28 de outubro de 2017

A verdadeira escuta - J.Krishnamurti


"Permiti-me sugerir-vos escutardes o que estou dizendo sem emitir julgamento, sem dizer que é impossível.

Por favor, não traduzais o que se está dizendo nos termos dos vossos próprios conhecimentos, nem o escuteis em atitude defensiva, comparando-o com o que outros vos disseram ou com o que lestes nos livros sagrados — que não são mais sagrados do que outro livro qualquer.

Escutar é uma tarefa bem difícil; em geral, nunca prestamos atenção senão à voz de nosso próprio pensar, de modo que, na realidade, nada nos é comunicado.

Escutar com julgamento, comparando o que se ouve com o que já se sabe ou leu, é uma forma de distração.

Mas, se sois capaz de escutar sem comparação, com atenção natural, então o próprio ato de escutar é um ato de meditação que, indubitavelmente, gera profunda transformação.

Tentai de vez em quando observar-vos, para ver se escutais realmente alguma coisa, o que vossos amigos dizem, o que diz vosso marido ou esposa, o que diz vosso patrão — e vereis que vossa mente está sempre totalmente ausente.

Simulais estar escutando, mas só escutais pela metade; ou tendes medo, ou estais enfadado, ou simplesmente não desejais escutar e, portanto, não há comunicação direta.

Como disse, o escutar, por si só, opera um extraordinário milagre.

O próprio ato de escutar produz uma compreensão imensa, sem esforço algum de vossa parte."

J.Krishnamurti em Satsang

21 de outubro de 2017

Sobre a morte e a imortalidade - Osho



"Nem pelo trabalho, nem pelo nascimento nem pela fortuna, mas apenas pela renúncia, alcançamos a imortalidade.
Mais sublime que o céu, a verdade absoluta, radiante mora na caverna do coração; e é ali que o buscador sincero a encontra."
Kaivalya Upanishad

"O problema da religião é a morte. Como resolvê-lo? Tentamos de várias maneiras. Por meio da riqueza, da ciência, da saúde, da proteção, da medicina, da filosofia e da teologia elaboramos diversas estratégias para sermos imortais. Inventamos muitas coisas, mas todas são vãs, sem sentido absurdas. A morte vem e nada a detém. Sempre foi assim e sempre será porque a morte na verdade, não está apenas no futuro, está também no passado.

Quando alguém nasce, a morte nasce com ele. A morte não está apenas no futuro, é uma decorrência daquilo que chamamos de nascimento. O nascimento é o começo da morte, ou poderíamos dizer, a morte é o final do processo de nascimento. Portanto, o aniversário do seu nascimento é também o aniversário da sua morte. O início é o fim, porque todo início implica um fim. Todo início tem seu fim como a semente. Se a morte estivesse unicamente no futuro, poderia ser evitada. Mas não está, ela faz parte de você, está aqui e agora dentro do seu ser - avançando, crescendo. 

Consequentemente, a morte não é um ponto fico em algum lugar. É algo que cresce em seu interior, e cresce sem parar. Quando você a combate, ela cresce. Quando você a alimenta, ela cresce. Quando tenta escapar de suas garras, ela cresce. Assim, o que quer de faça, uma coisa está constantemente em movimento: ou seja, você está morrendo. O que quer que faça - dormir, relaxar, trabalhar, pensar, meditar - uma coisa é certa: a morte está tomando corpo constantemente, continuamente. Ela não precisa de sua ajuda, não precisa de sua cooperação. Não liga para suas defesas, continua crescendo. Por quê? Porque nasceu quando você nasceu, faz parte de seu nascimento. A morte não pode ser evitada, pelo meios que o homem, a mente humana, sempre empregou.

Este Upanishad diz: a morte pode ser evitada, você se torna imortal, você pode conhecer aquilo que é imortal - que jamais morrerá.
Mas como conhecer isso? Onde procurá-lo, como descobri-lo? Afinal, todos  os esforços de que temos ciência são irrelevantes, sem sentido.
O Upanishad diz: não lute contra a morte, antes, procure saber o que é a vida. Não insista em escapar da morte, antes decida entrar na vida - a própria chama da vida deve ser penetrada. Não crie um tipo de vida negativa; não teime em fugir da morte - esse é uma ato negativo. Seja positivo e ocupe-se em aprender o que é a vida. De fato, a morte não se opõe à vida. Nos dicionários sim, na existência não. A morte não se opõe à vida; a morte se opões ao nascimento.

