29 de agosto de 2015

Duas dimensões - Osho


"A vida possui duas dimensões. 
Uma é horizontal — na qual todos vocês estão vivendo, na qual vocês estão 
sempre pedindo por mais e cada vez mais e mais. A quantidade não é a questão; nenhuma quantidade vai satisfazê-los. A linha horizontal é a linha quantitativa. Você pode ir seguindo sem parar. Ela é como o horizonte — à
medida que você segue adiante, o horizonte continua recuando. A distância entre você e a meta do seu "cada vez mais", a meta do desejo, permanece sempre a mesma.

Ela era a mesma de quando você era uma criança, era a mesma de quando você era jovem, será a mesma quando você for idoso. A distância permanecerá a mesma até o seu último suspiro.

A linha horizontal é uma ilusão.

O horizonte não existe, somente aparenta — lá, talvez a apenas algumas milhas de distância, o céu esteja encontrando-se com a terra. Eles não se encontram
jamais. E a partir do horizonte vem a linha horizontal — sem fim, porque a meta é ilusória; você não pode torná-la realidade.
E a sua paciência é limitada, seu período de vida é limitado. Um dia, você percebe que tudo parece fútil, sem significado: "Estou me arrastando sem necessidade, me torturando, chegando a lugar nenhum..." 

Aí então o oposto surge em você — "Destruir-se. Não vale a pena viver, porque a vida promete, mas jamais dá o prometido."

Mas a vida tem uma outra linha — uma linha vertical.

A linha vertical se move em uma dimensão totalmente diferente. Em tal experiência, por um momento, você vira sua face na direção vertical. Você não está pedindo — eis por que está recebendo.Você não está desejando — eis por que tanto torna-se disponível a você.

Você não tem uma meta — eis por que você se aproxima tanto dela. Devido a não haver nenhum desejo, nenhuma meta, nenhuma pergunta, nenhum pedido, você não tem qualquer espécie de tensão — você está completamente relaxado.

Nesse estado relaxado está o encontro com a consciência.

O medo surge no momento em que você chega ao ponto de dissolver sua última parte, porque, então, será irrevogável: você não será capaz de retornar.

Já contei muitas vezes um belo poema de Rabindranath Tagore.

O poeta estava procurando por Deus há milhares de vidas. Ele o via às vezes, lá longe, próximo a uma estrela, e ele começou a mover-se naquele caminho, mas, no momento em que chegou àquela estrela, Deus mudou-se para outro lugar. Mas ele continuou procurando e procurando — ele estava determinado a descobrir a casa de Deus — e a surpresa das surpresas foi que, certo dia, ele de
fato chegou a uma casa onde na porta estava escrito: "Casa de Deus".

Você pode compreender o seu êxtase, pode compreender sua alegria. Ele corre escada acima e, bem na hora em que ia bater à porta, de repente sua mão gela.
Surge-lhe uma ideia: "Se por acaso esta for realmente a casa de Deus, então, estou morto, minha busca acabou. Fiquei identificado com a minha busca, com a minha procura. Eu não sei fazer mais nada... Se a porta se abrir e eu encontrar-me com Deus, estou morto... — acabou-se a busca. E depois? Depois há uma eternidade entediante — nenhum excitamento, nenhuma descoberta, nenhum desafio novo, pois não pode haver nenhum desafio maior do que Deus."

Ele começou a tremer de medo, tirou os sapatos dos pés e desceu de volta os lindos degraus de mármore. Ele tirou os sapatos, de modo que não fosse feito
nenhum barulho, pois o seu medo era até de fazer barulho nos degraus... Deus podia abrir a porta, embora ele nem tivesse batido. E, então, ele correu tão depressa quanto jamais correra antes. Ele pensava que estava correndo atrás de Deus tão depressa quanto podia, mas nesse dia, subitamente, ele encontrou a energia que jamais tivera antes.
Correu como jamais tinha corrido, sem olhar para trás.

O poema termina assim: "Eu ainda estou procurando por Deus. Conheço sua casa, assim a evito e busco em outro lugar. A excitação é grande, o desafio é grande e, na minha busca, eu prossigo, continuo a existir. Deus é um perigo — eu seria aniquilado. Mas agora eu não tenho medo nem de Deus, porque conheço Sua casa. Sendo assim, deixando de lado a Sua casa, continuo procurando por Ele, ao redor de todo o universo. E lá no fundo eu sei que minha busca não é por Deus: minha busca é para nutrir o meu ego."

Eu coloco Tagore como um dos maiores religiosos do nosso século, embora ele não seja, comumente, relacionado à religião. Mas somente um homem religioso de enorme experiência poderia escrever este poema; não é apenas uma poesia comum: ela contém uma grande verdade. E é isso o que a sua questão está levantando.

Relaxado, você chega a um momento em que você sente que vai desaparecer, e então você pensa: "Talvez isto seja um instinto suicida."; e retorna ao seu velho
mundo miserável. Mas esse mundo miserável possui uma coisa: ele protege o seu ego, permite-lhe ser.

Esta é uma estranha situação: a bem-aventurança não permite você; você tem de desaparecer. É por isso que você não vê muitas pessoas abençoadas no mundo. A infelicidade nutre o seu ego — é por isso que você vê tanta gente infeliz no mundo. O ponto central, básico, é o ego. 
Sendo assim, você não chegou a um ponto de suicídio. Você chegou a um ponto de nirvana, de cessação, de desaparição, do apagar da vela. Esta é a última
experiência. Se você puder juntar coragem... só mais um passo... A existência está apenas a um passo distante de você.

Não dê ouvidos ao lixo da sua mente, dizendo que isto é suicídio. Você não está bebendo veneno, nem se dependurando numa árvore, e nem tampouco dando um tiro de revólver em si mesmo — onde o suicídio? Você está simplesmente tornando-se mais tênue e cada vez mais e mais tênue. E chega um momento em que você está tão diluído e tão espalhado por toda a existência, que você não pode dizer que você é, mas pode dizer que a existência é.

