22 de abril de 2017

Saber cuidar - Jeff Foster



"Quando você estiver sentado ao lado de um ente querido que você ama verdadeiramente e que estiver sofrendo, não tente ser forte, não tente ser invulnerável.

Deixe que seu coração se parta um pouco... ou muito...
Incline-se ante a sua fragilidade, ante a sua falta de respostas.
Sinta sua tristeza, seu medo, suas frustrações.
E sua culpa. Você não é um super homem...

É difícil ver alguém que amamos sentindo dor. Não importa o que seja, estar numa situação dessas é realmente difícil.

Agora, observe onde está sua atenção?
Ela está fora do seu corpo? Você está prendendo a respiração? Você está se esquecendo de si mesmo em seu desejo de "ajudar", ou mesmo "salvar" o outro? Está abandonando seu precioso corpo?

O universo não necessita de dois sofrimentos. Um é mais que suficiente. 
Ofereça sua presença agora.
Seu coração completamente aberto.
Escute o outro.
Chore com ele.

Estejam juntos neste lugar em que se encontram. Mas lembre-se que não é seu trabalho salvá-lo, curá-lo, nem eliminar sua dor. Isso depende de Deus, depende do Universo.

Você não sabe o que é melhor para ele. Poderia estar oferecendo respostas equivocadas.

Cada um está em sua própria viagem. A viagem dele não é a sua, - e isso não significa que você seja egoísta.

Seu trabalho é ser amigo neste momento, não seu salvador.

Seja um reflexo da própria presença do seu amigo, de sua força, de sua capacidade de suportar até as energias mais intensas.

Para poder cuidar dos outros, tens que cuidar significativamente de si mesmo, para que esse cuidado transborde, para que que esse cuidado flua até seu amigo, mesmo se ele não estiver consciente disso.

Não abandone a si mesmo em nome da compaixão.
Recorde seu caminho agora, não o dele.
Fazendo menos, poderá irradiar mais....
Jeff Foster 

15 de abril de 2017

Observando os desejos - Eckhart Tolle


Pergunta: Se você vive apenas no agora, o que impediria alguém que está num relacionamento ou casamento de resistir à tentação de fazer sexo com alguém que é atraente, mas não é seu (sua) parceiro(a)? Afinal, se você está no agora e vê uma pessoa atraente, você vai querer fazer sexo com ela agora?

Eckhart Tolle - Será que viver no agora significa ceder a cada impulso que apareça? Então todas aquelas pessoas que correm atrás de um(a) parceiro(a) após outro(a) devem ser iluminadas.

Enquanto você quiser algo de alguém, como o sexo, será que você está presente? Ou será que está procurando chegar a um ponto no futuro que prometa realização? E que por isso transforme o momento presente bem como a outra pessoa num meio para um fim. Todo querer implica que o futuro seja mais desejável do que o presente, não é assim?

É inevitável que a atração física por outra pessoa às vezes aconteça. Isso apenas faz parte da natureza, nada mais.
Quando você se identifica com o impulso, este se torna “você” e vira querer. A outra pessoa torna-se então um meio para um fim; e o fim é o sexo, a consecução do objeto do seu desejo.

Quando você está presente, você pode observar dentro de si a atração ou a sensação sexual, reconhecê-la como natural, aceitá-la e até curti-la sem precisar expressá-la. Afinal, pode até ser totalmente inconveniente agir assim dentro da totalidade da situação.

Quando você se reconhece como o espaço de consciência em que surge o impulso, você não se torna o impulso; você não se perde nele.

Estar presente é ser o espaço, em vez do que acontece."
Eckhart Tolle em Satsang

8 de abril de 2017

Religião e Espiritualidade - Teilhar de Chardin


"A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma. 

A religião é para os que dormem. 
A espiritualidade é para os que estão despertos. 

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados. 
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior. 

A religião tem um conjunto de regras dogmáticas. 
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo. 

A religião ameaça e amedronta. 
A espiritualidade lhe dá Paz Interior. 

A religião fala de pecado e de culpa. 
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"

A religião reprime tudo, te faz falso. 
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
 
A religião não é Deus. 
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus. 

A religião inventa. 
A espiritualidade descobre. 

A religião não indaga nem questiona. 
A espiritualidade questiona tudo. 

A religião é humana, é uma organização com regras. 
A espiritualidade é Divina, sem regras.
 
A religião é causa de divisões. 
A espiritualidade é causa de União.
 
A religião lhe busca para que acredite. 
A espiritualidade você tem que buscá-la.
 
A religião segue os preceitos de um livro sagrado. 
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros. 

A religião se alimenta do medo. 
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé. 

A religião faz viver no pensamento. 
A espiritualidade faz Viver na Consciência..
 
A religião se ocupa com fazer. 
A espiritualidade se ocupa com Ser. 

A religião alimenta o ego. 
A espiritualidade nos faz Transcender. 

A religião nos faz renunciar ao mundo. 
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
 
A religião é adoração. 
A espiritualidade é Meditação.
 
A religião sonha com a glória e com o paraíso. 
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
 
A religião vive no passado e no futuro. 
A espiritualidade vive no presente. 

A religião enclausura nossa memória. 
A espiritualidade liberta nossa Consciência. 

