27 de julho de 2016

É apenas um filme! - Dzongsar K. Rinpoche


"Apenas suponha que nascemos em uma sala de cinema. Nós não sabemos que o que está acontecendo na nossa frente é apenas uma projeção. Nós não sabemos que é apenas um filme, apenas uma película, e que os eventos no filme não são reais – que eles não têm existência verdadeira. Tudo o que vemos nessa tela – amor, ódio, violência, suspense, emoções – são na verdade apenas o efeito da luz projetada através de celuloide. Todavia nunca ninguém nos disse isso, então apenas sentamos e assistimos, fixados no filme. Se alguém tenta atrair nossa atenção, nós dizemos: ‘Cale a boca! ’ Mesmo que nós tenhamos algo importante a fazer, não queremos fazê-lo. Estamos completamente absortos e cegos ao fato de que essa projeção é completamente inútil.

Agora, suponha que há alguém na cadeira próxima a nós que diz: ‘Olha, isso é apenas um filme. Não é real. Isso não está realmente acontecendo. É apenas uma projeção’. Há uma chance de nós entendermos que o que estamos vendo é na verdade um filme, que é irreal e não possui essência.

Isto não significa que automaticamente podemos nos levantar e sair do cinema. Nós não temos que fazer isso. Nós podemos apenas relaxar e simplesmente observar o caso de amor, o suspense ou o que quer que esteja passando. Podemos experimentar a sua intensidade. E se temos uma certa confiança de que é apenas uma projeção, então podemos retroceder, avançar ou jogar o filme novamente, como quisermos. E nós temos a opção de deixar sempre que quisermos, e voltar em outro momento para assistir novamente. Uma vez que estamos certos de que podemos deixar a qualquer momento que quisermos, podemos não sentir compelidos a fazê-lo. Podemos optar por sentar confortavelmente e assistir.

Às vezes, uma sequência do filme pode dominar nossas emoções. Um momento trágico pode acertar o nosso ponto fraco e nós somos levados por isso. Mas agora, algo em nosso coração está nos dizendo que nós sabemos que não é real, que não é um grande problema.

Isto é o que o praticante do dharma precisa entender – que toda o samsara ou nirvana, é tão sem essência ou ilusório como esse filme. Até que nós vejamos isso, vai ser muito difícil para o dharma aprofundar em nossas mentes. Vamos sempre ser levados, seduzidos pela beleza e glória deste mundo, por todo o aparente sucesso e fracasso. No entanto, uma vez que vejamos, mesmo que apenas por um segundo, que estas aparições não são reais, vamos ganhar uma certa confiança. Isso não significa que temos que correr para o Nepal ou Índia e tornar-se um monge ou monja. Nós ainda podemos manter trabalhar, usar terno e gravata e ir com a nossa pasta para o escritório todos os dias. Nós ainda podemos nos apaixonar, oferecer aos nossos entes queridos flores, casar. Mas, em algum lugar dentro de você te diz que tudo isso é vazio de essência.

É muito importante ter essa visão. Se temos um pequeno vislumbre em toda a nossa vida, podemos ser felizes pelo o resto do tempo com apenas a memória desse vislumbre.

Pode acontecer de alguém sussurrar para nós, ‘Ei! É apenas um filme’, e não ouvirmos por estarmos distraídos. Talvez naquele momento, ocorre um grande acidente de carro no filme ou uma música alta, então nós simplesmente não ouvimos a mensagem. Ou então, talvez, nós escutamos a mensagem, mas o nosso ego interpreta erroneamente esta informação. Continuamos confusos e acreditamos que existe algo de verdadeiro e real no filme, afinal. Por que isso acontece? Isso acontece porque não temos mérito. O mérito é extremamente importante. Claro, que a inteligência, ou prajna, é importante. Compaixão ou Karuna, é importante. Mas o mérito é fundamental. Sem mérito, somos como um mendigo ignorante, analfabeto que ganha milhões na loteria, mas não sabe o que fazer com o dinheiro e perde imediatamente.

Mas, suponha que nós temos um pouco de mérito e que a mensagem da pessoa sussurrando chega para nós. Então, como budistas, temos diferentes opções. Do ponto de vista do Budismo Theravada, podemos nos levantar e deixar a sala de cinema, ou fechamos os olhos, para não sermos levados pelo filme. Nós colocamos um fim ao sofrimento dessa forma. No nível Mahayana, nós reduzimos o nosso sofrimento através da compreensão de que o filme não é real, que tudo é uma projeção e vazio. Nós não paramos de assistir o filme, mas vemos que não tem existência inerente. Além disso, estamos preocupados com os outros no cinema. Finalmente, no Vajrayana, sabemos que ele é apenas um filme, não estamos enganados, e apenas apreciamos o show. Quanto mais emoção o filme evoca em nós, mais nós apreciamos o brilho da produção. Nós compartilhamos os nossos conhecimentos com os nossos companheiros de espetáculo, que, nós confiamos, e que também são capazes de apreciar o que nós vemos.