A isto chamamos de iluminação, não de suicídio.
A isto chamamos de realização da suprema verdade. Mas você tem de pagar o preço. E o preço não é nada, senão o abandono do ego. Sendo assim, quando um tal momento vier, não hesite. Dançando, desapareça... com uma grande gargalhada, desapareça; com canções em seus lábios, desapareça.

Eu não sou um teórico, isto aqui não é uma filosofia minha. Eu cheguei à mesma linha limítrofe muitas vezes, e retornei. Eu também encontrei a casa de Deus muitas vezes e não pude bater. Jesus tem alguns dizeres... Um dos dizeres é este: "Bata, e a porta se abrirá para você." Se esta frase tem algum sentido, este é o sentido que estou lhe dando agora.

Assim, quando esse momento vier, regozije-se e dissolva-se. É da natureza humana — e compreensível — que muitas vezes você retorne. Mas essas muitas vezes não contam. Uma só vez, junte toda a coragem e dê um salto. Você será, mas de modo tão novo, que não poderá conectá-lo com o velho. Será uma descontinuidade. O velho era tão frágil, tão restrito, tão medíocre... e o novo é tão vasto... De uma pequenina gota de orvalho, você tornou-se o oceano.
Mas até mesmo uma gota de orvalho, ao escorregar de uma folha de lótus, treme por um momento, tenta agarrar-se um pouco mais, porque ela já pode ver o oceano... uma vez que tenha caído da folha de lótus, acabou-se.

Sim, de certo modo, ela não mais será — como uma gota de orvalho, ela terá deixado de ser. Mas isso não é uma perda. Você será oceânico.
E todos os outros oceanos são limitados.
O oceano da existência é ilimitado."
Osho em Eu sou a porta

26 de agosto de 2015

Palavras, palavras, palavras - Osho


"As palavras são importantes. Algumas vezes a mudança de uma pequena palavra, substituindo uma outra palavra, pode mudar toda a sua vida,
...porque palavras não são apenas palavras. 


Elas têm disposições de ânimo, climas próprios. Quando uma palavra se aloja em você, ela traz um clima diferente à sua mente, uma abordagem diferente, uma visão diferente. Chame a mesma coisa de um nome diferente e veja: algo fica imediatamente diferente.(...)

Há palavras de sentimento e há palavras intelectuais.

Cada vez mais abandone as palavras intelectuais. Use cada vez mais palavras de sentimento. Há palavras políticas e palavras religiosas. Abandone as palavras políticas. 

Há palavras que imediatamente criam conflito. No momento em que você as pronuncia, surge a argumentação. 

Assim, nunca use a linguagem lógica, argumentativa. Use a linguagem do afeto, do carinho, do amor, de modo que não surja nenhuma discussão.

Se você começar a ficar consciente disso, perceberá uma imensa mudança surgindo. Se você estiver um pouco alerta na vida, muitas infelicidades poderão ser evitadas. 

Uma única palavra pronunciada na inconsciência pode criar uma longa corrente de aflição. Uma leve diferença, apenas uma virada muito pequena, e isso faz uma enorme mudança. Você deveria ser muito cuidadoso e usar as palavras quando for absolutamente necessário. 

Evite palavras contaminadas. . Use palavras novas, livres de controvérsias, que não provoquem argumentos, discussões, mas que apenas expressem seus sentimentos.

Se puder tornar-se um profundo conhecedor das palavras, toda a sua vida será diferente.

As suas relações serão diferentes, porque noventa e nove por cento de uma relação dá-se através de palavras e gestos.

Se uma palavra causa sofrimento, raiva, conflitos, discussões, deixe-a de lado.

Qual o sentido em usá-la? Substitua essa palavra por algo melhor: pelo silêncio.
Depois do silêncio, há o canto, a .poesia, o amor..."

Osho em A Rose is a Rose is a Rose is a Rose

23 de agosto de 2015

Buda e Mara - Thich Nhat Hahn


"Quando falamos sobre o que Buda é, temos que falar também sobre o que Buda não é. O oposto de Buda é Mara ( Maya ). Se Buda é iluminação, então tem que haver algo que não é iluminação. Mara ( Maya ) é a ausência de iluminação. 

Se o Buda é entendimento, então Mara é desentendimento, e se o Buda é bondade amorosa, então Mara é ódio ou raiva e assim por diante. Se não
entendermos Mara, não podemos entender o Buda.

Assim como a rosa é feita de elementos não-rosa, o Buda é feito de elementos não-Buda, e entre esses elementos está Mara. 
Se o lixo não existisse, então a rosa não poderia existir também. Este insight é tão importante que transformou completamente meu entendimento do Buda.
Quando você olha para uma rosa, pode vê-la como imaculada e muito bonita. E o oposto da rosa é o lixo, que não é bonito e não cheira muito bem. Mas se
olhar profundamente para a rosa, verá que o lixo está nela, antes dela, depois dela e também neste momento.

Como isso é possível?
Jardineiros não jogam fora o lixo. Eles sabem que com carinho, em apenas alguns meses, o lixo se tornará composto que pode ser usado para fazer crescer
alfaces, tomates e flores. Jardineiros são capazes de ver flores ou pepinos no lixo. Além disso, eles sabem que todas as flores se tornam lixo. Este é o
significado da impermanência – todas as flores se tornam lixo. Embora ele seja mau cheiroso e desagradável, se você sabe como cuidar dele, pode transformá-lo novamente em flores. Isso é que o Buda descreveu como o modo não dualístico de ver as coisas. 

Se olhar as coisas desse modo, entenderá que o lixo é capaz de se tornar uma flor e a flor é capaz de se tornar lixo.

