30 de outubro de 2014

Razão e Coração - Pedro Kupfer


"Nas escrituras do Yoga a palavra coração sempre aparece vinculada à consciência, ou a uma maneira de se referir a ela a partir do corpo. Por exemplo, o Yogasūtra (III:35), afirma que “[meditando no] coração, o yogi adquire conhecimento da própria Consciência”.
Por outro lado, a Śvetaśvatara Upaniṣad (II:8), um texto muito mais antigo que o próprio Yogasūtra, ensina o seguinte: “Mantendo o corpo firme, como as três partes eretas [tronco, pescoço e cabeça], o sábio dirige os sentidos e a mente ao interior do coração. Brahman é o barco em que ele atravessa o rio do medo”.
Assim, vemos que o coração ocupa um lugar central no processo do autoconhecimento, pois é uma referência, um ponto de conjunção, digamos assim, entre corpo, mente e Consciência. Por exemplo, quando nos referimos a nós mesmos, apontamos naturalmente com as mãos para o coração.

Quando precisamos fazer referência às coisas do ego, também apontamos para o coração.
A Kaṭha Upaniṣad (I:2:20), outro texto antiquíssimo de Yoga, declara que o coração é o lar da Consciência: “Menor que o infinitesimal, maior que o grandioso, o Ser reside no coração de todas as criaturas. Aquele que domina [a identificação com] seus próprios desejos liberta-se de todo sofrimento e, com a mente e os sentidos em paz, percebe a grandeza do Ser”. Assim, podemos considerar que o coração seja uma espécie de ponte entre o finito e o infinito, entre o corpo-mente e o Ser.

Na fisiologia sutil do Haṭha Yoga, fala-se do “nó” (granthi) do chakra cardíaco que limita, através dos karmas, a experiência da consciência ilimitada apenas ao ego, à mente ou ao corpo físico.
Usando diferentes ferramentas, o yogi tenta cortar esse nó e se libertar dele.
Porém, essa escravidão é aparente, mesmo quando para a pessoa identificada com seus condicionamentos essa seja a única realidade. Essa situação acontece porque ela está enredada nos próprios karmas e não enxergar além deles.

O desejo de vencer a morte, de compreender o que há antes e depois dessa passagem, é tão antigo quanto universal. Na tradição da Índia, “vencer a morte” significa abrir o coração, como fica claro nesta outra passagem da obra que acabamos de citar: “Desfazendo os nós que estrangulam do coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras” (II:3:15).
Os “nós que estrangulam o coração” são as falsas crenças, os condicionamentos e ideias equivocadas que temos sobre nós mesmos.

Percebemos, assim, a bela conexão que os śāstras fazem entre coração e Consciência. Por outro lado, cabe lembrar que não há diferença entre a Consciência e o conhecimento da Consciência. Para saber quem somos, precisamos de conhecimento. E, esse conhecimento, é intelectual.

Não obstante, algumas pessoas atualmente usam a expressão “fazer as coisas com o coração” separando coração e razão como se ambos fossem incompatíveis. Essa visão fragmentária pode causar problemas, uma vez que não existe a tal incompatibilidade entre razão e coração. Pelo contrário, eles estão intrinsecamente ligados.

Conhecimento, de fato, é algo intelectual.
Qual é o problema em relação a isso? O fato de usarmos a inteligência que nos foi dada por Īśvara nos torna necessariamente insensíveis, egoístas ou arrogantes? Creio que não.

Não estou dizendo aqui que não devamos praticar nem que devamos olhar “teoricamente” para o Yoga. Se o objeto de estudo do Yoga e o Si Mesmo, o Yoga não pode ser uma teoria, pelo simples fato de que o Ser que você é, não é uma teoria.
Isso deve ficar claro.

Chegando neste ponto, lembro de uma frase que ouvi do meu mestre, Swāmi Dayānanda, uns meses atrás: “Tem gente que diz que conhecimento é algo intelectual e que mokṣa deveria ser algo diferente, que não acontece no intelecto. Conhecimento é intelectual. Mastigar é dental. E daí?
Onde é que o conhecimento deve ter lugar?
Onde é que ele acontece? No fígado? Nos joelhos? Por que esta alergia à palavra intelecto?”