A religião crê na vida eterna. 
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna. 

A religião promete para depois da morte. 
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual... 
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana.."

-Teilhard de Chardin-

1 de abril de 2017

Osho fala sobre os Upanishads


"Estamos penetrando num mundo dos mais encantados e misteriosos - o mundo dos Upanishads.
Os dias dos Upanishads foram os mais notáveis no campo da busca espiritual. Nunca antes ou depois a consciência humana atingiu tamanhas culminâncias.

AUM                                                      AUM
Purnamadah                                        Aquilo é o Todo.
Purnamidam                                        Isso é o Todo.
Purnat purnamudachyate                    Da Totalidade emerge
Purmasya purnamadaya                      a Totalidade
Purnameva vashishyate                      E a totalidade permanece    

* Isha Upanishad                      

A totalidade é outra coisa; tem outro sabor. A perfeição está no futuro: é o desejo. A totalidade está aqui: é uma revelação. A perfeição tem que ser alcançada e isso, obviamente, leva tempo: precisa ser gradual. Cumpre sacrificar o presente pelo futuro, o hoje pela manhã. Mas o amanhã não chega sempre é o hoje.

A existência ignora o futuro e o passado; só conhece o presente. O agora é o único tempo, o aqui é o único espaço. Se você se abstrair do agora e do aqui, mergulhará em alguma forma de insanidade. Você se fragmentará num inferno. Você ficará dividido: o passado requisitará uma parte de você e o futuro requisitará a outra parte. Você se tornará esquizofrênico, cindido, pulverizado. Sua vida será apenas angústia profunda, temor, ansiedade, tensão. Você não conhecerá a bem-aventurança, não conhecerá o êxtase porque o passado não existe.

As pessoas vivem de lembranças que são meras pegadas na areia; ou projetam sua vida no futuro, que também não existe. O passado já se foi, o presente ainda não chegou - e, entre os dois, a pessoa perde o real, o presente, o agora.

A totalidade é feita do agora. Se você conseguir simplesmente estar aqui, este exato instante trará a revelação! Não gradual, mas súbita - uma explosão!

A palavra Upanishad é tremendamente importante: significa apenas ficar sentado junto ao mestre, uma comunhão. O mestre vive na totalidade; vive e palpita no aqui e agora. Sua existência tem música, tem alegria, tem silêncio absoluto. Sua existência é cheia de luz.

O mero ato de sentar-se em silêncio junto ao mestre já basta porque a presença dele é contagiosa, a presença dele é pujante. O silêncio do mestre se insinua em nosso coração. A presença do mestre funciona como um imã; esse imã nos puxa do pântano do passado e do futuro. Traz-nos para o presente.

Upanishad é comunhão, não comunicação. A comunicação acontece entre cabeças, a comunhão entre corações. Esse é um dos maiores segredos da vida espiritual e nunca, em lugar algum, foi compreendido tão profundamente quanto nos dias dos Upanishads.

Os Upanishads surgiram há cerda de 5 mil anos. Uma comunhão secreta, uma transmissão que prescinde de escrituras e palavras. Upanishad é isto: sentar-se silenciosamente para ouvir não apenas minhas palavras, mas também minha presença; as palavras são o invólucro. Quem se interessa demais pelas palavras não capta o espírito.

Por isso, não valorize muito a palavra. Ouça a pulsação do mundo. Quando o mestre fala, suas palavras brotam de seu íntimo. Elas estão repletas da cor, da luz do mestre. Trazem um pouco do perfume de seu ser. Se você for aberto, vulnerável, receptivo, acolhedor, então elas penetrarão em seu coração e darão início a um processo.

A palavra Upanishad significa aproximar-se de um mestre e só nos aproximamos de um mestre quando estamos fartos de professores, lições dogmas, credos, filosofias, teologias, religiões. É então que procuramos um mestre. E o fazemos pela renúncia. Não se trata de renunciar ao próprio ser, mas ao ego, essa falsa ideia de que somos alguém, alguém especial. Tão logo sufocamos a ideia do ego, as portas se abrem - para o vento, a chuva, o sol - e a presença do mestre começa a nos invadir, criando uma nova dança em nossa vida, fornecendo-nos um novo sentido de poesia, mistério e música.

Sincronicidade: o mestre dança num certo ritmo e num determinado plano. Se você estiver pronto, também começará a dançar como ele - no princípio só um pouco, mas esse pouco já é o bastante. No princípio gotas; logo depois, o oceano.

Quando houver saboreado a alegria de abrir-se, você não conseguirá mais fechar-se. Primeiro, abrirá apenas uma janela ou uma porta; em seguida, todas as janelas e todas as portas. Chega um momento na vida do discípulo, em que não só as portas e janelas se abrem, como as próprias paredes desaparecem. O discípulo está então totalmente aberto, multidimensionalmente disponível, Esse é o signficado da palavra Upanishad.

Os Upanishads foram escritos em Sânscrito, a língua mais antiga da Terra. A palavra Sânscrito quer dizer, transformado. A própria língua se transformou porque como muitos que a usavam atingiram o absoluto, parte de sua alegria e parte da sua poesia penetraram nas células nas fibras dessa língua. Ela se modificou, se iluminou. Foi inevitável. (...) A iluminação deles penetrou no Sânscrito com sua música, sua poesia, sua celebração. O Sânscrito se iluminou. É o idioma mais poético e musical que jamais existiu.