Cada vez que praticar a plena consciência – quando vive em plena atenção – você é um Buda. Quando vive no esquecimento, você é Mara. Mas não pense que Buda e Mara são inimigos e que passam o dia todo lutando entre si. Não. Eles são amigos. Aqui segue uma história que eu escrevi:

Um dia, o Buda estava em uma caverna, onde estava fresco. Ananda, seu assistente, estava praticando meditação caminhando perto da caverna, tentando
interceptar as muitas pessoas que sempre vinham visitar o Buda, de forma que ele não recebesse convidados o dia todo. Neste dia, enquanto Ananda estava praticando, viu alguém se aproximando. Quando a pessoa chegou perto, Ananda reconheceu Mara.
Mara tentou o Buda na noite antes dele se tornar iluminado. Mara disse ao Buda que ele poderia se tornar um homem de grande poder – um político, um
rei, um presidente, um ministro ou um bem sucedido homem de negócios com dinheiro e lindas mulheres – se ele desistisse de sua prática de plena consciência.


Mara tentou duramente convencer o Buda, mas não funcionou.
Embora Ananda tenha se sentido desconfortável ao ver Mara, Mara já o tinha visto, portanto não poderia se esconder. Eles se cumprimentaram.
Mara disse: “Eu quero ver o Buda.”
Quando o líder de uma corporação não quer ver alguém, ele pede para sua secretária dizer: “Desculpe, ele agora está em uma conferência.” Embora Ananda quisesse dizer algo assim, sabia que estaria mentindo e ele queria praticar o Quarto Treinamento - não mentir. Portanto ele decidiu dizer o que estava em seu coração para Mara.

“Mara, porque o Buda deveria vê-lo? Qual o motivo? Você não lembra que foi derrotado pelo Buda sob a árvore de Bodhi? Como você ousa vê-lo de novo? Não tem vergonha? Porque ele deveria vê-lo? Você é seu inimigo.”
Mara não foi desencorajado pelas palavras do Venerável Ananda. Ele apenas riu enquanto ouvia ao jovem. Quando Ananda terminou, Mara riu e perguntou: 

“Realmente seu professor diz que tem inimigos?”
Isto fez Ananda ficar muito desconfortável. Não parecia correto dizer que o Buda tinha inimigos, mas ele disse! O Buda nunca disse que tinha inimigos. Se você não está concentrando muito profundamente ou plenamente consciente, pode dizer coisas que são contrárias ao que você sabe e pratica. Ananda estava
confuso. Ele entrou na caverna e anunciou Mara, esperando que seu professor dissesse, “Diga a ele que não estou em casa!” ou “Diga a ele que estou em uma
conferência.”

Para surpresa de Ananda, o Buda sorriu e disse: “Mara! Maravilha! Peça a ele para entrar!”
Ananda estava perplexo pela resposta do Buda. Mas ele fez o que o Buda disse e convidou Mara para entrar. E você sabe o que o Buda fez? Ele abraçou Mara! Ananda não podia entender isso. Então o Buda convidou Mara para sentar no melhor lugar da caverna e virando-se para seu amado discípulo disse: “Ananda, você poderia ir e nos preparar um chá de ervas?”

Como você deve ter adivinhado, Ananda não estava muito feliz com isso. Fazer chá para o Buda era uma coisa – ele poderia fazer milhares de vezes ao dia –
mas fazer chá para Mara não era algo que ele queria fazer. Mas como foi o Buda que pediu, ele não poderia recusar.

Buda olhou amavelmente para Mara. “Querido amigo”, ele disse, “como tem passado? Está tudo bem?”Mara respondeu: “Não, as coisas não vão bem, elas vão mal. Estou muito cansado de ser Mara. Quero ser outra pessoa, alguém como você. Onde quer que você vá é bem vindo e as pessoas te reverenciam. Você tem muitos monges e monjas com faces amáveis te seguindo e te
oferecem bananas, laranjas e kiwis. “Onde quer que eu vá”, Mara continuou, “tenho que vestir a persona de um demônio – tenho que falar de uma maneira convincente e manter um exército de pequenos demônios maliciosos. Cada vez que expiro, tenho que respirar fumaça do meu nariz! Mas eu não ligo muito para essas coisas; o que me aborrece bastante é que meus discípulos, os pequenos Maras, começaram a falar sobre transformação e cura. Quando eles falam sobre liberação e budeidade, não posso suportar. É por isso que eu vim para te pedir se podemos trocar os papéis. Você pode ser Mara e eu serei Buda.

Quando o Venerável Ananda ouviu, ficou tão aterrorizado que pensou que seu coração poderia parar. Como ficaria se o Buda decidisse trocar papéis? Então Ananda seria o assistente de Mara!

Ananda esperou que o Buda recusasse.
O Buda calmamente olhou para Mara e sorriu. “Você acha que é fácil ser um Buda?” Ele perguntou. “Pessoas estão sempre me entendendo mal, colocando
palavras na minha boca. Eles constroem templos com estátuas minhas feitas de cobre, gesso, ouro e até mesmo esmeraldas. Grandes multidões me oferecem
bananas, laranjas, doces e outras coisas. Ás vezes sou carregado em procissão, sentando como um bêbado em cima de flores. Eu não gosto de ser esse tipo de
Buda. Muitas coisas danosas foram feitas em meu nome.

Portanto, você pode ver que ser um Buda é também muito difícil. Ser um professor e ajudar a prática das pessoas não é uma profissão fácil. Na verdade, eu não penso que você gostaria muito de ser um Buda. É melhor se ambos continuarmos a fazer o que estamos fazendo e tentar fazer o nosso melhor.”
Se você estivesse lá com Ananda, e se estivesse plenamente consciente, poderia ter sentido que Buda e Mara eram amigos. Eles se complementam como dia e noite, flor e lixo vindo juntos. Este é um profundo ensinamento do Buda.

