31 de agosto de 2013

O alvo é Você! - Osho


"Quando o arqueiro atira por diversão, ele está de posse de toda sua habilidade. Quando você está brincando, não está tentando provar que você é alguém. Está à vontade, contente. Durante a brincadeira, apenas por diversão, você não está preocupado com o que os outros pensam de você.

Você já viu um pai numa luta simulada com o filho? Ele vai ser derrotado. Ele vai se deitar e a criança vai se sentar sobre o seu peito e rir, e dizer: " Eu sou o vencedor! - E o pai vai ficar feliz. É só diversão. Na diversão você pode ser derrotado e ficar feliz. A diversão não é uma coisa séria, não está relacionada ao ego. O ego é sempre sério.

Então lembre-se, se você é sério, você sempre está num tumulto interior. Um santo está sempre brincando, como se atirasse por diversão. Ele não está interessado em atirar num alvo específico, ele está apenas se divertindo.

Um filósofo alemão, Eugene Herrigel, foi ao Japão para aprender a meditar. No Japão eles usam todos os tipos de artifícios para ensinar meditação, incluindo o arco e a flecha. Herrigel era um arqueiro perfeito, acertava cem por cento. Nunca errava o alvo. Então ele procurou um mestre para aprender a meditar através do arco e flecha, porque ele já era hábil nisso.
Depois de três anos, Herrigel começou a sentir que aquilo era um desperdício de tempo, porque o mestre continuava insistindo que ele não deveria atirar. Ele dizia a Herrigel: "Deixe a flecha se lançar por si só. Você não deve estar presente quando aponta a flecha, deixe-a fazer ela mesma a pontaria."

Era um absurdo. Para um ocidental em particular, era um completo absurdo: " " O que quer dizer com isso, deixar que a flecha se lance por si só? Como uma flecha pode se atirar por si só? Eu tenho que fazer alguma coisa." E ele continuava, e nunca errava o alvo.

Mas o mestre dizia: " O alvo não é o alvo coisa nenhuma. VOCÊ é o alvo! Eu não estou vendo se você está atingindo o alvo ou não. Essa é  uma habilidade mecânica. Eu estou olhando para você, para ver se você está presente ou não. Atire para se divertir! Divirta-se, não tente provar que nunca perde o alvo. Não tente provar o ego. Ele já está lá, você está lá, não há necessidade de prová-lo. Fique à vontade e permita que a flecha atire a si mesma."

Herrigel não conseguia entender. Ele tentou e tentou e disse repetidas vezes: " Se minha pontaria é cem por cento correta, por que você não me dá o certificado?"
A mente ocidental está sempre interessada no resultado final e a oriental está sempre interessada no começo, não no final - no arqueiro, não no alvo. O resultado final não tem importância. Então o mestre dizia: " Não!"

Então, completamente decepcionado, Herrigel pediu para ir embora. Ele disse: " Então eu terei que ir. Três anos é muito, e não ganhei nada com isso e você continua dizendo não e continua dizendo que ainda sou o mesmo."

No dia em que estava para sair, ele tinha acabado de se despedir. O mestre estava ensinando outros discípulos. Naquela manhã, Herrigel não estava interessado em nada; ele estava partindo, tinha desistido de todo o projeto. Então, estava apenas esperando ali até que o mestre estivesse desocupado. Ele se despediria e iria embora.

Sentado em um banco, ele olhou para o mestre, pela primeira vez. Pela primeira vez em três anos ele olhou para o mestre. Na verdade ele não estava fazendo nada; era como se a flecha estivesse atirando a si mesma. O mestre não estava sério, ele estava brincando, ele estava se divertindo. Não havia ninguém interessado no alvo.

O ego é sempre orientado para o alvo. A diversão não tem meta a alcançar, o divertimento está no início, quando a flecha deixa o arco. Se ela dispara, isso é acidental; se atinge o alvo ou não, essa não é a questão. Mas, quando a flecha deixa o arco, o arqueiro deve estar brincando, se divertindo, sem se levar a sério. Quando está sério, você está tenso; quando não está sério, você está relaxado, você está presente. Quando você está tenso, o ego está presente, você está entorpecido.

Pela primeira vez Herrigel olhou - porque agora ele não estava estressado. Aquilo não era mais da conta dele, ele tinha desistido da coisa toda. Estava indo embora, então não havia mais porque levar tudo à sério. Ele tinha aceitado o seu fracasso, não havia nada para ser provado. Ele olhou, e pela primeira vez, seus olhos não estavam obcecados com o alvo. Ele olhou para o mestre e era como se a flecha estivesse atirando a si mesma do arco. O mestre estava só dando energia a ela, ele não estava atirando. Não estava fazendo nada, a coisa toda era feita sem esforço. Herrigel olhou e pela primeira vez entendeu o que significava.

Como que enfeitiçado, ele se aproximou do mestre, tomou o arco de sua mão e recuou a flecha. O mestre disse: " Você compreendeu. Isso é que eu tenho dito para você fazem três anos." A seta ainda não havia deixado o arco quando o mestre disse: " Concluído: O alvo foi atingido."
Agora ele estava se divertindo, ele não estava sério, ele não estava preocupado com o objetivo.

Essa é a diferença. A diversão não visa um objetivo, ela não tem objetivo; A diversão não visa um objetivo, ela não tem objetivo. A diversão é a própria meta, o valor intrínseco, nada mais. Você se divertiu é o que basta. Não há nenhum propósito, você brincou, isso é tudo. (...)

Quando você está atirando para se divertir, você não está em conflito. Não exitem dois, sua mente não vai a lugar algum. Sua mente não está indo - então você está inteiro. Então a habilidade está lá. (...) Todo o seu ser está disponível. E, quando todo o ser está disponível, você tem uma beleza, uma graça, uma qualidade totalmente diferente de ser. Quando você está dividido, sério, tenso, você é feio. Você pode ter sucesso, mas seu sucesso vai ser feio. Você pode provar para alguém que você é alguém, mas você não está provando nada, você está simplesmente criando uma imagem falsa. Mas, quando você é total, descontraído, inteiro, pode ser que ninguém conheça você, mas você é.

