4 de novembro de 2011

A Vacuidade natural do Zazen...


"Para uma planta ou uma pedra, ser natural não é problema. Mas, para nós, há algum problema; de fato, um grande problema. Ser natural é algo pelo qual temos que trabalhar. Quando o que você faz emerge do nada, você experimenta um sentimento inteiramente novo. Por exemplo: naturalidade é comer quando se está com fome. Você se sente natural ao fazê-lo. Mas, quando se tem expectativas demais, comer algo não é natural. Você não tem um sentimento novo. Você não o aprecia.

A verdadeira prática do Zazen é sentar-se tal como se toma água quando se tem sede. Aí está a naturalidade. É muito natural dormir a sesta quando se tem sono. Mas dormir a sesta por preguiça, como se isso fosse um privilégio do ser humano, não é natural. Você pensa: "Todos os meus amigos estão dormindo a sesta; por que não eu? Se ninguém mais está trabalhando, por que vou dar duro? Se eles têm muito dinheiro, por que não eu?" Isto não é naturalidade. Sua mente está enredada com alguma outra idéia, ou com a idéia de outrem, e você não é independente, não é você mesmo, não é natural. Embora esteja sentado na posição de lótus, se seu zazen não é natural, a prática não é verdadeira. Você não tem de se esforçar para beber água quando está com sede: você fica contente ao bebê-la. Se você experimenta uma genuína alegria no seu zazen, seu zazen é verdadeiro. Mas, ainda que você tenha que se forçar para praticar Zazen, quando sente algo bom em sua prática, isso é Zazen. Na verdade, não se trata de forçar ou não alguma coisa em você. Mesmo que tenha dificuldade, se seu desejo é realmente sincero, isso é naturalidade.

Esta naturalidade é muito difícil de explicar. Mas, se em sua prática você é capaz de apenas sentar e experimentar a realidade do nada, não há necessidade de explicações. Qualquer coisa que você faça, se emerge do nada, é natural e essa é a verdadeira atividade. Nela você encontra a genuína alegria da prática, a verdadeira alegria de viver. Cada um de nós vem do nada, a cada momento. Instante após instante temos verdadeira alegria de viver. Por isso dizemos: Shin ku myo u, "da verdadeira vacuidade emerge o ser maravilhoso". Shin é "verdadeiro"; ku, "vacuidade"; myo "maravilhoso"; u, "ser": da verdadeira vacuidade, o ser maravilhoso.

Sem o nada, não há naturalidade - nenhum ser verdadeiro. O verdadeiro ser emerge do nada a cada momento. O nada sempre está lá e dele emerge tudo. Mas, geralmente, você se esquece por completo do nada e se comporta como se possuísse algo. O que você faz está fundado em alguma idéia de posse, ou em alguma idéia determinada, e isso não é natural. Por exemplo, ao ouvir uma palestra, você não deve ter nenhuma idéia em mente. Não deve ter idéias próprias quando ouve uma pessoa. Esqueça o que tem em mente e apenas escute o que ela está dizendo. Não ter nada em sua mente é naturalidade. Desse modo, você compreende o que está sendo dito. Porém, se tem alguma idéia para comparar com o que está sendo dito, você não ouvirá tudo; sua compreensão será parcial; isso não é naturalidade. Ao fazer algo, você deve estar completamente empenhado em sua tarefa. Tem de entregar-se completamente a ela. Assim, você não possui nada. Concluindo, se não há verdadeira vacuidade em sua atividade, ela não é natural.

A maioria das pessoas insiste em certas idéias. Ultimamente, a nova geração vem falando de amor. Amor! Amor! Amor! Suas mentes estão cheias de amor! E ao estudarem Zen, se o que digo discorda da idéia que fazem do amor, não o aceitam. Eles são bastante teimosos, vocês sabem. Claro que nem todos, mas alguns são muito inflexíveis.

Isso não é naturalidade de modo algum. Embora falem de amor, liberdade ou naturalidade, eles não compreendem essas coisas. E, consequentemente, não podem compreender o que, nesse sentido, é o Zen. Se você quer estudar Zen, esqueça toda e qualquer idéia preconcebida; apenas pratique Zazen e veja que tipo de experiência você tem em sua prática. Isso é naturalidade.

Esta atitude é necessária em qualquer coisa que você faça. Algumas vezes dizemos: nyu nan shin, "mente suave ou flexível". Nyu é "sentimento suave"; nan, "algo não rígido"; shin é "mente". Nyu nan shin significa, pois, uma mente suave, natural. Quando você tem essa mente, tem alegria de viver. Quando você a perde, perde tudo. Você nada tem. Embora pense que tem algo, nada possui. Mas, quando o que faz emerge do nada, então você tem tudo. Eis o que entendemos por naturalidade.

"Quando você estuda budismo, deve fazer uma 'faxina geral na casa' de sua mente."

Se você quer compreender o budismo, é necessário que deixe de lado todas as idéias preconcebidas. Para começar, abandone toda idéia de substancialidade ou de existência. A noção comum da vida está firmemente enraizada na idéia de existência. Para a maioria das pessoas, todas as coisas existem; pensam que tudo que vêem e ouvem existe. É claro, o pássaro que vemos e ouvimos existe. Ele existe, mas o que eu quero dizer com isto pode não ser exatamente o que você quer dizer. A compreensão budista da vida inclui tanto a existência como a não-existência. O pássaro existe e não existe ao mesmo tempo. Dizemos que uma visão da vida fundada somente na existência é herética. Se você toma as coisas muito a sério, como se existissem substancial e permanentemente, você é considerado um herético. Talvez a maior parte das pessoas seja herética.

