27 de fevereiro de 2018

Sobre os papéis sociais - Eckhart Tolle



"Fazer o que é exigido de nós em qualquer situação sem que isso se torne um papel com o qual nos identificamos é uma lição essencial na arte de viver que todos nós estamos aqui para aprender. Somos mais eficazes no que quer que façamos quando executamos a ação em benefício dela mesma, e não como um meio de proteger e acentuar a identidade do nosso papel. Todo papel é uma percepção fictícia do eu e, por meio dele, tudo se torna personalizado e assim corrompido e distorcido pelo "pequeno eu" criado pela mente, seja qual for a função que este esteja desempenhando. Quase todas as pessoas em posições de poder, como políticos, celebridades e líderes empresariais e religiosos, se encontram inteiramente identificadas com seu papel, com poucas exceções notáveis.

Esses indivíduos podem ser considerados VIPs, mas não são mais do que participantes inconscientes do jogo egóico, que, apesar de parecer muito importante, não apresenta, em última análise, um propósito verdadeiro. Ele é, nas palavras de Shakespeare, "uma história contada por um idiota, repleta de som e de fúria, sem nenhum significado". E Shakespeare chegou a essa conclusão sem nem sequer ter visto televisão. Se o conflito egóico tem de fato um propósito, este é indireto: ele cria cada vez mais sofrimento neste mundo, e o sofrimento, embora produzido em sua maior parte pelo ego, no fim também o destrói. Ele é o fogo no qual o ego se consome.

Neste mundo de personalidades que interpretam papéis, as poucas pessoas que não projetam uma imagem criada pela mente e que agem com o âmago do seu Ser, aquelas que não tentam parecer mais do que são, destacam-se como admiráveis e são as únicas que fazem verdadeiramente a diferença - e existem algumas assim até mesmo na mídia em geral e no universo dos negócios. Elas são os mensageiros da nova consciência. Qualquer coisa que façam se torna importante porque está alinhada com o propósito do todo. Contudo, sua influência vai muito além do que realizam, da sua atividade. Sua mera presença - simples, natural, despretensiosa - tem um efeito transformador sobre qualquer um que tenha contato com elas.

Quando não interpretamos papéis, é porque que não há eu (ego) no que estamos fazendo. Não existem intenções ocultas: a proteção ou o fortalecimento do eu. Por esse motivo, nossas ações têm uma força muito maior. Ficamos totalmente concentrados na situação, nos tornamos um só com ela. Não procuramos ser alguém diferente. Passamos a ser mais capazes, mais eficazes, quando somos nós mesmos. Todavia, não devemos tentar ser nós mesmos, pois esse é outro papel. Estou falando do chamado "eu natural, espontâneo". Assim que buscamos ser isso ou aquilo, interpretamos um papel. "Apenas seja você mesmo" é um bom conselho, no entanto também pode ser enganador. Primeiro, a mente dirá: "Vejamos. Como posso ser eu mesmo?" Depois, desenvolverá uma estratégia do tipo "Como ser eu mesmo". Outro papel. Assim, "Como posso ser eu mesmo?" é, na verdade, a pergunta errada. Ela pressupõe que temos que fazer algo para sermos nós mesmos. Porém, "como" não se aplica a esse caso porque já somos nós mesmos. Precisamos apenas parar de acrescentar elementos desnecessários a quem já somos. "Mas eu não sei quem sou. Ignoro o que significa ser eu mesmo." Quando conseguimos nos sentir à vontade em não saber quem somos, então o que sobra é quem somos - o Ser por trás do humano, um campo de pura potencialidade em vez de alguma coisa que já está definida.

Portanto, desista de se definir - para si mesmo e para os outros. Você não morrerá. Você nascerá. E não se preocupe com a definição que os outros lhe dão. Quando uma pessoa o define, ela está se limitando, então o problema é dela. Sempre que estiver interagindo com alguém, não se porte como se você fosse basicamente uma função ou um papel, mas um campo de presença consciente.

Por que o ego interpreta papéis? Por causa de um pressuposto não questionado, um erro fundamental, um pensamento inconsciente, que é: "Não sou o bastante." E a esse pensamento se seguem outros, como "Tenho que interpretar um papel para conseguir o que é necessário para me completar", "Preciso obter mais para ser mais". No entanto, não podemos ser mais do que somos porque, por baixo da superfície da nossa forma física e psicológica, somos um só com a Vida em si mesma, com o Ser. Na forma, somos e seremos sempre inferiores a algumas pessoas e superiores a outras. Na essência, não somos inferiores nem superiores a ninguém. A verdadeira autoestima e a autêntica humildade surgem dessa compreensão. Aos olhos do ego, a auto-estima e a humildade são contraditórias. Na verdade, elas são uma só coisa e a mesma."

