18 de dezembro de 2014

A arte da plena escuta - J. Krishnamurti


"Alguém está lhe dizendo alguma coisa, você escuta naturalmente atento. 

O próprio ato de ouvir é ação do ato de libertação, é a própria liberdade em ação. 

Quando você vê este fato, a própria percepção desse fato é o estado de liberdade. 

O próprio ouvir, o próprio ver algo como um fato, tem um extraordinário efeito "sem o esforço e a intervenção" do pensamento. 

O pensamento é apenas um ferramenta da mente para ser utilizado quando se faça necessário nas relações, nunca como um instrumental de observação, pesquisa e busca de conhecimentos sobre si mesmo e sua funcionalidade, onde encontra em seus próprio conteúdo ou acervo cultural, elementos de distorção, mistificação e total ilusão.

Agora, retomemos a algo já conversado, digamos, a ambição. Nós já examinamos suficientemente o que ela faz, que efeitos tem, e agora fiquemos atentos para não permitir interferência no que observamos, através do "simples nada avaliar".

Uma mente que é ambiciosa nunca pode conhecer o que é simpatizar, ter piedade, amar. Uma mente ambiciosa é uma mente cruel seja espiritualmente ou exteriormente ou interiormente. Observe bem o que acontece: Você ouviu isto. Você ouve isto; quando ouve isso, você traduz e diz, “Como posso viver neste mundo construído sobre a ambição?”. 

Portanto, você não ouviu! Você respondeu, reagiu a uma informação, a um fato, portanto, não está olhando para o fato. Está apenas traduzindo o fato, avaliando ou dando uma opinião sobre o fato ou respondendo ao fato; portanto, não está olhando para o fato.

Entretanto, como antes dissemos, se a pessoa ouve "sem qualquer avaliação", reação, conclusão, julgamento, etc., certamente então, o "fato em si, cria essa energia que destrói", varre, afasta qualquer ambição que cria conflito, permitindo na mente o silencio da inação do vazio da ausência da ação psicológica, e isso é claridade mental."
J. Krishnamurti em The Book of Life

15 de dezembro de 2014

Limpar sujeira! Sujeira limpa! - Conto Zen


"Um tempo atrás, havia um discípulo do Buda Shakyamuni que atingira a iluminação por meio da limpeza. Seu nome é Cudapanthaka.
Geralmente temos uma imagem que os discípulos de Buda são inteligentes e
espertos, mas ele não foi. Ele era estúpido e ele não pôde memorizar até
mesmo o seu próprio nome, mas finalmente ele se tornou uma grande iluminada figura da história budista.

Em primeiro lugar, Cudapanthaka se tornou um discípulo do Buda sob a orientação do seu irmão, que tinha uma mente muito perspicaz. No entanto, apesar de ele fazer o seu melhor sempre, a disciplina foi tão difícil para ele, que ele não conseguiu memorizar nada. Ele muitas vezes se debatia sobre permanecer como discípulo ou não, mas finalmente um dia decidiu sair.

Quando ele estava saindo, o Buda o chamou e o ordenou como seu discípulo direto. “Cudapanthaka, você vai ficar aqui e virado para o leste, recite repetidamente isto ‘Limpar a sujeira! Sujeira limpa! ’ enquanto limpa as mãos com este pano branco”. No entanto, ele não podia sequer memorizar esta frase. Ele tentou várias maneiras, mas não foi assim tão fácil para ele. Ele continuou a tentar memorizar a frase, enquanto ele limpava suas mãos.

Assim muitos dias se passaram e o seu pano branco, que o Buda tinha dado para ele, se tornou muito sujo por causa da sujeira de suas mãos. Ele então ficou chateado com a sujeira do pano e logo tentou lavar a sujeira muitas vezes, mas não conseguiu torná-lo branco como antes. Depois, ficou triste e preocupado e foi até o Buda pedindo desculpas entre lágrimas. O Buda
disse a Cudapanthaka que estava olhando fixamente no pano. “O seu pano branco se tornou sujo por causa da sujeira de suas mãos, isto aconteceu pela sujeira de sua mente". 

Se isto é assim, como é que vai fazer? “Cudapanthaka respondeu, “Farei o
meu melhor para limpar a minha sujeira e a sujeira de outros.”
Ele começou a limpar tudo, o jardim, salão principal, instalações sanitárias, sapatos, bolsas,
roupas e etc, enquanto ele recitava “Limpar a sujeira! Sujeira limpa!” 

Outros discípulos notaram isso e foram surpreendidos com os diferentes
comportamentos de Cudapanthaka. Mesmo assim trataram-no como um tolo. Um dia, alguns discípulos tentaram testar Cudapanthaka que ultimamente tinha
conquistado boa reputação e lhe pediram para fazer um discurso para muitas
pessoas. No discurso, ele falou sobre si mesmo com honestidade perante o público-alvo. Disse: “Eu sou verdadeiramente uma pessoa tola. Por isso, não tenho quaisquer bons ensinamentos para pregar para vocês, somente aquilo que eu lembro e tenho praticado sob orientação do Buda. 

Gostaria de compartilhar isso, por favor, escutem, por favor. Logo que ele falou isso, recitou lentamente com uma bela voz e suavemente. “Limpar a sujeira! Sujeira limpa! Limpar a sujeira! Sujeira limpa!”

Os discípulos que haviam tentado testá-lo ficaram muito impressionados com a profunda compaixão na sua voz e se desculparam com ele. Seu breve discurso foi concluído com aplausos.