E essa totalidade é a benção, a bem-aventurança, a beatitude que acontece a uma mente meditativa, que acontece na meditação."
Osho, em O Barco Vazio

30 de agosto de 2013

Sobre a Ilusão - Ranjit Maharaj


"Quando a mente aceita que tudo é ilusão, somente ilusão, então você está no seu Ser. O corpo e a mente são ilusões; você devia ficar contente de saber isso. 

Desvencilhe-se da identificação com eles. A única coisa que o Mestre faz é 
dar o seu verdadeiro valor ao Poder que está em você, ao qual você nem presta atenção. Ele não faz nada mais. Era uma pedra, e o Mestre revela a própria natureza dela, que é diamante. Ele faz de você a pedra mais preciosa.

Eu sou onipresente, todo-poderoso, sou o Criador de tudo que existe. Quando você está na base de tudo, você está em tudo. É por isso que nem um assassino pode ser considerado mal. O que quer que esteja acontecendo, é "ordem minha". 

Seja o senhor, não o escravo! Você é o senhor.

Pergunta: Eu gostaria de saber por que algumas pessoas Realizadas reencarnam a fim de ajudar os outros a acordar?

Ranjit Maharaj: Ninguém vem, ninguém vai. Quem lhe contou isso? Você leu livros e repete. Diz-se que o maior homem é aquele que morre desconhecido. Rama e Krishna foram heróis secundários. O homem realizado vive em silêncio e morre em silêncio. Depois, o pensamento dele funciona numa outra pessoa; mas que eles voltam é bobagem. 

Ninguém vem, ninguém vai. É tudo um sonho. Num sonho você pode se tornar um grande Mestre, mas, quando acorda, você volta ao seu estado normal. Quem foi lá e quem voltou? Não aconteceu nada. O conceito de um grande Mestre passou por você e você virou aquele "grande Mestre", mas, quando acorda, você percebe: "Nossa, tudo isso é absurdo! Como posso eu ser um grande Mestre? Não sei nada!" Mesmo assim, no sonho você dava palestras e falava com facilidade sobre todas essas coisas, mas, quando chega o despertar, todo conhecimento se esvai. Era um sonho.

De onde ele veio e aonde desapareceu? Quando nada existe, tudo são apenas crenças e conceitos da mente. O suposto sábio que diz "Eu sou a reencarnação de Deus" não o conhece, não conhece a Realidade. Ao contrário, é escravo do seu ego, da ilusão. Quando o próprio conhecimento não tem entidade, não vêm à baila todas essas coisas.

Aquele que compreende, livra-se de tudo. Uma pessoa assim parece comum, mas seu coração é bem diferente. Se ficar do lado de fora, como você poderá entender? Para se tornar o dono da casa, você precisar entrar nela. Da mesma maneira, você precisa penetrar o seu próprio Ser para tornar-se o dono. Mas aí o "eu" não permanece "eu". Não mais se trata de Mestre ou discípulo. 

O pensamento em um Mestre pode inspirar quem quer que assuma um corpo porque ele e o Sábio são unos. Penetre o coração do Realizado e você não permanecerá como "Você", porque só ele é. É por isso que se diz que aqueles que ensinam são reencarnações de Deus. 

O Mestre passa o ensinamento a todos, mas não o valoriza, porque sabe que o conhecimento é a maior ignorância. Portanto não se deixe tocar por nada.

Pergunta: Se tudo é ilusão, você mesmo é uma ilusão?

Ranjit Maharaj: Ah, sim! Eu sou a maior ilusão! Tudo que digo de todo o coração e com tanta franqueza é tudo falso! Mas o falso "eu" pode fazer você alcançar esse ponto. O endereço da pessoa não é o objetivo. Quando você chega a casa, é graças ao endereço que lhe deram, o endereço é verdadeiro 
somente até o momento em que você entra na casa. Assim que você entra, desaparece o endereço. 

As palavras não passam de indicações; não têm nenhuma realidade em si mesmas. Se o "eu" permanece, eu também sou ilusão. Não permaneça como 
"eu". Essa é a mais alta compreensão da filosofia. O santo Tukaram dizia: "Vi a minha própria morte, e o que vi lá, a alegria que se revelou, isso eu conheço". 

Antes de tudo, você precisa morrer. "Você" significa ilusão.
Por isso, o que digo é falso, todavia verdadeiro, porque eu falo daquilo. O endereço é falso, mas, quando você atinge o objetivo, é a Realidade. Da mesma maneira, todas as escrituras e os livros filosóficos destinam-se apenas a indicar esse ponto, e, quando você o atinge, eles se tornam inexistentes, vazios. 

As palavras são falsas; só o sentido que elas comunicam é que é verdadeiro. Portanto, tudo é ilusão, mas, para compreender a ilusão, é preciso ilusão. Por exemplo, para tirar um espinho do dedo, você utiliza outro espinho; depois joga fora os dois. Mas, se você guardar o segundo espinho que utilizou para remover o primeiro, certamente você estará de novo preso. Para remover a ignorância, é preciso conhecimento, mas por fim ambos devem dissolver-se na Realidade. O seu Ser é sem ignorância nem conhecimento.

Portanto, o Mestre e o buscador são ilusões, porque ambos são um só. Se você guardar o segundo espinho, que significa conhecimento, nem que seja um espinho de ouro, você estará preso (pelo segundo espinho). O ego é a única ilusão, e ego é conhecimento. Conta-se que para apanhar um ladrão é preciso tornar-se um ladrão. Então você poderá dizer-lhe: "Cuidado, eu estou aqui e sei que você é ladrão; portanto, não poderá me roubar". Mas você não pode apanhar o ladrão porque ele tem quatros olhos e você só tem dois. Num relance, o ladrão percebe os objetos de valor e, se você não estiver atento, ele lhos rouba. 

ilusão é como o ladrão, de modo que você precisa ser mais forte do que o ladrão. A sua mente precisa aceitar que tudo é ilusão, somente ilusão. Então você será o "maior dos maiorais".

O conhecimento é uma grande coisa, mas deve ser apenas um remédio. Quando a febre baixa graças ao remédio que você tomou, você deve parar de tomá-lo. Não prolongue o tratamento, senão você criará mais problemas. O 
conhecimento só é necessário para remover o mal da ignorância. O médico sempre prescreve uma dosagem limitada! Antes de tudo, compreenda que o "eu" é uma ilusão e o que "eu" diz é ilusão. O Mestre e o que ele diz também são ilusão, porque na Realidade, "eu" e "Ele" não existem mais. Vá fundo para dentro de si, tão fundo até você desaparecer. Caso contrário, veja o que acontece. 

