30 de abril de 2014

Compartilhar de Si - Osho


"Um grande passo em direção ao amor é o compartilhar.

Compartilhe tudo que você tem...não envenene o teu coração...
Compartilhe sua vida....

Qualquer coisa que esteja em você, compartilhe, não guarde.

Sua sabedoria... Compartilhe. Sua prece, seu amor, sua felicidade, compartilhe. Se não encontrar ninguém, compartilhe com os cães, com as rochas, com o mar, com a natureza, mas compartilhe.

O importante é dar...

Quando você priva as pessoas de qualquer coisa em seu próprio benefício você envenena o coração. Toda acumulação é venenosa.

Se você compartilhar, seu organismo ficará livre de venenos.E quando você der não se importe se há resposta ou não.Nem mesmo espere por um obrigado.

Sinta-se grato à pessoa que permitiu que você compartilhasse alguma coisa com ela. Não faça o contrário. Não espere a resposta, dizendo a si mesmo, lá no fundo, que ela deveria se sentir agradecida porque você compartilhou algo com ela. 
Não, não faça assim.

Sinta-se, você, agradecido porque ela esteve disponível para ouvi-lo, para compartilhar alguma energia com você... Porque ela esteve disponível para ouvir sua canção...Porque ela esteve disponível para você.

Compartilhar é uma das virtudes mais espirituais, uma das maiores virtudes espirituais."
Osho em Todos os Dias

***

Vivemos em um mundo, onde o acumular, o guardar para si, o atropelar o outro é a regra. Chegar primeiro, envenenar as relações para tirar proveito da situação... é isso que vemos em qualquer dimensão da sociedade em que vivemos.
Quando ouvimos o amado Osho nos apontar uma beleza dessas, a de que o Importante é dar... num primeiro momento ficamos assustados porque isso é "contra" tudo o que vivenciamos no nosso dia a dia. Chega a ser infantil, dirão alguns.
Mas essa verdade é libertação. É uma metanóia, uma mudança radical de direção. 
Viver e aplicar conscientemente esta verdade em nossas vidas é ser original. No sentido mais pleno da palavra. Ser origem, fundamento, essência. Sermos nós mesmos. Puros, generosos, mão aberta, coração transbordando...como é a natureza, como é o amor...

Compartilhar de Si, no fundo não exige esforço algum, é um pleno relaxamento, um deixar ir... respirar o instante e ser junto com ele, ser o instante e tudo o que acontece é pleno, é perfeito... é Total...

A generosidade não exige nada de nós, pelo contrário, reter, guardar, esconder, isso sim exige um esforço tremendo e além disso nos trás mais e mais a sensação de desconfiança e de isolamento.
O amor relaxa, se entrega, confia, deixa ser...
Não pede nada, pois é pleno em Si mesmo.
E compartilhar é a sua mais sublime canção...
Amor
Amidha Prem 


29 de abril de 2014

Sinto muito - Jeff Foster



"Há vários anos atrás, quando acreditei estar completamente iluminado, e muito além do ego, ( vejam o ridículo disso? ) tinha eu um mantra:

"Nunca pedir desculpas. Jamais dizia: Sinto muito."

Acreditava que isso era perfeito.
Além da humanidade.
Além da censura.

E como não havia "nada aqui", obviamente que necessitava me desculpar por nada ( já que era perfeito e o Universo jamais comete nenhum erro ).

Se alguém tivesse algum problema "comigo",
Se alguém se aborrecia com alguma coisa que havia dito,
Certamente devia ser sua própria projeção,
Seu ego
Sua falta de iluminação
Seu sofrimento.

Isso era o que acreditava, tal qual ( e também acreditava que já estava livre de crenças ).

Me sentia atraído por mestres espirituais "radicais" e "absolutistas" que atuavam com certa crueldade e que nunca se desculpavam e que aparentavam ser imperturbáveis.
Como pareciam ser Iluminados!
Geniais e distantes!
Completamente imunes à vida!
Sumamente protegidos das dores e alegrias, que implicam as relações íntimas humanas!

Mas amigos, quando foi que se dizer "Sinto muito" - e fazer as pazes e escutar profundamente os demais e nos relacionarmos mutuamente na humildade e em alegre dúvida e nos abraçarmos e chorarmos juntos - se converteu no Pecado Original da Iluminação?

Mas mantinha os "outros" à distância, e me recusava a me envolver ( e assim afirmava que não havia "nenhum outro" como um robô bem treinado do Advaita, negando perfeitamente o imperfeito coração humano.)

Tratava-se de uma Unidade desconectada.
Um reconhecimento carente de amor
Um fogo sem calor.
Um despertar medíocre.

E agora vejo que é um grande alívio ser capaz de dizer, e dizer realmente a partir do coração...

Sinto muito...


***
Aquilo que chamam de "iluminação" não é uma exclusão, nem uma fragmentação dos sentimentos, das sensações, emoções... mas a total inclusão de tudo o que existe, de todas as manifestações, pensamentos, sentimentos, afetos, relações, tudo é perfeitamente acolhido, amado, e iluminado pelo fogo do amor incondicional.

Esta maneira de se colocar como alguém frio, distante, impessoal, ainda é o ego ardiloso, se disfarçando de superioridade discriminatória, onde as relações são banalizadas, o brilho dos olhos e o envolvimento são taxados de inferiores e desnecessários.

Neste belo depoimento, Jeff nos aponta uma grande armadilha que precisamos ficar atentos neste processo de desidentificação. Não cairmos na inconsciência da nossa humanidade, na inconsciência de que o Amor é a nossa essência, é a Verdadeira essência, e que o verdadeiro despertar só acontece através do Amor, da Compaixão, e da Humanização, da Humildade...
É o fogo do Amor que "queima" a ignorância da mente...

Somos muitas vezes levados a ignorar a dor, o sofrimento alheio por vermos que aí se trata da ignorância de sua natureza essencial. 
Mas, se estamos centrados no coração, como nos dizia Ramana, naturalmente estaremos receptivos, acolhedores e ao mesmo tempo lúcidos, conscientes, e poderemos apontar luz e consciência para aquele que está ainda identificado com a falta, com o sofrimento e a dor.

Nada está fora, pois não existe nenhum "fora"!
Tudo incluído, tudo pertencendo...
Mesmo a ignorância, mesmo o medo, e porque não, mesmo o desculpar-se...
Todos somos Um, e nessa Consciência amorosa, tudo está absolutamente incluído e assumido como próprio... 
Só mesmo o Amor é capaz de realiza Isso...
Amidha Prem

28 de abril de 2014

Desaprendam! - Osho


"Um homem foi até Ramana e disse: Vim aqui tão longe, vim da Alemanha, e vim para aprender seus ensinamentos.

Ramana disse: Então você perdeu seu tempo, porque aqui não há nenhum aluno e nenhum professor. Ensinar não é o nosso negócio. Se quiser aprender vá a outro lugar.

Ele deve ter vindo de alguma escola da Alemanha, e gostaria de conhecer os Vedas, Upanishads, ele deve ter vindo por ter se interessado nos textos de Ramana.

Lendo os Upanishads, ele queria encontrar o homem que os conhecia profundamente. Ele deve ter vindo por causa das escrituras.

Mas você não conhece o homem que sabe. Ele é sempre contra as escrituras. Escrituras podem prendê-lo a ele, mas ele lhe diz para ir além das escrituras. Ele lhe dirá que somente indo além desses ensinamentos você poderá se realizar. "Abandone isso agora! Vocês estão aqui comigo, não há necessidades dos Vedas e Upanishads e Korans. Abandone todos! Agora estou aqui, vivo".
Jesus diz: Eu sou a verdade, não há necessidade de escrituras aqui

Ramana disse: Então vá a outro lugar qualquer porque aqui "desensinamos". 

Se vocês estão prontos para desaprender alguma coisa - permaneçam aqui. 

Se vocês vieram para aprender algo mais, - as universidades existem para ensinar. Quando se vem a mim, venham para desaprender. 

Esta é a universidade do desaprender, a universidade onde se cria a não-mente, a universidade onde o que quer que tenha aprendido, será deixado para trás.

Todo o seu conhecimento precisa ser abandonado só então você se torna conhecedor, só então você atinge a perfeição, a claridade, só então seus olhos não estarão cheios dessas teorias, e absolutamente claros e transparentes, só então você poderá ver. 

