15 de julho de 2017

Personalidades - Osho


"Sinto que tenho um legado de preguiça e escapismo. Ou não sinto nenhuma energia, ou se sinto, acho difícil relaxar totalmente. Sinto um controle...

Osho - Sinto que isso está em algum lugar e se tornou parte de seu bio-computador. A mente funciona como um computador, e seguimos alimentando suas atitudes. Estas vão se acumulando lá e pouco a pouco se tornam profundamente ..entranhadas.
Personalidades podem ser divididas em duas categorias. 

A primeira, os psicólogos chamam de personalidade T, tóxica, e a outra chamam de personalidade N, nutridora.

Uma personalidade tóxica está sempre olhando as coisas de uma maneira negativa. Toda a visão do mundo da personalidade tóxica é depressiva, triste. A personalidade tóxica se esconde atrás de belos rostos. Um perfeccionista é uma personalidade tóxica. Você não pode apontar algo errado num perfeccionista, porém a idéia toda de ser um perfeccionista é para encontrar erros, enganos, falhas. É um truque. Você não pode encontrar qualquer defeito no homem que procura por perfeição, mas na verdade essa não é sua meta, perfeição é uma estratégia. Ele quer procurar pelas falhas, enganos, erros, qualquer coisa que esteja faltando, e essa é a melhor maneira – manter uma aparência de perfeição para que ele possa comparar com o ideal e condenar sempre.

Essa personalidade tóxica sempre olha naquilo que não é e nunca olha naquilo que é, desse modo o descontentamento se torna natural. Uma personalidade tóxica envenena seu próprio ser; não apenas isso – goteja veneno.

Isso pode ser uma herança. Se você conviveu na sua infância com pessoas que tinham uma atitude negativa para com a vida... Isso pode estar oculto em termos brilhantes, belas linguagens, ideais, paraíso, Deus, religião, a alma; eles podem usar belas palavras, eles estão simplesmente tentando... e eles falam a respeito do outro mundo somente para condenar este mundo. Eles não estão preocupados com o outro mundo. Eles não possuem nenhum interesse em santos, mas somente para provar que os outros são pecadores, eles irão falar a respeito dos santos.

É uma atitude muito mórbida. Eles dirão: Sejam como Jesus – eles não estão de jeito nenhum interessados em Jesus. Se Jesus estivesse lá eles seriam as últimas pessoas a irem ter com ele, porém, só para condenar vocês, essa é a estratégia deles. Vocês não podem se tornar Jesus, assim vocês se tornam vítimas. Eles sempre vos condenam. Eles criam valores, moralidades, atitudes puritanas. Eles são os moralistas, os moralizadores; eles são os grandes envenenadores do mundo.

E eles estão por toda parte. Essas pessoas acabam se tornando professores, educadores, reitores, santos, bispos, papas; eles acabam se tornando essas coisas porque dessa forma eles podem condenar. Eles estão até mesmo prontos para sacrificar tudo se lhes for permitido a alegria de condenar os outros. Eles estão por toda parte, escondidos de muitas maneiras. E eles estarão sempre fazendo coisas para o seu bem, para seu próprio bem, então vocês ficam indefesos contra eles. A herança deles é real, grande. Eles dominaram toda a história.

Essas pessoas imediatamente se tornam dominadores. A própria ideologia deles os ajuda a dominar porque eles podem se tornar condenadores. E eles falam em termos racionais. O racionalismo também é parte da personalidade T. Eles são muito sugestivos... É muito difícil derrotá-los na argumentação. Eles nunca são razoáveis, porém são sempre racionais.

É preciso saber a distinção entre um homem razoável e um homem racional. O razoável nunca é somente racional, porque um homem razoável sabe pela própria experiência que a vida engloba ambos – o racional e o irracional; a vida tem ambos – razão e sentimento, a mente e o coração.

Um homem razoável é razoável. Um homem racional nunca é razoável. Ele força a lógica sobre a vida – e a lógica pode ser perfeita; a vida nunca pode ser. Ele sempre olha para o ideal e ele tenta forçar a vida a seguir o ideal. Ele nunca olha para a vida e para a realidade da vida. Seus ideais são contra a vida.

A segunda personalidade, a personalidade N, a personalidade nutridora, é totalmente diferente. Ele não possui ideais, realmente. Ele apenas olha para a vida e a realidade decide seu ideal. Ele é muito razoável. Nunca é perfeccionista; é total, mas nunca um perfeccionista. E sempre olha para o lado bom das coisas. A personalidade N está sempre esperançosa, radiante, aventureira, confiante, não condenatória. Essas são as pessoas que se tornam poetas, pintores, músicos.

Se uma pessoa tipo N se torna santo, então existe um santo real. Se uma pessoa tipo T se torna santo, então é um falso santo, um pseudo-santo. Se uma pessoa tipo N se torna pai, então há um pai de verdade. Se uma pessoa tipo N se torna mãe, ela é uma mãe real. A pessoa tipo T é um pseudopai e pseudomãe. Serve apenas de truque para explorar a criança, para torturar, dominar, possuir e esmagar a criança, para se sentir poderoso esmagando a criança. O tipo T está na maioria, assim você pode estar certo que você está carregando uma herança como todo mundo. Mas uma vez que você se torna cônscio, não há mais problema. Você pode se mover de T para a N muito facilmente.

