27 de março de 2013

Buscar é perder...


Buscar é mesmo perder...
Toda busca cria o desejo de ser algo, de se possuir algo, de alcançar... 
Nessa busca aquilo que É, aqui e agora é perdido.
Perceba como as diferenças entre nós emergem daí. Emergem dos diferentes desejos, das diferentes buscas. 

As ondas quando são lançadas em direção a praia percorrem caminhos diferentes, estão trilhando caminhos distintos, estão sujeitas ao vento, as correntes, mas todas são lançadas em direção a praia; todas são expressões da existência daquele instante, a união da força do mar, dos ventos, das correntes, do fundo do mar, tudo isso cria uma trajetória da onda. Onda que apenas segue em direção a praia. Ela crê que é única, que sua trajetória é a melhor, a mais perfeita, a mais bela, mas ela mesma nada mais é que o resultado de todas as ocorrências daquele instante. Ela é apenas a aparência de todas as ocorrências na aparência de onda do mar. Ela continua sendo o oceano se apresentando enquanto onda...

Nós da mesma maneira, somos expressões da Totalidade, expressões do Absoluto.
A busca por alguma Verdade só nos faz perdê-la. 
A Verdade é o Aqui e Agora, são todas essas expressões naturais acontecendo nas formas mais diversas, nas sensações, nas emoções, nos pensamentos.
Buscar a Verdade é criar algo imaginário, criar um sonho e nesse sonho, cria-se a ilusão de ótica da divisão. Nos sentimos separados uns dos outros pelos sonhos e desejos que acontecem em cada um de nós.

Quando reconhecemos isso, percebemos a mente atuado sutilmente através de algo tão simples quanto um sonho ou um desejo, uma busca. Sutilmente estão presentes os elementos que nos fazem percorrer caminhos  tão diferentes, a praticar rituais, a fazer sacrifícios a nos perdermos em tantas e tantas buscas sem fim.

Sem busca, sem sonho, desejos, a mente não pode existir. Ela se alimenta do desafio, do vir a ser. A mente não tem como se agarrar aquilo que É aqui e agora. Como se buscar aquilo que já É aqui e agora? Como fazer do momento presente algo desejável, se ele é absolutamente presente, disponível, vivo, e extremamente imprevisível?
Nessa consciência, a mente desaba. Ela não tem como se sustentar, simplesmente porque perde todo o seu poder imaginativo, criativo e sonhador.

Quando conversamos com buscadores, o que vemos são diferenças; o que vemos é esse jogo de desejos, desafios, alcançar, se esforçar, não conseguir, novas buscas, novos desafios.. enfim..
Mas importante é vermos o que está na origem de tudo isso. O que torna cada buscador um eterno insatisfeito. O que torna cada um auto-sabotador de si mesmo.
O que está na origem é a mente desejosa, a mente agarrada ao vir a ser...lá! Esta mente ainda não é capaz de retornar para si mesma, mergulhar em si mesma, investigar-se amorosamente. Esta mente quando mergulha na meditação é capaz de ver, literalmente ver que  não existe nada a ser buscado, nada a ser alcançado, nada fora, nada que possamos fazer, nada que esteja por vir. Esta mente meditativa e auto observadora é a mente Búdica, luminosa e pura, que se deleita com o instante presente, pois vê nele a suprema beleza e perfeição nos mínimos detalhes de cada batida do nosso coração.

Certa vez me perguntaram porque havia tanto mal, tanta dor no mundo. E naquele momento mais do que a pergunta, o que senti foi a dificuldade de quem me perguntava em perceber justamente a luz, a beleza, o amor que acontecem junto com aquilo que ela chamava de "mal". 
Seu foco estava voltado para os fatos que geram dor e sofrimento, e não viam que ao mesmo tempo, tanto bem, tanta luz igualmente se propaga.

A vida é Totalidade. E é Totalidade sempre! 
Isso é que temos que tomar consciência. Dia e noite estão acontecendo neste exato momento no planeta, lembre-se sempre disso. Enquanto é dia no Ocidente é noite no Oriente e vice-versa. Isso nos ensina que luz e sombra são igualmente importantes. Onde está uma a outra também já está só que oculta. Mas o sol continua brilhando seja dia, seja noite...

O Tao é sempre completo. A Totalidade é completa. 
Se nossa mente foca em um aspecto e o valoriza, não quer dizer que o outro deixou de existir, não. Os dois aspectos luz e sombra, continuam sempre, são inseparáveis.
Daí que muitos fatos são tidos como "negativos", e assim como os fatos "positivos", ambos não tem explicação. Simplesmente acontecem, porque tem que acontecer, estão dentro da existência, são formas de sua expressão, são elos da corrente cósmica infinita, a divina dança do Senhor Shiva.

A mente auto-realizada é na verdade a não-mente. Pois a mente em si, é insatisfação, é desejo, é sonho, é busca eterna. 
A auto-realização é o fim da busca. É o fim dos diálogos da mente. É segundo os mestres inclusive o fim da espiritualidade. Toda espiritualidade nos aponta para a busca. A auto-realização é esse fim também. Nada mais a busca, nada mais a ser alcançado, simplesmente porque nada foi perdido. Se não houve perda, porque então a busca? Auto-realização também não é "encontro", já que nada sequer foi afastado de nada...

A dimensão da consciência é a dimensão da satisfação plena em Si.
Todos são o Ser. Tudo é o Ser. 
Não existe mais qualquer estranheza, desconfiança, diferença. 
Formas e aparências são simplesmente compreendidas, aceitas, admiradas, amadas e reconhecidas como próprias. Tudo perfeito do jeito que é, como é, e assim como é.

Auto-realização é Ser aquilo que se É. Viver a vida que se apresenta, com o coração aberto, disponível, confiante e repleto de gratidão por tudo o que acontece, ou não acontece.
Buscar é perder....
Amor
Amidha Prem

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