Ninguém pode ter motivação para a liberdade sem fazer vichāra, sem questionar, sem aprender ou estudar. Mirabai, a grande santa do século XVI, é tida por muitos como uma devota que não estudou, uma pessoa que acredita cegamente em Kṛiṣṇa.
Porém, olhando para sua poesia, percebemos que o autoconhecimento está inteiro lá: “O conhecimento dado a ela por ele [o guru], secou o oceano do saṁsāra. Mira diz: meu mundo inteiro é Kṛiṣṇa. Agora que meu olhar voltou-se para o interior, vejo isso claramente”.

Isso é conhecimento, já que Kṛiṣṇa é Consciência. E esse conhecimento é sempre intelectual, com perdão da palavra e sem entrar em conflito com a devoção, já que a segunda é a consequência natural do primeiro." 

Pedro Kupfer em O Coração no Yoga

28 de outubro de 2014

O centro da mente - J.Krishnamurti


"Enquanto não começarmos a investigar esse processo a que chamamos mente, enquanto não nos familiarizarmos com nosso modo de pensar e o compreendermos, não poderemos descobrir o que é o amor. Não pode haver
amor enquanto nossas mentes desejarem certas coisas do amor ou exigirem que ele atue de determinada forma. 


Quando imaginamos o que deve ser o amor e lhe damos certos motivos, criamos gradativamente um padrão de ação com relação ao amor; mas isso não é amor, é meramente nossa ideia do que deve ser amor.

Digamos, por exemplo, que eu tenha minha esposa ou marido, como vocês tem um sari ou um casaco. Se alguém lhes tomar o casaco, vocês ficarão ansiosos, irritados, encolerizados. Por quê? Porque consideram esse casaco propriedade sua; vocês o possuem, e através de sua posse vocês se sentem enriquecidos, não é? Mediante a posse de muitas roupas vocês se sentem enriquecidos, não só fisicamente, mas também interiormente; e quando alguém lhes leva o casaco, vocês ficam irritados porque interiormente estão sendo privados daquela sensação de riqueza, daquela sensação de posse.

Ora, a sensação de posse cria uma barreira com relação ao amor, não é mesmo? Se eu tenho alguém, se o possuo, será isso amor?
Eu o possuo como quem possui um carro, um casaco, um sari, porque na posse de alguém, essa dependência emocional a outrem, é o que chamamos amor; mas se examinarem isto, verificarão que, por trás da palavra "amor", a mente está tendo satisfação na propriedade. Afinal, quando possuímos muitos saris bonitos, ou um belo carro, ou uma grande casa, a sensação de que isto tudo são coisas nossas nos dá interiormente grande satisfação.

Por isso, ao desejar, a mente cria um padrão e fica presa nesse padrão; e então
fica cansada, entorpecida, estúpida, alheada. A mente é o centro dessa sensação de posse, a sensação de "eu" e de "meu": "Eu possuo alguma coisa", "sou um grande homem", "sou um desprezível", "sou insultado", "sou lisonjeado", "sou esperto", "sou muito bonita", "quero ser alguém", "sou filho ou filha de alguém".
Essa sensação de "eu"e de "meu" é o próprio centro da mente, é a própria
mente. Quanto mais a mente tiver essa sensação de ser alguém, de ser grande ou muito esperta, ou muito estúpida, e assim por diante, tanto mais construirá paredes em torno de si mesma e se encerrará, entorpecendo-se. Então ela sofre, pois nesse encerramento inevitavelmente há dor.

E, porque sofre, a mente diz: "O que devo fazer?" Mas em lugar de derrubar as
paredes que a sufocam por meio da consciência, da reflexão cuidadosa, do
exame detido e profundo da compreensão de todo o processo por meio do qual elas são edificadas, a mente luta para encontrar alguma coisa externa com que encerrar-se novamente. Assim, a mente se torna aos poucos uma barreira para o amor; e sem compreender o que é a mente, o que seja entender os processos de nosso próprio pensar, a fonte interna da ação, não poderemos descobrir o que é amor.(...) 