Cudapanthaka realizou o ensino da limpeza através de toda sua vida e ele ensinou para outros as práticas da limpeza física e mental. Ele dedicou a sua vida para limpar sua mente. Embora ele fosse uma pessoa ignorante que não podia sequer memorizar o seu nome, ele finalmente conseguiu o caminho sublime da mente obediente. Ainda hoje depois de 2500 anos, esta verdadeira história incentiva muito.

Limpeza é mera limpeza, mas vai nos trazer muitos ensinamentos. Meu mestre sempre me deu aulas sobre limpeza, “Limpa o Templo que também irá limpar a sua mente. “Quando você limpa a sujeira do chão, você deve pensar que você limpa a sujeira da sua mente.” "A vassoura varre e limpa em qualquer lugar; pavimentos, escadas, o jardim, mas não pode limpar a vassoura em
si. Uma vassoura precisa de outros para limpá-la. Da mesma forma, nós, seres humanos, não podemos limpar a nossa própria mente por nós mesmos. Nós precisamos de companhia para nos ajudar a limpar as nossas mentes assim como para ajudarmos a limpar a mente de outros”.


O pano de chão limpa o chão e pode absorver um derramado sobre o tapete.
Embora o pano seja limpo, gradualmente vai se tornando sujo e velho, mas o pano nunca se queixa. Isso nos mostra o ideal da fé do Sutra de Lótus, embora uma pessoa apoia e ajuda muitas pessoas a serem felizes, ela não se vangloria, não se orgulha, não é arrogante, e não quer nada em troca, apenas sorri sempre . Este é o caminho do Bodhisattva”
.

No que diz respeito à limpeza da mente, Nichiren Shonin disse “A mente é como um espelho embaçado. No entanto, se você o limpa bem, o espelho pode ser uma joia que reflete a verdade. Tenha fé firme e limpe seu espelho de manhã e à noite, sem negligência". 

Como é que você limpa o espelho? Basta recitar ‘Namu Myoho Renge Kyo’.” Recitando Odaimoku você limpa sua mente. Um espelho embaçado pode ser limpo, mas a mente embaçada nós não conseguimos observar por nós mesmos e também não sabemos como limpá-la. Todos os dias, a mente pode ser ferida e confundida facilmente. Devemos, portanto, limpá-la. (...)

Através da limpeza física e mental, você irá perceber um sentimento leve e alegre. Por favor, se dediquem a limpeza física e mental todos os dias."
Nichiren Shu em Sweep Dirt! Clean Grime!

12 de dezembro de 2014

Quietude é alegria - Chuang Tzu


"A não-ação do sábio não é a inação.
Não é estudada. 
Coisa alguma a abala.
O sábio é quieto porque não se altera.
Não porque ele queira ser quieto.
A água parada é como um espelho.
Você pode olhar nele e ver os pelos em seu queixo.
Sua superfície é perfeitamente plana.
Um carpinteiro podia usá-lo.

Se a água é tão clara e sua superfície plana
Quanto mais o espírito do homem?
O coração do sábio está tranqüilo.
É o espelho do céu e da terra.
O espelho de tudo.
É vazio, é quieto, é tranqüilo, é sem sabor.

O silêncio, a não-ação: esta é a medida do céu e da terra.
Este é o perfeito Tao (o sentido da vida).
Os sábios encontram aqui seu lugar de repouso.
Repousando, estão vazios.
Do vazio vem o não-condicionado.
Daí, o condicionado, as coisas individuais.
Assim, do vazio do sábio surge a quietude.
Da quietude, a ação. 
Da ação, a realização.
Da sua quietude vem sua não-ação, que é também ação
E é portanto, sua realização.

Pois a quietude é alegria. 
A alegria é isenta de preocupações,
Fértil por muitos anos.
A alegria faz tudo despreocupadamente: 
Porque o vazio, o quieto, o tranqüilo, o silêncio é a não-ação,
Eis a raiz de todas as coisas".
Chuang Tzu - Wei Wu Wei

11 de dezembro de 2014

Além do bem e do mau - Osho


"Eu lhe dei o nome VeetMano, que significa: ir além do homem bom.
A moralidade está preocupada com as boas e más qualidades. De acordo com a moralidade, uma pessoa é boa se for honesta, verdadeira, autêntica e confiável.

Mas moralidade não é religião.
Mesmo os ateus podem ser uma boa pessoa. Pois todas essas qualidades de uma boa pessoa, não incluem a divindade.
Eu lhe disse, você é um bom homem. Assim, o trabalho não é apenas ser bom, mas transcender a dualidade de ser bom ou mau.

A pessoa religiosa não é somente uma boa pessoa, ela é muito mais que isso.
Para a boa pessoa, a bondade é tudo.
Para a pessoa religiosa,a bondade é apenas um sub-produto.

A pessoa religiosa é aquela que conhece a si mesma; aquela que está consciente do seu próprio ser. E no momento em que você está consciente do seu próprio ser, a bondade lhe segue como uma sombra. Então, não existe nenhuma necessidade de qualquer esforço para ser bom.
A bondade se torna sua própria natureza. Da mesma maneira que as árvores são verdes, a pessoa religiosa é boa.

Mas nem sempre a pessoa boa é religiosa. Sua bondade vem a partir de um grande esforço. Ela está lutando contra as más qualidades...mentira, roubo, insinceridade, desonestidade, violência. Elas todas estão na pessoa boa, só que reprimidas. E elas podem eclodir a qualquer momento.

A pessoa boa, pode transformar-se numa má pessoa muito facilmente, sem nenhum esforço; pois todas estas más qualidades estão presentes. Quando se remove o esforço, elas imediatamente eclodirão em sua vida. E suas boas qualidades são somente cultivadas, não são naturais.