Agora você tem uma idéia de que tipo de relação existe entre Buda e Mara. Buda é como a flor, muito fresca e bonita. Mara é como o lixo – fedorento,
coberto de moscas e desagradável de tocar. Mara não é de forma nenhuma agradável, mas se você sabe como transformar Mara, Mara se tornará o Buda. E se você não souber como tomar conta do Buda, ele se tornará Mara.
Olhando as coisas desse modo, sabemos que os elementos não-rosa, incluindo o lixo, se uniram para tornar a rosa possível. Portanto o Buda é algo como a rosa. Mas se você olhar profundamente no Buda, verá Mara; Buda é feito de elementos de Mara. E quando você entende esse ensinamento budista, pode ver a vacuidade de tudo, porque nada tem sua própria existência absoluta. Uma rosa é feita de elementos não-rosa, por isso não tem existência separada; é por
isso que é chamada vazia. Uma rosa é vazia de um eu separado, porque é sempre feita de elementos não rosa.

Interser inclui tudo – não apenas o Buda e Mara, rosas e lixo – mas também sofrimento e felicidade, bem e mal. Pegue o sofrimento, por exemplo. Sofrimento é feito de felicidade e felicidade é feita de sofrimento. Bem é feito do mal, e mal é feito do bem. Direita é feita da esquerda e esquerda é feita da direita. Isto precisa daquilo para ser. Removendo isto, aquilo irá desaparecer. 

O Buda disse, “Isto é, porque aquilo é.” Isto é um ensinamento muito especial do budismo. Portanto a prática da meditação budista começa com a aceitação da rosa e do lixo em nós. Quando vemos a rosa em nós, ficamos felizes, mas estamos conscientes que se não tomarmos cuidado disso, rapidamente se tornará um pedaço de lixo. Portanto, aprendemos como tomar conta de forma que ficará conosco mais tempo. 

Quando começa a deteriorar em lixo, não ficamos com medo, porque sabemos como transformar o lixo na rosa de novo. Portanto quando você testemunhar um sentimento de ansiedade, se você olhar profundamente para ele, verá uma semente de felicidade e liberação aí. É assim que a transformação acontece.

Thich Nhat Hanh em 
Under a Rose Aplle Tree

21 de agosto de 2015

Vida e Morte - Osho


"A morte é uma parte da vida orgânica e integral, e é muito amigável com a vida. Sem ela a vida não poderia existir. A morte é, de fato, um processo de renovação.

E a morte também acontece a cada momento, como a vida acontece,porque a renovação é necessária a cada momento. No momento em que você inspira e no momento em que você expira, ambas acontecem.

Inspirando, a vida acontece, expirando, a morte acontece. É por isso que quando uma criança nasce, a primeira coisa que ela faz é inspirar, então a vida começa. E quando um homem velho está morrendo, a última coisa que ele faz é expirar, então a vida se afasta. Expirando é a morte, inspirando é a vida - e ambos são como duas rodas de um carro de boi.

Você vive pela inspiração na medida em que vive pela expiração.

A inspiração é a parte da expiração. Você não pode inspirar, se você parar de expirar. Você não pode viver se você parar de morrer. O homem que compreende o que é a sua vida, permite que a morte aconteça, ele a acolhe. Ele morre a cada momento e em cada momento ele ressuscita. Sua vida e sua ressurreição estão continuamente acontecendo como um processo. Ele morre para o passado a cada momento e que ele nasce de novo e de novo para o futuro.

Se você olhar para a vida, você será capaz de saber o que é a morte. Se você entender o que é a morte, então você será capaz de entender o que é a vida. Eles são orgânicos. Normalmente, por medo, criamos uma divisão. Nós pensamos que a vida é boa e a morte é ruim. Nós pensamos que a vida deve ser desejada e a morte deve ser evitada. Achamos que de alguma forma temos que nos proteger contra a morte. Esta ideia absurda, cria misérias infinitas em nossas vidas, porque uma pessoa que se protege contra a morte torna-se incapaz de viver. Ela é a pessoa que tem medo de expirar, então ela não pode inspirar, então ela está presa. Então, ela simplesmente afunda, sua vida já não é um fluxo, a sua vida não é mais um rio.

Se você realmente quer viver, você tem que estar pronto para morrer.

Quem tem medo da morte em você? É a vida com medo da morte? Isso não é possível. Como a vida pode ter medo do seu próprio processo integral?

Outra coisa é que provoca o medo em você.

O ego tem medo em você.

Vida e morte não são opostos; ego e morte são opostos.

Ego é contra a vida e a morte.

O ego tem medo de viver e o ego tem medo de morrer. Ele tem medo de viver pois cada esforço, cada passo em relação à vida, traz a morte para mais perto."

Osho em The Art of Dying

19 de agosto de 2015

Iluminação ou frustração - Pedro Kupfer


"Pode ser que já estejamos no caminho da espiritualidade há tempos. Pode ser que já tenhamos feito muitas aulas, práticas, meditações e reflexões.
Pode ser que já tenhamos feito peregrinações, cursos e retiros. Pode ser que já tenhamos vivenciado algumas inesquecíveis experiências místicas. Que nos
falta para assumir a felicidade que somos?

Pode ser que já tenhamos encontrado pessoas muito especiais no nosso caminho. Pode ser que tenhamos conhecido belos exemplos de vida e que tenhamos lido páginas e mais páginas das biografias dos santos homens, que nos inspiram a viver uma vida com mais sentido, foco e significado.

E, apesar de quiçá já tenhamos ouvido tudo o que precisávamos em relação ao ensinamento sobre nós mesmos, e apesar de talvez já conhecermos todas as
soluções para os problemas do sofrimento humano, é possível que alimentemos ainda a crença de que não merecemos conhecer a nós mesmos como plenitude. Em suma, de que não merecemos aquilo que almejamos.

