1 de agosto de 2011

A Imaginação - Nisargadatta




"Quando você não exigir nada do mundo, nem de Deus, quando você não quiser nada, não buscar por nada, e não esperar nada, então o Estado Supremo virá até você sem ser convidado, e inesperado.

Um sábio comanda uma forma de percepção espontânea, não sensorial, a qual o faz conhecer as coisas diretamente, sem a intermediação dos sentidos. Ele está além do perceptual e do conceitual, além das categorias de tempo e espaço, nomes e formas. Ele não é nem o percebido nem o percebedor, mas o fator simples e universal que torna a percepção possível.

Atualmente, seu Ser está misturado com o experimentar. Tudo o que você precisa é separar o Ser da mistura das experiências. Uma vez que você tenha conhecido o puro Ser, sem ser isto ou aquilo, você vai discerni-lo entre as experiências; e não será mais enganado por nomes e formas. Auto-limitação é a própria essência da personalidade.

O buscador é aquele que está em busca de si mesmo. Logo ele descobre que seu próprio corpo ele não pode ser. Uma vez que a convicção 'Eu não sou meu corpo' se torne tão enraizada que ele não possa mais sentir, pensar ou agir para, e em benefício do corpo, ele descobrirá facilmente que ele é o ser universal, sabendo, agindo; que nele, e através dele, todo o universo é real, consciente e vivo. Este é o cerne do problema. Ou você é corpo-consciência e um escravo das circunstâncias, ou você é a consciência universal em si mesma - e no controle de cada evento. Mesmo assim, consciência, individual ou universal, não é o meu verdadeiro lar; eu não estou nela, ela não está em mim, não há um 'eu' nele. Eu estou além, apesar de não ser fácil de explicar como alguém pode ser nem consciente nem inconsciente, mas apenas além. Eu não posso dizer que eu estou em Deus ou que eu sou Deus; Deus é a luz universal e amor. A testemunha universal; eu estou até mesmo além do universal.

No sono profundo, você não é uma pessoa auto-consciente, mas, mesmo assim, está vivo. Quando você está vivo e consciente, mas não mais auto-consciente, você não é mais uma pessoa. Durante as horas de vigília você está, como se fosse em um palco, atuando em uma peça. Mas o que você é quando a peça termina? Você é o que você é; o que você era antes da peça começar você continua sendo quando ela acaba. Olhe para si mesmo como atuando no palco da vida. A performance pode ser esplêndida ou sofrível, mas você não está nela, você simplesmente a observa; com interesse e simpatia, claro, mas mantendo em mente o tempo todo que você está apenas observando enquanto a peça - a vida - está acontecendo.

A ignorância é como uma febre - faz você ver coisas que não estão ali. O Karma é o tratamento prescrito pela divindade. Dê a ele as boas vindas e siga suas instruções fielmente, que você logo ficará bom. Um paciente deixará o hospital depois de se recuperar. Insistir em liberdade de escolha ou ação imediatas apenas retardará a recuperação. Aceite seu destino e cumpra-o, este é o melhor caminho para se libertar do destino.
Aceitação não significa não-agir, omitir-se. Pelo contrario; somente com a aceitação poderemos escolher como agir construtivamente. Se negarmos o que quer que seja, tal qual uma pessoa que nega estar doente, porque ela tomaria o remédio? A aceitação da situação é condição necessária para o agir corretamente.

Volte ao estado de puro Ser, onde o 'Eu Sou' ainda é puro, antes de ser contaminado pelo 'Eu sou isso' ou 'Eu sou aquilo'. Seu fardo são as falsas auto-identificações - abandone todas elas.

É suficiente que você não se imagine como sendo seu corpo. É a idéia 'Eu sou esse corpo' que é tão calamitosa. Ela o cega completamente para a sua natureza real. Nem sequer por um momento pense que você é seu corpo. Não dê a si mesmo nenhum nome, nenhuma forma. A realidade é encontrada na escuridão e no silêncio.