A vida é algo mais. Ela antecede o nascimento, não nasce. O nascimento é um fenômeno que acontece na vida. O nascimento não é o início da vida. Se fosse, então você teria nascido morto. O nascimento não é o início da vida, a vida o antecede. A vida está implícita no nascimento, existe antes dele. E como existe, dá-se o nascimento. A vida vem antes, o nascimento vem depois. Você existe mesmo antes de nascer. Você nasceu porque já existia.

O mesmo ocorre com a morte. Se você existia antes de nascer, então existirá depois de morrer, pois o que está presente antes do nascimento necessariamente estará presente depois da morte. A vida é algo que acontece entre o nascimento e a morte - e além do nascimento e da morte.

Devemos imaginar que a vida é um rio. Nele, um ponto é conhecido como nascimento, outro como morte, mas ele não para de fluir. Continua a fluir depois da morte o rio que já fluía antes do nascimento. Essa vida semelhante a um rio deve ser penetrado, do contrário nunca conheceremos aquilo que é imortal. Obviamente, o que não é mortal deve ser não nascido. Entretanto nosso olhar é  inteiramente mal orientado. Olharmos para uma maneira de escapar da morte. Ele é contra a morte, não a favor da vida. Por causa dessa falha única, nunca conseguimos conhecer o imortal. Prosseguimos na busca - descobrindo novos métodos, novas técnicas, novos recursos para iludir a morte. Mas a morte vem e jamais deixará de vir.

É preciso conhecer a vida. Jesus disse: "Buscai a vida, a abundância da vida." Não se contentem com aquilo que você chama de vida. Procure mais, descubra mais, aprofunde-se mais - saia à cata de mais vida. No momento buscamos menos morte e não mais vida. Nossa preocupação se volta totalmente para a morte.
Um exemplo. Na escuridão você pode fazer duas coisas: lutar contra ela, na tentativa de destruí-la, ou procurar uma luz, o que é bem diferente. Você poderá combater diretamente a escuridão, mas será derrotado: a escuridão é que vencerá. Não porque seja mais forte que você, mas porque você não tem poderes contra ela. Não, não: a escuridão não é poderosa e você não é impotente! Ocorre que a escuridão não passa de ausência e ninguém consegue lutar contra uma ausência.
A escuridão é negativa. Você não pode lutar contra ela e, se lutar, será derrotado - não porque ela seja forte, mas porque não existe. Como lutar contra algo inexistente? A escuridão não é nada; é apenas a ausência de luz. Se você decidir lutar contra ela, ficará lutando por milhares de anos, sem vencer nunca. Quanto mais for derrotado, mais procurará novos métodos de vencer. E quanto mais for derrotado, mais vai se sentir impotente e achar que a escuridão é muio poderosa. Pensará então que precisa descobrir algo mais poderoso que ela. Essa lógica é inteiramente falaciosa, um círculo vicioso; continue a aplicá-la e você jamais escapará desse círculo.(...)

O caso da morte é o mesmo. A morte não é uma entidade positiva, é apenas a ausência de vida. Quando a vida se ausenta, a morte ocorre. A morte é alguma coisa que se vai, não alguma coisa que vem até você - só a vida vai para algum outro lugar. O rio da vida começa a fluir para um determinado ponte e a morte ocorre - ela é apenas uma ausência.
Não há luz, as trevas ocorrem. A luz vem, as trevas não estão mais ali. Portanto, encontre luz, encontre a vida. Não lute contra a morte, não combata as trevas. Não seja negativo, seja positivo. E por positivo, entendo procurar sempre o que está presente. Jamais saia em busca do que está ausente - você jamais encontrará.
A morte acontece todos os dias, mas ninguém a encontrou, ninguém a conhece. Nem pode conhecer - como poderia? 
Você é a vida - como conheceria a morte? A escuridão está aí, mas o sol nunca a conheceu - como poderia o sol conhecê-la? Quando o sol aparece, não há mais trevas; portanto os dois nunca se encontram, não podem se encontrar isso é impossível. (...)

