29 de novembro de 2013

Compreendendo os Mestres - Leo Hartong



"Só existe um Guru, sempre presente. 

Todo o universo é seu ashram.
Não se precisa de nenhum caminho para se chegar até aqui.
Não é preciso nem se meditar, porque tudo é sagrado. 
Não é preciso encontrar algo, porque nada foi perdido.

Se você chegou até aqui e continua lendo essas palavras, existe uma grande possibilidade que sejas um buscador. Muitos buscadores querem realmente encontrar a verdade, e que esta verdade os irá libertar. 
O fato é que a maioria das vezes já está decidido como deve ser esta verdade. 

Para começar, existe frequentemente a crença de que é algo objetivo que se precisa alcançar. Logo vem a presunção de que existe um caminho que leva à verdade, à liberdade, à iluminação ou à auto-realização, e que este caminho pode ser mostrado ao buscador por um mestre iluminado.

A iluminação se alcança seguindo este caminho, ou ao menos é o que assim se espera.

No mercado espiritual encontramos múltiplos caminhos para escolher, e o buscador normalmente vai às compras até que encontra um caminho que lhe agrade. Meister Eckhart, um místico cristão alemão, que viveu de 1260 a 1328, tem a nos dizer algo interessante sobre estes tipos de caminhos:

"Todo aquele que busca a Deus, seguindo um caminho particular, acabará dominando o caminho e perdendo a Deus, que está escondido no caminho. Porém, todo aquele que busca a Deus, sem seguir nenhum caminho em particular, O encontrará tal como É... e Ele é a vida mesma."

A maioria dos caminhos tem a ver com restrições, disciplinas, e de uma maneira ou de outra, com em ser bom. Não está bem claro, como é possível que restrições e disciplinas possam levar à liberdade, mas de qualquer maneira o buscador crê que ao seguir com diligência o caminho escolhido, seus esforços lhe estão fazendo acumular méritos. Méritos que deveriam qualificá-lo para uma promoção cósmica. Se espera que Deus, (ou quaisquer que sejam os nomes que se dê ao Absoluto), recompense todos estes esforços, seja aparecendo ante o buscador ou concedendo-lhe um grandioso "acontecimento" final em que a verdade lhe será revelada. Esta revelação é, ou terá como resultado, a iluminação. 

A iluminação, neste cenário, é considerada o mais desejável dos estados. Ela deveria libertar o buscador de todos seus problemas vitais, e transformar sua personalidade, produzindo pensamentos puros, boas ações, amor resplandescente e um estado de bem-aventurança eterna.

Normalmente o buscador quer encontrar um mestre que possa proporcionar-lhe esta experiência. Este ser "iluminado" não deve ser só um mestre, mas também ser um santo. A lista de características que os buscadores desejariam encontrar em um guru reflete este fato, já que inclui todo tipo de qualidades, tais como bondoso, compassivo, paciente, ascético, vegetariano, carismático etc. Preferivelmente, o mestre tem os cabelos brancos, vir do Oriente, se vestir com roupas exóticas e ter uma presença que transmita uma certa vibração mágica.(...)

O buscador sincero parece colocar toda sua energia e dedicação em sua busca. Digo, "parece colocar" porque no momento em que se "encontra" o que se estava buscando, se descobre que nunca houve realmente um buscador, que aquilo que parecia ser o buscador, era o que realmente se estava buscando.
É como se brincar de esconde-esconde com sigo mesmo. O buscador e o descobridor, o mestre e o discípulo são todos aparências de um único Ser, do único EU.

Ao encontrar seu verdadeiro mestre, é possível que se sinta emocionalmente abalado; mas na realidade é o EU que se encontra com o EU. Quando se produz uma conexão desse tipo, a força que transmite está tanto no buscador como no mestre. 
É como duas chamas reconhecendo que são o mesmo e único fogo. 
A manifestação desta energia que se dá na interação do discípulo e do mestre é algo como apaixonar-se - ocorre espontaneamente. (...)

Não quer dizer que você precise esperar que isto aconteça. 
Não, o verdadeiro mestre é a vida mesma. 
O convite para ver o Ser, está se realizando neste precioso instante, e a orientação de um mestre formal, mesmo que possa ajudar a muitos, não é realmente necessária. Não existem regras fixas com respeito ao que deveria levar à iluminação. O problema com as noções pré-concebidas sobre o tão desejado santo graal da verdade e sobre o envoltório ao qual este santo graal deve ser entregue é que estas noções impedem que o buscador veja que a liberação que busca, está sempre totalmente presente e instantaneamente disponível. 