Por outro lado, esta transformação – de sermos pegos pelo filme, perceber o vazio dos eventos, cuidar exclusivamente do bem-estar dos outros – pode levar muito, muito tempo. É por isso que no Vajrayana nos movemos pela a via rápida e acumulamos méritos através da devoção. Nós confiamos na pessoa que está sussurrando para nós e possui um entendimento que o libertou. Não só assimilamos a informação que ele está nos dando, mas também apreciamos a sua liberdade de espírito e a profundidade do seu ser. Sabemos que temos o potencial para a libertação também, e isso nos faz apreciá-lo ainda mais. Um único momento de devoção, apenas uma fração de segundo, apenas um pouco de devoção, traz imenso mérito. Se estamos em sintonia com a pessoa que sussurrou para nós, ele pode nos ajudar a descobrir o verdadeiro interior do amante do filme. Ele pode fazer-nos ver como o resto do público é pego, e como é desnecessário tudo isso.

Sem que tenhamos que confiar em nossa própria luta confusa para entender o caminho, essa pessoa nos leva a uma compreensão do que é que estamos vendo. Nós, então, nos tornamos alguém que pode se sentar e apreciar o show. E talvez nós possamos sussurrar para outros também."

Por Dzongsar Khyentse Rinpoche

23 de julho de 2016

Buda enfatiza VOCÊ - Osho


Buda simplesmente corta todas as suas esperanças e todos os seus desejos. Ele não diz que existe Deus e não diz que não existe. Ele simplesmente diz que isso é irrelevante. Não importa se ele existe ou não: isso é absolutamente além do ponto. O que importa é a sua transformação interior, e a transformação interior não pode ser adiada para amanhã: ela pode acontecer exatamente agora.

Eis o problema com Buda: se você for com ele, tem de abandonar suas esperanças, tem de abandonar seus desejos. Você tem de estar no presente, completamente silencioso. E então a vida tem uma nova cor, uma nova alegria, uma nova música. Então, a vida tem uma nova beleza.

Exatamente agora, em primeiro lugar, você não pode encontrar Deus, porque você não tem olhos de vê-lo e não tem ouvidos de ouvi-lo e não tem o correto coração de senti-lo. Você não é amoroso o bastante.

Seus olhos não têm clareza: estão cheios de poeira – poeira de conhecimento, de memórias, de experiências. Seus ouvidos somente parecem ouvir, mas eles não ouvem.
Mas se por acaso você o encontrar, o que você irá pedir? Uma nova esposa, um novo marido, outro lugar pra viver, uma vida mais longa, juventude...? O que você vai pedir? – dinheiro, poder, prestígio? Qualquer coisa que peça será estúpida.

Um africano viveu reverenciando Deus, orando durante seis anos. Estava sempre pedindo pra que este ou aquele problema fosse resolvido.
Deus ficou de saco-cheio com ele e decidiu retribuir-lhe a visita. Então, um dia, enquanto o homem rezava, Deus chegou a seu lado ao vivo e disse: “Oi, cara, estou aqui! O que você quer saber? Pergunte!”. 
O homem não acreditava nos próprios olhos, mas finalmente perguntou: “Ah, meu Deus, por que minha pele é tão preta?”.
Deus respondeu: “Por que o sol no seu país é muito quente e você precisa sobreviver.”.
“E por que meu cabelo é tão curto e enroscado?”.
“Por que na selva há muitas árvores e seu cabelo poderia ser aprisionado.”
“E por que eu sou tão magro e ligeiro?”
“Para que você possa lutar com os leões e outros animais na selva.”
“Então, Deus, que diabos estou fazendo em Nova Iorque?”


Vai ser exatamente assim com você. O que você vai perguntar a Deus? Todas as suas perguntas virão do seu inconsciente. Na verdade, todas as perguntas serão absurdas.

Esse não é o modo de se encarar a realidade. 

A pessoa tem de estar silenciosa, completamente silenciosa. Por isso Buda diz para não se incomodar com Deus. Interesse-se pela sua preparação, esteja preparado. 

A ênfase é totalmente diferente. 
Todas as religiões enfatizam Deus, o objeto da busca; 
Buda enfatiza VOCÊ, o sujeito. 

Todas as outras religiões enfatizam o buscado; 

Buda enfatiza o buscador. E é certamente mais significativo se transformar e se preparar para o supremo encontro com a realidade – chame-a de Deus, de existência, de verdade, de libertação, ou do que quer que prefira chamá-lo. 

