30 de março de 2010

Deserto desertos...

" Quem volta do deserto tem um olhar para sempre "insatisfeito"
Com as aparências
Incapaz de idolatria
Pois idólatra é quem se satisfaz
Com o que vê,
Com aquilo que compreende
Com aquilo que é.
O deserto lhe ensinou
Que ele não é
Não-ser é o começo
E o fim do meu ser.
A idolatria
É esconder-se o não-ser
Da sua origem e do seu fim
Só Deus
Não existe...
Chega-se ao deserto
No dia
Em que se descobre
Que sempre se esteve ali.
O que escondia o deserto?
Um certo conforto,
Um certo esquecimento
Mas lá estava ele
Fiel, tenaz
Havia apenas ilusões
A perder
Algumas honrarias.
Descobre-se a si mesmo
No dia em que se descobre
Como tendo sido sempre
Descoberto...
O rei sempre estava nu
Debaixo das armaduras..."
...
"O Corão foi escrito para se cantar,
A Thorá foi escrita para se perscrutar
E o Evangelho para se encarnar...
A força do canto
Ao segredo das letras
Prefiro a beleza do Rosto
Pois se o deserto
É o lugar da espera
É a espera
De um rosto e de um encontro
Que dará o sentido ao deserto...
E o Buddha?
Ele é o próprio deserto
Na sua vacuidade sorridente.
Ele é a sua aurora
É deserto
Ele não é o sentido do deserto
É uma espera
Que não aguarda
Mas uma espera não fechada
Àquilo que vem..."
...
"Sem a página em branco
Onde ficarão as palavras?
Não é no deserto
Que o homem inventou a Deus?
Na ausência das coisas
Ou no seu silêncio
Descobre-se a Presença que
Para sempre as contém:
Evidente, mortal e viva vacuidade...
No deserto não há nada para ver
E é isso que é preciso ver
Ao menos uma vez na vida
Ver nada
Com os olhos bem abertos.
E a morte então não terá mais nada
Para nos ensinar..."
...
"Os verdadeiros sábios
O que têm mais que nós?
Mais deserto.
Ou seja, menos...
Menos barulho
Menos mental
Menos cuidados
Menos ilusões
Menos...
Os verdadeiros sábios
São desertos...
Projetamos sobre eles
Nossas miragens mais belas
E ao chegarmos perto deles
Eles nos deixam a sós
Face-a-face com nós mesmos
Cabe a cada um de nós
Cavar o seu próprio poço.
Descobrirá então
Que a sabedoria
É o deserto
"menos" a sede.
A sombra ou o oásis
Onde nada impede a luz..."
Jean-Yves Leloup em Deserto Desertos.

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