12 de agosto de 2010

O Amor...



"Quando o Amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados,
Quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos,
E quando ele falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos,
Como o vento devasta o jardim.
Pois da mesma forma que o Amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica,
E da mesma forma que contribui para o vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura,
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.

Como feixe de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração,
E vos debulha para expor sua nudez,
E vos peneira para libertar-vos das palhas,
Ele vos mói até a extrema brancura,
E vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.

Todas essas coisas, o Amor operará em vós,
Para que conheçais os segredos dos vossos corações,
E com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia se no vosso temor,
Procurares somente a paz do Amor e o gozo do Amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez,
E abandonásseis a eira do Amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis mais não todos os vossos risos,
E chorareis mas não todas as vossas lágrimas.

O Amor nada dá além de si próprio,
E nada recebe senão de si próprio,
O Amor não possui nem se deixa possuir,
Porque o Amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama que não diga:
"Deus está no meu coração".
Mas que diga:
"Eu estou no coração de Deus".

E não imagineis que possais dirigir o curso do Amor,
Pois o Amor se vos achar dignos
Determinará ele próprio o vosso curso.
O Amor não tem outro desejo se não o de atingir a sua plenitude,
Se contudo amares e precisares ter desejos,
Sejam esses os vossos desejos:
De vos diluíres no Amor e serem como um riacho
Que canta sua melodia para a noite,
De conheceres a dor de sentir ternura demasiada,
De ficares feridos por vossa própria compreensão do Amor,
E de sangrares de boa vontade e com alegria,
De acordares na aurora com o coração alado,
E agradeceres por um novo dia de Amor,
E descansares ao meio dia
E meditares sobre o êxtase do amor,
De voltares para a casa a noite com gratidão,
E de adormeceres com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança."
O Amor por Kalil Gibran

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