16 de dezembro de 2017

Totalidade, abandono e beleza - J.Krishnamurti


"Por certo, para termos aquela beleza interior, deve haver completo “abandono” (de si próprio), o sentimento de completa ausência de prisões, restrições, defesas, resistência; mas, esse “abandono” se torna caótico quando desacompanhado da austeridade. Mas, sabemos o que significa ser austero, satisfazer-se com pouco e não pensar em termos de mais?

O “abandono” deve estar acompanhado de profunda austeridade — da austeridade que é extraordinariamente simples, porque a mente que está adquirindo, ganhando, não está pensando em termos de mais. É a simplicidade nascida do “abandono”, mais a austeridade, que produz o estado de beleza criadora. Mas, se não existe amor, vocês não podem ser simples, não podem ser “austero”. Podem falar a respeito de simplicidade e austeridade, mas, sem amor, elas são meramente uma forma de compulsão e, por conseguinte, não pode haver “abandono”. Só tem amor aquele que “se abandona”, que se esquece completamente de si próprio e, dessa forma, faz nascer o estado de beleza criadora.

A beleza, é bem óbvio, inclui também a beleza da forma; mas, se não há beleza interior, a mera apreciação sensorial da beleza da forma conduz à degradação, à desintegração. Só há beleza interior ao sentirem verdadeiro amor pelas pessoas e por todas as coisas da Terra; e, com esse amor, vem um extraordinário sentimento de consideração, de vigilância, de paciência. Vocês podem ter uma técnica perfeita, como cantor ou poeta, podem saber pintar ou concatenar palavras, mas, sem essa palavra criadora, interior, o talento de vocês será muito pouco significativo.

Infelizmente, quase todos estamos nos tornando meros técnicos. Passamos em exames, adquirimos tal ou tal técnica, a fim de ganharmos o nosso sustento; mas, o adquirir técnica ou desenvolver capacidades, sem dar atenção ao estado interior, é produtivo de fealdade e de caos no mundo. Se despertamos a beleza criadora, interiormente, ela se expressa exteriormente, e há, então, ordem. Mas isso é muito mais difícil do que inquirir uma técnica, porque significa completo “abandono de nós mesmos”, significa sermos sem medo, livres de constrangimento, sem resistência, sem defesa; e só podemos abandonar a nós mesmos dessa maneira, quando há austeridade, quando há o sentimento de grande simplicidade interior. Exteriormente podemos ser simples, usar poucas roupas e nos satisfazer com uma só refeição ao dia; mas, isso não é austeridade. Há austeridade quando a mente é capaz de infinita experiência: quando tem experiência e ao mesmo tempo se conserva muito simples. Mas só pode nascer esse estado quando a mente já não está pensando em termos de mais, em termos de adquirir ou “vir a ser” algo por meio do tempo.

O que estou dizendo poderá ser, para vocês, difícil de compreender, mas é verdadeiramente importante. Vejam, os técnicos não são criadores. E há cada vez mais técnicos no mundo, pessoas que sabem o que fazer e como fazê-lo, mas que não são criadoras. Na América, há máquinas calculadoras capazes de resolver em poucos minutos problemas matemáticos que um homem, trabalhando dez horas por dia, levaria cem anos para resolver. Tão extraordinárias máquinas estão sendo criadas! Mas, as máquinas jamais serão criadoras; no entanto, os entes humanos estão se tornando cada vez mais semelhantes a máquinas. Mesmo quando se rebelam, sua revolta se verifica dentro dos limites da máquina e não é, por conseguinte, revolução.

Muito importa, pois, descobrir o que é ser criador. Você só pode ser criador quando há “abandono”; isso significa, em verdade: quando não há sentimento de compulsão, medo de “não ser”, não ganhar, não alcançar. Há, então, grande austeridade, simplicidade e, ao mesmo temo, amor. Essa totalidade é beleza, estado criador. "

J. Krishnamurti em A cultura e o problema humano

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