Eckhart Tolle em Praticando O Poder do Agora

24 de fevereiro de 2018

Pássaros inesperados - Jeff Foster


"Ás vezes você está caminhando por um caminho conhecido em uma manhã de primavera, e há tantas perguntas e dilemas mentais, tantas questões que parecem exigir respostas imediatas... 
O que fazer com esse presente precioso da vida? 
Onde ir? O que dizer a seguir? 
Qual a escolha para fazer ou não fazer? 
Qual voz ouvir? 
Como fazer tudo de bom novamente? 
Como segurar tudo isso? 
Como evitar se desmoronar?

E, de repente, as perguntas não podem ser presas, elas se fragmentam em um milhão de silêncios, porque um pequeno pássaro pousou no caminho em frente a você, pousado no aqui e agora, não naquele em que você está buscando suas respostas. 
Seus olhos se encontram com os dele, e você sabe que tudo está bem no universo....

As perguntas serão respondidas ou não, e as soluções aparecerão ou não aparecerão no momento perfeito, porque você estará disponível para elas, já que você está disponível agora para este pássaro pequenino e inesperado....

Talvez hoje não seja um dia para respostas e certezas inabaláveis, é um dia para o canto dos pássaros e ficando perto das perguntas, enquanto elas caminham com você por caminhos familiares nas manhãs de primavera....

17 de fevereiro de 2018

Observar é a chave - Osho


"Não julgue, porque no momento em que começar a julgar você esquecerá de observar. E isso acontece porque no momento em que começa a julgar — “Esse pensamento é bom” — justamente nesse espaço de tempo você não estará observando. Você começou a pensar, envolveu-se. Não conseguiu permanecer alheio, parado à margem da estrada, só observando o tráfego.

Não se torne um participante avaliando, julgando, condenando; nenhuma atitude deve ser tomada a respeito do que está se passando na sua mente. Você precisa observar os seus pensamentos como se fossem nuvens passando no céu. Você não faz julgamentos sobre as nuvens — essa nuvem negra é ruim e essa nuvem branca parece um sábio. Nuvens são nuvens, elas não são nem boas nem ruins.

O mesmo acontece com os pensamentos — são meras ondinhas passando na sua mente. Observe-os sem julgá-los e você terá uma grande surpresa. Quando a sua observação se tornar constante, os pensamentos passarão a ficar cada vez mais esparsos. A proporção é exatamente a mesma; se você estiver com 50% da atenção na observação, então 50% dos seus pensamentos vão deixar de existir. Se estiver com 60% da atenção, então só restarão 40% dos pensamentos. Quando você for 99% pura testemunha, só de vez em quando surgirá um pensamento solitário — 1 % passando na estrada, não haverá mais tráfego nenhum. Esse tráfego da hora do rush não existirá mais.

Quando você deixar de lado 100% dos julgamentos, passará a ser apenas uma testemunha; isso significa que você se tornou simplesmente um espelho — porque o espelho nunca faz nenhum julgamento. Uma mulher feia mira-se no espelho e ele não faz nenhum julgamento. Uma mulher bonita mira-se no espelho e não faz nenhuma diferença. Quando não há ninguém diante dele, o espelho tem a mesma pureza de quando há alguém sendo refletido em sua superfície. Nem o reflexo o afeta nem o não-reflexo.

O testemunhar se torna um espelho. Essa é a maior conquista da meditação. Se consegui-la, você já estará na metade do caminho, pois trata-se da parte mais difícil. Agora você sabe o segredo, e o mesmo segredo tem simplesmente de ser aplicado em outros objetos.

Dos pensamentos você precisa passar para experiências mais sutis ligadas às emoções, aos sentimentos, aos estados de espírito. Da mente para o coração, nas mesmas condições: nenhum julgamento, só testemunho. E, surpresa, a maioria das suas emoções, sentimentos e estados de espírito começarão a se dissipar. Agora, quando está sentindo tristeza, você está realmente triste, está tomado de tristeza. Quando está com raiva, ela não é parcial. Você fica cheio de raiva; cada fibra do seu ser vibra de raiva.

Observando o coração, a impressão que se tem é que agora nada mais pode possuir você. A tristeza vem e vai embora, você não fica triste; a felicidade vem e vai embora, você também não fica feliz. Seja o que for que se passe nas camadas mais profundas do coração, isso não afeta você. Pela primeira vez você tem uma amostra do que seja maestria. Não é mais um escravo à mercê da vontade alheia; nenhuma emoção, nenhum sentimento, ninguém pode mais perturbá-lo com ninharias."