O real, o essencial, é estar preparado para esse encontro.

E se você estiver preparado, se seu coração estiver fluindo com amor e sua cabeça não mais estiver louca, não mais cheia de entulho, e seus olhos tiverem claridade e seus ouvidos estiverem prontos para ouvir, então, toda a realidade transforma-se em Deus; então, tudo é divino.

Osho em The Dhammapada: O Caminho do Buddha

16 de julho de 2016

Nada separado - Rupert Spira


"Estou certo de que, se a humanidade ainda estiver aqui dentro de quinhentos anos, olharão para trás, para a compreensão da psicologia atual e estes anos serão considerados como uma época obscura. 

Dirão: "Caramba! No Século XX E no século XXI, se pensava que havia um eu separado enquanto entidade separada?! Dá para acreditar?". 

É como quando se pensava que a terra era plana, parece tão verdadeiramente óbvio, simplesmente caminhe e tudo é plano; tudo parece manter a crença de que a terra é plana. 

Mas então, quando se descobriu que a terra não era plana, a mesma evidência que mantinha essa crença anterior fazia parte da nova compreensão. 

É o mesmo nesse caso - a humanidade olhará para trás no período em que pensávamos que éramos entidades separadas, sem acreditar. 

E quando contemplarmos a nossa história, as pessoas se matando com bombas, brigando e gritando uns com os outros, dirão: "como é que não puderam ver a causa disso? Era tão óbvio, a razão desse conflito; seja bem a nível de indivíduos ou a uma escala maior, a nível de nações, era simplesmente o 'eu' acreditando ser separado do outro, era essa a visão distorcida".

13 de julho de 2016

Confiança - Osho


"Se o Zen é o caminho da entrega, por que o ensinamento básico do Budismo é "seja uma luz para si mesmo"?

A entrega essencial acontece dentro de você, nada tem a ver com alguém de fora. A entrega essencial é um relaxamento, uma confiança - não se deixe enganar pela palavra. Em termos linguísticos, entregar-se significa render-se a alguém, mas em termos religiosos, significa simplesmente confiar, relaxar. É mais uma atitude que um ato - você vive por meio da confiança.

Deixe-me explicar. Você nada na água - vai até o rio e nada. O que acontece? Você confia na água. Um bom nadador confia tanto que quase se une à água. Não luta contra ela, não a agarra, não fica duro, tenso. Se ficar tenso, você se afogará; se ficar relaxado, o rio cuidará de tudo. É por isso que, quando alguém morre, o corpo flutua na água. Isso é um milagre.

Incrível! A pessoa viva se afogou e morreu no rio, e a pessoa morta simplesmente flutua na superfície. O que acontece? O morto sabe segredos sobre o rio que o vivo não sabia. A pessoa viva estava lutando. O rio era o inimigo. Ela tinha medo, não conseguia confiar. Mas, sem estar lá, como a pessoa morta poderia lutar? Ela está totalmente relaxada, livre de tensões, e de repente o corpo vem à tona. O rio cuida agora. Nenhum rio pode afogar uma pessoa morta.

Confiar significa não lutar; entregar-se significa não pensar na vida como o inimigo, mas como o amigo. Quando você confia no rio, de repente começa a se divertir. Surge um imenso prazer - você nada, apenas bóia ou mergulha fundo . Mas não está separado do rio - vocês se fundem, tornam-se um.

Entregar-se significa viver da mesma maneira que um bom nadador nada no rio. A vida é um rio. Você pode lutar ou flutuar; pode resistir ao rio e tentar nadar contra a correnteza ou flutuar com ele e ir aonde ele o levar.

Não se trata de entregar-se a uma pessoa; é simplesmente um modo de vida. Não é preciso um Deus a quem entregar. (...) Relaxe, entregue, não lute, aceite.

Se você sabe, não é uma questão de acreditar. Você acredita nas árvores? Acredita no sol que nasce todas as manhãs? Acredita nas estrelas? Não é uma questão de crença. Você sabe que o sol está lá, que as árvores estão lá. Ninguém acredita no sol - se acreditassem, você diria que é louco. Se alguém lhe dissesse: " Acredito no sol" e tentasse convertê-lo a acreditar, você diria: "Você está louco!".