Entra um bode em sua casa, e, para fazê-lo sair, você abre a porta. O bode sai, mas entra um camelo. O camelo é apenas como a ilusão. Portanto, fique fora da ilusão."
Ranjit Maharaj em Satsang

29 de agosto de 2013

Coração Sem medida...



Esse coração sem medida
Sem tamanho
Sem parâmetros
Sem limites,


Tem mania de acolher tudo o que encontra 
Abraçar 
Dar afeto 
Cuidar.. 


Tem desejos de tornar tudo mais bonito 
Colorido 
Radiante.. 


Tem sempre pronta uma palavra 
Um silencio 
Uma escuta 
Um olhar 
Que transmitam a si mesmo, 
No outro... 


E faça brotar alegria 
Esperança delicadeza 
Beleza 
E Paz... 


Esse coração não conhece obstáculos 
Nem barreias 
Desânimos 
Não conhece o "não"
Nem o "talvez"
É o SIM mais completo
Derramado no instante
Envolvendo a realidade 
Com uma luz permanente... 

Eterno dia ensolarado 
Não conhece sombras 
Nem noites...

Esse coração se reconhece plenamente no seu
Se reconhece no amor
Se reconhece na paz e no carinho 
de cuidar e proteger..

Esse coração não tem medo nem da dor ou da perda
É sempre terno
Vitorioso
Pois nada pede 
De nada precisa 
Além daquilo que já existe em si mesmo.. 

Esse coração sem medida 
É você,
Sou eu
É tudo
É nada
 E além..

Nunca perde nem se afasta de Si mesmo 
É Jovem 
É liberdade 
É Espaço 
Amor puro 
É perfume 
É flor.. 

Esse coração 
É Deus... 

28 de agosto de 2013

Quietude e desapego - Papaji

"Fique quieto.
Fique quieto.
Fique quieto.(...)

Hoje falaremos dessa quietude...

Primeiramente, a uns sete mil anos atras, Arjuna perguntou a Krishna: “Como aquietar a mente? Ela é como o vento e não se pode pega-la com os dedos, ela é tão turbulenta. Como controlá-la, como aquieta-la?” Então a 
resposta de Krishna foi muito simples: “Isto pode ser feito com desapego e prática.” Estas duas palavras são muito importantes Desapego e Vairagya. 

Então como o desapego pode vir facilmente?

Todo mundo, qualquer um, quer desfrutar dos objetos dos
sentidos. Isso envolve todos, todos os seres estão envolvidos em gozar dos sentidos. Talvez vendo, ouvindo, cheirando, tocando, saboreando, isto é tudo. Então como 
desapegar nossa mente destas coisas? E como isto pode trazer quietude? Quando você souber, que todos estes objetos, não lhe trazem nenhum descanso ou paz. Então mais e mais, pense nisto, isto que eu tanto gosto, não me dá real satisfação. Mais e mais, eu quero repeti-la; novamente, eu quero repeti-la, mas ainda eu não consegui paz. Você está criando uma espécie de desgosto com isso, com esses objetos.

Agora você quer desapegar-se dessa coisas, porque elas não
lhe deram paz ou relaxamento. Um santo Telegu, um santo-poeta muito famoso de 500 anos atrás. Seu nome era Tyagaraja. O pessoal que se interessa por música conhecem muito bem esse nome, Tyagaraja, o rei dos músicos cantores, o rei dos músicos. 
Ele também disse “sianta malaika sowkya malaidu”, isto é em Telegu. “Quando não há quietude, nem o reinado pode dar-lhe felicidade”

Isso é o que ele diz, quando nós sabemos que os objetos sensoriais não vão trazer-nos permanente felicidade, nós vamos lentamente retirando nossa mente desses objetos. 

Continuamente, até nos Vedas isto é declarado -  Sempre que a mente entra em contato com objetos sensoriais, traga-a de volta, traga-a de volta para a paz, traga-a de volta para a quietude. Acalme-a, onde quer que ela for, sempre que ela for, seja muito cuidadoso e traga-a de volta, porque você tem visto que estes objetos sensoriais não trazem paz para você. 

Portanto, este é abhyasa, a prática, que Krishna falou a Arjuna. Desapegue, onde quer que a mente vá, separe isto dos respectivos objetos sensoriais, novamente e novamente. Então, lado a lado, está o desapego e lado a lado o desejo pela sabedoria de Brahman, liberdade, desejo por liberdade, ambos devem estar correndo juntos. 

Desapegue-se dessas coisas, que não são permanentes, e descanse no que é permanente, sempre.

Então isto deve correr junto, ambos. Desejo por liberdade,
desapego dos sentidos. E seu foco nisso, em Brahman, desejo por realização da iluminação, aqui e então refletindo sempre daqui para aqui;

Há o desejo, então deseje uma vez, e uma vez que esse
desejo tenha vindo a sua mente. Você deve ter despendido milhões de anos para que esse desejo por liberdade tenha surgido em sua mente. Então, ouça isto, e então reflita 
sempre sobre isto, medite nisto. Este processo deve continuar. Sempre.(...)

A reflexão deve continuar, sempre, você vê. E então, quando
você senta onde quer que seja, medite no Self, em Brahman, na Verdade, na Paz, em Shanti. Então sempre você estará envolvido com isto.

Entre os amigos você fala sobre isto. Esta é a forma que
você deve expender seu tempo neste Universo. E aqueles que não podem fazer isto, eles terão que esperar. Aqueles que instantaneamente captam este instante, eles tem uma montanha enorme, tão larga quanto as montanhas do Himalaia; estes são os méritos de vir ao Satsang. (...)


Todos os santos tem declarado, que você precisa de bons karmas, realizado em Satsangs em varias encarnações, por essa razão agora você chegou aqui 
para Satsang, para aquietar. Até Buddha teve, ele disse, ele teve milhares de encarnações. Ele fala sobre suas muitas encarnações para Ananda. Então, neste tempo, última vida finalmente quando ele nasceu Gautama, como Siddharta, ele decidiu, ele decidiu instantaneamente ficar quieto. Uma visita fora do templo, doenças, velhice, morte, foi suficiente.

