23 de setembro de 2017

Sannyas e Yoga - Osho


"Aqueles que purificaram a mente graças à prática de sannyas e yoga, bem como aqueles que compreenderam o significado exato da ciência espiritual ensinada no vedanta Upanishad, tornam-se enfim capazes de alcançar brahmalok - o mundo de Brahma.
 Libertando-se de tudo, lutam para obter a imortalidade."
Kayvalia Upanishad

O problema real é como Ser, como o Ser deve ser fortalecido. O conhecimento pode crescer facilmente, tem seus próprios meios para isso. Mas o conhecimento é um crescimento parasita. O conhecimento cresce na memória, que é mecânica. E por isso hoje temos aparelhos que podem ser providos de memória. Temos computadores que são mais eficientes que qualquer cérebro humano. O computador pode fazer tudo o que o cérebro humano faz e muitas coisas que o cérebro humano jamais faria. Cedo ou tarde, a memória humana será substituída por equipamentos mecânicos. Estes conseguem fazer tudo o que a mente faz - e com mais eficiência em menos tempo. (...)

A mente não passa de um equipamento mecânico. Pode crescer; se você a alimentar com conhecimento e informação, ela crescerá. Você talvez não o perceba, mas da mente só sai o que nela foi colocado antes - só. Da mente, não sai nada de original. Portanto, com respeito à mente, não existe originalidade: tudo é repetição. A mente é o mecanismo mais repetitivo que existe. Você precisa alimentá-la, dar-lhe alguma coisa que ela possa reproduzir. Nenhum pensamento nos ocorre que seja verdadeiramente nosso. Todos nos foram dados - pela sociedade, pela educação, pelo estudo. Mas todos nos foram dados. No máximo, fazemos novas combinações, só isso. A mente não consegue fazer mais nada. Isso é o crescimento, crescimento parasita à custa de nosso Ser.

Por "Ser", entendo a consciência com a qual nascemos. E, por "mente", entendo tudo o que foi acumulado em nossa consciência pela sociedade, a educação e a cultura. Você não nasceu com uma mente, nasceu com uma consciência. A mente é um crescimento posterior. Por isso, se a pessoa não for disciplinada e educada, terá uma mente pobre, insignificante. Se nenhuma língua por ensinada, ela não conhecerá nada. A mente é um crescimento social. A consciência é uma parte de você, mas a mente não; a mente lhe foi dada. O objetivo de todo cultivo social, de toda imposição social é produzir em você uma mente.

Por isso a mente cristã é diferente da mente hindu, pois a sociedade hindu dá alguma coisa e a sociedade cristã dá algo mais. A mente muçulmana é totalmente diferente das mentes hindu, cristã ou jainista. Mas a consciência dos hindus, dos muçulmanos ou dos cristãos é a mesma. De fato, uma consciência não pode ser chamada de cristã, hindu ou muçulmana - mas uma mente pode. (...)

A mente é boa enquanto não se torna uma prisão. Pode ocorrer, em determinado instante, que você fique livre de sua mente. Então, ela começa a operar como um equipamento mecânico em você; você pode usá-la, mas não se identifica com ela.

Sem dúvida, precisamos usar a linguagem e a matemática; sem dúvida, precisamos conhecer a história e a geografia e tudo o mais. Mas nada disso se identifica com nossa consciência. Devemos permanecer apenas como testemunha desse conhecimento. Devemos ser separados, diferentes de nossa mente; sem identificação com ela. É isso que a meditação ensina: o modo de não nos identificarmos com a mente, de criarmos um espaço entre nós e ela.

A dificuldade está em  que nunca fazemos separações. Pensamos que mente significa eu; mente e eu se identificam por completo. E, sendo assim, nunca ficamos tranquilos, nunca nos tornamos capazes de penetrar o divino, pois o divino só pode ser penetrado quando o social é esquecido. Quando tudo o que a sociedade nos deu é deixado de lado, penetramos no divino porque só então penetramos na consciência pura. A mente é uma excrescência e deve ser posta de lado.

Por renúncia, entendo o repúdio do social. Nossa mente é apenas um subproduto da sociedade, dependente desta. A mente pode crescer sem parar. Então, crescemos em conhecimento - estudando, aprendendo novas coisas, mais coisas; Assim, a mente continua crescendo.