E a verdade esta em toda parte. Ela sempre está em toda parte.
Osho em Just Like That


27 de abril de 2014

Vacuidade - Padma Santen


"As coisas não são sólidas. Se elas não são sólidas é porque elas emergem, elas co-emergem, as aparências co-emergem. Então eu preciso entender isso. Isso é uma vacuidade lúdica. Não estou me dando conta que as coisas não existem. Estou me dando conta de como é que elas aparecem, como elas surgem. Eu vou utilizar esse mecanismo para ultrapassar o sofrimento e trazer benefício aos seres. 

Então essa vacuidade ela não é o objetivo final, a gente vai adiante na prática. Tampouco é a manipulação dessas aparências é nosso objetivo. Nós vamos localizar que além dos fenômenos de indexação e co-emergência existe uma natureza livre.

Se as coisas surgem por co-emergência elas brotam. Desse modo existe um estado anterior de brotar. (...)

O ensinamento do Buda é assim: esse conjunto de surgimentos e de
dissoluções não importa. O que importa realmente é que tem uma natureza livre, uma condição estável fora desse surgimento e dissolução. (...)
O mesmo lugar onde as ondas surgem é o mesmo lugar onde as coisas desaparecem. Por isso tem aquela analogia com o mar. O mar continua, o mar é que importa.

Aqui, enquanto estamos estudando prajnaparamita, estamos nos dando conta que as ondas e os formatos das ondas evocam coisas mas são apenas ondas, aquilo surge e cessa. Eu posso também fazer essas ondas surgirem. Eu posso olhar as ondas de diferentes modos, produzindo outras aparências, mas esse fenômeno não é o mais importante, o mais importante é que há essa natureza livre.

Então quando a gente pensa no mar, naquilo que é “sólido”, nós pensamos como a grande espacialidade. Dessa grande espacialidade surgem as formas e as formas se dissolvem. O surgimento das formas vamos chamar luminosidade, e o fato de que elas são co-emergentes, que elas não tem substancialidade em si mesmas, é chamado de vacuidade.

Vacuidade é uma característica da luminosidade. (...)
As aparências que surgem por luminosidade, elas são vazias. São como traços no ar, como faíscas atmosféricas. Elas são como sons, como ecos. Existem vários exemplos da vacuidade.

A vacuidade surge desse modo, a aparência da vacuidade surge assim. E como nós estamos presos às aparências das coisas como se fosse externa a nós, fixa e real, nós estamos presos à insatisfatoriedade, à impermanência ao sofrimento. Nossa mente, operando ligada a essas aparências, passa por insatisfatoriedade, impermanência e sofrimento. Inevitável! 

Assim, a insatisfatoriedade, a impermanência e o sofrimento… os próprios
sofrimentos! A roda da vida é a história disso.
Mas como nós estamos tão sérios dentro dessas realidades, fazendo tantos esforços, a gente tem a sensação de que isso é o mundo completamente sólido, por isso a gente precisa de prajnaparamita, que olha as formas, as sensações, a formação mental e a consciência como vacuidade.”
Lama Padma Santen em Satsang em Viamão/RS

26 de abril de 2014

Pensamentos Obsessivos -O.M. Aïvanhov


"Pergunta: Temos pensamentos repetitivos, obsessivos, às vezes de rejeição. O que pode dizer sobre isto?
O.M. Aïvanhov - A Isto remete ao que é denominado o medo do abandono e o medo da traição. Quer dizer, a característica destes pensamentos obsessivos é que eles são induzidos por apegos ligados a feridas que foram vividas.
(...) 
Não adianta encontrar elementos que desencadearam isso. A pessoa diz: "eu tenho pensamentos". Mas, não é você quem tem pensamentos, são os pensamentos que surgem em sua mente, no seu cérebro mais arcaico, que lhe sussurra coisas muito desagradáveis às quais você se identifica e portanto terá de enfrentar.

Primeiramente, você não é esses pensamentos; isto foi dito, repetido, incansavelmente. Enquanto você se identificar com esse gênero de pensamentos, você não poderá acessar a liberdade e ser

Livre efetivamente. Ou seja, quando você leva sua consciência, sua atenção, sobre um pensamento que chega, a primeira coisa que você faz é dizer: “são meus pensamentos”. Mas, não! São secreções que estão ligadas às feridas passadas.

Portanto, é preciso se desidentificar, já, desses pensamentos passados, porque eles não são você. Quando você têm pensamentos como esse, o que isso quer dizer? Isso quer dizer, evidentemente, que você não está suficientemente instalado no instante presente.

No instante presente não há pensamentos. Desde que haja um pensamento, você não está mais no instante presente e as transformações de sua consciência, o que você vive, lhes mostram isso.

Como diz BIDI ( Nisargadatta Maharaj ), você ainda atua na peça de teatro e isso é o que você não consegue ver. Você ainda está iludido e convencido de que é a pessoa que vive isso. Enquanto você estiver identificado com este corpo, enquanto você estiver identificado com sua pessoa e com seus pensamentos, é muito simples, você não pode encontrar a Liberdade. (...) isto quer dizer que há um trabalho de distanciamento entre o Ser e aquele que pensa ser os pensamentos.

A primeira coisa a fazer é conscientizar-se imediatamente de que você não é esses pensamentos. É preciso vê-los passar. Todos os ensinamentos sobre meditação já falaram longamente disso.

Enquanto houver emoções, enquanto houver medos e desejos, enquanto houver este tipo de pensamentos, você não pode ser Livre. Você pode viver momentos maravilhosos, de pura gratidão, onde pode viver aparentemente momentos de Graça. Porém, viver momentos e experiências passageiras não é estar estabelecido, de fato, na Liberdade.

Enquanto você jogar o jogo desses pensamentos que chegam e que vocês estão persuadidos que são seus, você não tem nenhuma liberdade. Este é o trabalho da Luz, não somente do Abandono à Luz, mas quando você aceitar abandonar a Si próprio, enquanto este personagem vivendo uma história. Senão, esses pensamentos vão, literalmente, esmorecer a sua vida.(...)

Enquanto você acreditar que é você quem pensa, há engano.
Sobretudo por este tipo de pensamentos que surgem e aparecem o
tempo todo.
O.M. Aïvanhov

***
Pensamentos nos visitam. Chegam e passam. Não tem nenhum poder sobre nós. Pensamentos são energia em fluxo, retê-los cria dor e sofrimento, observá-los vir e também ir, não causa mal algum.
A mente é energia em fluxo constante, passando pela tela da observação que é a consciência. 
Os pensamentos, emoções, são como as águas de um rio, estão sempre em fluxo. Observar aquilo que surge na mente sem se identificar nos torna livres de tudo aquilo que a mente teima em nos dizer. Estaremos livres para desfrutar sem não nos identificarmos com nada que a mente nos diga.

Quando os pensamentos são alimentados, são fortalecidos pela luz da consciência, eles se tornam mais e mais fortes, e a consciência acaba por se identificar com eles, e isso "gera" os chamados pensamentos obsessivos. Nessa identificação muita coisa pode acontecer, porque agora, aquilo que era simples energia em fluxo, ganha força, ganha forma e gera ação, gera uma cadeia infinita de eventos, que não temos nenhuma noção para onde irão, nem em quem, nem como.

A Liberdade - como nos coloca lindamente Aivanhov neste texto - não é se livrar dos pensamentos, mas sim o reconhecimento de que eu não sou os pensamentos, sou o observador dos pensamentos, assim como das emoções, memórias, sentimentos... enfim.. observação pura, sem qualquer envolvimento.
Essa Liberdade não é fuga de nada, não é evitação, é uma conscientização daquilo que não é real, ou seja, é o reconhecimento de que a mente é fluxo, mas que EU enquanto Consciência sou o Observador desse fluxo, e nisso reside toda a Liberdade do Ser, e Ser além da mente.
Amor
Amidha Prem.

24 de abril de 2014

Osho fala sobre Lao Tzu


"Quando falo sobre Lao Tzu, é como se falasse sobre o meu próprio eu. Meu ser é totalmente uno com ele. (...)
Lao Tzu não é absolutamente matemático, mas é muito, muito lógico em sua loucura. Ele tem uma lógica louca! Se conseguir penetrar os seus ditos, você poderá senti-la; ela não é tão óbvia e aparente. Ele tem uma lógica própria - a lógica do absurdo, a lógica do absurdo, a lógica do paradoxo, a lógica de um louco. Ele pega pesado.