Isto é o que eu falo de desapego dos prazeres sensoriais.
Uma volta por aí, e imediatamente vem a decisão: “ Não, eu não quero este tipo de vida”. Retorna para casa.(...)

Assim como Buddha acordou, retorne. Ele viu a natureza da vida, afastou-se
dos apegos: esposa, filho, palácios...
Fique quieto agora, embaixo da Árvore Bodhi, fique quieto. Isso foi o que Buddha experienciou nesta vida e ele estava livre." 
Papaji em Satsang

26 de agosto de 2013

O Menino e o Elefante - Osho


"Eu ouvi uma história. Aconteceu numa aldeia...
O filho de um mendigo, era jovem, saudável - tão jovem e tão saudável que, quando o elefante do rei passava pela aldeia, ele simplesmente agarrava o rabo do elefante e o animal não era capaz de se mover.
Ás vezes era muito embaraçoso para o rei, porque ele ficava sentado sobre o elefante e todo o mercado se reunia e as pessoas riam. E tudo por causa do filho de um mendigo.
O rei pediu ao seu primeiro ministro: É preciso fazer alguma coisa, isso é um insulto. Fiquei com receio de passar por aquela aldeia e o menino às vezes vista outras aldeias também,em qualquer lugar ele pode agarrar a calda do elefante e ele não se moverá. Ele é tão forte, faça alguma coisa para esgotar sua energia.

O primeiro ministro disse: "Vou ter de consultar um sábio, porque eu não sei como esgotar sua energia. Não há nada para esgotar sua energia, porque ele é um mendigo. Se ele tivesse uma loja, sua energia poderia ser exaurida; se ele tivesse trabalhando como escriturário num escritório, a energia poderia ser esgotada. Mas ele não tem nada para fazer. Ele vive para se divertir, e as pessoas o adoram, e lhe dão comida e leite, por isso nunca lhe falta comida. Ele está feliz, ele come e dorme. Por isso é difícil, mas vou tentar."

Então, ele foi procurar um velho sábio. O sábio lhe disse: " Faça uma coisa, vá e diga ao rapaz que você vai lhe dar uma rúpia de ouro todos os dias se ele lhe prestar um pequeno serviço - e o serviço é muito simples. Ele tem que ir ao templo da aldeia e acender uma lamparina. Ele tem apenas que acender a lamparina, isso é tudo. E você vai lhe dar uma rúpia de ouro todos os dias"

O primeiro ministro disse: Mas como isso vai ajudar? Isso pode torná-lo ainda mais entusiasmado. Ele vai ter uma rúpia e vai se sentir cheio de energia. Ele nem mesmo se preocupará em pedir esmolas." 
O sábio disse: " Não se preocupe, basta fazer o que eu digo".
Isso foi feito, e na semana seguinte o rei passou com seu elefante, o menino tentou mas não conseguiu, não conseguiu parar o elefante. Ele foi arrastado por ele.

O que aconteceu? 
Surgiu a preocupação, surgiu a ansiedade. Ele tinha que lembrar durante 24 horas por dia que tinha que ir ao templo, todas as noites, e acender a lamparina. Isso se tornou uma preocupação, que dividiu todo o seu ser. Mesmo durante o sono, ele começou a sonhar que era noite: "O que você está fazendo? Vá e acenda a lamparina e pegue sua rúpia".

Então ele começou a guardar as rúpias de ouro - agora são sete, agora oito. Então, ele começou a calcular que dali a certo tempo, ele teria cem rúpias de ouro - e que essa quantia ia aumentar para duzentas; Entrou a matemática, acabou a diversão. E ele só tinha apenas uma pequena coisa a fazer, acender uma lamparina. Apenas um único minuto, nem mesmo um minuto, apenas uma coisa momentânea - mas tornou-se uma preocupação. E isso exauriu toda sua energia.

Se você está esgotado não é de admirar que a sua vida não seja divertida. Você tem tantos templos e tantas lamparinas para acender, tantos cálculos na sua vida, que ela não pode ser um divertimento. (...)

Sempre que você está dividido você fica sem forças, quando você fica sem divisões você é poderoso. Os desejos dividem você, a meditação não o divide. Os desejos o levam para o futuro, a meditação traz você para o presente.(...)

Sem forças, esgotado, você não pode estar em êxtase. Como pode dançar? Para dançar, você vai precisar de uma energia infinita. Exaurido como você pode cantar? Cantar é sempre um transbordamento. Morto como você pode orar? Somente quando você está totalmente vivo um agradecido brota do seu coração, uma gratidão. Essa gratidão é a oração."
Osho em o Barco Vazio

**
Sempre que a ansiedade, a expectativa, o desejo entram em ação, nossa energia é imediatamente dividida; isso porque, é a mente sendo alimentada, e todo o organismo perde em energia e vitalidade.
Quando estamos preocupados, ansiosos, nossos músculos estão contraídos, nossa respiração é curta e superficial, nossa mandíbula fica presa, e sem que nos demos conta estamos dispensando uma porção enorme de energia vital à todos os pensamentos que passam pela cabeça;

Essa mesma energia é toda ela circulante, pulsante, vibrante, quando estamos relaxados, e todos os nossos órgãos, músculos, sistemas recebem uma dose extra de vitalidade pela leveza e pela descontração.

É por isso que o riso, a alegria, são tão benéficos à saúde. Existe como que um rejuvenescimento generalizado quando a pessoa está alegre, solta, feliz, e todos os seus órgãos desfrutam dessa sensação maravilhosa.

O acúmulo de tarefas, obrigações, compromissos, podem até ser estimulantes num primeiro momento, mas acabam por comprometer o bom funcionamento do organismo, além das alterações do sono; e trazem sempre uma responsabilidade crescente, o que acaba por se tornar um círculo vicioso...

Osho neste belo texto nos chama atenção para isso. 
A vida cotidiana é voraz em se tratando de trabalho, compromissos e tarefas. Além de todo o stress urbano, existe sempre a "obrigação do mais e mais". Ter mais, ganhar mais, acumular mais... conquistar mais...
Isso deve ser revisto em nossas vidas com toda atenção.
Será que aquilo que realmente tem valor para nós, nos deixa felizes e cheios de energia? Reflitam sobre isso...