A palavra budista "nirvava" significa simplesmente exalar, expirar - confiar. A confiança é um fenômeno muito, muito inocente. A crença é da cabeça, a confiança é do coração. Você simplesmente confia na vida, pois você é da vida, vive na vida e voltará à fonte. Não há medo. Você nasce, vive e morre - não há medo. Nascerá de novo, viverá de novo e morrerá. A mesma vida que lhe deu vida, pode sempre lhe dar ainda mais, então, por que ter medo? Por que se apegar a crenças? As crenças são criadas pelos homens, a confiança é criada por Deus. As crenças são filosóficas; a confiança nada tem a ver com filosofia. A confiança simplesmente mostra que você sabe que é amor. Não é um conceito de Deus, sentado em algum lugar no céu, manipulando e gerenciando. A confiança na vida infinita, em sua totalidade é mais que suficiente. Quando confia, você relaxa. Esse relaxamento é a entrega.

Agora, o zen é o caminho da entrega? Sim, religião em si é entrega relaxamento. Não se apegue a coisa alguma. O apego mostra que você não confia na vida."
Osho em A música mais antiga do Universo

9 de julho de 2016

Onde está o Ego? - Osho


"Tente entender isso. E comece a procurar o ego - não nos outros, isso não é da sua conta, mas em você. Toda vez que se sentir infeliz, imediatamente feche os olhos e tente descobrir de onde a infelicidade está vindo, e você sempre descobrirá que o falso centro entrou em choque com alguém.

Você esperava algo e isso não aconteceu. Você espera algo e justamente o contrário aconteceu - seu ego fica estremecido, você fica infeliz. Simplesmente olhe, sempre que estiver infeliz, tente descobrir a razão.

As causas não estão fora de você.

A causa básica está dentro de você - mas você sempre olha para fora, você sempre pergunta: 'Quem está me tornando infeliz?' 'Quem está causando a minha raiva?' 'Quem está causando a minha angústia?'

Se você olhar para fora, você não perceberá. Simplesmente feche os olhos e sempre olhe para dentro. A origem de toda a infelicidade, da raiva e da angústia, está oculta dentro de você, é o seu ego.

E se você encontrar a origem, será fácil ir além dela. Se você puder ver que é o seu próprio ego que lhe causa problemas, você vai preferir abandoná-lo - porque ninguém é capaz de carregar a origem da infelicidade, uma vez que a tenha entendido.

Mas lembre-se, não há necessidade de abandonar o ego. Você não o pode abandonar. E se você tentar abandoná-lo, simplesmente estará conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: 'tornei-me humilde'...

Todo o caminho em direção ao divino, ao supremo, tem que passar através desse território do ego. O falso tem que ser entendido como falso. A origem da miséria tem que ser entendida como a origem da miséria - então ela simplesmente desaparece. Quando você sabe que ele é o veneno, ele desaparece. Quando você sabe que ele é o fogo, ele desaparece. Quando você sabe que esse é o inferno, ele desaparece.

E então você nunca diz: 'eu abandonei o ego'. Você simplesmente irá rir de toda essa história, dessa piada, pois você era o criador de toda essa infelicidade...

É difícil ver o próprio ego. É muito fácil ver o ego nos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar.

Tente ver o seu próprio ego. Simplesmente o observe."

Osho em Além das Fronteiras da Mente.

1 de julho de 2016

Ser espontâneo é ser divino - Osho



"A porta para o divino é a espontaneidade. Ser espontâneo é ser divino.

A mente nunca é espontânea, ela está sempre no passado ou no futuro, está naquilo que já foi ou naquilo que ainda não aconteceu. Entre um e outro, ela perde aquilo que é – ou seja, a porta presente.
O momento presente não é parte do tempo, porisso a mente não pode acessá-lo. Mente e tempo são sinônimos. Você pode dizer que a mente é o tempo dentro de seu ser, e o tempo é a mente fora de você, mas eles são um único fenômeno.

O momento presente não é parte do tempo nem da mente. Quando você está no momento presente, está em um estado divino. Esse é o verdadeiro significado da meditação, o verdadeiro significado da oração, o verdadeiro significado do amor. E, quando você age no momento presente, essa ação nunca é escravizadora, porque não é sua: é o divino agindo através de você, é o divino fluindo através de você….

Antes de a morte chegar, o verdadeiro lar tem de ser encontrado. E ele pode ser encontrado, porque não está longe. Pode ser encontrado porque está exatamente dentro do seu ser. Você não precisa viajar nem um pouco; ao contrário, você tem de se sentar quieto e abandonar todos os tipos de viagens mentais.

Quando a mente não se move para o passado nem para o futuro, ficando no agora, essas viagens acabam. E, nesse exato momento, a semente começa a se desenvolver numa planta. As possibilidades, então, são infinitas – as frutas, as flores, o sol, os ventos, a chuva… E você aproveita tudo.

Você pode dançar com o vento, pode partilhar alegria com as nuvens, pode sussurrar com as estrelas…

Fique cada vez mais em silêncio. Sempre que tiver oportunidade, sente-se em silêncio, sem fazer coisa alguma, nem sequer meditação. Apenas se sente em silêncio, sem propósito algum. Lentamente, lentamente, o silêncio cresce, torna-se uma experiência dominadora. E, quando o silêncio o permear, você saberá quem você é e saberá o que essa vida é. Sabendo disso, você conhecerá Deus….