Para entender a lógica de Lao Tzu, você terá de criar olhos. Ela é muito sutil, não é a lógica comum dos lógicos - é a lógica de uma vida oculta, uma vida muito sutil. Tudo que ele diz é absurdo na superfície; lá no fundo encontra-se uma grande consistência. É preciso penetrá-la; é preciso mudar a própria mente para entender Lao Tzu. Ele ziguezagueia. Às vezes o vemos ir para leste e às vezes para oeste, pois ele diz que o leste é o oeste e o oeste é leste, que estão juntos, são a mesma coisa. Ele acredita na unidade dos opostos.

E é assim que a vida é, de modo que Lao Tzu é apenas um porta-voz da vida. Se a vida é absurda, Lao Tzu é absurdo; se a vida tem uma lógica absurda, Lao Tzu tem a mesma lógica. Lao Tzu simplesmente reflete a vida. Nada acrescenta a ela, nada seleciona nela; ele simplesmente aceita o que quer que ela seja.

É simples enxergar a espiritualidade de um Buda, muito simples; é impossível não percebê-la, tão extraordinário ele é. Mas é difícil enxergar a espiritualidade de Lao Tzu, ele é tão comum, tão parecido com qualquer um de nós. É preciso crescer para entendê-lo. (...) Lao Tzu poderia ser seu vizinho. Talvez você não tenha prestado atenção nele por ser tão comum, tão extraordinariamente comum. E é essa a beleza da coisa.

Tornar-se extraordinário é simples: é necessário apenas esforço, refinamento, cultivo. É uma profunda disciplina interna; a pessoa pode tornar-se muito , mas muito refinada, algo absolutamente etéreo. Mas ser comum é realmente a coisa mais extraordinária que pode haver. Não adianta se esforçar, o que é necessário é a absoluta ausência de esforço. Nem mesmo a meditação será de alguma ajuda. Para se tornar um Lao Tzu, nem mesmo a meditação ajuda - só entender. Só entender a vida como é, e vivê-la com coragem; não fugir dela, não se esconder dela, enfrentá-la com coragem, qualquer que seja, boa ou má, divina ou demoníaca, céu ou inferno. (...)

Lao Tzu vivia em silêncio. Sempre evitava falar da verdade que alcançara e sempre rejeitava a ideia de que devesse registrá-la por escrito para as futuras gerações.
Aos noventa anos ele se despediu dos discípulos, disse-lhes adeus e acrescentou: "Vou me mudar para a montanha perto do Himalaia. Vou me preparar para morrer. É bom viver com as pessoas, é bom estar no mundo enquanto se está vivo, mas quando vamos chegando perto da morte é bom ficar em total solidão, para se aproximar da fonte original em absoluta pureza e solidão, sem estar contaminado pelo mundo".
Os discípulos ficaram muito tristes, mas que poderiam fazer? Seguiram-no por alguns quilômetros, mas Lao Tzu os acabou convencendo a voltar. Ia atravessando sozinho a fronteira, quando foi detido por um guarda. O guarda também era um discípulo. E disse: "Se o senhor não escrever um livro, não vou permitir que ultrapasse a fronteira. O senhor precisa fazer isso pela humanidade. Escreva um livro. É a dívida que deve pagar, caso contrário não lhe permitirei passar". E assim Lao Tzu permaneceu três dias detido por seu próprio discípulo.

É bonito. Muito amoroso. Ele foi obrigado, e foi assim que nasceu o livrinho, o livro de Lao Tzu, Tao Te Ching. (...) Em três dias estava concluído.

Esta é a primeira sentença do livro:
O Tao que pode ser dito não é o Tao absoluto.
É esta a primeira coisa que ele tem a dizer: tudo que pode ser dito não pode ser verdadeiro. É a introdução do livro. Serve simplesmente para alertar: virão agora palavras, não se torne vítimas das palavras. Lembre-se do que não tem palavras. Lembre-se do que não pode ser comunicado através da linguagem, através das palavras. O Tao pode ser transmitido, mas só de ser para ser. Pode ser comunicado quando você está com o Mestre, somente o Mestre, sem fazer nada, nem sequer praticar nada. Ele pode ser comunicado pelo simples fato de estar com o Mestre.

Por que a verdade não pode ser dita? Qual a dificuldade? A verdade não pode ser dita por muitas razões. A primeira e mais importante é que a verdade sempre se dá em silencio. Quando sua fala interior cessa, é então que ela se dá. E aquilo que se dá em silencio, como poderia ser dito através dos sons? É uma experiência. Não é um pensamento. Se fosse um pensamento, poderia ser expressado, não haveria problema. Por mais complicado ou complexo que seja um pensamento, sempre é possível encontrar uma maneira de expressá-lo. A teoria mais complexa de Einstein, a teoria da relatividade, também pode ser expressa num símbolo. Não há o menor problema; Talvez o ouvinte não seja capaz de entender, mas não é essa a questão. Ela pode ser expressa. (...)

Mas a verdade não pode ser expressa porque para alcançá-la é necessário o silencio, a ausência de som, a ausência de pensamentos. Ela é alcançada através da ausência da mente - a mente é deixada de lado. E como se pode usar uma coisa que, necessariamente tem de ser deixada de lado para se alcançar a verdade? A mente não pode entender, a mente não pode realizar - como poderia a mente expressar? Tenha isso em mente, como uma regra: o que a mente alcança, a mente pode expressar, o que a mente não alcança, ela não pode expressar.

De que serve então todas as escrituras? Qual o propósito de Lao Tzu? Qual o propósito dos Upanishads? Todos eles tentam suscitar em você o desejo de saber a respeito. A verdade não pode ser dita, mas no próprio esforço de dizê-lo pode surgir no ouvinte um desejo de conhecer o que não pode ser expresso. Pode ser provocada uma sede. A sede existe, só precisa ser um pouco provocada. Você está com sede - e como poderia ser de outra forma? Não se sente bem-aventurado, não se sente em êxtase - está sedento. Seu coração está em chamas. Você busca algo para matar sua sede. Mas, como não encontra água, como não chega à fonte, aos poucos foi tentando reprimir a sua sede. É a única maneira, caso contrário seria difícil suportar; você nem conseguiria viver. De modo que reprime a sede.

Um mestre como Lao Tzu sabe perfeitamente que a verdade não pode ser dita, mas a simples tentativa de dizê-la provocará alguma coisa, trará à superfície a sede reprimida em você. E, uma vez que a sede venha à tona, terá início uma busca, uma investigação. E ele foi capaz de fazê-lo mexer-se.(...)

Podem-se dizer coisas sobre Deus, mas Deus não pode ser dito; é possível dizer coisas sobre o amor, mas o amor não pode ser dito; essas "coisas" que podem ser ditas são relativas. São relativas para o ouvinte, seu entendimento, sua capacidade intelectual, sua formação, seu desejo de entender. Depende e tem a ver com o Mestre e sua maneira de se expressar, seus recursos de comunicação. É relativo - relativo a muitas coisas - mas nunca poderá tornar-se a experiência absoluta. É esse o primeiro motivo pelo qual a verdade não poder ser expressa;

O segundo motivo pelo qual a verdade não pode ser expressa, é por ser uma experiência. Nenhuma experiência pode ser transmitida...deixe a verdade de lado. Se você nunca conhecer o amor, quando alguém diz alguma coisa sobre o amor você ouvirá a palavra, mas não poderá captar o sentido. (...) O significado vem através da experiência. Se você amou alguém, conhece o significado da palavra "amor". (...) O significado literal da experiência, o significado existencial está em você. Se você passou pela experiência, imediatamente a palavra "amor" deixe de ser vazia de conteúdo; ela contém algo. Se eu digo, será algo vazio se você não aportar sua própria experiência. Quando sua experiência é adicionada, a coisa adquire significado; caso contrário fica vazia - palavras, palavras, palavras.(...) O significado real e autêntico vem através da experiência existencial. É preciso conhecê-lo, não há outra maneira. (...)

Lao Tzu é a favor da entrega. Diz ele: entregue-se à vida. Deixe que a vida o conduza, não tente conduzir a vida. Não tente manipular e controlar a vida, deixe que a vida o manipule e controle. Deixe que a vida o possua. Simplesmente se entregue! Diga simplesmente: "Eu não sou". Confira poder total à vida,  esteja com ela.

É difícil, pois o ego diz: Mas então que sou eu? Entregue eu não sou mais". Mas quando o ego não é, na verdade pela primeira vez você É. Pela primeira vez você não é finito, você é o infinito. Pela primeira vez, não é o corpo, o encarnado, você é o desencarnado, o vasto, que está sempre se expandindo, sem início nem fim. Mas o ego nada sabe disto. O ego tem medo. Diz: Mas o que está fazendo? Se perdendo? Assim, vai-se perder, será um ninguém!" Se der ouvidos ao neurótico, o caminho de "ser alguém". Em quanto mais você se torna alguém, mais a vida desapareceu de você.(...)