Uma língua poética é o oposto de uma língua científica. Numa língua científica, cada palavra precisa ter um significado exato, ou seja, um único significado. Numa língua poética, a palavra precisa ser líquida, fluída, dinâmica ( nunca estática ); precisa apresentar vários significados, várias possibilidades. (...) Dá-se ao Sânscrito o nome de devavani, "a língua divina". E com razão, pois, de todos, é o idioma mais poético e mais musical. Cada palavra soa como música, cada palavra tem seu perfume.

Por que isso aconteceu? Porque muitos dos seus falantes estavam repletos de harmonia interior. Como esses falantes eram iluminados, as palavras que empregavam se tornaram luminosas. Parte de sua luz se transferiu para os vocábulos, aderiu a eles; parte de seu silêncio se entranhou na própria gramática, na própria estrutura da língua que usavam. (...)Cada palavra foi usada por pessoas que conheceram Deus ou o divino.

Eis um fundamento que nunca deve ser esquecido. Os Upanishads dizem que o mundo é a forma manifesta de Deus e que Deus é a forma não manifesta do mundo; dizem também que cada fenômeno manifesto traz em si um fenômeno não manifesto.

Quando você vê uma flor, vê apenas a forma manifesta de algo que está dentro dela, sua essência invisível, sua alma seu ser verdadeiro dissecando a flor. Para consegui-lo, precisará recorrer a abordagem poética, não à abordagem científica. Esta analisa, aquela é uma perspectiva totalmente diversa. A ciência jamais encontrará beleza na flor porque a beleza pertence à forma não manifesta. A ciência dissecará a forma manifesta e encontrará todas as substâncias de que a flor é constituída, mas não encontrará sua alma.

Todas as coisas têm corpo e alma. O corpo é o mundo e a alma é Deus; o corpo, porém, não é inimigo da alma, assim como o mundo não é inimigo de Deus. O mundo manifesta Deus, exprime Deus. Deus é o silêncio e o mundo é a canção desse silêncio. O mesmo se aplica a você. Toda pessoa tem uma estrutura manifesta ( corpo-mente) e uma estrutura não manifesta ( consciência).

A religião busca descobrir o não manifesto no manifesto. Não é uma questão de fugir de tudo; é uma questão de explorar as profundezas. Explorar o centro silencioso, o olho do furacão. Ele está sempre presente e pode ser achado a qualquer momento. Não é algo que se vá encontrar em outra parte, no Himalaia ou num mosteiro. Está dentro de nós! Podemos encontrá-lo tanto no Himalaia quanto num mercado.

Os Upanishads ensinam que é errado escolher entre o absoluto e o relativo. Qualquer escolha nos divide, impedindo-nos de ser um todo. E sem totalidade não há bem-aventurança, não há santidade; sem ela nos tornaremos invariavelmente um pouco dispersos, insanos. Quando formamos um todo temos saúde porque não estamos fragmentados.

O relativo é o mundo mutável, fenomênico; o absoluto é o centro permanente de um mundo inconstante. Encontre o imutável no mutável. Ele está ao seu alcance, você só precisa conhecer a técnica de encontrá-lo. Essa técnica é a meditação.

Meditar significa simplesmente sintonizar-se com o não-manifesto. O corpo está aí, você pode vê-lo; a mente está aí, você pode vê-la também. Se fechar os olhos, conseguirá surpreendê-la em pleno funcionamento, em plena ação. Pensamentos irrompem, desejos brota, lembranças chegam à superfície - a atividade toda da mente está aí, você pode percebê-la.

Uma coisa é certa: o observador não é a mente. Aquele que acompanha as atividades da mente não faz parte da mente. O observador está separado, a testemunha está separada. Quando você toma consciência dessa testemunha, descobre o essencial, o central, o absoluto, o imutável.

O corpo muda: as pessoas são crianças, depois jovens, depois velhas...Estiveram no útero da mãe, nasceram e um belo dia morrerão, desaparecendo no ventre da existência. O corpo muda, muda sem parar.

A mente muda. De manhã você está alegre, de tarde irritado, de noite triste. Humores, emoções, sentimentos mudam; pensamentos mudam. A roda gira perpetuamente em torno de você como um ciclone. O mundo dos fenômenos é o ciclone, nunca o mesmo, sequer por dois momentos consecutivos.

Entretanto alguma coisa é sempre a mesma, inalterável: a testemunha. Descobri-la é descobrir o Divino. Por isso, os Upanishads não ensinam nenhum culto, ensinam a meditação. Esta pode ser praticada em qualquer lugar porque o objetivo é descobrir a testemunha. Num mosteiro, o mesmo método deverá ser aplicado; e numa montanha também. Você poderá estar em casa, com a família, ou no supermercado - método é um só.

No mundo, na verdade, é mais fácil perceber a mudança. No deserto é mais difícil, porque ali nada parece se alterar; as mudanças ocorrem de maneira tão sutil que é quase impossível notá-las. Mas no mercado ou na rua, podemos perceber a mudança a todo instante; o trânsito flui, jamais se detém. Viver num mosteiro é viver num mundo estático, num mundo sonolento. É viver como uma rã numa lagoa, num poço fechado. No oceano, percebe-se melhor as mudanças.