Não é a mente também um instrumento de comparação?(...) 
Enquanto a mente estiver comparando não haverá amor; e ela está sempre comparando, ponderando, julgando, não é mesmo? está sempre buscando encontrar fraquezas; logo, não há amor. 
Quando pai e mãe amam os filhos, eles não comparam um filho com outro. Mas vocês se comparam com alguém melhor, mais nobre, mais rico; estão sempre preocupados consigo mesmos em relação a alguma outra pessoa e, assim, criam em si próprios uma ausência de amor. Desse modo, a mente se torna cada vez mais comparadora, mais e mais possessiva, mais e mais dependente,
estabelecendo assim um padrão em que se vê presa. Porque é incapaz de contemplar seja o que for como uma novidade, como uma coisa realmente nova, ela destrói o próprio perfume da vida, que é o amor."
J.Krishnamurti em O Verdadeiro Objetivo da Vida

26 de outubro de 2014

Oh! Desperta! Sê consciente! - Tagore


"A cada manhã, a luz do dia - luz de fonte divina - vem nos tirar do sono, pondo fim, em um instante, ao torpor de uma noite inteira.

Quando desce a noite, porém, como romper o estado de ilusória vigília no qual vivemos? Uma longa jornada de trabalhos e preocupações envolveu nosso ser nas redes de sua enganadora aparência: como dela o libertar, a fim de imergi-lo em uma Paz imaculada e sem limites?

Semelhante a uma imensa teia de aranha, tecida de hora em hora, um véu se estendeu ao redor de nossa alma, envolvendo-a de todos os lados e levantando uma tela opaca entre ela e o Eterno. Como perfurar essa tela e abrir-se ao conhecimento do Infinito?

Oh! Desperta! Sê consciente!

Quando, sem cessar, permanecemos mergulhados em múltiplas atividades e confusões inumeráveis, enquanto o véu, fio por fio, se fecha, e a tela, pouco a pouco, se torna espessa, se não mantivermos em nós certa vigilância, graças a esse apelo interior cem vezes repetido.

Oh! Desperta! Sê consciente!

Se esse encantamento, no próprio seio da ação, não brotar, mais uma e ainda outra vez, das profundezas de nosso ser, então, quando nossa consciência se encontrar mais opacamente cercada, ela mergulhará em uma letargia sem fundo.

Nosso desejo de a isso escapar gradualmente se extingue; nossa vida não tem mais outra realidade além da rede em que nos sentimos pegos na armadilha; toda fé em verdade diferente, pura e eterna, é assim aniquilada, e perdemos até a capacidade de nos interrogar sobre nosso aprisionamento.

No zumzum dos nossos trabalhos sem fim, não deixe de ressoar no fundo de nós mesmos, como que emitido por um instrumento de corda única, esse constante chamado:
Oh! Desperta! Sê consciente!"

Rabindranath Tagore em A morada da paz

24 de outubro de 2014

Vida e Morte - Osho

Imagem by Fernand Hick
"A morte é o maior mistério da vida. 
A vida tem muitos mistérios, mas não existe nada que se compare à morte. 
A morte é o clímax, o crescendo. A pessoa tem medo dela porque ela ficará perdida, ela se dissolverá nela.

Ela tem medo da morte por causa do ego — o ego não pode sobreviver à morte. Ele ficará nesta margem quando você passar para a outra; ele não pode ir com você. E o ego é tudo o que você sabe sobre si mesmo, daí o medo, o grande medo: "Eu não existirei mais depois de morrer."

Mas existe uma grande atração também. O ego você perderá, mas não a sua realidade.
Na verdade, a morte lhe revelará a sua verdadeira identidade; ela levará embora todas as máscaras e revelará a sua face original.

A morte tornará possível, pela primeira vez, que você encontre o seu âmago mais profundo, a sua subjetividade mais profunda assim como ela é, sem nenhuma camuflagem, sem nenhum fingimento, sem nenhuma personalidade falsa. Por isso é que todo mundo tem medo da morte e se sente atraído por ela.