Algumas coisas para lembrar. Se você se sentir preguiçoso, não chame isso de preguiça. Escute sua natureza; pode ser que isso seja bom para você. Isso é o que chamo de homem razoável. O que você pode fazer? Se a preguiça chega até você, então isso é o que você tem que fazer. Quem é você para decidir contra isso? E como você pode vencer contra isso? Mesmo na sua luta você estará preguiçoso. Quem irá vencer? Você será sempre derrotado, e assim você se sentirá desnecessariamente miserável.

Seja realista. Escute seu próprio ser. Cada um possui seu próprio jeito. Algumas pessoas são muito ativas, correndo; não há nada errado nisso. Se eles se sentem bem assim, é bom para eles.

E não criem ideais de que vocês têm que fazer isso. Não tenham quaisquer - deveres – os deveres criam uma espécie de neurose. Então a pessoa fica obcecada. O – dever – está sempre lá, de pé e lhe condenando, e você não pode desfrutar de nada. Desfrute! Mate o – dever – completamente e esteja aqui-agora. O que você puder fazer, faça; O que você não puder fazer, aceite. É assim que você é, e você está aqui para ser você mesmo, ninguém mais. Pouco a pouco você verá que o seu T está se transformando em N. Você será nutridor e você desfrutará mais, você amará mais, e você ficará mais meditativo.

De fato, para um preguiçoso se tornar meditativo é mais fácil do que para uma pessoa ativa. Eis porque todo o Oriente se tornou preguiçoso – eles meditaram demais. Meditação é um tipo de passividade. Uma pessoa ativa se sente muito inquieta. Apenas sentar em silêncio é a coisa mais difícil. Não fazer nada é a coisa mais difícil para uma pessoa ativa realizar.

Apenas desfrute e se mova de acordo com o seu ser – nada de deveres, nada de ideais, do contrário eles lhe envenenarão. Olhe para a vida com profunda esperança. Ela é realmente bela. Apenas olhe para ela, e não espere por perfeição. Não pense em termos de desfrutar as coisas somente quando elas forem perfeitas; senão você nunca desfrutará.

Se uma pessoa tipo T encontrar Deus, irá imediatamente descobrir algum defeito nele. Eis porque Deus está escondido – devido às pessoas tipo T. Ele se revela para os tipos N, nunca para os tipos T. Ele se revela apenas para aqueles que podem ser nutridos por ele – não somente isso, mas para aqueles que podem nutri-lo.

Portanto apenas relaxe, desfrute, aceite, e os problemas desaparecerão."

Osho em The Passion For the Impossible

8 de julho de 2017

Rompendo barreiras - Osho


"Hoje tentaremos ir além da mentalidade do rebanho.
Observe o seu espaço mental... Se você não crescer com esse espaço, você permanecerá apenas uma possibilidade de ser humano, mas não um ser humano real.

É a mente que faz de você um ser humano, porém, você não a tem. O que você tem em seu lugar é um mecanismo condicionado. 
Você vive por imitação: dessa forma você não possui uma mente.

Quando você começa a viver por si mesmo, espontaneamente, quando você começa a responder seus problemas da vida por si mesmo, quando se torna responsável, você começa a crescer no espaço mental. Então a sua estrutura corpomente cresce.

Então, torne-se cada vez mais vivo, autêntico, receptivo. Mesmo se houver a possibilidade de se desviar, desvie-se, porque não há outro caminho para crescer se você estiver com tanto medo de cometer erros. Os erros são bons. Enganos precisam ser cometidos. Nunca cometa os mesmos erros novamente, mas nunca tenha medo de cometer erros.
As pessoas que ficam com medo de cometer erros nunca crescem. Elas permanecem sentadas em seus lugares, com medo de se mexerem. Essas pessoas não estão vivas.

A mente cresce quando você enfrenta, quando confronta situações por si mesmo. Não prossiga pedindo conselhos para sempre. Tome as rédeas de sua vida em suas próprias mãos, ou seja, faça você mesmo!

Claro que é mais seguro seguir os outros – é conveniente seguir a sociedade, seguir a rotina, a tradição, a escritura. É muito fácil porque todos estão seguindo-as, você precisa apenas tornar-se uma parte morta do rebanho, você precisa apenas mover-se com a multidão para onde quer que ela esteja indo – não é sua responsabilidade.

Mas seu corpo mental sofrerá tremendamente, terrivelmente, ele não irá crescer. Você não terá sua própria mente e você irá perder algo muito, muito bonito e algo que funciona como uma ponte para um crescimento mais elevado.
Mas também não acredite em nada do que eu dizendo; tente entender; apenas experimente em sua vida, veja como funciona e então tire suas próprias conclusões - elas podem ser as mesmas, elas podem não ser. Na verdade, elas nunca podem ser exatamente as mesmas porque você tem uma personalidade diferente, um ser único.

Só experimentando, sua estrutura corpomente irá crescer.
E uma vez que você foi além dessa estrutura corpomente, pela primeira vez você se torna consciente de que você não é a mente, mas uma testemunha.
E uma vez que você conheça esses pensamentos – que perceba que imagens e ideias mentais são apenas nuvens flutuando na consciência, você fica separado delas imediatamente.

Nesse estado você fica além do corpo – aquele que não está mais confinado a nenhum corpo, aquele que sabe que ele não é o corpo, bruto ou sutil, aquele que sabe que é infinito, sem fronteiras.