Diz Lao Tzu: " Seja um ninguém, e então terá vida infinita fluindo em você". Para o fluxo da vida, ser alguém vira um obstáculo. Ser um ninguém, o vasto, o vazio, permite tudo. Podem passar nuvens, as estrelas podem passar nele, e nada o perturba. E você nada tem a perder, pois tudo o que poderia ser perdido você já entregou. (...)

Lao Tzu também diz: Flutue com o Tao, mova-se com o Tao, não invente metas e finalidades particulares, o todo sabe das coisas, fique simplesmente com ele". O todo o criou, o todo respira em seu interior, o todo vive em você, por que se preocupar? Entregue a responsabilidade ao todo. Simplesmente vá aonde ele o levar. Não tente forçar e planejar, e não almeje metas predeterminadas, pois nesse caso haverá frustração, e você se enrijecerá, e perderá a oportunidade de estar vivo. E é essa a questão: se você permitir a vida, mais vida acontecerá, e se permitir estar vivo, mais vida ainda acontecerá".
Osho em Encontros com pessoas notáveis 

22 de abril de 2014

O Indescritível Amor - Mooji


"Deixe o reino dos nomes e formas
e entre num campo mais refinado e intuitivo.

Veja com os olhos de Krishna,
e ame com o amor de Cristo.

Faça introspecção com a sabedoria de Shiva
e venha para a dimensão por trás do pensamento,
o reino do Ser.

Aqui brilha a presença intuitiva – ‘eu sou’.
Todos os seres naturalmente amam este estado ‘eu sou’.
Sua natureza é paz, alegria, sabedoria e amor.
É o amor de ser, o amor de existir.

Mas em um certo estágio,
mesmo este estado maravilhoso é observado.
Quando você está na posição
para observar o “eu sou” em si,
então você está automaticamente no lugar do Eterno.

É o Supremo.
Nenhuma palavra pode expressar ou defini-lo.
Ele confere luz e alegria à vida.


Foi perguntado a Papaji uma vez:
Há algo além da consciência?
Surpreendentemente, ele disse:
“Amor. O amor está além de tudo”.
Eu descobri o amor como sendo sinônimo de consciência.
Eles são Um.
O amor é a unidade do Ser.
É o sagrado dentro do vazio.
É o Indescritível.
Você é Isso.
~ Mooji~

20 de abril de 2014

O Ser novo - Leonardo Boff


"A todos Feliz Páscoa com alegria e esperança!
Para o cristianismo a cruz e a morte da sexta-feira santa não detém a última palavra. A palavra derradeira que o Criador pronunciou sobre o destino humano é Ressurreição. 

Por isso, a festa central do Cristianismo não é o Natal que celebra o nascimento do Libertador das gentes nem a Sexta-feira Santa que comemora o martírio do Messias.

Se ele, após a crucificação, não tivesse ressuscitado, estaria seguramente no panteão dos heróis da humanidade, mas não teria uma comunidade que lhe guardaria a memória sagrada. Mas ele ressuscitou. 

Em razão disso, o Cristianismo não celebra uma saudade do passado, mas festeja uma presença no presente.

Então fica claro, contrariando os existencialistas modernos que afirmam sermos seres para a morte: não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar. (...)

Ressurreição significa bem outra coisa. É a entronização de alguém numa ordem de vida que não tem mais nenhuma entropia e nenhuma necessidade de morrer.
É uma vida tão inteira que não deixa nenhuma brecha pela qual a morte pode entrar. Portanto, é a realização da utopia de uma vida sem fim e absolutamente realizada. Tal evento bem aventurado só é possível à condição de o processo evolucionário ter chegado, por antecipação, à sua culminância, quando todas as potencialidades do ser humano se tiverem absolutamente realizado. Representa, pois, uma revolução na evolução. 

Daí implode e explode o Ser novo que vinha embrionariamente se formando ao longo dos bilhões e bilhões de anos, até fechar o seu ciclo de realizações. (...)

Quando se fala assim de ressurreição, se acredita que tal singularidade ocorreu em Jesus. A grama não cresceu sobre sua sepultura. Ela ficou aberta para proclamar o fato mais decisivo do universo: a superação da morte; mais ainda, a possibilidade real de transformação da utopia em topia dentro do
horizonte cósmico e histórico: o triunfo do princípio de vida.

Que faz, concretamente, a ressurreição? 
Realizar plenamente nossa essência que consiste em sermos um nó de relação e de comunicação, voltada para todos os lados. 

A ressurreição suprime os limites de realização do espaço-tempo desse nosso nó, potenciando-o ao infinito, já que, por natureza, somos um projeto
infinito. O corpo ressuscitado vira pura comunicação e ganha uma dimensão igual a do cosmos. Por isso o corpo ressuscitado enche todo o universo e ocupa todos os espaços.

Um dito do evangelho de Thomé, descoberto em 1945 no norte do Egito, deixa o Ressuscitado falar assim:”Tudo saiu de mim e tudo volta a mim. Rache a lenha e eu estou dentro dela. Levante a pedra e estou debaixo dela. Eis que estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. 

Quer dizer, pela ressurreição, Jesus ganhou uma dimensão cósmica. Ele
se encontra em todas as coisas até naquelas mais comuns, como cortar lenha e levantar pedras.
Pelo espírito estamos na lua, no sol, nas galáxias mais distantes, estamos em Deus. Mas nosso corpo não consegue acompanhar no espírito. Fica enraizado no espaço e no tempo, agrilhoado ao sistema da matéria.

Voando à velocidade da luz precisamos de 8 segundos para chegar até o sol e três anos luz, à estrela mais próxima, a Alfa do Centauro. 

O corpo ressuscitado supera a velocidade da luz. Ele está imediatamente lá
onde está o seu desejo.
O corpo assume as características do espírito e o espírito aquelas do corpo. Não deixamos o mundo. 
Penetramos mais profundamente no coração do mundo até aquele ponto onde tudo é Um e para onde tudo converge, constituindo o Todo.
Leonardo Boff em Ressurreição

19 de abril de 2014

Coragem de estar totalmente só - Osho


"Você não pode tornar outra pessoa responsável por sua evolução. Aceitar esta situação dá-lhe forças. Você está no seu caminho para crescer, para evoluir.
Nós criamos deuses, ou nos refugiamos nos gurus, de tal forma que não tenhamos responsabilidade por nossas próprias vidas, por nossa própria evolução. Nós tentamos colocar a responsabilidade em algum lugar distante de nós. Se nós não somos capazes de aceitar algum deus ou algum guru, nós tentamos então escapar da responsabilidade através de intoxicantes, ou drogas, através de alguma coisa que nos torne inconscientes. Mas estes esforços para negar a responsabilidade são absurdos, juvenis, infantis. Eles apenas postergam o problema; não são soluções. Você pode postergar até à morte, mas o problema ainda permanece, o seu novo nascimento continuará no mesmo caminho.

Uma vez que você começa a se tornar consciente de que somente você é responsável, não há escape através de nenhum tipo de inconsciência. E você é tolo de tentar escapar, porque a responsabilidade é uma grande oportunidade para a evolução. Da luta que é criada, algo novo pode evoluir.
Tornar-se consciente significa saber que tudo depende de você. Mesmo seu deus depende de você, porque ele é criado por sua imaginação. Tudo no fundo é uma parte de você, e você é responsável por ela. Não há ninguém para ouvir suas desculpas, não há cortes-de-apelos. Toda responsabilidade é sua.

E você é sozinho, absolutamente sozinho. Isto precisa ser compreendido muito claramente. No momento em que uma pessoa se torna consciente, ela se torna só. Assim não fuja desse fato através da sociedade, dos amigos, das associações, das multidões. Não fuja dele! É um grande fenômeno; todo o processo da evolução trabalha em direção a isso. A consciência chega ao ponto agora onde você sabe que está só. E somente no estado de ser sozinho é que você pode atingir a iluminação.

Eu não estou falando de solidão. O sentimento de solidão é aquele que vem quando o indivíduo foge do estado de ser sozinho, quando o indivíduo não está pronto para aceitá-lo. Se você não aceitar o fato de ser sozinho, então você se sentirá solitário. Então você encontrará alguma multidão ou alguns meios de intoxicação nos quais esquecer-se a si mesmo. A solidão criará sua própria mágica do esquecimento.
Se você puder estar só, mesmo que por um momento apenas, totalmente só, o ego morrerá; o “Eu” morrerá. Você explodirá, você não será mais. O ego não pode permanecer só. Ele só pode existir em relação a outros. Sempre que você está só, um milagre acontece. O ego torna-se fraco, agora ele não pode continuar a existir por muito tempo.
Assim, se você pode ser corajoso o bastante para estar só, você gradualmente tornar-se-á sem ego.