É bom estar no mundo; eis a mensagem dos Upanishads. Os videntes upanishádicos não eram ascetas. Sem dúvida renunciavam a muita coisas, mas essa renúncia não lhes custava nenhum esforço; provinha do conhecimento, da meditação. Eles renunciavam ao ego porque sabiam que o ego é um produto fabricado pela mente. Não possui realidade nem substância; não passa de sombras e perder tempo com ele é uma estupidez. Renunciar, aqui não é bem o termo; melhor diríamos que, dado o grau desses videntes, o ego definhava por si mesmo.

Eles se tornavam não possessivos. Isso não quer dizer que não possuíam coisas, e sim que não se apegavam a elas. Usavam-nas. Não eram mendigos. Viviam alegremente, gozando tudo o que lhes fosse acessível, mas não se agarravam a nada. Esta é a verdadeira renúncia: viver no mundo e ainda assim não ter apego algum. Amavam, mas não eram ciumentos. Amavam plenamente, mas sem egoísmo, sem querer dominar o outro.

É isso que estou tentando fazer aqui. (...) Nos Upanishads encontrarão seu próprio coração, eles rejubilarão nos Upanishads, por que os Upanishads ensinam a Totalidade." 

Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

25 de março de 2017

Sobre a lei da atração - Eckhart Tolle


"Quem nós pensamos que somos está intimamente ligado a como nos consideramos tratados pelos outros.

Muitas pessoas se queixam de que não recebem um tratamento bom o bastante. “Não me tratam com respeito, atenção, reconhecimento, consideração. Tratam-me como se eu não tivesse valor”, elas dizem.

Quando o tratamento é bondoso, elas suspeitam de motivos ocultos. “Os outros querem me manipular, levar vantagem sobre mim. Ninguém me ama.”

Quem elas pensam que são é isto: “Sou um pequeno eu’ carente cujas necessidades não estão sendo satisfeitas.”

Esse erro básico de percepção de quem elas são cria um distúrbio em todos os seus relacionamentos. Esses indivíduos acreditam que não têm nada a dar e que o mundo ou os outros estão ocultando delas aquilo de que precisam.

Toda a sua realidade se baseia num sentido ilusório de quem elas são. Isso sabota situações, prejudica todos os relacionamentos. Se o pensamento de falta – seja de dinheiro, reconhecimento ou amor – se tornou parte de quem pensamos que somos, sempre experimentaremos a falta.

Em vez de reconhecermos o que já há de bom na nossa vida, tudo o que vemos é carência.

Detectarmos o que existe de positivo na nossa vida é a base de toda a abundância. O fato é o seguinte: seja o que for que nós pensemos que o mundo está nos tirando é isso que estamos tirando do mundo. Agimos assim porque no fundo acreditamos que somos pequenos e que não temos nada a dar.

Se esse for o seu caso, experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pense que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção, etc. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber.

Ninguém pode ganhar o que não dá. O fluxo de entrada determina o fluxo de saída. Seja o que for que você acredite que o mundo não está lhe concedendo você já possui. Contudo, a menos que permita que isso flua para fora de você, nem mesmo saberá que tem. Isso inclui a abundância.

A lei segundo a qual o fluxo de saída determina o fluxo de entrada é expressa por Jesus nesta imagem marcante: “Dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada, sacudida e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.”

A fonte de toda a abundância não está fora de você. Ela é parte de quem você é.

Entretanto, comece por admitir e reconhecê-la exteriormente. Veja a plenitude da vida ao seu redor. O calor do sol sobre sua pele, a exibição de flores magníficas num quiosque de plantas, o sabor de uma fruta suculenta, a sensação no corpo de toda a força da chuva que cai do céu.

A plenitude da vida está presente a cada passo. Seu reconhecimento desperta a abundância interior adormecida. Então permita que ela flua para fora. Só fato de você sorrir para um estranho já promove uma mínima saída de energia. Você se torna um doador. Pergunte-se com frequência: “O que posso dar neste caso? Como posso prestar um serviço a esta pessoa nesta situação?”

Você não precisa ser dono de nada para perceber que tem abundância. Porém, se sentir com frequência que a possui, é quase certo que as coisas comecem a acontecer na sua vida. Ela só chega para aqueles que já a têm.

Parece um tanto injusto, mas é claro que não é. É uma lei universal. Tanto a fartura quanto a escassez são estados interiores que se manifestam como nossa realidade. Jesus fala sobre isso da seguinte maneira: “Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que não tem

Eckhart Tolle em Praticando o Poder do Agora

18 de março de 2017

O sentido espiritual de um relacionamento amoroso - Prem Baba


O sentido espiritual de um relacionamento amoroso, tirando todo o romantismo, é ser um material de escola que te ensina a amar, a ser livre e a deixar o outro livre. Quando eu digo “ensinar a amar”, uso uma figura de linguagem, porque não é possível aprender a amar – o amor já existe, ele é a fragrância do ser. Mas a relação afetiva gera uma fricção que possibilita remover obstáculos que te impedem de amar. Esse é um assunto bastante delicado e as chances de eu ser mal compreendido são tremendas, mas vamos tentar.

