17 de novembro de 2013

Buda com cara de sol, Buda com cara de lua...


"Deter sua mente não quer dizer parar as atividades da mente. Quer dizer que sua mente impregna todo seu corpo. Com essa mente plena você forma o mudra com as mãos."

Nós dizemos que nossa prática deve ser feita sem idéia de ganho, sem nenhuma expectativa, nem sequer de iluminação. Todavia, isso não
significa sentar-se sem propósito algum. Essa forma de praticar, isenta de idéia de ganho, é baseada no Prajna Paramita Sutra .

No entanto, se você não tomar cuidado, o próprio Sutra lhe dará uma idéia de ganho. 

Ele diz: "Forma é vazio e vazio é forma". Mas se você se apegar a tal afirmação, estará sujeito a se envolver em idéias dualistas: em um lado está você, forma; em outro, o vazio que você está procurando perceber através de sua própria forma. 

Logo, "forma é vazio e vazio é forma", ainda é dualismo. 

Felizmente, nosso ensinamento prossegue afirmando: "Forma é forma e vazio é vazio". Aqui não há dualismo.

Durante o zazen, quando você tem dificuldade em deter a mente e, apesar disso, continua tentando pará-la, significa que você está no
estágio de "forma é vazio e vazio é forma". 

Contudo, essa forma dualista de prática o conduzirá a uma progressiva unidade com seu objetivo. E quando sua prática se realizar sem nenhum esforço, você poderá deter sua mente. Essa é a fase de "forma é forma e vazio é vazio".

Deter sua mente não quer dizer parar as atividades da mente. Quer dizer que sua mente impregna todo seu corpo. 
Sua mente segue a respiração. 
Com essa mente plena você forma o mudra com as mãos. Com essa mente total você se senta com as pernas doloridas, sem se deixar perturbar por elas. Isso é sentar- se sem nenhuma idéia de ganho. No início, pode se sentir tolhi- do em sua postura, mas quando não se deixar perturbar por essa limitação, você terá encontrado o significado de "vazio é vazio e forma é forma". 

Portanto, encontrar seu próprio caminho em meio às restrições é o caminho da prática.

Prática não quer dizer que qualquer coisa que você faça, até mesmo ficar deitado, seja zazen. 

Prática é quando as restrições não o limitam. Se você diz "qualquer coisa que eu faça é de natureza búdica, portanto, não importa o que eu faça e, assim, não há necessidade de praticar zazen", isto já é um entendimento dualista da nossa vida diária. 

Se de fato não importasse, nem sequer haveria necessidade de o dizer. Enquanto importar aqui- lo que se faz, haverá dualismo. Se você não estivesse realmente se importando com aquilo que está fazendo, não o mencionaria.

 Ao sentar-se estará simplesmente sentando-se, nada mais. Ao comer estará apenas comendo. É só isso. Se você diz "não tem importância", significa que está se justificando por fazer uma coisa à maneira da mente pequena. Significa que você está apegado a alguma idéia ou coisa em particular. Não é isso o que queremos dizer com "basta apenas sentar-se" ou "qualquer coisa que você faça é zazen". Certamente, qualquer coisa que façamos é zazen, mas, se de fato é, não há necessidade de o dizer.

Ao sentar-se você deve simplesmente sentar-se, sem se deixar perturbar pela dor nas pernas ou pelo sono. Isso é zazen. Mas no começo é
muito difícil aceitar as coisas como elas são. Você fica incomodado com o que sente durante sua prática. 

"Forma é forma e vazio é vazio" quer dizer ser capaz de fazer todas as coisas, sejam boas ou más, sem se perturbar ou aborrecer com seu sentir.

Quando alguém sofre de uma doença como o câncer e se dá conta de que não viverá mais do que dois ou três anos, e passa a procurar algo
em que se apoiar, pode começar a praticar. Uma pessoa poderá se apoiar na ajuda de Deus. Outra, começar a praticar zazen. Neste caso, a prática se concentrará em obter o vazio da mente. O que significa que a pessoa estará tentando se livrar do sofrimento da dualidade. 

Essa é a prática de "forma é vazio e vazio é forma". Por causa da realidade do vazio é que a pessoa quer ter essa experiência em sua vida. Praticar dessa maneira, acreditando e esforçando-se, a ajudará, mas não é a prática perfeita.

Sabendo que a vida é curta, aproveitá-la cada dia, cada hora, cada minuto é a vida de "forma é forma e vazio é vazio". 

Quando o Buda aparecer, você o receberá. Quando o diabo aparecer, você o receberá. 

O famoso mestre Zen chinês Ummon dizia: "Buda com cara de sol" e "Buda com cara de lua". 

Quando estava doente e alguém lhe perguntava "como está você?", ele respondia: "Buda com cara de sol e Buda com cara de lua". Essa é a vida de "forma é forma e vazio é vazio". Não há problema. Um ano de vida é bom. Cem anos de vida também são. Se persistir na sua prática, você alcançará esse estágio.

No início terá alguns problemas e precisará de esforço para continuar a prática. Para o principiante, prática sem esforço não é
verdadeira prática. Para ele, a prática requer um grande esforço. Principalmente para os jovens, é necessário muito esforço para conseguir alguma coisa. Você deve esticar pernas e braços o máximo possível. 

Forma é forma. Você tem de ser fiel ao seu próprio caminho até, por fim, chegar ao ponto de ver que é necessário esquecer tudo sobre você mesmo. Até chegar a esse ponto, é errado pensar que tudo o que fizer é Zen ou que não impor- ta se você pratica ou não. Mas, se você puser seu melhor esforço em continuar a prática, com todo seu corpo e sua mente, sem nenhuma idéia de ganho, então, seja o que for que esteja fazendo, será prática verdadeira. Seu propósito deve ser o de manter a continuidade. 

Ao fazer algo, apenas fazê-lo deve ser seu único propósito. 
Forma é forma e você é você, e a realidade do vazio será alcançada em sua prática."
Shunryu Suzuki em Mente Zen - Mente de principiante

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