13 de abril de 2014

O Sem-forma - Osho


"Você nunca conseguirá entender o sem forma intelectualmente, porque o seu sem forma novamente terá certa forma. 
Como você concebe o sem forma? A palavra está bem usada, mas no momento em que você tenta conceber o sem forma, ele imediatamente começa a assumir uma forma - porque só a forma pode ser concebida; o sem forma não pode ser concebido. Ele é uma palavra vazia.

Você pode continuar a dizer que Deus é sem forma, mas não consegue conceber isso. E, quando até as pessoas que falam sobre um Deus sem forma, vão adorá-lo, elas o adoram diante de uma forma. Então, mais uma vez há uma estátua, um ritual, um deus, uma deusa, uma forma.(...) Mas sua adoração é para o saguna - aquele com atributos, com forma, porque é impossível conceber o sem forma. (...) Assim, o sem forma continua sendo uma vaga ideia.(...)

Intelectualmente não há como entender. A única maneira de compreender é apenas meditativa, existencial. Você não descobre isso através do intelecto, você simplesmente se move mais para a meditação e abre uma nova dimensão de visão.

Ninguém enfatizou tanto a meditação quanto Buda. Todo o seu método é meditação.

E o que é meditação? Meditação é pouco a pouco se tornar desprovido de pensamento; não caindo no sono - permanecendo alerta, mas ainda assim se tornando desprovido de pensamento. Uma vez que os pensamentos desaparecem, tudo fica claro como cristal - fica claro que o pensador era apenas um subproduto dos pensamentos em movimento. Era um feixe de pensamentos e nada mais. Ele não tinha existência separada.

Então você caminha, mas o caminhante não existe mais, então você come, mas aquele que come não existe mais; então você dorme, mas aquele que dorme não existe mais; então você vive, mas não há ninguém que esteja vivendo; então você morre e não há ninguém que esteja morrendo. Você é apenas um espaço puro em que existem milhões de processos, em que a vida flui com todos os seus processos e você permanece não corrompido por ela. Você é como um céu aberto...as nuvens vêm e vão.

Um dos mais belos nomes dados a Buda é tathàgata. Significa "assim veio assim se foi". Não há ninguém que veio e não há ninguém que foi - foi apenas o vir e o ir. Esse é o significado de tathàgata - apenas um processo de vir e um processo de ir; não há ninguém que veio e não há ninguém que foi.

Os mestres Zen sempre dizem que aquele homem nunca existiu - aquele homem chamado Gautama, O Buda, nunca existiu. Sim, ele certamente veio, e também se foi, mas nunca existiu. É como um processo de sonho. Um sonho vem e se vai, e de manhã você sabe que ele nunca existiu.

Quando você se compreende como um puro espaço e muitas coisas acontecendo, você se torna desapegado. Então, você se torna destemido, porque não há nada a perder, não há ninguém para perder nada. E você não mais está repleto de ânsia de viver, porque você não se concebe como um self. Por isso não teme a morte e não tem uma ânsia de viver. Não pensa no passado e não projeta o futuro. Você simplesmente é - tão puro quanto o vasto céu lá fora; você também se torna um puro céu em seu interior. E o encontro desses dois céus, o interior e o exterior, é o que Buda chama de nirvana.

Você pergunta: Eu entendo vagamente que pode ser o sem forma que permanece, mas esse sem forma pode ter uma entidade individual?

Não, ele não tem entidade individual.
"A mesma onda nasce de novo".

É verdade. De fato, se você observar de perto - vá até um rio ou um oceano e observe as ondas; você ficará surpreso ao ver algo novo no qual nunca tinha pensado antes. Quando você vê uma onda vindo em sua direção, nada está vindo, a onda nunca vem até você. Você a vê se movendo na sua direção; ela não está se movendo. Uma onda simplesmente ajuda outras ondas a surgir. Mas isso acontece tão depressa que cria uma ilusão de ótica - você acha que a mesma onda está vindo na sua direção. Nada está vindo na sua direção.

Quando um onda surge, pelo impacto dessa onda, outras ondas surgem; na vizinhança mais próxima, outra onda. Pela força da primeira onda, vem a segunda onda; pela força da segunda onda, a terceira onda; pela força da terceira, a quarta - é assim que as ondas surgem. Mas elas dão uma ilusão de que a mesma onda está vindo na sua direção. Elas nunca vêm. Quando você vê uma onda surgindo bem longe no horizonte, ela permanece lá; ela nunca chega até você.

Isso pode acontecer: você pode colocar uma madeira flutuante bem no meio do rio: essa madeira virá até você, mas não se deixe enganar por isso - a onda não está vindo. Quando uma onda se eleva, ela se move para a outra onda; com a subida e descida das ondas, a madeira chega até a praia, mas as ondas nunca vêm. Esse é um fato científico. Elas só parecem estar chegando. 

É isso, exatamente, o que Buda está dizendo. A mesma onda não nasce de novo. Ele não está dizendo que você vai renascer; diz simplesmente que há um renascimento.

Mas, de certa maneira, podemos dizer que você vai renascer, porque isso será uma continuidade. A mesma onda: a onda A cria a onda B, a onda B cria a onda C - é uma continuidade; a palavra certa é continuum.

Buda chama isso de santati. Do mesmo modo que uma criança nasce de você; de certa maneira ela é você e, no entanto, ela não é você, não é totalmente você. Ela terá a sua própria personalidade, mas você criou a onda. É a energia do pai e da mãe criando uma nova onda. Essa onda irá embora - o pai pode morrer, a mãe pode morrer -, mas essa onda vai continuar, e vai criar outras ondas à sua própria maneira, no seu próprio tempo.