Todas as fronteiras são confinamentos, aprisionamentos; e você pode rompê-las, abandoná-las; e pode se tornar um com o céu infinito.
Então, nesse momento, liberte-se e deixe ir..."
Osho em O Livro dos Segredos 

1 de julho de 2017

O amor também pode dizer 'não' - Jeff Foster


“Não posso repetir isso o suficiente: a aceitação não é o mesmo que tolerar ou condicionar uma conduta violenta.


A partir de um lugar amoroso, nossos corações completamente abertos ao mistério, estabelecidos em um SIM à vida em todas as suas formas, profundamente enraizados em uma compreensão não dual, podemos dizer um claro ‘não’.

Podemos abandonar nosso julgamento e ainda respeitar nosso discernimento.

Por exemplo, podemos continuar dizendo às pessoas que assassinaram, violaram, torturaram:
“Você perdeu o seu direito de andar livremente por onde quiser, até que esteja curado.”

Isto respeita as feridas deles, assim como as feridas de quem foram ou poderiam ser afetados pelo ‘comportamento’ deles.

Aqui estamos dizendo ‘não’ a seu comportamento inconsciente, porém não a sua existência, nem a sua verdadeira natureza oculta pela máscara do ‘eu’, aqui não estamos dizendo não a sua capacidade de curar, ou inclusive a sua transformação.

Do mesmo modo, podemos amar uma pessoa com todo nosso coração, sentir uma profunda compaixão e ternura para com ela, e ainda assim dizer ‘não’ ao fato de passar tempo com ela, ou inclusive vê-la novamente.

Nosso ‘não’ surge desde um honesto ‘SIM’ à vida, à verdade e a autenticidade.

Visto deste modo, um ‘não’ e um ‘sim’ não são opostos, assim como a lua não é oposta ao sol, mas são igualmente bem-vindos na incondicional vastidão do céu.

O amor incondicional não necessita que nos convertamos em um capacho, ou que tenhamos que tolerar a violência, ou esconder um ‘não’ para parecermos mais ‘espirituais’, ao contrário, o que requer é honrar os limites sagrados com nossos corações bem abertos e transbordantes de integridade e determinação.

Um limite real não separa, simplesmente mantêm nossos corações abertos para os demais, nos permite relacionarmos com honestidade e, claro, saber exatamente onde estamos.”

25 de junho de 2017

Toda a existência é amor - Osho


"Assim, por que ser um mendigo? 
Você não é mais uma criança. 
Você está se comportando dentro de um padrão infantil. 

Comece a amar. 
Quanto mais você amar, mais você verá que mais pessoas estão vindo até você para amá-lo, 
porque o amor atrai amor assim como o ódio atrai ódio.

Se você odiar, as pessoas o odiarão. 
Se você amar, as pessoas o amarão. 
Mas não se incomode se os outros o estão amando ou não. 
Simplesmente ame. 
Amar é uma atividade tão prazerosa – quem se importa se há algum retorno ou não? 
É como cantar. Você canta e se deleita. 
Se alguém aplaude, ótimo. 
Se ninguém aplaude, é uma questão deles. 
Você se deleita da mesma forma.


Comece a amar. 
E não peça amor. 
O amor será uma conseqüência natural; pode-se esquecer a respeito disso. 
E não pense em termos de primeiro ser merecedor.
 Ninguém o é. Se o amor tiver que ser merecido, ninguém será merecedor. 
Ele é uma graça. 
É um presente. 
Ele vem porque toda a existência está cheia de amor. 
Não é porque você tem capacidade, não é porque você tem algum valor que ele vem para você. 
Não, ele vem para você porque toda a existência é cheia de amor.



A existência é feita da matéria chamada amor. 
É exatamente como o ar que o circunda. 
Você simplesmente inspira e expira e a coisa continua.
Assim, esqueça sobre merecimento. 
Comece a amar, e você verá o amor chegando, florescendo. 
Ele vem mil vezes mais. 
Simplesmente compartilhe e continue a meditar."

Osho, em The Passion for the Impossible.

17 de junho de 2017

O mestre de cada momento - Lao Tzu


                                                                                              
      


 "O que procuramos além do que é visto
e chamamos de invisível,
Tentamos escutar além do que é audível
e chamamos de inaudível,
Queremos segurar além do alcance
e chamamos de inatingível.

Funda-se além da compreensão
em uma unidade
Que não se limita a surgir e dar a luz
e a sumir e deixar a escuridão,
Mas envia sempre uma sucessão de coisas vivas tão misteriosas
quanto a existência não-gerada para a qual elas retornam.

É por isso que os homens as chamaram de fenômenos vazios,
imagens sem sentido,
numa miragem que não encontra uma face,
ninguém para seguir.

No entanto, aquele que está antigamente consciente da existência
é o mestre de cada momento,
Não sente interrupção desde o tempo além do tempo
na maneira como a vida flui."

~Lao Tzu~

Sobre as desumanidades - Osho


"Pergunta: Porque as pessoas tratam uns aos outros como o fazem? Tudo isso é condicionamento, ou há algo no homem que o torna disposto a se desviar?

Osho - São ambas as coisas. 
Primeiro, há alguma coisa no homem que o desencaminha. E segundo, existem pessoas cujos interesses é desencaminhar os seres humanos. Ambos juntos criam um ser humano falso, um impostor. Seu coração anseia por amor, mas sua mente condicionada o impede de amar.

