24 de abril de 2014

Osho fala sobre Lao Tzu


"Quando falo sobre Lao Tzu, é como se falasse sobre o meu próprio eu. Meu ser é totalmente uno com ele. (...)
Lao Tzu não é absolutamente matemático, mas é muito, muito lógico em sua loucura. Ele tem uma lógica louca! Se conseguir penetrar os seus ditos, você poderá senti-la; ela não é tão óbvia e aparente. Ele tem uma lógica própria - a lógica do absurdo, a lógica do absurdo, a lógica do paradoxo, a lógica de um louco. Ele pega pesado.

Para entender a lógica de Lao Tzu, você terá de criar olhos. Ela é muito sutil, não é a lógica comum dos lógicos - é a lógica de uma vida oculta, uma vida muito sutil. Tudo que ele diz é absurdo na superfície; lá no fundo encontra-se uma grande consistência. É preciso penetrá-la; é preciso mudar a própria mente para entender Lao Tzu. Ele ziguezagueia. Às vezes o vemos ir para leste e às vezes para oeste, pois ele diz que o leste é o oeste e o oeste é leste, que estão juntos, são a mesma coisa. Ele acredita na unidade dos opostos.

E é assim que a vida é, de modo que Lao Tzu é apenas um porta-voz da vida. Se a vida é absurda, Lao Tzu é absurdo; se a vida tem uma lógica absurda, Lao Tzu tem a mesma lógica. Lao Tzu simplesmente reflete a vida. Nada acrescenta a ela, nada seleciona nela; ele simplesmente aceita o que quer que ela seja.

É simples enxergar a espiritualidade de um Buda, muito simples; é impossível não percebê-la, tão extraordinário ele é. Mas é difícil enxergar a espiritualidade de Lao Tzu, ele é tão comum, tão parecido com qualquer um de nós. É preciso crescer para entendê-lo. (...) Lao Tzu poderia ser seu vizinho. Talvez você não tenha prestado atenção nele por ser tão comum, tão extraordinariamente comum. E é essa a beleza da coisa.

Tornar-se extraordinário é simples: é necessário apenas esforço, refinamento, cultivo. É uma profunda disciplina interna; a pessoa pode tornar-se muito , mas muito refinada, algo absolutamente etéreo. Mas ser comum é realmente a coisa mais extraordinária que pode haver. Não adianta se esforçar, o que é necessário é a absoluta ausência de esforço. Nem mesmo a meditação será de alguma ajuda. Para se tornar um Lao Tzu, nem mesmo a meditação ajuda - só entender. Só entender a vida como é, e vivê-la com coragem; não fugir dela, não se esconder dela, enfrentá-la com coragem, qualquer que seja, boa ou má, divina ou demoníaca, céu ou inferno. (...)

Lao Tzu vivia em silêncio. Sempre evitava falar da verdade que alcançara e sempre rejeitava a ideia de que devesse registrá-la por escrito para as futuras gerações.
Aos noventa anos ele se despediu dos discípulos, disse-lhes adeus e acrescentou: "Vou me mudar para a montanha perto do Himalaia. Vou me preparar para morrer. É bom viver com as pessoas, é bom estar no mundo enquanto se está vivo, mas quando vamos chegando perto da morte é bom ficar em total solidão, para se aproximar da fonte original em absoluta pureza e solidão, sem estar contaminado pelo mundo".
Os discípulos ficaram muito tristes, mas que poderiam fazer? Seguiram-no por alguns quilômetros, mas Lao Tzu os acabou convencendo a voltar. Ia atravessando sozinho a fronteira, quando foi detido por um guarda. O guarda também era um discípulo. E disse: "Se o senhor não escrever um livro, não vou permitir que ultrapasse a fronteira. O senhor precisa fazer isso pela humanidade. Escreva um livro. É a dívida que deve pagar, caso contrário não lhe permitirei passar". E assim Lao Tzu permaneceu três dias detido por seu próprio discípulo.

É bonito. Muito amoroso. Ele foi obrigado, e foi assim que nasceu o livrinho, o livro de Lao Tzu, Tao Te Ching. (...) Em três dias estava concluído.

Esta é a primeira sentença do livro:
O Tao que pode ser dito não é o Tao absoluto.
É esta a primeira coisa que ele tem a dizer: tudo que pode ser dito não pode ser verdadeiro. É a introdução do livro. Serve simplesmente para alertar: virão agora palavras, não se torne vítimas das palavras. Lembre-se do que não tem palavras. Lembre-se do que não pode ser comunicado através da linguagem, através das palavras. O Tao pode ser transmitido, mas só de ser para ser. Pode ser comunicado quando você está com o Mestre, somente o Mestre, sem fazer nada, nem sequer praticar nada. Ele pode ser comunicado pelo simples fato de estar com o Mestre.

Por que a verdade não pode ser dita? Qual a dificuldade? A verdade não pode ser dita por muitas razões. A primeira e mais importante é que a verdade sempre se dá em silencio. Quando sua fala interior cessa, é então que ela se dá. E aquilo que se dá em silencio, como poderia ser dito através dos sons? É uma experiência. Não é um pensamento. Se fosse um pensamento, poderia ser expressado, não haveria problema. Por mais complicado ou complexo que seja um pensamento, sempre é possível encontrar uma maneira de expressá-lo. A teoria mais complexa de Einstein, a teoria da relatividade, também pode ser expressa num símbolo. Não há o menor problema; Talvez o ouvinte não seja capaz de entender, mas não é essa a questão. Ela pode ser expressa. (...)