Seja o mais silencioso possível. Sente-se cada vez mais em silêncio – e não só em silêncio físico. Este também é útil e cria uma situação, mas ele não é o fim, é apenas o começo. É mais importante que a mente fique em silêncio, que a mente pare de tagarelar. E ela pára – o problema é que nunca tentamos.

Tudo o que é preciso é um processo muito simples: sente-se dentro de si e observe. Deixe a mente fazer todo tipo de truque e apenas observe, sem julgar nem dizer se é bom ou mau, sem escolher nem rejeitar – fique totalmente indiferente, sereno, apenas como um observador. Lentamente, lentamente, se você ficar sereno e indiferente, você pega o jeito.

Primeiro a mente tenta todo tipo de truque conhecido e depois, aos poucos, ela começa a se sentir embaraçada, porque você não se deixa afetar de maneira alguma, nem de um jeito nem de outro. Se você se deixar afetar e ficar contra ela, ela se sentirá perfeitamente à vontade e o perturbará. Por isso, não se coloque contra ela, não lute contra ela, não se torne vítima dos truques dela. Apenas permaneça indiferente.

Muitas vezes você se deixará envolver. Quando perceber isso, solte-se, recomponha-se, comece a observar de novo. Surge um pensamento – observe-o. Ele aparece bem à sua frente – olhe para ele. E ele passa. Observe-o, sem nenhuma idéia sobre ser bom ou ruim, se deveria ou não estar lá, sem nenhuma atitude moral – apenas uma observação serena, científica.

Um dia, de repente, ele não está mais lá, e nesse dia um silêncio tão profundo toma conta de você, como você nunca sentiu antes. E ele nunca mais o abandona, permanece com você, torna-se sua própria alma. É libertador….

Dissolva-se numa energia de amor, torne-se uma energia de amor – não amor por algo específico, mas amor por tudo, e até por nada! Não é preciso um objeto de amor, mas apenas uma energia transbordante de amor.

Se você está sentado em silêncio em seu quarto, deixe que o ambiente se torne cheio de energia de amor, crie uma aura de amor à sua volta. Se você estiver olhando para as árvores, ame as árvores. Se estiver olhando para as estrelas, ame as estrelas. Você é amor, e pronto! Portanto, onde quer que esteja, vá jorrando amor… até sobre as rochas. E, quando você jorra amor sobre as rochas, elas não são mais simplesmente rochas.

O amor é tamanho milagre, tamanha magia, que transforma tudo no objeto amado. Você se torna amor, e a existência se torna a amada, se torna Deus.

As pessoas buscam e procuram Deus sem se tornarem amor. Como podem encontrá-lo? Não possuem o equipamento necessário, nem o contexto e o espaço necessários. Crie amor e esqueça tudo sobre Deus. Um dia, de repente, você o encontrará em todo lugar."
Osho em Meditações para a Noite

24 de junho de 2016

O que são Sannyas? - Osho



"Pergunta- O que são Sannyas?


Osho - Há muito poucas pessoas que amam o silêncio, embora muitas pessoas digam que gostariam de ficar em silêncio Mas no momento em que elas estão em silêncio não ficam felizes. 
Elas começam imediatamente à procura de alguma diversão, distração, alguma ocupação. Elas estão com medo de ser silenciosas e há uma razão pela qual elas estão com medo , pois quanto mais silencioso você se tornar mais você irá desaparecer.

Você é o ruído, porque você é sua mente, você é barulho, pois você é o seu ego. Quando a mente desaparece, a mente e o ego ambos começam evaporar. 

Depois, há silêncio. 

Então você está realmente perto de seu autêntico centro, mas você não tem consciência disso porque que você não sabe para onde está indo. Parece que você está caindo em uma profundidade abisma , um fenômeno sem fundo. 
Apertos de medo e você começa a procurar por algum desvio, alguma ocupação - qualquer coisa para se agarrar.

E estas são as pessoas que anseiam pela imortalidade - e eles não sabem o que fazer em seu dia de folga ! Basta pensa : se eles realmente estão autorizadas a ser imortais, o que elas vão fazer? As pessoas falam sobre coisas bonitas, sem saber o que estão falando .

Mas, se alguém ama o silêncio e então em seguida ama a Deus, ama a existência, então se ama a verdade. 

Então se ama a religião em sua mais pura essência , porque é só através do silêncio que se descobre as escrituras - as escrituras que estão escondidas dentro de você, sermões que estão prontos para explodir dentro de você, a luz que está esperando e esperando por você para voltar para casa , mas se você estiver correndo e tateando no escuro. 