Esse é o problema. A criança nasce com um coração que anseia por amor, mas ela também nasce com um cérebro que pode ser condicionado.

A sociedade tem que condicioná-lo contra o coração, porque o coração será sempre rebelde contra a sociedade, ele irá sempre seguir seu próprio caminho.

O coração não pode ser tido como um soldado. Ele pode se tornar um poeta, ele pode se tornar um cantor, pode se tornar um dançarino, mas não pode se tornar um soldado.

Ele pode sofrer pela sua individualidade, ele pode morrer pela sua individualidade e liberdade, mas ele não pode ser escravizado. Esse é o estado do coração. Mas a mente... 

A criança vem com um cérebro vazio, apenas um mecanismo, o qual você pode arrumar da maneira que você quiser. Ele irá aprender a língua que você ensinar, ele aprenderá a religião que você ensinar, ele aprenderá a moralidade que você ensinar. Ele é simplesmente um computador, você apenas o alimenta com informações. E toda sociedade cuida de tornar a mente cada vez mais forte para que se houver algum conflito entre a mente e o coração, a mente irá vencer. Mas cada vitória da mente sobre o coração é uma miséria. É uma vitória sobre sua natureza, sobre seu ser – sobre você – pelos outros. E eles cultivaram sua mente para servir ao propósito deles.

Portanto, a mente é vazia, seu cérebro; você pode colocar qualquer coisa nela. E com vinte e cinco anos de educação você pode torná-la tão forte que você pode esquecer seu coração; você irá permanecer sempre miserável. A miséria é que seu coração só pode lhe dar alegria, só pode lhe dar felicidade, só pode lhe fazer dançar. A mente pode fazer aritmética, mas ela não pode cantar uma canção. Essas não são as habilidades da mente. Assim você está dividido entre sua natureza, que é seu coração, e a sociedade que é sua cabeça. E certamente você nasce – todos nascem – com estes dois centros. Esse é a dificuldade.

E um centro está vazio. Numa sociedade melhor ele será utilizado de acordo com o coração, para servir ao coração. Então será uma grande vida, cheia de regozijos. Mas até agora temos vivido numa sociedade feia, com idéias podres. Eles usaram a mente. E essa vulnerabilidade existe – a mente pode ser usada.

Agora os comunistas a estão usando de uma maneira; os fascistas a usaram na Alemanha de outra maneira; todas as outras religiões a estão usando de diferentes maneiras. Mas essa vulnerabilidade está em todos os indivíduos: que você tem uma mente a qual você trouxe vazia. De fato, isso é uma bênção da existência – mas, mal utilizada, explorada. Ela lhe é dada vazia para que você possa fazê-la perfeitamente subserviente ao seu coração, aos seus anseios, ao seu potencial. Não há nada de errado nisso. Mas os interesses investidos por todo o mundo encontraram nisso uma bela oportunidade para eles – para usar a mente contra o coração. Assim você permanece miserável e eles podem lhe explorar por todos os meios que quiserem.

Eis porque todo o mundo é miserável.

Todo mundo quer ser amado, todos querem amar; mas a mente é uma barreira tal que nem lhe permite amar, nem lhe permite ser amado. Em ambos os casos a mente fica no caminho e começa a distorcer tudo.

E mesmo se por acaso você encontrar uma pessoa que você sinta amor por ela e a pessoa sinta amor por você, suas mentes não irão concordar. Elas foram treinadas por sistemas diferentes, religiões diferentes, sociedades diferentes.

Ser feliz é um direito inato de todos, mas infelizmente a sociedade, as pessoas com as quais estamos vivendo, que nos trouxeram para este mundo, não pensaram nada a respeito disso. Elas estão somente reproduzindo seres humanos como animais – até mesmo pior que isso porque pelo menos os animais não são condicionados. Esse processo de condicionamento deve ser completamente mudado. A mente deve ser treinada para ser uma serva do coração.

A lógica deve servir ao amor. E assim a vida pode se tornar um festival de luzes."

Osho em O Cipreste no Jardim

10 de junho de 2017

Sobre a auto-aceitação - Osho


"Todas as culturas e todas as religiões o condicionam a sentir-se negativo a respeito de si mesmo. Nenhuma pessoa é amada ou apreciada por ser ela mesma.Você é solicitado a provar se tem algum valor: ganhe medalhas de ouro nas competições esportivas, obtenha sucesso, dinheiro, poder, prestígio, respeitabilidade.

Prove o seu valor! Seu valor não é intrínseco – foi isso que lhe ensinaram
Seu valor tem de ser provado. Daí resulta um grande antagonismo, um sentimento arraigado de que “não tenho valor do modo como sou – a não ser que se prove o contrário”.

Mas poucas pessoas podem triunfar nesse mundo competitivo.Milhões e milhões estão competindo – mas quantas podem obter sucesso?Quantas podem se tornar presidentes? Quantas podem se tornar grandes pintores?
A ideia do sucesso o tortura e esta é a maior calamidade que já aconteceu à humanidade: A idéia de sucesso, de que você tem de obter sucesso.
E sucesso significa que você tem de competir, de lutar – por meios lícitos ou condenáveis, não importa.Quando você obtém sucesso, tudo fica bem.
O ponto chave é o sucesso; mesmo se o alcançar por meios condenáveis, após obtê-lo, tudo que fez é aceitável.

O sucesso altera a qualidade de todos os seus atos. O sucesso transforma meios ruins em meios bons. Esse é o tipo errado de educação. Essa assim chamada educação que lhe foi imposta é totalmente perniciosa.