Pode acontecer que tenhamos a tendência a separar a liberdade que o Yoga nos propõe das pequenas misérias do cotidiano, como se fossem universos diferentes. Ou que alimentemos a ideia de que a plenitude é incompatível com algumas coisas pequenas do dia-a-dia, como por exemplo quando as coisas práticas não funcionam de acordo com nossos desejos ou expectativas. Assim, nos descobrimos com lamúrias na ponta da língua, carregando o nosso coração com emoções indesejáveis, infelizes ou frustrados.

Se esse for o nosso caso, devemos lembrar que esse tipo de sentimento faz parte da riqueza e variedade dos conteúdos que integram uma emocionalidade
saudável e funcional. O tema é que eles não devem durar muito, nem devem ficar tempo demais dando voltas na nossa mente.

Lembro que uma vez perguntaram ao Dalai Lama: “O senhor não sente raiva?” A resposta dele foi brilhante, e esclarece o ponto que acabamos de colocar aqui: “É claro que sinto raiva, mas ela dura somente cinco minutos!”

Se nossa frustração ou desapontamento durar mais do que isso, então precisamos reagir e imediatamente, voltar à presença no agora, voltar a ter presente o ensinamento que nos mostra que já somos o que buscamos, simplificar as coisas, aceitar o nosso ego como ele é e focarmos no reconhecimento do milagre da vida acontecendo neste preciso instante.

Não precisamos esperar para nos assumir como o Ser Pleno que somos! Que possamos manter o foco na compreensão da felicidade essencial, sobre a qual
acontecem todas as experiências. Que possamos evitar comparações desabonadoras. Que possamos nos desprender de julgamentos e atitudes autodestrutivas já mesmo.
Que possamos nos reconhecer como felicidade agora, sem mais delongas. Que reconheçamos o amor ilimitado e incondicional que sempre nos alimentou e que nos sustenta a cada momento. Que essa seja a nossa prece.
Que essa seja a nossa certeza. Que possamos nos estabelecer na visão do Ilimitado, agora e sempre.
Namaste!"


Prof. Pedro Kupfer

16 de agosto de 2015

A Canção do Coração - Hsin-Hsin-Ming


"Não é difícil descobrir tua Mente Búdica.
Simplesmente deixe de procurá-la. 
Deixe de aceitar e rejeitar possíveis lugares 
Onde pensas que ela possa estar. 
E ela aparecerá diante de ti. 

Cuidado! O menor sinal de preferência
Abrirá um abismo largo e profundo como o espaço entre o céu e a terra.

Se queres encontrar tua Mente Búdica, não tenha opiniões sobre nada.
Opiniões produzem argumento, e a disputa é uma doença da mente.

Submerge nas profundezas.

A quietude é profunda. 
Não há nada profundo em águas rasas.


A Mente Búdica é perfeita e engloba o universo.
Não tem carência de nada e nada tem em excesso.
Se pensas que podes escolher entre as suas partes,
Perderás de vista a sua verdadeira essência.
Não te apegues às aparências, às coisas opostas, às coisas que existem como relativas.
Aceite-as com imparcialidade...
E não terás que perder tempo com escolhas sem sentido.

Os julgamentos e discriminações bloqueiam o fluxo e trazem as paixões.
Irritam a mente, que precisa de quietude e paz.
Se vais de encontro de isto a aquilo, ou a quaisquer dos inumeráveis opostos,
Perderás de vista o todo, o Uno.

Seguindo um oposto estarás te extraviando, para longe do centro de equilíbrio.
Como esperas alcançar o Uno?

Decidir o que é, é determinar o que não é.
Mas determinar o que não é pode te ocupar tanto, que acaba se convertendo no que é.
Quanto mais falas e pensas, mais longe te encontras.
Deixa de falar e de pensar, e o encontrarás em todas as partes.

Se deixares todas as coisas voltarem à sua origem, está bem.
Mas se tu paras para pensar que esta é tua meta
E que é disto de que o teu sucesso depende,
E lutas e lutas, ao invés de simplesmente deixar ir,
Tu te perdes no Caminho, e não estarás praticando Zen.

No momento em que começas a discriminar e a preferir perdes o Caminho.
Buscar o real também é um falso ponto de vista que deveria ser igualmente abandonado.

DEIXA PASSAR! 
Deixa de buscar e de escolher.

As decisões dão lugar às confusões, e aonde pode chegar uma mente confusa?

Todos os pares de opostos vêm da Única Grande Mente Búdica.

Aceita os opostos com dócil resignação.
A Mente Búdica permanece calma e quieta,
Mantenha sua mente nela e nada poderá te perturbar.
O inofensivo e o danoso deixam de existir.
Os sujeitos, quando liberados de seus objetos, desaparecem

Tão certamente quanto os objetos, quando liberados de seus sujeitos, desaparecem também.
Cada um depende da existência do outro.
Entenda esta dualidade e verás que ambos provêm do Vazio do Absoluto.

A base de todo Ser contém os opostos.
Todas as coisas se originam do Uno.
Que perda de tempo escolher entre grosso e fino.
Já que a Grande Mente faz nascer todas as coisas,
Abrace-as todas e deixe morrer teus preconceitos.

Para realizar a Grande Mente não sejas vacilante nem ansioso.
Se tentar pegá-la, agarrarás o ar e cairás no caminho dos heréticos.

Onde está o Grande Tao?

Podes simplesmente deixar de querer possuí-lo?
E podes deixá-lo LIVRE e apenas confiar nEle?
Ele permanecerá ou se irá?
Ele está em toda a parte esperando por você...

Para unir a tua natureza com a Dele
E, assim, tu possas ficar livre de problemas, como Ele é.
Não canse tua mente te preocupando em saber o que é real e o que não é,
Sobre o que aceitar ou o que rejeitar.

Se queres conhecer o Uno, deixe teus sentidos experimentarem o que vier.

Mas não seja influenciado e nem te envolvas no que vier.