Estar só é um ato muito consciente e deliberado, mais deliberado do que o suicídio, porque o ego não pode existir sozinho; mas ele pode existir no suicídio. As pessoas egoísticas são as mais propensas ao suicídio. O suicídio está sempre em relação a alguém. nunca é um ato de isolamento. No suicídio, o ego não sofrerá. Ao contrário, tornar-se-á mais expressivo. Entrará em um novo nascimento com força maior.
Através do isolamento interior o ego se desmancha. Não há nada com o que se relacionar, desta forma não pode existir. Assim, se você está pronto para estar só, não vacilantemente — nem retrocedendo nem fugindo, apenas aceitando o fato do isolamento tal como ele é —, tornar-se-á uma grande oportunidade. Então você é como uma semente que tem muito potencial nela. Mas lembre-se, a semente deve destruir-se a si mesma para a planta crescer. O ego é uma semente, uma potencialidade. Se ele é destruído, o divino nasce. O divino não é nem o “Eu” nem o “Vós”, é o um. Através do isolamento interior você chega a esta unicidade.
Você pode criar falsos substitutos para esta unicidade. 
Os hindus tornam-se um, os cristãos tornam-se um, os maometanos tornam-se um; a Índia é um, a China é um. Isto são apenas substitutos para a unicidade. A unicidade vem somente através do isolamento interior total.

Uma multidão pode chamar a si mesma de um, mas a unicidade está sempre em oposição a alguma outra coisa.
Já que a multidão está com você, você se sente descontraído. Agora você já não é mais o responsável. Você não destruiria um templo sozinho, você não incendiaria uma mesquita sozinho, mas como parte de uma multidão você pode fazê-lo, porque agora você não individualmente responsável. Todos os outros são responsáveis, assim ninguém em particular é responsável.
Não há consciência individual, somente consciência grupal. Você regride na multidão e se torna tal como um animal. A multidão é um falso substituto para o sentimento de unicidade. Aquele que está consciente da situação, consciente da sua responsabilidade como um ser humano, consciente da dificuldade, da tarefa árdua que vem com o ser humano, não escolhe quaisquer substitutos falsos. 

Ele vive com os fatos como são; ele não cria qualquer ficção. Suas religiões, suas ideologias políticas, são apenas ficções, criando um sentimento ilusório de unicidade.
A unicidade vem somente quando você se torna ausente de ego, e o ego pode morrer somente quando você está totalmente só. Quando você está completamente só, você não é. Aquele exato momento é o momento da explosão.
Você explode para dentro do infinito. Isto, e somente isto, é evolução. Eu a chamo revolução, porque não é inconsciente. Você pode tornar-se sem ego ou não.
Depende de você.
Estar só é a única revolução real. Muita coragem é necessária. Somente um Buda está só, somente um Jesus ou um Mahavir está só. Não que eles tenham deixado suas famílias, abandonando o mundo. parece assim, mas não é assim. Eles não estiveram abandonando coisas negativamente. O ato era positivo; era um movimento em direção ao isolamento. Eles não estavam abandonando. Eles estavam em busca de encontrarem isolamento interior.
A busca toda é por aquele momento de explosão quando o indivíduo está isolado. No isolamento há regozijo. E apenas então a iluminação é obtida.
Nós não podemos estar isolados, os outros não podem tampouco estar isolados, assim nós criamos grupos, famílias, sociedades, nações. Todas as nações, todas as famílias, todos os grupos, são feitos de covardes,
daqueles que não são corajosos o suficiente para esteram sós.

Coragem real é a coragem de estar só. Significa entendimento consciente do fato de que você é sozinho e você não pode ser diferente. Você pode ou enganar-se a si mesmo, ou viver com este fato. Você pode continuar enganando-se a si mesmo por vidas e vidas, mas continuará simplesmente num círculo vicioso. Somente se você viver com este fato do isolamento, o círculo é quebrado e você pode vir ao centro. Aquele centro é o centro da divindade, do todo, do santo."
Osho em A Psicologia do Esotérico

18 de abril de 2014

O monge, o gato e a lua - Leonardo Boff


"O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança
que o olha interrogativa. 

Não sabe o que é o frescor de uma tarde de outono e é incapaz de ficar sozinho, sem celular, internet, televisão e aparelho de som.

Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha. Essa
pequena estória de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. O que é profundamente verdadeiro só se deixa dizer bem, como atestam os sábios antigos, por pequenas estórias e raramente por conceitos. Às vezes quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que esta estória nos quer comunicar: um desafio para todos.

“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Igazaim, bem ao sul do deserto de Acaman. Fazia bem 30 anos que para lá se recolhera.

Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. Junto à cabana esgueiravam-se algumas ramas de videira. Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colmeias.

“Há 30 bons anos que por aqui vivo! …”, suspirou o monge Porfiro. “Há 30 bons anos! …”. E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se neste pensamento
por longas horas. “Há 30 bons anos e não me encontrei. Perdi-me para tudo e para todos, na esperança de me encontrar. Mas perdi-me irremediavelmente !”

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, de parco farnel aos ombros e semi-rotas sandálias aos pés, pôs-se a caminho das montanhas de Igazaim, após a reza pelos peregrinos. Ele sempre subia as montanhas, quando, sob forças estranhas, seu mundo interior ameaçava desabar. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto. Vivia ele sob um grande penhasco, de onde se podia ver lá embaixo os trigais da aldeia de Icanaum.

Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. Não sei quem sou, nem para que ou para quem sou. Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas. Fiz tudo para merecer a paz. Olha meu corpo, retorcido com uma raiz, retalhado de tantos jejuns, cilícios e vigílias! … E aqui estou, roto e combalido, vencido pelo cansaço da procura.”

E dentro da noite, sob uma lua enorme, iluminando o perfil das montanhas, Abba Tebaíno, sentado à porta da gruta, ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro.

Depois, num destes intervalos onde as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com o Abba, veio se arrastando de mansinho até a seus pés descalços. Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se, com grandes olhos de criança, a contemplar a lua que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus.
E, depois de muito tempo, começou o Abba Tebaíno a falar com grande doçura:“Porfiro, meu filho querido, deves ser como o gato; ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim.

Toda a manhã aguarda ao meu lado um pedaço de côdea e um pouco de leite desta tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim, lambendo-me os pés machucados. Nada quer, nada busca, tudo espera. É disponibilidade. É entrega. Vive por viver, pura e simplesmente. Vive para o outro. É dom, é graça, é gratuidade. Aqui, junto a mim deitado, contempla inocente e ingênuo, arcaico como o ser, o milagre da lua que sobe, enorme e abençoada. Não se busca a si próprio, nem mesmo na vaidade íntima da auto-purificação ou na complacência da auto-realização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua…É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se.
E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco.

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das manhãs. Seus louvores ecoaram pelas montanhas e fizeram estremecer as fímbrias do universo. Depois, deram-se o ósculo da
partida. 

O irmão Porfiro, de parco farnel à costas e semi-rotas sandálias aos pés, retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. Entendeu que para encontrar-se devia perder-se na mais pura e singela gratuidade.
Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

16 de abril de 2014

O Amor é a resposta...


O Amor é a resposta.
A pergunta é irrelevante.
~Jeff Foster.

Hoje vamos refletir sobre esta citação de Jeff  Foster. Recebi alguns emails, em que me pediam para aprofundar esta bela citação, então vamos lá...

O Amor é a resposta. Resposta a quê?
A qualquer pergunta.
O Amor é a base, o fundamento, a essência da existência, a origem...tudo existe a partir do Amor, é criado, mantido e vivido a partir do Amor. Somente o Amor é real!
Sem Amor, eu nada seria...

O Amor é Luz, é Deus, é a Totalidade manifesta...
É o som, é a canção da Vida..
Amor é plenitude e daí é a resposta para todas as nossas perguntas, pois se seguirmos até o mais profundo de todas as nossas questões, iremos fatalmente nos deparar com o Amor... ou a ilusória "falta" dele...

Toda "falta" é ilusória. No que se refere a Realidade só existe Aquilo que É.
Falta foi um conceito criado pela mente, para comparar uma situação com outra, uma "coisa" com outra. Mas em se tratando de Absoluto, o que é falta?
Pergunte ao céu o que lhe falta? Pergunte ao espaço, o que lhe falta? Pergunte ao Amor o que lhe falta?