Ela é capaz de crescer indefinidamente. Por enquanto, os cientistas não podem dizer aonde ela vai chegar. Sabemos apenas que ela se avoluma, que o processo parece sem limites. Seu potencial é tremendo; são 70 milhões de células trabalhando, cada célula capaz de armazenar dezenas de milhões de bits de informação. Isso mesmo, uma única célula da mente, pode armazenar dezenas de milhões de bits de informação e a mente como um todo possui nada menos que setenta milhões de células! Cada célula parece pois, capaz de acumulo infinito de informações.

A mente parece finita à sua maneira. Mas ela não é você! É apenas algo que lhe foi dado. É útil, é funcional; por isso nos identificamos com ela. Precisamos usá-la o tempo todo, sem interrupção. Você não poderia se lembrar de momento algum em que não foi sua mente. Esse é o problema - lembrar-se, criar um espaço, uma lacuna, um momento em que você não foi sua mente. Quando você é você mesmo e a sua mente não passa de um recurso à sua disposição, você é senhor de decidir se vai usá-la ou não.

Em geral, a mente é dona e você tem de obedecer a ela. A mente lhe dá algo para pensar e você pensa. A mente lhe dá um sonho e você é obrigado a sonhá-lo. E assim por diante... Ás vezes, mesmo quando você diz à sua mente: "Pare!", ela não para. Não o escuta; e não o escuta porque você cooperou tanto com ela, repassando-lhe sua energia e identificação, que ela já não se lembra de que o dono é você. Para sua mente, você é um escravo.

Meditar significa criar um espaço para que você se torne o dono de sua própria mente. E ser dono significa não se identificar. Posso ordenar à minha mão que faça qualquer coisa - mover-se ou ficar parada. Por quê? Porque não me identifico com minha mão; de outro modo, quem ordenaria e quem obedeceria? Ordeno a minha mão que se mova - e ela se move. Contudo, se minha mão começar a se mover e eu disser: "Pare!", mas ela não parar, o que vem a ser isso? Apenas uma coisa: minha ordem é impotente porque me identifiquei demais com minha mão. Ela se tornou dona de direito próprio - e continua se movendo. Diz: "Não vou seguir absolutamente sua ordem".
Foi o que aconteceu com a mente. Ela continuou agindo por si mesma. Não se pode lhe dar ordens. Mas não por uma impossibilidade intrínseca - acontece que você nunca lhe ordenou nada e ela não sabe que o dono é você. O dono permaneceu tão calado, tão escondido que o escravo começou a se julgar o senhor.

Se esse crescimento prosseguir, a pessoa ficará cada vez mais encolhida em si mesma e a mente se dilatará a tal ponto que sua consciência enfrentará dificuldades para se impor. Por isso, um aldeão simplório, com uma mente menor, possui às vezes mais consciência. Uma pessoa comum - não muito culta, sem grandes conhecimentos - tem sempre, é claro, menos mente, mais consciência. Não raro, uma pessoa de mente grande se comporta de maneira lamentavelmente tola porque tem consciência pequena.

No entanto, a pessoa de mente desenvolvida pode agir com sabedoria, comportar-se com sabedoria caso, na situação a mente saiba o que fazer e o que não fazer. A pessoa então, se comportará, trabalhará e fará tudo com bastante eficiência. Porém, numa situação nova, desconhecida para a mente, ela agirá de modo estúpido.
Um aldeão - sem cultura, primitivo, com mente pequena - agirá mais conscientemente numa situação nova, porque, para ele as novas situações ocorrem todos os dias, a todo instante. Sem uma mente desenvolvida, ele terá de apelar para a consciência. Por isso o mundo, acumulando mais conhecimento, tornou-se menos sábio. Hoje é difícil produzir um Buda - não porque sejamos mais ignorantes, mas por que sabemos mais. Hoje é difícil produzir um Jesus, não por carência de alguma coisa, mas pelo excesso. O conhecimento aumentou vertiginosamente, e com isso, o ser se empobreceu.