As escolas, as faculdades e universidades o estão envenenando.
Estão tornando-o infeliz. São locais onde infernos são produzidos, porém de modo tão formoso que você nunca se conscientiza do que está acontecendo. O mundo todo está se tornando um inferno por causa da educação errada.
Todos estão sofrendo e se sentindo inferiores. E essa situação é realmente estranha.

Ninguém é inferior e ninguém é superior, porque cada indivíduo é único – nenhuma comparação é possível. Você é simplesmente você e não precisa tornar-se famoso, não precisa ser um sucesso aos olhos do mundo. Todas essas idéias são tolas.


Você só precisa ser criativo, carinhoso, consciente, meditativo...

Se sentir a poesia surgindo em seu interior, escreva-a para si mesmo, para seu marido ou esposa, para seus filhos e esqueça-se de tudo o mais. Cante sua canção e, se ninguém ouvi-la, cante-a sozinho e a aprecie!
A pessoa ambiciosa é patológica.

Se você tem um sentimento negativo em relação a si mesmo é porque o ensinaram a sentir-se assim. E a pessoa negativa também não pode ser positiva a respeito dos outros, porque as falhas que identifica em si encontrará nos outros – na verdade ela ampliará nos outros.
Os pais estão dizendo a seus filhos: “Prove que você tem algum valor!” Ou seja, ser, simplesmente ser, não é suficiente – é necessário fazer algo.
Mas o fato de você apenas ser representa uma importante dádiva da existência. Só respirar nessa existência maravilhosa constitui prova suficiente de que a existência o ama, de que ela precisa de você, caso contrário você não estaria aqui. Você existe!

A existência o fez nascer. Deve ter havido uma imensa necessidade e você preencheu um vazio. Sem você a existência seria menor. E isso vale para as árvores, para os pássaros, para as flores, para todos os animais.
Você precisa aprender que tem valor do modo como é. E todas as pessoas têm o mesmo valor.

Aceite as pessoas como são; desista do “deveriam” e do “precisariam” – esses são conceitos inimigos.
Foram-lhe transmitidos tantos ideais de perfeição que você sempre julga não estar à altura.

Ser perfeccionista é ser neurótico. E a todos nós foi dito para sermos perfeitos. A vida é maravilhosa em todas as suas imperfeições. Nada é perfeito. Perfeição significa que não há possibilidade de crescimento, perfeição significa morte.
Imperfeição significa a possibilidade de crescer, significa excitação, o êxtase, a aventura.
Imperfeição significa que você está vivo e que a vida deve continuar. Então, viva cada dia em toda a sua beleza, em toda sua alegria, em toda sua dor...
Viva-o em sua totalidade – em sua obscuridade, em sua luz.
Viva o ódio e viva o amor. Viva a irritação e a compaixão. Viva o que existe nesse momento.

Então, esqueça tudo a respeito do futuro – o presente é o suficiente. 
E celebre a vida com todas as suas imperfeições."
Osho em Além da Psicologia

3 de junho de 2017

Você não é a mente - Sambodh Naseeb


"Os sábios ensinam: você não é sua mente. Verifique: se te sentes cansado, vê se é o corpo ou você que está cansado? Se te sentes triste, vê se é a sua mente ou você que está triste.

Os sábios nos ensinam claramente que o Ser real não pode sair da bem aventurança. A ideia de ser alguém separado do Todo é que sente-se cansada e triste. Uma ideia aparecendo e desaparecendo. Vai desaparecer como todas as ideias.

Tornemo-nos vigilantes para o fato de que a consciência que eu sou, por não ser uma ideia, não pode ser dividida, e portanto, não está no campo dual da separação entre "sujeito eu" versus "objeto mundo".

Eu e o mundo. Eu e as pessoas. Eu e as ideias. Eu e a minha vida. Há sempre esta separação. Eu e a vida, na verdade, é VIDA. "Eu" estou implícito nesta Vida. Não há eu separado da vida. Eu é um pensamento, que também é Vida, que também aparece na Vida.

A Vida cria a vida. Eu sou Vida. EU SOU. Este EU SOU é consciência.

A ideia ou sentimento do EU SOU separado da vida é conceitual e energético. O ego é uma contração energética também. Aparece e desaparece. O que somos não desaparece, pois nunca apareceu, em primeiro lugar. Como consciência pode existir ou aparecer? O que aparece, desaparece. Consciência é atemporal.

Tudo que parece existir é simplesmente uma modulação da própria consciência. Mas ela nunca desaparece, porque tudo é ela, tudo é consciência, todas mudanças são nela mesma. Uma ideia acrescida de uma contração energética - isto é que é o falso eu, o falso centro, o ego, a mente egóica.

Idéias e contrações. Idéias na mente e contrações no corpo. Mas onde tudo isto está acontecendo? Neste experienciar. Agora. E quem experiencia este momento? Veja: Ninguém. Como assim?

Ora, quem sou eu? Algo definível e fixo ou uma presença inteligente indefinível e invisível que observa o corpo/mente mudar? Você diz "eu estou triste" e depois diz "eu estou alegre". O que há de comum nessas duas proposições? EU.

Logo, o eu REAL não pode ser triste nem alegre. Ele não pode ser isto nem aquilo. Ele não pode ser nenhuma descrição da mente, porque toda a linguagem está no campo da dualidade certo/errado, feio/bonito, bom/mal, perfeito/imperfeito.

