31 de janeiro de 2014

Sobre a ilusão da separação - Krishnamurti


"Vós, homens, como indivíduos, desenvolveis vossos sentidos pela luta social, pela auto-preservação e dais inicio, assim, à consciência de separação. Desde a infância que vos foi incutida a idéia de que sois uma entidade separada; e desta ilusão provem a divisão entre “vosso” e “meu”, no que pensais e no que sentis, no que possuis e em todas as cosias.

Daí surge também a idéia de que vos deveis tornar algo de grande no futuro e a de que fostes já algo no passado. Um contraste contínuo. E desta consciência separada surgem – cobiça, a inveja, o ódio, o sentimento de posse, a preocupação da vaidade, as alegrias passageiras, as tristezas transitórias e os transitórios prazeres. Esta é uma civilização grosseira baseada na competição, na qual cada um trata de si, sem benevolência, sem equanimidade. É um mundo de conflito, de corrupção, de contenda, que a seu tempo conduzirá à guerra.

Em virtude de tal entendimento de separatividade, o “eu” torna-se todo poderoso; dessa consciência de separação nasce o medo. E onde quer que exista o medo, manifesta-se imediatamente o desejo de buscar o conforto, em lugar do entendimento que dissipa todo o temor. Pois o conforto adormece o vosso temor inato de perder vossa identidade separada.

O conforto produz tão somente um ajuste temporário, mas não uma harmonia e equilíbrio permanentes; produz um alivio imediato em vez de um entendimento compreensivo, contínuo; produz o adiamento do esforço, uma evasão contínua em lugar da luta para compreender no presente.

Por causa desse temor, buscais o consolo no culto, na prece, no erguimento de imagens, por intermédio de ritos e cerimônias. Essa ilusão de separação vos leva à preocupação da morte, e do que vai acontecer no futuro, isto é, sobre se tereis de vos reencarnar e sobre o que haveis de ter sido no passado. Por outras palavras, são o passado e o futuro que empolgam o homem que se acha atemorizado; a compreensão do presente, nunca. Enquanto o presente não for compreendido, o futuro jamais vos proporcionará seu verdadeiro significado, pois que o futuro, na realidade, não existe.
Todos esses problemas – o de porque nasci, ou o que acontecerá após a morte, o da sobrevivência da alma, o da reencarnação, o de como posso tornar-me algo mais e de como posso adquirir mais qualidades afim de encontrar a verdade – todas essas coisas nascem da consciência da separação.

Quando é compreendida a idéia de que a verdade, essa realidade viva, existe em todas as coisas e em todos os instantes, em toda a sua integridade, então não mais existirá o pensamento de progresso, ou seja – tornar o
que é ilusório, o “Ser”, em algo permanente. Em todas as fases da vida dá-se importância ao individuo – não a individualidade que, tornada plenamente consciente, dissipa sua própria consciência, para o engrandecimento do “eu”.
Observe a maioria das pessoas, e verificareis que todas pensam que, por tornarem-se maiores, por ampliarem sua consciência, mediante uma série de experiências, pelo fato de retroceder, avançar e reencarnar, se estão aproximando cada vez mais da verdade.

Para mim, essa concepção é inteiramente ilusória, pois a realidade, em sua inteireza, em sua plenitude, em sua riqueza, existe em tudo e, portanto, é eterna. O que é permanente, eterno em tudo, não pode progredir. O que
denominamos progresso somente pode ser aplicado a determinado fato, não à realidade.
Nossa principal preocupação deverá ser, então, a de por qual maneira cada um se poderá tornar apercebido desse eterno, dessa viva realidade que sustenta, nutre e eleva todas as coisas e que se acha em nós mesmos. Enquanto
criardes um mundo exterior e um mundo interior e vos esforçardes por produzir um ajustamento entre ambos, jamais, encontrareis a realidade.

Quando o homem está consciente de si próprio como entidade separada, continuamente busca o exterior para encontrar auxilio, para sua subsistência, para seu bem-estar; e desse modo cria ele desordem em lugar de ordem,
e por causa dessa desordem surgem as superstições, as ilusões, as cerimônias.

Trata-se, portanto, da maneira, do processo mediante o qual cada um pode realizar essa realidade interior que assegura a tranqüilidade da vida, não a estagnação, não a paz que obscurece, que destrói, porém essa tranqüilidade que é a fonte da compreensão viva e eterna.

É somente por meio do esforço individual que a verdade pode ser realizada, não por meio de associações de qualquer espécie que sejam. Não podereis, por via de uma instituição, encontrar a verdade, pois a verdade habita em vós mesmos e as instituições não podem ajudar o indivíduo a encontrar a verdade. Não importam quais sejam elas. Todas tendem a tornarem-se cada vez mais formalistas e a verdade cada vez mais delas se distancia. Precisais buscar a verdade por vós mesmos, como indivíduos; visto que ela mora em vós, não no
exterior. 

Quando o individuo se houver compreendido a si mesmo, viverá num ambiente de perfeita harmonia e não contribuirá para a desordem do mundo." 
J. Krishnamurti em Satsang

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