou, ainda pior, adormecer com ele ligado."
Eckhart Tolle em O Despertar de Uma Nova Consciência

6 de agosto de 2014

Sobre a Visão e o Insight - Osho



"Osho, o que significa ver?

Um cego olha para o sol. O sol está ali, mas o cego não pode ver porque ele não tem vista. Se ele conseguir a vista ele terá a visão o sol. A vista tem que acontecer dentro e a visão será externa.

Você precisa procurar pelos olhos e se tornar um vidente, você precisa abandonar sua cegueira e todos os tipos de sujeira que estão cobrindo os seus olhos, você precisa ficar aberto; este é o significado de conseguir a vista ou o insight. Insight é muito melhor, insight enfatiza o "interior". A vista acontece dentro - este é o significado de insight. Você abre, ouve, vê e é capaz de receber, e então tudo o que já está presente ali - o som primordial do omkar, a música celestial que o circunda... e você ainda não ouviu pois não tem ouvidos para ouvi-la, não tem  ouvidos tão sensíveis. Você pode ouvir somente barulhos, e não música.

Se você treinar, se apurar os ouvidos, bem lentamente eles se tornarão mais e mais meditativos, silenciosos, receptivos e passivos. Eles chegam ao estado que os Taoístas chamam de wu-wei, não ação - completamente silenciosos, sem agitação própria - pois se você tiver alguma agitação própria você perderá aquilo que está presente. Quando seus olhos estiverem simplesmente vazios, você terá um insight. Olhos repletos de pensamentos, preconceitos, conceitos e crenças não pode ver. Eles vêem aquilo em que crêem e não aquilo que é.(...)

Quando seus olhos estiverem completamente despidos - você não tem qualquer tipo de crença dentro de você, não sabe o que é o quê, simplesmente não sabe mesmo... Você sabe somente uma coisa, que você não sabe, que você é inocente - nesta inocência você tem um insight. E então, tudo o que você vê através deste insight é chamado de visão.

E isso se chama visão para mostrar uma diferença dos sonhos. A visão realmente existe. O sonho também parece presente, mas ele não existe realmente. O sonho é projetado por você e a visão á parte da realidade. No sonho você trabalhou sobre a realidade; na visão a realidade trabalhou sobre você. No sonho você é ativo, está fazendo algo, projetando. Na visão você é um wu-wei, inativo, passivo. Você permite que a realidade trabalhe sobre você.  No sonho você é um grande agente; o sonho é um fazer. Na visão você é um não-agente um objeto receptivo.(...) Você está num tipo de entrega. E quando você está num tipo de entrega a realidade acontece, pois você não a impede. Ela está continuamente tentando acontecer a você mas você insiste em impedi-la.

Deus vem a você em milhões de maneiras, mas você tem uma certa ideia de Deus e Deus não tem a obrigação de preencher suas ideias. Ele vem em suas maneiras próprias e você fica esperando de acordo com a sua crença. Portanto, você perde continuamente.(...)

A visão não é um sonho. A visão é quando todos os sonhos desapareceram e você não tem uma mente sonhadora. Então, o que acontece é uma visão. Mas, para isso, o insight é necessário. Precisa-se aprender a ver, a ser, a ouvir, a tocar, a cheirar, a saborear. E então, a pessoa fica surpresa - Deus vem através de todos os sentidos.

Seja mais sensitivo, menos crenças, menos cabeça e mais sensibilidade. Seja mais sensual, vivo em seus sentidos, e então de repente um dia você verá: não é simplesmente a luz que está vindo a você, é Deus em forma de luz; e não é a árvore que está a sua frente, mas Deus; não é a rocha, mas Deus; não a mulher por quem você se apaixonou, mas Deus; não o homem, mas Deus. Quando o insight se torna claro e desanuviado, repentinamente você começa a perceber que Deus está em todos os lugares, pois tudo é Deus."
Osho em A Sabedoria das Areias 

4 de agosto de 2014

Singularidade e Iluminação - Osho


"Todos são únicos, mas não um Buda, um Cristo, um Krishna, eu. Para ser único, primeiro você precisa ser. Um Buda é alguém que desapareceu, que não é mais; como ele pode ser único? Não há possibilidade.