Osho em Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa

10 de fevereiro de 2018

Luta e inconsciência - Osho


"Lutar é uma atitude básica, porque isso alimenta o ego. 
Quanto mais você luta, mais o seu ego se torna mais forte. Se você sair vitorioso, o ego tem grande alegria. 

Você fica dando vida ao ego pelas suas vitórias. Mas, por outro lado, à medida que o ego se torna mais forte, o seu ser vai se afastando cada vez para mais longe de você.

À medida que seu ego se torna mais forte, você vai perdendo a si mesmo. Você pode estar lutando e saindo vitorioso, não sabendo absolutamente que não se trata de um ganho, mas de uma perda. Ensina-se a todas as crianças a lutarem, de diferentes maneiras. A competição é uma luta, ser o primeiro da classe é uma luta, ganhar um troféu num jogo é uma luta... Essas coisas são preparações para a sua vida. Depois luta-se numa eleição, luta-se por dinheiro luta-se por prestígio. Toda essa sociedade está baseada em lutas, competição, briga, na colocação de cada indivíduo contra o todo.

Assim, esta é quase a situação de todo mundo. E aí, você me escuta falar de entrega...

Entrega’ significa ‘nenhuma competição, nenhuma briga, nenhuma luta’... simplesmente relaxar com a existência, aonde quer que ela conduza. Sem tentar controlar o seu futuro, sem tentar controlar as conseqüências, mas permitindo-as acontecerem... sem nem pensar nelas. 


A entrega está no presente; as conseqüências estão no amanhã. E a entrega é uma experiência tão deleitosa... um total relaxamento, uma profunda sincronicidade com a existência. (...)

A luta precisa de uma mente muito inconsciente. Se você for um pouco consciente, você não pode brigar, porque a coisa toda parece ser absurda, destrutiva, não ajuda ninguém de maneira nenhuma. E por ela você não está só destruindo o outro, você também está se destruindo e você prossegue destruindo todas as possibilidades de um relacionamento feliz, harmonioso.
É muito fácil ficar com raiva e brigar, mas é muito difícil eliminar esse veneno do sistema, porque isso cria veneno. 


Esse veneno persiste. 

Cada briga tem um remanescente e o remanescente irá novamente gerar a mesma situação na qual você começa a brigar novamente. Desse modo, luta gera luta; um conflito gera outro conflito. Eles são muito reprodutivos. Eles não acreditam em nenhum controle da natalidade.

Consciência, atenção, não tem filhos. Ela é bastante em si mesma. Mas a inconsciência gera muitos filhos. Assim basta lembrar mais e mais... apenas apanhe a si mesmo em flagrante. E então não se sinta embaraçado, não se sinta envergonhado. Imediatamente abandone isso aí mesmo. Mesmo que você esteja no meio de uma sentença, pare aí mesmo e dê uma boa risada.


A risada é muito medicinal. Não existe nada como a risada... ela é muito terapêutica. Se as pessoas puderem rir mais, o mundo certamente será melhor. 

E se as pessoas puderem rir nas situações onde a risada não acontece facilmente, o mundo pode ser tremendamente diferente...realmente um mundo muito feliz."
Osho em Be realistic: Plan for a miracle

9 de fevereiro de 2018

Sobre a não-dualidade - Jeff Foster


"Conheci realmente, nos últimos anos, muita gente para quem a não-dualidade se converteu em uma nova religião.

Eles creem que não tem um eu, que não há escolha e que tudo isso é apenas uma história, e repetem estas frases memorizadas interminavelmente.

Inclusive lutam com outras pessoas que não veem as coisas da mesma maneira!

Não podem ver que estão presos em um novo dogma, que não é a libertação de seu sofrimento, mas que simplesmente o justifica e inclusive o alimenta.

'Estou sofrendo, mas não há ninguém aqui sofrendo, e não a nada que possa fazer de qualquer forma, e não há escolha possível. E todos vocês são dualistas! E se você pensa que estou irritado, isso é apenas sua projeção. Aqui não há ninguém que se irrite.’

Trata-se de uma receita para a devastação e para cegueira profunda da verdade. E um conflito interminável.

O que em realidade estamos falando aqui - e o que venho assinalando - é do verdadeiro fim do sofrimento e do conflito, não como uma posição de duração determinada, mas como uma valente e radical abertura à vida.

