7 de janeiro de 2010

Sobre o Medo..


Certa vez, tive na França um encontro que foi simplesmente mágico.

Estava em um congresso em Paris, e no jantar aconteçeu de que fui sentar na mesma mesa de ninguém menos que o famoso médico frances Dr. Frederic Leboyer. Uma honra para mim que sempre ouvi sobre seu trabalho sobre o parto sem dor e sobre a massagem em bebês, a Shantala. Pois bem, estava eu lá, frente a frente com um senhor simples de cabeça branca, numa atmosfera de muita tranquilidade. Começamos a conversar e o papo foi longe... muita emoção e uma sintonia incrível que sinto nos tocou profundamente.

Sempre fui fascinada pela Índia, todos que me conhecem sabem disso, suas tradições, sua cultura, o berço da espiritualidade no mundo, enfim, e ele havia ido a Ìndia e convivido um bom tempo com aquelas pessoas, e bebido daquela sabedoria.
Dr. Leboyer, com toda sua simpatia, me contou das suas experiências lá e sobre o seu encontro com a joven Shantala, que fazia massagem em seu bebê na porta de casa, e de toda tradição ligada a gestação, parto natural e cuidados com o bebê que se tem na Índia, naquela época 1995, ainda bem distante do que tinhamos no ocidente. Hoje muita coisa mudou e ele teve uma grande influência nessa humanização do nascer e do cuidados neo-natais..

Uma delicia nosso encontro, para mim uma noite marcante, mas uma frase dele me chamou muita atenção. Houve um momento, que ele olhou bem dentro dos meus olhos e disse: Lilian, preste bem atenção, o medo e a criança nascem juntos...quando faço o parto de uma criança faço o parto do medo dela também...o medo convive conosco por toda a vida, só nos abandona na morte...
Nem precisa dizer que essa frase ficou na minha cabeça para sempre...
Muitas vezes questionei essa frase, refleti sobre isso, enfim, mas ainda hoje não cheguei a nenhuma conclusão definitiva rsrsrs.

O que é ao medo afinal? Uns dizem que se trata da emoção primária, a mais basal que possuimos. Que todos os animais que possuem a glândula supra-renal sentem medo, por causa da adrenalina, do cortisol enfim...hormônios do medo... lutar ou fugir...tudo isso que se aprende por aí. Todos nós sabemos o que significa sentir medo. Seja o medo agudo seja o crônico, seja o chamado medo "benéfico" do bom stress ( eu tenho lá minhas dúvidas quanto a isso...mas) pois tudo isso ainda é : Medo.

Medo é contração. Contração envolve um acúmulo de energia vital dentro de nosso biossistema. Esse acúmulo sendo abrupto, irá se romper facilmente, seja na luta, seja na fuga da origem do medo. Nesse caso, estamos TOTALMENTE identificados com o sentir medo. Aqui o ego se considera como sendo o próprio medo.
Reações fisiológicas, mentais, hormonais, nos mostram que todo o organismo está preso no medo. A mente dispara em fluxos intensos de pensamentos, tudo aconteçe em segundos, que parecem horas...adrenalina pura, como diriamos....
Mas aí eu pergunto, Quem sente medo? A mente, que reflete no corpo, que gera a luta ou a fuga, ou ação mais apropriada para o momento... daí..vemos que tudo começa mais uma vez na mente...

Nossa mente acumula memórias, que vão com o tempo aumentando e se tornado nossa própria estória...as emoções correspondentes também são guardadas, isso "contamina" com experiências passadas o momento presente. Deixamos de entrar em contato com o momento presente de forma "limpa", pelo fato de possuirmos muitas memórias, já estamos projetando no presente uma carga de passado, momento a momento, tudo isso sem percebermos...de forma automática.

Dizer que o medo e a criança nascem juntos e morrem juntos, é uma forma de dizer que cada individuo fatalmente irá construir suas memórias, e elas serão projetadas no seu presente, que irão acompanhá-lo por toda a vida. Enquanto houver mente, existirá memórias, existirá o medo... Uma vez ouvi uma frase em um filme que dizia mais ou menos assim: Por pior que seja a situação real o seu medo pode ser sempre maior...
Como sair disso? Boa pergunta!!

Descobrindo dimensões internas mais elevadas que a mente...percebendo as projeções que fazemos no momento presente, buscando estar realmente presente, entrando em contato com a situação que se apresenta de forma o mais simples e clara possível...

Isso nos leva a uma clareza mental muito maior, a uma capacidade de escolhas mais lúcidas e menos emotivas, e a uma descarga do stress mais rápida...ou seja, não estamos TOTALMENTE identificados com a situação do stress, do medo, estamos periféricos a ela, menos projeções, daí podemos agir de uma maneira mais eficaz e menos desgastante seja fisico, seja emocionalmente...
O medo existe atrelado a mente, mas Eu não preciso me identificar com ele...
Reflitam sobre isso.
Amor
Lilian


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