O sábio age sem emoção e parece nem estar agindo.
O ignorante permite que suas emoções o envolvam.
O sábio compreende que todas as coisas são parte do Uno.
O ignorante vê diferenças em toda parte.
Todas as coisas são iguais em sua essência.
Assim, apegar-se a algumas e abandonar outras é viver no engano.

A mente não é juiz equânime de si mesma.
Tem preconceitos a favor ou contra si mesma.
E não pode ver nada objetivamente.

Bodhi (a Essência) está além de toda noção de bem e mal, além dos pares de opostos.
Os devaneios são ilusões e as flores nunca florescem no céu.
São invenções da imaginação e não merecem ser considerados.
Ganho e perda, certo e errado, grosso e fino.
Deixa todos irem! Permanece atento.

Mantém abertos teus olhos.
Teus devaneios desaparecerão.

Se não fizeres julgamentos, tudo será exatamente como deve ser.
Profunda é a sabedoria do Tathagata, Excelsa e além de todas as ilusões.
Este é o Uno a que todas as coisas retornam desde que tu não as separe,
Mantendo algumas e afastando outras.

De qualquer modo, onde as deixaria?
Todas estão dentro do Uno. 
Não há fora.

O Supremo não tem modelo, dualidade, e nunca é parcial.
Confia nisto. Mantém viva a tua fé.
Quando abandonas todas as distinções nada sobra,
Exceto a Mente que é agora pura... que irradia sabedoria,e nunca se cansa.

Quando a Mente abandona as discriminações,
Os pensamentos e os sentimentos não podem sondar suas profundezas.

O estado é absoluto e livre. Não há nem eu, nem o outro.
Apenas te darás conta de que és parte do Uno.
Tudo está dentro e nada está fora.

Os sábios do mundo todo compreendem isto.
Este conhecimento está além do tempo, seja longo ou curto,
Este conhecimento é eterno. Nem é, e nem não o é.

O todo é aqui.

E o menor é igual ao maior.
O espaço nada pode confinar.
O maior é igual ao menor.
Não há limites, nem dentro nem fora.
O que é e o que não é, são a mesma coisa,

Porque o que NÃO É é igual ao que É.
Se não despertares para esta verdade, não se preocupe.

Apenas creia que tua Mente Búdica não é dividida,
Que ela aceita tudo sem julgamento.

Não preste atenção a palavras, discursos, ou métodos bonitos.
O eterno não tem presente, passado ou futuro."

14 de agosto de 2015

No florescer, o saber acontece - Osho


"Se você escolher de acordo com sua própria inclinação, de acordo com sua própria intuição... (a voz interior) é muito forte nas crianças, mas aos poucos, lentamente enfraquece. 

As vozes dos pais e dos professores, da sociedade e dos padres, vão se
fortalecendo. Agora se você quiser descobrir qual é sua voz, você terá que passar através da multidão de ruídos.

Basta olhar dentro: de quem é essa voz? Às vezes é o seu pai, às vezes é sua mãe, às vezes é seu avô, às vezes é o seu professor; e essas vozes são todas diferentes. Apenas uma coisa você não será capaz de encontrar facilmente – sua própria voz. Ela tem sido sempre reprimida. Foi dito a você para escutar os
mais velhos, para escutar os padres, para escutar os professores. Nunca lhe foi dito para escutar seu próprio coração.

Você está carregando sua própria pequena voz, suave, não ouvida, e no meio da multidão de vozes que foram impostas sobre você, é quase impossível encontrá-la.
Primeiro você terá que se livrar de todos esses ruídos, alcançar uma certa qualidade de silêncio, paz, serenidade. Só então isso virá, como uma surpresa, que você também possui sua própria voz. Ela sempre esteve aí como uma corrente subterrânea.

A menos que você tenha encontrado sua própria tendência, sua vida vai ser uma longa, longa tragédia, do berço ao túmulo. As únicas pessoas que foram felizes no mundo são aquelas que viveram de acordo com sua própria intuição e se rebelaram contra qualquer esforço feito pelos outros para impor as idéias deles. Quão valiosas essas idéias possam ser, elas são inúteis porque não são suas. A única idéia significante é aquela que surge de você, cresce em você, floresce em você.

Primeiro Passo: Quem está falando, por favor?

O que quer que você esteja fazendo, pensando, decidindo, pergunte a si mesmo: isso está vindo de mim ou é outra pessoa falando?

Você ficará surpreso quando você encontrar a verdadeira voz. Talvez seja sua mãe; você irá ouví-la falar novamente. Talvez seja seu pai; não é absolutamente difícil de detectar. Isso permanece lá gravado em você exatamente como lhe foi dado pela primeira vez – o conselho, a ordem, a disciplina, ou o mandamento. Você pode encontrar muitas pessoas: os sacerdotes, os professores, os vizinhos e os parentes.

Não há nenhuma necessidade de lutar. Basta saber que essa não é sua voz, mas a de outra pessoa – quem quer que esse outro alguém seja – você sabe que você não irá seguí-lo. Sejam quais forem as conseqüências – boas ou ruins – agora você está decidindo mover-se por si mesmo, você está decidindo ser maduro. Você tem permanecido por demais uma criança. Você permaneceu por demais dependente. Você deu ouvidos a todas essas vozes e as seguiu bastante. E para onde elas lhe trouxeram? Para uma confusão.

Segundo Passo: Obrigado... e Adeus!

Uma vez que você identifica de quem é essa voz, agradeça a pessoa, peça para ser deixado só e diga adeus a ela.

A pessoa que lhe deu a voz não era seu inimigo. A intenção dela não era ruim, mas isso não é uma questão de intenção. A questão é que ela impôs algo
sobre você que não está vindo de sua fonte interior; e qualquer coisa que proceda do exterior lhe torna um escravo psicológico.