Valorizamos alguém pelo que ele possui - cultura, riqueza, poder - nunca pelo que ele é. Se tenho poder, sou valorizado; se tenho riqueza, sou valorizado; se tenho cultura, sou valorizado - mas ninguém me valoriza pelo que sou. Se perco a riqueza, minha influência desaparece; se perco o conhecimento, minha influência desaparece; se perco o poder, minha influência desaparece - pois não sou valorizado pelo que sou. Sou valorizado pelo que possuo. A posse se tornou mais importante, e saber é uma forma sutil de possuir.

Ser é a pureza de minha existência interior, sem nenhum acréscimo de fora; riqueza, conhecimento, nada - só minha consciência interior em toda a sua pureza. É isso que entendo por crescimento do ser, o qual pode ser alcançado somente por dois métodos: renúncia - sannyas e yoga, ciência do crescimento positivo. Podemos renunciar às identificações, compreendendo que "Eu não sou o corpo, eu não sou a mente." E podemos estender a renúncia a tudo o que seja mente, exceto o "eu sou", atingindo o ponto central ao qual não se pode renunciar.(...)

Podemos provar a existência do amor? Todos sabemos que o amor existe. Mesmo quem não o sentiu profundamente, ao menos sentiu sua ausência. O amor é sentido como presença ou ausência - mas ninguém pode prová-lo. Portanto, se alguém disser: "O amor não existe", você não conseguirá desmenti-lo.
Assim, Descartes continua negando, duvidando. (... ) Descartes propõe então: "Este mundo não existe. É apenas um pensamento, um sonho. Deus também não existe." Desse modo, vai negando tudo. Por fim, chega até ele próprio e começa a indagar se existe ou não. Mas eis que se depara com um fato que não pode ser negado: mesmo que tudo seja negado, mesmo que tudo seja sonho, alguém tem de sonhá-lo. Mesmo que tudo seja duvidoso, alguém tem de duvidar. Portanto, quando Descartes diz: "Não existo", alguém tem de estar negando a própria existência. Até para duvidar é preciso haver quem duvide. Prossegue então o filósofo: " Chego, pois a um fato indubitável, posso duvidar de tudo, mas não posso duvidar de mim mesmo. Se duvidar , a dúvida provará minha existência." E fornece esta fórmula consistente: "Cogito ego sum - Penso ( duvido ) logo existo".

A realidade do "eu sou" deve ser isolada da função cerebral, da mente, do pensamento. Ela é o ser, e para conhecer este ser, temos de eliminar de nós tudo o que possa ser eliminado - como Descartes, que diz: "Só pararei de duvidar quando descobrir algo que não seja duvidoso". Da mesma forma, você deve continuar renunciando a tudo o que for possível, até chegar a algo que não admita renúncia. Você não pode renunciar a seu ser; mas pode renunciar ao resto. Pode renunciar a tudo que não possa chamar de "isto sou eu". a tudo que não possa chamar de "Eu sou isto". Pode pensar: "Não isso não sou eu. Este corpo não sou eu, este pensamento não sou eu. este mundo não sou eu. esta faculdade de pensar não sou eu." Continue negando, mas chegará o momento em que não conseguirá mais negar. Só o que restará é a realidade do "EU SOU". Nem mesmo isso: só o que restará é a "realidade". Essa realidade é o salto existencial.

A primeira parte do sutra é : renúncia, sannyas. Portanto, sannyas é um processo negativo. Precisamos ir eliminado sucessivamente: "Isto não é o eu sou", "Aquilo não é o eu sou." Isso é renúncia, processo negativo, eliminação. Mas é apenas uma parte. Você precisa renunciar a tudo aquilo que não é e depois, desenvolver aquilo que é.
Isso é yoga, a ciência positiva do desenvolvimento. Yoga tem de se desenvolver o que está em você. Como? Como desenvolvê-lo? Já o vimos: pela fé, pela devoção, pela meditação, pelas práticas do corpo e outras. Isso é yoga.

Sannyas mais yoga é igual a religiosidade.
Renuncie àquilo que você não é e desenvolva , crie, aquilo que é. Somente pelos processos positivo e negativo plenamente harmonizados alcançamos o Brahman, o absoluto. "
Osho em Os Upanishads, a essência de seus ensinamentos.


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