Você tentou arduamente ser honesto, ser sincero, não mentir, mas foi um esforço, foi cansativo.A pessoa boa está sempre séria. Pois tem medo de todas as más qualidades que ela reprimiu. E ela é séria porque no fundo deseja ser reverenciada por sua bondade, ser recompensada.Seu anseio é ser respeitável.(...)

Eu lhe dei o nome: VeetMano, que é transcenda o bom homem; e existe somente uma maneira de transcender o bom homem, que é trazendo mais consciência ao seu ser.

A consciência não é algo a ser cultivado. Ela já está sempre presente, apenas precisa ser desperta. Quando se está totalmente desperto, tudo o que você faz é bom e tudo o que você não faz é mau.

A pessoa boa, precisa fazer imensos esforços para fazer o bom e evitar o mau. O mau, é uma tentaçao constante para ela. É uma escolha a cada momento. A cada momento ela precisa escolher o bom, e não escolher o mau.(...)
Tudo o que reprimimos durante o dia vem à tona à noite, nos sonhos. Isso demonstra que a coisa toda está ali, reprimida, apenas esperando; no momento em que você relaxa, no momento em que você remove o esforço em ser bom, todas aquelas más qualidades que você reprimiu, vêm à tona, e começam a se tornar seus sonhos. Seus sonhos são seus desejos reprimidos.

A boa pessoa, está em constante conflito; sua vida não é de alegria, ela não pode rir de verdade, não pode cantar, não pode dançar; em tudo existe um julgamento contínuo. Sua mente está repleta de condenação e julgamento. E porque ela própria está tentando arduamente ser boa, ela faz o mesmo julgam o os outros pelos mesmos critérios. Ela não pode te aceitar como você é. Ela só pode aceitar você se você preencher todos as suas demandas de ser bom. E por não poder aceitar as pessoas como elas são, essa pessoa condena as outras.(...)
Essas não são as qualidades da pessoa religiosa autêntica. A pessoa religiosa não tem julgamento, não tem condenação. Ela sabe uma coisa: nenhum ato é bom, nenhum ato é mau. A consciência é boa e a inconsciência é má. Você pode até fazer algo que pareça bom para o mundo inteiro em inconsciência, mas para a pessoa religiosa, isso não é bom.

E você pode fazer algo mau e ser condenado por todo o mundo, exceto pela pessoa religiosa; ela não pode condená-lo, pois você está inconsciente; ela precisa de compaixão e não de julgamento ou condenação. Ninguém merece o inferno.

A medida que sua meditação se aprofunda, seu testemunhar se torna grande; Era isso que lhe disse quando se tornou sannyasim há sete anos atrás, sobre o testemunhar o observar. Mas me esqueci de lhe dizer: Não pense que o testemunhar, e o observar nada mais são que boas qualidades.(...) Algo mais está implícito, no transcender a dualidade entre o bom e o mau.

Ao se chegar ao ponto de absoluta consciência, não existe mais a questão de escolha; você simplesmente faz tudo aquilo que é bom, você faz inocentemente, da mesma maneira que a sombra te acompanha, sem nenhum esforço; se você corre, a sombra corre, se você pára a sombra pára. Mas não existe esforço por parte da sombra.

Uma pessoa, consciente, não pode ser considerada sinônimo de boa pessoa. Ela é boa. Mas de uma maneira muito diferente, de um ângulo muito diferente. Ela é boa não porque esteja tentando ser boa; ela é boa porque ela é consciente, e na consciência todas aquelas palavras condenatórias desaparecem como a escuridão desaparece na luz.

As religiões decidiram permanecer como moralidades, são códigos éticos; úteis para a sociedade, é verdade, mas não para o indivíduo; São conveniências criadas pela sociedade. Naturalmente, se todos começassem a roubar, a vida se tornaria impossível. Se todos começassem a mentir, a vida se tornaria impossível. Se todos fossem desonestos, você absolutamente não poderia existir.

Assim, no nível mais baixo, a moralidade é necessária para a sociedade. Ela é uma utilidade social, mas não uma revolução religiosa.

Não fique satisfeito em apenas ser bom. Lembre-se que você precisa chegar a um ponto em que não precisa nem mesmo pensar sobre o que seja bom ou o que seja mau.

Simplesmente sua própria percepção, sua própria consciência, o leva em direção àquilo que é bom. Não há repressão. (...)

Uma pessoa religiosa não está obcecada por nada. Ela não tem obsessão. Ela está apenas relaxada, calma, quieta, silenciosa e serena. A partir do seu silencio, tudo o que floresce é bom, é sempre bom. Ela vive numa consciência sem escolha. (...) Você não será bom, nem mau, você será simplesmente alerta, consciente, perceptivo. E então, tudo o que segue será bom. Em sua total consciência, você se alinha com a qualidade da divindade.

As religiões ensinaram, que você deve ser bom, de tal modo que um dia você possa encontrar Deus. Isso não é possível. Nenhuma pessoa boa, jamais encontrou a divindade. Estou lhe ensinando justamente o contrário: encontre a divindade e o bom virá espontaneamente E quando o bom vem de maneira espontânea, ele tem uma beleza, uma graça, uma simplicidade, uma humildade. E não pede por nenhuma recompensa, nem aqui nem depois. 
Ele é a sua própria recompensa."
Osho em Satsang


Hoje o amado Osho estaria completando mais um aniversário.
Deixo aqui a minha sincera homenagem, em profunda gratidão 
por tanta luz, sabedoria, alegria  e amor
compartilhados com milhões de pessoas
ao longo de sua vida...

Hare Om Osho!
Namastê!