Todo o resto, deve ser revisto - e porque não - em algumas vezes mudado e descartado... 
O mais importante é COMO estamos vivendo. Dia a dia, momento a momento. Metas e objetivos são projeções da mente...
Não basta apenas viver, é importante estar VIVO de verdade...e a alegria, a leveza, diversão, a felicidade, são os verdadeiros sinais disso...
Amor
Lilian

25 de agosto de 2013

Além, sempre além...


"Há o pensamento, e então a consciência sobre o pensamento. 
E a diferença entre estar consciente do pensamento e apenas pensar é imensa. 

É enorme … Normalmente ficamos tão identificados com nossos pensamentos e emoções, que somos eles. 

Somos a felicidade, somos a raiva, somos o medo. 

Precisamos aprender a dar um passo para trás e saber que nossos pensamentos e emoções são apenas pensamentos e emoções. Eles são apenas estados mentais. Não são sólidos, são transparentes.

É preciso conhecer isso e então não se identificar com o conhecedor. É preciso saber que o conhecedor não é um alguém. (...)

Você pensa que entendeu quando compreende que você não é o pensamento ou sentimento — no entanto, ir mais adiante e saber que você não é o conhecedor… isso te traz a pergunta: “Quem sou eu?”.

E essa foi a grande compreensão do Buda — entender que quanto mais recuamos, mais aberta e vazia se torna a qualidade de nossa consciência. 

Em vez de encontrar alguma pequena e sólida entidade eterna — ou seja, o “eu” — recuamos para essa vasta mente espaçosa que está interconectada com todos os seres vivos. Nesse espaço, você precisa perguntar: “onde está o ‘eu’?” e “onde está o ‘outro’?”.

Enquanto estamos no reino da dualidade, há “eu” e “outro”. 
Essa é nossa ilusão básica — é o que causa todos nossos problemas. Por causa disso temos o sentimento de ser bem separados. Essa é nossa ignorância básica. (...)

Ao compreendermos que a natureza de nossa existência está além de pensamentos e emoções, que é incrivelmente vasta e interconectada com todos os outros seres, então o sentimento de isolamento, separação, medos e esperanças desmorona. 
É um alívio espantoso!"
Tenzin Palmo 

24 de agosto de 2013

Da ação para a inação - Osho


"A lógica é superficial. A vida vai muito mais fundo. Na vida, todos os opostos se juntam, eles existem juntos. 

Lembre-se disso, porque então meditação se torna equilíbrio.

Buda ensinou oito disciplinas e para cada disciplina ele
usava a palavra certa. Ele dizia: o esforço certo, porque é muito fácil mover-se da ação para a inação, do despertar para o dormir, mas permanecer no meio é difícil. Quando Buda usa a palavra certa, ele estava dizendo: não se mova para o oposto, simplesmente permaneça no meio. A comida certa - ele nunca disse jejum. Não se entregue em demasia à comida e não se entregue ao jejum. Ele dizia: comida certa. Comida certa significa permanecer no meio.

Quando você permanece no meio você não está reunindo
momento algum. E essa é a beleza disso: um homem que não está reunindo momento algum para se mover a qualquer lugar, pode estar à vontade consigo mesmo, pode se sentir em casa. 

Você nunca pode se sentir em casa, porque qualquer coisa
que você faz, imediatamente você terá que fazer o oposto para equilibrar. E o oposto nunca equilibra, ele simplesmente dá a você a impressão de que você está se tornando equilibrado, mas você terá que se mover para o oposto de novo. 

Um buda não é amigo nem inimigo de alguém. Ele
simplesmente parou no meio - o relógio não está funcionando... Quando a sua mente pára, o tempo pára, quando o pêndulo pára, o relógio pára...

O tempo é criado pelo movimento da mente, exatamente como
o movimento do pêndulo. 

A mente se move, você sente o tempo. Quando a mente não está se movimentando, como você pode sentir o tempo? Quando não há qualquer movimento, o tempo não pode ser sentido. 

Cientistas e místicos concordam nesse ponto: que o movimento cria o fenômeno do tempo. Se você não está se movendo, se você está parado, o tempo desaparece, a eternidade chega à existência. "
Osho em Além da Psicologia II

23 de agosto de 2013

O Todo do meu Todo ...


"Eis-me aqui,
eis-me aqui,
ó meu segredo,
ó minha confidência!

Eis-me aqui, 

eis-me aqui,
ó meu fim,
ó meu sentido! 
Chamo-te.., não! 
És Tu quem me chamas para Ti!
Como Te haveria falado, a Ti, 
se Tu não me houvesses falado a mim? 

Ó essência da essência da minha existência, 
ó termo do meu desígnio! 
Tu que me fazes falar, 
ó Tu, minhas enunciações, 
Tu meus pestanejares! 

Ó Todo de meu Todo, 
ó meu ouvido, 
ó minha visão, 
ó minha totalidade, 
minha composição 
e minhas partes! 

Ó Todo de meu Todo, 
Todo de toda coisa, 
enigma equívoco; 
obscureço o todo do Teu todo 
ao querer Te expressar! 

Ó Tu, 
de quem meu espírito estava suspenso,
já ao morrer de êxtase, ah! 
Continua sendo sua prenda minha desdita..
O supremo objeto 
que eu solicito e espero, 
ó meu hóspede, 
ó alento de meu espírito, 
ó minha vida neste mundo 
e no outro! 

Seja meu coração Teu resgate! 
Ó meu ouvido, 
ó minha visão. 

Por que tanta demora, 
em meu retiro, 
tão distante? 

Ah! 
Ainda que para meus olhos 
Te escondes no invisível, 
meu coração já Te contempla, 
desde meu afastamento, 
sim, 
desde o meu exílio."

**
All Halaj em O Todo do meu Todo

22 de agosto de 2013

A Atenção Plena - Thich Nhat Hahn


"Cada vez que sentimos uma forte onda de medo, raiva ou ciúme, podemos fazer algo para cuidar dessa energia negativa para ela não nos destruir. Não é preciso haver nenhum conflito entre um elemento e outro de nosso ser. 

Tem que haver apenas um esforço para cuidar e ser capaz de transformar. Precisamos ter uma atitude não violenta para com o nosso sofrimento.
Quando temos uma emoção forte como o medo ou desespero, pode ser esmagador. Mas com a prática, sabemos que podemos aprender a abraçar o nosso medo, porque sabemos que em cada um de nós existe a semente da atenção plena.