Diz Ramana Maharshi: "Não faça nenhum esforço por avançar ou por renunciar; o próprio esforço é uma escravidão."

Ao invés de ver diretamente aquilo que É, o buscador continua esperando um acontecimento de iluminação futura, sem admitir que ela já está - e sempre esteve - em seu verdadeiro lugar, isto é aqui e agora.
Muitas vezes, se tenta imaginar como se deve ser alcançar esta compreensão final, em que Deus e o Universo revelam seus segredos. Ao fazê-lo, negligencia-se a verdade de que sua mente é também uma manifestação deste universo, e como tal, não está capacitada para compreendê-lo. (...)

O abandono de nossas expectativas em benefício de uma disponibilidade para aceitar simplesmente aquilo que É, pode criar um vazio, que poderia ser preenchido com alternativas surpreendentes.

Por exemplo: poderíamos reconhecer que encontrar não provém da busca, e sim que se trata de algo que é revelado quando se abandona a busca; que nossas queridas crenças podem ser desmascaradas e reconhecidas como obstáculos conceituais; que as práticas espirituais podem resultar em serem na verdade uma maneira de evitar uma visão direta do centro mesmo, de todas as coisas. 

Esta visão direta, colocará em evidência a existência de um buscador separado que pensa chegar ao seu "destino-iluminação" em algum momento futuro. Por conseguinte, a busca e o buscador são ambos aniquilados, quando acontece o descobrimento de que aquele que busca e o buscado são ambos a Unicidade acontecendo.

O buscador exausto lhe diria: Abandona sua busca e abandona seus conceitos. Deixa de buscar seu próprio traseiro. Senta e relaxa!
Deixa de se prender a ideias preconcebidas, pode ser que de repente sua atenção abandone o horizonte distante que observas, a espera de um grande acontecimento, e possa revelar a maravilha que existe diante - a atrás - de seus próprios olhos. Ao deixar de se prender, pode acontecer que te abras ao mais improvável dos mestres, e inclusive que já te encontres em sua presença.

Que se torne claro que, a Consciência Pura é tudo o que existe, e que qualquer ideia de um mestre "fora", só existe a partir da perspectiva de um buscador ilusório. 
Daí que, os verdadeiros mestres não se consideram a si mesmos mestres, em absoluto, mas sabem que você se considera um discípulo.Eles te dirão que você é Isto; e quando você responder: "sim, mas..." te repetirão a mesma verdade ou te dirão que relaxe, que sente-se no chão e permaneça em silencio; ou serão eles que ficarão em silencio. 
Digam o que digam, façam o que façam, o mais provável é que os mestres, não sejam como você os havia imaginado.

Você poderia imaginar um mestre proprietário de uma tabacaria, fumante e vivendo em uma grande cidade, em um bairro pobre na periferia? Pois bem, existiu um mestre assim. Este dono de uma tabacaria, que tinha um temperamento efusivo, cuidava de seus filhos e recebia buscadores de todo o mundo. Se comunicava com eles através de intérpretes e tradutores, mesmo que tudo indica que falava inglês. O leitor já pode ter reconhecido Sri Nisargadatta Maharaj, um dos mestres espirituais mais respeitados do século XX. 

Este é um diálogo entre um buscador e Sri Nisargadatta Maharaj:
Buscador: Me disseram que uma pessoa iluminada nunca fará nada de impróprio. Que sempre se comportará de forma exemplar.
Nisargadatta: Quem é que dá exemplo? Por que um iluminado deveria necessariamente seguir as convenções? Quando alguém se torna previsível, já não pode ser livre.

E o que dizer então do discípulo de Sri Nisargadatta Maharaj, Ramesh Balsekar? Um tranquilo pai de família, que recebia em sua própria casa de Mumbai ( não é um ashram ) aos buscadores que vinham vê-lo de todos os cantos do mundo. Ramesh era gerente de banco aposentado, e um mestre iluminado que escreveu sobre o tema da não dualidade e o Advaita. Isto é o que disse um dia sobre seus ensinamentos:

-Se você aprendeu algo aqui, maravilha. Se você não aprendeu nada aqui, maravilha. Se algum tipo de mudança ocorrer por causa disso, deixa que ocorra. Se a compreensão, seja o que nível que for, tiver algum valor alguma importância, ocorrerá por si mesma. Não existe ninguém fazendo nada.