Eternity light of a candle

9 de dezembro de 2014

Felicidade é a sombra da Verdade - Osho


"Existem apenas dois tipos de pessoas: uma que está em busca da felicidade; é o tipo mundano. Pode ir para o mosteiro, mas o tipo não muda; lá, ele também pede pela felicidade, pelo prazer e gratificação. 

Agora, de maneira diferente — através da meditação, da prece, de Deus — está 
tentando ser feliz, cada vez mais feliz. 


Há, depois, o outro tipo de pessoa — e só existem dois tipos — a que está em busca da verdade. E isso é um paradoxo: aquele que busca a felicidade, nunca a encontra, pois ela não é possível a menos que você encontre a verdade. A felicidade é apenas uma sombra da verdade; em si mesma não é nada — é apenas uma harmonia.

Quando você se sente uno com a verdade, tudo se agrega, tudo se harmoniza. Você sente um ritmo — e esse ritmo é felicidade. Não se pode buscá-la diretamente.

A verdade tem de ser procurada. A felicidade é encontrada quando se encontra a verdade, mas a felicidade não é o objetivo. E se você buscar a felicidade
diretamente, será cada vez mais infeliz. E sua felicidade será, no máximo, apenas um intoxicante para que você esqueça a infelicidade; é só o que vai acontecer. A felicidade é como uma droga — LSD, maconha, mescalina.
Por que o Ocidente chegou às drogas? É um processo muito racional. Teve de chegar a elas porque, na sua busca de felicidade, mais cedo ou mais tarde chega-se ao LSD. O mesmo aconteceu antes na Índia. Nos Vedas, eles chegaram ao soma, ao LSD, porque estavam buscando a felicidade; não eram realmente buscadores da verdade. Buscavam a mais e mais gratificação — chegaram ao soma. Soma é a suprema droga. E Aldous Huxley, falando sobre a suprema droga, a ser encontrada em algum lugar no século vinte, chamou-a outra vez de 'soma'.

Sempre que uma sociedade, um homem, uma civilização, buscam a felicidade, têm de chegar de alguma forma às drogas — porque a felicidade é a busca pelas drogas. A busca da felicidade é uma busca do auto-esquecimento; é isso o que a droga ajuda a fazer. Você esquece de si e assim não há mais miséria. Como pode haver miséria se você não está? Você está dormindo profundamente.

A busca da verdade está exatamente na dimensão oposta: não é gratificação, não é prazer, não é felicidade, mas — Qual é a natureza da existência? O que é a verdade?
Um homem que busca a felicidade nunca a encontrará — encontrará, no máximo, o esquecimento. Um homem que busca a verdade a encontrará, porque para buscá-la ele próprio terá de se tornar verdadeiro. Para buscar a verdade na existência, primeiro terá de buscar a verdade em seu próprio
ser. Terá de se tornar cada vez mais atento em relação a si mesmo.
Estes são os dois caminhos: o auto-esquecimento — o caminho do mundo; e a lembrança de si mesmo — o caminho de Deus.

E o paradoxo é que aquele que busca a felicidade nunca a encontra; e aquele que busca a verdade e não se importa com a felicidade, encontra-a sempre. (...) O autoconhecimento tem que ser a única busca, tem que ser o único objetivo; porque se você conhecer todo o resto sem conhecer a si mesmo, isto não significará nada. Você pode chegar a conhecer tudo, exceto você mesmo, mas o que isso significa? Não pode ter nenhum significado — porque se o próprio conhecedor é ignorante, o que pode significar esse conhecimento, o que seu conhecimento pode lhe dar? Quando você mesmo permanece na escuridão, pode reunir milhões de luzes à sua volta mas elas não o preencherão de luz. 

Apesar delas você continuará na escuridão. Viverá e se moverá na escuridão. A ciência é esse tipo de conhecimento. Você conhece um milhão de coisas mas não conhece a si mesmo.
Ciência é conhecimento de tudo menos de si mesmo, exceto do autoconhecimento; o próprio buscador permanece no escuro. Isso não adianta muito. 
A religião é basicamente auto-conhecimento. Você tem de estar iluminado por dentro, a escuridão deve desaparecer do seu interior, e então por onde quer que você ande, a sua luz interior incindirá sobre o caminho. Onde quer que você vá, faça o que fizer, tudo será iluminado pela sua luz interior. E esse movimento com luz lhe dá um ritmo, uma harmonia, que é a felicidade. Então você não tropeça, não esbarra, não tem mais conflitos. Você se move mais facilmente, seus passos são uma dança, e tudo é satisfação. Você não quer mais que alguma coisa extraordinária aconteça. Você é feliz. É simplesmente feliz no seu ser comum.
E a menos que você se sinta feliz sendo comum, jamais será feliz.
Você é feliz apenas por respirar, você é feliz por ser; é feliz apenas por comer, por dormir mais uma noite. Você é feliz.
Agora a felicidade não deriva de nada — ela é você. Um homem que se conhece é feliz, não por qualquer razão, sua felicidade não tem causa. Não é uma coisa
que lhe acontece, é toda sua maneira de ser. É simplesmente feliz. Para onde quer que se mova, leva consigo sua felicidade.
Se você o atira no inferno, ele cria à sua volta um paraíso; com ele, um paraíso penetra no inferno.

Como você é, ignorante de si mesmo, se pudesse ser jogado no paraíso, conseguiria criar um inferno, porque você carrega consigo o seu inferno. Vá onde for, isso não fará muita diferença, você terá à sua volta o seu próprio mundo. Esse mundo está dentro de você, é a sua escuridão.
Essa escuridão interior precisa desaparecer — é isso o que significa autoconhecimento."
Osho em O Livro dos Segredos 

7 de dezembro de 2014

Reflexões sobre a miserabilidade...