Em todos os lugares as pessoas estão indo para o Everest, à Lua, à Marte , ninguém parece estar interessado em ir para dentro .

Meditação é a arte de ir para dentro e amar tudo o que é o sannyas. 
Sannyas pode ser definido como um tremendo amor pelo silêncio " .
Osho em Eu sou a porta

18 de junho de 2016

Olá tristeza! - Pedro Kupfer


"Tudo é Ordem.
Basta-nos olhar para qualquer canto do Universo e perceberemos a Ordem. Seja na forma das leis naturais, seja na maneira em que os elementos se combinam entre si formando moléculas que formam células, seja na evolução da vida, seja na percepção dos ciclos do tempo, das estações ou da vitalidade dos seres, vemos somente ordem e harmonia.

Nada existe fora da Ordem. Os humanos somos igualmente manifestações dessas leis naturais, que chamamos Ordem de Īśvara. Īśvara é um termo sânscrito que se usa na tradição do Yoga para apontar para todo o conhecimento que existe, o que inclui tanto a causa instrumental quanto para a causa material da criação.

A Ordem de Īśvara, no ser humano, manifesta-se biológicamente através dos sistemas que sustentam a vida e a atividade. É inegável a sofisticação que o corpo humano possui, com seus trilhões de células altamente especializadas. Esse mesmo grau de sofisticação se estende para as emoções.

Cada emoção possui uma função, tem um valor e uma utilidade que por sua vez são parte da ordem psicológica. Essa ordem psicológica inclui todas as emoções. Até mesmo aquelas com as quais a nossa cultura tem um conflito, como a ira, o medo ou a tristeza.

É proibido ficar triste”.
Porém, no mundo em que vivemos, a tristeza é vista como alto negativo, que precisa ser evitado a qualquer custo. Simplesmente, a sociedade nos nega o direito à tristeza. Inúmeras vezes, desde crianças, ouvimos os demais nos dizer “não chore, já vai passar”, ou nós mesmos já dizemos aos outros coisas como “não foi nada, não precisa chorar” .

Até mesmo quando enfrentamos alguma doença grave, como câncer ou AIDS, com frequência ouvimos coisas como “você não deve ficar triste pois hoje em dia há tratamento para a sua doença”.

É por conta dessa desaprovação social da tristeza que com frequência vemos pessoas que saem desesperadamente de festa logo depois de sofrer uma separação, sem se dar tempo para elaborar ou meditar sobre as razões da ruptura.

Isso não é exatamente preparar o chão para evitar os mesmos erros no futuro, mas é a norma. A crença estabelecida é que não seremos aceitáveis se mostrarmos a nossa tristeza. Porém, essa crença tem um preço muito alto.

O preço da negação.
A negação dessa emoção produz frustração e desorientação pois, por um lado, não conseguimos evitar a tristeza, e por outro lado achamos que é errado sentí-la. Daí deriva um sentimento de culpa que só piora as coisas, pois ainda derruba a nossa autoestima.

Negar ou reprimir a tristeza é como pretender que o espaço desapareça colocando-o dentro de uma garrafa. E aliás, não é um bom negócio: a tristeza mal digerida pode derivar em transtornos psicossomáticos, ansiedade ou depressão. Isso acontece por exemplo quando não conseguimos elaborar sadiamente a dor pela perda de um ente querido.

Assim, a não aceitação da tristeza cria uma série grande e desnecesária de dificuldades para quem reprime essa emoção, que é tão fundamental quanto útil para a nossa saúde e harmonia em todos os níveis. Dizemos fundamental, pois ela faz parte dos seis sentimentos intuitivos, junto à ira, a aversão, o medo, a alegria e a surpresa.

A função das emoções intuitivas.
Todos eles são gerados nas amídalas cerebelosas, dentro do sistema límbico do cérebro, que é responsável tanto pela manifestação dos sentimentos como pela aprendizagem de conteúdos relevantes desde o ponto de vista emocional.

A ira mobiliza a nossa energia e nos motiva para agir perante as injustiças. A aversão gera impulsos de preservação perante situações potencialmente nocivas. O medo serve para a autopreservação, para nos ajudar a reagir rapidamente em casos de perigo.

A alegria é o oposto da tristeza e se descreve como contentamento, júbilo ou vontade de viver. A surpresa pode ser positiva ou negativa, mas é sempre uma reação frente ao inesperado que nos impele as ações. Todas estas emoções básicas provocam por sua vez respostas fisiológicas através das quais agimos e nos relacionamos.