Outro mestre que gostaria de mencionar é o britânico Tony Parsons. Uma pessoa acessível, extraordinária, e amistosa que prefere compartilhar o que ele chama de "A Presença" ao invés de transmitir ensinamentos, de uma posição de autoridade.

Inclusive agora, enquanto escrevo estas palavras, posso escutá-lo dizendo: "Não existe aqui nenhuma pessoa que compartilhe algo. A única que há é a Presença. É dEla que se trata; Ela é Isso, Ela é a Amada." 
Tony nos despoja de todas essas crenças acerca da existência de um acontecimento futuro chamado iluminaçao que alguém deveria perseguir, e nos convida a ver diretamente aquilo que É. Em seu livro As it Is, ele diz:

- Isto é o que se trata, e isto é tudo. Abandona a busca de algo que está por vir e te enamora profundamente da Presença daquilo que É. Aqui mesmo se encontra tudo o que sempre desejou. É simples, comum, atual e majestoso. Vê, já está em seu lugar.

O último mestre que quero apresentar aqui e um que definitivamente não se encaixa no estereótipo de mestre-santo é Wayne Liquorman, autor e editor americano, discípulo de Ramesh Balsekar. 
Wayne nunca quis ocultar o seu passado de alcoólatra. (...) Um dia despertou e a sobriedade lhe veio em um só golpe. Em suas próprias palavras:

- Depois de uma bebedeira de quatro dias, aconteceu em um instante em que tive a certeza absoluta de que esta fase da minha vida havia terminado. É como se tivesse desligado o interruptor. A obsessão havia desaparecido. Não havia falta, nem resistência, nem ter que fazer alguma coisa. Se foi. E o que havia ficado assombrosamente claro é que não havia sido eu que o havia alcançado. E como não havia sido eu que havia feito, a pergunta passou a ser: O que é que me fez isso? Se eu não sou o dono do meu destino, quem é então? Este foi o momento em que meti a cabeça na boca do tigre, as mandíbulas dele se fecharam, e já não havia mais como escapar. Me converti em um buscador.

Se você encontrar Wayne hoje em dia, encontrará um homem grande, com um grande sorriso, e um grande senso de humor. Em seu livro Acceptance of what Is, ele nos diz o seguinte sobre os buscadores que o procuram:

- Muitos vem me ver, e se lhes digo algo que se encaixa com o que sabem ou que creem que seja a verdade, dizem: "Este cara realmente sabe o que está falando. É um grande cara!" ( risos) E se o que digo não se encaixa com o que sabem ou que creem que seja a verdade, dizem: "Este cara não tem nenhuma ideia do que está dizendo." E vão embora.

Estes mestres pouco convencionais não são exclusivos dos nossos tempos. Como encontramos em um poema atribuído a Shankara, filósofo hindu do século VIII, considerado o pai do Advaita Vedanta:

Por vezes nus
Por vezes loucos
Por vezes como eruditos
Por vezes como ignorantes
Assim aparecem sobre a terra
Os homens livres!

Quando lemos sobre os mestres antigos do Zen, do Taoismo, nós podemos encontrar alguns tipos bastante rudes. Alguns deles esbofeteavam seus discípulos, se embebedavam, balançavam seu bastão e inclusive eram capazes de tirar do templo uma estátua de madeira do Buda para fazer uma fogueira com ela em uma noite fria. 
Isto não quer dizer que os mestres "patifes" sejam os únicos mestres verdadeiros, e que isto não seria nada além de um outro estereótipo que os mestres deveriam seguir. Nem quer dizer que um mestre não possa ser santo, porém não necessite sê-lo - um mestre pode ser um soldado, uma dona de casa ou um homem de negócios. 

Se se abandonam as expectativas com respeito a verdade, e também aquilo que se "sabe", pode-se encontrar um inesperado tesouro no próprio quintal de casa. Aceitar que os mestres são simples seres humanos e não super-homens, faz com que seja mais fácil aceitar a si mesmo, como você é. 
Ajuda a reduzir as expectativas pouco realistas que se tem a cerca dos mestres e a cerca daquilo que cremos em que devemos nos converter. 

Sua verdade, e sua liberdade se encontram no caminho que segues agora mesmo, se encontram na aceitação daquilo que És.

Rumi disse: Não te fixes em minha forma externa, simplesmente toma o que está em minha mão.

Assim, eu lhe pergunto: O que estamos oferecendo aqui? O que é exatamente que está na mão? É algo que podemos perceber, receber e agarrar, ou ao menos algo que possamos compreender?"
Leo Hartong em Despertar a la Verdad: El don de vivir con lucidez

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