6 de setembro de 2011

Buda e a idéia do não-eu...


"A questão é bem significativa. É uma das contribuições mais importantes de Buda à consciência humana - a idéia do não-eu.
Ela é muito complexa. Você terá que ficar bem silencioso e alerta para compreendê-la.

Primeiro, algumas analogias para que você possa fazer uma ideia do que significa não-eu. O seu corpo é definido pela pele; ela define onde você acaba e começa o mundo. Trata-se de uma demarcação à sua volta. Ela te protege do mundo, separa você do mundo, e só lhe proporciona certas aberturas pelas quais você pode entrar no mundo, ou deixar que o mundo entre em você. Sem a pele você perderia as fronteiras com tudo o que o cerca; Mas você não é a sua pele; E a pele muda o tempo todo; (...) Trata-se de uma mudança sutil, mas acontece o tempo todo. O corpo que muda todo o tempo, trata-se de um continuum.(...) Ou seja, num sentido você ainda é o mesmo, pois é a mesma continuidade; num outro sentido, você não é mais o mesmo, pois nunca parou de mudar.

Desse mesmo modo, assim como acontece com a pele, está o ego. A pele mantém o seu corpo num determinado padrão, numa definição, num limite; O ego mantém o conteúdo da sua mente dentro de certos limites; O ego é a pele interior, de modo que você saiba quem você é; do contrário você ficaria perdido - não saberia quem você é; quem sou eu e quem o outro é.

A ideia de eu, de ego, dá a você uma definição, uma definição sutil; Ela separa você dos outros de um modo muito claro. Mas essa também é uma pele, uma pele muito sutil, que abriga todo o conteúdo da sua mente -a sua memória, seu passado, desejos, raiva, tristeza, a sua felicidade -ela conserva tudo isso num mesmo saco. Mas você também não é o ego. Porque ele também vai mudando com o tempo e muda ainda mais do que a pele do corpo; A todo momento, há uma mudança.
Buda usa a analogia da chama; Uma lamparina é acesa; você vê a chama, mas ela está continuamente mudando, nunca é a mesma. Mas pela manhã quando você apaga a chama, não é a mesma chama que você acendeu. Ela continuou mudando a noite inteira. (...) O movimento é tão rápido que você não percebe, não consegue ver a lacuna entre uma chama e a chama seguinte. Por isso num certo sentido, trata-se da mesma chama, pois trata-se da continuidade da mesma chama. Essa continuidade surgiu da mesma chama.(...)

Buda diz que o ego é uma continuidade, não é uma substância; é uma continuidade assim como uma chama, como um rio, como o corpo.(...)
Buda diz que quando a pessoa morre, todos os desejos que ela acumulou durante a vida, todas as lembranças que ela acumulou durante a vida, todos os karmas da vida dela saltam como ondas energéticas para um novo ventre. Trata-se de um salto. A palavra exata na física quântica, eles o chamam de salto quântico - um salto de pura energia, sem nenhuma substância. (...)

Quando uma pessoa morre, o corpo desaparece, a parte material desaparece, mas a parte imaterial, a parte mental é uma vibração. Essa vibração é irradiada, é transmitida. Ora, assim que o ventre certo está pronto para essa vibração, ela faz dele seu abrigo.
Não existe nenhum eu chegando, não há ninguém chegando, não existe nenhum ego chegando. Trata-se apenas de uma investida de energia. A ênfase é que se trata mais uma vez do saco de ego saltando. Uma casa tornou-se inabitável, uma nova casa é necessária. O antigo desejo, a ânsia pela vida , está vivo, ardendo; É esse mesmo desejo que dá o salto.

Ouça o que os físicos modernos. Eles dizem que não existe matéria, ela é somente pura energia movendo-se com tamanha velocidade que o próprio movimento cria a irrealidade, a ilusão, a aparência da substância.(...) Tudo que o cerca é energia pura, vibrando a uma velocidade tão elevada que aparentemente está sólida, está imóvel, mas em realidade não existe nenhuma substância, só existe energia pura, energia imaterial.(...)

Assim como a ciência moderna tirou a ideia de substância da sua física, Buda também tirou a ideia de eu da sua metafísica. É difícil acreditar que uma parede não tenha substância, assim como é difícil acreditar que não existe nenhum eu em você. (...)

Buda diz que não existe o caminhante, só o caminhar. A vida não consiste em coisas; Buda diz que a vida consiste em acontecimentos; E é exatamente isto que a ciência moderna também afirma hoje; só existem processos, não coisas, só acontecimentos; Não está certo nem mesmo dizer que a vida existe. Só existem milhares e milhares de processos de vida; A vida é só uma ideia; Não existe nada que se possa chamar de vida. (...)

A dualidade é criada pelo idioma. Você está caminhando, Buda diz que só existe o caminhar; Você está pensando, Buda diz que só existe o pensar, não existe o pensador; O pensador é somente uma criação do idioma; Porque falamos um idioma que se baseia na dualidade; ele divide tudo em dois. Enquanto você está pensando, existe um acumulo que pensamentos, tudo bem - mas não existe nenhum pensador; Se você quer realmente entender isso, terá que meditar profundamente e chegar ao ponto em que o pensar desaparece; No momento em que o pensar desaparece, você ficará surpreso: o pensador também se foi; Com o pensar, o pensador também desaparece. Ele é só a aparência de pensamentos se sucedendo.
A vida é um processo contínuo - não só um processo, mas milhões de processos, uma continuidade."
Osho em O Livro do Viver e do Morrer.

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