Se praticarmos tocar essa semente a cada dia ao andar,sentar, respirar, sorrir ou comer, cultivaremos a energia da atenção plena. E então, a qualquer hora que precisarmos dessa energia, será só tocar a semente de atenção plena, que logo a energia de plena consciência virá e poderemos usá-la para abraçar as nossas emoções. 
Se conseguirmos apenas uma vez fazer desta forma, teremos um pouco mais de paz e menos medo que a emoção forte da próxima vez venha à tona.

Suponha que você tem um monte de dor, tristeza ou medo no fundo de sua consciência. Muitos de nós têm grandes blocos de dor e sofrimento nas profundezas de nossa consciência que não podemos mais olhar. Temos que nos manter muito ocupados para garantir que esses hóspedes indesejáveis ​​não venham e nos façam uma visita. Nós nos ocupamos com outros "convidados" - pegamos uma revista ou um livro para ler, ligamos a televisão, ou tocamos uma música. Nós fazemos tudo o que podemos para preencher a nossa atenção com alguma coisa. Essa é a prática de reprimir.

A maioria de nós adota essa resposta, o embargo. Nós não queremos abrir a porta para que o nosso medo, tristeza e depressão cheguem, por isso, trazemos todos os tipos de coisas para nos ocupar. E há sempre muitas coisas disponíveis para ajudar a nos distrair do que está acontecendo lá dentro. Há muitas maneiras de podermos nos entreter, especialmente assistindo televisão. A televisão pode ser usada como uma espécie de droga. Quando o sofrimento em nós é grande demais para suportarmos, às vezes, ligamos a televisão para nos esquecermos da nossa dor. Ela enche a nossa sala de estar com imagens e sons.

Quando você tem energia de atenção plena suficiente, pode olhar profundamente para qualquer emoção e descobrir a sua verdadeira natureza. Se você puder fazer isso, será capaz de transformar a emoção.

Mas a emoção é apenas uma emoção. Ela vem, permanece por um tempo, e então ela vai embora. Por que devemos nos ferir ou aos outros apenas por causa de uma emoção? Somos muito mais do que as nossas emoções.

Se sabemos como praticar o olhar em profundidade, seremos capazes de identificar e erradicar as fontes de nossas emoções dolorosas. Apenas praticando abraçar as emoções já pode ser muito útil.

Quando conseguimos sobreviver a emoções fortes, experimentaremos uma paz mais sólida da mente. Uma vez que temos a prática, já não estaremos com medo. A próxima vez que surgir uma forte emoção, já será mais fácil." 

20 de agosto de 2013

Corpo e Mente - Krishnamurti


"Por que razão a mente se deteriora?

Numa destas manhãs, vi quando um morto era levado para ser
cremado. Envolto em vistoso pano cor de vermelho purpúreo, o corpo oscilava ao ritmo dos quatro mortais que o transportavam. Que espécie de impressão lhe causa um corpo morto? Você não desejaria saber por que há deterioração? 


Você compra um motor novo em folha e, passados poucos anos, está completamente gasto. O corpo também se gasta; mas, você não desejaria investigar um pouco mais além, para descobrir porque razão a mente se deteriora? Mais cedo ou mais tarde ocorrerá a morte do corpo, mas a maioria de nós já tem a mente morta, já se verificou a deterioração; por que a mente se deteriora? O corpo se deteriora porque o mantemos em uso constante, e o 
organismo se gasta. Doença, acidente, velhice, má alimentação, deficiências hereditárias — tais são os fatores responsáveis pela deterioração e morte do corpo. 

Mas, por que deve a mente deteriorar-se, envelhecer, tornar-se pesada, embotada?

Ao ver um corpo morto, isso não lhe dá o que pensar? Embora nosso corpo deva morrer, por que deve a mente deteriorar-se? Nunca lhe ocorreu esta pergunta? Pois a mente, com efeito, se deteriora; vemos isso acontecer não só com as pessoas idosas, mas também com as pessoas jovens. Vemos como, nos jovens, a mente já está se tornando embotada, pesada, insensível; e, se pudermos descobrir por que razão a mente deteriora, então talvez descubramos algo verdadeiramente indestrutível. Talvez compreendamos, então, o que é a vida eterna, a vida que não tem fim, que não está no tempo, a vida que é
incorruptível, que não degenera como o corpo que se transporta para o cais à beira do rio, onde é cremado e suas cinzas lançadas ao rio.

Mas, por que a mente se deteriora? Você já refletiu a esse respeito? Como você ainda é muito jovem — e se a sociedade, ou seus pais, ou as circunstâncias ainda não lhe tornaram embotado — você possui uma mente nova, ardorosa, curiosa. Você deseja saber por que existem as estrelas, por que morrem os pássaros, por que caem as folhas, como voa o avião a jato; muitas coisas você deseja saber. Mas, esse impulso vital para investigar, descobrir, é depressa sufocado, não é verdade? Sufocado pelo medo, pelo peso da tradição, por sua própria incapacidade para enfrentar essa coisa extraordinária que se chama a vida. 

Você já não notou quão rapidamente é destruído o seu ardor, através de uma palavra áspera, um gesto depreciativo, pelo medo de um exame, a ameaça de um pai — significando isso que a sua sensibilidade já está sendo destruída e sua mente se tornando embotada?

Outro caso de embotamento é a imitação. Pela tradição, você é obrigado a imitar. O peso do passado lhe força a se ajustar, a estabelecer uma linha de conduta e, com esse ajustamento, a mente se sente protegida, em segurança; você se instala numa rotina bem “lubrificada”, para que possa deslizar suavemente, livre de perturbações, sem o mais ligeiro estremecimento de dúvida. Observe os adultos que lhe rodeiam e verá que a mente deles não quer ser perturbada. Eles querem paz, ainda que seja a paz da morte; mas a verdadeira paz é coisa muito diferente.

Você já notou que, quando a mente se fixa numa rotina, num padrão, sempre o faz inspirada pelo desejo de segurança? É por esta razão que ela segue um ideal, um guru. Quer segurança, ausência de perturbação e, por isso, adormece. 

