30 de abril de 2015

Osho fala sobre Rumi - 1/2


"Rumi diz: "Mova-se internamente, mas não se mova do jeito que o medo manda."

As palavras de Mevlana Rumi são extremamente significativas. Foram muito poucas as pessoas que se mostraram capazes de mover e transformar tantos corações quanto Jalaluddin Rumi.

No mundo dos sufis, Mevlana é o imperador. Suas palavras não têm sido recebidas como simples palavras, mas como fontes de profundos silêncios, ecos das canções mais interiorizadas. Ele é o maior dançarino que já houve no mundo. Mil e duzentos anos se passaram desde que viveu.

Sua dança é um tipo especial de dança. É uma espécie de turbilhão, do jeito que as crianças rodopiam; de pé no mesmo lugar, elas giram e giram sem parar. E talvez no mundo inteiro as criancinhas façam exatamente a mesma coisa, e os mais velhos tentam detê-las, dizendo: Você vai ficar tonto, vai cair, vai se machucar; ou então perguntam: Qual o sentido de fazer isso?

Jalaluddin Rumi transformava o rodopio em meditação. Aquele que medita fica rodopiando durante horas - enquanto o corpo permitir; não para por vontade própria. Rodopiando chega um momento em que se vê absolutamente quieto e silencioso, no centro do ciclone. Ao redor do centro, o corpo movimenta-se, mas há um espaço que se mantém parado; é este o seu ser.

O próprio Rumi rodopiava durante 36 horas sem parar a e caía, pois o corpo já não aguentava mais rodopiar. Mas, ao abrir os olhos, ele era um outro homem. Centenas de pessoas se haviam juntado para ver. Muitos achavam que ele era louco: Qual o sentido de rodopiar?
...Ninguém pode afirmar que é uma oração; ninguém pode dizer que é uma linda dança; ninguém poderia dizer que de alguma forma isso tem a ver com religião, espiritualidade...
Mas depois de 36 horas vendo Rumi tão luminoso, tão radiante, tão renovado, com tanto frescor - renascido, numa nova consciência - eles não acreditavam no que estavam vendo. Centenas de pessoas choravam de arrependimento, pois tinham pensado que ele estava louco. Na verdade, ele estava sadio e eles, loucos.

E ao longo desses doze séculos, o fluxo se tem mantido vivo. São muito poucos os movimentos de crescimento espiritual que se mantiveram vivos continuamente por tanto tempo. Ainda hoje, existem centenas de dervishes. Dervish é a palavra sufi que significa sannyas. Sem experimentar, ninguém poderia acreditar que é capaz de conhecer a si mesmo simplesmente rodopiando. Não é preciso austeridade, não é preciso se torturar, simplesmente uma experiência do seu ser mais íntimo, e você será transportado para um outro plano da existência, além do mortal e do imortal. A escuridão desaparece, e existe apenas a luz eterna.

Suas palavras devem ser muito bem entendidas, pois ele não falou muito - só alguns pequenos poemas. É linda esta sua afirmação: "Mova-se internamente, mas não se mova do jeito que o medo manda."

Não se mova do jeito que o medo mada.
Mova-se do jeito que manda o amor.
Mova-se do jeito que a alegria manda - não por medo, pois todas as chamadas religiões baseiam-se no medo. (...)

A afirmação de Rumi é revolucionária: Não se mova por causa do medo.
Todas as religiões dizem às pessoas: Temei a Deus! (...)

Podemos temer a qualquer um, mas não há por que temer a Deus, pois só podemos nos aproximar de Deus através do amor. Deus não é uma pessoa, mas o batimento cardíaco universal. Se podemos cantar com amor e dançar com amor ... uma atividade banal como rodopiar por amor... A alegria e a celebração são o bastante para alcançar o santuário mais íntimo do ser e da vida.

Todos vocês têm vivido no medo.
Suas relações são determinadas pelo medo. O medo é tão avassalador - como uma nuvem escura cobrindo a sua vida - que você diz coisas que não quer dizer, mas o medo o leva a dizê-las. Um pouquinho de inteligência basta para ver.(...)

