6 de setembro de 2012

Sobre o Zen...

"Minagawa Shunzaemon, célebre poeta muito apegado à rima e adepto ao zen, ouviu falar num famoso mestre zen, Ikkyu, chefe do templo de Daitoku-ji, situado na região dos campos violetas. Minagawa desejando tornar-se discípulo de Ikkyu foi visitá-lo.

 À entrada do templo, entabularam o diálogo.
Ikkyu perguntou:

- Quem és tu?
- Um budista - respondeu Minagawa
- De onde vens?
- Da vossa província...
- Ah!... E que tem acontecido ali nos últimos dias?
- Os corvos crocitam, os pardais chilream.
- E onde crês estar agora?
- Nos campos violetas.
- Por quê?
- As flores, essas glórias da manhã... As violetas, o crisântemo, o açafrão...
- E quando murcham?
- É Myiagino (campo decantado pela beleza das flores de outono)
- Que acontece nesses campos?
- Ali flui o rio, varrido pelo vento.

Estupefato ao ouvir tais palavras, que tinham o sabor do zen, Ikkyu levou-o para uma saleta e ofereceu-lhe chá. Em seguida compôs, de improviso, os seguintes versos:

"Um prato delicado eu quisera te dar,
Mas ai de mim, o zen nada pode ofertar..."

Respondeu o visitante:

"O espírito que só pode oferecer-me o nada
é o vazio original.
Iguaria delicada entre as mais "

Profundamente comovido, o mestre concluiu:
- Meu filho, aprendeste muito!"

"O centro para o zen budismo não está na razão, tão importante para a nossa cultura ocidental. Mas na consciência. Para nós a consciência é algo mental. Para o zen budismo cada sentido corporal possui a sua consciência: a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato. Um sexto é a razão. 

Tudo se concentra em ativar com a maior atenção possível cada uma destas consciências, a partir das coisas do dia-a-dia. 
Possuir uma atitude zen é discernir cada nuance do verde, perceber cada ruído, sentir cada cheiro, aperceber-se de cada toque. E estar atento às perambulações da razão no seu fluxo interminável.(...)

O que a atitude zen visa, é a completa integração da pessoa com a realidade que vive. 
Deparamo-nos no meio de diferenças, compartimentando nossa vida. 
O zen busca o vazio. Mas esse vazio não é vazio. É o espaço livre no qual 
tudo pode se formar. Por isso não podemos ficar presos a isto e àquilo.

Quando um discípulo perguntou ao mestre: "quem somos"? respondeu apontando simplesmente para o universo: "somos tudo isso". 
Você é a planta, a árvore, a montanha, a estrela, o inteiro universo.

Quando nos concentramos totalmente em tais realidades, nos identificamos com elas. Mas isso só é possível se ficarmos vazios e permitirmos que as coisas nos tomem totalmente. O pequeno eu desaparece para surgir o eu profundo. Então somos um com o Todo. 
Este caminho exige muita disciplina. Não é nada fácil ultrapassar as flutuações de cada uma das consciências e criar um centro unificador.

Há uma base cosmológica para a busca desta unidade originária. Hoje sabemos que todos os seres provém dos elementos físico-químicos que se forjaram no coração das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram. Todos estávamos um dia juntos naquele coração incandescente. 

Guardamos uma memória cósmica desta nossa ancestralidade.
Depois, sabemos também que possuímos o mesmo código genético de base presente em todos os demais seres vivos.(...)
Formamos a única e sagrada comunidade de vida.
Ao buscar um centro unificador, o zen nos convida a fazer esta viagem interior."
Leonardo Boff - entrevista e diálogos sobre o Zen

2 comentários:

  1. Que texto maravilhoso! Estar presente no agora, essa é uma das muitas lições que tenho aprendido no Budismo, este texto tem lições preciosas.

    Abraço

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    1. Momento presente, a preciosidade de entrar em contato com a realidade além da mente, com aquilo que é..
      Obrigada Cris querida por sua luz, doce e bela..
      Beijos :)

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