Existem certas lições que você só pode aprender com suas relações amorosas, porque elas são catalizadoras de todas as suas feridas, de tudo aquilo que não está integrado dentro da sua constelação familiar. Todo seu passado é reeditado na relação amorosa para que você tenha a chance de integrá-lo, de curar essas relações familiares que ainda estão, de alguma forma, infringindo dor no seu sistema.

Embora o relacionamento amoroso seja um poderoso instrumento de aprendizado e de cura, ele pode também te levar a um sono. Nesse sentindo, você pode estar apenas repetindo determinados padrões destrutivos (apegos, disputas, projeções, medos) e andando em círculos, deixando de se expandir e crescer. Há que se ter discernimento e sabedoria para identificar quando isso ocorre.

O objetivo maior de um relacionamento amoroso é sustentar o êxtase. É sustentar a conexão da energia sexual com o coração aberto: o encontro de duas correntes positivas, dois sins. Esse encontro aponta a direção da suprema liberdade e só é possível se existir amor e liberdade.

Portanto, isso que eu tenho chamado de novo casamento, não costuma chegar cedo na vida, porque requer certa maturidade, uma compreensão e inclinação para deixar o outro livre – livre inclusive para não te amar se ele não quiser. Essa é a prova final dessa iniciação chamada relacionamento amoroso.

Eu o vejo como uma iniciação espiritual. Você só completa esse ciclo iniciático quando supera a carência afetiva, ou seja, quando se liberta da insegurança, do ciúme e da possessividade. Só assim você consegue de fato, ser livre e deixar o outro livre. Por sua vez, podemos entender a relação amorosa como o próprio remédio para a carência. Dependendo da sua carência, você precisa ficar um tempo X dentro de uma relação ou às vezes precisa ficar sozinho. Não tem uma receita. Isso tem que ser sentido por você – o que você está precisando no momento.

Às vezes você não consegue perceber porque está cego pela própria carência. Por exemplo, você pode estar precisando ficar um tempo sozinho, mas sua carência ainda está tão grande que você não quer sequer parar para pensar se a relação em que você está tem te feito crescer ou se dentro dela, você está apenas andando em círculos, machucando e sendo machucado.

Quando a relação se torna eminentemente destrutiva, sem chances para crescer no amor, na liberdade e no perdão, você tem que ter a coragem de tirar umas férias. Tem que ter coragem de olhar de frente para isso e explorar o medo que talvez você tenha de ficar sozinho. Eu não estou incentivando a separação! Eu estou incentivando você a encarar a verdade; a ser honesto com você e com o outro.

Muitas vezes, você mantém seu relacionamento para poder ter onde projetar suas ilusões. O outro é uma tela em que você projeta seus sonhos e quando ele quer deixar de ser essa tela ou quando você sente que não está mais conseguindo projetar seu sonho nessa tela, você acaba com o relacionamento. Mas você fica ansiosamente aguardando o momento de encontrar outra tela para continuar projetando o seu sonho. Outras vezes, você mantém o seu sonho fazendo do outro um escravo para atender os seus caprichos. Você força o outro a te amar, porque acreditou que se ele fizer do seu jeito, ele te ama. Não se engane: isso significa aprisionar o outro.

Vou te passar uma lição de casa. Se você está com alguém, comece a se perguntar: por que estou nessa relação? O que me mantém aqui? Não tenha medo de ser honesto consigo mesmo. É só a mentira que cai, a verdade nunca cai. Se o que te mantém nessa relação é o amor a Deus e à liberdade é porque você está se expandindo na luz; está crescendo dentro do programa estabelecido pela sua alma. Se for assim, zele por essa relação, firmeza no amor, no perdão, na liberdade e siga em frente. Mas se você está na relação por outras razões, tenha coragem para olhar o que te mantém aí. 
Dê essa passo a seu favor. Estou querendo que você rompa com a mentira e siga se expandindo."
Sri Prem Baba em Satsang

11 de março de 2017

Meditação da Expansão - Pedro Kupfer


"Procuro uma posição de conforto para permanecer em atitude relaxada, entendendo que o relaxamento não é algo que eu possa ou deva fazer. Posso fazer coisas desde o relaxamento, mas o relaxamento não é fazer coisas, nem deixar de fazer.

Observo então que o corpo assume naturalmente a posição vertical, sem esforço, e permanece descontraído na firmeza natural do āsana. Vejo que essa mesma atitude se estende à tranquilidade no meu coração e aos conteúdos da paisagem mental. Por um momento paro e observo a quietude do corpomente.

Logo, permito que a respiração flua sem nenhuma interferência; sem esforço, sem nenhum tipo de comando ou esforço da mente. Ao mesmo tempo, percebo o respirar e permito que a atenção se centre na expansão e no recolhimento da respiração natural. Consciência total na respiração; consciência total na fluidez da expansão e o recolhimento do prāṇa, a força vital.