Uma vez que você disse claramente a uma certa voz, ‘Deixe-me em paz’. Sua conexão com ela, sua identidade com ela, é quebrada. Isso foi capaz de lhe
controlar porque você estava pensando que era sua voz. Toda a estratégia era a identidade. Agora você sabe que isso não é seus pensamentos, nem sua voz; isso é algo estranho a sua natureza. Reconhecer isso é suficiente. Livre-se das vozes que estão dentro de você e logo você ficará surpreso de ouvir uma pequena voz suave, a qual você nunca tinha ouvido antes... 
então um súbito reconhecimento de que essa é sua voz.

Ela sempre esteve aí, mas ela é muito suave, uma pequena voz porque ela estava reprimida desde quando você era uma criança muito pequena, e a voz era muito débil, apenas um botão, e estava coberta com todo tipo de asneiras e você esqueceu da planta que sua vida é, a qual ainda está viva, esperando que você a descubra. Descubra sua voz e então siga-a sem nenhum medo.

Quando isso acontece, aí está a meta da sua vida, aí está seu destino. É só aí que você irá encontrar realização, contentamento. É só aí que você irá
florescer – e nesse florescimento, o saber acontece”.
Osho em O Rebelde

12 de agosto de 2015

Nada além de um barco vazio -2/2 - Osho





[continuação...]

"Como você pode conhecer a felicidade da vida?
Ela está se derramando sobre você a cada instante e você a está ignorando.


Chuang Tzu diz: “Assim é o homem perfeito – seu barco está vazio.”Vazio de que? Vazio do eu, vazio do ego, vazio de alguém lá dentro.

Se as pessoas continuam colidindo com você e se continuam com raiva de você, lembre-se, elas não têm culpa. Seu barco não está vazio. 

Elas estão com raiva porque você está lá. 
Se o barco estiver vazio elas vão parecer tolas, se estiverem com raiva vão parecer tolas.

Esse símbolo do barco vazio é realmente muito bonito. 

As pessoas estão com raiva porque você está muito presente ali, porque você é muito pesado – tão sólido que elas não podem passar. E a vida está entrelaçada com todas as pessoas. Se você é uma presença excessiva, então em toda a parte haverá colisão, raiva, depressão, agressão, angústia, violência – o conflito continua.

Sempre que você sente que alguém está com raiva ou que alguém colidiu com você, você acha que o outro é responsável. Esse é o modo como a ignorância conclui, interpreta. A ignorância sempre diz: “O outro e responsável”. A sabedoria sempre diz: “Se alguém é responsável, então eu sou responsável, e a única maneira de não colidir é não ser.

Eu sou responsável” não quer dizer “eu estou fazendo algo, é por isso que eles estão com raiva”. Essa não é a questão. Você pode não está fazendo nada, mas 
apenas o seu ser é suficiente para que as pessoas fiquem com raiva. Não é uma questão de saber se você está fazendo bem ou mal. A questão é que você está 
ali, presente.

Esta é a diferença entre o Tao e as outras religiões. 

As outras religiões dizem: seja bom, comporte-se de modo que ninguém fique bravo com você. 

O Tao diz: Não seja.

Esse vai ser o seu caminho. Esvazie o barco. Comece a jogar fora tudo o que encontrar no barco, até que tudo seja lançado fora e nada seja deixado, até que você seja jogado fora e nada reste, o seu ser tornou-se simplesmente vazio.

A última e a primeira coisa é ficar vazio; assim que ficar vazio você será preenchido. O todo descerá sobre você quando estiver vazio – só o vazio pode receber o todo, nada menos que isso vai servir. É somente então que o todo será recebido. A sua mente é tão pequena que não pode receber o divino. Seus cômodos são tão pequenos que você não pode convidar o divino. Destrua essa casa completamente, porque apenas o céu, o espaço total, pode recebê-lo.

O vazio vai ser o caminho, a meta, tudo. A partir de hoje, tente se esvaziar de tudo o que encontrar dentro de você: sua infelicidade, sua raiva, seu ego, 
seus ciúmes, seus sofrimentos, suas dores, seus prazeres – tudo o que você encontrar, basta jogar fora. Sem fazer distinção, sem fazer escolhas, esvazie-se. E no momento em que estiver totalmente vazio, de repente você vai ver que você é o todo, a totalidade. 

Por meio do vácuo, o todo é atingido.

A meditação nada mais é que um esvaziamento, nada mais é do que se tornar ninguém. Viva como um ninguém. Se você provocar raiva em alguém e colidir com essa pessoa, lembre-se, você deve estar no barco. Logo, quando o seu barco estiver vazio, você não colidirá, não haverá nenhum conflito, nenhuma raiva, nenhuma violência – nada.

Esse nada é a bênção, esse nada é a bem-aventurança. 

É por esse nada que você tem procurado a vida toda. 
Mas a menos que o buscador desapareça, não pode haver satisfação. Entre no vazio, torne-se ninguém, e continue vazio. Ande por este vasto mundo como um barco vazio, e todas as bênçãos que são possíveis na existência serão suas. Reivindique-as, mas você só pode reivindica-las quando você não está. Esse é o 
problema – como não estar. Eu digo a você que esse problema pode ser resolvido. Eu já resolvi, é por isso que digo isso.

Medite sobre isso, ore por isso, faça todos os esforços para isso. E lembre-se apenas de uma coisa – você tem que se tornar um barco vazio."
Osho em O Barco Vazio

11 de agosto de 2015

Nada além de um barco vazio - 1/2 - Osho


"Se um homem estiver atravessando um rio
E um barco vazio colidir com a sua própria embarcação,
Mesmo que ele seja um homem mal-humorado
Não vai ficar muito irritado.
Mas se vir um homem no outro barco,
Ele vai gritar com ele para que reme direito.
Se o seu grito não for ouvido, ele vai gritar de novo,
E mais uma vez começará a xingar.
Tudo porque há alguém no barco.