A iluminação é a mesma, seu sabor é o mesmo; Sempre que ela acontece é a mesma verdade. Ela não tem singularidade em si, não pode ter, não há condições para isso. Doenças podem ser únicas, não a saúde. Saúde é simplesmente saúde. Você pode ter sua própria doença específica, sua própria maneira de ser doente; o outro pode ter outra maneira. Existem milhões de doenças no mundo - pode-se escolher - mas a saúde é simplesmente uma, não existem milhões de saúdes no mundo. No momento em que você começa a abandonar suas doenças, você começa a abandonar também sua singularidade; Uma pessoa realmente saudável não tem singularidade sobre a sua saúde. Como ela pode ter? Ela é saudável.(...)

Buda é um zero, ele não existe. Seu não-existir é o seu estado búdico. Se você compreender isso o paradoxo desaparecerá. O paradoxo surge porque você pensa nos mesmos termos em que pensa sobre si mesmo. Digo repetidamente que você é único. Jamais houve você antes; como você jamais houve uma única pessoa; você é tão doente que pode somente ser único. Jamais haverá novamente uma pessoa como você; a impressão de seu polegar é apenas sua.

Mas não estou dizendo isso sobre um Buda, estou dizendo isso sobre você. Todos os loucos são únicos. Uma vez sãos, a singularidade desaparece. A própria ideia de ser único é parte da insanidade. Trata-se de uma viagem do ego. (...)

Todos, exceto Budas são únicos. Eles não são computados como "todos" pois eles não são mais "todos", eles são tudo. Agora eles são parte da totalidade e não têm essa ideia de separação.

Portanto, na união não pode haver mais singularidade. Ela é muito comum; sempre foi a mesma, sempre será a mesma. Por isso, aqueles que procuram a iluminação não podem fazer viagens do ego. Procurar a iluminação é cometer suicídio no que se refere ao ego. E individualidade, atman, nada mais são do que nomes diferentes para o ego, belos nomes. Ego parece um pouco feio, e quando você o chama de 'eu' ele parece um pouco melhor, quando você o chama de atman, ele se torna muito sagrado, mas ele é o mesmo, a mesma entidade.

A iluminação é o desaparecimento do ego, da individualidade, da separação. Da mesma forma que o Ganges cai no oceano - singularidade ele pode ter? Ele era único, tinha sua própria forma, sua própria cor, sua força; ele era diferente de qualquer outro rio. Mas quando ele cai no oceano, que singularidade ele pode ter agora? Todos os outros rios estão caindo - o Amazonas, o Tâmisa - desaparecendo no oceano e ficando salgados. Assim é a iluminação ... o rio desaparece no oceano. (...)

Essa ideia de singularidade é parte da patologia da mente humana. A iluminação é completamente comum. Esta é a sua extraordinariedade.
Nesta vida tudo é especial, particular, único, exceto a iluminação. Esta é a sua singularidade. (...) Não que você possa comparar dois Budas; a comparação não é possível. Quando o rio entra no oceano, não há possibilidade de qualquer comparação. O rio não existe mais, somente o oceano existe.(...)

Quando você se ilumina, você vem a conhecer a unidade de tudo, mas o seu mecanismo permanece com você. Você não está mais identificado com o mecanismo, com a sua mente, com o seu corpo. Você sabe que você é transcendente, mas o corpo e a mente estão presentes. Você apenas reconhece o fato de que você não é seu corpo-mente, que você é total. Agora, se você deseja expressar esta experiência, terá de usar a mesma mente e o mesmo corpo que estava usando antes da iluminação. Você não tem outro instrumento para usar, daí a singularidade.(...)

Cristo, Buda e Krishna não são únicos em suas experiências, mas o são em suas expressões. A expressão é deste mundo; ela está traduzindo a outra realidade para esta realidade. (...)

Esta é a singularidade; a expressão é única. Se você era um poeta e se torna iluminado é claro que cantará uma canção. Mas se você jamais foi um poeta e você se ilumina então é impossível você cantar uma canção. Se você era pintor, você pode pintar. Os mestres Zen pintam belas coisas, essa é a maneira deles se expressarem. (...) Depende de você. A expressão dependerá de como você era antes da iluminação, pois todo o seu mecanismo estará pronto para expressá-la, este é único mecanismo que se pode ter.