Quando lê, em seus livros de história, a respeito dos grandes líderes, santos, guerreiros, você não se surpreende desejando igualá-los? Isto não significa que não haja grandes homens no mundo; mas o instinto é imitar os grandes homens, procurar tornar-se igual a eles — e este é um dos fatores de deterioração, porque, então, a mente se coloca num molde. Igualmente, a sociedade não deseja indivíduos alertados, ardorosos, revolucionários, porque tais indivíduos não se ajustarão ao padrão social estabelecido e há sempre o perigo de que quebrem esse padrão. É por isso que a sociedade se empenha em prender sua mente em seu padrão, e é por isso que a chamada educação lhe estimula a imitar, a seguir, a se ajustar.

Ora, pode a mente deixar de imitar? Isto é, pode deixar de formar hábitos? E pode a mente que já se acha enredada no hábito, dele ficar livre?

A mente é o resultado do hábito, não? Ela é o resultado da tradição, do tempo — sendo “tempo” a repetição, a continuidade do passado. E pode a mente, a sua mente, deixar de pensar em termos daquilo que foi — e daquilo que 
será, que é, na verdade, uma projeção do que foi? Pode sua mente se libertar dos hábitos e deixar de criar hábitos? 

Se você penetrar bem profundamente neste problema, verá que pode. E quando a mente se renova sem formar novos padrões, novos hábitos, sem tornar a cair na rotina da imitação, permanece, então, fresca, jovem, “inocente”, sendo, portanto, capaz de infinita compreensão.

Para essa mente, não há morte, uma vez que já não existe processo de acumulação. É o processo de acumulação que cria o hábito, a imitação, e, para a mente que acumula, há deterioração, morte. Mas, para a mente que não está cumulando, juntando, que está morrendo a cada dia, a cada minuto — para essa mente não há morte. Ela se acha num estado de “espaço infinito”.

Assim, pois, deve a mente morrer para tudo o que acumulou, todos os hábitos e virtudes imitadas, para todas as coisas de que se acostumou a depender, para ter o sentimento de segurança. A mente então já não está aprisionada na rede de seu próprio pensar. No morrer para o passado, a cada instante, a mente se torna fresca, nova, nunca se deteriorará nem colocará em movimento a “onda da escuridão”.
J.Krishnamurti - A cultura e o problema humano

19 de agosto de 2013

Sem destino...


Certa vez me permiti despir de todas as máscaras
Abandonei todos os conceitos
Desfiz os nós das relações complicadas,
Me limpei de tudo o que carregava
E nunca foi meu,
Pouco peso,
Me fez então
voar..

Fiz um caminho solitário,
Mas pleno,
Nenhuma sombra me acompanhava
Nem passado
Memórias? Só as boas!
Só as que me alegravam 
a alma..

Parti sem destino
E nenhuma expectativa..
Parti para descobrir quem eu era
Quem era esse Ser que tudo percebia
Esse Ser que amava,
Esse Ser que se emocionava
e se maravilhava com a vida,
Mas não suportava prisões
E não foi feito para ser definido
Nem enquadrado..

Parti para o mergulho mais profundo que se pode dar,
Nos abismos da alma
Depois de muitas noites escuras, sem referências,
Tudo se tornou claro como o dia,
Tudo se tornou aquilo que sempre havia sido,
Só quem sem a interferência de uma mente agitada,
Uma mente divisora, 
que sempre teimava em dizer coisas 
que não existiam...

Finalmente o silencio se fez,
E o que surgiu foi a Totalidade disponível completamente,
Respirando a beleza da vida,
Experimentando o instante com pureza e simplicidade,
Descobri num instante, que o Paraíso é aqui
Tudo é puro,
Tudo é clara luz,
Eternidade...

Viagem das profundezas,
Morte e vida acontecendo,
Radiância e plenitude,
Voo, passos, tudo e nada...
Dentro e fora,
Mesma paisagem...

Meditação...

18 de agosto de 2013

Ponto de Quietude...


"Qualquer criatura à face da terra parece saber como estar quieta e tranquila. Uma borboleta numa folha, um gato em frente de uma lareira. Mas os humanos estão constantemente em movimento. Parece que perdemos a habilidade de estarmos quietos, de simplesmente estarmos presentes na quietude que é a base da nossa existência.

O ponto de quietude está no coração do processo criativo. 

No Zen, acedemos a esse ponto através do Zazen. O ponto de quietude é como o olho de um furacão. Quieto, calmo, mesmo no meio do caos. Não é, como muitos acreditam, um vazio em que nos retiramos, fechando-nos ao mundo. Estar quieto significa esvaziarmo-nos do fluxo incessante de pensamentos e criar um estado de consciência aberto e receptivo. A quietude é muito natural e descomplicada. Não é de nenhuma forma esotérica. Contudo é incrivelmente profunda
.

No Zazen praticamos largar mão dos pensamentos e do diálogo interno, trazendo a mente de volta à respiração. A respiração torna-se mais fácil e profunda, e a mente repousa naturalmente. A mente é como a superfície de um lago. Quando o vento sopra, a superfície é agitada. Então há ondas e a imagem do sol ou da lua é quebrada. Quando o vento se acalma, a superfície fica como vidro. A mente tranquila é como um espelho. Não processa, apenas 
reflete. Quando há uma flor em frente, reflete a flor. 

Quando a flor desaparece, a reflexão desaparece. A mente volta à superfície tranquila original. Uma mente quieta está desobstruída. Não se segura ou se agarra a nada. É livre a todo o momento, independentemente das circunstâncias.


O ponto de quietude permite-nos não sermos consumidos pela loucura que nos rodeia, não apenas em situações extremas, mas na nossa vida do dia-a-dia. Tanto da nossa cultura atual leva à agitação e, frequentemente, deixamo-nos levar por esse frenesi. Todos somos condicionados, do momento em que nascemos até ao momento em que morremos. 

Somos condicionados pelos nossos pais, professores, nação e cultura. Vivemos grande parte das nossas vidas como se não tivéssemos mais potencial do que o cão de Pavlov. Quando alguém toca uma sineta, ficamos todos excitados. Damos por nós a viver baseados no que os outros escreveram para nós. Ou reagimos compulsivamente e repetidamente contra isso, ainda assim escravos do guião, mas de outra forma. Há uma alternativa, dada pelo ponto de quietude – a de realizar a nossa liberdade não condicionada.