Rumi faz um afirmação extraordinária, revolucionária: Mova-se internamente, mas não se mova do jeito que o medo manda. Qual é então o jeito de se mover internamente? Por que não se mover ludicamente? Por que não fazer da sua religião uma atividade lúdica? Por que ser tão sério? Por que não se mover com risos? - simplesmente como criancinhas correndo alegremente atrás das borboletas, sem nenhum motivo.

A cada 24 horas, trade de encontrar alguns momentos livres de medo, o que significa que nesses momentos você não pede nada, não faz nenhum pedido, nenhuma recompensa nem está preocupado com alguma punição; simplesmente desfruta do turbilhão, do voltar-se para dentro.

Na verdade, no início pode parecer um pouco difícil. Ao mover-se um pouco para dentro, você automaticamente se torna alegre, lúdico, entra em estado de oração. Surge em você uma gratidão que nunca experimentou e se abre um espaço que é infinito, o seu céu interior. O seu céu interior não é menos rico que o céu exterior: tem suas próprias estrelas, sua lua própria, seus planetas e sua imensidão, é dotado de um universo tão vasto como o que você pode ver do lado de fora. Você está na confluência de dois universos; um deles do lado de fora, o outro no seu interior. O universo externo é feito de coisas, e o universo interno consiste em consciência, bem-aventurança, alegria.

Mova-se internamente, mas não se mova do jeito que o medo manda, pois o medo não é capaz de mover-se no interior. E por quê? O medo não é capaz de ficar sozinho, e no interior você tem que ficar sozinho. O medo precisa de uma multidão, o medo precisa de companhia, de amigos, até inimigos servem.
Para ficar sozinho, contudo, para ir para o interior, você não pode levar ninguém; precisa ficar cada vez mais sozinho. Não só não pode levar ninguém, como tampouco pode levar coisa alguma. Sua saúde, seu pode, seu prestígio - não poderá levar nada. Nem mesmo suas roupas podem ser levadas para o interior! Você terá de ir nu e sozinho; de modo que o  medo não pode mover-se para o interior, o medo se move para fora.


O medo se move para o dinheiro, o medo se move para o poder, o medo se move para Deus; o medo se move em todas as direções, menos para dentro. Para se mover para dentro, a primeira exigência é a ausência de medo. A pessoa não tem de fazer amizade com a escuridão, a morte ou o medo. Tem de livrar-se deles. Têm apenas de dizer adeus para sempre. É o seu apego; a amizade haverá de torná-lo ainda mais profundo.(...)

O medo precisa ser entendido - não é preciso fazer amizade com ele - e então desaparece.

De que você tem medo? Ao nascer você estava nu. Não trouxe consigo nenhum balanço bancário tampouco, mas não estava com medo. Nós chegamos ao mundo completamente nus, mas entramos como um imperador. Nem mesmo um imperador é capaz de entrar no mundo como uma criança. O mesmo se aplica ao movimento de interiorização; é um segundo nascimento; você se torna novamente uma criança - a mesma inocência e a mesma nudez e a mesma ausência de possessividade. Que motivos teria para sentir medo?

Na vida, não podemos ter medo do nascimento. Aconteceu, nada pode ser feito. Não podemos ter medo da vida - ela já está acontecendo, Não podemos ter medo da morte - seja como for - ela virá. Por que então, o medo?

Costumo ouvir sempre uma pergunta, feita inclusive por pessoas esclarecidas: Você nunca se preocupa com o que acontecerá depois da morte? E sempre fico pensando no fato de que são pessoas esclarecidas. E lhes pergunto: Um belo diz, eu não havia nascido - e não havia nenhuma preocupação. Nunca fiquei pensado, nem por um só momento, que tipo de ansiedade, que tipo de angústia, que tipo de problemas poderia ter de enfrentar quando ainda não havia nascido. Eu simplesmente não existia! E é o mesmo caso; quando morremos, morremos. (...)
O medo do que acontecerá quando morrermos é desnecessário. O que acontecer, acontecerá - e de qualquer maneira, nada poderemos fazer antecipadamente. Não sabemos, de modo que não faz sentido ficar fazendo o dever de casa, preparando-nos para as perguntas que terão de ser respondidas ou as pessoas que serão encontradas, aprendendo seus hábitos, sua linguagem... Não sabemos nada; não há por que nos preocupar. Não perca o seu tempo.[ continua...]
Osho em Encontros com pessoas notáveis.

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