A mente sempre compara, ela cria falta, ela cria diferenças, ela cria aquilo que chamamos de infelicidade.
E cria, porque se prende, cria porque quer reter, quer controlar, quer que as "coisas" sejam do jeito que ela determina... só que a vida segue seu fluxo, e nesse fluxo tudo pode acontecer.

O Amor é a resposta, por ser o fim de todas as perguntas.
Além do Amor... só o Silencio absoluto... onde nenhuma palavra cabe.. nenhum conceito...

Certa vez, perguntaram a Lao Tzu o que ele sentia quando estava em profunda meditação. Ele disse:
Não sinto nada. Não existe nada. Nenhuma meditação existe.

As pessoas se olharam e não compreenderam o que ele dizia.
Mas como pode? Não sente nada, não existe nada, nenhuma meditação existe?

Na dimensão do Absoluto é impossível de se dizer alguma coisa, é impossível de se descrever, pois nada mais existe. O vazio é a realidade, que ao mesmo tempo é uma não-realidade. O vazio não é vazio por falta, mas é pleno pois tudo é vivo e presente em essência, mesmo sem ser...
Trata-se de uma dimensão além do dizível, além do explicável.... só o Silencio alcança...

O Amor nos leva até as portas do Silencio.
O Amor é poesia, canção, é a quebra das diferenças e barreiras.
O Amor é a dimensão da Unidade, é a simples manifestação acontecendo e perdendo as fronteiras dessa separação ilusória.
O Amor é a resposta a todas as nossas perguntas. A mente se derrete, perde todas as suas perguntas quando está banhada em Amor...

Daí que a partir desse derretimento da mente, todas as perguntas são irrelevantes... como diz Jeff.
A partir daí não existem mais perguntas. Tudo se transforma em fascinação e encantamento...
A Existência se manifestando, se revelando em inúmeras nuances, em inúmeras aparências...
Tudo acontecendo no infinito espaço da Consciência, onde tudo é acolhido e experimentado sem medida...
Amor
Amidha prem

14 de abril de 2014

Quando você é o próprio Amor - Nisargadatta


"Participante : Qual é o seu estado no momento presente?

Maharaj: Um estado de não-experimentação. E nesse estado, toda experiência está incluída.

Participante: Você pode entrar na mente e no coração de outro ser e compartilhar sua experiência?

Maharaj: Não. Tais coisas requerem treinamento especial. Sou como um comerciante de trigo. Sei pouco sobre pães e bolos. Posso mesmo não conhecer o gosto de uma papa de trigo. Mas sobre o grão de trigo sei tudo e o sei bem.

Eu conheço a fonte de toda experiência. Mas as inumeráveis formas particulares que a experiência pode tomar eu não conheço. Nem tenho necessidade de conhecer.

De momento a momento, o pouco que necessito saber para viver minha vida, de algum modo, acontece que o sei.

Participante: Sua particular existência e minha existência particular, existem ambas na mente de Brahma?

Maharaj: O universal não é consciente do particular. A existência como uma pessoa é um assunto pessoal. Uma pessoa existe no tempo e no espaço, tem nome e forma, início e fim. O universal inclui todas as pessoas e o absoluto é a raiz de tudo e está além de tudo.

Participante: Não estou interessado na totalidade. Minha consciência pessoal e sua consciência pessoal, qual o elo entre as duas?

Maharaj: Qual pode ser o elo entre dois sonhadores?

Participante: Podem sonhar um com o outro.

Maharaj: Isto é o que as pessoas estão fazendo. Todos imaginam os "outros" e buscam ligação com eles. O buscador é o elo, não há nenhum outro.

Participante: Seguramente deve haver algo em comum entre os muitos pontos de consciência que nós somos.

Maharaj: Onde estão os muitos pontos? Em sua própria mente. Você insiste que o mundo é independente de sua mente.
Como pode sê-lo? Seu desejo de conhecer a mente de outras pessoas deve-se ao desconhecimento de sua própria mente. Em primeiro lugar conheça sua própria mente e descobrirá que a questão de outras mentes não surgirá de forma alguma porque não existem outras pessoas. Você é o fator comum, a única ligação entre as mentes. Ser é consciência; "eu-sou" aplica-se a todos.(...)

Participante: Se meu mundo é meramente um sonho e você é uma parte dele, o que você pode fazer por mim? Se o sonho não é real, se não tem ser nenhum, como pode a realidade afetá-lo?

Maharaj: Enquanto dura, o sonho tem um ser temporário. É seu desejo de apegar-se a ele que cria o problema. Deixe-o ir. Pare de imaginar que o sonho é seu.(...)

Participante: Há sentimentos no sonho que parecem reais e duradouros. Desaparecem no despertar?
Maharaj: No sonho, você ama uns e não ama outros. Ao acordar o, você descobre que é o próprio amor que a tudo abraça. (...) 

Amar em liberdade é amar a tudo e a todos.

Participante: As pessoas vêm e vão. Ama-se quem se encontra, não se pode amar a todos.

Maharaj: Quando você é o próprio amor, você está além do tempo e dos números. Amando um você ama a todos, ama cada um. Um e todos não são incompatíveis."
Nisargadatta Maharaj em Eu Sou Aquilo

13 de abril de 2014

O Sem-forma - Osho


"Você nunca conseguirá entender o sem forma intelectualmente, porque o seu sem forma novamente terá certa forma. 
Como você concebe o sem forma? A palavra está bem usada, mas no momento em que você tenta conceber o sem forma, ele imediatamente começa a assumir uma forma - porque só a forma pode ser concebida; o sem forma não pode ser concebido. Ele é uma palavra vazia.

Você pode continuar a dizer que Deus é sem forma, mas não consegue conceber isso. E, quando até as pessoas que falam sobre um Deus sem forma, vão adorá-lo, elas o adoram diante de uma forma. Então, mais uma vez há uma estátua, um ritual, um deus, uma deusa, uma forma.(...) Mas sua adoração é para o saguna - aquele com atributos, com forma, porque é impossível conceber o sem forma. (...) Assim, o sem forma continua sendo uma vaga ideia.(...)

Intelectualmente não há como entender. A única maneira de compreender é apenas meditativa, existencial. Você não descobre isso através do intelecto, você simplesmente se move mais para a meditação e abre uma nova dimensão de visão.

Ninguém enfatizou tanto a meditação quanto Buda. Todo o seu método é meditação.

E o que é meditação? Meditação é pouco a pouco se tornar desprovido de pensamento; não caindo no sono - permanecendo alerta, mas ainda assim se tornando desprovido de pensamento. Uma vez que os pensamentos desaparecem, tudo fica claro como cristal - fica claro que o pensador era apenas um subproduto dos pensamentos em movimento. Era um feixe de pensamentos e nada mais. Ele não tinha existência separada.

Então você caminha, mas o caminhante não existe mais, então você come, mas aquele que come não existe mais; então você dorme, mas aquele que dorme não existe mais; então você vive, mas não há ninguém que esteja vivendo; então você morre e não há ninguém que esteja morrendo. Você é apenas um espaço puro em que existem milhões de processos, em que a vida flui com todos os seus processos e você permanece não corrompido por ela. Você é como um céu aberto...as nuvens vêm e vão.

Um dos mais belos nomes dados a Buda é tathàgata. Significa "assim veio assim se foi". Não há ninguém que veio e não há ninguém que foi - foi apenas o vir e o ir. Esse é o significado de tathàgata - apenas um processo de vir e um processo de ir; não há ninguém que veio e não há ninguém que foi.

Os mestres Zen sempre dizem que aquele homem nunca existiu - aquele homem chamado Gautama, O Buda, nunca existiu. Sim, ele certamente veio, e também se foi, mas nunca existiu. É como um processo de sonho. Um sonho vem e se vai, e de manhã você sabe que ele nunca existiu.

Quando você se compreende como um puro espaço e muitas coisas acontecendo, você se torna desapegado. Então, você se torna destemido, porque não há nada a perder, não há ninguém para perder nada. E você não mais está repleto de ânsia de viver, porque você não se concebe como um self. Por isso não teme a morte e não tem uma ânsia de viver. Não pensa no passado e não projeta o futuro. Você simplesmente é - tão puro quanto o vasto céu lá fora; você também se torna um puro céu em seu interior. E o encontro desses dois céus, o interior e o exterior, é o que Buda chama de nirvana.