Mas a verdade não pode ser expressa porque para alcançá-la é necessário o silencio, a ausência de som, a ausência de pensamentos. Ela é alcançada através da ausência da mente - a mente é deixada de lado. E como se pode usar uma coisa que, necessariamente tem de ser deixada de lado para se alcançar a verdade? A mente não pode entender, a mente não pode realizar - como poderia a mente expressar? Tenha isso em mente, como uma regra: o que a mente alcança, a mente pode expressar, o que a mente não alcança, ela não pode expressar.

De que serve então todas as escrituras? Qual o propósito de Lao Tzu? Qual o propósito dos Upanishads? Todos eles tentam suscitar em você o desejo de saber a respeito. A verdade não pode ser dita, mas no próprio esforço de dizê-lo pode surgir no ouvinte um desejo de conhecer o que não pode ser expresso. Pode ser provocada uma sede. A sede existe, só precisa ser um pouco provocada. Você está com sede - e como poderia ser de outra forma? Não se sente bem-aventurado, não se sente em êxtase - está sedento. Seu coração está em chamas. Você busca algo para matar sua sede. Mas, como não encontra água, como não chega à fonte, aos poucos foi tentando reprimir a sua sede. É a única maneira, caso contrário seria difícil suportar; você nem conseguiria viver. De modo que reprime a sede.

Um mestre como Lao Tzu sabe perfeitamente que a verdade não pode ser dita, mas a simples tentativa de dizê-la provocará alguma coisa, trará à superfície a sede reprimida em você. E, uma vez que a sede venha à tona, terá início uma busca, uma investigação. E ele foi capaz de fazê-lo mexer-se.(...)

Podem-se dizer coisas sobre Deus, mas Deus não pode ser dito; é possível dizer coisas sobre o amor, mas o amor não pode ser dito; essas "coisas" que podem ser ditas são relativas. São relativas para o ouvinte, seu entendimento, sua capacidade intelectual, sua formação, seu desejo de entender. Depende e tem a ver com o Mestre e sua maneira de se expressar, seus recursos de comunicação. É relativo - relativo a muitas coisas - mas nunca poderá tornar-se a experiência absoluta. É esse o primeiro motivo pelo qual a verdade não poder ser expressa;

O segundo motivo pelo qual a verdade não pode ser expressa, é por ser uma experiência. Nenhuma experiência pode ser transmitida...deixe a verdade de lado. Se você nunca conhecer o amor, quando alguém diz alguma coisa sobre o amor você ouvirá a palavra, mas não poderá captar o sentido. (...) O significado vem através da experiência. Se você amou alguém, conhece o significado da palavra "amor". (...) O significado literal da experiência, o significado existencial está em você. Se você passou pela experiência, imediatamente a palavra "amor" deixe de ser vazia de conteúdo; ela contém algo. Se eu digo, será algo vazio se você não aportar sua própria experiência. Quando sua experiência é adicionada, a coisa adquire significado; caso contrário fica vazia - palavras, palavras, palavras.(...) O significado real e autêntico vem através da experiência existencial. É preciso conhecê-lo, não há outra maneira. (...)

Lao Tzu é a favor da entrega. Diz ele: entregue-se à vida. Deixe que a vida o conduza, não tente conduzir a vida. Não tente manipular e controlar a vida, deixe que a vida o manipule e controle. Deixe que a vida o possua. Simplesmente se entregue! Diga simplesmente: "Eu não sou". Confira poder total à vida,  esteja com ela.

É difícil, pois o ego diz: Mas então que sou eu? Entregue eu não sou mais". Mas quando o ego não é, na verdade pela primeira vez você É. Pela primeira vez você não é finito, você é o infinito. Pela primeira vez, não é o corpo, o encarnado, você é o desencarnado, o vasto, que está sempre se expandindo, sem início nem fim. Mas o ego nada sabe disto. O ego tem medo. Diz: Mas o que está fazendo? Se perdendo? Assim, vai-se perder, será um ninguém!" Se der ouvidos ao neurótico, o caminho de "ser alguém". Em quanto mais você se torna alguém, mais a vida desapareceu de você.(...)

Diz Lao Tzu: " Seja um ninguém, e então terá vida infinita fluindo em você". Para o fluxo da vida, ser alguém vira um obstáculo. Ser um ninguém, o vasto, o vazio, permite tudo. Podem passar nuvens, as estrelas podem passar nele, e nada o perturba. E você nada tem a perder, pois tudo o que poderia ser perdido você já entregou. (...)

Lao Tzu também diz: Flutue com o Tao, mova-se com o Tao, não invente metas e finalidades particulares, o todo sabe das coisas, fique simplesmente com ele". O todo o criou, o todo respira em seu interior, o todo vive em você, por que se preocupar? Entregue a responsabilidade ao todo. Simplesmente vá aonde ele o levar. Não tente forçar e planejar, e não almeje metas predeterminadas, pois nesse caso haverá frustração, e você se enrijecerá, e perderá a oportunidade de estar vivo. E é essa a questão: se você permitir a vida, mais vida acontecerá, e se permitir estar vivo, mais vida ainda acontecerá".
Osho em Encontros com pessoas notáveis 

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