Essa atração foi mal-interpretada por Sigmund Freud, que achou que havia um desejo de morte no ser humano — ele o chamou de Thanatos. Ele dizia, "O homem tem dois instintos básicos, fundamentais; um é Eros — um desejo profundo de viver, de viver para sempre, um desejo pela imortalidade — e o outro é Thanatos, o desejo de morrer, de acabar com tudo".

Ele não entendeu o espírito da coisa, pois ele não era um místico; ele só conhecia uma face da morte — que ela é o fim da vida —, ele só sabia uma coisa: que a morte é o fim. Ele não se deu conta de que a morte é também um começo.

Todo fim é somente um começo, porque nada acaba totalmente. Nada pode jamais acabar.
Tudo continua, só a forma muda. 

A sua forma morrerá, mas você também tem algo sem forma em você. O seu corpo não existirá mais, mas você tem algo aí dentro, dentro do seu corpo, que não faz parte do seu corpo.

A sua parte terrena voltará à terra, é pó sobre pó, mas você tem algo do céu em você, algo do além, que empreenderá uma nova jornada, uma nova peregrinação. A morte causa medo se você pensar no ego, e ela agrada você, atrai você, se você pensar no seu verdadeiro eu.

Então a pessoa sente uma vaga atração pela morte; se você ficar totalmente consciente dela, ela pode se tornar uma compreensão transformadora, pode se tornar uma força de mutação.

Procure entender tanto o medo quanto a atração. E não pense que eles sejam
opostos — eles não se sobrepõem, eles não são opostos um do outro; eles não
interferem um no outro. O medo está voltado para uma direção: o ego; e a atração está voltada para uma dimensão totalmente diferente: o eu destituído de ego.

E a atração é muito mais importante do que o medo. O praticante de meditação tem de superar o medo. Ele tem de se apaixonar pela morte, tem de convidar a morte — o praticante de meditação não tem de esperar por ela, ele tem de evocá-la, pois a morte é uma amiga para ele.

E o praticante de meditação morre antes do corpo. E essa é uma das mais belas
experiências da vida: o corpo continua vivendo, externamente você continua
vivendo como sempre, mas interiormente o ego não existe mais, o ego morreu.

Agora você está vivo e morto ao mesmo tempo. Você se tornou um ponto de encontro entre a vida e a morte; você contém agora os opostos polares e é grande a riqueza quando os dois opostos polares estão presentes.

E esses são grandes opostos polares, a vida e a morte. Se abarca ambos, você será capaz de abarcar Deus, pois Deus é ambos.
Uma face de Deus é a vida, a outra face é a morte.

Isso é belo — não torne isso um problema.
Medite a respeito, faça disso uma meditação e você será imensamente
beneficiado."
Osho, em O Livro do Viver e do Morrer: Celebre a Vida e Também a Morte

21 de outubro de 2014

Aprende com o Silencio - Jean-Yves Leloup


"Aprende com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos...

Aprende com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, evitar reclamações vazias e sem sentido...

Aprende com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido...

Aprende com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores...

Aprende com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo.

Aprende com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar, como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa.

Aprende com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar em você as qualidades que você possui, equilibrar os defeitos que você tem e saber que precisa corrigir e enxergar aqueles que você ainda não descobriu.

Aprende com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares...

Aprende com o silêncio a respeitar o seu "eu", a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é o seu corpo, e o Santuário que é a sua vida.

Aprende hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar...

Na natureza tudo acontece com poder e silêncio, com um silêncio poderoso; por vezes, o silêncio é confundido com fraqueza, apatia ou indiferença.

Pensa-se que a pessoa portadora dessa virtude está impedida de reclamar seus direitos e deve tolerar com passividade todos os abusos.

Acredita-se que o silêncio não combina com o poder, pois este tem se confundido com prepotência e violência.

O Sol nasce e se põe em profunda quietude;move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela sem a quebrar.

Acaricia as pétalas de uma rosa sem a ferir, e beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar; aí uma vez vamos encontrar na natureza lições preciosas a nos dizer que o verdadeiro poder anda de mãos dadas com a quietude.