Você pergunta: Eu entendo vagamente que pode ser o sem forma que permanece, mas esse sem forma pode ter uma entidade individual?

Não, ele não tem entidade individual.
"A mesma onda nasce de novo".

É verdade. De fato, se você observar de perto - vá até um rio ou um oceano e observe as ondas; você ficará surpreso ao ver algo novo no qual nunca tinha pensado antes. Quando você vê uma onda vindo em sua direção, nada está vindo, a onda nunca vem até você. Você a vê se movendo na sua direção; ela não está se movendo. Uma onda simplesmente ajuda outras ondas a surgir. Mas isso acontece tão depressa que cria uma ilusão de ótica - você acha que a mesma onda está vindo na sua direção. Nada está vindo na sua direção.

Quando um onda surge, pelo impacto dessa onda, outras ondas surgem; na vizinhança mais próxima, outra onda. Pela força da primeira onda, vem a segunda onda; pela força da segunda onda, a terceira onda; pela força da terceira, a quarta - é assim que as ondas surgem. Mas elas dão uma ilusão de que a mesma onda está vindo na sua direção. Elas nunca vêm. Quando você vê uma onda surgindo bem longe no horizonte, ela permanece lá; ela nunca chega até você.

Isso pode acontecer: você pode colocar uma madeira flutuante bem no meio do rio: essa madeira virá até você, mas não se deixe enganar por isso - a onda não está vindo. Quando uma onda se eleva, ela se move para a outra onda; com a subida e descida das ondas, a madeira chega até a praia, mas as ondas nunca vêm. Esse é um fato científico. Elas só parecem estar chegando. 

É isso, exatamente, o que Buda está dizendo. A mesma onda não nasce de novo. Ele não está dizendo que você vai renascer; diz simplesmente que há um renascimento.

Mas, de certa maneira, podemos dizer que você vai renascer, porque isso será uma continuidade. A mesma onda: a onda A cria a onda B, a onda B cria a onda C - é uma continuidade; a palavra certa é continuum.

Buda chama isso de santati. Do mesmo modo que uma criança nasce de você; de certa maneira ela é você e, no entanto, ela não é você, não é totalmente você. Ela terá a sua própria personalidade, mas você criou a onda. É a energia do pai e da mãe criando uma nova onda. Essa onda irá embora - o pai pode morrer, a mãe pode morrer -, mas essa onda vai continuar, e vai criar outras ondas à sua própria maneira, no seu próprio tempo.

Santati, continuum. Você não nasce, só seus desejos renascem; porque você não existe, portanto você não pode nascer. Por isso, Buda diz que se você parar de desejar nunca mais renascerá. Então, se você entender toda a inutilidade do desejo e parar de desejar, não haverá nascimento para você.

Portanto, primeiro você se torna um srotapanna , você entra no fluxo, você começa a entender como são as coisas; processos de vida sem nenhum self; É isso que ele quer dizer com tornar-se um srotapanna, entrar no fluxo: entrar na ideia do fluxo - que a vida é como um rio, não estática, mas dinâmica; não coisas, apenas eventos; um dinamismo, um fenômeno energético.

Então, pouco a pouco, à medida que você se move mais profundamente nesse fluxo, você se torna um skridagamin - você só vai nascer mais uma vez. Você compreende, mas sua compreensão não é total. Depois se torna um anagamin, - você não nascerá de novo. Você compreendeu todo o fenômeno. Nessa própria compreensão você é libertado.

Tornando-se capaz de não nascer de novo, você se torna um arhat, - alguém que alcançou, alguém que chegou. Agora estou usando uma linguagem que não é budista, por isso cuidado. Eu tenho de usar uma linguagem que não é budista, e por isso estou usando termos - eu digo "alguém que chegou". Não há outra maneira de dizer isso, mas você tem de entender: quando eu digo que alguém chegou, não há nenhum "alguém", apenas a chegada... apenas o chegar, nem mesmo "a chegada".

A visão de Buda é muito existencial e nada é tão libertador quanto a visão de Buda. Porque, se você acredita em uma alma, você pode deixar o mundo, mas então vai desejar o paraíso - porque você não deixa o seu self. O desejo se desloca para uma nova dimensão. Você abandona a ambição, mas na verdade não a abandona - surge uma ambição sutil.(...)

Seja o que for que você esteja abandonando aqui, está abandonando apenas para obter mais - essa é a lógica. (...) Buda diz, a menos que você abandone o self, irá perpetuar repetidamente o mesmo absurdo. Seu paraíso não será nada exceto um mundo projetado - o mesmo mundo modificado, tornado mais belo, mais decorado. (...) No paraíso hindu, muçulmano, cristão e judeu Deus preparou um belo jardim paradisíaco, murado para você. Ele o está esperando. Se você for virtuoso, se lhe prestar obediência, será enormemente recompensado; se o desobedecer, vai para o inferno. Assim o self existe aqui como centro do desejo, e Deus existe como o centro da satisfação desse desejo.

Buda diz que ambos não existem, livre-se de ambos. Nem Deus nem self. Busque a realidade, não se mova nos desejos. Abandone as fantasias, para de sonhar e busque o que existe. E ele diz que há apenas este mundo impermanente de processos - este mundo com fluxos, este vórtice de realidade... tudo impermanente e em mutação: nada é permanente.

Esse é o significado da insistência de Buda em que não existe self, porque você está tentando tornar algo em você permanentemente. Você diz: " O corpo muda, tudo bem; o mundo muda, tudo bem; os relacionamentos mudam, se deterioram, tudo bem - mas o self, o self é eterno. Sim, este mundo visível muda - mas o deus invisível, ele é eterno." Você quer tão desesperadamente algo eterno que começa a acreditar nisso. É o seu desejo que o eterno deva estar ali.

Buda diz que não existe nada eterno. Tudo é impermanente, tudo está em fluxo. Entenda isso, e este real entendimento irá libertá-lo.

Lembre-se: quando os outros falam de libertação, eles falam da libertação para o self. Quando Buda fala de libertação, ele fala da libertação do self. E esse é um ponto de vista extremamente radical. Não é que você será libertado, mas será libertado de você.

A única liberdade de que Buda fala é a liberdade real, é a liberdade de você. Do contrário, sua mente vai continuar jogando jogos. Vai continuar pintando novos desejos sobre novas telas. Nada vai mudar. Você pode mudar as telas. Pode sair do mercado e se sentar em um templo - nada vai mudar, sua mente vai projetar os mesmos desejos no céu, no paraíso.

Busque essa mente. Busque seus desejos. Observe, torne-se consciente. 
Eu tenho de lhe lembrar disso repetidamente porque estou falando em uma linguagem não budista. Então, quando Buda diz: "torne-se consciente" ele quer dizer "seja consciência". Não há ninguém para se tornar consciente, há apenas consciência.

Sim, você nunca vai nascer de novo, mas, se incorporar a ideia de que vai, então você vai permanecer em um continuum. Se abandonar a ideia do self, o continuum desaparece; você evapora.

É isso que é o nirvana. É como se você apagasse uma lâmpada e a luz deixasse de existir, desaparecesse; você renuncia à sua mente desejosa e toda a felicidade, toda a transmigração, todo o sofrimento cessa. De repente, você não mais existe.

Mais isso não significa que nada existe; do contrário, não haverá diferença entre um ateu e um Buda. Há uma enorme diferença. Buda diz que você cessa, e pela primeira vez a realidade assume o comando. Mas ele nunca dá a isso nenhum nome, porque nomear não é possível - nomeá-lo é nenhum nome, porque nomear não é possível - nomeá-lo é falsificá-lo. Dizer que isso é, é ser desleal com isso. Buda se mantém calado, absolutamente silencioso a respeito disso. Ele indica a maneira como o experienciou. Não fia e tece uma filosofia em torno disso."
Osho em Destino, Liberdade e Alma.

12 de abril de 2014

Conexão e relacionamentos - Jeff Foster



"Quando você foca naquilo que o seu parceiro (a) não é, quando você coloca atenção exclusivamente naquilo que está faltando no relacionamento, nas falhas, em como ‘deveria ser'; o seu contentamento passa a depender da
‘mudança do outro’, e vocês entrarão em guerra, sutilmente ou não.

Tudo isso passa a ser responsável por sua felicidade agora. Você se expressa a partir de um estado de carência, descontentamento, tensão e stress, e não a partir da paz profunda que você realmente é.