Santati, continuum. Você não nasce, só seus desejos renascem; porque você não existe, portanto você não pode nascer. Por isso, Buda diz que se você parar de desejar nunca mais renascerá. Então, se você entender toda a inutilidade do desejo e parar de desejar, não haverá nascimento para você.

Portanto, primeiro você se torna um srotapanna , você entra no fluxo, você começa a entender como são as coisas; processos de vida sem nenhum self; É isso que ele quer dizer com tornar-se um srotapanna, entrar no fluxo: entrar na ideia do fluxo - que a vida é como um rio, não estática, mas dinâmica; não coisas, apenas eventos; um dinamismo, um fenômeno energético.

Então, pouco a pouco, à medida que você se move mais profundamente nesse fluxo, você se torna um skridagamin - você só vai nascer mais uma vez. Você compreende, mas sua compreensão não é total. Depois se torna um anagamin, - você não nascerá de novo. Você compreendeu todo o fenômeno. Nessa própria compreensão você é libertado.

Tornando-se capaz de não nascer de novo, você se torna um arhat, - alguém que alcançou, alguém que chegou. Agora estou usando uma linguagem que não é budista, por isso cuidado. Eu tenho de usar uma linguagem que não é budista, e por isso estou usando termos - eu digo "alguém que chegou". Não há outra maneira de dizer isso, mas você tem de entender: quando eu digo que alguém chegou, não há nenhum "alguém", apenas a chegada... apenas o chegar, nem mesmo "a chegada".

A visão de Buda é muito existencial e nada é tão libertador quanto a visão de Buda. Porque, se você acredita em uma alma, você pode deixar o mundo, mas então vai desejar o paraíso - porque você não deixa o seu self. O desejo se desloca para uma nova dimensão. Você abandona a ambição, mas na verdade não a abandona - surge uma ambição sutil.(...)

Seja o que for que você esteja abandonando aqui, está abandonando apenas para obter mais - essa é a lógica. (...) Buda diz, a menos que você abandone o self, irá perpetuar repetidamente o mesmo absurdo. Seu paraíso não será nada exceto um mundo projetado - o mesmo mundo modificado, tornado mais belo, mais decorado. (...) No paraíso hindu, muçulmano, cristão e judeu Deus preparou um belo jardim paradisíaco, murado para você. Ele o está esperando. Se você for virtuoso, se lhe prestar obediência, será enormemente recompensado; se o desobedecer, vai para o inferno. Assim o self existe aqui como centro do desejo, e Deus existe como o centro da satisfação desse desejo.

Buda diz que ambos não existem, livre-se de ambos. Nem Deus nem self. Busque a realidade, não se mova nos desejos. Abandone as fantasias, para de sonhar e busque o que existe. E ele diz que há apenas este mundo impermanente de processos - este mundo com fluxos, este vórtice de realidade... tudo impermanente e em mutação: nada é permanente.

Esse é o significado da insistência de Buda em que não existe self, porque você está tentando tornar algo em você permanentemente. Você diz: " O corpo muda, tudo bem; o mundo muda, tudo bem; os relacionamentos mudam, se deterioram, tudo bem - mas o self, o self é eterno. Sim, este mundo visível muda - mas o deus invisível, ele é eterno." Você quer tão desesperadamente algo eterno que começa a acreditar nisso. É o seu desejo que o eterno deva estar ali.

Buda diz que não existe nada eterno. Tudo é impermanente, tudo está em fluxo. Entenda isso, e este real entendimento irá libertá-lo.

Lembre-se: quando os outros falam de libertação, eles falam da libertação para o self. Quando Buda fala de libertação, ele fala da libertação do self. E esse é um ponto de vista extremamente radical. Não é que você será libertado, mas será libertado de você.

A única liberdade de que Buda fala é a liberdade real, é a liberdade de você. Do contrário, sua mente vai continuar jogando jogos. Vai continuar pintando novos desejos sobre novas telas. Nada vai mudar. Você pode mudar as telas. Pode sair do mercado e se sentar em um templo - nada vai mudar, sua mente vai projetar os mesmos desejos no céu, no paraíso.

Busque essa mente. Busque seus desejos. Observe, torne-se consciente. 
Eu tenho de lhe lembrar disso repetidamente porque estou falando em uma linguagem não budista. Então, quando Buda diz: "torne-se consciente" ele quer dizer "seja consciência". Não há ninguém para se tornar consciente, há apenas consciência.

Sim, você nunca vai nascer de novo, mas, se incorporar a ideia de que vai, então você vai permanecer em um continuum. Se abandonar a ideia do self, o continuum desaparece; você evapora.

É isso que é o nirvana. É como se você apagasse uma lâmpada e a luz deixasse de existir, desaparecesse; você renuncia à sua mente desejosa e toda a felicidade, toda a transmigração, todo o sofrimento cessa. De repente, você não mais existe.

Mais isso não significa que nada existe; do contrário, não haverá diferença entre um ateu e um Buda. Há uma enorme diferença. Buda diz que você cessa, e pela primeira vez a realidade assume o comando. Mas ele nunca dá a isso nenhum nome, porque nomear não é possível - nomeá-lo é nenhum nome, porque nomear não é possível - nomeá-lo é falsificá-lo. Dizer que isso é, é ser desleal com isso. Buda se mantém calado, absolutamente silencioso a respeito disso. Ele indica a maneira como o experienciou. Não fia e tece uma filosofia em torno disso."
Osho em Destino, Liberdade e Alma.

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