Vocês podem nem conhecer esta palavra... mas miserabilidade é mesmo um grande obstáculo à nossa felicidade, por que não dizer, talvez o maior deles...

Ao longo da história da humanidade, ouso afirmar, que desde sempre fomos impelidos a acreditar na nossa miserabilidade; seja ela individual, familiar, coletiva, social, religiosa, cultural, profissional...não importa, a verdade é que a sensação de inadequação, de inferioridade, de fraqueza, de "errado", é constante...desde tempos imemoriais...

Pesquisando um pouco de antropologia, fica claro que o homem pré-histórico sofreu inúmeras ameaças, inúmeros medos e passou milênios sofrendo perseguições e ataques de animais, sofrendo com todas as mudanças da natureza, enfim...fome, frio, calor, sede... medos, medos e mais medos...
Percebemos que somos frágeis, somos pequeninos, somos vulneráveis e que a natureza é poderosa, e que a vida é mesmo tênue, e não temos controle nenhum...

As sociedades por sua vez, foram criadas para que juntos, pudéssemos conseguir uma qualidade de vida melhor, conseguíssemos nos ajudar mutuamente, e assim, nos sentirmos mais fortalecidos e apoiados, uns pelos outros. As sociedades existem para que nos sintamos melhores, mais felizes e protegidos.

Só que as sociedades acabaram por repetir aquele mesmo padrão ameaçador de antes. Mudaram certos conceitos, mudaram as ameaças, mas o medo permanece ali. Ao invés de nos sentirmos mais fortalecidos e apoiados, as sociedades criaram padrões de exclusão, de submissão, de enfraquecimento do individual em detrimento do coletivo, e isso fez com que mais uma vez, nos sentíssemos fragilizados, explorados, sem apoio e... com medo...

Tudo isso criou em nós, um padrão constante de miserabilidade, ou seja, milhares de vidas experimentando este mesmo padrão de inferioridade, de submissão, de exploração, de medo, fez com que nossa mente literalmente "congelasse" neste padrão miserável. Passamos a acreditar tão profundamente que somos miseráveis e sem valor, que isso condiciona toda a nossa vida.. e isso vem acontecendo por gerações e gerações...

Quando paramos e olhamos para este padrão mental com olhos e coração abertos, vemos o quão isso é forte, presente, e que se desdobra em inúmeras nuances e disfarces comportamentais, mas que quando investigamos profundamente, eis que lá está, a miserabilidade novamente... 

Vejam por exemplo, o que dizem os mestres do oriente: 
"Você é o Absoluto. Só há o Absoluto. Não existe nada fora do Absoluto. E você é Isso!" - Nisargadatta Maharaj  

"Tudo o que existe é a Totalidade. Você não é uma gota no oceano, você é o Oceano na gota." - Osho 

Como alguém que ainda esta aprisionado na mente miserável, pode compreender isto? Como uma mente que por eras, foi condicionada numa profunda negatividade, medos, desconfianças consegue se abrir e acolher esta verdade? 

A mente miserável somente vê miserabilidade. 
Ela está condicionada pelo passado, ela somente consegue projetar esta negatividade e menos valia sobre a realidade; é impossível para uma mente miserável sentir mesmo que de longe o perfume dessa beleza radiante que os mestres nos apontam...

E vemos também, a partir dessa miserabilidade congelada, a distorção do complexo de superioridade. Aqueles que foram no sentido oposto do miserável, foram no sentido de se acreditarem superiores, e com isso, poderem ao invés de se sentirem como os oprimidos, serem os opressores...
Mas, se olharmos com cuidado, veremos que se trata de uma reação apenas, nada além disso, pois a miserabilidade continua lá, só que disfarçada de superioridade e poder.

O ego se alimenta do extraordinário. Seja para mais ou menos, o ego vive do extraordinário... e enquanto alimentarmos este pensamentos extremados, exagerados, insensatos e destorcidos, continuaremos sofrendo e fazendo sofrer.

Vivemos em um momento tão belo, tão propício a sairmos desses condicionamentos mentais de uma vez por todas. Hoje temos acesso a tanta luz, tanta sabedoria, tanto conhecimento profundo como jamais aconteceu.

Temos a oportunidade de questionar, de investigar profundamente e claramente, todos os condicionamentos que nos foram impostos por eras e eras, temos a chance de nos abrirmos à tanta sabedoria que antes era restrita a pouquíssimas pessoas. 
Hoje está tudo absolutamente disponível e mais, esta Verdade é viva nos mestres, é viva naqueles que a experimentam, e que finalmente puderam perceber o que é real e o que não é, finalmente puderam separar o joio do trigo, e desfrutar das imensas belezas da vida, de modo simples, amoroso e sem nenhuma pretensão.

A simplicidade é a chave para começarmos a desfrutar dessa beleza. 
Importante nos abrirmos ao simples, ao óbvio, ao que sempre esteve presente aqui e agora. 
A vida que bate no nosso coração, está no ar que respiramos, na luz do sol que aquece nossa pele, a água que mata nossa sede. Caminhamos neste chão e vemos as mesmas estrelas brilhando no céu.
Somos filhos desse Universo, nosso lar é onde nossos pés tocam; Nunca fomos estrangeiros aqui, nada do que acontece acontece para nos destruir, pelo contrário, somos a realidade viva e nisso, tudo se realiza... somos o oceano na gota...


Como é possível alguma miserabilidade quando olhamos o céu a noite, quando vemos o sorriso de uma criança, e quando podemos amar sem medida? 