O primeiro passo para aceder ao ponto de quietude é simplesmente acalmar. Estamos constantemente a falar para nós mesmos. Passamos o nosso tempo preocupados com o passado, que não existe – já aconteceu. Ou preocupados com o futuro. Que também não existe – ainda não aconteceu. O resultado é que perdemos a consciência do momento presente da nossa vida e quase não o sentimos passar. Comemos, mas não saboreamos, ouvimos, mas não escutamos, amamos, mas não sentimos. Passamos as nossas vidas perdidos na nossa cabeça.

Viver na tranquilidade do ponto de quietude significa estar no momento, que é sempre aqui e agora. É muito fácil dizer “estar aqui e agora”, mas é muito difícil estar realmente presente.

Para aceder ao ponto de quietude, temos de nos voltar para o interior. Temos de estar disponíveis para voltar ao momento, uma e outra vez, consciente e deliberadamente. 

Não é fácil. Experimenta o seguinte: Senta-te confortavelmente, fecha os olhos e relaxa. Durante quinze minutos, apenas ouve, sem mexer o corpo e a mente. Apenas ouve. Não te concentres em nenhum som, não sigas nenhuma 
sequência particular de sons. Deixa que todo o teu ser funcione como uma esfera aberta de escuta de 360 graus. 

Não processes o que ouves. Não sonhes acordado. Não adormeças. Durante quinze minutos, apenas escuta.Muitos de nós, incluindo os praticantes mais experientes, vamos achar que é muito difícil simplesmente ouvir. 
Ouvimos sons e imediatamente os catalogamos, ou associamo-los com outra coisa, comparamo-los, analisamo-los, ou tentamos encontrar a origem deles. Rapidamente apenas ouvir torna-se aborrecido e as nossas mentes vagueiam. Não é fácil deixar que as coisas simplesmente sejam, e abandonar os nossos comentários recorrentes.

Na prática Zen, tocamos o ponto de quietude ao focar a mente, o que se constrói gradualmente ao cultivar a nossa concentração. Primeiro, contamos a respiração: inspirar, um, expirar, dois, etc. Ao chegar a dez, voltamos ao 
princípio. Quando percebemos que a mente vagueia, olhamos para o pensamento, tomamos consciência dele, deixamo-lo partir, recomeçamos a contagem no um. Aos poucos começamos a realizar o poder da concentração 
( Joriki). De cada vez que conscientemente deixamos partir um pensamento e voltamos a nossa atenção para a respiração, desenvolvemos a nossa habilidade de colocar a mente onde a queremos, quando queremos, durante o tempo que queremos. E isso é incrivelmente poderoso.

A forma humana é absolutamente magnífica quando vivida plenamente. Muitos de nós arrastam-se pela vida apenas com uma minúscula fracção do nosso potencial. 

Joriki abre gradualmente as nossas reservas físicas, mentais e emocionais e abre as nossas capacidades espirituais.
Uma das formas do nosso poder espiritual se começar a manifestar é através da emergência do aspecto intuitivo da consciência. Esta é uma das razões da ligação íntima do zen com a criatividade. A criatividade é também uma expressão do nosso lado intuitivo. 

Entrar em contato com a nossa intuição ajuda-nos a entrar no fluxo da vida, num universo em estado constante de se tornar. Quando desenvolvemos a intuição, através da arte ou simplesmente nas atividades do dia-a-dia, sentimo-nos como uma parte deste continuum criativo.

A concentração focada num ponto único desenvolve a intuição. Tornamo-nos mais diretamente conscientes do mundo. Percepcionamos de uma forma não claramente compreensível, mas que é muito precisa. Quando a totalidade da nossa mente está focada num único ponto, o seu poder desenvolve-se. Construir a concentração é uma disciplina como outra qualquer. Se queremos desenvolver a musculatura, levantamos pesos. Para tocar piano, repetimos o mesmo exercício vezes sem conta. É o mesmo com o movimento, com a arte. A prática repetitiva desenvolve a nossa capacidade e perícia. E com a meditação acontece o mesmo.

Contar a respiração e voltar quando nos distraímos não exige esforço. Aí estamos prontos para seguir simplesmente a respiração, para nos tornarmos íntimos do respirar. Ao ser apenas a respiração, a testemunha desaparece e apenas a respiração respira.

Nas nossas atividades do dia-a-dia, mesmo pequenos movimentos como o toque da roupa contra a pele são o suficiente para reafirmar o sentido de um eu físico. “Aqui estou, contido num saco de pele”. Mas quando começamos a 
meditar e paramos de nos agitar, esse feedback contínuo desaparece, e com ele o sentido de um eu distinto. Ao desenvolver esse poder de concentração, atingimos um ponto em que desenvolvemos uma falta de sensação do corpo 
durante longos períodos de meditação.(...)

Durante a meditação, quando nos aproximamos dessa quietude
completa, involuntariamente a sabotamos. O corpo por vezes mexe-se ou torce-se para restabelecer esse sentido de solidez. Mas, quando nos familiarizamos com esta falta de sensação, podemos descontrairmos-nos nela. Quando o corpo repousa na quietude, os pensamentos abrandam. Quando os pensamentos finalmente desaparecem, o pensador desaparece. 

Pensamento e pensador são interdependentes, surgem mutuamente. Não pensamento, não pensador, chama-se a isto “o desaparecimento do corpo e do espírito”. Este é o samadhi absoluto a focagem da mente num ponto único. Na focagem não há observador. Não há percepção do tempo, eu, ou outro. Contudo, não podemos trabalhar com um computador ou conduzir um carro neste estado. temos de continuar até que este estado se manifeste gradualmente como samadhi em ação, ou seja, estamos aptos a funcionar em atividade mas de dentro de um lugar de quietude, de centragem. 

Quando o samadhi absoluto surge na nossa meditação, espalha-se no resto das nossas vidas, em tudo o que fazemos. É uma forma de estar. Todos os nossos sentidos se tornam abertos, alertas, libertos de tensão, receptivos, 
mas sem nos agarrar.Ao trabalhar o samadhi não há esforço, nem intenção. É uma consciência de 360 graus; não tanto como a consciência de um caçador, que está muito focada e dirigida, mas como a consciência da caça – sem restrições."
John Daido Loori em The Zen of Creativity
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