Assim, passo para a prática chamada viśvarūpa dhyāna, antiga meditação que e aparece na Taittirīya Upaniṣad. Nesta contemplação, mantendo os olhos fechados, observo meu corpomente dentro do espaço desta sala. Logo, visualizo a sala na cidade: tomo consciência da dimensão da sala em relação ao tamanho da cidade. E também tomo consciência da dimensão do meu corpo em relação ao tamanho da cidade.

Tomo consciência do tamanho da cidade em relação ao país, tomo consciência do tamanho do país em relação ao continente. Observando desde o corpomente, percebo a dimensão do continente, com todas as montanhas, os rios, as planícies, contendo tudo o que o ser humano fez ao longo da história e tudo aquilo que é objeto criado pela natureza.

Tomo consciência dos dois lados do continente, banhado pelos dois oceanos que são muito maiores que a própria terra. Visualizo agora o planeta inteiro, abrangendo os outros continentes e o terceiro oceano, que não banha esta terra onde estou agora. E lembro que as águas dos três oceanos se misturam, são em verdade uma só. Observo.

Lembro que este planeta é pequeno em relação ao sistema solar. Também penso que o sistema solar, com todos seus planetas, asteróides e estrelas, é imenso em relação ao meu corpomente, e ao mesmo tempo muito pequeno se comparado ao tamanho da Via Láctea.

E que esta galáxia onde está meu planeta, por sua vez, é infinitesimalmente pequena em relação ao conjunto das galáxias vizinhas que, por sua vez, somadas, são insignificantes diante do tamanho do universo inteiro. Então agora olho de volta para o meu corpo na sala, tomando consciência da dimensão da criação total, do universo inteiro. Quiçá com algum direito, possa surgir em mim um sentimento de insignificância.

Porém, ao perceber a dimensão real do universo, vejo quão pequenos são os meus problemas, quão pequenas são as coisas que ocupam meu pensamento no cotidiano. Isso, por sua vez, me ajuda a relativizar esses problemas e enxergá-los apenas como o que são: situações tópicas inerentes aos papéis que represento na vida.

Lembro que viśvarūpa, o nome que se dá a essa prática, significa a forma da própria totalidade, a forma do todo. Todas as formas, portanto, estão incluídas na forma única que é o Todo. Cada forma, existe perfeitamente integrada no ambiente com as formas contíguas: o átomo integrado na molécula a molécula na célula, a célula no tecido, o tecido no órgão, o órgão no organismo, o organismo no ambiente, o ambiente no Todo.

E esta consciência que sou, observa, apreciando esse Todo e cada componente dele. Recordo que essa inteligência ativa, chamada Īśvara, está presente em tudo e todos. Observo desde a perspectiva da individualidade que sou, na forma dessa consciência que observa, que não está separada e que não é diferente desse Todo.

Assim, olho para as coisas do meu cotidiano agora, aquelas pequenas coisas que preenchem o meu dia a dia, minhas preocupações, minhas obrigações, e penso: qual é o tamanho dessas situações que vivo, comparadas com o tamanho do universo?

Quando compreendo que sou a consciência que já estava desde antes da mente e do desejo, que permanece durante e que fica depois, que estava desde antes do corpo, que está no corpo agora, e que permanece depois, que estava antes do prāṇa, que está na vitalidade agora, e que fica depois, aquilo que chamo de minhas preocupações se reduz até a insignificância.

Assim, relativizo as coisas do ego, permaneço em paz, e posso estender essa atitude relaxada e focada para todas as experiências para todos os momentos dentro dessa vida que eu tenho agora.

Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ. Que haja paz em cada um, que haja paz no ambiente, que haja paz entre nós."

Pedro Kupfer em Meditação da Expansão

4 de março de 2017

Apenas um convite - Osho


"Pergunta: Osho, você pode dizer quem é você?


Sou um convite para todos aqueles que estão procurando, buscando e têm um grande anseio em seus corações para encontrar os seus lares.

Sou uma resposta para a pergunta que todos têm, mas que não podem formular, uma pergunta que é mais uma busca do que uma questão, mais uma sede do que uma indagação verbal e mental. Uma sede que a pessoa sente em cada célula e fibra de seu ser, mas que não tem como trazê-la às palavras e perguntá-la.

Sou uma resposta para essa pergunta que você não pode formular e que não pode esperar que ela possa ser respondida.

Quando digo que sou a resposta, não quero dizer que possa-lhe dar a resposta. Sim, se você estiver pronto, você pode pegá-la. Sou como um poço, pronto para que você atire o seu balde e tire água por você mesmo.

Tenho, mas não posso alcançar você sem os seus esforços.

Somente você pode me alcançar. Este é um convite estranho; ele o levará a uma longa peregrinação, e terminará somente onde você já está.

Você precisará dar muitos passos, em muitos caminhos, simplesmente para chegar a você mesmo, pois você se distanciou de você mesmo e se esqueceu completamente do caminho de volta. Sou um lembrete, uma lembrança do lar perdido.

Não existo como uma pessoa; como uma pessoa eu simplesmente aparento. Eu existo como uma presença. Desde o dia em que vim a conhecer a mim mesmo, a pessoa desapareceu; existe somente uma presença, uma presença muito viva que pode saciar a sua sede, que pode preencher o seu anseio.

Portanto, em uma palavra posso dizer que sou um convite, e é claro, apenas para aqueles que têm um profundo anseio em seus corações, que estão sentindo falta deles mesmos, uma profunda urgência, que a menos que encontrem a si mesmos, tudo o mais não tem sentido.