O eu deve estar ali quando a experiência do alegre ou do triste está acontecendo. A isto chamamos consciência. Logo, eu real é consciência. O pensamento não é o eu. Porque o pensamento surge na consciência e depois desaparece. Mas a consciência pura deve permanecer sempre, mesmo que não existam pensamentos. Pois a consciência pura é o sagrado, o atemporal, além da mente.

Antes, o eu era considerado um apanhado de pensamentos na sua mente, junto com sentimentos, emoções e sensações de você mesmo. Isso era sua ideia de eu. A ideia que aprendemos.

Você não é triste nem alegre porque você não existe na mente. Você na mente, este você como você se pensa, é realmente um você inexistente a não ser no pensamento, todo feito da sua riquíssima imaginação. E todos em sua volta criam uma nova verão personalizada de você. Como você pode confiar em algo que não existe? Aí você dá uma gargalhada e vive este momento sendo o momento, apenas o momento. O que quer que aconteça deixa acontecer. Quem é você? O ponto é: você não é uma ideia, porque uma ideia é vista por você. Você vem antes de uma ideia. Quem vem antes de uma ideia? Verifique por si mesmo e verá que aquilo que vem antes de qualquer ideia só pode ser você."

Por Sambodh Naseeb

27 de maio de 2017

Do não ao supremo Sim - Osho


"Eis por que os psicólogos dizem que entre os sete e os quatorze anos de idade, cada criança começa a aprender a dizer não, cada vez mais e mais. Ao dizer não, ela está saindo do útero psicológico da mãe. Mesmo que não haja nenhuma necessidade de se dizer não, ela dirá não. Mesmo quando dizer sim é a seu favor, ela diz não.

Há muito em jogo: ela tem de aprender a dizer não, mais e mais. Quando o menino alcança os quatorze anos e está sexualmente maduro, ele dirá o supremo ‘não’ à mãe: ele se apaixonará por uma outra mulher.

Este é o supremo ‘não’ à mãe, ele está dando as costas à mãe. Ele diz: “Acabei essa história com você, escolhi minha mulher. Tornei-me um indivíduo, independente por direito próprio. Quero viver a minha vida, quero fazer minhas próprias coisas.”.
E se os pais insistem: “Corte o cabelo” – ele usará cabelos longos. Se os pais insistem: “Deixe os cabelos crescerem.” – ele cortará o cabelo. Veja bem. Quando os hippies se tornaram pais, eles viram seus filhos usarem cabelos curtos – porque eles tinham que aprender o “não”.
Se os pais insistem: “A limpeza é próxima de Deus.” – os filhos começarão a viver sujos de todos os modos. Eles ficarão sujos. Não vão querer tomar banho, não usarão sabão. E eles encontrarão racionalizações: que o sabão é perigoso para a pele, que é antinatural, que nenhum animal jamais usou sabão. Eles podem encontrar tantas racionalizações quanto possível, mas lá no fundo todas aquelas racionalizações são disfarces. 

A coisa verdadeira é que, eles querem dizer não. E é claro, quando você quer dizer não, você tem de arranjar razões.
Assim, o não lhe dá a sensação de liberdade; não só isso, ele lhe dá uma sensação de inteligência. Quando você diz sim, ninguém pergunta por quê. Quando você já disse o sim, quem se incomoda de perguntar por quê? Não há nenhuma necessidade de qualquer arrazoado ou argumento, você já disse o sim. Quando você diz não, o ‘por quê’ é fatal de ser perguntado. Isso afia sua inteligência, lhe dá uma definição, um estilo, uma liberdade. Observe a psicologia do “não”.

É muito difícil para os seres humanos ficarem em harmonia, devido à consciência. Consciência dá liberdade, liberdade lhe dá a capacidade de dizer não, e há mais possibilidade de se dizer não do que dizer sim. E sem o sim, não há harmonia. Sim é harmonia. Mas leva tempo para se desenvolver, amadurecer, chegar a tamanha maturidade onde você possa dizer sim e, contudo, permanecer livre; onde você possa dizer sim e, contudo, permanecer único; onde você possa dizer sim e, contudo, não se tornar um escravo.
A liberdade que é trazida pelo ‘não’ é uma liberdade muito infantil. É boa dos sete até os quatorze anos de idade. Mas se a pessoa fica presa nisso e toda a sua vida se torna um contínuo “não”, então, ela parou de crescer.

O supremo crescimento é dizer “sim” com tamanha alegria como uma criança diz “não”. Essa é uma segunda infância. E o homem que pode dizer “sim” com tremenda liberdade e alegria, sem nenhuma hesitação, sem quaisquer cordas lhe segurando, sem quaisquer condições – uma pura e simples alegria, um puro e simples “sim” –, esse homem se tornou um sábio. Esse homem vive em harmonia novamente. E sua harmonia é de uma dimensão totalmente diferente que a harmonia das árvores, dos animais e dos pássaros. Estes vivem em harmonia, porque não podem dizer “não”, e o sábio vive em harmonia porque ele não diz “não”. Entre os dois, os pássaros e os budas, estão todos os seres humanos – os não-desenvolvidos, imaturos, ainda tentando dizer ‘não’, para ter uma sensação de liberdade.
Eu não estou dizendo ‘não aprenda a dizer não’. Estou dizendo para aprender a dizer “não”, quando for hora de dizer “não”, mas não fique entalado nisso. Devagar, devagarinho, veja que existe uma liberdade mais elevada que vem com o "sim", e uma maior harmonia. Paz que dá lugar à compreensão.(...)