As estrelas e galáxias descrevem as suas órbita com estupenda velocidade pelas vias inexploradas do cosmos, mas nunca deram sinal da sua presença pelo mais leve ruído.
O oxigênio, poderoso mantenedor da vida, penetra em nossos pulmões,
circula discreto pelo nosso corpo, e nem lhe notamos a presença.

A luz, a vida e o espírito, os maiores poderes do universo, atuam com a suavidade de uma aparente ausência.

Como nos domínios da natureza, o verdadeiro poder do homem não consiste em atos de violência física, quando um homem conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência.

A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder.

Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência.

Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que a maioria dos
homens nem percebem a Sua ação.

Essa poderosa força, na qual todos estamos mergulhados, mantém o Universo em movimento, faz pulsar o coração dos pássaros, dos bandidos e dos homens de bem, na mais perfeita leveza.

Até mesmo a morte, chega de mansinho e, como hábil cirurgiã, rompe os laços
que prendem a alma ao corpo, libertando-a do cativeiro físico.

O verdadeiro poder chega: sem ruído, sem alarde e sem violência.
Sempre que a palavra poder lhe vier à mente, lembre-se do Sol: nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela e você só sabe pelo calorzinho que ele
proporciona.

Acarinha as pétalas de uma flor sem a ferir, beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar.

"Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra".
Jean-Yves Leloup em Aprende com o Silencio 

17 de outubro de 2014

Osho fala sobre os Sufis


"Os sufis dizem que se um homem não tem consciência, nada pode ser ensinado. 

Sufi significa consciência na vida, consciência num plano mais elevado do qual normalmente vivemos. 

Um mestre não reajusta a sua mente, ele o ajuda a dissolvê-la livre de
condicionamentos, leis, sociedade. Ele lhe dá liberdade. 

Quando a pessoa começa a se peguntar o que é a religião verdadeira, o
que é o verdadeiro Deus, ela se transforma em um buscador sufi. 

Não há nenhum significado existindo na vida, alguém tem de criá-lo

A verdade religiosa não é uma coisa. É um significado e um sentido. 

Cada pessoa deve ir atrás dela para descobri-la e explorá-la.

O conhecimento é uma teoria, o conhecer uma experiência: conhecer quer dizer que você abre os olhos e você vê.
Conhecimento significa que quem abriu os olhos viu e fala sobre isso e continua a acumular informações.

Os sufis dizem que se uma pessoa quer renunciar a algo, deve renunciar ao conhecimento que acumulou na memória. Essa é a verdadeira barreira para se tornar como crianças, um inocente.

Toda existência é de cada pessoa, Ela deve explorá-la sem nenhum preconceito e filosofia, mantendo a mente aberta, e assim ficará surpresa por descobrir que
Deus existe."
Osho em A sabedoria das Areias

13 de outubro de 2014

O músico e o rei - Conto Indiano


"Aconteceu em Lucknow, nos tempos de Vajid Ali Sha. Ele era o rei de Lucknow e um grande amante da música. Tinha o costume de convidar os dançarinos, cantores e músicos à sua corte. 

Porém, havia um músico que sempre se recusava a ir à corte. Um dia, Vajid Ali Sha foi pessoalmente pedir a ele para que tocasse em seu palácio.

O músico lhe disse:
- Irei, mas com uma condição: quando estiver tocando e cantando, ninguém poderá mexer a cabeça. Se alguém o fizer, deverá ser decapitado.

Vajid Ali Sha ficou surpreso com a condição imposta pelo músico, mas aceitou e mandou seu mensageiro prontamente informar a toda a cidade de Lucknow:

- Aqueles que quiserem vir devem saber que é perigoso. Os soldados estarão atrás de cada comensal, com as espadas na mão, prontos para decapitar o primeiro que mexer a cabeça.

Naquela época, Lucknow tinha mais ou menos dez mil amantes da música, porém, só cinquenta apareceram no concerto. Era muito perigoso! Podia-se mexer a cabeça por causa de um mosquito ou esquecer-se do aviso, pois o músico era muito genial... as cinquenta pessoas ali presentes eram todas amantes da música. Elas estavam arriscando suas próprias vidas.