Você não pode encontrar sua própria ausência. Como poderia? A morte é a sua ausência. Quando você está ausente, a morte ocorre.
Permita-me dizer uma coisa: a morte é um fenômeno social, não individual. Nenhum indivíduo morre; o rio individual continua a correr para algum lugar. Mas quando, partindo de uma multidão, o rio individual flui para outro lugar, aos olhos da multidão alguém morreu; aos olhos da multidão alguém se ausentou. Se meu amigo morreu, morreu para mim, não para ele mesmo. A morte é um fenômeno que ocorreu para mim, não para meu amigo. Como seria possível que ocorresse para ele?
A vida não pode se defrontar com a morte; a vida é um movimento em direção a algum outro lugar - por isso nós nos defrontamos com ela. A morte é um fenômeno social, não é um fenômeno individual. Ninguém jamais morreu, mas nós sabemos que todos morrem. E todos morrem porque alguém de repente desaparece; Estamos aqui, se eu de repente desaparecer, então morri - não para mim, mas para você. Para você eu desapareci. Mas como desaparecer para mim mesmo? Isso seria impossível.

Os Upanishads recomendam: não lute contra a morte, lutar contra a morte é lutar contra a ausência. Em vez disso, procure a presença que está em você. Quem está presente em você? Descubra. O que está presente em você que você chama de vida? O quê? De onde veio para penetrar no seu ser? Qual é o centro, a fonte disso? Mergulhe em seu íntimo e descubra a fonte. Segundo o Upanishad essa fonte da vida está oculta em seu coração. Entre nele e encontre a fonte original. Depois que você conhecer essa fonte, não haverá mais morte para você, não haverá mais medo, não haverá mais nenhum problema. Depois que conhecemos a vida, nos tornamos imortais."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

14 de outubro de 2017

Tantas mentes, tantos mundos - Osho


"A aparência das coisas é imposta ao eu. Eliminando-a, 
o eu se torna o Brahman absoluto, íntegro, sem igual e sem ação.
A aparência do eu, sob o aspecto do mundo da divisão, é falsa porque aquilo que não muda, 
que não tem órgãos, não é divisível.(...)
O eu consciente é livre do sentimento do observador, da observação e do observado. 
É inocente e pleno como o oceano.
Assim como as trevas destroem a luz, assim, a causa da ilusão se dissolve no Supremo que não tem igual. E, dado que o Supremo não tem órgãos, como poderia ser divisível?
Dado que a realidade superior é una, como haveria divisões?
No sono profundo, sem sonhos, sushupti, só existe a bem-aventurança.
Poderia ela por acaso, ser dividida?"

~Adhyatma Upanishad ~

Este Upanishad, em essência, se insurge contra a mente. Mas, não apenas ele; todas as lições do Upanishad se insurgem contra a mente.

Na verdade, a religião se opõe à mente, porque a mente cria toas as ilusões, todos os sonhos. Ela cria tudo aquilo que chamamos de mundo. A mente é o mundo; esforce-se por compreender essa verdade, que é uma das verdades fundamentais.

Em geral, pensamos estar vivendo todos num mundo só. Isso é absolutamente falso. Você vive em seu mundo, eu vivo no meu mundo; quantos mundos houver, outras tantas mentes haverá. Cada mente é um mundo próprio. Minha mente cria meu mundo; sua mente cria seu mundo.

O poeta vive em seu próprio mundo. O cientista nunca entra nesse mundo, não pode entrar. O cientista e o poeta podem ser vizinhos, mas constituem polos opostos. O cientista atravessa um jardim e olha para flor, mas essa flor não é vista. Ele olha para a estrutura da flor, não para a própria flor. Ele não consegue ver a flor do poeta,, nunca. Quando o cientista olha para uma flor, o que enxerga é um fenômeno químico. Esse fenômeno representa um mistério para ele, mas um mistério pode ser decodificado. É desconhecido, mas não incognoscível. Será conhecido - se não hoje, então amanhã, mas sempre é um mistério que pode ser desmistificado. A razão é capaz de penetrar sua estrutura e descobrir o que essa flor é e como desabrocha: a estrutura material, a estrutura atômica pode ser conhecida, penetrada. Portanto, a flor nunca é um mistério para o cientista do mesmo modo, que é um mistério para o poeta.

Quando o poeta passeia pelo jardim e olha aquela flor, não vê a mesma flor que o cientista viu. Entendamos bem isso. A mesma flor é olhada por duas mentes - uma com atitude científica, a outra com atitude poética. A flor é e não é uma só porque o cientista pensa numa flor diferente - química, elétrica, material estrutural. Pensa em termos de átomos: pensa em como essa flor é o que é. Qual o seu mecanismo? De que modo esse mecanismo funciona?