O valor da tristeza.
No caso específico da tristeza, acontece uma tendência à desmotivação e à incapacidade de agir, acompanhadas por um leve aumento das atividades cerebral e cardíaca. Tudo isso obedece a um propósito muito pontual: nos convidar a parar por um momento para refletir perante uma perda importante, ou quando não atingimos nossos objetivos.

A tristeza também serve para nos fazer poupar energia após períodos de intensa atividade ou quando sofremos um grande desgaste. Também é útil para pedir ajuda em situações de fragilidade, ou quando precisamos despertar nos nossos seres queridos uma iniciativa em relação aos cuidados.

Isso é fundamental, pois as emoções possuem igualmente um papel social: perceber e compreender as emoções alheias nos ajuda a antecipar nossas atitudes e reações.

O amigo leitor sabe que, se em meio a uma discusão, alguém fica com os olhos marejados, o outro muito provavelmente irá criar empatia, suavizando suas palavras e atitudes.

Porém, se a tristeza não for externalizada em casos como este, a empatia não terá lugar e as dificuldades irão continuar. Assim, negar a tristeza não apenas deteriora os relacionamentos, mas ainda nos impede de ganhar um abraço carinhoso que nos lembre, em momentos de fragilidade, que não estamos sozinhos neste mundo.

A solução: deixar fluir.
Assim como as águas, estas emoções intuitivas devem ter seu lugar espontaneamente em nossas vidas. Assim como as águas, as emoções precisam fluir para que haja equilíbrio. Nenhuma emoção deveria ficar tempo demais, e nós não deveríamos nos obsessionar com o tema.

Nem dar valor demais às emoções, nem negá-las ou reprimí-las. É preciso compreender que o que somos em termos absolutos transcende em muito a subjetividade das nossas emoções. O segredo é estabelecer uma relação equilibrada com elas reconhecendo que a nossa vida é muito maior que qualquer sentimento.

Havendo saúde e boa disposição, nenhuma emoção irá ficar tempo demais. Elas sempre passam, como as águas de um rio que corre. A aceitação dessa fluidez implica eventualmente, deixar de lado o impulso de tomar alguma medicação para reprimir emoções que desapareceriam se as deixássemos repousar por um tempo adequado.

Resgate emocional.
Por outro lado, permitir que as emoções fluam nos permite repensar nossas atitudes. Se por exemplo, sofremos algum fracasso profissional, podemos ter duas atitudes diferentes:

1) nos deixar dominar pela baixa autoestima que surje quando nos enfrentamos à decepção, pensando em abandonar tudo ou achando que não nascemos para aquilo, ou 2) buscar alternativas e mudanças através de um olhar construtivo, pelo qual possamos ressignificar os fatos e encontrar novas soluções.

Em ambas as situações a tristeza estará presente, porém no segundo a emoção se manifesta de maneira atenuada, fica à nossa volta por menos tempo e não nos impede o livre andar adiante.
Outra maneira de lidar construtivamente com a tristeza é simplesmente reconhecer os fatos, a vida como ela é: nem sempre iremos conquistar o que buscamos e que, além do mais, iremos sofrer perdas.

Caindo na real.
É literalmente impossível realizar todos os nossos sonhos e projetos. Não é possível conjugar o emprego ideal com as férias exóticas, e ainda termos tempo livre para nós mesmos, uma boa poupança, o amor perfeito e a construção da família perfeita, além dos consabidos e procurados ideias da qualidade de vida, a saúde e a sanidade emocional.

Pretender fazer isso é como tentar agasalhar o corpo inteiro com um cobertor de avião: quando percebemos que estamos com as costas e as pernas protegidas, reparamos que ficaram de fora os ombros, o pescoço e a cabeça. E daí começamos a nos mexer novamente no assento para tentar consertar as coisas e achar a posição ideal.

Resolver um tema implica abrir mão de outro. Não podemos ter tudo. A vida é assim de simples. Portanto, não precisamos nos entristecer pelo que deixamos para trás nas nossas escolhas passadas, nem nos lamuriar pelo que não temos.

O paradoxo da “vida perfeita”.
O paradoxo da “vida perfeita” é que ela só gera frustração e tristeza. Assim, o antídoto contra ela, se existe um, é reconhecer que inevitavelmente teremos momentos em que a tristeza será nossa companheira de viagem.

O grande problema é confundir essa “vida perfeita” em termos de desejos, sentimentos, ações e resultados, com felicidade. São coisas totalmente diferentes. Compreender e aceitar que os desejos são naturais e fazem parte da ordem psicológica é o primeiro passo para se libertar da frustração que possa derivar deles.

O erro fundamental, neste ponto, é achar que é satisfazendo desejos que nos tornaremos felizes. Para nos sentir felizes, o que acontece por momentos sem nenhum plano específico, não precisamos resolver questões práticas.