O músico começou a tocar e era tão genial que, em quinze minutos, algumas cabeças começaram a se mexer. O rei Vajid Ali Sha ficou muito nervoso porque não era só uma cabeça, mas várias e logo outras se juntaram e finalmente todas. Estava muito preocupado porque havia feito uma promessa.

Quando o músico terminou a primeira parte, o rei Vajid Ali Sha lhe perguntou:
-Mando cortar as cabeças? Estou disposto a cumprir com a minha palavra.

O músico deu uma grande gargalhada.
-Não se preocupe. Impus essa condição para que só os verdadeiros amantes da música viessem. Por favor, retire todos os soldados. Agora que todas as cabeças se mexeram continuarei a tocar. Este é o público que esperei durante toda a minha vida. Estas são as pessoas que se esqueceram de si mesmas, que se esqueceram inclusive que corriam o risco de morrer."

Aproveite cada momento, como se fosse o único, fosse o último.
Aproveite a vida em sua totalidade.
Aproveite tudo e cada coisa até o ponto em que se esqueça de si mesmo."
O músico e o rei - conto Indiano

12 de outubro de 2014

Crianças de Deus...


Esta criança que você vê na foto, onde está agora?
Onde está este sorriso, esta alegria, esta fascinação?
Onde?

Onde foram parar a confiança, a descoberta, a leveza, o encantamento?
Onde?

O que aconteceu ao longo do caminho que fizeram com que a vida perdesse a cor, perdesse o brilho, perdesse o amor, a aventura,
O que foi que aconteceu?

Foram os anos, os dias, as horas?
Foram as dores? As perdas? Os ganho$$?
Foram os problemas? Os desafios? Os medos? 
O que foi que aconteceu?

O que você sente quando vê sua fotografia de criança?
O que ressona no seu coração? Saudade? 
Saudade? 
Ou seria...saudade?

Viver é mesmo se perder e se encontrar...
Nos perdemos daquilo que não somos, daquilo que imaginávamos que fosse,
daquilo que projetamos sobre vida...
E nos encontramos cada dia mais com a verdade.. a realidade...
Sempre disponível, mas pouco desfrutada, 
realidade é sempre superior a qualquer sonho,
a qualquer idealização...

Quando vivemos o momento presente e encontramos nele todo o sabor,
toda a cor, todo o amor,
nossas vidas tem sempre o gosto de "quero mais"!!!
Não perde a cor, não perde a beleza nem a espontaneidade...

Somos a vida! Seja ela como for!!

Nossa casa é sempre aqui,
Nosso tempo é esse agora,
Nossa alma canta e dança a música do instante...

Rir e chorar, partir e chegar, 
noite e dia, vida e morte,
sul e norte, ter ou não ter,
são belezas sempre presentes, 
são poesias, 
versos, 
estrofes
que Deus canta em cada um de nós...

Suas amadas crianças...
crianças de Deus...

-Amidha Prem- 


10 de outubro de 2014

Os chamados do Universo - Jeff Foster



"Os desastres, catástrofes, tragédias e choques em sua vida não foram erros,
falhas ou punições do universo. 

O universo não premia ou castiga – não usa as regras humanas dualistas. Estes momentos difíceis foram chamados para o despertar, e fizeram com que você desacelerasse, fizesse um balanço da sua vida, parasse de se distrair ou se fazer indiferente, e a fazer perguntas profundas e muitas vezes difíceis sobre a realidade. Fizeram com que você voltasse a focar naquilo que realmente importa, voltasse a a se comprometer com o seu caminho de curiosidade e interminável investigação da forma.

Sem os desafios que você experimentou, sem as crises que você atravessou, sem a dor que você sentiu, não haveria o real entendimento da impermanência das coisas, e de certa forma você ainda acreditaria que o ego era o imperador supremo. 

A sua dor expôs as mentiras da supremacia do ego e da ilusão do controle. As suas lutas salvaram você de endurecer um sólido "eu", de torná-lo algo que você jamais seria.

Sob este prisma, não há erros, não há ‘problemas’, mas apenas desafios, chamados ao despertar e momentos de grande incerteza; apenas circunstâncias que estão desesperadamente ansiando por sua generosa atenção e amorosa presença. 