Você não quer o parceiro(a) que está ali na sua frente, você quer uma imagem idealizada do outro. Há uma espécie de tensão ou uma lacuna, entre o que o outro é e o que ele não é, e o seu contentamento reside no futuro, ou algo do gênero. Você se sente desconectado do outro e anseia em se conectar novamente ‘com o tempo’. 
Mas não até que ele mude. 
Ele é o culpado por sua falta de conexão; por sua carência, desapontamento, frustração e até mesmo por sua raiva, já que você espera que uma cura ou transformação aconteça! 
Só que ninguém muda simplesmente porque que você quer que mude. Alguma vez você mudou quando alguém tentou fazer com que você mudasse? 

Você não se sentiu manipulado e ignorado?
Será que você pode, apenas por alguns instantes, encarar o seu parceiro como ele realmente é? Será que você pode deixar o futuro e a esperança para trás, apenas por alguns momentos? E a partir desse estado de profunda conexão, desse estado de contentamento e clareza, expressar-se de verdade, não almejando mudar algo, mas no intuito de que o outro possa entender como você se sente? Será que você pode ouvir sem preconceito, deixar de lado a 'história' do relacionamento de vocês (as demandas, as expectativas, a história, as 'regras') e simplesmente se relacionar, aqui e agora, de igual para igual?

Quando você sente a conexão que há entre vocês, quando há disposição em ouvir, quando há segurança; quando você se sente realmente capaz de se expressar de verdade, quando todas as imagens desaparecem, quando o foco não está naquilo que está faltando ou foi perdido, mas sim totalmente presente aqui mesmo nesta sala, você ainda sente a necessidade de que algo mude? Você necessita de algum futuro? Quer você fique ou vá embora amanhã, quer algo mude ou não, será que você consegue estar em paz do
jeito que as coisas são, e viver a partir disso? Isso não é passividade, mas sim uma profunda conexão com a vida, a fonte de toda inteligência, criatividade e clara ação, onde todas as decisões devem ser tomadas.

Não precisamos esperar pela mudança de amanhã, se podemos nos conectar profundamente hoje mesmo. É bem provável que mudança não ocorra à força ou sob pressão.

É bem provável que não seja o encontro dos seus sonhos, mas que aconteça aqui mesmo nesta sala."
Jeff Foster

10 de abril de 2014

Experiências e identificação - Ramesh


Participante : Você sempre nos pergunta, "Quem está preso?" "Quem é o buscador?" Eu quero lhe fazer a mesma pergunta.

Ramesh - É o individuo ou a consciência pessoal que está buscando a sua fonte.
Consciência se identificou com um "eu" pessoal, e agora está tentando recuperar a sua impessoalidade. É só isso que está acontecendo. E o processo começa mais rápido quando a mente não interfere, quando o "eu" não está presente, somente o EU, o subjetivo, é presente. 
O sábio Ashtavakra nos diz o que é identificação e o que é liberação.
Ele diz: " Identificação é quando a mente deseja algo ou se magoa com algo. Liberação é quando a mente não deseja e não mais se magoa, não aceita nem rejeita, não se sente feliz nem infeliz."

A mente humana, treinada e condicionada como está, prontamente diz: " Eu não desejo nada. Eu não rejeito nada." Mas a mente é incapaz de realizar que este "não desejar nada" inclui desejo de conhecimento da sua própria natureza. Desejo não significa apenas desejo de algum objeto, mas mesmo o desejo de Iluminação. A necessidade de saber, de conhecer a sua própria natureza, mesmo isso é desejo, e este desejo é pelo o "eu".

Mágoas são quando a mente deseja alguma coisa ou se entristece com algo. A mente deseja a Iluminação e se entristece com o fato de ainda não ser iluminada. "Tenho estado aqui por dez, doze, vinte e cinco aos e ainda não aconteceu!" A mente se entristece com esse "não aconteceu". 
A mente deseja, ou quer que alguma coisa aconteça e fica magoada quando isso não acontece.

Liberação é quando a mente não quer, não deseja, ou se magoa; é quando a mente é vazia, quando a mente é aberta. 
A mente vazia não é a mente de um idiota, é uma mente aberta, porém plenamente alerta, já que não deseja nada e não está fixada a nada. A casa está vazia. A mente é espaço. Ela não rejeita ou aceita, não se sente feliz ou infeliz.

Ashatavakra também diz: "Identificação é quando a mente está presa a alguma experiência sensorial. Liberação é quando a mente é livre de todas as experiências sensoriais."
Aqui ele também nos mostra de uma maneira sutil. Ele não se humilha para explicar. O sábio quer que o suposto candidato encontre por si mesmo. Ele não diz que a experiência sensorial não acontecerá ou qualquer outro tipo de experiência. O surgimento de qualquer experiência, ou evento, é totalmente fora do controle do mecanismo corpo-mente, tenha a iluminação se dado ou não. Logo, não é o sábio que rejeita qualquer experiência, ou não. A experiência sensorial é experienciada, mas a mente não se fixa a essa experiência. A experiência vem e também se vai. Toda experiência, seja boa ou ruim, prazerosa ou não se dá apenas no momento presente. Toda experiência é uma experiência impessoal. A experiência impessoal perde a sua impessoalidade quando a mente-intelecto aceita essa experiência como sua própria ou a rejeita como sendo boa ou ruim. Se for agradável, ela quer que essa experiência se torne frequente. Se for ruim, ela a rejeita e não a quer mais. Logo, a identificação a uma experiência é sempre por um tempo determinado. A experiência impessoal, que é a experiência do sábio, é sempre no momento presente, e quando essa experiência se vai, a mente não pensa mais nisso. A mente é totalmente liberta. A experiência é vista como uma experiência impessoal e nesse momento ela termina. Isso é liberação, quando a mente é desidentificada de todas as experiências.

Por fim Ashtavakra diz: " Quando o "eu" está presente existe identificação. Quando o "eu" não está presente, é liberação. Saber isso, significa permanecer aberto a tudo o que a vida trouxer, sem aceitação ou rejeição."
Ramesh Balsekar em Counsciousness Speaks

8 de abril de 2014

Incertezas - Jeff Foster


"A única certeza na vida é que a incerteza será sua companheira constante. A única coisa que nunca muda é a própria mudança. E não podemos sequer ter certeza disso.

A incerteza não é negativa ou errada - é o caminho. A mente não pode saber do futuro - ela só pode adivinhar, imaginar, sonhar. Tudo o que parece tão sólido é colocado em dúvida , sem aviso prévio. Nós nem sequer sabemos se vamos acordar amanhã de manhã ! Entes queridos vão morrer. 


O sucesso pode voltar-se para o fracasso durante a noite. Relacionamentos de repente mudam de forma . O absoluto se torna relativo absolutamente sem aviso prévio. As estruturas familiares de nossas vidas, as coisas que tomamos concebidas, os amanhãs imaginários, os planos e as esperanças que nos agarramos, são realmente tão frágeis, e o trauma espreita logo abaixo da superfície das coisas neste universo contingente. 

A tendência , especialmente no Ocidente, é afastar essa incerteza, para distrair, entorpecer e pacificar a nós mesmos, para chamar metade da vida "negativo" ou "escura" e fugir o mais rápido que pudermos. 

Trabalhar mais! Comprar mais! Drogas, álcool, internet, sexo, mesmo a espiritualidade são usados para pacificar nossas mentes ansiosas e divididas.

Mas o cerne da incerteza reside um poderoso ensinamento espiritual : um ensino universal de deixar ir , de sair da "história" de sua vida e virar-se para um momento sagrado, de descobrir o que está sempre presente, aqui e agora, para além da certeza, além da dúvida .

Sua presença imutável , a presença de Deus, o gosto familiar da própria vida , a certeza íntima que você sempre procurou no 'mundo' , sempre aqui, brilhando, como tudo na sua vida muda , como deve. A calma no meio do caos.

Esqueça a perfeição.
Esqueça tentar fazer o "certo" o tempo todo.
Aqui você está fazendo o seu melhor, caindo de cara no chão, levantando, caindo novamente, estragando tudo, falhando inacreditavelmente, sendo alvo de risadas, ridicularizado, escarnecido, até mesmo crucificado, e perdendo tudo aquilo que você pensou que era o seu.

E aqui você está abraçando esta confusão toda, morrendo para o sonho e acordando para a realidade de que, amando a perfeita imperfeição, abrindo o seu enorme coração para tudo, continuando a viver sua verdade, apesar de
tudo, destemidamente reconhecendo a cada sagrado momento de olhos bem abertos.

Você não pode fazer o"certo", e é por isso que você não pode fazer "errado", e para além de ambos, existe um campo."
Jeff Foster 
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