Às vezes nos percebemos realizados e plenos, apesar de ter que lidar com a mesma quantidade de pressões ou deveres. Talvez essa seja a demonstração de que a felicidade é natural para o ser humano. A felicidade não nos custa.

Felicidade é natural.
Ninguém se cansa de ser feliz. A tradição do Yoga ensina que felicidade é a natureza humana. As limitações do corpomente são restritas ao corpomente e pertencem unicamente a ele. Não são nossas, no sentido de que o Ser não tem posses de nenhum tipo. O Ser apenas é.

Fisicamente, em termos de força, resistência ou longevidade, somos limitados. Intelectualmente, temos igualmente capacidades limitadas, como memória, agilidade ou concentração.

Não obstante, o Ser que somos transcende todas as limitações físicas ou intelectuais que possam se erroneamente atribuídas a ele. O fato de não sabermos falar grego ou não compreender os pormenores da relatividade são limitações inerentes ao intelecto, não ao Ser.

Isso não nos torna limitados. O Ser que você é está além dessas limitações. Quem é este Ser? Aquele que pode ser apreciado, não com os olhos do rosto, não com a mente, mas pelo Si Mesmo.

Você já é o que busca.
A síntese do grande ensinamento do Yoga são as palavras tat tvam’asi: “você é Aquilo”. Esta frase aponta para o fato de que o indivíduo é idêntico ao Ser ilimitado. Ela deve ser perfeitamente compreendida se quisermos uma vida tranquila e plena, apesar dos desafios e das dificuldades inerentes a qualquer existência.

Essa visão nos mostra que o Ser é ilimitado e, portanto, não está restrito às questões do corpomente que listamos acima. Ao mesmo tempo em que é ilimitado, está presente em todas as manifestações da natureza, e consequentemente em todas as emoções e todos os pensamentos.

Nesse sentido, ensina um texto antigo chamado Kaṭha Upaniṣad: “Aqueles que percebem a si próprios, não como corpo ou mente, mas como o Ser ilimitado, o divino princípio da existência, encontram a fonte de toda felicidade e residem nela”.

O Yoga propõe então uma mudança de visão que, esperamos, possa inspirar o amigo leitor a viver uma vida mais plena, feliz e realizada, apesar dos desafios. Boas práticas. Boa vida! Namastê!"

11 de junho de 2016

Bokuju - Conto Zen


"Um monge zen costumava gritar alto todas as manhãs: 

"Bokuju, onde você está?"

(Bokuju era o seu próprio nome.)

E ele mesmo respondia: 

"Estou aqui."

E continuava: 

"Bokuju, lembre-se, um outro dia lhe é dado...
fique consciente, alerta 
e não seja tolo!"

E ele mesmo respondia: 

"Sim, senhor, tentarei dar o melhor de mim."

Porém, não havia mais ninguém ali!

Ele perguntava, ele respondia...

Seus discípulos começaram a pensar que ele tinha enlouquecido, 
mas ele estava somente representando 
um mono-drama.

E essa é a situação interior.

Você é o que fala e o que escuta,
é o que comanda e o comandado."

Osho - Nem água nem Lua

4 de junho de 2016

Nenhum esforço é necessário - Gangaji


"Pergunta: "Gangaji, eu entendo que posso suspender minha conversa exterior, posso fazê-lo agora mesmo, mas como posso parar a conversação interior?"
Gangaji: "Da mesma maneira. É o mesmo, interno e externo...é somente encenação, você pode compreender o que lhe digo, a maneira como fragmentamos nossa vida, e a maior delas é esta de 'exterior e interior'. É uma falsa distinção, pois o que é interno é externo, e o que é externo é interno! Sendo assim, quando uma conversação tem início em sua mente, você já interrompe...e quando a mente disser 'Eu não posso parar..!', veja como se alguém viesse até você, dizendo: 'Precisamos conversar, tem que ser agora!', mas você não quer, e se afasta, dizendo 'Namastê'! Você entende? Com firmeza, certo?"

Pergunta: "Parece funcionar com você, mas comigo!

Gangaji: "Não sou diferente de você nesse sentido. 

A minha mente pode ser exatamente como a dos demais! Jamais sonhei que havia uma possibilidade de 'parar', até que meu Instrutor me assegurou que podia. Costumava pensar que tinha que haver 'algo' que descesse em mim, ou tinha que haver um certo nível de purificação, ou até mesmo um alinhamento planetário de modo especial, ou ainda algo a acontecer em uma existência futura. 
Porém, ele me afirmou: 'Esqueça tudo isso, é parte da conversação (da mente)! 
Apenas 'pare', agora mesmo e fique em silencio...sem qualquer esforço!"

Gangaji em Satsang
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