Se o barco estivesse vazio, 
ele não estaria gritando

Nem ficaria com raiva.
Se você conseguir esvazia o seu barco
Ao atravessar o rio do mundo,
Ninguém vai se opor a você,
Ninguém vai tentar lhe fazer mal.

Quem pode se libertar do sucesso
E da fama, e descer e se perder
Em meio à massa humana?
Esse fluirá com o Tao, invisível,
Avançará com a própria vida
Sem nome e sem lar.

Aparentemente é um tolo.
Seus passos não deixam rastro.
Não tem nenhum poder.
Nada consegue, não tem reputação.

Como não julga ninguém,
Ninguém o julga.
Assim é o homem perfeito:
Seu barco está vazio."


Essa é a sua natureza. Esse é o Tao.

Sanidade significa chegar ao que é natural, chegar ao que é perfeito em você, ao que está escondido atrás do nome e da forma. Muito esforço é necessário porque para cortar a forma, deixar para trás e eliminar a forma, é muito difícil. Você se tornou muito apegado e identificado a ela.

Este campo de meditação, nada mais é que persuadi-lo a seguir na direção do sem forma – como não ficar na forma. Toda forma significa ego; até mesmo um galo tem seu ego, e o homem também tem o seu. Toda forma é centrada no ego.
Não-forma significa sem ego; você não está mais centrado no ego: o seu centro está em toda parte ou em parte alguma. Isso é possível, isso que parece quase impossível é possível, porque aconteceu comigo.
E, quando eu falo, falo por experiência. Seja o que você for, eu fui; e, seja o que for que eu seja, você pode ser.

Uma pessoa sã, portanto, não será ninguém em particular, não pode ser. Só um louco pode ser alguém em particular – seja um galo ou um homem, ou um
primeiro-ministro ou um presidente, qualquer coisa,seja o que for. Uma pessoa sã passa a sentir a condição de ser um ninguém.

Todas as civilizações são contra a natureza, porque elas querem fazer de você alguém em particular. E quanto mais você se cristaliza como alguém, menos o
divino pode penetrar em você.Todo o esforço é no sentido de dissolvê-lo; todo o
esforço é como destruir você. Uma vez destruído, o indestrutível virá à tona – ele está lá, escondido.
Depois que tudo o que não é essencial for eliminado, o essencial será como uma chama – vivo em sua glória total. 

Esta parábola de Chuang Tzu é linda. Ele diz que um homem sábio é como um barco vazio.
Assim é o homem perfeito – seu barco está vazio
Não há ninguém dentro.
Se você encontrar alguém como Chuang Tzu, Lao-Tsé ou Buda, o barco estará ali, mas ele estará vazio – não haverá ninguém nele. Se você simplesmente olhar para a superfície, então verá alguém lá, porque o barco está lá. Mas, se penetrar mais profundamente, se conseguir alcançar o centro ou a fonte do ser, se esquecer o corpo - o barco - então você acabará por encontrar um nada.

Chuang Tzu é uma flor rara, porque tornar-se ninguém é a coisa mais difícil, quase impossível, a coisa mais extraordinária do mundo.

A mente comum anseia por ser extraordinária, o que faz parte do ordinarismo. A mente ordinária deseja ser alguém em particular, alguém extraordinário - o que faz parte do ordinarismo. Você pode se tornar Alexandre, O Grande, mas continuará sendo ordinário, comum – então quem é o extraordinário? 

O extraordinário só começa quando você não anseia pelo extraordinário.
Então a viagem começou, então uma nova semente brotou.

Isso é o que Chuang Tzu quer dizer quando afirma: “Um homem perfeito é como um barco vazio”. Muitas coisas estão implícitas nisso. Em primeiro lugar, um barco vazio não vai a lugar nenhum, porque não há ninguém para dirigi-lo, ninguém para manipulá-lo, ninguém para encaminhá-lo a algum lugar. Um barco vazio está apenas ali, não está indo a lugar nenhum. Mesmo que esteja se movendo, não estará indo a lugar nenhum.

Se a mente não está ali, a vida continuará a ser um movimento, mas não vai ser dirigida. Você vai se mover, você vai mudar, você será um fluxo como um
rio, mas não estará indo a lugar algum, não terá nenhum objetivo em vista. Um homem perfeito vive sem nenhuma finalidade; um homem perfeito avança, mas sem nenhuma motivação. Se você perguntar a um homem perfeito: “O que você está fazendo?”, ele dirá: “Não estou fazendo nada, isso é o que está acontecendo”.

Isso está acontecendo, não é algo manipulado. Não há ninguém para manipulá-lo, o barco está vazio.

Se existir um propósito, você vive e em sofrimento. Por que? Um propósito existe para o eu, o ou ego, e significa a mente que vive no futuro. A mente pode viver no futuro, mas não no presente. Se você não vive o presente, você pode ter esperanças e desejos. E é assim que você cria a miséria. Se você começar a viver neste momento, aqui e agora, o sofrimento desaparece. 

Mas como isso está relacionado ao ego? O ego é todo o passado acumulado. Tudo o que você conheceu, vivenciou, leu, tudo o que aconteceu a você no passado, o todo é acumulado ali. Todo esse passado é o ego, é você.

O passado pode se projetar no futuro – porque o futuro não é senão o passado estendido. O passado não prevalece sobre o presente – o presente é totalmente
diferente, tem a qualidade de ser aqui e agora. O passado está sempre morto, o presente é vida, a fonte de toda a vivacidade. O passado não pode prevalecer
diante do momento presente, por isso se transporta para o futuro – ambos estão mortos, ambos são não existenciais. O presente é a vida; nem o futuro pode encontrar o presente, nem o passado pode encontrar o presente. E seu ego, a sua condição de ser alguém, é o seu passado. 

A menos que esteja vazio você não pode estar aqui, e a menos que esteja aqui você não pode estar vivo."
[continua...]

Osho em O Barco Vazio
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