Não existem aberrações em sua vida - apenas intermináveis oportunidades para colocar novo foco em seu caminho, para relembrá-lo com convicção de quem você verdadeiramente é, para viver esta preciosa e frágil vida momento pós momento, e submergir cada vez mais profundo em maravilha e gratidão.(...)

Nós nomeamos tudo, incluindo a nossa própria experiência íntima. 'Tristeza', nós dizemos. 'Raiva'. 'Medo'. 'Frustração'. 'Alegria'. 'Tédio'. 'Saudade'. Mas as emoções são apenas energias em movimento, e além dos rótulos conceituais, sem as palavras, nós realmente não temos nenhum meio de saber o que estamos vivenciando. Retire o rótulo da 'tristeza', e que é isso? Retire a descrição da 'raiva', e o que é isso? 

Remover o conceito de 'tédio' e o que é essa nua e crua energia de vida que pulsa em você? Torne-se curioso. Permita que a sua experiência presente se torne totalmente fascinante. 

Pare de chamar a energia de 'positiva' ou "negativa', 'claro' ou 'escuro", 'certo' ou 'errado', e o que sobra? Volte para as sensações do corpo. Vida nua e crua. 

O palpitar do mistério. Formigamento, sensações vivas - irritação, tédio, entusiasmo, intensidade, oscilação - dançando na barriga, peito, pescoço, cabeça. Inseparáveis daquilo que você é. Íntimos. Sagrados. Tão presentes,
vivos apenas neste momento."
Jeff Foster em Satsang

7 de outubro de 2014

Onde você está? - Osho


"Você me pergunta: O que eu quero? 

Eu é que deveria estar lhe perguntado isso, em vez de você me perguntar, porque isso depende de onde você está. Se está identificado com o corpo, seus desejos serão diferentes; então, o alimento e o sexo serão suas únicas vontades, seus únicos desejos. Esses dois são desejos animais, os mais básicos. Não os estou condenando por chamá-los de os mais básicos. Não os estou avaliando. Lembre-se, estou apenas estabelecendo um fato: o degrau mais baixo da escada. Mas se você está identificado com a mente, seus desejos serão diferentes: música, dança, poesia; e além dessas, há milhares de coisas...

O corpo é muito limitado; ele tem uma polaridade simples: alimento e sexo; Ele se move como um pêndulo entre esses dois, o alimento e o sexo; não tem nada além disso. Mas se você estiver identificado com a mente, então a mente tem muitas dimensões. Você pode estar interessado em filosofia, pode esta interessado em ciência, em religião - pode estar interessado em quantas coisas puder imaginar.

Mas, se você estiver interessado com o coração, então seus desejos terão uma natureza ainda mais elevada, mais elevada do que a mente. Você se tornará mais estético, mais sensível, mais alerta, mais amoroso. A mente é agressiva, o coração é receptivo. A mente é masculina, o coração é feminino. A mente é lógica, o coração é amor.

Assim, depende de onde você está fixado: no corpo, na mente, no coração. Esses são os três lugares mais importantes a partir dos quais uma pessoa pode atuar. Mas há também um quarto espaço dentro de você. No Oriente ele é chamado de turiya . Turiya significa simplesmente " o quarto, o transcendental".
Se você está consciente de sua transcendentalidade, então todos os desejos desaparecem. Então, a pessoa simplesmente não tem nenhum desejo, nenhuma indagação a ser satisfeita. Não há futuro e não há passado. Então a pessoa vive apenas o momento, totalmente satisfeita, preenchida. No quarto, você se torna divino.

Você está me perguntando: O que eu quero? Isso simplesmente lhe mostra que você nem sabe quem você é, onde está fixado. Você terá de pesquisar dentro de si mesmo - e isso não é muito difícil. Se não o alimento e o sexo que ocupam a maior parte de você, então é com eles que você está identificado; se é algo relacionado com o pensamento, então é com a sua mente; se está relacionado com o sentimento, então é com o coração. E é claro, não pode haver o quarto; do contrário a pergunta não seria sequer cogitada!

