20 de abril de 2014

O Ser novo - Leonardo Boff


"A todos Feliz Páscoa com alegria e esperança!
Para o cristianismo a cruz e a morte da sexta-feira santa não detém a última palavra. A palavra derradeira que o Criador pronunciou sobre o destino humano é Ressurreição. 

Por isso, a festa central do Cristianismo não é o Natal que celebra o nascimento do Libertador das gentes nem a Sexta-feira Santa que comemora o martírio do Messias.

Se ele, após a crucificação, não tivesse ressuscitado, estaria seguramente no panteão dos heróis da humanidade, mas não teria uma comunidade que lhe guardaria a memória sagrada. Mas ele ressuscitou. 

Em razão disso, o Cristianismo não celebra uma saudade do passado, mas festeja uma presença no presente.

Então fica claro, contrariando os existencialistas modernos que afirmam sermos seres para a morte: não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar. (...)

Ressurreição significa bem outra coisa. É a entronização de alguém numa ordem de vida que não tem mais nenhuma entropia e nenhuma necessidade de morrer.
É uma vida tão inteira que não deixa nenhuma brecha pela qual a morte pode entrar. Portanto, é a realização da utopia de uma vida sem fim e absolutamente realizada. Tal evento bem aventurado só é possível à condição de o processo evolucionário ter chegado, por antecipação, à sua culminância, quando todas as potencialidades do ser humano se tiverem absolutamente realizado. Representa, pois, uma revolução na evolução. 

Daí implode e explode o Ser novo que vinha embrionariamente se formando ao longo dos bilhões e bilhões de anos, até fechar o seu ciclo de realizações. (...)

Quando se fala assim de ressurreição, se acredita que tal singularidade ocorreu em Jesus. A grama não cresceu sobre sua sepultura. Ela ficou aberta para proclamar o fato mais decisivo do universo: a superação da morte; mais ainda, a possibilidade real de transformação da utopia em topia dentro do
horizonte cósmico e histórico: o triunfo do princípio de vida.

Que faz, concretamente, a ressurreição? 
Realizar plenamente nossa essência que consiste em sermos um nó de relação e de comunicação, voltada para todos os lados. 

A ressurreição suprime os limites de realização do espaço-tempo desse nosso nó, potenciando-o ao infinito, já que, por natureza, somos um projeto
infinito. O corpo ressuscitado vira pura comunicação e ganha uma dimensão igual a do cosmos. Por isso o corpo ressuscitado enche todo o universo e ocupa todos os espaços.

Um dito do evangelho de Thomé, descoberto em 1945 no norte do Egito, deixa o Ressuscitado falar assim:”Tudo saiu de mim e tudo volta a mim. Rache a lenha e eu estou dentro dela. Levante a pedra e estou debaixo dela. Eis que estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. 

Quer dizer, pela ressurreição, Jesus ganhou uma dimensão cósmica. Ele
se encontra em todas as coisas até naquelas mais comuns, como cortar lenha e levantar pedras.
Pelo espírito estamos na lua, no sol, nas galáxias mais distantes, estamos em Deus. Mas nosso corpo não consegue acompanhar no espírito. Fica enraizado no espaço e no tempo, agrilhoado ao sistema da matéria.

Voando à velocidade da luz precisamos de 8 segundos para chegar até o sol e três anos luz, à estrela mais próxima, a Alfa do Centauro. 

O corpo ressuscitado supera a velocidade da luz. Ele está imediatamente lá
onde está o seu desejo.
O corpo assume as características do espírito e o espírito aquelas do corpo. Não deixamos o mundo. 
Penetramos mais profundamente no coração do mundo até aquele ponto onde tudo é Um e para onde tudo converge, constituindo o Todo.
Leonardo Boff em Ressurreição

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