O amor nos realiza. 
O amor é o sentimento dos Budas, algo que põe por terra todo e qualquer sentimento seja de superioridade ou inferioridade. 

Amar é Ser.
Não Ser mais ou menos que alguém, mas Ser Amor... e acolher...

Quando o Amor está presente compreendemos profunda e definitivamente o quão maravilhosa é a vida e que nada está errado, faltando ou perdido.. ninguém é miserável, ninguém é inferior, ou superior...tudo é a Vida Vivendo, a Existência sendo...o Universo se maravilhando consigo mesmo...tudo pertence e nós somos esta Verdade lúcida, esta Verdade Consciente...

Nenhuma miserabilidade sobrevive quando o Amor consciente está vivo em nossos corações...
Se ainda estivermos presos à insensatez da miserabilidade, compreendamos que o amor ainda não está plenamente vivo em nós. Ainda estamos nos deixando levar pelos antigos e decadentes condicionamentos mentais...

É por isso que faço a cada um de vocês um convite: A partir deste momento desacredite de tudo o que te faz inferior ou superior. Viva a beleza de ser comum, fraterno, companheiro, humano, igual na sua originalidade... aí está a cura de toda e qualquer distorção que a mente teima em trazer...

Amar o presente é ser vivo e acolher, mesmo sem compreender, aquilo que a vida nos trás. Ter consigo a certeza de que a sabedoria divina é absoluta, é plenamente consciente, e plenamente sábia e que o Amor é a sua mais sublime manifestação...

Namastê 
Amidha Prem


5 de dezembro de 2014

Rani e a música - Conto Indiano


"Era meia noite na margem do rio. As estrelas no céu estavam quietas e as que estavam refletidas na água mexiam-se suavemente com as ondas.
Rani acordou repentinamente. Sentia-se inquieta, como uma formiga
quando sente o cheiro do açúcar.

No ar, havia uma música, uma música que penetrava o coração e machucava a alma. Levantou-se e sem que ninguém percebesse, saiu correndo do palácio até o lugar de onde a música vinha, mas o rio cortou seu caminho.
Na margem do rio, olhou ao redor, desesperada e sentindo-se impotente.
Seus olhos avistaram um bote. Perto dele viu seu dono dormindo.

- Quero cruzar o rio, disse, acordando-o bruscamente.
- A essa hora da noite não é conveniente colocar o bote na água, disse o homem.
- Por favor, implorou ela. - Sinto-me atraída, é algo mais forte que eu, pelo lugar de onde vem esta música do outro lado do rio.
- E qual seria a minha recompensa?, perguntou o dono do bote.
- Pegue este colar de pérolas, mas leve-me até o outro lado do rio.
O rosto dele iluminou-se pela cobiça.
- Mas o que eu faria com este colar? Se a minha esposa o usasse os vizinhos teriam muita inveja e a amaldiçoariam ou a acusariam de ladra.
Não, senhora, não o quero.
Rani estava absolutamente desesperada. A melodia parecia aproximar-se, perfurando a sua alma.
- Se me levar até a outra margem, eu lhe darei o meu palácio. Não percamos mais tempo.
- Só uma esquina do palácio acomodaria toda a minha família e, inclusive,
sobraria espaço. Como o manteria?

A música aproximava-se cada vez mais. Ela estava hipnotizada.
Sem sequer pensar em sua posição, jogou-se aos pés do homem e levantou-se abruptamente.
A música divina estava tão perto que quase podia tocá-la.
Estava em êxtase. Sentiu-se como se estivesse flutuando no ar.
Começou a dançar... Esqueceu-se dela mesma... Esqueceu de tudo...E, nesse momento, a melodia que havia encantado a sua alma brotou como néctar de seus lábios.
Ela mesma era a fonte da música.
As notas encantadas que vinham do outro lado do rio eram o eco de si mesma.
Seu rosto se iluminou como a lua e seus olhos irradiavam luz.
"O que importa é o que está dentro de você. Não procure em outro lugar."
Contos da Índia 

4 de dezembro de 2014

Sinta mais, pense menos - Osho


"Quando Jesus traz a boa nova do reino de Deus, ninguém crê nele. Quando Buda fala do infinito vazio interior, ninguém crê nele. Nós não podemos crer! Como podemos crer a menos que venhamos a saber? Pelo menos um vislumbre é necessário.

Nós vivemos num inferno tão terrível que a notícia sobre o reino de Deus parece apenas um sonho, talvez poesia, mas nada mais. A religião não parece mais que literatura de ficção - uma boa ficção, mas nada mais. Tem que ser isso, porque você não sabe onde está, o que está acontecendo ao seu redor. Você é tão insensível, fechado...

Abra as janelas, abra as portas! Saia da prisão, coloque-se sob os céus. Sinta novamente! Pensar não ajuda. Em seu íntimo, você pode continuar pensando sem cessar, mas sem abrir uma única janela. Só o sentimento consegue tirá-lo de si mesmo - mas você fica com medo de sentir e tão à vontade pensando... e com tanto medo de sentir, justamente porque o sentir o tirará de dentro de si mesmo. O sentir o trará de volta ao fluxo da vida. Você estará no rio, movendo-se em direção ao oceano.

Sinta mais, pense menos, e aos poucos você verá que, quanto mais sente, mais relaxado você fica. Quanto mais você sente, mais ciente se torna do segredo da vida - de que não precisa fazer nada a respeito dela, só tem que estar disponível. Apenas disponível, afirmo, e tudo vem até você. Uma vez que a ideia se estabeleça, tudo desaparece.

