5 de fevereiro de 2011

O Tempo...



"Há duas formas de marcar o tempo.
Uma delas foi inventada por homens que amam a precisão dos números- matemáticos, astrônomos, cientistas e técnicos.
Para marcar o tempo de forma precisa, eles fabricaram ampulhetas, relógios, cronômetros, calendários.
Nesses artefatos técnicos, todos os pedaços do tempo - segundos, minutos, dias, anos - são feitos de uma mesma substância: números, entidades matemáticas.

Não há inícios, nem fins, apenas a indiferente sucessão de momentos, que nada dizem sobre alegrias e sofrimentos.
Apenas um bolso vazio. Nele a alma não encontra morada.(...)

A outra foi inventada por homens que sabem que a vida não pode ser medida com calendários e relógios. A vida só pode ser marcada com vida; Os amantes do Cântico dos Cânticos marcavam o tempo do amor pelos frutos maduros que pendiam das árvores; Quando as folhas dos plátanos ficam amarelas sabemos que o outono chegou. Os ipês-rosas e amarelos anunciam o inverno.

Qual a magia que informa os ipês, todos eles, em lugares muito diferentes, que é hora de perder as folhas e florescer? E sem misturar as cores. Primeiro os rosas, depois os amarelos e, finalmente os brancos.(...)
Seria bom se nós como os ipês, nos abríssemos para o amor no inverno.
A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro. O tempo do amor se marca com o corpo.

Um calendário é coisa precisa, esses números medem o tempo. Mas os pedaços de tempo são bolsos vazios: nada há dentro deles. O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo quando o enchemos com vida.(...)

Heráclito foi um filósofo grego fascinado pelo tempo. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio já não existirá mais. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo...Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Dizia ele: "Tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado".

Para nós tempo é um velho, cada vez mais velho. Para Heráclito ao contrário, tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novos começos.

Tempo é criança? Eu não sei. Mas sei que as crianças odeiam Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos. O relógio é o tempo de dever: corpo engaiolado."
Rubem Alves em Do Universo à jabuticaba

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