A menos que isso seja o seu interesse prioritário e supremo, a ponto de, se necessário, você estar mesmo disposto a perder tudo por isso, mas não pode abandoná-lo...

Existem milhares de desejos, mas no que se refere a anseio, há apenas um, o de voltar para casa, de encontrar sua realidade. E nesse próprio encontrar, você encontra tudo o que tem algum valor: bem-aventurança, verdade, êxtase.

Jesus costumava dizer: “Se você tem olhos para ver, veja; se tem ouvidos para ouvir, ouça.” É claro que ele não estava falando para os cegos e os surdos; ele estava falando para pessoas como você, talvez ele estivesse falando exatamente para você, pois você não é novo.

Você é tão antigo quanto toda a existência; você sempre esteve aqui.

Você pode ter encontrado muitos mestres, pode ter chegado perto de muitos budas, mas você estava muito envolvido em trivialidades e não estava ciente de seu anseio.

Sou um esforço para provocar o dormente em você, para despertar o que dorme. O fogo está presente, mas está queimando muito baixo, pois você nunca cuidou dele.

Meu convite é para tornar você chamejante, e a menos que você conheça uma vida que seja luminosa e chamejante, todo o seu conhecimento é apenas uma trapaça. Você está juntando-o para ajudá-lo a se esquecer de que o conhecimento real está faltando.

Mas não importa quão grande seja o seu acúmulo do outro, do objetivo, do mundo, isso não vai se tornar um substituto do seu autoconhecimento. Com o autoconhecimento, de repente desaparecem toda a escuridão e a separação em relação à existência.

Sou um convite para você dar um corajoso salto no oceano da vida. Perca-se, pois esta é a única maneira de encontrar a si mesmo."
Osho em The Invitation

25 de fevereiro de 2017

Sobre o arrependimento - Osho


"Seja o que for que você compreenda sobre arrependimento é absolutamente falso. Tente compreender. Quando você se arrepende, você de fato não se arrepende. Quando você se arrepende, você de fato está tentando reparar a imagem. Isso não é arrependimento: é reparação da imagem quebrada, a que você tem de si mesmo.

Por exemplo, você tem tido raiva e tem dito muitas coisas. Mais tarde, quando a raiva se foi, a loucura se foi, você se acalma e olha pra trás. Agora há um problema. O problema é que você sempre se achou um homem muito pacífico, um homem da paz e do amor; sempre imaginou que você não é raivoso. Agora, essa imagem quebrou-se. Seu ego está espatifado: agora você sabe, que seja o que for que você esteve acreditando, provou-se errado. Você tem estado com raiva, você tem estado muito raivoso, e você tem dito coisas que são contra o seu ego. Você despedaçou sua própria auto-imagem. Agora você tem de consertá-la. O único meio de se consertar isso é arrependendo-se. Você vai e se arrepende, você diz coisas boas.

Você diz: “Aconteceu a despeito de mim. Eu jamais quis que fosse assim. Eu estava louco: não estava nos meus sentidos. A raiva me assomou de tal jeito que fiquei quase inconsciente; assim, o que quer que eu tenha dito, perdoe-me, eu nunca quis dizer aquilo. Posso ter dito aquilo, mas nunca quis dizer aquilo.”

O que você está fazendo? Arrependendo-se? Você está simplesmente fazendo um reparo. Você relaxa: quando alguém pede para ser perdoado, tem de ser perdoado. Se o outro não perdoar, então, ele não é um homem bom. O outro estava com raiva sobre a sua raiva, ele estava pensando em se vingar, mas agora você foi pedir perdão. Se ele não perdoar, então, ele não será capaz de se perdoar. Então, é a imagem dele que será quebrada.
E este é o truque que você está usando. Agora, se ele não o perdoar, você é o bom sujeito e ele é o sujeito mau. Agora tudo foi jogado em cima dele.

Este é um truque, um truque bem dissimulado. Se ele não o perdoar, ele é mau. Então, você fica à vontade, sua imagem foi consertada: você jogou toda a culpa nele. Agora, ele se sentirá culpado se não perdoar, pois um homem bom tem de perdoar. Se ele perdoar, é bom para você; se ele não perdoar, então também isso é bom para você. Agora é uma questão para ele decidir.
Isto não é arrependimento."


Osho em Além da Psicologia

18 de fevereiro de 2017

A arte de comer - Thich Nhat Hahn


"Para cultivar a atenção plena, podemos fazer o mesmo de sempre ( caminhar, sentar, trabalhar, comer...) com percepção consciente do que estamos fazendo. Ao comer sabemos que estamos comendo. Ao abrir uma porta, sabemos que estamos abrindo uma porta.

Nossa mente está conectada às nossas ações. Quando comemos uma fruta, tudo o que precisamos é atenção plena para nos darmos conta disto: " Estou com uma maçã na boca." Nossa mente não precisa estar em nenhum outro lugar. Se você está pensando no trabalho enquanto mastiga, não estará comendo com atenção plena.
Ao prestar atenção na maçã, estará sendo consciente.