Você não precisa parar de pensar. Apenas deixe de estar interessado. É o desinteresse que liberta. Não se apegue, isso é tudo.

O que no seu caso ocupa todo o campo da consciência, é apenas uma fagulha no meu. O mundo dura apenas um momento. É a sua memória que lhe faz pensar que o mundo continua. Eu não vivo pela memória. Eu vejo o mundo como ele é, uma aparição momentânea na consciência.

Existência e não-existência dizem respeito a espaço e tempo, aqui e agora, lá e então, os quais, novamente, estão na mente.

Onde está a necessidade de mudar alguma coisa? A mente está mudando o tempo todo, de qualquer maneira. Olhe para sua mente desapaixonadamente; isso é o suficiente para acalmá-la. Quando ela estiver silenciosa, você pode ir além dela. Não a mantenha ocupada o tempo todo. Faça parar, e apenas seja. Se você lhe der descanso, ela vai se estabilizar e recobrará sua pureza e força. O pensamento constante a faz decair.

O valor definitivo do corpo é que ele serve para descobrir o corpo cósmico, o qual é o universo na sua totalidade. Na medida em que você se descobre se manifestando, você continua a descobrir que é sempre mais do que tinha imaginado.

Dor e prazer sempre andam juntos. Liberdade de um significa liberdade de ambos. Se você não se importa com o prazer, não terá medo da dor. Mas há a felicidade, a qual não é nenhum dos dois, a qual está completamente além.

No momento, você é dirigido pelo princípio do prazer-dor, que é o princípio do ego. Você está acompanhando o ego; e não lutando contra ele. Você nem sequer está consciente do quão totalmente está envolvido nas suas considerações pessoais. Um homem deveria estar sempre revoltado contra si mesmo, porque o ego, como um espelho rachado, estreita e distorce. É o pior de todos os tiranos, ele o domina absolutamente.

O puro Ser, preenchendo tudo e além, não é a existência, a qual é limitada. Toda limitação é imaginária, apenas o ilimitado é real.

A pessoa é simplesmente o resultado de um equívoco. Na realidade, não existe tal coisa. Sentimentos, pensamentos e ações desfilam ante o observador em uma sucessão sem fim, deixando traços no cérebro e criando a ilusão da continuidade. Um reflexo do observador na mente cria o sentimento de 'Eu' e a pessoa adquire uma existência aparentemente independente. Na realidade não há pessoa, apenas o observador identificando-se a si mesmo com o 'Eu' e o 'meu'.

Não há etapas para a realização. Não há nada gradual sobre ela. Ela acontece repentinamente e é irrevogável. Você entra em uma nova dimensão, vistas a partir da qual as anteriores são meras abstrações. Assim como no nascer do sol você vê as coisas como elas são, da mesma maneira, na auto-realização você vê tudo como é. O mundo da ilusão é deixado para trás.

Acredite em mim, não há meta, nem maneira de alcançá-la. Você é o caminho e a meta, não há nada mais a alcançar, exceto você mesmo. Tudo o que você necessita é compreender, e compreensão é o florescimento da mente. A árvore é perene, mas a florada e o amadurecimento dos frutos vêm no tempo certo. As estações mudam, mas não a árvore. Você é a árvore. Você teve inumeráveis galhos e folhas no passado, e você ainda os terá no futuro - mas você permanece. Você deve conhecer não o que era, ou virá a ser, mas o que É. Seu é o desejo que cria o universo. Saiba que o mundo é sua própria criação, e seja livre.

A vida em si mesma não tem desejos. Mas o eu falso quer continuar - prazeirosamente. Por essa razão, está sempre trabalhando para garantir a sua continuidade. A vida é destemida e livre. Enquanto você tiver a idéia de estar influenciando os eventos, a libertação não é para você; a própria noção de ser o autor, de ser uma causa, é um laço que prende.
Nisargadatta Maharaj em Seeds of Consciousness

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