18 de novembro de 2013

Autoconhecimento - Osho


"O autoconhecimento é uma contradição em termos. Quando ele realmente acontece, não há eu nem há conhecimento. Se o eu estiver ali, ele não pode acontecer. Se o conhecimento estiver ali, ele não aconteceu. ara isso, algumas preliminares têm de ser entendidas.

Em primeiro lugar, para que o autoconhecimento ocorra o eu não pode estar presente. Você tem de esquecer tudo relacionado ao seu ego. Precisa estar em um estado de ausência do ego.

Em segundo lugar, você tem de esquecer tudo sobre conhecimento também. Se você estiver continuamente desejando saber, esse próprio desejo vai impedi-lo de saber. A existência só se revela àqueles que não estão desejando nada, que não estão aspirando a nada - nem mesmo a conhecer Deus. Os mistérios só são revelados àqueles que simlesmente esperam, que não fazem exigências. Eles esperam com os olhos abertos, esperam com o coração aberto, mas sem exigências.

Sua exigência é basicamente orientada pelo ego. Por que você quer saber? Porque o conhecimento lhe proporciona poder. Tente entender isso. Conhecimento é poder. Quanto mais você sabe, mais poderoso se torna. O ego está sempre interessado em se tornar instruído. Se você tem conhecimentos sobre a natureza, torna-se poderoso em relação à natureza. Se você tem conhecimento sobre as pessoas, torna-se poderoso em relação às pessoas. Se você tem conhecimentos sobre sua própria mente, torna-se poderoso em relação à sua própria mente. Se você tem conhecimento sobre Deus, vai se tornar poderoso em relação a Deus. 

Bem no fundo, a busca de conhecimento é , na verdade, a busca de poder. E como você pode ser poderoso em relação à realidade? A própria ideia é ridícula. Permita que a realidade tenha poder sobre você...relaxe. E permita que a realidade tome posse de você, em vez de você tomar posse da realidade.

Para estar realmente em um estado de autoconhecimento, a pessoa tem de esquecer o eu e esquecer toda investigação relacionada ao autoconhecimento. Então, ele acontece! Só assim ele acontece.

Há três esforços em toda a história da consciência humana no que se refere ao autoconhecimento.
O primeiro esforço é o do realista. O realista nega o eu interior; ele diz que não há eu interior, não há sujeito; só o objeto existe, a coisa, a matéria, o mundo. Essa é sua maneira de evitar a jornada para dentro de si. A jornada de si é perigosa. A pessoa terá de perder tudo! O autoconhecimento e tudo o mais, as raízes e tudo o mais - a pessoa terá de perder tudo. O realista não pode correr este risco. Então ele encontra uma explicação: Ele diz: "Não há alma. Não há eu interior. Tudo o que existe no mundo são objetos." Então ele fica preocupado em conhecer os objetos. Ele esquece a subjetividade e passa a se ocupar da objetividade. É isso que a ciência vem fazendo há 300 anos. É uma maneira de fugir de si mesmo.

A segunda maneira é aquela do idealista, que diz que não há objeto; o mundo é maya, ilusão. Não há nada a conhecer lá fora; ele simplesmente fecha os olhos e vai para dentro de si. Só o conhecedor é verdadeiro - o conhecido é falso. O realista diz que apenas o conhecido é verdadeiro e o conhecedor é falso; o idealista diz que apenas o conhecedor é verdadeiro e o conhecido é falso. Veja o absurdo disso - como pode haver um conhecedor se não houver conhecido? E como pode haver um conhecido se não houver conhecedor?

Assim, o idealista e o realista está apenas escolhendo uma metade da realidade. Quanto à outra metade, eles são temerosos. O realista teme ir para dentro de si, porque ir para dentro de si significa penetrar no vazio, no total vazio. É cair em um poço sem fundo, em um abismo...imprevisível. Onde ele vai parar ninguém sabe, nem sequer se vai parar em algum lugar.