Dizemos que a verdadeira existência emerge da vacuidade e retorna à vacuidade. O que emerge do vazio é verdadeira existência. Devemos atravessar o portal do vazio. Tal idéia de existência é muito difícil de explicar. Hoje em dia, muitas pessoas já começaram a sentir, ao menos intelectualmente, o vazio do mundo moderno ou a contradição interna da sua cultura. No passado, por exemplo, o povo japonês tinha uma firme confiança na existência permanente de sua cultura e no seu tradicional modo de viver, mas desde que perdeu a guerra tornou-se muito cético. Muitos acham horrível essa atitude cética, mas na verdade é melhor do que a velha atitude.

Enquanto tivermos alguma idéia definida ou alguma esperança acerca do futuro, não podemos levar realmente em consideração o momento que existe agora mesmo. Você pode dizer: "Posso fazer isto amanhã ou no próximo ano", acreditando que o que existe hoje existirá amanhã. Ainda que não esteja se esforçando muito, você espera que algo promissor aconteça, desde que siga determinada trajetória. Mas, não há trajetória que exista permanentemente. Não há uma trajetória estabelecida para nós. A cada novo momento, temos de encontrar nossa própria trajetória. Qualquer idéia de perfeição, ou de trajetória perfeita estabelecida por outrem, não é o verdadeiro caminho para nós.

Cada um de nós deve fazer seu próprio caminho e, quando o fazemos, esse caminho expressa o caminho universal. Eis o mistério. Quando você compreende uma coisa em profundidade, compreende tudo. Mas quando você tenta entender tudo, não entende nada. O melhor é compreender a si mesmo; então você compreenderá tudo. Assim, ao se empenhar em realizar seu próprio caminho, você ajudará outros e será ajudado por outros. Antes de construir seu próprio caminho, você não pode ajudar ninguém e ninguém pode ajudá-lo. Para sermos independentes nesse sentido verdadeiro, temos que deixar de lado tudo o que temos em mente e descobrir algo novo e distinto, momento após momento. É assim que se deve viver neste mundo.

Por isto dizemos que a verdadeira compreensão emerge do vazio. Quando você estuda budismo, você deve fazer uma "faxina geral na casa" de sua mente. Deve retirar todas as coisas de seu quarto e limpá-lo completamente. Se forem necessárias, recoloque- as no lugar. Você pode querer muitas coisas; nesse caso, traga-as uma a uma de volta. Mas, se não forem necessárias, não há por que guardá-las.

Quando vemos um pássaro voando, às vezes enxergamos sua trajetória. Na realidade, não podemos ver a trajetória de um pássaro voando, mas algumas vezes sentimos como se pudéssemos. Isso também é bom. Se necessárias, você deve trazer de volta as coisas que tirou do seu quarto. Mas, antes de acrescentar alguma outra coisa, precisa tirar algo; caso contrário, o quarto ficará entulhado de trastes velhos e inúteis.

Dizemos: "Passo a passo faço cessar o som do riacho murmurante". Ao caminhar ao longo de um riacho, você ouve a água correndo. O som é contínuo, mas você deve ser capaz de fazê-lo cessar, caso o deseje. Isso é liberdade; isso é renúncia. Você tem vários pensamentos na mente, um após outro, mas, se quiser parar seu pensamento, você pode. Assim, quando for capaz de deter o som do riacho murmurante, você apreciará a sensação do próprio esforço. Mas, enquanto tiver idéias fixas, ou estiver preso a alguma forma habitual de fazer as coisas, você não pode apreciar as coisas em seu verdadeiro sentido.

Se você procura liberdade, não pode encontrá-la. A própria liberdade absoluta é necessária para se obter absoluta liberdade. Esta é a nossa prática. Nosso caminho não é ir sempre na mesma direção. Algumas vezes, vamos para o leste, outras para o oeste. Avançar uma milha para o oeste significa retroceder uma milha do leste. Em geral, andar uma milha para o leste é o oposto de andar uma milha para o oeste. Mas, se é possível andar uma milha para o leste, significa que é possível andar uma milha para o oeste. Isso é liberdade. Sem essa liberdade, você não pode se concentrar no que faz. Você pode acreditar que está concentrado em alguma coisa, mas, até que não obtenha tal liberdade, não estará inteiramente à vontade naquilo que faz. É por você estar preso a alguma idéia de ir para o leste ou oeste que sua atividade está em dicotomia ou dualidade. Enquanto estiver sujeito à dualidade, você não pode atingir nem a liberdade absoluta nem se concentrar.

Concentração não é se esforçar para observar algo. No Zazen, se você procura olhar para um ponto ficará cansado em cinco minutos. Isso não é concentração. Concentração significa liberdade. Portanto, seu esforço deveria ser dirigido ao nada. Você deve se concentrar no nada. Na prática do Zazen, dizemos que sua mente tem de estar concentrada na sua respiração, mas a maneira de manter sua mente na respiração é esquecer tudo a respeito de você mesmo e apenas sentar-se, percebendo sua respiração. Concentrando-se na respiração, você esquecerá a si próprio, e esquecendo-se de si mesmo, se concentrará na respiração. Não sei o que vem primeiro. Na verdade, não há necessidade de se esforçar muito para se concentrar na respiração. Simplesmente, faça o que lhe for possível. Se continuar essa prática, você experimentará a verdadeira existência que emerge da vacuidade."
Shunriu Suzuki - Mente Zen, Mente de Principiante

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