O poeta não liga de modo algum para átomos, matéria, moléculas, mecanismos, estruturas. Não, o poeta aprecia a beleza, de que o cientista nunca se dá conta. O poeta se dá conta de um certo mistério a que chama de beleza, mistério que não é o mesmo e que, para ele, jamais poderá ser desvendado. Se puder, não é mistério.
Para o poeta, mistério significa aquilo que permanecerá incognoscível. (...) O incognoscível é aquilo que não pode ser conhecido - nunca! Aos olhos do poeta, uma flor permanecerá para sempre misteriosa. Esse mistério é a sua beleza e a beleza não tem estrutura; a beleza não tem moléculas, átomos, mecanismo. O que é a beleza? Algo imaterial, não material - que na verdade, o poeta não vê, mas sente.

Podemos levar também, a passear no jardim, um místico - um santo, um sufi, um monge zen. Para ele, a flor não é nem uma estrutura científica a ser compreendida, analisada e conhecida, nem beleza, sensação poética, estética. Não: um místico, ao observar uma flor, se torna a própria flor. As barreiras se dissolvem. A flor não está lá e o místico aqui - aqui e lá se tornam uma só coisa. Por isso, o místico pode dizer: "Desabrochei em você."
A divisão não está presente. O místico penetra no próprio espírito da flor - ou a flor penetra no místico, tornado-se uma só coisa com ele. Um sentimento de unicidade, de unicidade divina, desce sobre o místico.
O cientista se aproxima da flor por meio do intelecto; o poeta se aproxima da flor por meio do coração; e o místico se aproxima da flor por meio de sua totalidade, de sua plenitude. A flor é e não é a mesma porque três mentes criam três mundos e esses mundos nunca se encontram. O poeta não poderá jamais entender que de que flor o cientista está falando. O cientista não poderá jamais entender o poeta, que lhe parece pueril, absurdo; nem o místico, que para ele é um louco: "O que quer dizer com isso de se tornar você próprio a flor? Ficou maluco? Como pode alguém se transformar numa flor? E como pode uma flor se transformar em alguém?. A ciência depende da divisão, por isso o mundo não dividido do místico é uma insensatez; o místico é louco.(...)

Se você escrever qualquer coisa em linguagem poética, ninguém conseguirá traduzi-la. Com a prosa é diferente, pois a prosa é racional. A poesia não pode ser traduzida porque é a expressão do irracional , em que o importante são os sentimentos e as emoções.
Quanto ao místico, à sabedoria dos místicos, também isso não se pode traduzir. É que essa sabedoria nada tem a ver com a linguagem; tem a ver com o ser, com a totalidade. Buda olhando o mundo diz palavras intraduzíveis. Por quê? Porque o olhar de Buda é tão vasto, tão abrangente que nenhuma palavra é capaz de exprimir o que ele vê. (...)

Você pode viver com sua esposa por quarenta, cinquenta anos - mas já reparou que não há uma linguagem comum entre ambos? O marido diz uma coisa, a esposa entende outra. Vivem juntos há quarenta, cinquenta anos - qual é então o problema? Por que não são capazes de entender as palavras e as definições do cônjuge? É difícil: cada qual tem sua mente; E cada mente tem seu próprio mundo, de modo que  tudo quanto penetrar nele assume forma e cor próprias. O marido tem seu mundo e o que diz significa alguma coisa de acordo com sua maneira de pensar. Quando suas palavras penetram no mundo da esposa, transformam-se em outra coisa. Os dois mundos nunca se encontram.

Só existe encontro onde existe silencio; não existe encontro onde existe conversa. Por isso o amor é silencioso. Quando amamos alguém não falamos, apenas estamos presentes um para o outro. A conversa cessa.

Portanto lembre-se: quando dois amantes começam a falar, já não há amor entre eles. Quando ficam em silencio, o amor existe - no amor, podem entender-se muito bem. Por quê? Porque no amor, a mente não tem permissão para estar. A linguagem se ausenta, a conversa essa, não se proferem mais palavras - a mente deixou de funcionar. Por alguns poucos instantes, ela não funciona e o amor se torna comunhão.
A conversa acaba desandando em debate, discussão, controvérsia. Você diz uma coisa e o outro entende outra coisa. Dizer algo é ser mal compreendido porque você tenta se aproximar de um mundo diferente, com diferentes atitudes, diferentes orientações, diferentes linguagens. Não existe um mundo único: tantas mentes, tantos mundos.

Por que insistir nessa postura? Apenas diga a si mesmo que, na verdade, existe um mundo só, ao qual, no entanto você só terá acesso depois de sua mente se dissolver. Se continuar apegado à sua mente, continuará criando seu próprio mundo, projetando seu próprio mundo. Quando a mente já não existe, você encontra a unicidade, a existência divina e indiferenciada.

