3 de fevereiro de 2018

O sorriso de Krishna - Pedro Kupfer


"Já faz muitos anos que ouvi por primeira vez o mantra "entrego, confio, aceito e agradeço", dos lábios do incrível e saudoso professor Hermógenes. Lembro que, ao ouvir por primeira vez essas quatro palavras juntas, tive a mesma sensação de maravilhamento que senti noutras oportunidades, ao ouvir ensinamentos transformadores da boca dos mestres realizados que tive a oportunidade de conhecer.

Uma das grandes virtudes desses mestres é que eles podem transmitir a visão transformadora do Yoga através de palavras simples que não apenas ficam na memória mas tocam profundamente o coração. Hermógenes é esse tipo de mentor, difícil de se encontrar.

Lá se vão quase duas décadas desde o momento em que escutei por primeira vez estas palavras numa palestra que ele deu num espaço de Yoga em Florianópolis. E muitas outras vezes as ouvi é li noutros lugares. E sempre elas tiveram (e continuam tendo) o mesmo peso, a mesma carga, a mesma promessa de que as coisas podiam ser mais do que pareciam, de que a vida não devia ser só aquela cilada da qual era preciso ser um ninja para poder sair.

Penso que as quatro palavras do aforismo tenham o mesmo peso. E mais peso ainda têm a união delas nessa ordem específica, pelo que revelam. Bom, o convite que recebi foi para refletir sobre a terceira das quatro palavras: aceitação.

Aceitação, no contexto do Yoga, é um valor muito bonito e transformador. Aqui, a palavra significa algo diferente daquilo para o que ela aponta por exemplo quando aceitamos aqueles termos de uso do computador que jamais lemos. Aceitar não é, por outro lado, cultivar a resignação sôfrega de quem não consegue manter a equanimidade ou tende a se colocar como vítima das circunstâncias.

Sem ser o professor Hermógenes, e distando muito da sua sabedoria, atrevo-me a dizer que quando escolheu a palavra aceitação quis apontar para a virtude de manter o contentamento e o astral altos; não apenas quando as coisas estão fluindo da maneira que desejamos ou esperamos, mas igualmente quando a vida nos coloca aqueles inevitáveis desafios.

Aceitar situações das quais gostamos, ou aquelas que nos surpreendem agradavelmente é muito fácil. Aceitar coisas que nos são indiferentes tampouco implica algum desafio especial. Agora, penso que a palavra aceitação esteja nesta frase justamente para nos lembrar de como lidar de maneira equânime com os obstáculos que vão nos ensinar alguma coisa.

Digo isto pois é fato que se as coisas só fluírem para nós na forma do conforto e da facilidade, não aprenderemos nunca nada. Aprendemos através dos desafios, das limitações e das dificuldades. Como diz um ditado das gentes do mar, que ouvi do meu irmão, cuja casa é um veleiro: "mares calmos não fazem bons marinheiros".

Porém, esse aprendizado não precisa ser sôfrego. É possível enfrentar desafios, com um sorriso nos lábios e paz no coração. É possível relaxar e apreciar do mar tormentoso como ele é. Foi isso o que o deus Kṛṣṇa ensinou o príncipe Arjuna à beira do campo de batalha: sem perder o sorriso nem a calma, apesar da trágica guerra fratricida que estavam vivendo.

O sorriso de aceitação surge da apreciação da ordem maior, de que nela, há um lugar para cada pessoa, para cada coisa e circunstância. A aceitação equânime implica, a priori, compreender a diferença entre o que podemos e o que não podemos mudar. E, alegremente, nos ajeitar dentro dessas situações, aceitando as pessoas e as coisas como são, vivendo conscientes e aplicando essa visão libertadora a cada momento.
Com o sorriso de Kṛṣṇa."

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