Então, você pode ir mais fundo e, em pouquíssimo tempo, você verá as sementes da maçã, o lindo pomar, o céu, o fazendeiro, o responsável pela colheita e assim por diante. Quanto trabalho em uma única maçã!

Com apenas um pouquinho de consciência plena, você poderá enxergar verdadeiramente de onde vem o pão que come. Ele não vem do nada. O pão vem dos campos de trigo, do trabalho duro e também do padeiro, do fornecedor e do vendedor. No entanto, o pão é mais do que isso. O campo de trigo precisa de nuvens e luz do sol. Portanto, num pedaço de pão, há luz do sol, nuvens, o trabalho do agricultor, a felicidade de se ter a farinha, a habilidade do padeiro 
e ( milagrosamente! ) o pão. O universo inteiro se alinhou para que esse pedaço de pão parasse em suas mãos. E não é necessário refletir muito para se chegar a essa conclusão. Você deve apenas impedir que sua mente se perca em preocupações pensamentos e planejamentos.

Na vida moderna, tendemos a pensar que somos donos do nosso corpo, que podemos fazer o que  quisermos com ele. No entanto, nosso corpo não é apenas nosso. Ele pertence aos nossos ancestrais, aos nossos pais e às gerações futuras. E também pertence à sociedade e a todos os demais seres vivos. As árvores, as nuvens, o solo e todos os seres vivos contribuíram para a presença do nosso corpo. Devemos comer com cuidado, sabendo que somos cuidadores do nosso corpo, em vez de seus donos.

Quando comemos, normalmente pensamos. No entanto, podemos desfrutar muito mais se tentarmos não pensar enquanto comemos, Podemos estar atentos apenas à comida. Algumas vezes, comemos sem estar atentos a esse fato. Nossa mente não está focada. E quando nossa mente não está focada, nós olhamos, mas não vemos. Ouvimos, mas não escutamos. Comemos, mas não percebemos o sabor da comida. Mergulhamos em um estado de esquecimento, a falta de consciência plena. Para estarmos verdadeiramente presentes, devemos parar de pensar. Eis o segredo do sucesso.(...)

Podemos pisar no freio da mente, e verdadeiramente desfrutar da nossa comida. Fazendo isso, nossa vida ganhará uma boa dose de qualidade. Eu adoro me sentar e comer em silêncio, desfrutando de cada mordida, atento à presença de quem me rodeia, atento ao trabalho duro e amoroso que tornou possível aquela comida.
Quando como dessa maneira, não fico apenas fisicamente nutrido, mas também espiritualmente. A maneira de comer influencia tudo o que faço durante o dia.
Comendo, podemos meditar tão bem quanto sentados ou caminhando. É uma chance de recebermos os vários presentes da Terra, tudo o que não seríamos capazes de desfrutar se nossa mente estivesse em outro lugar, Eis um verso que gosto de recitar enquanto como:


Nas dimensões do espaço e do tempo,
Mastigamos em ritmo, assim como respiramos.
Mantendo as vidas de todos os nossos ancestrais,
Abrimos um caminho ascendente aos nossos descendentes.

Podemos empregar o tempo de comer para nos nutrirmos com o melhor de nossos pais, transmitindo os valores mais preciosos às futuras gerações. (...)

Preste atenção a cada garfada. Ao levar o garfo à boca, esteja atento ao fato de que a comida é um presente de todo o Universo. A Terra e o céu colaboraram para levar essa garfada à sua boca. Enquanto respira, tudo o que você precisa é de um segundo ou dois para se dar conta disso. Comemos de uma maneira que cada pedacinho de comida, que cada momento em que nos alimentamos tenha atenção plena. Com apenas alguns segundos, vemos que a comida em nosso garfo é um presente de todo o Universo.
Enquanto mastigamos, mantemos essa consciência viva. Quando mastigamos, sabemos que o Universo inteiro está presente naquele pedaço de comida.(...)

Não precisamos comer muito para nos sentirmos nutridos. Quando estamos presentes e vivos frente a cada pedaço de comida, cada mordida nos enche de paz e felicidade. Repletos dessa alegria podemos descobrir que nos sentimos naturalmente satisfeitos com menos comida.

Quando preparamos uma refeição com total consciência, tudo fica delicioso e saudável. Quando preparamos a comida com consciência plena, amor e cuidado, todos comerão do nosso amor. As pessoas são capazes de desfrutar a refeição com seus corpos e mentes, da maneira que são capazes de desfrutar de uma linda obra de arte. 
Comer não é nutritivo somente para o corpo, mas também para a mente e o espírito.

A cozinha pode ser um espaço de meditação quando praticamos a consciência ao cozinhar e ordenar esse espaço. Podemos decidir executar nossas tarefas de maneira relaxada e serena, seguindo nossa respiração e mantendo a concentração no que estamos fazendo. Trabalhando com outras pessoas, podemos trocar algumas palavrinhas, mas apenas sobre o trabalho que está sendo feito. 
Reserve um bom tempo para cozinhar. Não tenha pressa. Sabendo que nossos corpos e os corpos das pessoas que amamos, dependem da comida que estamos preparando. cozinhamos alimentos saudáveis com infusões de nosso amor e de nossa consciência plena.

Thich Nhat Hahn  em A arte de comer
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