O amor é o verdadeiro centro de todos os sentimentos; o amor é a alma de todos os sentimentos. Todos os sentimentos dependem do amor; Se você não ama, todos os sentimentos acabam desaparecendo. Se você ama, todos os sentimentos são reanimados. (...)

Alguém pediu a Santo Agostinho: "Diga-me numa frase, numa frase simples, a mensagem total de Cristo, porque eu sou um homem ignorante e não consigo entender as sutilezas da teologia. E não sei muito sobre moralidade; portanto, não me dê doutrinas complexas, para que eu possa entender e seguir."
Dizem que Santo Agostinho fechou os olhos e meditou; em seguida disse: "Então só há uma coisa a fazer - ame, e tudo o mais será consequência."

O amor é  maior moralidade, porque ele eleva a parte de você que é sentimento e rebaixa a parte que é pensamento. Não há nenhum problema com a parte pensamento, mas ela assume a função de mestre, o que é errado. A razão é boa, desde que ajude ao sentimento. O sentimento deveria ser o mestre e a razão, o servo. O sentimento deveria guiar e a razão, apenas administrar. Mas, se a razão se torna o mestre e o sentimento apenas a segue, você morre.... pois como pode permanecer vivo só com a razão? A vida é sentimento. As árvores podem existir sem a razão, mas não sem o sentimento.

Hoje em dia, até os cientistas estão se tornando cada vez mais cientes de que as árvores sentem e sentem tremendamente. Estrelas, rochas, rios, - eles não podem existir sem sentimento. O sentimento é a vida deles. Pássaros, animais, o todo - existem som sentimento. O homem é a exceção. O homem está de cabeça para baixo. A cabeça se tornou a parte proeminente, e ela tem suprimido o sentimento. (...)

É bom sentir; e se o sentimento envolve você, então, nada há de errado em pensar. Se o sentimento vem depois do sentimento - ótimo, ele ajuda. É como um radar. Ele abre caminho para o sentimento agir; Ele protege o sentimento dos perigos. Ele ajuda o sentimento a saber o que vai acontecer em seguida, a planejar um pouco. O pensamento é bom! Mas bom, apenas como servo.

Se você ama, terá uma afinidade profunda com a existência. As árvores falarão com você. Os pássaros começarão a se aproximar de você. Os animais não terão medo de você - não será preciso. O homem cria o medo por causa da cabeça. Com o coração, ele está novamente unido ao universo.

Ouça esta história:

"Era uma vez, um homem que vivia na praia e amava as gaivotas. Todas as manhãs ele descia até o mar para passear com as gaivotas. E mais de centenas de pássaros vinham brincar com ele.
Um dia, seu pai lhe disse: - Eu ouço as gaivotas ao seu redor, passeando com você - traga algumas para brincar comigo.
No dia seguinte, quando foi até o mar, as gaivotas dançavam acima dele ... e não desceram."

As gaivotas não entendem o que você está pensando com a mente, mas entendem as vibrações que você cria à sua volta - e você está continuamente criando vibrações à sua volta. Você é um transmissor contínuo de vibrações; Aconteça o que acontecer em seu coração, é como se alguém jogasse uma pedra num lago; formam-se círculos concêntricos e eles se alastram - chegam até à margem, espalham-se por toda a volta. 

Aquelas gaivotas não sabem exatamente o que o pai pediu ao filho, porque elas não entendem a língua local do homem. Elas não sabem o que de fato aconteceu, mas no fundo sabem que aquele homem não é o mesmo. Foi outra pessoa que chegou, foi um estranho, não o velho amigo. Agora ele veio com uma ideia. A ideia não é conhecida, mas por todo o corpo ele não está mais num estado de entrega. Ele tem alguma ideia para pôr em prática, algum plano, algum desejo; Ele não á o mesmo homem descontraído com quem as gaivotas se sentiam à vontade. 

E esse é o segredo de toda a vida: não só as gaivotas, mas a felicidade, a meditação, o êxtase - tudo isso vem quando você está num estado de total entrega, numa disposição profundamente amistosa, numa atitude amável para com a existência. Quando você está de coração aberto, tudo isso vem. Quando você quer forçá-las e acredita que a felicidade é algo como um direito seu, que ela tem de ser conquistada, de repente, as gaivotas da felicidade não descem mais à praia. Elas dançam acima da sua cabeça, mas não descem para brincar com você, para dançar com você,r para pular e saltitar! Não, elas nunca se tornarão uma unidade com você. Elas não descerão para o seu ser.

Sim, a felicidade é uma gaivota; A meditação também é uma gaivota. O êxtase é uma gaivota. A existência só compreende a entrega. Se você se entrega, alcança. Você alcança tudo o que esta existência puder lhe dar -  e ela pode lhe dar bênçãos infinitas, graça infinitas. Pode lhe dar total saciedade, contentamento. Você pode se tornar um buda.

A existência está disposta a dar, mas você não está disposto a receber, porque está pensando em como agarrá-la. A existência lhe dá como dádivas; você não pode agarrar, não pode conquistar, não pode alcançar. Por favor renda-se. Por favor, entregue-se.

Tudo o que é belo, é como as gaivotas. Lembre-se disto: nada pode ser feito.(...) A vida não tem portas dos fundos. Você não pode roubar a vida. Não pode ser um ladrão. A vida dá, e dá infinitamente, e dá incondicionalmente. Por favor, esteja num estado de entrega. Deixe as gaivotas descerem.(...) Não é preciso esforço. O esforço é a porta dos fundos. É preciso sim, a ausência de esforço;

É preciso ter paciência. É preciso ter poesia.(...)
Deixe a vida acontecer, não tente forçá-la; Através do fazer, só coisas sem valor são alcançadas; através do não fazer, pode-se alcançar tudo o que é belo, tudo o que é sagrado, tudo o que é divino."
Osho, em O homem que amava as gaivotas.