Não como um refugio (como fala meu amigo Scott Kiloby) em um novo ponto de repouso mental não-dual, mas em um novo descobrimento do mistério.

Isto tem a ver com descobrir nossa total inseparabilidade da vida, com conhecermos a nós mesmos como a imensidão na qual cada pensamento, sensação, sentimento e som é um amigo bem-vindo.

Não estamos falando sobre a crença de que não há eu nem escolha, não estamos falando de novas conclusões, mas de chegar a reconhecer esta liberdade e repouso a cada momento, sem importar o que esteja acontecendo em nossas vidas.

Isto não é uma religião, mas um reconhecimento em tempo real. 

Um novo e curioso olhar para nossa experiência, sem conclusões, sem história, sem memória, inclusive sem a memória da não-dualidade."

3 de fevereiro de 2018

O sorriso de Krishna - Pedro Kupfer


"Já faz muitos anos que ouvi por primeira vez o mantra "entrego, confio, aceito e agradeço", dos lábios do incrível e saudoso professor Hermógenes. Lembro que, ao ouvir por primeira vez essas quatro palavras juntas, tive a mesma sensação de maravilhamento que senti noutras oportunidades, ao ouvir ensinamentos transformadores da boca dos mestres realizados que tive a oportunidade de conhecer.

Uma das grandes virtudes desses mestres é que eles podem transmitir a visão transformadora do Yoga através de palavras simples que não apenas ficam na memória mas tocam profundamente o coração. Hermógenes é esse tipo de mentor, difícil de se encontrar.

Lá se vão quase duas décadas desde o momento em que escutei por primeira vez estas palavras numa palestra que ele deu num espaço de Yoga em Florianópolis. E muitas outras vezes as ouvi é li noutros lugares. E sempre elas tiveram (e continuam tendo) o mesmo peso, a mesma carga, a mesma promessa de que as coisas podiam ser mais do que pareciam, de que a vida não devia ser só aquela cilada da qual era preciso ser um ninja para poder sair.

Penso que as quatro palavras do aforismo tenham o mesmo peso. E mais peso ainda têm a união delas nessa ordem específica, pelo que revelam. Bom, o convite que recebi foi para refletir sobre a terceira das quatro palavras: aceitação.

Aceitação, no contexto do Yoga, é um valor muito bonito e transformador. Aqui, a palavra significa algo diferente daquilo para o que ela aponta por exemplo quando aceitamos aqueles termos de uso do computador que jamais lemos. Aceitar não é, por outro lado, cultivar a resignação sôfrega de quem não consegue manter a equanimidade ou tende a se colocar como vítima das circunstâncias.

Sem ser o professor Hermógenes, e distando muito da sua sabedoria, atrevo-me a dizer que quando escolheu a palavra aceitação quis apontar para a virtude de manter o contentamento e o astral altos; não apenas quando as coisas estão fluindo da maneira que desejamos ou esperamos, mas igualmente quando a vida nos coloca aqueles inevitáveis desafios.

Aceitar situações das quais gostamos, ou aquelas que nos surpreendem agradavelmente é muito fácil. Aceitar coisas que nos são indiferentes tampouco implica algum desafio especial. Agora, penso que a palavra aceitação esteja nesta frase justamente para nos lembrar de como lidar de maneira equânime com os obstáculos que vão nos ensinar alguma coisa.

Digo isto pois é fato que se as coisas só fluírem para nós na forma do conforto e da facilidade, não aprenderemos nunca nada. Aprendemos através dos desafios, das limitações e das dificuldades. Como diz um ditado das gentes do mar, que ouvi do meu irmão, cuja casa é um veleiro: "mares calmos não fazem bons marinheiros".

Porém, esse aprendizado não precisa ser sôfrego. É possível enfrentar desafios, com um sorriso nos lábios e paz no coração. É possível relaxar e apreciar do mar tormentoso como ele é. Foi isso o que o deus Kṛṣṇa ensinou o príncipe Arjuna à beira do campo de batalha: sem perder o sorriso nem a calma, apesar da trágica guerra fratricida que estavam vivendo.

O sorriso de aceitação surge da apreciação da ordem maior, de que nela, há um lugar para cada pessoa, para cada coisa e circunstância. A aceitação equânime implica, a priori, compreender a diferença entre o que podemos e o que não podemos mudar. E, alegremente, nos ajeitar dentro dessas situações, aceitando as pessoas e as coisas como são, vivendo conscientes e aplicando essa visão libertadora a cada momento.
Com o sorriso de Kṛṣṇa."
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