O realista teme o conhecedor e por isso o nega. Por medo ele diz que não existe: "Todo meu interesse é no conhecido, no objeto". E o idealista teme o objeto, o mundo, os encantamentos do mundo, a magia do mundo. Ele teme se perder nos desejos e nas paixões. Teme ficar envolvido em coisas - dinheiro, poder, prestígio. Tem tanto medo que diz: " Tudo é sonho. O mundo que está lá fora não é real. O mundo real é o mundo interior".
Mas ambos está sendo meio verdadeiros.(...)

E há a terceira maneira: a maneira do místico. Ele aceita ambas e rejeita ambas. Essa é minha maneira de ser. Ele aceita ambas porque diz: " Em um plano existem os dois - o conhecedor e o conhecido, o sujeito e o objeto, o interior e o exterior. Mas no outro plano, ambos desaparecem e só um permanece - que não é nem o conhecido nem o conhecedor."

A abordagem do místico é total. (...) Em um nível ambas abordagens estão corretas. Quando você está sonhando, o sonho é verdadeiro e o sonhador é verdadeiro. Agora o sonhador se foi e o sonho se foi - ambos se foram. Agora você está acordado. Agora você está existindo em um nível de consciência totalmente diferente.

O mundo é verdadeiro e o ego é verdadeiro quando a pessoa é ignorante inconsciente, alheia. Quando a pessoa se torna consciente, quando o estado búdico acontece, então não há o mundo nem o ego - ambos desapareceram. Mas "ambos desapareceram" não significa que nada tenha restado: ambos desapareceram um dentro do outro. Só um restou agora - não restaram dois. O conhecedor e o conhecido tornaram-se um só. 

Essa unidade é o que realmente significa autoconhecimento. Mas a palavra não é correta. Nenhuma palavra pode ser correta. Com relação às grande experiências que vão além da dualidade, nenhuma palavra pode ser correta.(...)

O terceiro método, o método do místico, é uma transcendência dos outros dois métodos. Ele não nega a realidade ao objeto, ele não nega a realidade ao sujeito - ele aceita a realidade de ambos. Ele as une.

Esse é o significado da famosa declaração dos Upanishads tat twam asi - tu és isso. Essa é uma fusão das duas esferas. Nessa fusão, o autoconhecimento acontece. O eu desaparece, o conhecimento desaparece - tudo fica claro. Não há ninguém para quem aquilo seja claro, e não há algo a ficar claro - mas tudo fica claro. Resta só a clareza, a claridade.
Isso é chamado pelos budistas de a terra de lótus de Buda.

Tudo é claro e fragrante, é belo e harmonioso. Então o esplendor abre suas portas.
O conhecimento é um fato seco, morto - não é a experiência úmida. E a experiência não é conhecimento, mas saber. Por isso Krishnamurti sempre usa a palavra "experienciar" em vez de "experiência". Ele está certo. Ele transforma o substantivo em verbo e o chama de experienciar. Lembre-se disso sempre: transforme os substantivos em verbos e você estará mais próximo da realidade.(...)

Se você conseguir entender que toda a vida é um verbo, não um substantivo, haverá um grande entendimento acompanhando-o.
Não há eu e não há o outro.(...)

O autoconhecimento é de grande importância. Nada mais é importante do que isso. Mas lembre-se destas duas ciladas: uma é negar a subjetividade e se tornar um realista; outra é negar a objetividade e se tornar um idealista. Evite essas duas ciladas. Ande exatamente no meio. E então você será surpreendido - o eu desapareceu, o conhecimento desapareceu. Mas então chega o saber. A grande luz desce e é uma luz que não apenas transforma você, como transforma todo o seu mundo.

Buda teria dito: "No momento em que me tornei iluminado, toda a existência se tornou iluminada para mim". 
Isso é verdade. Sou testemunha disso. É exatamente assim que acontece. Quando você se torna iluminado, toda a existência se torna repleta de luz e permanece repleta de luz.
Até a escuridão se torna luminosa, até mesmo a morte se torna uma nova maneira de viver."
Osho em Inocência, conhecimento e encantamento.

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