2 de dezembro de 2014

Osho fala sobre o Hassidismo.


"Algumas coisas sobre o hassidismo. A palavra hasid vem de um termo hebraico que significa "piedoso, puro". É derivado do substantivo hased, que significa "graça";

Esta palavra hasid, é muito bonita. Todo o ponto de vista do hasidismo é baseado na graça. Não é você que faz alguma coisa - a vida já está acontecendo; você só fica silencioso, passivo, alerta e receptivo. Deus vem através dessa graça, não através do seu esforço. Portanto, o hassidismo não tem austeridade prescrita para você. O hassidismo acredita na vida, na alegria. É uma das religiões no mundo que afirmam a vida; Não supõe nenhuma renúncia; você não tem que renunciar a nada. Pelo contrário, você tem de celebrar. Dizem que o fundador do hassidismo, Baal-Shem, teria dito: Eu vim para lhes ensinar um novo caminho. Não é um caminho de jejum, nem de penitência, nem de indulgência, mas de alegria em Deus.

O hassidismo ama a vida, tenta experimentar a vida. Essa experiência começa dando equilíbrio à pessoa. E é nesse estado de equilíbrio que algum dia, quando ela estiver realmente equilibrada, não pendendo para este nem para aquele lado, mas estiver exatamente no meio, ela transcende. O meio é além, o meio é a porta a partir da qual se vai além.

Se você realmente quer saber o que é a existência, saiba que ela não é nem vida, nem morte. A vida é um extremo, a morte é outro extremo. A existência está simplesmente no meio, onde nem a morte nem a vida estão, onde simplesmente não se nasce, nem se morre. Naquele momento de equilíbrio, a graça desce.

Eu gostaria que toda as pessoas se tornassem receptoras da graça. Eu gostaria que todas elas aprendessem essa ciência, essa arte do equilíbrio.
A mente escolhe, com muita facilidade o extremo. Há pessoas que são indulgentes demais; são indulgentes no que diz respeito à sensualidade, à comida, à roupas, à casa, a isto e áquilo. Há pessoas que, em sua indulgência, se inclinam demais para a vida, caem, desabam. (...) E existem aquelas que começam a pender para o outro lado, para o outro extremo. Elas renunciam ao mundo, fogem para o Himalaia, fogem da esposa, dos filhos, da casa, do mundo, do mercado e se escondem em mosteiros. Escolheram o outro extremo. 
A indulgência é a vida extrema; a renúncia é a morte extrema.(...)

Toda a abordagem hassídica consiste em não escolher nenhum extremo, mas em permanecer no meio, disponível para ambos, e no entanto, além de ambos, sem se identificar com um nem com outro, sem ficar obcecado nem fixado em um ou em outro - penas permanecendo livre e alegremente desfrutando de ambos. Se a vida vem, desfrute da vida; se a morte vem, desfrute da morte. Se, por sua graça, Deus dá amor, vida - ótimo; se ele manda a morte, deve, deve ser bom - é uma dádiva dele.

Baal-Shem está certo quando diz: Eu vim para lhes ensinar a alegria em Deus.
O hassidismo é uma religião de celebração. É o mais puro desabrochar de toda a cultura judaica. O hassidismo é a fragrância, um dos mais belos fenômenos sobre a terra.

O hassidismo ensina a viver em comunidade. É uma abordagem comunal. Diz que o homem não é uma ilha, o homem não é um ego - não deveria ser um ego, não deveria ser uma ilha. O homem deveria viver uma vida de comunidade.

Viver em uma comunidade é viver em amor; viver em uma comunidade é viver em compromisso, importando-se com os outros.

Há inúmeras religiões que são muito, muito voltadas para si mesmas; elas só pensam no eu, nunca na comunidade. Como eu vou me tornar liberado; como eu vou me tornar livre, como eu devo alcançar moksha - minha liberdade, minha salvação... Mas tudo é procedido por meu/minha, pelo eu. E essas religiões se esforçam par abandonar o ego, mas todo o seu esforço é baseado no ego. O hassidismo diz que se você quiser abandonar o ego, o melhor meio é viver em comunidade, vivem com pessoas, preocupar-se com as pessoas - com a alegria delas, com a tristeza delas, com a felicidade delas, com a vida delas, com a morte delas. Interesse-se pelos outros, envolva-se, e o ego desaparecerá sozinho. E quando o ego não existe, a pessoa está livre. Não existe liberdade para o ego, só existe liberdade do ego.

O hassidismo usa a vida comunitária como um dispositivo. Os hassidianos viviam em comunidades muito pequenas, e eles criaram belas comunidades, sempre celebrando, dançando, desfrutando as pequenas coisas da vida. As pequenas coisas da vida - comer, beber - eles as transformaram em coisas sagradas. Tudo adquire a qualidade de oração. O comum, da vida não é mais comum, é envolvido pela graça divina. (...) 

A vida comum tem que ser consagrada, tem que ser sagrada.(...) Não se trata do que você faz, depende da qualidade que você oferece à oração. Você pode comer, pode fumar, pode beber, pode fazer todas essas pequenas coisas, coisas mundanas, com tamanha gratidão, que elas se tornam orações.
A questão é esta: não depende do que você faz. Você pode tocar os pés de alguém de maneira bem antioracional - aí não faz sentido; mas você pode fumar, e fazer isso de uma maneira oracional, e a sua oração chegará a Deus."
Osho em O homem que amava as gaivotas

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