Sou diferente em minha expressão. A maneira que faço é a minha maneira, mas isso não significa que a minha iluminação tenha sido de alguma forma diferente da de Cristo, Krishna, Buda. Ela é a mesma, logo, não há paradoxo."
Osho em A Sabedoria das Areias vol III

2 de agosto de 2014

Amando o mundo! - Osho


"Osho, pode-se amar mais de uma pessoa?

Pode-se amar o mundo, deveria se amar. O amor não deveria ser de maneira alguma possessivo. Ele não deveria ser exclusivo. Somente quando o amor for inclusivo você saberá o que ele é. Quando o amor é exclusivo, exclusivamente para uma pessoa, você o está estreitando tanto que o matará. Você está destruindo sua infinidade, está tentando colocar todo o céu num espaço muito pequeno; e este espaço pequeno não pode contê-lo.

Se deveria estar em amor. O amor não deveria ser apenas um relacionamento, mas um estado se ser. E sempre que você ama um, através deste um você ama o todo. E se o amor realmente aconteceu, você de repente descobrirá que começou a amar as árvores, os pássaros, o céu e as pessoas. Quando você se apaixona por uma mulher, o que acontece exatamente? Quando você se apaixona por todas as mulheres. Essa mulher é apenas uma representante, uma amostra de todas as mulheres que existiram, que existem e que existirão no mundo.(...) Mas a mulher não é apenas uma mulher, ela também é um ser humano. Assim, você se apaixona por todos os seres humanos. E a mulher não é só um ser humano, ela também é um Ser. Assim, você se apaixona por todos os seres. Uma vez apaixonado, você ficará admirado por sua energia de amor ser liberada em direção a todos. Este é o verdadeiro amor.

O amor possessivo não é o verdadeiro amor. Ele é tão minúsculo, ele sufoca a si mesmo e sufoca também o outro. Mas tem sido assim até o momento: o amor nunca foi inclusivo. Foi-lhe ensinado amor exclusivo.(...)

O ser humano tem vivido sob uma economia da escassez: a comida, as casas, as roupas não eram suficientes para todos. Tudo é escasso. Se você ama duas pessoas, naturalmente ambas obterão a metade. Se você ama três - mais divisão. Se você ama milhares, o amor se espalha tão tenuamente que será praticamente como se você não amasse ninguém.

Isso não é verdadeiro em relação ao amor. O amor é inesgotável, não há questão de escassez. E você ficará surpreso pois mesmo pessoas como Sigmund Freud consideram que existe escassez até no amor; Freud é contra amar o seu vizinho ou os estranhos. Ele é bastante contra as palavras de Jesus " Ame o seu próximo". E o seu argumento é econômico - se o amor se espalhar ele se tornará tênue. (...) Freud teve como certa uma economia de escassez na psique; havia apenas um tanto de libido e de amor para circular, e a pessoa deveria ser cuidadosa na hora de investi-lo. Isso é completa tolice, isso está totalmente errado.

Você não tem somente um tanto de libido; você tem libido infinita. E porque essa ideia foi posta em sua cabeça, você sofre. (...)
Deixe o amor fluir; você é um poço de amor. Deixe que as pessoas extraiam de você tanto amor quanto puderem, e águas frescas estarão vindo. Você está unido ao oceano infinito;

Quando as pessoas se tornarem conscientes desse fenômeno, que o amor é inesgotável e que não há escassez, o ciúme desaparecerá. O ciúme é parte da economia da escassez. (...)

Lembre-se disso também: o amor não precisa sempre significar algo sexual, algo sensual. O amor também tem muitas dimensões, é um fenômeno multifacetado. Você pode amar a música, a poesia... (...) O amor torna tudo vivo; tudo o que ele toca ele torna vivo. O desamor torna tudo morto.(...)

Se você vive em desamor você vive em um mundo morto. Se você vive em amor, você vive em um mundo plenamente vivo."
Osho em A Sabedoria das Areias vol III.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...