Essa existência é bem-aventurança.
Essa existência é consciência.
Essa existência é verdade.

Sempre que você se mover rumo à religião, se moverá ruma à não mente. Jogue fora a mente e permaneça sem mente, mas consciente. Se permanecer sem mente e consciente, penetrará na camada profunda da existência.
No entanto, lembre-se: permanecer sem mente não é o bastante, pois no sono profundo, sem sonhos, todos ficamos sem ela.
A psicologia indiana divide a consciência humana em três etapas: o sono com sonhos; acima deste, o sono com sonhos; e na superfície, a vigília. De manhã você se levanta da cama e entra no estado de vigília. Á noite, vai para a cama e entra no estado de sono com sonhos. Mais tarde, os sonhos desaparecem, e você mergulha no abismo do sono sem sonhos - conhecido como sashupti.
No sonho sem sonhos não há mente porque não há pensamento, sonho ou agitação; tudo cessa, a mente se dissolve e você fica sem mente. Daí, a recomendação: " Estejam atentos e não pensem." Essa é a única diferença entre samadhi e sushupti. Samadhi é o ponto mais alto do êxtase e sushipti, o centro mais profundo do sono sem sonhos. Não há outra diferença; em tudo o mais são uma coisa só. Em sushipti, não há mente; em samadhi não há mente. Em sushupti você está inconsciente. Em samadhi, você está totalmente consciente. A consciência, porém é a mesma. Em um estado há trevas; no outro, há luz.

Graças à meditação, mergulhamos num sono sem sonhos e, ainda assim, permanecemos alertas. Quando isso acontece, a gota cai no oceano e se transforma em oceano."
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.

7 de outubro de 2017

O que é a mente? - J.Krishnamurti


"Você sabe o que é a mente? Grandes filósofos consumiram anos e investigar a natureza da mente, e sobre ela se têm escrito vários volumes; mas, prestando-se toda a atenção, acho que é bastante simples descobrir o que é a mente. Você já observou a sua própria mente? Tudo o que até hoje você aprendeu, a lembrança de todas as suas pequenas experiências, tudo o que seus pais e mestres lhe ensinaram, tudo o que você leu em livros e observou no mundo circundante — tudo isso é a mente. É a mente que observa, que discerne, que aprende, que cultiva as chamadas virtudes, que comunica ideias, que tem desejos e temores. Ela é, não só o que você vê à superfície, mas também as profundezas do inconsciente, onde estão ocultas as raciais ambições, motivos, impulsos, conflitos. Tudo isso constitui a mente. 

Pois bem; a mente quer estar sempre ocupada com alguma coisa, assim como a mãe que se preocupa com os filhos, ou a dona de casa com sua cozinha, ou o político com sua popularidade, sua posição no Parlamento; e a mente que se mantém ocupada é incapaz de resolver um problema. Percebe isso? Só a mente que não está ocupada, está fresca e pode compreender um problema.

Observe sua própria mente para ver como é inquieta, uma vez que está sempre ocupada com alguma coisa: com o que alguém disse ontem, com alguma notícia recebida neste instante, com o que você fará amanhã, etc. Nunca se encontra desocupada — o que não significa estar “estagnada” ou num estado de vacuidade. 

Enquanto está ocupada com o que quer que seja — as coisas mais elevadas ou as mais insignificantes — a mente é sempre limitada, medíocre. E a mente medíocre é incapaz de resolver qualquer problema; só sabe manter-se ocupada com ele. Por mais importante que seja o problema, a mente mantendo-se ocupada com ele, o torna insignificante: só a mente que está desocupada e, por conseguinte, fresca, pode considerar e resolver um problema.

Mas, é dificílimo ter a mente desocupada. Quando alguma vez você estiver sentado tranquilamente à beira do rio, ou em seu quarto, observe a si mesmo, para ver como aquele pequeno espaço de que você está consciente e que você chama “a mente”, está repleto de pensamentos que nele se precipitam. Enquanto a mente está “cheia”, ocupada com alguma coisa — seja a mente de uma dona de casa, seja a do maior dos cientistas, ela é pequena, medíocre, e nunca será capaz de resolver qualquer problema a que se aplique. Mas, ao contrário, a mente que está desocupada, que tem espaço, pode aplicar-se ao problema e resolvê-lo, porque essa mente é fresca, e, portanto, se aplica ao problema de maneira nova e não com a velha herança de suas próprias lembranças e tradições."

J.Krishnamurti – A cultura e o problema humano
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