Assim, em vez de lhe responder, gostaria de lhe perguntar onde você está. Investigue! Onde você está? Que tipo de identificação você tem? Onde está paralisado? Só então as coisas podem ficar claras - e isso não é difícil. Mas acontece repetidas vezes de as pessoas fazerem belas perguntas. (...)

Essas perguntas, são apenas perguntas tolas, não são realmente perguntas deles. Eles não estão de modo algum preocupados com sua real situação. Estão fazendo belas perguntas, metafísicas, esotéricas, para mostrar que são seres da mais alta qualidade; que são eruditos, que reconhecem as Escrituras, que são investigadores; que não são pessoas comuns, que são extraordinárias, religiosas. Isso está conduzindo-os a uma confusão cada vez maior.

É sempre bom perguntar o que é importante para você, em vez de perguntar algo que não é de modo algum de seu interesse. As pessoas me perguntam se Deus existe ou não, e elas nem sequer sabem se elas existem ou não!

Outro dia um indiano me perguntou: Por que eu estou aqui?

E você está realmente aqui? Pergunte a si mesmo, se você está realmente aqui. Eu não acho que você esteja aqui. Fisicamente é claro, que você está aqui, mas espiritualmente, realmente, você não está aqui. A menos que se livre da ideia de ser um indiano, de ser um hindu, você não pode estar aqui, não pode ser parte de minha comuna. Você carregou todos os tipos de bobagem que estão dentro de você e ainda está ligado a eles.(...)

Investigue, procure exato lugar onde você está. No que me diz respeito, todo desejo é puro desperdício, todo desejo é errado. Mas se você está identificado com o corpo, não posso dizer isso para você, porque isso estará muito distante de você. Se estiver identificado com o corpo, eu lhe direi: passe a ter desejos mais elevados, os desejos da mente, e depois passe a ter desejos mais elevados, os desejos do coração, e destes finalmente para o estado de ausência de desejos. Nenhum desejo pode jamais ser satisfeito. Esta é a diferença entre a abordagem científica e a abordagem religiosa. A ciência tenta satisfazer seus desejos, e é claro que a ciência conseguiu obter sucesso em muitas coisas, mas o homem continua na mesma infelicidade. A religião tenta despertá-lo para esse grande entendimento a partir do qual você pode enxergar que todos os desejos são intrinsecamente impossíveis de serem satisfeitos.

A pessoa tem de ir além de todos os desejos; só então haverá o contentamento. O contentamento não está no fim de um desejo, o contentamento não vai existir pela satisfação do desejo, porque o desejo não pode ser satisfeito. Quando você conseguir a satisfação de seu desejo, verá que outros mil e um desejos aparecem. Cada desejo se subdivide em muitos novos desejos. E repetidas vezes isso vai acontecer, e toda a sua vida será desperdiçada.

Aqueles que conheceram, aqueles que viram, os budas os acordados, todos concordaram em um ponto. Não é algo filosófico, é factual: o contentamento só existe quando todos os desejos foram abandonados. É com a ausência dos desejos que o contentamento surge dentro de você - na ausência. Na verdade, a própria ausência dos desejos é o contentamento, sua satisfação, sua fruição, seu florescimento.

Assim, passe dos desejos mais inferiores para os mais elevados, dos desejos mais grosseiros para os mais sutis, e depois para os mais sutis ainda, porque a partir do mais sutil o salto será para a ausência de desejos. A ausência de desejo é o nirvana.

Nirvana, é uma das mais belas palavras; qualquer língua pode se orgulhar dessa palavra. Ela tem dois significados, mais esses dois significados são como dois lados da mesma moeda. Um significado é a cessação do ego, e o outro é cessação dos desejos. Isso acontece de maneira simultânea. O ego e os desejos estão intrinsecamente juntos, são totalmente inseparáveis. No momento em que o ego morre, o desejo desaparece, ou vice-versa. No momento em que os desejos são transcendidos, o ego é transcendido.E não ter desejo é estar desprovido de ego, é saber que a bem-aventurança fundamental é conhecer o êxtase eterno que começa, mas nunca termina."
Osho em A jornada de ser humano.

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