Por milhares de anos você tem permanecido identificado com a mente, tem despejado muita energia nela. Ela segue girando e girando, por meses e anos. Mas se você conseguir permanecer um observador silencioso, um observador na colina, então pouco a pouco a energia, o momento, é perdido e a mente chega a parar.
No dia em que a mente parar, você chegou.

A primeira visão do que é Deus e de quem é você acontece imediatamente, porque uma vez que a mente para, toda a sua energia que tinha permanecido envolvida com ela é liberada. E essa energia é tremenda, é infinita: ela começa a descer em você. É uma grande bênção, é graça.

Os chamados revolucionários seguem fracassando porque eles continuam tentando dar um jeito nas mesmas coisas da mente. Alguém acredita em Deus e daí aparece um revolucionário que diz, 'Não há Deus algum e eu não acredito em Deus'. Mas ele é tão fanático com suas idéias como as pessoas que acreditam em Deus.
Crentes e descrentes, ambos são fanáticos. Uns se apegam ao sim e outros se apegam ao não, mas sim e não, ambos são partes da mente. Você escolhe uma parte e um outro alguém escolhe a outra parte. Um é cristão e o outro é hindu, mas ambos são mentes. Um escolheu a Bíblia e o outro escolheu os Vedas, mas ambos são partes da mente.

Então, quem é realmente religioso? Aquele que não fez escolhas a partir da mente. Você não pode chamá-lo cristão, nem hindu, nem comunista; você não pode chamá-lo teísta nem ateu. Ele simplesmente é. Ele é indefinível. Você não consegue rotulá-lo. Ser é tão vasto que não pode ser rotulado.

Nenhuma palavra é adequada o suficiente para descrever o ser. Em tal vastidão, a liberdade; em tal vastidão, a felicidade."
- Osho em O Livro dos Segredos IV

20 de maio de 2017

Kṣānti - Swami Dayananda



"A palavra sânscrita kṣānti frequentemente é traduzida como "tolerância" ou "capacidade de suportar". Mas essas duas expressões portuguesas trazem um sabor negativo de "sofrimento resignado", quando, ao contrário, kṣānti é uma atitude positiva - não uma resignação dolorosa. Uma tradução melhor seria "acomodação". 

A atitude de kṣānti significa que eu, alegremente, calmamente, aceito aquele comportamento e aquelas situações que não posso mudar. Desisto da expectativa ou exigência pela mudança de outra pessoa ou situação, de forma a se moldar ao que penso ser agradável para mim. Eu me acomodo às situações e às outras pessoas alegremente.

Todos os relacionamentos requerem acomodação

Esse valor deve ser construído a partir da compreensão da natureza das pessoas e dos relacionamentos entre elas. Nunca encontrei numa pessoa todas as qualidades de que gosto ou todas de que não gosto. Qualquer pessoa será uma mistura de coisas que acho interessante e outras que considero desinteressantes. Similarmente, eu terei o mesmo impacto nos outros. Ninguém vai me achar totalmente agradável. Quando reconheço esses fatos, vejo que todos os relacionamentos requerem alguma acomodação da minha parte. Não estarei disposto, ou talvez não serei capaz de mudar ou satisfazer todas as expectativas que o outro tem de mim; tampouco os outros estarão dispostos ou serão capazes de mudar e satisfazer todos os meus critérios em relação a eles. Nunca encontrarei um relacionamento que não requeira acomodação.

Em especial, os relacionamentos que envolvem coisas que fortemente desgosto em alguém requerem acomodação da minha parte. Se eu for capaz de modificar a pessoa, ou se puder colocar uma distância entre mim e ela, sem faltar ao meu dever, tudo estará bem. Mas se não puder fazer isso, simplesmente devo me acomodar alegremente. Ou seja, devo tomar a pessoa como ela é. Não posso esperar que o mundo ou as pessoas mudem. Simplesmente não é possível compelir as pessoas a mudar para satisfazer minha expectativa de como elas deveriam ser. Algumas vezes alguém pode mudar um pouco por mim ou pode tentar mudar, mas não posso contar com isso. Geralmente, quando quero uma mudança nos outros, eles também desejam uma mudança em mim. Teremos, então, um impasse.

Para kṣānti, diminua as expectativas
Quando examinar meus processos mentais, provavelmente verificarei que, para minha surpresa, eu ofereço kshánti mais prontamente para um tolo insuportável do que para meu melhor amigo. Isso porque não espero algo sábio ou inteligente de um tolo; mas espero que meu amigo viva de acordo com certos padrões que considero adequados. Um tolo incorrigível não consegue me desapontar, mas outros, por uma razão ou outra, em algum momento, conseguem. Não deveria ser assim. Minhas expectativas deveriam colocar todos na mesma categoria do tolo incorrigível. Ninguém deveria ser capaz de me desapontar, mas somente capaz de me surpreender. E minha atitude deve ser a de estar preparado para acomodar todas as surpresas possíveis.

