27 de abril de 2010

Lago profundo...

"O lago era muito profundo, com altos rochedos de ambos os lados. Você podia ver a outra margem, com muitas árvores e suas folhas novas da primavera; e aquele lado do lago era mais íngreme, talvez com uma folhagem mais densa e bastante arborizado. A água estava plácida naquela manhã e sua cor azul-esverdeada. É um lindo lago. Havia cisnes, patos e, às vezes, passava um barco de passageiros.

Sentado no banco, em um parque muito bem cuidado, você estava muito perto da água. Não era nem um pouco poluída, e a sua textura e beleza pareciam entrar em você. Podia-se cheirá-la – o ar suavemente perfumado, o gramado verde – e você se sentia um com tudo isso, movendo-se com a vagarosa corrente, os reflexos, e a profunda quietude da água.

Estranho era sentir um grande senso de afeição, não por alguma coisa ou por alguém, mas a totalidade do que talvez possa ser chamado de amor. A única coisa que importa é mergulhar em toda sua profundeza, não com a mente pequena e tola com seus infindáveis murmúrios do pensamento, mas com o silêncio. O silêncio é o único meio, ou instrumento que pode penetrar em algo que escapa à mente que é tão contaminada.
Nós não sabemos o que é o amor. Conhecemos seus sintomas, o prazer, a dor, o medo, a ansiedade, etc. Tentamos resolver os sintomas, o que se torna um voo cego. Passamos nossos dias e noites nisso, e logo vem a morte.
Ali, sentado naquele banco, observando a beleza da água, todos os problemas humanos, as instituições, as relações humanas, o que é a sociedade – tudo encontra seu lugar apropriado quando silenciosamente você puder penetrar nessa coisa chamada amor.
Temos conversado muito sobre o amor. Todo jovem diz amar alguma mulher, o padre diz amar seu Deus, a mãe seus filhos e, naturalmente, os políticos jogam com isso. Nós realmente estragamos essa palavra e a carregamos com coisas sem significado – as coisas do nosso pequeno e estreito ego. E nesse contexto pequeno e estreito tentamos encontrá-lo, e dolorosamente voltamos à confusão e infelicidade diária.
Mas lá estava o amor, na água, envolvendo você, na folha, no pato que estava tentando engolir um grande pedaço de pão, na mulher que passava mancando. Não era uma identificação romântica, ou uma verbalização habilmente racionalizada. Mas ele estava lá, tão real como aquele carro ou aquele barco.
É a única coisa que dará uma resposta a todos os nossos problemas. Não, não uma resposta, pois então não haveria problemas. Temos problemas de todo tipo e tentamos resolvê-los sem aquele amor, e assim, eles se multiplicam e crescem. Não existe um meio de abordá-lo, ou de segurá-lo, mas às vezes, se você fica na beira da estrada ou na beira do lago, observando uma flor ou uma árvore, ou o fazendeiro cultivando o solo, e se você está em silêncio, não sonhando, nem sonhando acordado, ou enfastiado, mas com o silêncio em sua intensidade, então, talvez, o amor virá a você.

Quando ele vem, não o segure, não o guarde como uma experiência. Uma vez que ele toca você, você nunca mais será o mesmo. Deixe isso operar, e não sua avidez, sua raiva ou sua justa indignação social. Ele é realmente indomável, não domesticável, e sua beleza não é respeitável de modo algum.
Mas nós nunca queremos isso, pois temos a sensação de que poderia ser muito perigoso. Nós somos animais domesticados, revolvendo-nos na gaiola que construímos para nós mesmos – com as discórdias, as disputas, os líderes políticos inviáveis, os gurus que exploram nossos auto-enganos, e os deles próprios, com grande refinamento ou grosseiramente. Na gaiola pode-se ter anarquia ou ordem, que por sua vez dá lugar à desordem; e isso tem sido assim por muitos séculos – explodindo e voltando atrás, modificando os padrões da estrutura social, talvez acabando com a pobreza aqui ou ali. Mas se você coloca tudo isso como a coisa mais essencial, você deixa escapar o amor.

Fique sozinho de vez em quando, e se você tiver sorte, ele poderá vir a você, em uma folha que cai, ou daquela árvore solitária e distante em um campo vazio. "
J.Krishnamurti em Meeting Life

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