Devo acomodar as pessoas como acomodo objetos inertes, isto é, devo tomá-las como são. Eu não gosto de ser queimado pelo Sol, porém não peço ao Sol que pare de brilhar. Aprecio a benção mista de um Sol quente brilhando e entendo que, sendo uma benção mista ou não, não posso desligá-lo. Não peço às abelhas que não tenham ferrão, tampouco odeio as abelhas se, estando no caminho delas, recebo uma picada. Continuo apreciando a função da abelha e aproveito o mel.

Porém, considero ser muito mais difícil ter para com as pessoas a atitude que tenho com os insetos e objetos inertes. Posso me relacionar adequadamente com um objeto inerte ou uma criatura selvagem porque não espero qualquer mudança deles. Mas espero que as pessoas possam mudar para se tornarem mais agradáveis para mim. Mantenho minha mente agitada com exigências contínuas por mudanças de forma que os outros em minha vida sejam mais de acordo com as minhas preferências. De fato, nem os humanos podem ser capazes de mudança.

Freqüentemente não conseguem mudar ou por falta de força de vontade ou por falta de vontade. Quando alguém não consegue mudar ainda que deseje mudar é porque não possui força de vontade. Nada mais há a fazer, a não ser acomodar essa pessoa. Quando uma pessoa não muda porque não deseja tentar a mudança, podemos tentar convencê-la a ter a vontade de se beneficiar de uma mudança. Se não for possível convencê-la, então acomode-a. O que mais se pode fazer?! De qualquer maneira, o mundo é amplo. A variedade torna-o mais interessante. Há espaço suficiente para acomodar a todos.

Responda à pessoa, não à ação

Para descobrir dentro de mim um valor pela acomodação, eu deveria olhar para a pessoa por trás da ação. Geralmente, é quando estou respondendo ao comportamento da pessoa, à sua ação, que acho difícil ser acomodativo. Quando tento entender a causa por detrás da ação, me coloco numa posição de responder à pessoa e não à ação, e então minha resposta para essa pessoa pode ser uma resposta acomodativa. Tento ver o que existe por detrás do súbito ataque de raiva ou da explosão de ciúmes ou da conduta dominadora e respondo à pessoa, e não às ações.

Se não consigo ver o que há por detrás das ações, ainda assim, tenho em mente o fato de que muitas razões desconhecidas por mim armam o palco para qualquer ação por parte da outra pessoa. Com essa disposição de espírito achei natural ser acomodativo. Numa situação onde minha interação é para com a pessoa em vez de para com a conduta, conseguirei me manter calmo. De fato, a dissolução de qualquer discussão entre pessoas é quase sempre o resultado de uma apreciação mútua feita pelas pessoas em vez de uma nova atitude quanto à conduta irrefletida.

Reações mecânicas impedem a acomodação. Para ser livre ao interagir com uma pessoa, devo ser livre de reações mecânicas. Tenho que escolher minhas atitudes e fazer as ações deliberadamente. Uma reação é um tipo de conduta mecânica e não-deliberada. É uma resposta condicionada extraída de experiências anteriores, sem autorização prévia da minha vontade. Na verdade, é uma resposta que não foi avaliada conforme a estrutura de valores que estou tentando assimilar, mas que somente ocorreu. Algumas vezes a minha reação pode ser uma ação ou atitude que, mais tarde, após reflexão, eu aprovaria.

Outras vezes minhas reações podem ser completamente contrárias às atitudes e ações que eu gostaria de manter ou fazer. Reações podem ir contra toda a minha sabedoria, estudo e experiência anterior. Esses fatores são relegados e a reação ocorre. O que aprendi anteriormente torna-se sem valor para mim. Posso ter lido todas as escrituras do mundo, posso ser um ótimo estudante de sistemas éticos, posso ser um profissional diplomado em dar conselhos aos outros, mas quando acontece a reação, essa será exatamente tão mecânica como a de qualquer outro.

Sabedoria, aprendizado e experiência não me servirão de nada. Portanto, até que meus valores éticos se tornem completamente assimilados, estabelecendo uma base a partir da qual atitudes e ações corretas surjam espontaneamente, devo, através da atenção, evitar reações e, ao invés disso, deliberadamente e refletidamente escolher minhas ações e atitudes. Quando evito reações, estou livre para escolher minhas ações e atitudes, posso ser acomodativo em meus pensamentos, palavras e ações.

Kṣānti e ahimsā: qualidades de um santo

Acomodação é uma qualidade bela e santificada. Dentre todas as qualidades, ahimsā e kṣānti constituem as qualidades de um santo. As qualificações mínimas para um santo são essas duas qualidades. Não é preciso ter sabedoria nem é necessário o aprendizado das escrituras para ser um santo, mas a pessoa deve ter esses dois valores. Um santo é uma pessoa que nunca fere conscientemente outra pessoa pela palavra, ação ou pensamento, e que aceita as pessoas - boas ou ruins - exatamente como elas são; que tem uma infinita capacidade de acomodar, perdoar e ser compassivo.

Essas qualidades (acomodação, perdão, compaixão...) estão incluídas na qualidade chamada kṣānti. Um santo sempre é dotado de kshánti - uma capacidade infinita para a compaixão. Ele responde à pessoa, não à ação. Ele vê a ação errada como um erro originário de um conflito interno e é compassivo para com a pessoa que o comete. Uma atitude de kṣānti, acomodação, expande o coração. Esse se torna tão amplo que aceita todas as pessoas e circunstâncias exatamente como elas são, sem desejos ou cobranças de que sejam diferentes. Isso é kṣānti."

Por Swami Dayananda Sarawasti  [fonte aqui]


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